Campanha da França

 

Termina a tramóia

 

Dunquerque

 

 

Na noite de 20 de maio de 1940, os tanques de vanguarda do 19° Corpo Blindado do General Guderian, cruzaram rapidamente as ruas desertas da cidade francesa de Noyelles e, minutos depois, detinham sua marcha nas bordas do Canal da Mancha. A meta havia sido finalmente alcançada. Ao norte, nas planícies belgas, acabavam de ficar cercados mais de meio milhão de soldados aliados.

 

Assim, 10 dias após de iniciada a ofensiva alemã na frente ocidental, as divisões Panzer terminaram uma operação de cerco das mais gigantescas da história da guerra. Agora, só faltava ocupar os portos da costa para cortar a última saída que ainda restava aos exércitos franco-britânicos.

 

Na madrugada do dia 19, o general Gort, chefe da FEB (Força Expedicionária Britânica), enviara uma mensagem urgente a Londres, anunciando que, ao menos que houvesse uma reviravolta inesperada, as suas tropas se veriam obrigadas, em curto prazo, a se retirarem para costa e embarcar, para escapar do avanço mortal das divisões Panzer, que ameaçavam fechar-se sobre os flancos dos Aliados. Gort compreendera que nada poderia conter o avanço dos tanques alemães.

 

No mesmo dia, o general Gamelin, comandante-chefe do Exército francês, decidiu realizar um último e desesperado esforço para evitar que as suas forças fossem envolvidas pelos alemães. Às 9 horas da manhã, firmou sua “Diretiva Pessoal e Secreta n° 12”, na qual se propunha desencadear um ataque simultâneo sobre ambos os flancos da cunha aberta pelos tanques alemães. O plano, contudo, foi acolhido sem maior entusiasmo pelo general Georges, comandante direto das forças aliadas no norte da França. Gamelin, desanimado, absteve-se de ordenar a sua execução.

 

No dia 20, as divisões de Guderian finalmente completaram o cerco sobre as costas do canal e os Aliados tinham perdido a última possibilidade de escapar por terra para o sul. Ao receber a notícia, Hitler, emocionado pelo triunfo, anunciou aos chefes da Wehrmacht que se propunha a iniciar imediatamente os preparativos para as negociações de paz. Hitler considerava que a derrota dos exércitos franco-britânicos era um fato consumado.

 

Entretanto, a luta ainda não terminara. A 20 de maio pela manhã, Churchill se reuniu com seu gabinete de Governo e, após estudar a comunicação de Gort, ordenou que se procedesse o quanto antes ao preparo de uma frota destinada a evacuar as tropas inglesas da costa da França. Nesta mesma tarde, o Almirante Ramsey, designado chefe da operação - batizada como “Dínamo” - iniciou a concentração dos primeiros barcos no porto de Dover.

 

 

A Batalha de Arras

 

Churchill ainda acreditava ser possível que os exércitos Aliados abrissem caminho para o sul. No dia 20 de maio, o general Ironside, chefe do Estado-Maior inglês, foi à Bélgica, por conta própria e ordenou ao general Gort realizar uma última tentativa para romper o cerco alemão. Gort declarou que não tinha a menor fé nas possibilidades de êxito dessa ação, mas, se dispôs a realizar um ataque, em escala limitada, até a cidade de Arras, no sul. O franceses prometeram apoiar, com as suas forças de ataque. Na tarde do dia 21, uma brigada blindada e duas DIs inglesas, apoiadas por uma divisão mecanizada francesa, apressaram-se a lançar um ataque sobre os alemães que convergiam para Arras.

 

No último instante, o general Blanchard, chefe do 1° Exército francês, comunicou a Gort que as suas tropas não podiam atacar, pelo menos até o dia seguinte, devido à demora provocada por seu deslocamento. Gort, apesar de tudo, decidiu levar adiante a operação na forma prevista anteriormente.

 

Poucos depois das 15 horas, as tropas inglesas comandadas pelo general Martel, iniciaram a sua marcha para o sul. Na vanguarda iam 16 tanques pesados “Matildas”, veículos providos de uma blindagem de 75 mm de espessura. Nesse momento, duas divisões panzer se aproximavam de Arras.

 

 Os tanques ingleses conseguiram superar facilmente as unidades da vanguarda de Rommel e destruiram as baterias antitanques, que tentaram deter seu avanço. Os canhões alemães eram de calibre reduzido e não podiam perfurar as grossas couraças dos tanques “Matilda”, alguns dos quais chegaram a receber até 15 impactos, sem sofrer o menor dano. Diante dessa crítica situação, Rommel ordenou o fogo de poderosos canhões antiaéreos de 88 mm, que conseguiram paralisar o avanço dos tanques. Mas, os alemães já haviam perdido cerca de 500 soldados, 40 tanques e uma centena de caminhões.

 

Ao cair da tarde, o general Martel ordenou que suas forças se entrincheirassem em duas localidades perto de Arras. Logo em seguida, a Luftwaffe lançou um ataque de suas esquadrilhas de Stukas e, mediante bombardeio incessante e demolidor, conseguiu desalojar os britânicos das suas posições. Era o momento esperado por Rommel. Rapidamente, movimentou os seus veículos blindados e atacou em campo aberto as forças inglesas em retirada, infligindo-lhe perdas sangrentas. Ao cair da noite, a batalha havia terminado. Os ingleses estavam de novo em Arras, seu ponto de partida. Fracassara completamente a última tentativa de romper as linhas alemães para o sul.

 

O Plano de Weygand

 

Contudo, uma mudança radical ocorrera na direção política e militar dos franceses. No dia 18, chegou a Paris o marechal Pétain, que era embaixador francês em Madri. Havia sido chamado com urgência por Paul Reynaud que, no mesmo dia, nomeou Pétain vice primeiro-ministro. Reynaud decidiu ainda, afastar Daladier do Ministério da Guerra e substituir Gamelin pelo general Weygand, um dos chefes mais destacados da Primeira Guerra.

 

Na manhã de 20 de maio, Weigand assumiu o comando supremo do Exército e a sua primeira medida foi deixar sem efeito a ofensiva projetada por Gamelin. Ele desejava estudar pessoalmente a situação e, para isso, voou naquele mesmo dia para a Bélgica, para se entrevistar com o rei Leopoldo e os chefes militares francesas e britânicas.

 

Na tarde de 21 de maio, Weygand chegou à cidade de Ypres, onde era aguardado pelo rei Leopoldo e o general Billotte, chefe do 1° Grupo de Exércitos Aliados. O general Gort estava ausente. Sem aguardar a chegada do chefe britânico, Weigand expôs o plano que se dispunha a executar; era, em suas linhas fundamentais, semelhante ao projeto de Gamelin.

 

As forças franco-britânicas sediadas na Bélgica atacariam em direção ao sul e o exército belga cobriria o seu deslocamento, entrincheirando-se nas margens do rio Yser. Simultaneamente, os exércitos franceses acampados nas margens do Soma avançariam para o norte. Assim, pressionando sobre ambos os flancos da barreira interposta pelas divisões Panzer, tentariam abrir um corredor destinado a restabelecer a unidade das forças aliadas.

 

O Rei Leopoldo não deu de imediato o seu consentimento ao plano, pois, a sua realização implicaria na perda de quase todo o seu território. A conferência terminou às 7 horas da noite, sem que houvessem chegado a um acordo. Weigand, imediatamente, regressou a Paris. Pouco depois chegou a Ypres o general Gort, tomando conhecimento do plano francês. O chefe britânico, entretanto, absteve-se de comentar, considerando totalmente irrealizável o projeto. Estava convencido, naquela altura, que a via de salvação que restava aos Aliados era a imediata evacuação das tropas aliadas pelos portos da costa do Canal da Mancha. Os fatos que se sucederam justificariam plenamente a sua tese.     Ao terminar a reunião, o general Billotte regressou ao seu posto de comando. Na viagem, o seu automóvel se chocou violentamente com um caminhão e Billote acabou gravemente ferido. Assim, no momento mais crítico, os exércitos Aliados que combatiam na Bélgica ficaram sem o seu comandante-em-chefe. Finalmente, ao falecer Billote, em 23 de maio, foi sucedido no posto pelo general Blanchard, que não havia assistido à conferência de Ypres e desconhecia os pormenores do plano de Weygand. Essa desafortunada circunstância contribuiu para aumentar a grande confusão que reinava nas fileiras do alto comando aliado.

 

Na manhã de 22 de maio, Churchill foi a Paris coordenar com os franceses as medidas destinadas a assegurar a salvação dos exércitos acampados na Bélgica. Ao meio-dia, reuniu-se no QG em Vincennes com Paul Reynaud e o general Weigand. Este informou a Churchill o plano que havia discutido com o rei Leopoldo.

 

Churchill, entusiasmado, deu plena aprovação ao projeto. Reafirmou a necessidade imperiosa de que os Aliados, ao atacar para o sul, mantivessem aberto, em todo momento, um corredor de fuga para a costa. Ao concluir a conferência, enviou urgente telegrama a Gort, ordenando-lhe apoiar com todas as suas forças o plano de Weygand.

 

Neste mesmo dia, o Rei Leopoldo informou ao alto comando francês, que tinha decidido não mais resistir e comunicou a sua decisão de se render aos alemães, pondo por terra todo plano de Weigand. Só restava agora a possibilidade da fuga pelos portos.

 

Hitler detém o avanço dos Panzer

 

Ao chegar às costas do Canal da Mancha, o general Guderian se viu obrigado a deter o avanço de suas divisões. Faltavam-lhe instruções do alto comando da Wehrmacht sobre a direção em que havia de continuar o ataque. Por causa disto, os tanques alemães ficaram parados 24 horas na desembocadura do rio Soma.

 

Finalmente, na noite do dia 21, Guderian recebeu ordem de prosseguir o avanço para o norte até completar a ocupação de todos os portos da zona do Canal. Dessa forma, ficaria definitivamente concluído o cerco em torno dos exércitos aliados. Uma nova ordem, entretanto, veio arrefecer a manobra. Por determinação do Alto Comando, deveria conservar nas margens do Soma uma de suas divisões, para proteger a sua retaguarda até que esta força pudesse ser substituída por tropas da infantaria motorizada. Essa divisão, a 10ª,  era justamente a que Guderian desejava lançar em ataque direto ao porto de Dunquerque.

 

Na madrugada do dia 22, Guderian reiniciou o avanço com duas divisões Panzer. Nesse mesmo dia, após encarniçados combates, os tanques da 2ª DP cercaram o porto de Bolonha. Durante a jornada, a 10ª DP reincorporou-se ao exército e recebeu a missão de ocupar Calais, o quanto antes. Excluída desta tarefa, a 1ª DP lançou-se a toda velocidade em direção à Dunquerque.

 

Na tarde de 24 de maio, os tanques de Guderian alcançaram as margens do canal Aa, situado a 16 km a oeste de Dunquerque. Nesse momento, a única força aliada que se interpunha em seu caminho era um único batalhão de infantaria inglês. Guderian apressou-se em acelerar os preparativos para a realização da última investida. A vitória já estava ao alcance de suas mãos.

 

Nessas circunstâncias , chegou do QG uma mensagem urgente. Sem poder dar crédito aos seus olhos, Guderian leu apressadamente o insólito telegrama: “O 19° Corpo Blindado deve deter-se na linha Aa. Aproveitará a pausa para realizar reparos. Dunquerque ficará a cargo da aviação”. Que havia acontecido? Na manhã de 22 de maio, Hitler discutiu violentamente com o general Brauchitsch, comandante-chefe do Exército, quanto à forma de terminar o cerco dos exércitos aliados. Brauchitsch propunha encarregar um único chefe da direção da batalha final, o general Von Bock, comandante do Grupo de Exército B, para coordenar eficazmente as operações. Com este fim, toda as unidades blindadas que dependiam do general von Rundstedt seriam colocadas sob as ordens de Bock. Os tanques avançariam pelo sul, operariam como “martelos”, enquanto as unidades de infantaria atuariam como “bigornas”, pressionando pelo norte os exércitos aliados.

 

Hitler, furioso, rejeitou o plano de Brauchitsch, argumentando que a costa pantanosa do Canal, cruzada por numerosos canais e cursos d’água, era um terreno completamente inadequado para o emprego dos Panzer. Não se poderia, em conseqüência, correr o risco de perder muitos blindados numa batalha que já estava praticamente vencida. A força de tanques tinha que ser reservada para realizar a segunda fase da campanha. Mas, apesar da oposição de Hitler, Brauchitsch ordenou a execução do seu plano a 23 de maio. Hitler se deslocou no dia seguinte ao posto de comando de von Rundstedt, em Charleville, para consultar a opinião desse militar, considerado um dos mais brilhantes comandantes da Wehrmacht.

 

Rundstedt, que fora excluído por Brauchitsch de qualquer intervenção na batalha de Dunquerque, já estava concentrado na preparação da conquista do sul da França e, por isso mesmo, informou ao Fuhrer que achava necessário conservar ao máximo a capacidade de combate das divisões Panzer, para usá-las na sua própria operação. Era a indicação de que Hitler necessitava. Sem perda de tempo, dispôs-se a anular a transferência dos blindados para o Grupo de Exércitos B e ordenou paralisar o avanço dos tanques nas margens do canal Aa.

 

Goering, que havia participado da polêmica, conseguiu convencer a Hitler de que a aviação, mediante um bombardeio ininterrupto do porto de Dunquerque, impediria o embarque dos exércitos aliados e os obrigaria a se render; sem a necessidade da intervenção  maciça os blindados e das forças terrestres. A glória da vitória final recairia, assim, sobre a Luftwaffe, arma revolucionária criada pelo nazismo.

 

A intempestiva ordem de “alto”, provocou uma reação violenta dos chefes de todas as unidades blindadas. O General Von Kleist, comandante do grosso das forças Panzer do Grupo de Exércitos A, decidiu continuar o avanço e, nesta mesma tarde, os seus tanques ocuparam Hazebrouck, um centro vital de comunicações situadas ao largo do corpo expedicionário britânico. O caminho de fuga até Dunquerque estava, assim, praticamente cortado. Entretanto, uma nova ordem e definitiva instrução do QG obrigou-o a bater em retirada e abandonar as posições conquistadas.

 

Assim, no dia 24 de maio, Hitler frustrou, através da ordem de “alto”, às divisões blindadas a possibilidade de que a Wehrmacht completasse o aniquilamento das forças franco-britânicas. Seu grave erro teria influência decisiva no prosseguimento posterior da guerra.

 

A retirada para o mar

 

A 23 de maio, a 7ª DP de Rommel, cercou pelo oeste a cidade de Arras e ameaçou isolar pela retaguarda as forças inglesas aí entrincheiradas. Diante de situação tão crítica, Gort então ordenou que suas tropas evacuassem Arras imediatamente. Na mesma noite, os soldados ingleses tomaram os seus caminhões e abandonaram a cidade pela estreita via de acesso ao norte.

 

No dia seguinte, o general Blanchard, chefe do 1° Grupo de Exércitos aliados, foi informado da retirada inglesa. Compreendeu, então, que a sorte do plano Weigand estava selada. A perda de Arras, ponto de partida da planejada operação de avanço para o sul, havia aumentado em mais de 40 km a distancia que separava os exércitos acantonados na Bélgica das posições francesas no rio Soma.

 

Blanchard, apesar disso, comunicou ao chefe do Estado maior britânico que, até ordens em contrário, estava decidido a levar adiante o ataque para o sul. Mas, na manhã desse mesmo dia, nova catástrofe se desencadeou sobre as forças aliadas. O 6° Exército alemão, do general von Reichenau, conseguiu, mediante um violento ataque, abrir uma profunda brecha nas posições defendidas pelo exército belga e ameaçou cortar pelo norte as comunicações das forças aliados com os portos da região do Canal da Mancha.

 

Chegara o momento decisivo da campanha. A 25 de maio, as forças de von Reichenau aprofundaram seu avanço, vencendo as dizimadas divisões belgas que, pelo flanco direito, haviam perdido contato com os ingleses. Gort, por sua vez, entendeu que não perderia mais tempo. De posse de um telegrama do ministro da Guerra, Anthony Eden, autorizando-o a colocar a segurança das tropas inglesas acima de toda outra consideração, ele ordenou, às 18 horas, que as suas forças iniciassem a retirada até a costa do Canal. Sua decisão foi comunicada imediatamente ao general  Blanchard.

 

O general francês, por seu lado, recebeu uma mensagem de Weigand, ordenando que organizasse um perímetro defensivo em torno de Dunquerque. As tropas aliadas, então, na tarde de 25 de maio, trataram de iniciar a marcha para o mar.

 

No dia seguinte, von Reichenau redobrou os seus ataques, tornando a situação do exército belga cada vez mais crítica. O rei Leopoldo, angustiado, dirigiu mensagens a Gort e Blanchard, solicitando que as tropas franco-inglesas contra-atacassem o mais rápido possível para auxiliar as suas forças. Mas já era tarde demais e a decisão do general inglês já estava tomada. Como ele se propunha a salvar o seu exército, deveria retirar-se imediatamente para a costa do Canal. Nesse dia, recebeu novo telegrama de Eden, que dizia: “A única saída que possivelmente ainda está aberta para você é abrir caminho lutando para o oeste, onde todas as praias e portos situadas a leste de Gravelines serão utilizados para o embarque. A Marinha providenciará uma frota de barcos e embarcações menores e a RAF dará o seu mais amplo apoio”.

 

De tarde, Gort comunicou a Blanchard que havia resolvido acelerar a retirada e, para isso, propunha abandonar as posições sobre o rio Lys, à direita dos belgas. O chefe francês ponderou as graves conseqüências de tal ação, mas, Gort manteve-se impassível. Sem demora, Blanchard se dirigiu ao QG do rei Leopoldo, informando sobre a decisão do chefe inglês. Para preencher o vazio deixado pelos ingleses, os franceses só poderiam oferecer aos belgas uma dizimada divisão mecanizada, integrada unicamente por 15 tanques.

 

O rei Leopoldo, amargurado, assinalou a Blanchard que o Exército belga estava ameaçado de total aniquilamento, a partir daquela hora.

 

O momento decisivo

 

Enquanto esses dramáticos acontecimentos se desenrolavam no campo aliado, do lado alemão prosseguia a ácida polêmica em torno da atuação das divisões Panzer.

 

Finalmente, Hitler cedeu às ponderações de seus generais e, a 26 de maio, exatamente ao meio-dia, autorizou que os tanques prosseguissem o avanço na direção de Dunquerque. Tão logo recebeu essa comunicação, Guderian ordenou que as suas divisões se lançassem, a toda velocidade, para o porto. Mas, os aliados, valendo-se dos dois dias de trégua inesperada, já haviam posto numerosas forças a oeste de Dunquerque e conseguiram opôr aos alemães uma encarniçada resistência.

 

Sustentando combates violentos, os tanques alemães avançaram ao largo da costa e, na manhã de 29, se apoderaram de Gravelines, situada a poucos quilômetros de Dunquerque. Furioso e amargurado, Guderian compreendeu que a presa estava a ponto de lhe escapar das mãos. Contudo, ainda poderia realizar uma última investida e tomar o porto, antes que o grosso das tropas britânicas chegassem a embarcar. Até este dia, o número de ingleses evacuados era de apenas 25.000 soldados.

 

Neste momento decisivo, Hitler interviu novamente. Pela manhã, manteve uma conferência com os chefes da Wehrmacht e lhes confidenciou o seu temor de que os franceses conseguissem lançar um ataque maciço vindo do sul, contra as forças alemães que sitiavam Dunquerque. Assim, era necessário retirar, o quanto antes, todas as divisões Panzer da batalha e concentrá-las frente ao rio Soma, para enfrentar essa ameaça. A Luftwaffe e a infantaria completariam, sem dificuldades a ocupação de Dunquerque.

 

E, assim, a 29 de maio, Hitler ordenou às divisões Panzer abandonar imediatamente a frente e dirigir-se para o sul. Hitler cometeu, com isso, o maior erro de toda a sua carreira. Ao receber ordem de deter o avanço, as divisões Panzer dos generais Guderian e Reinhardt estavam a menos de 6 km de Dunquerque.

 

A Operação Dínamo

 

Precisamente às 18:57 horas de 26 de maio, o Almirantado inglês enviou às suas unidades a senha que pôs em marcha a Operação Dínamo. Realizando um supremo esforço, as autoridades navais haviam conseguido reunir nos portos do sul da Inglaterra mais de 800 embarcações de todos os tipos e toneladas. A improvisada frota era integrada por grandes navios mercantes, cruzadores, caça-minas, lanchas torpedeiras, barcos-hospitais, rebocadores, lanchas pesqueiras, “ferry-boats”, iates e até veleiros. Todo inglês que possuísse  um barco capaz de se fazer ao mar apresentou-se voluntariamente, para servir naquela empresa arriscada.

 

A situação era desesperada. Como se recorda, no dia 26 os tanques da 10ª DP haviam conseguido ocupar Calais, após vencer a heróica resistência da guarnição inglesa. Assim, só restava como ponto de embarque o porto de Dunquerque e este já estava sob a ação da Luftwaffe e sob ameaça de ocupação iminente pelas forças alemães, que convergiam do leste, sul e oeste.

 

Os oficiais da Marinha britânica calcularam que poderiam evacuar perto de 25.000 solados, nos dias que se esperava resistir ao alemães. Não sabiam eles que Hitler, mediante a sua desastrosa ordem de alto às divisões Panzer, lhes daria a oportunidade de embarcar a totalidade da FEB, além de milhares de soldados franceses.

 

Dia 27 de maio: o 6° Exército de von Reichenau consegue irromper, através das linhas belgas, em vários setores. O rei Leopoldo compreende que o fim havia chegado. Pouco depois do meio-dia comunicou ao general Gort que se via obrigado a se render em questão de horas, para evitar o completo aniquilamento de seu Exército. Três horas depois, chamou o almirante britânico Keyes e o general francês Champon, informando-o que à meia-noite pedira um armistício aos alemães. De fato, a zero hora do dia seguinte, o general belga Desrousseaux firmava a rendição incondicional no QG de von Reichenau.

 

A capitulação do Exército belga abriu, de repente, uma imensa brecha no flanco esquerdo dos ingleses. Gort ordenou que Alan Brooke cobrisse de imediato aquele setor, que se estendia da cidade de Ypres às costas do Canal da Mancha, com as duas divisões britânicas que haviam escapado de Arras. Duas divisões francesas se juntaram aos ingleses e a frente pôde ser rapidamente  reconstruída.

 

Graças a esta manobra, a situação ao norte ficou temporariamente estabilizada. Ao sul, porém, pairava uma ameaça mortal sobre os exércitos aliados, concentrados em torno da cidade de Lille. Pressionando tanto de leste quanto a oeste, os alemães estavam prestes a cortar estas forças, isto é, a rota de fuga para Dunquerque.

 

Ante situação tão crítica, Gort decidiu, a 28 de maio, retirar sem demora as forças inglesas ali destacadas. O general Blanchard, ao receber a notícia, correu ao QG de Gort para dizer, com espanto, que a retirada inglesa permitiria aos alemães cercar o grosso do 1° Exército francês em Lille. O chefe francês pediu que a manobra fosse adiada por 24 horas, para permitir que as forças francesas alcançassem Dunquerque.

 

Gort se negou e assinalou que a última possibilidade de salvação que ainda restava era começar, nesta mesma noite, a retirada para o norte. Sua opinião era totalmente correta. Nesse exato momento, os tanques de Rommel se aproximavam do caminho que liga Lille à Dunquerque.

 

Indignado com a atitude de Gort, Blanchard partiu de imediato para o posto de comando do general Prioux, chefe do 1° Exército francês e anunciou a retirada inglesa para o norte, naquela mesma noite. Sem perder um minuto, Prioux, por seu lado, também ordenou a partida para Dunquerque de todas as forças que tivessem meios de transporte. Assim, pôde ser salva quase a metade dos efetivos do 1° Exército. Em Lille, porém, sucumbiram 50.000 soldados. Sob as ordens do general Molinié, opuseram aos alemães, uma resistência encarniçada e, até o dia 31, conseguiram sustar o avanço de sete divisões do 6° Exército de Reichenau rumo a Dunquerque. Com seu heróico sacrifício, as tropas de Molinié contribuíram para prolongar a evacuação dos aliados e asseguraram a salvação de milhares de seus camaradas de armas.

 

Durante todo o dia 29, colunas intermediárias de soldados franceses e ingleses convergiam para Dunquerque. A poucos quilômetros do porto, eles abandonavam os caminhões à beira da estrada. juntamente com tanques e canhões, prosseguindo a pé sua marcha, levando unicamente os fuzis. Todo o equipamento pesado desse gigantesco exército caiu na mão do alemães.

 

Dunquerque incessantemente atacada pela Luftwaffe, havia se transformado numa autêntica fogueira. Em meio às explosões das bombas e ao pipocar das metralhadoras dos aviões alemães, os barcos e lanchas se aproximavam das praias e recolhiam os extenuados soldados. A situação era desesperadora. Três contratorpedeiros e mais de 20 barcos foram afundados pelos Stukas.

 

Angustiado, o general Gort enviou uma mensagem urgente ao seu governo, solicitando o apoio maciço da RAF. Churchill, então, resolveu enfrentar a situação com energia e ordenou que participassem da batalha a totalidade dos aviões de caça, incluindo os Spitfires que, até aquele momento, haviam sido zelosamente reservados para a defesa das Ilhas Britânicas. Realizando até quatro incursões diárias sobre Dunquerque, os pilotos da RAF conseguiram derrubar diversos aviões alemães e frustraram os planos de Goering de aniquilar pelo ar as indefesas tropas aliadas, encurraladas nas praias do Canal.

 

Concluída a retirada

 

Na tarde de 30 de maio, Churchill ordenou a Gort abandonar Dunquerque no momento em que suas forças ficassem reduzidas a apenas três divisões. Por sua vez, o general britânico pediu às autoridades navais que acelerassem ao máximo o ritmo dos embarques, pois, o perímetro defendido, constantemente debilitado pela ininterrupta evacuação, se desmoronaria em menos de dois dias.

 

 Antes de partir para a Inglaterra, Gort avistou-se com o almirante Abrial,. chefe das forças francesas em Dunquerque, comunicando-lhe que deixava no porto três divisões para apoiar a última fase da evacuação. Na tarde do dia 31, o comandante britânico deixou as praias de Dunquerque. Para ele a luta havia terminado. Com resolução obstinada, conseguira salvar o Exército inglês do aniquilamento certo.

 

Em Dunquerque estava, também, a quase totalidade da forças francesas. Nesse mesmo dia, Churchill e os dirigentes franceses mantiveram uma dramática reunião em Paris. Reynaud e o general Weygand assinalaram com amargura, que até aquele momento os navios britânicos se haviam limitado quase exclusivamente a embarcar tropas inglesas. Só 15.000 franceses haviam sido evacuados de Dunquerque. Churchill então prometeu que a Marinha inglesa faria um grande esforço para resgatar o máximo de franceses possível e que os últimos ingleses ficariam para cobrir a retaguarda as tropas que ainda permaneciam na cabeça-de-ponte e exigiu que se permitisse aos soldados ingleses cobrir a retaguarda e embarcar por último.

 

Enquanto os dirigentes Aliados conferenciavam em Paris, na sitiada Dunquerque, o general Alexander, sucessor de Gort, comunicou inesperadamente ao almirante Abrial que decidira embarcar as suas tropas naquela mesma noite, pois acreditava que os alemães ocupariam o porto em questões de horas.

 

O General Fagalde, assistente de Abrial, retrucou enfurecido que o chefe britânico deveria cumprir as ordens de Gort e permanecer em Dunquerque, para apoiar a evacuação dos franceses. Após uma discussão áspera e extensa, Alexander aceitou prorrogar a hora de seu embarque, apenas até a manhã do dia seguinte. Poucas horas depois, o almirante Abrial recebia um telegrama urgente de Paris, no qual os dirigentes aliados, comunicavam a sua decisão, de que as tropas britânicas ficassem encarregadas da defesa da retaguarda. Imediatamente Abrial transmitiu a ordem a Alexander mas, este se negou a acatá-la.

 

A partir das primeiras horas da manhã de 1° de junho, a Luftwaffe reativou seus furiosos ataques sobre Dunquerque. Um verdadeiro dilúvio de bombas foi descarregado sobre o porto e as praias, afundando mais de 30 barcos cheios de tropas. Alarmado com essas perdas catastróficas, Churchill comunicou a Reynaud, por telegrama, que devido à gravidade da situação, autorizara o general Alexander a embarcar nessa mesma noite, se ele considerasse necessário, a totalidade de suas forças.

 

À meia-noite de 1° de junho, Alexander abandonou Dunquerque, juntamente com as sua três últimas divisões. Na cabeça-de-ponte ficava uma reduzida força britânica, integrada por 4.000 soldados e alguns canhões antitanques. A intensidade dos ataques aéreos alemães, somada ao fogo mortífero das baterias instaladas na costa marítima, impediram a evacuação durante o dia. Ao cair da noite, o Almirantado resolveu fazer um esforço maciço e enviou 88 barcos, que recolheram os últimos soldados ingleses e cerca de 20.000 franceses.

 

 Durante a noite de 3 de junho, outros 26.000 franceses foram recolhidos nas praias. O Almirante Abrial, abandonou finalmente o porto às 22h e partiu para a Inglaterra nua lancha a motor. Havia terminado a Operação Dínamo.

 

Anexo

 

Ordem de Weygand

Dirigida ao exército francês no dia 26 de maio de 1940

“1. A batalha  da qual depende a sorte do país será encarada com o espírito de não retroceder em nenhum momento.

2. Para ter segurança de deter o inimigo é necessário dar prova de uma constante agressividade. Se uma unidade constata que a unidade vizinha ficou para trás, não deve recuar a nenhum preço e deve tentar restabelecer a situação e, em caso de não poder fazê-lo, converter-se em ouriço e constituir num núcleo de resistência.

3. Todas as retaguardas da linha principal e na maior profundidade possível devem ser organizadas em centros de resistência, especialmente sobre as vias de acesso...

4. É necessário que todos os generais-de-divisão entrevistem-se com muita freqüência com os coronéis, estes com seus chefes de batalhão, estes com os de suas companhias, os capitães e tenentes com seus soldados. Atividade. Solidariedade. Decisão”.

 

 

“Eu creio no milagre...”

No dia 22 de maio de 1940, Paul Reynaud anuncia no Senado a incorporação do Marechal Pétain ao Governo e a designação do General Weygand como comandante-chefe do Exército.

“Reynaud: Quando, anteontem, cheguei ao Ministério da Guerra, ali encontrei o Marechal Pétain e o General Weygand (aplausos).

Senador Reinel e muitas vozes: Finalmente!

Senador Jesse: É um pouco tarde, mas já que estão conosco...

Senador Reinel: Não é demasiado tarde!

Reynaud: Diante das desgraças que atravessa nossa pátria, nos sentimos orgulhosos de pensar que dois de nossos filhos, que tem o direito de repousar, em suas glórias, vieram colocar-se, nesta hora trágica, ao serviço do país... Se me disserem, algum dia, que só um milagre pode salvar a França (aplausos) nesse dia, eu diria: Eu creio no milagre, porque creio na França! (novas aclamações).

 

 

Rei Leopoldo

“Devo anunciar ao povo francês um grave acontecimento. Este fato ocorreu durante a noite. A França já não pode contar com o Exército belga. O Rei Leopoldo III, sem uma palavra para os soldados franceses e ingleses, depôs as armas. É um fato sem precedentes, na História” Paul Reynaud. Primeiro Ministro da França. 28 de maio de 1940.

“Não tenho a intenção de instigar a Câmara para que julgue neste instante o ato do rei dos belgas em sua condição de Comandante-Chefe do Exército de seu país. Esse Exército lutou valentemente e sofreu e infligiu gravíssimas perdas” Winston Churchill, Primeiro Ministro da Inglaterra. 28 de maio de 1940.

10 de maio de 1940 - 28 de maio de 1940

No dia 10 de maio de 1940, a tempestade se abateu sobre os belgas. As divisões blindadas de von Bock e a infantaria de von Reichenau atravessaram o Canal Alberto, primeira linha defensiva belga, cruzando por pontes que permaneceram misteriosamente intactas. É possível que Leopoldo tivesse a intuição, com dramática lucidez, da arrasadora superioridade alemã e da inevitável derrota. É possível, também, que Leopoldo tenha tratado de poupar o povo belga de novos sofrimentos. A realidade não poderia ser mais dolorosa. A batalha era desesperada, as munições escasseavam, as ordens e contra-ordens, principalmente do Governo francês, haviam convertido a situação numa horrível confusão; os refugiados não tinham alimentos, os feridos precisavam de medicamentos. Que podia fazer efetivamente, o rei? Resistir até o último homem ou entregar-se.

O tempo em que a Europa foi ensangüentada numa luta sem precedentes na História, Leopoldo passou em seu retiro de Laeken. Entre suas atividades desse período, sabe-se de uma visita ao QG de Hitler, em Berchtesgaden. Finalmente, em junho de 1944, ante o avanço das forças aliadas, Leopoldo, com seus filhos e a esposa Liliana Baels, abandonaram Laeken e passaram para a fortaleza de Herschstein, na Alemanha. Terminada a guerra e repudiado pelo povo belga, ele abdicou em favor de Balduíno, seu filho mais velho. Foi em 16 de julho de 1951. Leopoldo havia deixado de ser rei dos belgas.

 

 

Soldado até o fim

Canal Ypres-Comines. Algumas centenas de soldados ingleses defendem desesperadamente aquela última linha. Em seu redor, dezenas de milhares de soldados aliados se agrupam na costa, à espera dos barcos que os conduzirão à Inglaterra.

Frente à débil linha inglesa, os alemães, seguros de sua vitória, desenvolvem a ação com calma e sangue-frio. Mais que isso: comportam-se como se achassem em manobras de treinamento e não numa guerra cruel e sem piedade. Um setor de trincheiras, defendido por vários pelotões de granadeiros britânicos, enfrenta um ataque de uma companhia alemã. Os nazistas, detidos pela valente resistência, redobram seus esforços para conquistar a posição. Mas tudo é inútil. A defesa não cede. Vários soldados alemães, enviados em missão de reconhecimento, caem sob os tiros dos ingleses. E, então, acontece o episódio desconcertante. Nas posições alemães, um oficial se prepara. Traja um capote impecável e botas reluzentes. É o tenente Georg, comandante da companhia. Empunha seus binóculos e observa atentamente as linhas britânicas. Dez segundos depois, os binóculos caem de suas mãos. Seu rosto empalidece e torna-se branco. Volta-se cambaleando para seus homens, que permanecem escondidos. Uma grande mancha vermelha começa a crescer sobre seu peito, umedecido o capote. Aproxima-se de seus soldados e olha-os fixamente. Em seguida, enquadrando-se, diz em volta alta: O tenente Georg anuncia a sua morte, em combate!. Depois, leva a sua mão direita à fronte, e bate uma rígida continência. Dois segundos depois e tomba morto.

 

 

O “soldado” Augusta Hersey

O soldado Bill Hersey enquadrou-se, bruscamente. Alguém lhe havia sacudido pelos braços, sem contemplação. Uma voz, muito próxima, gritava em tom enérgico: - Companhia, de pé! Rápido, todos. Voltaremos à Inglaterra! Bill Hersey sentiu um calafrio. Compreendeu que não havia tempo a perder. Aproximou-se do capitão Smith. - Senhor... Posso fazer algo por minha mulher?

O capitão o olhou fixamente. Talvez, nesse instante, tenha pensado em expulsá-lo dali. Talvez considerasse a possibilidade de castigos severos. Em plena guerra, em pleno desastre, um soldado perguntava o que poderia fazer pela sua mulher... Mas, seguramente, o capitão talvez tivesse pensado em sua própria mulher, que o esperava na Inglaterra. E respondeu somente isto: - Pode trazê-la.

Pedalando rápido, Bill Hersey chegou ao povoado de Tourcoing. Cruzou as ruas desertas e parou ante uma pequena casa. Eram 2:30 horas. Ele chamou quase aos gritos: - Augusta! Augusta! Uma jovem mulher surgiu apressada. Hersey tomou-a por ambos os braços e lhe disse, quase gritando: - Apanha sua roupa e vem comigo. Rápido, para a Inglaterra!

O capitão Smith percorria as fileiras de seus homens, quando Bill Hersey chegou arquejante: - Meu capitão... Minha mulher está comigo. - Que suba em meu carro... Mas , antes , é necessário que ela troque de roupa. Tudo foi muito rápido. Vestida com calças e camiseta do exército, capacete à cabeça e fuzil nas mãos, a pequena Augusta saltou para o jipe que encabeçava a coluna. Uma troca de palavras com o capitão Simith e o chofer foi o bastante. Depois, o veículo partiu. Atrás dele, em 12 caminhões, os homens da companhia também puseram-se em marcha. Entre eles estava Bill Hersey, o soldado inglês do Esast Surreys. Augusta era francesa, tinha 21 anos e não sabia inglês. Bill Hersey, com dicionário na mão, a pedira em casamento. Ela aceitara. Agora o destino de ambos era comum.

Seis semanas antes do desastre de Dunquerque, Bill e Augusta eram marido e mulher, para a paz e para a guerra.

 

 

Brauchitsch

Verdun, França, 1916. O inferno sobre a Terra.

Uma das mas gigantescas batalhas de todos os tempos envolve centenas de milhares de homens. Nas fileiras imperiais, um capitão, ainda desconhecido, planeja “na mente” os movimentos que se deveriam realizar. Fala com seus chefes, comunica-lhes as suas idéias e consegue que algumas sejam tomadas em consideração. No comando de sua divisão, algum menciona, ao passar o nome do obscuro capitão. E é provável que algum chefe tenha franzino o cenho, ao perguntar: Brauchitsch? Quem é ele?

O tempo dirá que é Brauchitsch. E também a Cruz de Ouro do Partido Nazista, a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro e o grau máximo de Marechal-General-de-Campo o dirão. E, junto a tudo isto, o Comandante-Supremo da Wehrmacht.

Henrique Alfredo Herman Gualterio von Brauchitsch nasceu em Berlim, em 4 de outubro de 1881. Filho de um general de cavalaria, seu destino só poderia ser a carreira das armas.

Aos 14 anos, ingressou no Corpo de Cadetes. Cinco anos depois, aos 19 anos, dirige-se ao seu primeiro destino: o Regimento da Rainha  Elizabeth (Granadeiros da Guarda n° 3). É um simples tenente. Falta muito ainda para que o círculo se feche.

1914. Brauchitsch combate nas Argonas e em Verdun. Seu valor e inteligência o distinguem rapidamente. Em 1921, começa a desenvolver as suas idéias em outras frentes: o da mesa de comando. Além disso, é encarregado da reorganização das forças armadas, desde a criação do Ministério do Reichswehr. Em 1928, chega a coronel e em 1930 retorna àquele Ministério. Em 1931, chega a general, permanecendo até 1933, ano em que o nazismo subiu ao poder. Passa, então, ao seu novo comando: Prússia Oriental. Cargo: comandante em chefe da 1ª Divisão e da Região Militar. Em outubro de 1933, é promovido a tenente-general. Chega o ano de 1937 e a grande catástrofe se aproxima. Von Brauchitsch sobe na sua carreira, que culminará com o posto máximo. Em 1937 é o chefe do 4° Exército e, no ano seguinte, passa a Coronel-General, em substituição a von Fritsch. Será, desde esse momento, Comandante-Supremo do Exército alemão.

Chega a guerra

Se bem que a Segunda Guerra tivesse começado oficialmente a 1° de setembro de 1939, seus antecedentes remontam aos primeiros meses de 1938, no que se refere a movimentação efetiva de tropas, avanços e ocupações militares. De fato, foi em março de 1938, que as tropas sob o comando de von Brauchitsch ocuparam a vizinha Áustria, culminando um processo de pressão exercida pela Alemanha. Em setembro de 1938, ocorreu o episódio dos “sudetos”, cujo dramático final, a cargo do exército alemão, foi dirigido por von Brauchitsch. A ocupação, iniciada em setembro de 1938 foi concluída em março de 1939. No dia 15 do mesmo mês, as tropas alemães entraram em Praga, eliminando a Checoslováquia como nação independente.

O final

Dia 1° de setembro de 1939. Hora: 4:45hs. As primeiras luzes da madrugada iluminavam os muros de Dantzig. A guerra havia começado. À frente da formidável força que começa o seu avanço sobre a Polônia, está von Brauchitsch, Comandante-em-chefe da Wehrmacht.

 

 

Mensagem a Lord Gort

No dia 27 de maio de 1940, Churchill enviou o seguinte telegrama ao General Gort: “Nestes momentos tão solenes não posso fazer outra coisa senão expressar-lhe os meus melhores votos. Ninguém sabe como sairemos desta. Mas tudo é melhor que ficar cercados e mortos de fome. Exponho as seguintes observações: Primeiro: lançar todos os tanques ao ataque, já que estariam perdidos deste ou de outro modo. Segundo: guardo fundados temores com relação a Ostende até que não seja ocupada por uma brigada de artilharia...

2. É necessário agora informar aos belgas. mandei este telegrama a Keyes, mas seria necessário que você estabelecesse contato pessoal com o rei. Estamos pedindo-lhes que e sacrifiquem por nós.

3. Supomos que nossas forças sabem que empreendem o regresso à pátria. Proporcionaremos toda a colaboração da Marinha e da Força Aérea. Anthony Eden está a meu lado nestes momentos e lhes deseja, igualmente, muito boa sorte.

 

 

“Você é nosso prisioneiro”

9° Exército francês. Acampamento: Rio Mosa, entre Namur, na Bélgica, e Sedan, na França.

As unidades francesas resistem desesperadamente ao violento ataque alemão. Paris, sede do Alto-Comando Aliado. Um acúmulo de ordem e contra-ordens se sucede. A desorientação começa a desorganizar as fileiras.

Chegam informações da frente do 9° Exército. A situação é insustentável. Torna-se imprescindível uma mudança de comando. Imediatamente partem as ordens. O general Henri Giraud, comandante do 7° Exército francês, deverá assumir o comando do 9°.

O general Giraud, acompanhado de seu Estado-Maior, parte num relance. Uma pequena coluna de veículos os conduz a toda velocidade. Duas horas depois, os automóveis param diante das portas do QG do 9° Exército. Giraud desce, caminha alguns passos e se detém. Os oficiais que o seguem não podem ocultar o seu assombro. De frente, em posição de sentido, soldados alemães os recebem com saudação militar. Um oficial alemão adianta-se. Bate os calcanhares e saúda. Em seguida, sem deixar a sua posição de sentido, diz, com firmeza: - Senhor general, sois nosso prisioneiro...!

Com assombro no rosto, Giraud dirige-se para o interior do comando. Tudo havia terminado com ele. Um oficial que o segue interroga um oficial alemão. E a resposta não tarda: - Tiveram má sorte, os senhores. O comando anterior do 9° Exército abandonou a região há meia hora. Quinze minutos depois, nós chegamos. Seria falta de consideração não esperarmos os senhores...

Assim, de modo tragicômico Giraud marchou à prisão.

 

 

Dunquerque em números

Soldados evacuados

27.05 -  7.669

28.05 - 17.804

29.05 - 47.310

30.05 - 53.823

31.05 - 68.014

01.06 - 64.429

02.06 - 26. 256

03.06 - 26.746

04.06 - 26.175

Total:  338.226

Foram usados 168 barcos de guerra e 17 foram afundados.

Foram usados 689 barcos de todos os tipos e 226 foram afundados.

No total foram usados 857 barcos e 243 afundados.

Material abandonado

90.000 fuzis - 8.000 metralhadoras - 2.472 canhões - 63.879 veículos - 20.548 motos - 6.097 toneladas de munição.

Baixas aliadas: 68.000 mortos, feridos e prisioneiros. Não evacuados: 40.000

Atuação da RAF - 9 dias de campanha - 4.822 horas de vôo - 101 missões de patrulha - 265 aviões inimigos destruídos - 177 aviões empregados.

 

 

 

 

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