|
No dia 27 de setembro de 1939, Varsóvia se entrega
aos alemães, depois de ser bombardeada implacavelmente pela Luftwaffe. A
campanha da Polônia chega assim ao fim. Na tarde desse dia, aterrissa no
aeroporto de Moscou, um gigantesco quadrimotor Condor. Ao abrir-se a porta do
aparelho aparece, sorridente, o ministro das Relações Exteriores do Reich,
Joachim von Ribbentrop. Um grupo de funcionários soviéticos lhe apresenta a
cordial boa-vinda. Imediatamente, o ministro sobe em um automóvel e parte a
toda velocidade até o Kremlin, onde o aguardam Stalin e Molotov, para
concluírem as negociações de repartição da Polônia. A conferência no Kremlin se prolonga até altas
horas da noite. Ao finalizar a reunião, Ribbentrop se dirige à embaixada
alemã e envia um telegrama a Hitler, comunicando-lhe as pretensões
soviéticas. Stalin está decidido a se apossar das nações bálticas, Estônia,
Letônia e Lituânia, para criar um cordão defensivo em torno das fronteiras
ocidentais da URSS. Em contrapartida, oferece à Alemanha parte dos
territórios que lhe couberam com a repartição da Polônia, em troca da
Lituânia. A Estônia já acedera, sob ameaça de invasão, a entregar à Rússia
bases aéreas e militares. A 28 de setembro Hitler responde a Ribbentrop,
comunicando-lhe que aceita a troca proposta por Stalin e, além disso, já
ordenara a evacuação dos alemães residentes na Estônia, Letônia e Lituânia.
Dessa maneira, dá caminho livre à expansão russa sobre as costas do Mar
Báltico. Uma vez obtida a aprovação de Hitler às exigências
soviéticas, Ribbentrop conclui rapidamente as negociações. Na madrugada de 29
de setembro firma com Molotov, um tratado de amizade e limites. Uma cláusula
secreta determina a definitiva supressão da Polônia e das nações bálticas
como Estados independentes. Chega agora a vez da Finlândia. Stalin,
valendo-se do apoio alemão, resolve exigir-lhe também a entrega de bases e
territórios. A Finlândia se opõe às exigências russas No dia 5 de outubro de 1939, Molotov entra em
contato com o Governo finlandês e o convida para mandar delegados à Moscou,
para realizar uma “troca de idéias sobre questões políticas”. Uma semana
depois, chega a Moscou a delegação finlandesa, presidida por Juho Kusti
Paasikivi. Molotov propôs-lhe, então, a assinatura de um pacto de ajuda
mútua, semelhante ao que a URSS concertara com os países bálticos. O tratado
eqüivaleria, de fato, a estabelecer um protetorado soviético sobre a
Finlândia. A resposta foi negativa. Dois dias depois, Molotov apresenta a
Paasikivi as exigências soviéticas. O documento era um verdadeiro ultimato. A URSS reclamava da Finlândia a cessão em
“arrendamento” do estratégico porto de Hango, situado na entrada do Golfo da
Finlândia, a fim de estabelecer uma base aeronaval. Exigia a entrega de uma
série de ilhas naquele golfo e de extensa faixa de terra no istmo da Carélia.
Em compensação, os soviéticos dispunham-se a entregar à Finlândia alguns
quilômetros de terras desertas ao norte do Lago Ladoga e a autorizar a
fortificação das ilhas Aland, situadas no Golfo de Bótnia. Profundamente alarmado, Paasikivi retornou
imediatamente a Helsinki. Ao terminar a leitura do ultimato, o
primeiro-ministro Aino Cajander ordenou a mobilização de 200 mil reservistas.
A delegação finlandesa regressou imediatamente a Moscou e entrega a Molotov a
resposta de Cajander. A Finlândia aceitava a cessão de algumas ilhas e a
retificação de fronteiras no Istmo da Carélia, mas rechaçava a entrega do
porto de Hango. Molotov então decidiu, encerrar imediatamente as negociações.
As tropas do Exército Vermelho já se achavam dispostas na fronteira com a
Finlândia, prontas para entrar em ação. Ante o fracasso da sua missão, Paasikivi abandonou
definitivamente a Capital russa, a 13 de novembro. A partir daí, a guerra se
fez inevitável. |
|
O incidente em Mainila Na tarde de 26 de novembro, o embaixador finlandês
entrou apressadamente no gabinete de Molotov. O ministro soviético saudou-o
friamente e entregou uma nota, com a denúncia de um incidente que acabava de
ocorrer na fronteira. De acordo com a informação, as tropas finlandesas
dispararam vários canhonaços sobre o povoado russo de Mainila, no istmo da
Carélia, causando a morte de um grupo de soldados russos. Molotov, em tom ameaçador, disse ao embaixador
que, embora o seu Governo não pretendesse exagerar a importância do fato
exigia que a Finlândia retirasse todas as suas forças a uma distância de 25km
da fronteira, a fim de evitar novas provocações. Dois dias depois, a 28 de novembro, chega a Moscou
a resposta do Governo de Helsinki, informando que, de acordo com as
investigações realizadas, pôde-se comprovar que os disparos não foram efetuados
por tropas finlandesas, mas por canhões “não identificados” e localizados
dentro do território soviético. Por conseqüência, a Finlândia só concordaria
em retirar as suas forças da fronteira se os russos também o fizessem.
Molotov, sem se perturbar pela velada acusação, rechaçou a nota finlandesa e
no dia seguinte denunciou o pacto de não agressão firmado entre a URSS e a
Finlândia em 1932. Nada mais evitaria o conflito. Na manhã de 30 de novembro, o embaixador finlandês
foi chamado urgentemente ao
Comissariado de Relações Exteriores, onde um funcionário lhe comunicou a
ruptura das relações diplomáticas com o seu país. No mesmo instante, Molotov
dirigia uma mensagem radiofônica ao povo soviético, anunciando o inicio das
hostilidades. A distribuição das forças Durante os meses de verão que precederam o ataque,
o general Timoshenko, comandante-chefe das forças soviéticas, concentrara os
efetivos de quatro poderosos exércitos sobre as extensas fronteiras da
Finlândia. Pôde completar sem dificuldades a manobra, utilizando a ferrovia
Leningrado-Murmansk nas costas do Ártico. Ao longo desta ferrovia concentrou
provisões que serviriam para abastecer as tropas russas destacadas nas
desérticas e geladas regiões do norte da Finlândia. O plano de operações russo foi habilmente
concebido. O 7° Exército teria a ação decisiva da campanha na região do istmo
da Carélia. Para isto, tinha o grosso das tropas: 11 divisões de infantaria,
1 corpo motorizado e 3 brigadas de tanques. Sua missão era atacar
frontalmente a linha Mannerheim, cujas fortificações se estendiam através do
Istmo da Carélia, das costas do Golfo da Finlândia às margens do Lago Ladoga.
Rompidas as defesas finlandesas, o 7° Exército conquistaria Helsinki e as
ricas regiões do sul da Finlândia. Ao norte do lago Ladoga, outro exército, o
8°, composto de seis divisões de infantaria, apoiaria a ação das forças
russas no Istmo da Carélia. A sua missão seria avançar ao sul e atacar pela
retaguarda as divisões finlandeses que defendiam a linha Mannerheim. Frente à região central da Finlândia, estava
colocado o 9° Exército, composto de 6 divisões de infantaria e 1 brigada
blindada. Avançaria para o oeste, cortando o país em dois e ocuparia os
portos de Tornea e Oulu, no golfo de Bótnia. Desta maneira, os finlandeses
teriam cortadas as comunicações com a Suécia e a Noruega, principais fontes
de abastecimento para os seus exércitos. Ao norte, nas costas do Ártico, o
14° Exército, integrado por 3 divisões de infantaria e fortes unidades
blindadas, ocuparia o porto de Petsamo, para evitar um eventual desembarque
de um exército auxiliar franco-inglês. Depois, destacaria uma de suas
divisões apoiada por tanques para ajudar no ataque do 9° Exército. Assim, a
Finlândia atacada simultaneamente pelo norte, centro e sul ver-se-ia obrigada
a dispersar as suas reduzidas forças numa frente de 1.400 km de extensão. O Exército finlandês contava apenas com 12
divisões de infantaria, poucos tanques obsoletos e 170 aviões. Sua única
vantagem era combater no seu próprio território agreste com milhares de
lagos, imensos bosques e extensos pântanos. Os soldados finlandeses
valendo-se de esquis, se deslocavam com facilidade sobre a neve que, nos
meses de inverno, cobria todo o país. Essa extraordinária mobilidade haveria
de constituir-se uma das principais causas de suas surpreendentes vitórias
sobre os russos. Ao iniciar-se as hostilidades, o marechal
Mannerheim, pai da independência finlandesa, assumiu a chefia das forças
armadas. O veterano chefe adotou um inteligente plano para enfrentar o ataque
soviético. Sabia que a principal ameaça residia na ruptura russa através das
fortificações do istmo da Carélia. Como conseqüência, concentrou ali o grosso
de suas forças: 5 divisões de infantaria, apoiadas, pela retaguarda por uma
divisão de reserva. Comandava esse
grupamento o general Oestermann. O exército do istmo, entrincheirado na Linha
Mannerheim, devia manter-se firme em suas posições, para impedir a irrupção
dos soviéticos sobre os territórios do sul da Finlândia, onde se encontravam
concentradas as principais cidades e indústrias do país. Ao norte do lago
Ladoga, e para impedir um ataque pela retaguarda das forças de Oestermann
foram postas duas divisões de infantaria. Para cobrir as extensas fronteiras
orientais, Mannerheim só contava no inicio da guerra com seis batalhões de
infantaria. A Batalha do Istmo Às 7 horas de 30 de novembro de 1939, os russos
lançam as suas forças ao ataque. Mais de meio milhões de soldados, apoiados
por milhares de tanques e aviões, cruzaram a fronteira, confiados em que
conseguiriam aniquilar em poucos dias das tropas de Mannerheim. Os
finlandeses, entretanto, oporiam encarniçada resistência e assombrariam o
mundo ao obter uma série de brilhantes vitórias sobre os poderosos exércitos
russos. Segundo o planejado, o ataque principal russo foi
no istmo da Carélia. Após vencer as forças da vanguarda finlandesa e
ultrapassar campos minados e os obstáculos interpostos no seu caminho, as
divisões russas colocaram-se frente às fortificações da linha Mannerheim.
Esta ocupava uma extensão de 25 km e se apoiava nas margens de três grandes
lagos: Muola, Vuoski e Suvanto. Contava com 90 grandes casamatas de cimento
armado, unidas por uma intrincada rede de trincheiras, redutos, ninhos de
metralhadoras e refúgios escavados em terra e reforçados com grossos troncos.
Possuía um extenso e profundo cordão defensivo formado de fossos antitanques,
campos minados e redes de arame farpado. No dia 6 de dezembro, o 8° Exército russo começou
o ataque com uma série de operações ao longo de toda a linha para
reconhecimento dos pontos fracos da defesa. Finalmente, Timoshenko decidiu
lançar uma poderosa ofensiva sobre a região oriental do istmo, no setor da
cidade de Taipale, situada às margens do lago Ladoga. A operação foi executada
pelo Corpo de Exército do general Grendal, integrado por 4 divisões de
infantaria e 1 corpo motorizado. Entre os dias 6 e 13 de dezembro, Grendal
desencadeou 16 violentos ataques sobre Taipale. Apoiados pelo fogo de
centenas de canhões, os infantes russos avançaram em formação cerrada sobre
as posições finlandesas. Estes rechaçaram os ataques, mas, sofreram perdas
aniquiladoras. Alguns regimentos de vanguarda ficaram reduzidos a menos da
metade dos seus efetivos, mas Taipale não caiu. Em 16 de dezembro, Grendal concentrou toda a sua
artilharia em um estreito setor de 700m de comprimento, em frente do lago
Suvanto. Na outra margem, os finlandeses preparavam-se para enfrentar um
outro ataque. Durante três horas, os canhões russos jogaram um dilúvio de
fogo e aço sobre as suas posições. Ao cessar o bombardeio, a infantaria russa
lançou-se de baioneta calada através da superfície gelada do lago.
Entrincheirados nas crateras das granadas, os finlandeses deixaram-nos
aproximar-se até uma distância de 100 metros e então abriram um fogo
mortífero, com as metralhadoras e os fuzis. Milhares de russos caíram e os
restantes bateram em retirada. A 19 de dezembro, Timoshenko desencadeou no centro
do istmo o ataque decisivo. Apoiadas por várias brigadas de blindados, 3
divisões de infantaria avançaram até a Linha Mannerheim, numa frente de 30
km. Por quatro dias os finlandeses, combatendo encarniçadamente, conseguiram
conter os incessantes ataques da infantaria e dos blindados russos. Mas,
finalmente, viram-se obrigados a recuar. Sofrendo terríveis perdas, os russos
foram apossando-se paulatinamente dos redutos e trincheiras, e a 23 de
dezembro, chegaram à última linha de resistência. Cheio de júbilo, Timoshenko
se aprestou a ordenar o ataque final que culminaria com a ruptura da Linha
Mannerheim. Nesse momento crucial, o General Oestermann ordenou que a sua
única reserva de divisão passasse imediatamente ao ataque. Tomados de
surpresa pela violenta investida finlandesa, os russos empreenderam a
retirada e abandonaram o terreno que haviam conquistado à custa de tremendos
sacrifícios. Assim terminou a primeira ofensiva russa no istmo da Carélia. Os ataques frustrados No inicio da invasão russa, o porto de Petsamo nas
costas do Ártico, contava como única guarnição com uma companhia de
infantaria, armada com dois canhões médios modelo 1887, para enfrentar as
três divisões do 14° Exército russo. Na manhã de 30 de novembro, os russos
cruzaram a fronteira e avançaram lentamente através das planícies geladas.
Sobre a costa, uma flotilha de cruzadores desencadeou um violento bombardeio,
para apoiar o ataque. Esmagados pela superioridade russa, os finlandeses
abandonam Petsamo e se deslocaram para o interior do país. O chefe do 14°
Exército destacou, então, duas das suas divisões sobre a costa e enviou uma
terceira para o sul, acompanhada por um poderoso grupamento blindado. Durante 15 dias, os finlandeses conseguiram
paralisar a divisão russa, com ataques de surpresa, mas, as fileiras da
pequena unidade terminaram dizimadas. O comandante finlandês incorporou,
então, às suas forças, 400 operários das minas de níquel próximas a Petsamo e
prosseguiu na resistência. Finalmente, chegaram dois batalhões de reforço e conseguiram
rechaçar os russos para o norte. Em meio a violentas tempestades de neve e
com uma temperatura de 50° negativos, as colunas russas deslocaram-se até a
cidade de Nausti, onde ficaram imobilizadas até o fim da guerra. Na região central da Finlândia, o 9° Exército
lançou-se ao ataque contra o centro de comunicações de Rovaniemi, para cortar
o país em dois e ocupar as costas do golfo de Bótnia. A 17 de dezembro, duas
divisões russas estavam a 100 km da cidade e se preparavam para tomá-la de
assalto. O marechal Mannerheim determinou imediatamente o envio de reforços.
Um regimento de milicianos, integrado por velhos e rapazes carentes de toda
instrução militar, dirigiu-se a Rovaniemi, onde conseguiu rechaçar os russos
e pô-los em fuga. Equipando-se com as armas e tanques abandonados pelos
russos, os finlandeses intensificaram o ataque e avançaram até a localidade
de Sala, próxima à fronteira. Ali a frente permaneceu estabilizada até o fim
da guerra. Mais para o sul, nos arredores da cidade de
Suomusalmi, o general Siilasvue conquistou uma importante vitória sobre os
russos. Por sua vez, na margem setentrional do lago Ladoga, um regimento
finlandês deteve o avanço de três divisões do 8° Exército russo, depois de 15
dias de sangrentos combates. A ofensiva de Voroshilov No fim de dezembro, os finlandeses haviam
conseguido rechaçar a invasão soviética em todas as frentes. Stalin furioso
pela inesperada derrota, decidiu nomear comandante-chefe o Marechal
Voroshilov. Este reorganizou as forças que lutavam na Finlândia e reforçou
poderosamente os seus efetivos. Um novo exército, o 13°, foi destacado para o
istmo da Carélia e todas as forças desse setor ficaram sob as ordens do
general Timoshenko. Durante todo o mês de janeiro de 1940, os russos
levaram a cabo incursões e golpes sobre a Linha Mannerheim, para impedir a
recuperação das fortificações e desgastar as forças finlandesas. Finalmente,
na manhã de 5 de fevereiro, foi iniciada a ofensiva. Milhares de canhões de
todos os calibres bombardearam, durante sete horas consecutivas, as posições
finlandesas no setor ocidental do istmo da Carélia. Ao cessar o bombardeio,
três divisões russas lançaram-se ao assalto, precedidas por uma formação de
100 tanques. Ocultando-se nas crateras das bombas e nas trincheiras em
ruínas, os sobreviventes de três batalhões finlandeses resistiram à
investida. Milhares de russos pereceram sob o fogo incessante de suas
metralhadoras e fuzis. Alguns tanques romperam as defesas, mas, foram
destruídos com bombas Molotov e granadas. Durante os dias 8, 9 e 10, repetiram-se os
assaltos e as terríveis perdas. Alguns batalhões de pára-quedistas foram
lançados por trás das linhas finlandesas, mas, não tardaram a ser dizimados.
Timoshenko, sem se preocupar com as milhares de baixas, continuou
descarregando demolidores golpes contra a Linha Mannerheim. Ao anoitecer do
dia 10, os seus soldados encontravam-se combatendo contra os últimos redutos. Ataque decisivo A esmagadora ofensiva dos dias 8 a 10 não era
senão o prelúdio do ataque decisivo. No domingo, 11 de fevereiro, às 8:30h,
320 canhões, concentrados em estreita faixa de 4 km, desencadearam um
bombardeio arrasador. Em poucas horas 300 mil granadas caíram sobre as
trincheiras finlandesas. Sob a cobertura desse fogo infernal, um batalhão de
tanques russos providos de lança-chamas, introduziu-se nas defesas e destruiu
as principais casamatas. Um grupo de 70 tanques conseguiu, finalmente
romper as linhas, através de um pântano gelado, praticamente sem defesas e os
russos conseguiram introduzir uma cunha de 3 km de profundidade. Os infantes
finlandeses lançaram-se contra os blindados, esquivando-se do fogo das suas
metralhadoras e canhões para destruí-los com cargas explosivas. Os russos, no
entanto haviam astutamente coberto seus tanques com redes de aço, que os
protegiam contra as explosões das granadas. A penetração soviética ficou
assim assegurada. Durante cinco dias, o ataque prosseguiu com fúria
renovada, nos arredores de Suma. Os finlandeses empenharam na luta as suas últimas
reservas, mas não conseguiram reconstruir as linhas. Lenta, mas
inexoravelmente, os russos continuaram avançando, aniquilando uma posição
após outra. Era o momento crucial da campanha. A frente ameaçava ruir em
questão de horas. Mannerheim ordena a retirada Na noite de 14 de fevereiro, o marechal Mannerheim
convocou uma reunião de todos os comandantes das unidades empregadas no istmo
da Carélia. Durante várias horas os oficiais discutiram calorosamente sobre
como fazer para salvar o exército do istmo de uma completa destruição. A
dramática conferência realizou-se no posto de comando do general Oestermann,
situado a 7 km da frente de combate. À distância, retumbava o incessante fogo
da artilharia russa. Os chefes dos regimentos que combatiam na primeira
linha pronunciaram-se, na maioria, por uma retirada geral das unidades do
setor ocidental e central para uma nova posição situada ao norte do porto de
Viborg. Sabiam que as suas tropas estavam no limite da capacidade de
resistência e que os dizimados batalhões não demorariam e desintegrar-se ante
os demolidores ataques russos. O chefe do Estado Maior, entretanto, opôs-se a
essa retirada, pois considerava que se poderia organizar a defesa ao sul de
Viborg, tentando salvar assim o estratégico porto. O marechal Mannerheim não
tomou, nessa noite, nenhuma decisão. Abrigava ainda a esperança de conter o
avanço russo, com um contra-ataque com duas divisões de reforço que se
achavam a caminho, vindas do norte. Essas unidades, porém tardaram demais,
porque os trens que as conduziam foram atacados pelos aviões russos e elas
tiveram que desembarcar e percorrer a pé os últimos 100 km que as separavam
da frente. A 15 de fevereiro, Timoshenko redobrou o ataque na
cunha aberta a leste de Suma e a penetração estendeu-se até o ponto limite de
ruptura. Mannerheim compreendeu que chegara ao fim. No dia 15, ordenou a
retirada dos exércitos do setor ocidental e central do istmo para uma nova
posição defensiva situada no sul de Viborg. Deslocando-se durante a noite,
através dos bosques e pântanos gelados, os finlandeses conseguiram alcançar
sem dificuldades a segunda linha de resistência. Ao amanhecer de 17 de fevereiro, os russos
descobriram que os finlandeses tinham abandonado a linha Mannerheim.
Timoshenko sem demora, ordenou avançar e, nessa mesma tarde, as suas
forças já entram em contato com a
nova posição. Os russos lançaram-se imediatamente ao ataque, mas, foram
rechaçados. A batalha final Após 3 dias de violentos combates, Timoshenko
compreende que os finlandeses, mesmo depois de terem perdido os lances
principais da Linha Mannerheim, ainda estavam em condições de prosseguir a
luta. A primavera estava próxima e com o degelo, os milhares de lagos e
pântanos se tornariam insuperáveis obstáculos para o deslocamento dos tanques
e veículos motorizados. Por isso, o marechal Voroshilov procurou terminar
rapidamente a campanha e flanqueou as forças finlandesas no istmo,
atacando-as pela superfície gelada do golfo da Finlândia. Os russos contavam com uma vantajosa posição de
partida, pois, no inicio da campanha tinham tomado as ilhas de Sursari,
Lavansari e Seikiari, a menos de 50
km da costa finlandesa. Nessas ilhas, concentraram os efetivos para o
ataque. Além disso, propunham-se passar a baía de Viborg, que estava coberta
também por uma camada de gelo, de um a dois metros de espessura. Como prelúdio da ofensiva, duas divisões russas
atacaram a fortaleza de Koivisto, na margem meridional da baía de Viborg,
e, após três dias de violentos
combates, desalojaram a guarnição. A 25 de fevereiro, os russos internaram-se
na baía precedidos por fortes formações de tanques. Da costa setentrional, os
finlandeses abriram fogo com os seus canhões de 30cm. As gigantescas
granadas, ao explodir, abriram enormes sulcos no gelo, pelos quais
desapareceram, afundando-se nas águas geladas, companhias inteiras de
soldados e centenas de tanques e caminhões. A 1° de março, os russos se estabeleceram ao longo
da costa setentrional e ali concentraram a sua artilharia. Três dias após,
começou o ataque. Seis divisões lançaram-se ao assalto contra as trincheiras, defendidas por 12 batalhões
de soldados finlandeses. Nesse mesmo dia, os russos avançaram pela primeira
vez através do Golfo da Finlândia. Em sucessivas ondas, atacaram os redutos
da costa defendida por 5 batalhões finlandeses, apoiados por unidades de
milicianos. Novamente, foram derrotados. Para reforçar as suas divisões, os
russos abriram caminhos através da neve que cobria a superfície gelada do
golfo, com uma camada de dois metros de espessura. E foi através dessas
estradas improvisadas, que se deslocaram tanques, canhões e tratores, levando
peças de artilharia e trenós, carregados de soldados e munições. Ante tão
gigantesco avanço de forças, a Finlândia teria inexoravelmente de sucumbir. A 7 de
março, duas divisões russas chegam à margem setentrional da baía de Viborg.
Timoshenko concentrou a sua artilharia nesse setor e desencadeou um
bombardeio infernal. Dois dias depois, os russos aprofundaram a
cabeça-de-ponte e com o fogo dos seus canhões cortaram o caminho entre Viborg
e Helsinki. No istmo da Carélia, 10 divisões russas, apoiadas
por duas brigadas blindadas, romperam as linhas finlandesas e abriram uma
brecha de 20 km de extensão a leste de
Viborg. Lutando desesperadamente os finlandeses recuam. A 3 de março, seis
divisões russas atacam Viborg e travam duros combates com os sobreviventes de
três regimentos finlandeses. Mannerheim e os seus generais compreenderam que
a guerra estava definitivamente perdida. O Exército finlandês esgotara
totalmente a sua capacidade combativa. O armistício A 6 de março, uma delegação finlandesa viajou para
Moscou e, no dia seguinte, iniciou as
negociações que encerraram a luta. A 13 de março, cessou o fogo em
todas as frentes. De acordo com as exigências de Stalin, todo o
istmo da Carélia, os territórios situados sobre o Ártico e o porto de Hango
no mar Báltico, passaram para o domínio russo. O conflito teve graves e decisivas conseqüências.
Com o inicio da invasão russa, os governos da França e da Inglaterra,
pressionados pelo clamor popular, planejaram enviar uma força expedicionária
à Finlândia. A guerra chegou ao fim, porém as tropas não embarcaram. Os
Aliados adotaram um novo plano. As tropas seriam desembarcadas na Noruega,
com a missão de ocupar o porto de Narvik e as minas de ferro ao norte da
Suécia. Assim, seriam interrompidos os embarques de ferro para a Alemanha.
Hitler, sendo informado da operação, ordenou aos seus generais a imediata
conquista da Noruega. Anexo
Fortificações finlandesas A partir de 1919, foi construída uma série de baterias ao longo da margem setentrional do lago Ladoga, equipadas com canhões de 12 a 15 cm e nas costas do golfo da Finlândia, colocaram-se baterias com canhões russos de 25 cm. A linha prevista estendia-se por 125 km de comprimento. O numero de casamatas a construir ascendia a várias centenas. Cada uma delas deveria estar equipada com um ou dois canhões leves, dispostos de maneira apropriada a cobrir a maior extensão possível de terreno, além de várias metralhadoras. Dificuldades econômicas fizeram com que as casamatas efetivamente construídas ficassem na casa dos 90. Atrás das casamatas deveriam construir-se, para servir de abrigo ao pessoal, redutos formados com grandes blocos de cimento armado cuja altura variava entre 2 e 3 metros. A experiência posterior demonstrou que semelhantes massas de cimento, impossíveis de serem camufladas adequadamente, pelo seu grande tamanho, tornavam-se fáceis alvos para a artilharia pesada inimiga. A partir de 1932 e até 1938 inclusive, cada verão, um batalhão de sapadores construía uma casamata ou um ponto de apoio. Durante o ano de 1938, algumas delas foram cobertas parcialmente por uma blindagem metálica. Entre o golfo da Finlândia e o lago Ladoga, considerado como o setor mais perigoso e exposto à probabilidade de um ataque, prepararam-se obstáculos antitanques de granito e um conjunto de fossos. Era a região que tinha menos proteção natural. O terreno é plano e os seus lagos e rios são escassos. Na primavera e no verão de 1939, o perigo de uma agressão russa era cada vez maior. As fortificações foram então ampliadas e melhoradas; muitos milhares de voluntários civis dedicaram-se a esse trabalho durante as suas férias anuais. Aumentaram, assim as possibilidades defensivas da linha que, a partir desse momento, começou a denominar-se de Mannerheim, como homenagem ao herói da libertação. A Linha Mannerheim contava com as seguintes instalações e dispositivos defensivos: 1. Posição principal. De 125 km. de extensão, 90 casamatas de concreto (67 eram de construção antiquada). Seis baterias na margem norte dos lagos Vucksi e Suvanto. Obstáculos antitanques. Observatórios. Abrigos. Trincheiras em profundidade, dentro do campo principal de combate. Trincheiras para o serviço de guarda avançada. Fossos de comunicação. Posições para baterias. Depósitos. Algumas redes de arame farpado. 2. Posição avançada. Algumas obras de fortificação de campanha. Estava situada entre 10 e 15 km. ao sudoeste da principal. 3. Segunda posição. Em construção. 4. Terceira posição. Obras previstas, mas não iniciadas. As tropas finlandesas que defendiam essa frente estavam divididas em dois corpos de exército. a. Corpo de Exército II (a oeste do sistema); contava com as seguintes unidades: Divisões de infantaria 4, 5 e 11 b. Corpo de Exército III (a leste do sistema); integrada pelas unidades: Divisões de infantaria 9 e 10. Mannerheim Janeiro de 1918. Bótnia, pequena cidade perdida na imensidão branca da Finlândia. A guarnição russa descansa. As sentinelas, adormecidas pelo frio, apóiam-se nos fuzis. As sombras as envolvem. Escuta-se um sinal. Um silvo leve, curto, que se interrompe duas vezes. As sentinelas nada percebem e com isso a sua sorte fica selada. As sombras, agilmente, se arrojam-se sobre as sentinelas. Dois, três, quatro corpos caem por terra. Dois minutos depois a casa da guarda é assaltada por 20 homens. Uma hora depois, os atacantes se afastam, quase tão silenciosamente como chegaram. Deixam atrás uma guarnição dominada e desarmada. Levam fuzis e munições suficientes para pôr em pé de guerra um numeroso grupo de homens. ã frente do grupo, entrou no quartel russo um homem. É o último que sai. É dele o plano e a grande idéia motora. Ele sonha com a liberdade da sua pátria e está disposto a conquistá-la. Mesmo ao preço da própria vida. Após os homens que se afastam corre o chefe, Carlos Gustavo Mannerheim. O antigo oficial de cavalaria do Exército russo nasceu em junho de 1867. Filho e neto de militares, ingressou muito jovem na Escola de Cadetes. Como oficial, serviu às ordens da Prússia na guerra com o Japão. De regresso à sua pátria, leva cinco condecorações. 1914. Estala a Primeira Guerra. Mannerheim, já general, comanda uma unidade russa. A revolução bolchevique e a paz com a Alemanha decidem o seu destino. Renuncia o posto e regressa ao seu país natal e inicia a luta pela libertação. Organiza e instrui um pequeno núcleo de combatentes, a base do futuro exército libertador. Armas? Nada mais fácil para Mannerheim. Um golpe audacioso e a guarnição russa de Bótnia fornece-as. Na noite de 26 para 27 de janeiro de 1918, a guerra pela libertação começa. A frente de 30.000 homens, Mannerheim lança-se à luta. A sorte o ajuda. O seu valor faz o resto. De vitória em vitória, a 16 de maio entra em Helsinki, que o recebe como libertador. Até 1931, como marechal e presidente do Conselho Supremo da Defesa, põe em prática uma idéia que o persegue há muito tempo: a criação de uma possante linha defensiva na fronteira com a Rússia. Nasce assim a Linha Mannerheim, obra mestra de engenharia militar e bastião defensivo na guerra que estalará alguns anos depois. Lutando com a mais absoluta carência de meios, orçamentos restritos, poucos homens e material antiquado, a Linha Mannerheim será, oito anos mais tarde, um difícil obstáculo para o poderoso rolo compressor soviético. A estratégia finlandesa Os comandos militares finlandeses, frente a frente com a dura realidade de um inimigo mil vezes superior em homens e material, tiveram que subordinar os planos defensivos ao maior conhecimento do terreno e ao uso de um material humano, que, ao defender seu território e por conseguinte seus lares, dava de si 100% da sua capacidade combativa. Quer dizer: o Alto Comando finlandês, ao começar as hostilidades, elaborou seus planos sobre a base do aproveitamento de pequenas unidades, fisicamente muito aptas, moralmente muito firmes, conhecedoras do terreno, peritas em tiro e reconhecimento e ágeis em seus deslocamentos. A estratégia finlandesa baseava-se, em um estrito controle do avanço russo e em uma réplica imediata, de contragolpe, por meio de pequenas unidades. Isto permitia, se não deter o avanço, causar baixas consideráveis e desmoralizar o adversário. Tratava-se de uma estratégia de desgaste. A tática russa consistia no aproveitamento de suas imensas massas de homens. Com efeito, divisões inteiras eram lançadas na luta, umas após a outra, sem reparar nas baixas. Torna-se claro que a Finlândia não podia opor uma resistência baseada em princípios semelhantes. Assim, as minúsculas unidades finlandesas, após suportar o choque da massa russa, contra-atacavam tirando proveito dos possíveis erros táticos do comando russo. A resistência era firme e ordenada, de poucos efetivos, mas de alta qualidade. De imediato, após o término do ataque, passava-se a uma defensiva elástica: não enfrentar decididamente a massa inimiga, mas sim golpear no lugar e no momento apropriado. A tática finlandesa era muito semelhante em linhas gerais, à usada nas guerrilhas. Batalha sem tiro Tolvajardi. Dois batalhões finlandeses cobrem a fronteira, defendendo-se desesperadamente do ataque da Divisão de Infantaria russa 139. À noite, amparado pelas trevas, os grupos de vanguarda russos caem sobre os finlandeses, pela retaguarda. Os defensores, surpreendidos pelo inesperado ataque sofrem uma momentânea desorganização, mas refazem as suas fileiras. Enquanto os combatentes mantém-se firmes na frente, os cozinheiros, motoristas, assistentes, radiotelegrafistas, armeiros, etc, sem disparar um só tiro, usando baionetas e facas, atacam os russos em sangrento corpo a corpo. Os atacantes são obrigados a renunciar as armas de fogo porque a escuridão é impenetrável e o terreno lhes é desconhecido. O combate é travado com armas brancas. Silenciosamente, várias centenas de homens lutam durante uma longa hora. Só gemidos isolados assinalam as baixas de um ou outro lado. Por fim, caçadores de nascença, os finlandeses impõem a sua habilidade no manejo da faca e no aproveitamento do terreno. O batalhão russo, na singular batalha em que não foi disparado um único tiro, é aniquilado. Não sou um covarde Hulkoniemi. Após um breve preparo a cargo da artilharia e dos morteiros, a infantaria finlandesa ataca. Os russos, firmes nas suas posições, respondem ao fogo, e, de imediato passam ao contra-ataque. O finlandeses são obrigados a empregar na ação todos os homens disponíveis. Os homens dos diferentes serviços auxiliares devem empunhar armas e combater lado a lado com a infantaria. O ataque russo nivela as forças e a situação fica estacionária. As unidades voltam ao ponto de partida. Antes da retirada, recolhem os seus feridos e mortos. Os finlandeses encontram, no cadáver de um capitão russo, duas cartas: uma acusando-o de covardia no desempenho da sua missão; outra, o original da resposta que o capitão não chegou a enviar. Nela, o oficial russo defende-se da acusação e sustenta que fez todo o possível para que os seus homens se mantivessem em combate. Explica também que as suas tripas estavam extenuadas. Mas, o capitão morrera em combate antes de ter a oportunidade de remeter a carta. Talvez, alguém em alguma parte, ficasse acreditando sempre que o capitão era mesmo um covarde. Por isso, os finlandeses, que sabem não ser verdade, cobrem o cadáver com o seu capote militar e guardam a carta. Alguém, em alguma parte, reabilitará o capitão russo, herói sacrificado na luta. Mas, antes que os seus próprios camaradas o façam são os seus inimigos que o reabilitam Iscas humanas A guerra russo-filandesa breve mas muito sangrenta, e rica de episódios que escapam à realidade quotidiana, para converter-se em aparente ficção novelística. Armadilhas arquitetadas com maquiavélica eficiência, ardis dignos de guerras já ultrapassadas, tudo foi usado na luta. O que aqui se narra mostra até que ponto chegou o desprezo pela vida humana, no decorrer do conflito. Suomusalmi. O avanço russo é contido por uma unidade finlandesa, perfeitamente oculta em um terreno coberto de bosques. Uma segunda tentativa convence os russos da impossibilidade de continuar o ataque ou, em todo caso, de realizá-lo sem que o preço seja um numero de baixas muito elevado. Então põem em prática uma técnica que demonstra o extraordinário espírito de sacrifício dos soldados russos. A unidade, em massa, retrocede e se mantém alerta. Enquanto isso, 10 ou 12 homens a cavalo abandonam a proteção do bosque ou das rochas e avançam, oferecendo-se como alvo. Os finlandeses abrem fogo com as suas armas automáticas, abatendo os heróis. O comando da unidade russa, que ficara na retaguarda, na expectativa, localiza assim o setor de onde partem os disparos. Segundos depois, os morteiros russos iniciam um metódico fogo sobre a zona indicada. Após alguns minutos suspendem a artilharia e lançam uma carga de infantaria. Forçam, com isso, os finlandeses a se defenderem dos infantes e a confirmarem a sua verdadeira posição no esconderijo do bosque. A seguir, com toda segurança, a massa da infantaria lança-se ao ataque. Os finlandeses não podem resistir ao inimigo, muito superior em numero, desde o instante que se traíram e indicaram o ponto exato em que se escondiam. A armadilha de gelo Viborg, a sudoeste da linha defensiva finlandesa. Ponto vital por onde cruza a estrada que liga Leningrado a Helsinki. A baía de Viborg é um mar de gelo. Os russos, aproveitando a grande espessura da camada sólida que cobre as águas, usam-na para deslocar unidades pesadas, inclusive tanques. Ao longe, aparecem algumas ilhas. Sobre uma delas apontando para a baía, poderosos canhões costeiros dominam toda a zona gelada. Tais os elementos que configuram uma estranha guerra. Aos tiros da artilharia finlandesa, que se repetirão muitas vezes batalhões inteiros são sepultados nas águas. A primeira ação se realiza quando um batalhão russo, apoiado por muitos tanques, cruza a superfície gelada. Os grandes canhões, após a correção de tiros, começam a acertar exatamente na periferia da compacta unidade russa. Aquilo parece não ter sentido. As possantes granadas, disparadas diretamente sobre a formação, causariam baixas consideráveis. Mas, os finlandeses não disparam sobre os homens nem sobre os tanques. Disparam ao redor. Poucos minutos bastam para os russos compreenderem a extensão da tragédia. Mas já é tarde, impossível salvar os seus homens. O gelo, quebrado em enormes extensões, cede sob o peso formidável dos tanques e estala com estrondo ensurdecedor. Um alarido de terror eleva-se das unidades russas e logo depois se faz o silêncio. Sobre a superfície gelada da baía, agora quebrada em mil pedaços, restam homens dispersos, aqui e ali, aferrando-se penosamente ao que flutua ao seu alcance. Tudo o mais, tanques, canhões, artilharia, cavalos e homens, jaziam no fundo das águas geladas. A morte por um fio Divisão de Infantaria 54, russa (DI 54), ao ataque. Correm os últimos dias de dezembro de 1939. A DI 54 com a massa da divisão, formada pelos Regimentos de Infantaria 118 e 337 (RI 118 e RI 337), reforçados com artilharia e tanques, acaba de atacar a localidade de Kuhmo. Ao mesmo tempo, o Regimento de Infantaria 628 (RI 628) ataca em direção a Lieksa. Mas, o RI 628, se vê sobrepujado pela resistência dos Batalhões de fronteiras 12 e 13 e deve recuar em direção à fronteira. Logo depois, um novo revés cairá sobre as tropas russas: a DI 54 detém o seu avanço para Juhmo, contido pelo RI 25 finlandês e o batalhão de fronteiras 14. Tal a situação em princípios de janeiro de 1940, que evolui em seguida até determinar o cerco das forças russas em muitos bolsões. Ao começar o sitio os russos são abastecidos por aviões, que descem sobre a superfície gelada de um algo. Essa via de abastecimento é logo depois anulada por uma bateria finlandesa, que bate todo o lago. O comando russo, ante a nova situação, vê-se obrigado a manter o abastecimento por meio de pára-quedas. Mas ocorre que muitos pára-quedas com a sua carga de armas, munições, medicamentos e tudo o mais, caem na zona dominada pelas tropas finlandesas. Outros pára-quedas, arrastados pelo forte vento, caem na terra de ninguém, ente os dois inimigos. Os soldados russos, levados pela fome, arrastam-se até eles para recuperá-los. E, então se torna terrível a habilidade dos finlandeses no uso de armas longas. Atiradores de precisão, acostumados à caça desde a infância, os defensores dormem na pontaria e derrubam os soldados russos, um após outro. Os russos, acostumados à disciplina férrea, à fome e aos padecimentos mais cruéis, resistem sempre, com resignação oriental, disparando os seus escassos projéteis e alimentando-se de forma precária. Por fim, quando a situação das forças russas é desesperada e o aniquilamento está a um passo, chega a salvação, de forma providencial. É 13 de março. São 11 horas. O fogo das armas finlandesas detém-se e muitas bandeiras brancas aparecem nas linhas dos atacantes que encurralam os russos. Estes, surpresos, aceitam a cessação do fogo sem saber o motivo. E não podem evitar que o júbilo se apodere deles, quando os parlamentares finlandeses comunicam que foi assinado o armistício. Trasbordantes de alegria, como se a vitória lhes tivesse correspondido, os russos procuram abraçar os parlamentares, mas estes os repelem e, com dificuldade, evitam que os russos lhes apertem as mãos. Espetáculo pouco comum e talvez doloroso para os finlandeses o daqueles camponeses russos esgotados pela fome, que procuram apertar as mãos dos que são de certo modo, os seu salvadores. Horas depois, apressadamente, as colunas russas retiram-se para o território do seu próprio país. Arrastados por um regime desapiedado, enviados à morte, sem qualquer comiseração, aquela massa de homens abandona o país que seus dirigentes haviam acreditado ser presa fácil. Ajuda à Finlândia No dia 10 de dezembro de 1939, o secretário-geral da Sociedade das Nações remeteu a cada um dos países-membros da organização um telegrama no qual encarecia o envio de ajuda material à distante Finlândia. Aquele primeiro chamado internacional foi acolhido com unânimes demonstrações de adesão. Nas capitais européias realizaram-se manifestações públicas. Fortes correntes de opinião declararam seu apoio ao rompimento de relações com os russos. Diversos créditos firam concedidos à Finlândia. Em resumo: a simpatia pela pequena nação manifestou-se de diversos modos. Mas aquilo não bastava. Era preciso algo mais, Era necessário o apoio direto das grandes potências, capazes e facilitar material bélico e ajuda econômica. Na França, o presidente do Conselho, Eduardo Daladier, manifestou-se imediatamente a favor da intervenção e deu instruções ao comandante-chefe das forças armadas. As possibilidades eram duas: limitar o envio de grupos de voluntários, armados, que combateriam sob pavilhão finlandês, ou enviar um grupo expedicionário. A segunda possibilidade significava um rompimento aberto com a URSS. Mais ainda, era uma verdadeira agressão. Optaram, pois, pela primeira. No dia 20 de dezembro, partiram os primeiros grupos de voluntários e transportes de material. Foram conduzidos por via marítima até a Noruega e, dali, por ferrovia até a Finlândia, através da Suécia. Este país e também a Noruega ofereceram ampla colaboração e ainda, como no caso da Suécia, parte do seu próprio material de guerra cruzou a fronteira rumo à Finlândia. A Inglaterra, sem vacilar, seguiu o exemplo da França. A Itália incorporou-se aos países que apoiavam a resistência finlandesa e enviou de imediato trens carregados com abundante material de guerra. Também a Alemanha contribuiu, ao permitir a passagem dos trens italianos através de seu território e ao autorizar a aterrissagem e abastecimento de 80 aviões italianos. A ajuda material da França, em primeiro lugar, foi considerável. O material de artilharia prometido limitava-se a canhões de 75, antigos, mas em boas condições de uso. Enviaram 430 peças, acompanhadas por 60 oficiais instrutores. Além disso, cerca de 700 mil granadas foram enviadas, a mais das 800 mil previstas. Da França chegaram ainda 5 mil fuzis-metralhadoras e metralhadoras e 20 milhões de projéteis. Alguns canhões de grande calibre, como os de 305 mm, também foram cedidos. Com respeito ao material aéreo, sobre 175 aparelhos prometidos, 30 Morane chegaram ao destino, como também vários Potez de bombardeio. A Inglaterra, além de aviões, entregou material de artilharia de campanha, armas portáteis, munições e equipamento. O chamado “projeto Petsamo” foi o mais ‘sério plano para ajuda à Finlândia. Era, também, o mais ambicioso e arriscado. Este projeto consistia no desembarque de um corpo expedicionário na zona norte da Finlândia. Daladier ao tomar conhecimento desse plano, o apoiou com entusiasmo. O almirante Darlan, por sua vez, compartilhou a posição de Daladier. Na atualidade, a fria análise da operação demonstra a quase impossibilidade de realizá-la. Efetivamente, Petsamo não se encontra sobre o mar, mas sobre um rio que leva seu nome; o único embarcadouro acessível achava-se no interior de um fiorde, a 15 km rio abaixo; os fortes ventos e o frio inumano criam condições sumamente difíceis de vencer e, o que era mais importante naquele momento, Petsamo estava nas mãos dos russos. O desembarque supunha uma agressão direta contra a Rússia. Era necessário, então superar o primeiro e mais grave problema. E o mesmo foi solucionado, encomendando a operação às tropas polonesas do general Sikorski. Este não tinha, logicamente, nenhuma aparência a salvar, desde que seu país, a Polônia, havia sido agredida pela Rússia em 17 de setembro. Chega-se assim a um principio de concretização do projeto. Com o apoio constante de Daladier, insistia-se na materialização do mesmo. Interviriam neles soldados poloneses transportados em navios poloneses com bases em portos ingleses. Cerca de 13 de janeiro, o almirante Darlan recebeu instruções de Daladier, no sentido de estudar uma operação que contemplasse o desembarque em Petsamo e, além disso, em portos da costa norueguesa, com o objetivo de cortar o abastecimento de ferro que se transportava para a Alemanha. Mas a Inglaterra, informada, mostrou-se, reticente e obcecada pelo temor de um possível conflito armado com a URSS. Por último, uma reunião realizada nos dias 20 e 31 de janeiro de 1940 e na qual se encontravam os comandantes-chefes aliados, teve como conclusão o abandono de todos os planos tendentes a desembarcar em Petsamo. Com efeito, o almirante Dudley Pound, chefe do Estado-Maior da marinha inglesa, escreveu ao chefe da missão naval francesa em Londres, o seguinte: “Darlan quer guerrear contra os russos? Aí está toda a questão. Eu não desejo isso”. A operação Petsamo havia fracassado. Armistício Russo-finlandês A delegação finlandesa que, no dia 6 de março de 1940, viajou para Moscou, iniciou de imediato as tentativas destinadas a deter a luta. De acordo com os termos do armistício, no dia 13 de março cessou o fogo em todas as frentes. As condições de paz eram as seguintes: 1. cessação imediata das hostilidades. 2. cessão à Rússia de todo o istmo da Carélia, incluindo Viborg e alguns municípios ao largo da frente oriental do país (As zonas foram escolhidas de tal modo que a Rússia conseguiu uma posição estratégica privilegiada sobre a Finlândia, porque obtinha uma saliência no lugar onde o país era mais estreito). 3. cessão à Rússia de Petsamo. 4. Arrendamento à Rússia da península e o porto de Hango, no mar Báltico. 5. Controle, por parte da Rússia, de todo o golfo da Finlândia e também da capital finlandesa, Helsinki. 6. Cooperação na construção de uma ferrovia que iria de Kandalathi até Tornea, na fronteira da Suécia (Esta ferrovia, construída por razões comerciais, seria de grande importância estratégica). |
|
Finlândia e Rússia frente a frente O combate armado entre o
pequeno país do Báltico e seu poderoso vizinho materializou um episódio
épico. Com efeito, a falta total de recursos da Finlândia opôs-se à reserva
inesgotável da Rússia. Aos milhões de combatentes que em potência tinha a
URSS, a Finlândia apôs um reduzido exercito e um armamento mais reduzido
ainda. Centenas de tanques russos não encontraram oposição similar. Centenas
de aviões soviéticos cruzaram os céus da Finlândia sem encontrar caças que os
enfrentassem. Foi a luta de um gigante e um pigmeu. Até o fina da luta, as
forças finlandesas totalizavam cerca de 16 a 17 divisões, contra 50 russas. |
Recursos militares usados na luta na Finlândia
|
Finlândia |
Rússia |
|
Exército |
|
|
12-13 divisões |
28-30 divisões |
|
10 batalhões guarda-fronteira |
6 brigadas de tanques |
|
|
2 a 3 divisões mecanizadas |
|
Idade dos soldados: 15 a 65 anos |
Idade dos soldados: 20 a 23 anos |
|
Marinha |
|
|
2 guarda costas de 3900 ton. |
2 encouraçados de 23.000 ton. |
|
5 submarinos |
1 cruzador de 5600 ton. |
|
25 navios varredores |
35 destróieres |
|
7 lanças torpedeiras |
70 submarinos |
|
10 quebra-gelos |
|
|
Aviação |
|
|
170 aviões (1/3 antigos) |
600 - 800 aviões |