Malta

 

Malta não se rende

            

Ataque aéreo a Malta

 

 

A cidadela do Mediterrâneo

 

No mar Mediterrâneo, 100 km ao sul da Sicília, está situada a ilha de Malta. Com seus 27 km de comprimento e 13 de largura, é apenas um ponto no mapa. A superfície da ilha principal alcança a 246 km² e a extensão total, inclusive as ilhas adjacentes de Gozo e Comino, é de 316 km². Cerca de 300.000 habitantes vivem em Malta. La Valletta é a capital. Fisicamente, a ilha é um promontório de rocha calcária. E de pedra são a maioria de suas casas.

 

Malta produz apenas uma quarta parte de víveres que consome. Por outro lado, não possui nenhuma indústria importante, mas está situada no caminho das rotas marítimas do Mediterrâneo, na importantíssima linha de comunicações entre a Inglaterra e o Oriente, o que é de grande importância estratégica. Naturalmente, na atualidade, o valor da ilha como base diminuiu, dado o grande progresso das comunicações aéreas, os novos e velozes aviões, etc., mas, por volta de 1940, a situação de Malta era um ponto de grande valor estratégico e, como tal, foi cenário de luta feroz.

 

Através dos séculos, os fenícios, cartagineses, romanos, árabes e normandos lutaram pela posse de Malta. Napoleão, valendo-se de grande armada, capturou-a em 1798. Os ingleses, sob o comando de Nelson, a sitiaram no mesmo ano e a conquistaram em 1800. Daí em diante, até 1939, Malta viveu em paz.

 

O eclodir da Segunda Guerra Mundial não provocou grandes mudanças na ilha. Sua população, na maioria constituída por homens corpulentos, de olhos negros, e mulheres vestidas com o tradicional faldetta (espécie de capa com grande capuz), manteve-se dedicada à criação de gado bovino e caprino, à cultura do trigo, legumes, verduras e frutas. No seu idioma, derivado do antigo fenício semítico, a palavra guerra não tinha grande significado.

 

Depois de iniciada a luta, os malteses confiaram na neutralidade da Itália, potência vizinha. Porém, durou pouco aquela tranqüilidade. Por volta de junho de 1940, ao esgotar-se a resistência da França, a Itália entrou na guerra. No dia seguinte, aviões de bombardeio surgiram sobre a ilha. Malta, naquele instante, contava com quatro aviões de caça modelo antigo, destinado a sua defesa. Os pilotos eram apenas seis e com tal minguada força aérea a ilha começou a participar da guerra. Ao enfrentar os aviões inimigos, um dos caças foi derrubado. Ficaram apenas três, que sustentaram a luta, heroicamente, durante 4 meses, com a desvantagem de um contra dez. Foram cognominados “homens de Fé. Esperança e Caridade”, e converteram-se no símbolo da resistência maltesa.

 

Devido à escassíssima defesa antiaérea de que dispunham, os malteses foram obrigados a procurar refúgios. Então, ressalta o valor inestimável dos túneis e covas escavadas nas pedras da ilha. Os túneis tinham entre 20 e 80 metros de profundidade e durante a máxima violência do assédio grande parte da população viveu no interior deles. O gado, inclusive, foi transferido para as covas profundas, para protegê-lo dos bombardeios.

 

Em um ano, a aviação italiana e alemã lançou sobre a ilha 12.000 toneladas de bombas. Ao término de dois anos, as estatísticas assinalavam as seguintes cifras: Alarmes: 2.537; Mortos 1.183; Feridos (graves): 1.263; Edifícios destruídos: 18.498.

 

 

A batalha de Malta

 

Entre os meses de janeiro e agosto de 1942, deu-se a fase mais difícil da defesa da ilha. A frota inglesa  empregou esforços desesperados na tarefa de abastecer os defensores da minúscula possessão. Gravemente ameaçada pelos bombardeios. Durante todo este tempo a atuação da Royal Navy destacou-se em torno desta dramática luta. A situação não podia ser mais grave. Na Sicília, a escassos 100 km da ilha, encontravam-se estacionados dois corpos aéreos (Flieger Korps), da Luftwaffe, com 600 aviões Junkers 88 e Messerschmitt 109. Rommel, entretanto, no início de 1942, esperava impaciente o fim da campanha, com o objetivo de dispor daqueles 600 aviões, necessários na Líbia.

 

Malta, entretanto, quase sem víveres nem combustível, com seus poucos canhões antiaéreos já desgastados dispunha de uma dezena de Spitfires para a defesa. Habitualmente, ao cair da tarde, os 12 ou 15 Spitfires disponíveis ficavam reduzidos a 4 ou 5.

 

O número real de aviões empregados na defesa de Malta nunca foi conhecido pelos alemães. Prova esta afirmação de Kesselring: “- Não posso compreender onde se ocultam as 8 ou 10 esquadrilhas de Spitfires que defendem Malta...” Em seus melhores momentos, as “8 ou 10 esquadrilhas” eram um esquadrão de Hurricanes e dois de Spitfires, totalizando uns 90 aviões, dos quais só 10 ou 12 estavam em condições de decolar diariamente.

 

Os aviões de reforço que se enviavam eram transportados em porta-aviões até as proximidades da ilha, por causa da pouca autonomia de vôo. Isto custou à Inglaterra a perda do porta-aviões Eagle, afundado por um submarino, e sérias avarias ao Illustrious. Por vota de 1943, depois da batalha de Malta, a vitória custou aos ingleses 850 Spitfires e a vida de 520 pilotos da RAF. Por seu lado, a Alemanha perdera ali 390 Junkers 88, 400 Messerschmitt 109 e 100 Junkers 87. Além disso, a Itália perdeu 230 Macchi 202, 330 Cant Alcyone e 79 Savóia.

 

Começa a ação

 

Em 28 de novembro de 1941, o Marechal Kesselring chegou à Itália. Sua missão era empreender uma enérgica ação contra a ilha de Malta, objetivando melhorar as possibilidades de abastecimento das tropas do Eixo na África. Esta ação seria indispensável, pois, a pequena ilha do Mediterrâneo convertera-se no centro onde se organizavam e efetivavam ataques a comboios partidos da Itália para a Líbia. A força britânica da ilha dispunha de submarinos, aviões e torpedeiros e dois cruzadores, que depois foram quatro, o que aumentou o poderio da ilha. Com estes efetivos, os ingleses atacaram as vias de comunicações do Eixo, durante novembro e dezembro de 1941. Navios mercantes e de guerra foram afundados ou avariados nas diversas ações. Naquele período, Malta parecia capaz de desorganizar as comunicações entre a Líbia e a Itália. Durante o mês de novembro, mais de 60% do material bélico enviado da Itália para a Líbia perdeu-se no fundo do Mediterrâneo, pela atuação das forças inglesas de Malta.

 

Por conseguinte, seria indispensável a imediata reação do Eixo contra a ilha e ela consolidou-se na atividade aérea intensificada, sem perda de tempo. Os bombardeios (72 em novembro de 1941) aumentaram para 170 em dezembro e 270 em janeiro de 1942. As conseqüências não se fizeram esperar. A ilha, cercada, restringida em seu aprisionamento marítimos pelo assédio da aviação inimiga, reduziu ao máximo sua atividade e colocou-se na defensiva. As reservas de material, notadamente de gasolina, ficaram reduzidas ao máximo. A situação de Malta começou a tornar-se insustentável.

 

O projeto de invasão

 

A difícil situação de Malta alentou os projetos do Alto Comando do Eixo, concernente à invasão da ilha. Com efeito, a operação abriria o caminho da Líbia e permitiria o envio das tropas para a África do Norte, transferidas do ataque à ilha. Em fevereiro de 1941, quando Rommel e suas forças se transferiram para a Líbia, começaram os preparativos da invasão. A ocupação levar-se-ia a cabo mediante uma ação de pára-quedistas, tropas aerotransportados, enquanto o corpo aéreo e a marinha italiana se aprestariam para dar o apoio necessário.

 

Estando em marcha os estudos preliminares, por volta de 1941, as forças italianas, naquela época empenhadas em luta inteiramente desfavorável na Grécia, seriam auxiliados por unidades alemães. Foi, então, que os pára-quedistas e tropas aerotransportadas, que deviam ser usadas na invasão de Malta, foram desviados e utilizados com êxito na invasão de Creta, abandonando, no momento, o projeto de ataque à Malta.

 

Assim, com o desvio das forças aéreas alemães, para sua utilização nos Balcãs, Creta e, depois, na Rússia, Malta obteve uma capacidade ofensiva maior. Realmente, as perdas do Eixo tornaram necessária a remessa de reforços para a África por via aérea, em média de 200 homens por dia.

 

Contudo, apesar do extremo perigo que a pequena base britânica representava para o potencial do Eixo, o chefe do Estado-maior italiano, General Cavallero, mostrava-se negligente a executar o projeto C3 (invasão de Malta). Somente em meados do mês de março de 1942 Kesselring conseguiu o apoio de Cavallero. Mas este fixou a data da invasão para depois, no mês de agosto.

 

Um novo contratempo surgiu, então. Kesselring, com clara visão do problema que Malta representava para o Eixo, exigia o desembarque até abril ou maio. O General Cavallero, por seu lado, insistia na data por ele fixada: agosto de 1942. O chefe italiano sustentava que a preparação de um corpo expedicionário não seria completa antes daquela data e não compartilhava da disposição de Kesselring de cair sobre a ilha de maneira surpreendente e rápida.

 

Referindo-se à operação, afirma Ciano que Cavallero não parecia convencido do êxito da operação de ataque e, mais ainda, alguns altos chefes designados para levá-la a cabo opunham-se decididamente à sua execução. Na verdade, as condições para um desembarque na ilha eram ótimas, porque os bombardeios destruíram grande parte da defesa. Assim, Kesselring era quem via mais claramente a situação. Sabia e considerava lógico tirar partido, já que as condições dos habitantes e defensores de Malta eram precárias. Naquela ilha do Mediterrâneo faltava o mais essencial. Faltava combustível, armas e munições. Os aviões necessitavam de reparos, os pilotos achavam-se esgotados pelo excesso de missões a cumprir, os barcos de guerra evacuaram o porto, temerosos da ameaça de destruição pela aviação ítalo-alemã. Por outro lado, os submarinos passavam horas e horas do dia submersos para evitar os bombardeios. Referindo-se à situação da ilha e seus defensores, disse o General A A Hugh Lloyd, comandante das forças aéreas de Malta: “... as condições de vida chegaram a ser extremamente difíceis. Toda vez que se pedia um esforço físico, notava-se a insuficiência da alimentação. A água, a luz e as demais coisas estavam racionadas. As reservas de carvão e petróleo durariam ainda, algumas semanas. Ter 20 aviões de caça, no mês de abril, era um sonho. Geralmente, começamos o dia com 12 e à noite restam-nos um ou dois. Depois, cessávamos de voar e, febrilmente, consertávamos os danificados”.

 

A situação era desesperadora e Kesselring o sabia e sabia que deveria atacar. Porém, Cavallero, inexplicavelmente, adiava a operação, embora sabendo que a artilharia antiaérea operava com grande racionamento de munições e só disparava quando os bombardeiros, em picada, desciam a menos de mil metros. Além disso, a rede de radares estava neutralizada pelas interferências efetuadas pelos alemães. Em suma, a situação não podia ser pior para os defensores e nem mais encorajadora para os atacantes.

 

No que diz respeito aos aprovisionamentos, a condição de Malta não era melhor. Durante o mês de janeiro chegaram à ilha alguns barcos pequenos; em fevereiro ninguém pôde aproximar-se de Malta. Finalmente, em março, o Almirante Cunningham resolveu fazer um desesperado esforço para reabastecer a ilha. Reuniu quatro navios mercantes, levando como escolta todos os seus cruzadores e torpedeiros.

 

Batalha de Sirte

 

Distante ainda de Malta, nas águas da Cirenaica, um submarino italiano avistou a frota inglesa, no dia 21 de março. Informado, o Alto Comando italiano empreendeu várias missões de reconhecimento, com o que ficou ciente que os mercantes eram escoltados por quatro cruzadores, 10 torpedeiros e alguns navios menores.

 

Decidiu então o comando italiano que os cruzadores Gorizia, Trento e Bande Nere saíssem para interceptar os navios ingleses. Para apoiar o ataque partiriam de Taranto o encouraçado Littorio e 6 torpedeiros. À meia-noite de 21 de março, a frota italiana foi ao encontro dos barcos ingleses. Os cruzadores levavam a missão de interceptar o inimigo no golfo de Sirte, na Cirenaica, e o encouraçado chegaria depois, assegurando proteção aos cruzadores, contra qualquer eventual surpresa.

 

Na manhã de 22 de abril, a frota italiana, a toda máquina, dirigiu-se para o sul, em busca da inglesa. Por volta das 10 horas da manhã, um avião de reconhecimento localizou a posição dos britânicos. Os navios ingleses dirigiam-se para Malta, a uma velocidade de 14 nós.

 

As informações dos aviões de reconhecimento dos navios italianos divergiam radicalmente quanto ao número de unidades e o rumo seguido. Por isso, evitando que os britânicos fugissem ao cerco, os italianos mudaram o rumo e colocaram-se entre os ingleses e a distante ilha de Malta.

 

Inimigo à vista

 

Às 14:35h os cruzadores avistaram os barcos ingleses e o comando italiano comprovou que a escolta aos mercantes era constituída por quatro cruzadores e outras unidades menores. Imediatamente, os cruzadores ingleses abriram fogo contra os navios italianos. Estes, seguindo ordens recebidas, responderam ao ataque e se distanciaram. Realmente, presumia-se que, nas imediações, encontrava-se um encouraçado inglês, cuja presença, se verdade, constituiria sério perigo para os cruzadores italianos. Portanto, os barcos italianos afastaram-se das unidades inglesas, dispostas a esperar que a situação ficasse esclarecida.

 

Enquanto isso, os navios britânicos estenderam uma cortina de fumaça e névoa artificial, ocultando-se das vistas dos italianos. O encontro, sem conseqüências, limitou-se a trocas de tiros a grande distância. Os barcos ingleses retomaram sua posição no comboio e os cruzadores italianos singraram para o norte, à espera do encouraçado Littorio. Às 15:30h, os cruzadores chegaram às proximidades do encouraçado, uniram-se a ele e, de acordo com as ordens recebidas, inverteram a rota e voltaram à procura do inimigo.

 

O contato estabeleceu-se novamente, às 16:30h. os barcos ingleses, envoltos em espessa cortina de névoa, eram pouco visíveis dos navios italianos. Entretanto, o mar encrespara-se e grandes ondas sacudiam os barcos. Leve neblina estendeu-se pela superfície do Mediterrâneo, reduzindo a visibilidade ao mínimo. Mesmo assim, ambas as frotas lutavam. O radar auxiliava a inglesa e a italiana disparava quase às cegas.

 

Perto das 18:30h, quando as condições do tempo tornaram praticamente impossível a visibilidade, os torpedeiros ingleses lançaram-se ao ataque. Emergindo, de surpresa, do banco de neblina artificial, cinco torpedeiros  avançaram a toda velocidade e lançaram seus torpedos contra o Littorio. O estado do mar e a distância frustraram o êxito do intento.

 

Ao cair da noite, a escuridão propiciou que os navios adversários perdessem contato. Os italianos abandonaram a batalha e seguiram para o norte. Dois dos torpedeiros, que se distanciaram do Littorio, fizeram água e foram a pique. Foram os únicos barcos que afundaram no combate de Sirte.

 

Com respeito aos navios mercantes integrados no comboio, sua sorte mudou radicalmente, quando se encontravam diante de Malta. Foram realmente afundados por aviões alemães, na manhã seguinte. Por este motivo, das 26.000 toneladas de abastecimentos que transportavam, apenas 5.000 foram recuperadas.

 

Dois comboios

 

A situação de Malta, dia a dia, tornava-se mais dramática. A falta de elementos era completa e a impossibilidade de obtê-los raiava ao cúmulo. Como media preliminar, decidiu-se então, reforçar a força aérea da ilha, enviando caças por seus próprios meios, isto é, voando. Em virtude da pequena autonomia dos Spitfires, estes deveriam chegar às proximidades de Malta, a bordo de porta-aviões e deles decolar até a ilha. Assim, em diferentes missões, os porta-aviões Wasp (americano) e o Eagle (inglês), levaram à ilha 47, 67 e 17 Spitfires, reforçando consideravelmente sua defesa. Além disso, o lança-minas Welshman, de 2.600 tons. de deslocamento e quase 40 nós de velocidade, burlou o bloqueio em muitas ocasiões, levando armas, abastecimento e peças sobressalentes.

 

Assim chegou o mês de junho de 1942. O Almirantado inglês, convencido de que somente operações de grande envergadura poderiam sustentar a luta e salvar Malta, resolveu enviar dois comboios simultâneos, um partindo de Gibraltar e outro de Alexandria. O primeiro (operação Harpoon) contava com seis navios mercantes, e o segundo (operação Vigorous) compunha-se de 11.

 

Na noite de 11 de junho, os seis barcos de comboio de Gibraltar entraram no Mediterrâneo. O Alto Comando italiano foi informado e imediatamente alertou as suas unidades. O Littorio, o Vittorio Veneto, o Dulio e mais 6 cruzadores receberam ordens de zarpar, com a missão de interceptar o comboio britânico. Era 13 de junho. Todavia, uma notícia inquietante chegou ao Alto-Comando da marinha italiana. Exatamente no dia 13, saíram dos portos egípcios e sírios 11 barcos escoltados por sete cruzadores, 24 torpedeiros e outras unidades menores. O comando do comboio estava a cargo do Almirante Vian.

 

O movimento dos navios foi descoberto por aviões de reconhecimento alemães, que interpretaram corretamente: tratava-se, sem dúvida alguma, de comboio de abastecimentos, rumando para Malta.

 

O Alto Comando italiano encarregou-se da situação e agiu rapidamente. O grosso da frota seria mandado a enfrentar o comboio em Alexandria. Em vista disso, o Littorio, o Vittorio Veneto, 4 cruzadores e alguns contratorpedeiros saíram ao encontro dos navios ingleses.

 

A frota italiana, já navegando, foi atacada repetidamente por aviões torpedeiros ingleses, da base de Malta. Depois de vários ataques fracassados, um torpedo, finalmente, acertou o alvo, avariando seriamente o cruzador Trento, que foi obrigado a abandonar a operação. Os encouraçados (Littorio e Vittorio Veneto) sofreram ataques de torpedos, mas saíram ilesos. Entretanto, as informações errôneas dos pilotos ingleses os deram por avariados. Assim, a frota que integrava o comboio, que havia invertido a rota e regressado a Alexandria tornou a girar e retomou seu antigo caminho. Supunha-se, com efeito, que os encouraçados não interfeririam na provável batalha e isto daria certa vantagem aos navios britânicos. Porém, aproveitando a confusão criada pela inversão da rota, várias lanchas torpedeiras alemães levaram a cabo alguns ataques contra o comboio, avariando o torpedeiro Newcastle e afundando o Hasty.

 

A situação mudou fundamentalmente na manhã seguinte, quando o comando inglês comprovou que os encouraçados italianos continuavam sua marcha e já se encontravam muito perto. Por isso, ordenou uma terceira inversão de rota e regresso a Alexandria. Mas a informação dos torpedeiros, aludindo a possíveis avarias nos dois encouraçados, resultou uma quarta ordem: rumo a Malta. A ordem em seguida foi cumprida sem que nenhum avião de reconhecimento inglês houvesse avistado os encouraçados italianos, avançando a toda marcha na direção do comboio. Em vista disso, o Almirante Vian resolveu manter o rumo e encaminhar-se a Alexandria.

 

Anulado o comboio saído do Egito e da Síria, restava o de Gibraltar. Este também foi atacado, sofrendo a perda de quatro de seus navios. Apenas dois chegaram a Malta, com 15.000 toneladas de carga.

 

A situação da ilha chegou a ser desesperadora. Restava às forças do Eixo tentar o assalto direto. Assalto, sem dúvida, que teria êxito. Então, um evento veio alterar fundamentalmente os planos. Rommel, na Cirenaica avança vitoriosamente. Por isso, Hitler considerou a situação da África do Norte e do Mediterrâneo completamente solucionada. De imediato, a operação Malta começou a ser relegada. Mais tarde, durante os primeiros dias de julho, a situação na frente egípcia, estabilizada em El Alamein, Hitler resolveu reter a divisão Folgore, que formava parte do corpo expedicionário para Malta. A 27 de julho, a operação de malta foi considerada sem efeito e seu comando dissolvido.

 

Posteriormente, quando a situação da África sofre uma considerável reviravolta, o Eixo compreendeu o erro cometido. Compreendeu muito tarde, já que Malta fôra e era ponto chave do Mediterrâneo.

 

Operação Pedestal

 

O fracasso dos comboios enviados a Malta em junho de 1942 convenceu o Almirantado da necessidade de fazê-los acompanhar por uma forte escolta. Para isso foram destacadas, no Mediterrâneo, poderosas unidades da Frota Metropolitana britânica. Esta operação, destinada a possibilitar a chegada a malta de suficientes abastecimentos, recebeu a denominação de código de “Pedestal”.

 

No dia 9 de agosto penetrou no Mediterrâneo uma frota integrada pelos encouraçados Nelson e Rodney, e os porta-aviões Furious, Eagle e Indomitabel, sete cruzadores e 32 destróieres. Dois dias depois, no dia 12 de agosto, a poderosa frota zarpou do porto de Argel e rumou para Malta, escoltando 14 barcos mercantes carregados de abastecimentos. Nesse mesmo dia os ingleses tiveram seu primeiro contratempo, ao ser afundado o porta-aviões Eagle por um submarino alemão. A frota, apesar disso, prosseguiu adiante em sua missão. No dia seguinte os aviões alemães e italianos com base na Sardenha e Sicília iniciaram uma série de violentos ataques contra os navios ingleses, afundando um destróier e um navio mercante. O Indomitable, por seu lado, sofreu várias avarias. Ao cair da noite, os alemães e italianos lançaram ao ataque seus submarinos e lanchas torpedeiras. Conseguiram afundar dessa maneira sete barcos mercantes e dois cruzadores, danificando outros cinco navios entre os quais estava um petroleiro americano, cuja carga era vital para a defesa da ilha. Na manhã do dia 13, a Luftwaffe repetiu seus ataques, com fúria redobrada. O comboio, finalmente, aproximou-se da ilha e foi protegida pelos caças da defesa destacados em Malta. Conseguiram assim entrar no porto quatro navios mercantes e, além disso, o petroleiro americano, que foi rebocado. Apesar das perdas sofridas, a operação havia alcançado pleno êxito.

 

Anexo

 

Malta

Refúgio. Eis o significado da palavra Malta, nome de um pequeno arquipélago situado no Mediterrâneo. Seu solo foi palco de domínio normando e espanhol. Somente os turcos não conseguiram içar nele seu pavilhão verde. Posteriormente, chegaram os franceses e ingleses e nas mãos destes a ilha chegou ao nosso século.

Com a Segunda Guerra Mundial, Malta tornou-se notícia, Sua localização, em pleno centro do conflito, a poucos km da Itália e África do Norte, no Mediterrâneo, tornou-a ponto obrigatório de penetração para os comboios que se dirigiam à África a base valiosíssima para os ingleses, que complicaram as comunicações do Eixo. Seus habitantes conheceram então, o que era a guerra. E a reconheceram através do ataque contínuo da aviação ítalo-alemã, empenhada na destruição da pequena ilha, e, também, pelos atos de heroísmo de um grupo de aviadores da RAF.

A luta de Malta assumiu traços épicos na Segunda Guerra Mundial. A ilha fechou-se em si mesma, afundou-se em suas cavernas, entrincheirou-se em suas rochas e resistiu. Resistiu infatigavelmente. Seus 200 km² foram bombardeados sem trégua várias vezes, mas Malta resistiu. Não apenas resistiu: atacou. Atacou bem, como testemunha as palavras de Ciano em seu diário: “Dessa maneira, nossos navios mercantes não durarão nem um ano”.

E como suas palavras fossem poucas, a resistência e o ataque malteses refletiram-se nas palavras do Almirante Doenitz, em setembro de 1941: “... não poderemos sustentar mais um ano uma nova campanha de Rommel. É preciso destruir Malta”.

 

 
Alarme em Malta

Os Spitfires descreveram círculos sobre a pista de Malta. Abaixo, pequenos pontos pretos deslizam pelo terreno, de um de outro lado. Seus homens, civis e soldados, reparam, apressadamente os danos causados pelas bombas alemães e italianas. Grandes caminhões descarregam toneladas de pedra e areia, lançando-as sobre as crateras da pista. Banhados de suor, os homens tratam de nivelar o terreno. Finalmente, quando muitos deles trabalhavam febrilmente, tapando os buracos, os aviões recebem ordens de aterrar. Uns após outros, os Spitfires perdem altura e aterram em estilo de combate. Entre o primeiro, levantando uma nuvem de pé e areia. Depois de deslizar, freia violentamente, inclinando-se perigosamente. Alguns conduzem comprida cintas de projéteis, outros carregam pesados tanques repletos de gasolina. Outros mais utilizam ferramentas. Rapidamente, saltam sobre o avião e o reparam integralmente. Preparam as metralhadoras, abastecem-nos de combustível e revisam o rádio, tudo em 30 segundos. De pronto, algo chama a atenção. Um outro aviador chega correndo, sobe sobre a asa do Spitfire e, de um s alto, senta-se na cabina e grita: “Rápido, rápido!”.

Dois minutos depois, o Spitfire começa a voltear e 30 segundos depois já está no ar.

Ao longe as baterias antiaéreas começam, furiosamente, o seu matraquear continuado. Aviões inimigos já estão à vista. Os outros Spitfires, um atrás do outro, tocam o solo e voltam a decolar, pilotados por homens de Malta. Como sempre, são um contra cinco, um contra dez ou um contra vinte. Malta se defende. E o faz muito bem. O Eixo nunca conseguirá tocar o chão da pequena ilha.

 

 
Isto é Malta

A esquadrilha de Spitfires voa sobre o mar azul, sereno, brilhando sob os raios solares. Acabam de decolar da coberta de um porta-aviões e, em formação, dirigem-se para a ilha de Malta. 6.000 metros abaixo, o Mediterrâneo. Diante deles, ainda longe, as costas da Sicília.

Os pilotos perscrutam o horizonte. Dali, a qualquer momento, podem surgir os Messerschmitt inimigos. Mas o encontro não desejado não se produz. Entretanto, uma pequena mancha perdida no mar desperta a atenção de todos. – Ali está! Malta.

Os pilotos, através de seus fones, ouvem a voz do chefe da esquadrilha. Todos olham ansiosamente. E, efetivamente, ali está, recortada sobre o mar azul, extraordinariamente sereno, uma forma alongada verde-cinza, destacando-se. A seu lado, outra mancha menor. E outra. Ali está Malta, três ilhas, uma junta da outra.

A formação se dissolve e os Spitfires precipitam-se para baixo, à procura de refúgio. Logo o encontram, nas precárias pistas da ilha. Um após outro começam a descer e a surpresa reflete no rosto dos pilotos, ao se aproximarem da pista...

Flanqueados por cavernas e túneis, restos da pista desenham mosaicos pavimentados, pedras e terra batida. De trecho em trecho, soldados, rapidamente, reparam os rombos causados pelas bombas inimigas. Caminhões de seixos chegam e descarregam seu preciso conteúdo. E em volta, até onde a vista alcança, restos e mais restos de aviões inimigos e próprios. Asas de Spitfires misturadas com fuselagens de Messerschmitt 109; destroços irreconhecíveis de caças ingleses amontoados sobre ruínas dos bombardeiros italianos.

Correndo em todas as direções, dezenas de homens conduzem cintas de projeteis de metralhadoras, tanques carregados de gasolina, sobressalentes, pára-quedas.

Finalmente, ali, estão. Isso é Malta.

 

 
A ilha no ataque

O poder ofensivo da ilha de Malta se resumiu em: 1o, em sua estratégica localização, a meio caminho entre a Itália e a África; e 2o, pelo extraordinário espírito de sacrifício das tripulações da RAF, que comandavam um pequeno número de aviões Glenn Martin, Blenheim, Beaufort e Wellington.

As tripulações da RAF tiveram perdas, que oscularam entre 25 e 30% de seus efetivos em cada missão e afundaram em poucos meses, durante ao ano de 1941, mais da metade da tonelagem mercante italiana e alemã que operava no Mediterrâneo.

Nessa ocasião, Rommel escreveu a Hitler: “... previna ao Marechal Kesselring sobre as trágicas conseqüências para os meus meios de transportes entre a Itália e a África, se não conseguir a supremacia aérea sobre a ilha de Malta”.

 

 
Os que chegaram

Agosto de 1940. Malta debate-se entre a vida e a morte. A base, minúscula ilha perdida no Mediterrâneo, é vital para a defesa da Inglaterra. Assim o entendem os seus homens. E lutam para abastecer a reduzida guarnição.

O porta-aviões Argus, navegando a toda máquina, aproxima-se da ilha. Leva a bordo 12 Hurricanes, valioso carregamento para os homens de Malta. O navio aproxima-se a poucas centenas de milhas da ilha sem deter-se. Um a um os aviões abandonam a plataforma de lançamento, toma altura, sobrevoam o navio, e depois, tomando a formação de combate, afastam-se rumo a Malta. O Argus vira e afasta-se a toda máquina.

Novembro de 1940. Novamente o porta-aviões Argus veterano da campanha de Malta, aproxima-se da ilha. Esta vez são 14 os Hurricanes que transporta.

O Argus encontra-se a 400 milhas ao oeste de Malta quando os pilotos recebem a ordem de preparar-se para voar. Os homens correm aos seus aparelhos e ocupam suas cabinas. Os tetos de plexiglass abrem-se. As hélices começam a girar e rapidamente se convertem em discos esmaecidos. As bandeiras, em mãos de um oficial, começam a transmitir silenciosas instruções. Após seus rápidos movimentos, os 14 Hurricanes abandonam o Argus e partem

Na ilha, os homens observam o céu, à distância. Os 14 aviões não podem estar longe. E, com efeito, já podem ser vistos. São apenas pontos pretos na imensidão. Os homens os vêem com uma sensação de agradecimento. Mas a mesma sensação converte-se em ansiedade quando, após contá-los, verificam que são apenas 5 os que chegam. Efetivamente, os nove restantes, desviados de sua rota pelos fortes ventos, esgotaram seu combustível e caíram no mar...

 

 

 

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