Campanha da França

 

A Derrota final

 

Batalha da França

 

 

Os alemães irrompem no Soma

 

Às 4 horas da manhã de 5 de junho, as forças de Von Bock lançaram-se ao ataque, apoiadas por toda a sua artilharia e pelo bombardeio das esquadrilhas de Stukas. O assalto principal foi feito pelo grupo blindado do general Kleist.

 

Partindo de Amiens e Peronne, 2 DPs, integradas por mais de 1.200 tanques, rumaram ao sul, numa manobra de pressão, para romper a frente e separar os exércitos franceses que defendiam a “Linha Weygand”. Os tanques, flanqueando as posições fortificadas, conseguiram se infiltrar rapidamente para sul, mas, as forças de infantaria foram detidas pela encarniçada resistência dos franceses. Ao cair da noite, a Linha Weygand se mantinha de pé, mas, o dispositivo defensivo havia perdido a coesão.

 

Sobre a costa do Canal, o corpo blindado de Hoth irrompeu velozmente pelas linhas francesas. A 7ª DP do general Rommel, cruzou o Soma, através de uma ponte ferroviária, de onde os alemães, horas antes, haviam retirado os trilhos e dormentes para permitir a passagem dos tanques e caminhões.

 

No dia seguinte, os alemães repetiram o ataque com tremenda violência. Uma divisão blindada francesa tentou conter o avanço dos tanques de von Kleist, mas, enquanto abria caminho para a frente,  foi atacada pela aviação e, em poucos minutos, perdeu mais da metade de seus veículos. Nessa tarde, os exércitos franceses começaram a recuar para o sul.

 

Na manhã do dia 7, as forças de von Bock penetraram na Linha Weygand, em toda a frente. A batalha frente ao Soma estava praticamente vencida. Durante o dia, os tanques de Rommel, com uma investida fulminante, romperam a frente e dividiram em dois, o 10° Exército francês, empurrando parte de suas forças contra as costas do Canal da Mancha. Nesta noite, os blindados alemães se aproximaram até menos de 40 km da cidade de Ruão, situada na foz do rio Sena.

 

A oeste, os alemães conseguiram também entrar nas linhas francesas, mediante um movimento de “pinças”, realizado pelos Panzer em torno de Soissons. Diante da ameaça sobre os dois flancos dos três exércitos situados  frente ao Soma, a 8 de junho, o Alto Comando francês ordenou uma retirada geral sobre o Sena e a zona fortificada ao norte de Paris.

 

 

 

Cai a frente do Aisne

 

A 9 de junho, nova catástrofe abateu-se sobre o Exército francês. Às 3:30h, o Grupo de Exércitos do general von Rundstedt lançou-se ao ataque no leste e, precedidos pelas quatro Divisões Panzer de Guderian, iniciou o cruzamento do rio Aisne. A luta se estendia, assim, a toda a frente. Angustiado, Weygand compreendeu que o fim estava próximo.

 

Nessa mesma noite, o Governo francês se reuniu com urgência, para considerar a crítica situação. Weygand informou que, devido à nova ofensiva lançada pelos alemães, Paris corria perigo de ser ocupada a curto prazo. Reynaud, alarmado, tomou as primeiras medidas para evacuar o governo da capital. O primeiro-ministro informou, também, que, baseado em despachos de Roma, deveria esperar-se a intervenção da Itália na guerra, em questão de horas.

 

Enquanto Reynaud conferenciava em Paris com seu gabinete, o general De Gaulle, designado quatro dias antes sub-secretário da Defesa, se reunia com Churchill, em Londres. O chefe francês comunicou ao dirigente inglês que seu governo estava disposto a prosseguir a luta contra os alemães, ainda que o território francês fosse totalmente ocupado. A resistência continuaria nas colônias de ultramar. Churchill recebeu com grande satisfação a notícia, mas, quando De Gaulle solicitou mais aviões ingleses para combater na França, a negativa foi contundente. Devido às duras perdas sofridas na batalha aérea de Dunquerque, a RAF tivera as suas esquadrilhas reduzidas ao mínimo indispensável para assegurar a defesa das Ilhas Britânicas. De Gaulle declarou a Churchill que compreendia sua situação e não insistiu no pedido. Na mesma tarde, regressou a Paris, decidido a lutar firmemente contra os partidários, cada vez maiores, de um armistício com os alemães.

 

Durante o dia 10 de junho, os exércitos franceses sofreram novas e decisivas derrotas. A oeste, os tanques de Rommel alcançaram, em Fécamp, as costas do Canal da Mancha e completaram o envolvimento do grosso do 10° Exército francês. Ao centro, as vanguardas alemães ocuparam Chateau Thierty, nas margens do rio Marne. As forças que defendiam Paris ficaram, assim, separadas dos exércitos que, a leste, lutavam nas margens do Aisne.

 

Neste último setor, a situação era extremamente grave. Os Panzer de Guderian, esmagando tudo pela frente em seu avanço, penetraram profundamente para o sul. Ao entardecer, os franceses tentaram realizar um contra-ataque com suas últimas divisões blindadas. A 3ª DB, apoiada por duas divisões mecanizadas, atacou o flanco direito da cunha aberta por Guderian, mas, foi rechaçada, sofrendo terríveis perdas. Os Panzer agora, com o caminho totalmente livre, avançaram a toda velocidade pelas planícies de Champanhe, em direção à fronteira Suiça.

 

A Itália entra na guerra

 

Às 16 horas do dia 10 de junho, o embaixador francês em Roma, André Françoi-Poncet, telefonou a Reynaud, informando que acabara de receber das mãos do conde Ciano a comunicação da declaração de guerra do Governo italiano.

 

Na mesma tarde, Mussolini dirigiu-se à imensa multidão reunida defronte dos balcões do Palácio Veneza, num vibrante discurso, anunciando a entrada da Itália na guerra. O Duce, alarmado com a rapidez do avanço alemão, havia decidido participar da luta, antes que expirasse a resistência francesa, para fazer valer seus direitos, na hora de repartir os territórios da nação vencida.

 

Logo depois de receber a comunicação de Poncet, o Governo francês resolveu abandonar Paris. À meia-noite, Reynaud acompanhado pelo general De Gaulle, partiu de automóvel à cidade de Orleans. Tão logo se difundiu a notícia, milhares de parisienses lançaram-se em fuga, provocando uma espantosa confusão nas estradas para o sul.

 

A derrota já era inevitável. No dia 11, as forças de von Bock cruzaram o Sena, em vários pontos e cercaram Paris pelo oeste. Mas, a operação decisiva ocorreu a leste. Depois de cruzar o Aisne, as forças de Rundstedt ocuparam a cidade de Reims e partiram a toda velocidade para o Marne. O Alto Comando da Wehrmacht decidiu, então, explorar a fundo esta penetração e ordenou ao grupo blindado do general von Kleist rumar, sem demora, para o setor de operações de von Rundstedt. Assim, sob o comando deste chefe, ficou o grosso dos blindados; num total de 8 DPs, comandados por Guderian e von Kleist.

 

Mais de 2.000 tanques se precipitaram, então, como uma gigantesca avalanche de fogo e aço, sobre o flanco direito dos exércitos franceses. Guderian recebeu ordens de dirigir suas divisões a Bensançon e Belfort, para envolver pela retaguarda a Linha Maginot, enquanto von Kleist marchou diretamente ao sul, para completar a ocupação do território francês, até às costas do Mediterrâneo.

 

Em meio a esta situação crítica, Churchill chegou ao aeroporto da cidade de Briare, onde Weygand havia instalado o seu QG. De tarde, o premier inglês manteve larga e dramática conferência com dirigentes franceses e tomou conhecimento da desesperada situação que enfrentavam os seus exércitos. Reynaud, na ocasião, informou que Pétain lhe havia comunicado que a França deveria solicitar um armistício aos alemães, sem mais demora.

 

Churchill conclamou Weygand a prosseguir uma guerra sem quartel contra os alemães e a converter Paris em um campo de trincheiras, para conter o avanço da Wehrmacht. Mas, o chefe francês já havia ordenado à guarnição da Capital que abandonasse a cidade com suas forças, para evitar a sua destruição. A resistência em Paris em nada alteraria o resultado final.

 

Queda de Paris

 

No dia 12, as divisões de Guderian e Von Kleist prosseguiram o seu avanço incontido para o sul. Weygand, então, ordenou que os exércitos situados na Linha Maginot abandonassem de imediato as fortificações e se dirigissem para oeste, para escapar do cerco e incorporar-se ao resto das forças francesas. Mas, já era tarde demais

 

Dois dias depois, o Grupo de Exércitos C, do general Von Leeb, desencadeou, do norte para leste, um ataque frontal contra a Linha Maginot, para completar a manobra de envolvimento iniciada pelos blindados. Com supremo esforço, Guderian conseguiu, no dia 17, alcançar a fronteira suíça. O cerco estava concluído. Mais de 500.000 soldados franceses acabavam de ficar encurralados, na bacia do Reno.

 

Por seu lado, a sorte de Paris estava selada. Na tarde do dia 12, o General Hering, comandante da guarnição, abandonou a cidade, e, no dia seguinte, suas forças retiraram-se para o rio Loire. Atrás, ficou o general Dentz, com a dolorosa missão de render Paris aos alemães. Na madrugada do dia 14 de junho, as unidades de vanguarda do 18° Exército de von Kuchler entraram em Paris. Um grupo de oficiais se dirigiu ao posto de comando do general Dentz e o fez prisioneiro. Rapidamente, segundo um plano pré-determinado, os alemães designaram destacamentos para os pontos principais da cidade. Pouco depois do meio-dia, os batalhões da Wehrmacht desfilaram diante do túmulo do soldado desconhecido. No Arco do Triunfo, ondulava bandeira nazista. Nesse meio tempo, em Tours, os dirigentes franceses achavam-se empenhados numa amarga e violenta polêmica em torno da questão do armistício. Weygand, apoiado por Pétain, propunha entrar o quanto antes em negociações com os alemães, para terminar o sacrifício inútil do exército. Reynaud apoiado por De Gaulle, negou-se a abandonar a luta e declarou que estava disposto a seguir para a África do Norte, para continuar dali a guerra contra os alemães.

 

Mas, a magnitude do desastre foi crescendo a cada dia. Os partidários da rendição, cada vez mais numerosos, uniram-se em torno do marechal Pétain, o velho herói de Verdun. Ele declarou abertamente que estava decidido a não abandonar a França, para prestar um último serviço a seus compatriotas, permanecendo junto deles, na hora da derrota.

 

Na noite de 14 de junho, o general Alan Brooke, comandante-chefe das forças inglesas que ainda permaneciam na França, telefonou a Churchill, informando que, em vista dos informes que acabavam de receber do general Weygand, sobre a total desintegração dos exércitos franceses, considerava necessário evacuar, sem demora, todas as forças inglesas. Churchill, sem hesitar, autorizou o plano. No dia 16, quase todos os soldados ingleses já haviam sido embarcados para a sua pátria.

 

Pétain assume o governo

 

Pressionado pelos constantes ataques das forças de von Bock, o restante dos exércitos franceses, situados frente ao Sena, retirou-se desordenadamente para o sul, para entrincheirar-se nas margens do Loire. Ante a ameaça do avanço alemão, o governo francês abandonou Tours no dia 14 e foi para Bordéus, na costa do golfo de Biscaia. Ali se desenrolaria o último capítulo do drama.

 

Reynaud estava disposto a prosseguir a luta. No dia 15, enviou De Gaulle à Londres para pedir ajuda da Marinha britânica, para transportar o máximo de tropas francesas para as colônias da África do Norte. Na verdade, tal operação era totalmente irrealizável. Os exércitos franceses haviam deixado praticamente de existir, como unidades organizadas. Despedaçados pelo golpes demolidores das divisões Panzer, eles se haviam desagregado em grupos isolados. Algumas unidades estavam entrincheiradas na Bretanha, o restante das numerosas divisões estavam agrupadas no Loire e, no leste, três grandes exércitos combatiam encarniçadamente, cercadas pelos tanques de Guderian e pelas forças de von Leeb.

 

Quase 8 milhões de refugiados, provenientes das províncias ocupadas haviam invadido todos os caminhos para o sul, paralisando o deslocamento das colunas de tropas. As ferrovias e transportes não funcionavam. As redes telegráficas e de comunicações estavam paralisadas, em sua maior parte, interrompidas. Além disso, a Luftwaffe, senhora absoluta dos céus, bombardeava incessantemente as rodovias, pontes, centros ferroviários, portos e cidades. Nestas condições, a concentração e transporte para a África de 900.000 soldados, proposta por Reynaud e De Gaulle, era totalmente irrealizável.

 

O desenlace ocorreu, finalmente, 16 de junho. Às 17 horas, o Conselho de Governo iniciou a sua histórica sessão. Albert Lebrun, presidente da República, dirigia a reunião. Reynaud deu a conhecer aos ministros a última mensagem de Churchill. Era a proposta de uma aliança indissolúvel entre a Inglaterra e a França, no campo político, econômico e militar. Ambos os países, enquanto durasse a guerra, seriam regidos por um governo comum e teriam um único Parlamento.  Tal projeto havia sido delineado por Jean Monnet, chefe da missão econômica francesa em Londres e apresentado a Churchill pelo general De Gaulle. O primeiro ministro entusiasmado, adotou-o imediatamente, na crença de que reforçaria a posição de Reynaud. Na verdade, ocorreu o contrário.

 

Vários ministros partidários de Pétain assinalaram, indignados, que o plano eqüivaleria a converter a França num satélite inglês. Segundo eles, a Inglaterra o aproveitaria exclusivamente para apoderar-se da Marinha francesa e das colônias francesas do ultramar.

 

Reynaud, abatido, compreendeu que tudo estava terminado. Entretanto, realizou um derradeiro esforço e disse a seus colegas que a França não podia, sob pena de desonrar-se, repudiar os compromissos que havia contraído com a Inglaterra. Seus argumentos dissolveram-se no ar. A maioria dos ministros manifestou-se a favor do armistício. Reynaud, então, apresentou a sua renúncia ao presidente Lebrun. Este, sem demora, confiou a chefia do Governo ao marechal Pétain.

 

A sorte da França estava selada. Na mesma tarde, De Gaulle chegou a Bordéus de avião e, com surpresa e raiva, inteirou-se da saída de Reynaud. Sem hesitar um instante, resolveu retornar à Inglaterra, para prosseguir dali a luta contra os alemães. Para ele, a batalha estava começando há pouco. Na mesma noite, De Gaulle despediu-se de Reynaud e, no dia seguinte, regressou à Londres, acompanhado pelo general britânico Spears. Imediatamente, seu nome converteu-se no símbolo da luta pela libertação da França.

 

O armistício

 

A 17 de junho, o marechal Pétain dirigiu mensagem pela rádio ao povo francês e, com voz embargada, anunciou, que, na noite anterior, havia iniciado negociações de paz com os alemães.

 

No mesmo dia, as divisões Panzer de Guderian chegaram à fronteira suíça e completaram o cerco da Linha Maginot. A oeste, os tanques do general Hoth penetraram na península da Bretanha e ocuparam a cidade de Rennes. Por sua vez, Rommel sitiou Cherburg, mas, não pôde impedir que as últimas forças inglesas escapassem, através do Canal. A luta chegava ao fim. Na frente do Loire, entretanto, os alemães encontraram uma resistência inesperada. Comandados pelo coronel Michon, os 2.000 jovens cadetes da Escola de Cavalaria de Saumur, se entrincheiraram nas margens do rio e, lutando valorosamente, detiveram por dois dias, o avanço das tropas de von Bock.

 

Na noite do dia 18, Hitler deixou, de trem o seu QG em Charleville e dirigiu-se a Munique. Ali, se entrevistou com Mussolini e lhe comunicou seus planos sobre o armistício. Permitiria aos franceses conservarem a sua frota, para que não a entregasse aos ingleses; além disso, limitaria a ocupação aos territórios do norte e da costa do Atlântico. Assim, o governo de Pétain poderia exercer uma soberania nominal sobre a região sul do Loire e não abandonaria a França.

 

Na manhã seguinte, o embaixador espanhol José de Lequerica telefonou a Paul Baudouin, ministro das Relações Exteriores de Pétain, e comunicou-lhe que os alemães estavam dispostos a revelar as condições do armistício aos representantes plenipotenciários que o Governo francês designasse. Sem demora, o Gabinete designou delegados o general Huntziger e Léon Noel, ex-embaixador em Varsóvia. Três altos chefes da Marinha, Exército e Aviação atuariam como seus assessores.

 

Na tarde de 20 de junho, Huntziger e seus companheiros deixaram Tours de automóvel e partiram para o norte. Ao cair da noite, cruzaram as linhas alemães no Loire e foram conduzidos até Paris. Pouco depois das 17 horas do dia 21 de junho de 1940, os delegados franceses chegaram ao bosque de Compiègne. Ali, no vagão ferroviário em que os representantes alemães firmaram a capitulação ao fim da Primeira Guerra, eles eram esperados por Hitler, acompanhado por Goering, Hess, Raeder e Keitel.

 

Sem pronunciar uma palavra, Hitler convidou os franceses a se sentarem e, com um sinal de mão, indicou Keitel que iniciasse a leitura dos documentos. A emoção contagiava a todos presentes. Depois que Keitel concluiu sua exposição, Hitler ficou de pé e entregou a cada um dos delegados uma cópia do texto do armistício. Em seguida, fez a saudação nazista e saiu do vagão.

 

A cerimônia havia terminado, Contudo as discussões entre Huntziger e Keitel prolongaram-se até à tarde do dia seguinte. Pouco depois das 18 horas do dia 22 de junho, o chefe francês recebeu a ordem definitiva de seu Governo para firmar o armistício. Minutos depois, colocou sua assinatura ao pé do documento. Após trocar uma breve saudação com Keitel, Huntziger e seus companheiros dirigiram-se a Paris, para viajar para Roma.

 

Tão logo os delegados franceses abandonaram Compiègne, um destacamento alemão começou a desmontar o vagão. Por ordem de Hitler, o histórico veículo deveria ser conduzido imediatamente a Berlim, junto com a placa e o monumento comemorativo da vitória francesa de 1918.

 

Na madrugada de 21 de junho, o Exército italiano, por ordem de Mussolini, lançou-se ao ataque contra a fronteira sul da França, no setor dos Alpes. Apesar da esmagadora superioridade de seus efetivos, os italianos não conseguiram vencer a dura resistência das três divisões alpinas francesas. No dia seguinte, as forças de von Rundstedt receberam a rendição das tropas francesas agrupadas na Linha Maginot e prosseguiram sem demora o seu avanço para o sul.

 

Na tarde de 24 de junho, Huntziger firmou em Roma o armistício com a Itália. Às 21 horas, o Alto Comando francês ordenou o cessar fogo a todas as unidades e logo após a meia-noite, os últimos remanescentes do exército francês depuseram as armas em todas as frentes. A campanha da França, desse modo, estava terminada.

 

Anexo

 

Nas cidades alemães fronteiriças (viagem de um correspondente)

Aquisgrân, maio, 19

O correspondente chegou a esta cidade após um dia de viagem de Berlim, junto com outros jornalistas, rumo à frente belga, com autorização do Alto-Comando alemão. Durante a viagem, passeantes dominicais e grupos de crianças que dava alegres “vivas”, ao ver nossos carros militares e agitavam flores, rindo despreocupadamente e indiferentes ao que ocorria. Seguramente, não há sinais de que o país está em guerra. Nas redondezas de Hanover, os automóveis se detiveram e os jornalistas puderam ver um avião inglês de bombardeio derrubado na noite anterior. Era uma massa de metal retorcido que jazia nas encostas de um pequeno riacho, no meio do campo A hélice estava quebrada e o motor, destroçado, a alguns metros do local. Parte do avião se havia queimado. Dos 5 tripulantes que desceram de pára-quedas, 4 haviam sido presos, mas o outro fugira para um bosque próximo. No caminho de Berlim, o correspondente passou ao lado de compridas colunas motorizadas de abastecimento que se dirigiam para a frente; também vimos dois grandes trens de carga conduzindo automóveis, canhões, cozinhas de campanha e outro levado tropas. Várias colunas de caminhões vazios voltavam para leste; um desses levava, atados em seus radiados, capacetes belgas. As pontes estavam guardadas por policiais, em sua maior parte, homens maduros. O único veículo que passou pelo correspondente foi um carro militar, que corria a uns 120 km/hora e levava metralhadoras antiaéreas

 

 

Os alemães em Paris

Depois de um dos maiores êxodos da história moderna, os parisienses que ficaram viram um espetáculo convincente de que nada do que se dizia do Exército alemão era fantasia.

Cada soldado alemão, cada peça de material do Exército, era da melhor qualidade. O correspondente percorreu de bicicleta as colunas alemães que eram dirigidas através da cidade por soldados corpulentos, levando distintivos de sinais brancos e vermelhos.

Desde as primeiras horas da manhã, quando as tropas começaram a entrar, o povo os contemplava silenciosamente e em atitude hostil, ainda que algumas moças trocassem saudações com os soldados. O correspondente pôde ver duas moças sentadas, juntamente com soldados, sobre um pequeno canhão. Os alemães ordenaram à população, em tom cortês mas firme, que todos circulassem. Os policiais franceses, que agora estavam desarmados e não conduziam suas máscaras contra gazes, receberam instruções do governador militar francês, general Dentz, no sentido de serem corteses e não demonstrarem antagonismo e encontraram, como é lógico, grandes dificuldades para cumprir essas ordens. Tais gendarmes formavam pequenos grupos nas esquinas, onde falavam entre si em voz baixa, enquanto soldados em uniformes de campanha dirigem o trânsito.

Na sexta-feira, o general Dentz havia publicado uma proclamação, exortando a população a dominar qualquer pensamento hostil e a não resistir às tropas em circunstância alguma. Já pela tarde, quando mais de 30.000 soldados alemães haviam atravessado a cidade, o povo despojara a máscara da animosidade e era freqüente ver pessoas que abandonaram seu caminho, para ajudar os alemães a se orientarem na grande cidade.

 

 

“... A luta deve cessar...”

Dramática mensagem do marechal Pétain ao povo da França, quando se tornou chefe do governo, a pedido do Presidente da República.

“Franceses: ao responder a um pedido do Presidente da República, assumo desde hoje a chefia do Governo da França. Seguro do afeto de nosso admirável Exército que luta com um heroísmo digno de sua larga tradição militar contra um inimigo superior em número e armas; certo de que com sua magnífica resistência o Exército cumpriu as obrigações com seus aliados; seguro do apoio dos ex-combatentes que tive a honra de comandar e certo da confiança do povo inteiro - entrego-me à França para atenuar o seu infortúnio. Nestas horas penosas, penso nos refugiados sofredores que, totalmente sem recursos, erram pelas nossas estradas. Expresso-lhes minha compaixão e carinho. Com o coração dolorido, digo-lhes hoje que a luta deve cessar. À noite, dirigi-me ao adversário para perguntar se está disposto a buscar comigo, como soldados, depois da batalha e da forma honrosa, os meios para por fim às hostilidades. Todos os franceses devem congregar-se em torno do Governo que presido nestas duras provas e suportar em silêncio a angústia para obedecer somente à fé no destino da Pátria”.

 

 

A Itália declara guerra à França e à Inglaterra

Discurso de Mussolini:

“Combatentes de terra, mar e ar, camisas-negras da revolução e das legiões; homens e mulheres da Itália, do império e do reino da Albânia: escutai! A hora marcada pelo destino golpeia no céu da nossa pátria: a hora das decisões irrevogáveis. A declaração de guerra já foi entregue aos embaixadores da Inglaterra e França. Baixamos à luta contra as democracias plutocráticas e reacionárias do Ocidente, que em todos os tempos criaram obstáculos à marcha e com freqüência atentaram insidiosamente contra a própria existência do povo italiano.

Empunhamos as armas para resolver já solucionado o problema de nossas fronteiras continentais e de nossas fronteiras marítimas; queremos romper as cadeias de ordem territorial e militar que nos estrangulam em nosso mar, pois um povo de 45 milhões de almas não é verdadeiramente livre se não tem acesso ao oceano.

Italiano: na memorável reunião em Berlim disse que de acordo com as leis da moral fascista, quando se tem um amigo, marcha-se com ele até o fim. Temos agido assim e continuaremos a fazê-lo com a Alemanha, seu povo e suas vitoriosas forças armadas.

Neste momento de transcendental importância temos dirigido nossos pensamentos a Sua Majestade o rei imperial, que, como sempre, interpretou a alma da mãe-pátria e saudamos ao Fuhrer, chefe da Grande Alemanha unida.

Italianos: tomai as armas e mostrai tenacidade, ardência e valor”.

“Não se deixe matar ...”

A declaração de guerra da Itália e Inglaterra foi entregue por Galeazzo Ciano aos embaixadores respectivos, François-Poncet e Sir Percy Loraine. As reações de ambos foram muito diferentes. O embaixador francês, emocionado, afirmou a Ciano que a declaração era “... uma punhalada num homem caído...” e assegurou ao ministro italiano das Relações Exteriores que “...os alemães são senhores duros. Vocês também se darão conta disto...” Por último, ao sair da Chancelaria, disse-lhe, assinalando o uniforme de aviador que Ciano trajava: “Não se deixe matar...”. Por seu lado, o embaixador inglês, fleumático recebeu a notícia sem demonstrar qualquer perturbação. Ao se despedirem, fizeram-no com “um largo e cordial aperto de mãos”.

 

 

Mensagem de Weygand a suas tropas

“Oficiais e soldados do Exército francês:

Depois de uma série ininterrupta de violentas batalhas, eu vos dou a ordem de cessar a luta.

Se a sorte das armas nos foi contrária, pelo menos vós respondestes magnificamente aos chamados que dirigi ao vosso patriotismo, vossa valentia e vossa tenacidade. Nossos adversários renderam homenagens às vossas virtudes de soldados dignos de nossas glórias e de nossas tradições.

A honra foi salva

Podeis sentir-vos orgulhosos de vós mesmos; com a satisfação do dever cumprido contribuireis para criar aquela confiança nos destinos da França que no decurso dos séculos soube superar outros reveses.

Permanecei unidos e confiais em nossos chefes. Continuais submetidos à mais estrita disciplina. Neste caso nem vossos sofrimentos nem os sacrifícios de nossos camaradas tombados no campo da honra terão sido em vão. Seja onde estiverdes, vossa missão não terminou ainda. Vós continuareis sendo a estrutura da pátria.

Vossa missão de amanhã será a reconstrução moral e material. Elevai os corações, amigos. Viva a França”.

Última ordem-do-dia de Weygand

“Oficiais e soldados:

“22.000 de vossos camaradas continuaram a resistência da Linha Maginot durante 5 dias após a entrada em vigor do armistício... Esta página de valentia e de fidelidade ao dever militar se junta àquelas que vós escrevestes. Constituirão o testamento do Exército atual no qual encontrarão amanhã... a fé no seu próprio destino”.

 

 

Estado de algumas unidades francesas ao terminar a luta

A 19ª Divisão do 7° Exército compreendia:

1.000 homens

23 metralhadoras

3 canhões de 25 mm, 1 de 35 mm, 1 de 47 mm e 1 de 75 mm

A 29ª Divisão, já sem infantaria, compreendia:

5 canhões de 75  mm e 1 de 25 mm

A 47ª Divisão compreendia:

700 homens

7 canhões de 75 mm e 7 de 155 mm

A 24ª Divisão ficara reduzida a algumas centenas de infantes, sem armas pesadas. O resto das unidades “combatentes” do exército francês se encontrava em condições similares.

 

 

Armistício Franco-Germânico

1. As hostilidades devem cessar imediatamente e as tropas francesas devem depor as armas.

2. (Este artigo determina os limites da França ocupada)

3. Nas regiões ocupadas, a Alemanha terá todos os direitos de nação ocupante.

4. As forças navais, militares e aéreas da França serão desmobilizadas e desarmadas.

5. Como garantia, a Alemanha poderá exigir a entrega em boas condições de toda a artilharia, tanques, armas antitanques em serviço, aviação, armas de infantaria, tratores e munições que existam no território que não será ocupado.

6. Todas as armas que ficam no território ocupado... serão depositados sob a fiscalização alemã e italiana.

7. As defesas... e armamentos que se acham no território ocupado serão entregues em bom estado.

8. A esquadra francesa... será desmobilizada e desarmada sob a fiscalização alemã e italiana.

9. Deverá ser fornecida toda informação ... sobre as minas e defesas navais.

10. O Governo francês não empreenderá nenhuma ação hostil... Será vedado aos membros das forças armadas abandonar o território francês.

11. Nenhum barco mercante francês deverá sair do porto. Os barcos mercantes que estejam fora da França deverão ser chamados... ou partirão para portos neutros.

12. Nenhum avião francês deverá levantar vôo. Todos os aviões estrangeiros deverão ser entregues...

13. Todos os estabelecimentos... e reservas de materiais militares deverão ser entregues intactos.

14. Todas as estações de comunicações sem fios... deixarão de funcionar.

15. O Governo francês facilitará o transporte de mercadorias entre a Itália e a Alemanha pelo território não ocupado.

16. O Governo francês deverá repatriar a população dos território ocupados.

17. O Governo francês impedirá o transporte de valores dos territórios ocupados aos não ocupados ou para o exterior.

18. Os gastos... manutenção das tropas de ocupação alemã correrão por conta da França.

19. Todos os prisioneiros de guerra alemães deverão ser postos em liberdade.

20. Todos os prisioneiros de guerra franceses... permanecerão na mesma condição até a conclusão da paz.

21. (Este artigo contém os detalhes referentes à proteção e à conservação dos materiais entregues)

22. A comissão alemã de armistício ... coordenará as condições do mesmo com as contidas no armistício franco-italiano.

23. O armistício entrará em vigor tão pronto... seja concluído acordo militar com o Governo italiano.

24. O presente armistício... poderá ser denunciado...se o Governo francês não cumprir suas obrigações...”

 

 

Charles De Gaulle

Paris. Ano 1922. Num modesto apartamento do bairro Dupleix, quatro capitães do Exército francês conversam animadamente. Arte militar, tática e estratégia são os temas que tomam sua atenção. São eles os capitães Bridoux, Georges-Picot, Loustanau-Lacau e Charles André Joseph Marie De Gaulle. Todos são egressos do Saint-Cyr e compartilharam as trincheiras da guerra de 1914. Aparentemente, um profundo vínculo os une. Contudo, bastarão pouco anos para fazer que seus caminhos se bifurquem. Bridouz será ministro da Guerra de Laval em 1942, enquanto De Gaulle será condenado à morte pelo Governo de Pétain; de sua parte, Bridoux, em 1945, será condenado à morte pelo Governo De Gaulle. Loustanau-Lacau, depois de passar a guerra deportado na Alemanha, converteu-se num deputado. Georges-Picot, inimigo de De Gaulle, não poderá nunca tirar da mente do líder da França Livre a lembrança de sua atuação na Síria, durante a luta que se desenvolveu entre franceses, na qual se opôs ao futuro chefe de Estado.

Rumo à imortalidade ou à morte

Bordéus, 17 de junho de 1940. Um avião de transporte, inglês, levanta vôo do aeródromo local, com destino à Londres. Vários oficiais ingleses viajam a bordo. Entre eles, silencioso, um alto e magro oficial francês olha, do alto, a terra que só daí a 5 anos voltará a pisar. Dois dias depois, a Rádio de Londres levará aos quatro cantos cardeais a voz do então obscuro general: Eu, general De Gaulle, ante a confusão espiritual dos franceses, ante a destruição de um governo que já caiu nas mãos do inimigo, estou convencido de falar em nome da França...

Quem é ele? O que deseja?

Aos 19 anos, diploma-se em Saint-Cyr e escolhe a arma da Infantaria. Cumpre sua primeira missão sob as ordens do então coronel Pétain. Seus destinos não se afinaram muito a partir deste momento. Ao eclodir a Primeira Guerra, De Gaulle é tenente. Será ferido, citado na ordem do dia, promovido a capitão, ferido novamente, citado, uma vez mais e, por último prisioneiro. No começo da Segunda Guerra sua atuação ainda que infrutífera, será destacada. Ante a penetração dos blindados alemães no norte da França, conduzirá a batalha das quase improvisadas forças blindadas francesas. Velhos tanques, tripulados por homens sem treinamento, serão postos sob as suas ordens, no último momento, como um supremo esforço para deter o avanço alemão. Ele os lançará várias vezes ao ataque, sacrificando-os a sacrificando-se ele mesmo à derrota inevitável. A partir de 19 de junho de 1940, dia em que, por sua vez, lançou ao mundo o repto da França Livre, luta sem descanso para converter o minúsculo grupo de colaboradores em algo que seja mais do que uma simples paródia de governo. Depois vem a libertação, o texto da capitulação inimiga, posto em suas mãos pelo General Leclerc, Paris, a glória, o aplauso. Quinze anos depois, num momento crucial da história da França, seu nome voltará a surgir do passado. E novamente estará ali, encabeçando um governo. Deixará uma profunda marca na história de seu país.

 

 

Proclamação do General De Gaulle

Londres, junho 23

“O armistício aceito pelo Governo de Bordéus é uma capitulação. Esta capitulação foi firmada antes do esgotados  todos os meios de resistência. Esta capitulação entregou ao inimigo, que os empregará, nossos exércitos, nossas armas, nossos navios, nosso aviões e nosso ouro. Por conseguinte e por força maior, será constituído, de acordo com o Governo britânico, um Comitê Nacional francês que represente os interesses da pátria e dos cidadãos resolvidos a manter a independência do país e decididos a contribuir aos esforços da guerra até a vitória comum com os aliados. O Comitê Nacional dará conta de seus atos, seja ao Governo francês legal ou independente, tão logo exista um, ou aos representantes do povo, logo que as circunstâncias lhe permitam reunir-se em condições compatíveis com a liberdade, a dignidade e a segurança.

O Comitê Nacional francês tomará sob sua jurisdição todos os cidadãos franceses presentes e assumirá a direção de todos os elementos militares e funcionários administrativos que se encontram ou cheguem a encontrar-se. A guerra não está perdida, a pátria não foi morta, a esperança não se desvaneceu. Viva a França”.

Na França

Bordéus, junho 23

Em caráter oficial, anunciou-se que o general De Gaulle, que fora rebaixado a seu grau anterior de coronel, será julgado dentro em breve por um tribunal militar acusado de haver-se negado a regressar, a ter feito uso de seu posto e de haver dirigido em território estrangeiro um apelo aos oficiais e soldados franceses.

 

 

Artigo 4°

Pelo artigo 4° do armistício Franco-Germânico, a França comprometia-se a desmobilizar e desarmar as forças de terra, mar e ar, mantendo somente as necessárias para manter a ordem. Interrogado o general alemão von Keitel sobre o número de homens que podiam permanecer armados e mobilizados, respondeu com uma cifra: - 100 mil...

A quantidade tinha um significado amargo para os representantes franceses. Efetivamente, 100 mil tinham sido os homens que o Tratado de Versalhes havia permitido que a Alemanha conservasse em armas, após a Primeira Guerra. Era a revanche do vencido de então, agora vencedor...

 

 

Compiègne

Quando a Alemanha solicitou o armistício no ano de 1918, o marechal Foch, tratando de evitar uma evidente humilhação para os representantes alemães, escolheu para a assinatura do mesmo um lugar deserto, arborizado, distante e secreto. Foi no bosque de Compiègne e só tiveram conhecimento do mesmo o senhor Clémenceau e o marechal Pétain.

A firma do armistício se reduziu a um ato puramente protocolar desprovido da folharada publicitária que tivesse feito dele uma verdadeira representação teatral. Os direitos do vencedor cederam ante o espírito cavalheiresco.

Em 1940, a situação foi diferente. Os representantes alemães elegeram o mesmo lugar, com uma intenção de revanche evidente, mas tudo não terminou assim. O ato foi concebido com espetaculosidade teatral: muita gente, música e até um filme foi rodado durante a cerimônia. Nada foi guardado contra os representantes franceses, inclusive palavras a que não podiam responder.

 

 

 

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