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Começa a
conquista
Em 1894, o Japão entrou em guerra com o Império Chinês
e, mediante uma série de repetidas vitórias navais e terrestres, conseguiu
apoderar-se da Coréia e de grande parte da Manchúria. O tratado de Simonoseki
pôs fim ao conflito. A China reconheceu aquelas conquistas, além de ceder as
ilhas de Formosa e dos Pescadores. Dessa maneira, os japoneses conseguiram
estabelecer uma cabeça-de-ponte no continente asiático e bloquearam a
expansão russa no Pacífico. A reação russa não se fez esperar.
Apoiado pela França e pela Alemanha, o governo czarista
forçou o Japão a abandonar os territórios conquistados na Manchúria, os quais
incluíam a estratégica base de Port Arthur. A Coréia, então, declarada
independente, ficou de fato sob protetorado nipônico. Como retribuição ao seu
apoio, a Rússia recebeu da China autorização para construir uma ferrovia
através da Manchúria, destinada a fazer a ligação com o porto de Vladivostok.
A vitoriosa agressão japonesa à China criou condições
para que as potências ocidentais se apressassem a imitar seu exemplo. Em
1897, a Alemanha, usando do pretexto do assassinato de dois missionários na
província de Shantung, apossou-se do porto de Kiachow e obteve do governo
chinês sua cessão por 99 anos. Pouco depois, os russos apoderam-se de Port
Arthur, e os britânicos ocuparam o porto de Wei-Hai-Wei.
Assim, a China converteu-se, praticamente, em terra de
ninguém. Seu povo, contudo, não se resignou a aceitar passivamente a
espoliação e, em 1900, levantou-se em armas contra a penetração estrangeira.
Este movimento, denominado rebelião do Boxers - integrado por tropas
britânicas, alemães, japonesas, americanas, francesas, austríacas e italianas
- que ocupou Pequim e, depois de sustentar sangrentos combates, resgatou
numerosos europeus que havia sido sitiados na cidade por quase dois meses.
As potências que intervieram na luta contra os Boxers
forçaram o governo imperial a permitir o estabelecimento de guarnições
militares em Pequim e ao longo da ferrovia que une esta cidade ao porto de
Tsientsin. Ao mesmo tempo, impuseram à China o pagamento de 350 milhões de
dólares, como indenização. Por outro lado, a Rússia, no transcurso da
campanha, ocupou toda a Manchúria e pressionou as autoridades chinesas para
que outorgassem a cessão definitiva do citado território.
A expansão russa na Manchúria levou a Inglaterra, em
1902, a fazer um pacto com o Japão, pelo qual ambas as potências se
comprometiam a proteger a “integridade territorial da China e da Coréia”.
Paralelamente à referida aliança, os Estados Unidos realizaram ativas gestões
para que os russos evacuassem o território manchu. Todas as negociações
malograram. Em decorrência, o Japão resolveu recorrer às armas para
concretizar definitivamente sua hegemonia na Manchúria e na Coréia. Na noite
de 8 de fevereiro de 1904, uma esquadra japonesa atacou de surpresa Port
Arthur, causando grandes baixas na frota russa ali ancorada.
No transcorrer da guerra, os japoneses conseguiram
repetidas vitórias que culminaram com a conquista de Port Arthur, depois de
um sítio de mais de seis meses de duração e o aniquilamento da esquadra russa
na batalha de Tsushima. O czar, então, aceitou as mediações do Presidente
Theodore Roosevelt e, a 23 de agosto de 1905, seus emissários firmaram o
tratado de paz com os japoneses, na cidade americana de Portsmouth. Pelo tratado,
a Rússia renunciava definitivamente a suas pretensões na Manchúria, cedia
Port Arthur ao Japão e reconhecia a Coréia como zona de influência nipônica.
O Ocidente apóia
a Japão
A Primeira Guerra Mundial assinalou um período de
extraordinário desenvolvimento do poder japonês. As demandas de manufaturas
dos mercados asiáticos e as grandes comparas de munições e navios mercantes
efetuados pelos aliados contribuíram para converter o Japão rapidamente em
uma das principais nações industrializadas do mundo. Também, em virtude da
sua participação na guerra contra a Alemanha, os japoneses conseguiram
distender suas possessões territoriais na China e no Pacífico, apoderando-se
das colônias alemães daquelas regiões.
Em setembro de 1914, uma força japonesa de 30.000
soldados desembarcou na província chinesa de Shantung e, apoiada por pequeno
contingente britânico, sitiou o porto de Tsingtao, onde os alemães haviam
construído importante base naval. No mês de novembro, a guarnição se rendeu e
os japoneses ficaram donos da praça. Tal ocupação deu lugar a inflamado
conflito com a China.
Semanas depois da capitulação de Tsingtao, o
Primeiro-Ministro do Japão, Okuma, resolveu obter o reconhecimento formal do
governo chinês aos direitos do Japão sobre a praça conquistada. A 18 de
janeiro de 1915, enviou às autoridades de Pequim - desde 1911, e com
fundamento na revolução chefiada por Sun-Yat-sem, a China se transformara em
república - um memorando contendo 21 exigências. As principais referiam-se a
Shantung e à Manchúria. Pelo referido documento, a China devia aceitar a
transferência, para o Japão de todas as possessões alemães em Shantung.
Devia-se também estender o período de cessão da península de Kwangtung, onde
se encontrava o Port Arthur, e dos direitos para a exploração de minérios,
bem como a construção das vias férreas na Manchúria.
Quatro meses a China resistiu em acatar a imposição
japonesa, apelando para todo tipo de manobra diplomática, enquanto o Japão
aproveitou-se da demora para reforçar poderosamente suas tropas acantonadas
em Shantung. Finalmente, a 25 de maio de 1915, e depois de receber um
ultimato, o governo chinês assinou um tratado aceitando as reivindicações do
Japão.
Simultaneamente, o governo de Tóquio,
secretamente, empreendeu uma série de gestões junto às potências aliadas para
obter compromisso formal de que, ao fim da guerra, apoiariam suas pretensões
territoriais em Shantung e nas colônias alemães do Pacífico, ao norte da
linha do Equador. A Inglaterra, a França, a Rússia e a Itália concordaram em
dar aquela garantia.
Portanto, ao terminar a guerra, o Japão reclamou
na conferência de paz em Paris o cumprimento do combinado. O representante
chinês, todavia, objetou que se levasse em conta que o território de Shantung
era parte integral da China e a ela devia ser reintegrado. A discussão
prolongou-se por vários meses, sem que os chineses conseguissem fazer valer
seus direitos.
A Inglaterra e a França estavam resolvidas a
cumprir seus compromissos secretos e pressionaram o Presidente Woodrow Wilson
para apoiar o acordo. Este, finalmente, consentiu na entrega, a fim de evitar
uma crise entre seus aliados, a qual impediria a constituição da Sociedade
das Nações. Sua decisão, contudo, provocou violentas críticas em seu país e
foi um dos principais motivos que impulsionaram o Senado americano a não
ratificar o ingresso dos Estados Unidos na referida organização
internacional.
Anos de crises
Com a ocupação, pelo Japão, em 1914, das ilhas
alemães do Pacífico - arquipélagos das Marshall, Marianas e Palaos -
alterou-se por completo a posição de segurança estratégica das possessões
americanas nas ilhas do Havaí, Wake, Guam e Filipinas. Por isso, as
autoridades de Washington resolveram, terminado o conflito, destacar para o
Pacífico uma frota de encouraçados, naves auxiliares, e reforçar as defesas
de suas bases. Assim começou a disputa entre os Estados Unidos e o Japão
naquele oceano.
A conferência celebrada em Washington em
1921/1922, por iniciativa do governo dos Estados Unidos, teve como objetivo frear
a expansão japonesa na Ásia e no Pacífico. Para isso, os americanos
conseguiram que a Inglaterra renunciasse a sua antiga aliança com o Japão e
celebraram um acordo com os britânicos e japoneses, destinado a limitar a
construção de navios de guerra. A proporção final estabelecida entre as
frotas dos três países autorgou ao Japão força naval equivalente a três
quintas partes das esquadras americana e inglesa.
Além disso, determinou-se suspender a construção
de novas bases e fortificações nas possessões insulares do Pacífico. Os
americanos, contudo, excetuaram dessas obrigações o arquipélago do Havaí, e
os ingleses o porto de Cingapura. Estes dois pontos controlam,
respectivamente, as saídas do tráfego marítimo japonês a este e oeste e foram
posteriormente, transformados em poderosas bases navais e aéreas.
O Japão concordou em devolver Shantung à China,
porém negou-se peremptoriamente restituir Port Arthur e as concessões
ferroviárias na Manchúria. Finalmente, a 6 de fevereiro de 1922, firmou-se
com os Estados Unidos, Inglaterra, França, China, Bélgica, Itália e Holanda
um tratado pelo qual se comprometia a respeitar “a soberania, a independência
e a integridade territorial e administrativa da China” e a “sustentar o
princípio de igualdade de oportunidade de todas as nações para exercer a
indústria e comércio em todo o território da China”. Este acordo eliminou a
posição privilegiada dos japoneses conseguida na China em 1915, por suas
famosas 21 demandas.
A reação dos núcleos militares e navais diante deste
tratado, equivalente à renúncia do Japão a sua política de expansão, foi
extremamente violenta e o Primeiro-Ministro Takahashi viu-se forçado a
demitir-se. Começou, assim, o movimento de extremado nacionalismo, que não
tardaria a adquirir rápido desenvolvimento.
A tremenda crise produzida em 1929 em todo o
mundo, originada pela depressão econômica, teve catastróficos resultados no
Japão. Inúmeras indústrias faliram e mais de 400.000 trabalhadores ficaram
sem trabalho. Neste clima prosperou aceleradamente a difusão de ideologias
direitistas inspiradas no fascismo, que atribuíram todos ao males aos
políticos liberais e capitalistas à frente do governo. O exército, e
principalmente a oficialidade jovem, converteu-se no maior baluarte do
movimento.
A crise acentuou-se com a conferência celebrada em
Londres em 1930, sobre o problema dos armamentos navais. O Japão pediu o
estabelecimento de paridade entre sua frota e as dos Estados Unidos e
Inglaterra, mas seu pedido foi negado. Esta “humilhação” desenvolveu uma nova
onda de violência e aumentou o poderio dos nacionalistas. O Primeiro-Ministro
Hamaguchi foi vítima de atentado e ficou gravemente ferido.
A ocupação da Manchúria
Em princípios de 1931, os dirigentes militares
japoneses propiciaram a adoção de uma política forte na Manchúria, a fim de
impedir a crescente influência do governo nacionalista chinês de Chiang
Kai-shek sobre o referido território. A Manchúria era governada por um
ditador local, o Marechal Chang Hsueh-Liang, que se declarara partidário entusiasta
da política de reconstrução nacional posta em prática por Chiang Kai-shek.
Portanto, para os militares japoneses seria necessário atuar rapidamente, a
fim de frustrar a referida política.
Um incidente serviu de pretexto para desencadear a
agressão. Na noite de 18 de setembro de 1931 uma bomba explodiu na linha
ferroviária japonesa, que corre entre Port Arthur e a cidade de Mukdem,
capital da Manchúria. Imediatamente, as forças japonesas encarregadas da
custódia da ferrovia lançaram-se ao ataque e ocuparam as principais cidades
ao sul da Manchúria. Sem esperar ordens do governo de Tóquio, o General
Hayashi, chefe dos exércitos japoneses na Coréia, cruzou a fronteira e
converteu o incidente em conflito de grande escala.
Sem demora, o governo chinês apelou para a Liga
das Nações, porém esta limitou-se a pedir aos contendores a cessação da luta
e enviou uma comissão para investigar. A China declarou o boicote na
importação de mercadorias japonesas, medida que não tardou a provocar reação
armada dos japoneses. Em 28 de janeiro de 1932, uma força naval comandada
pelo Almirante Shirosawa desembarcou no porto de Xangai tropas de infantaria
da marinha que atacaram a vizinha cidade de Chapei. Começou, assim,
encarniçada e sangrenta luta em torno de Xangai, que se prolongou até o fim
do mês de março. Finalmente, por mediação da Inglaterra, os japoneses foram
induzidos ao armistício e reembarcaram suas tropas. Enquanto isso, na
Manchúria, os japoneses apoderaram-se da cidade de Chinchow, onde o Marechal
Chang Hsueh Ling instalara a sede de seu governo, depois da ocupação de
Mukden. A submissão da Manchúria ficou, assim, praticamente assegurada. Em 18
de fevereiro de 1932, os japoneses proclamaram a independência da Manchúria e
mais tarde a denominaram Manchukuo e a convertem num estado títere, governado
pelo imperador Pu Yi, último monarca da China.
O êxito da agressão japonesa na Manchúria provocou
uma crise na ordem internacional instaurada ao término da Primeira Guerra
Mundial pela paz de Versalhes. A Liga das Nações, depois de longas
discussões, resolveu exigir do Japão a evacuação do território manchu e
negou-se a reconhecer o Estado de Manchukuo; todavia, não assumiu nenhuma
medida prática para garantir o cumprimento dessas resoluções. Dessa maneira,
o Japão abandonou a Liga das Nações em março de 1933 e prosseguiu sem mudar
sua política agressiva. Este precedente não demoraria a ser imitado por
Hitler e Mussolini.
Ataque à China
Na noite de 7 de julho de 1937, tropas japonesas
travaram luta com soldados chineses na localidade de Lukochiao, nos subúrbios
da cidade de Peiping. Tal incidente foi imediatamente aproveitado pelos
dirigentes militares japoneses para levar adiante seus planos de conquista da
China. Sem delongas, tropas da Manchúria e do Japão penetraram pelas
províncias do norte da China e intimaram as autoridades locais a
submeterem-se. A intimidação fracassou e deu origem ao imediato reinício das
hostilidades. Em 30 de julho, forças japonesas ocuparam Peiping e
prosseguiram seu avanço na direção sul.
Para enfrentar a agressão japonesa, Chiang
Kai-shek dispunha de um exército numericamente superior, porém carente quase
por completo de armas modernas e de uma indústria bélica capaz de abastecer
as tropas empenhadas na luta. Sua força aérea dispunha de menos de 500
aviões, na sua maioria antiquados, modelos de fabricação russa e americana.
Assim, o exército japonês, perfeitamente treinado e equipado com armas
modernas e tanques, conseguiu levar de roldão as forças chinesas que tentaram
conter sua penetração. A aviação japonesa, provida de aviões de fabricação
recente, entre os quais se destacava o veloz caça Zero, conseguiu facilmente
conquistar a supremacia aérea nos céus da China e submeteu suas cidades a
devastadores bombardeios.
O conflito estendeu-se rapidamente para o sul. Em
13 de agosto, forças do exército, da marinha e da aviação japonesa atacaram o
porto de Xangai, principal centro industrial e comercial da China. Durante
três meses, os exércitos de Chiang Kai-shek ofereceram encarniçada
resistência, mas, finalmente, tiveram que retirar-se e a cidade caiu nas mãos
dos japoneses. Ambos os lados sofreram pesadas perdas na luta.
Conquistada Xangai, as forças encaminharam-se ao
longo do rio Yangtze, na direção de Nanquim, sede do governo nacionalista,
superando com suas unidades blindadas a resistência desesperada das tropas
chinesas. Esquadrilhas de bombardeiros e caças japoneses apoiavam
constantemente o avanço das forças de terra e submeteram Nanquim a violentos
ataques. Em 13 de dezembro de 1937, a cidade foi conquistada. Chiang
Kai-shek, entretanto, já havia transferido a sede de seu governo para
Chungking, cidade situada no interior do país. Ali conseguiu manter-se
rechaçando os ataques japoneses até o fim...
Defrontados com inesperada e inflamada resistência
por parte dos chineses, os japoneses resolveram acelerar suas manobras, a fim
de dar rápido término à guerra. O objetivo seguinte foi o nó ferroviário de
Hankow, cuja posse permitiria cortar definitivamente as comunicações entre o
norte e o sul da China. Utilizando-se de uma força de cerca de 12 divisões,
em junho de 1938 iniciaram o ataque a Hankow, deslocando-se pelas duas
margens do Yangtze. Uma poderosa flotilha entrou simultaneamente pelas águas
do rio, a fim de apoiar a ofensiva.
O comando japonês lançou suas forças sobre Hankow,
em manobra de pinça. Uma coluna avançou pelo sul, mas foi rechaçada pelos
chineses, sofrendo pesadas perdas. Ao norte do Yangtze, outras duas colunas
abriram passagem na direção da cidade, sustentando violentos combates.
Finalmente, depois de quatro meses de luta incessante, as tropas conseguiram
quebrar a resistência chinesa. A 25 de outubro Hankow foi ocupada pelos
japoneses. Quatro dias antes, Cantão, importante porto do sul da China, também
caíra e todo o litoral chinês foi ocupado pelos japoneses.
Essas vitórias, contudo, não causaram desânimo na
vontade de Chiang Kai-shek no prosseguimento da luta até o fim. Seus
exércitos, entrincheirados nas agrestes regiões do interior, impediram as
tentativas dos japoneses de penetração até Chungking. Além do mais, nas zonas
ocupadas organizaram-se aceleradamente forças de guerrilhas, cujos
ininterruptos ataques forçaram os japoneses a dividir seus exércitos, para
manter o controle dos territórios conquistados. Então, a guerra entrou numa
fase de estacionamento. O Japão conseguira ocupar as principais cidades e
portos da China, mas não pôde obter uma vitória definitiva...
Em 1937, ao dar-se o ataque japonês, o governo
chinês apelara para a Liga das Nações em busca de auxílio. Entretanto, esta
perdera toda a sua capacidade de ação e limitara-se a redigir uma simples
resolução, condenando a agressão japonesa. No mês de outubro, o Presidente
Roosevelt, na cidade de Chicago, pronunciou um enérgico discurso, em que
anunciou a possibilidade de iniciar-se uma ação coletiva para deter a
política imperialista do Japão. Suas palavras, porém, não encontraram eco na
opinião pública e nos meios parlamentares, decididos a manter o país à margem
de qualquer conflito bélico.
Por iniciativa da Inglaterra e aprovação do
governo de Washington, os países que assinaram em 1922 o tratado que garantia
a independência da China, reuniram-se, no mês de novembro de 1937, em
Bruxelas, para estudar uma fórmula de pôr fim na guerra sino-japonesa. De
antemão, porém, a conferência estava condenada ao fracasso. Nenhum dos países
estava disposto a arriscar-se numa intervenção armada contra o Japão e,
também, não desejavam pressionar o governo chinês a estabelecer um
armistício, que permitisse aos japoneses conservar alguma parte dos
territórios conquistados.
A reunião chegou ao fim, sem que se adotasse
qualquer mediada efetiva. Desta forma, perdeu-se a última oportunidade de pôr
um freio à política agressiva do Japão, que culminaria com a eclosão da
guerra no Pacífico em 1941.
Os Estados Unidos enfrentam o Japão
Com a extensão das conquistas japonesas na China,
a opinião pública americana tornou-se cada vez mais hostil à nação japonesa.
Os devastadores bombardeios realizados contra indefesas
cidades chinesas causaram profunda impressão no povo americano.
No entanto, o governo do Presidente Roosevelt, no
primeiro momento não tomou medidas concretas para conter a agressão japonesa.
mas os fatos forçaram-no a sair no rastro das ambições japonesas. No dia 30
de março de 1940 Roosevelt autorizou o fornecimento de importantes créditos
ao governo de Chiang Kai-shek e, seis meses depois, decretou a proibição de
remessas de ferro e minério para o Japão. A crise foi aumentando. No dia 27
de setembro de 1940 o Japão firmou o pacto tripartite de aliança (Eixo
Roma-Berlim-Tóquio). Este fato já não deixava dúvidas sobre as intenções
japonesas. Em novembro de 1940, após ter sido reeleito pela terceira vez
Presidente dos Estados Unidos, Roosevelt resolveu atuar com energia. No dia
30 desse mês anunciou que colocaria outros 100 milhões de dólares à
disposição de Chiang Kai-shek e permitiu a remessa de aviões de caça para a
China, juntamente com aviadores voluntários. A tensão aproximava-se, passo a
passo, do seu desenlace.
Anexo
Túneis
Ao começarem as hostilidades
entre China e o Japão, os aldeões chineses escavaram covas para evitar a
perseguição dos japoneses e construíram porões sob suas casas. Os soldados japoneses
logo descobriram seus esconderijos. Os chineses ajustaram-se à nova situação e conectaram entre si os porões das casas
vizinhas, estabelecendo uma intrincada rede de túneis.
Também estes foram descobertos
pelos japoneses, que os bloquearam e inundaram, obrigando, assim, os chineses
a abandoná-los. Mas a paciência e o engenho do povo chinês não tinha limites.
Seu próximo passo foi conectar
os túneis de uma aldeia a outra. Dessa maneira, foi construído um sistema de
comunicações subterrâneas, estendendo-se ao longo de quilômetros. E ali, além
do abrigo, encontraram os chineses meios de eliminar centenas de soldados
japoneses. Com efeito, depois de permitir a entrada dos inimigos, os chineses
fechavam as entradas e inundavam as galerias. Também, em alguns trechos,
deixavam armadilhas que se fechavam atrás da colunas japonesas que se
aventuravam nas profundidades. Outrossim, nas entradas faziam fogueiras,
enchendo de fumaça as passagens e matavam os japoneses.
Em seguida, construíram túneis
paralelos aos anteriores, com maior profundidade, onde alojavam centenas de
aldeões. Depois, fizeram túneis paralelos e distanciados. Restava então só a
tarefa de reconhecer também ao longe, o inimigo do amigo. Tal expediente foi
simples. Bastava ver os pés. Um pé descalço ou calçado de sandália era um
aldeão. Um pé calçado com bota significava soldado inimigo.
Por sua vez, os japoneses
idealizaram mil e uma tramas para aniquilar os chineses ocultos nos túneis.
Uma delas constituía em amarrar num porco um tubo de gás letal, molhando-o
com combustível e deitando-lhe fogo. O porco, aterrorizado, corria pelo
túnel. Os aldeões, porém, sanaram este perigo construindo fossas cheias de
água, onde os porcos caíam.
A luta subterrânea foi
terrível. Milhares de aldeões foram vítimas. Milhares de japoneses os
seguiram pelo caminho da morte.
Refúgios
A cidade de Chungking foi
permanentemente bombardeada e assim necessitou de grande quantidade de
abrigos antiaéreos, construídos. Realmente nas colinas que a rodeavam. Não
eram, precisamente, refúgios subterrâneos, mas túneis cavados nas ladeiras.
Por sua localização elevada sobre o nível do terreno, as bocas de entrada
estavam expostas às explosões de bombas. Assim, os túneis deviam ser
perfurados atravessando toda a colina. Desse modo, a onda expansiva
atravessava as duas bocas do refúgio, sem causar nenhum dano. Por outro lado,
cada túnel escavado tinha a forma de um grande U, para reduzir a velocidade
da onda. Caso contrário, seus ocupantes poderiam sofrer graves prejuízos.
Contudo, apesar de sua aparente
segurança, os refúgios eram sumamente perigosos. As entradas eram muito
pequenas (para reduzir a pressão do ar durante as explosões) e no caso de
pânico eram facilmente bloqueáveis pelos que quisessem fugir dos túneis. Em
muitas oportunidades, durante os bombardeios, tragédias similares
produziram-se nos arredores de Chungking, provocando milhares de mortes.
Sucedeu, neste caso, que ao se bloquearem as duas entradas, os que ainda se
encontravam no interior do túnel pereciam por falta de ar.
Nos túneis instalavam-se bancos
de madeira encostados às paredes. Lá se sentavam os habitantes de Chungking,
durante o tempo em que duravam as incursões. Milhares de chineses ocupavam
também o chão e qualquer outro lugar vago, aí permanecendo por 6, 7 ou 8
horas diárias.
Apesar de suas primitivas
características, os túneis-refúgios contribuíram para salvar milhares de
vidas. A cidade pôde, assim, resistir ao repetidos e devastadores ataques da
aviação japonesa.
Não cederão...
Ao retirar-se o Japão da Liga
das Nações, em 1933, depois da conquista da Manchúria, o embaixador americano
em Tóquio, Joseph Grew, redigiu o seguinte relatório sobre a crítica
situação:
1.
Com a decisão do Gabinete japonês de afastar-se da Liga das
Nações, o Japão tomou a atitude de liquidar seus laços mais importantes com o
mundo exterior. Este passo representa uma derrota fundamental para os
elementos moderados do país e a completa supremacia militar. Desde o começo
da disputa sino-japonesa, cada atitude da Liga das nações foi aqui precedida
ou sucedida por um fato consumado, de maneira que a separação entre o Japão e
o Oeste e seu desprezo pela interferência ocidental em seus assuntos e
naquilo que acreditam ser seus interesses vitais, podia ser claramente
demonstrada. Eles não cederão à pressão moral ou de outra natureza, vinda do
Oeste. A camarilha militar, e, como resultado da propaganda militar, o
público, estão completamente preparados para combater antes de entregar-se.
Na atualidade, o despreza moral do mundo é de uma eficácia insignificante
para o Japão. Longe de servir para modificar a determinação dos japoneses só
tenderia para fortalecê-la. Se o governo demonstrasse alguma inclinação para
contemporizar ou transigir com a Liga das Nações, novos crimes, senão uma
revolução interna, seriam o resultado quase seguro.
2.
Esta atitude nacional está determinada por muitos fatores,
dos quais são importantes os seguintes: (a) Os militares estão decididos a
manter o seu prestígio e não permitir nenhuma interferência. (b) O elemento
essencial para “salvar a cara” não permite dar um passo atrás. (c) A crença
de que a Manchúria é o “salva-vida” do Japão foi cuidadosamente inculcada
entre o povo. (d) As futuras dificuldades financeiras que se originarem por
grandes desembolsos da campanha manchu, serão desatendidas por completo pelos
militares, os quais, simplesmente, se recusam à sua competência. (e) Os
japoneses são fundamentalmente incapazes de compreender o caráter sagrado das
obrigações contratuais, quando tais obrigações são antagônicas ao que eles
concebem ser seus próprios interesses.
3.
Quanto à incursão de Jehol, tenho minhas razões para
acreditar que os japoneses estão tomando especiais precauções, evitando
cruzar a Grande Muralha apesar de que a campanha possa transformar-se em forma
considerável mais custosa e difícil por causa dessa decisão. Pode ser
imprudente, contudo, passar por alto o risco que os acontecimentos ou
incidentes, agora imprevistos, podem levar à conquista de Peiping ou
Tsientin, o que certamente, colocaria de imediato os interesses estrangeiros
em direta oposição com o Japão. Este, seguramente, reagirá diante de qualquer
altitude da Liga, no sentido de sanções ativas, mediante a rápida ocupação do
Norte da China. Isto, na realidade, constitui o maior perigo latente para o
futuro.
4.
Por último, devemos levar em conta o fato de que um setor
considerável do público e o exército japonês, influenciados por uma grande
propaganda militar, acreditam que uma eventual guerra com os Estados Unidos
ou com a Rússia, ou ambos, é inevitável. A máquina militar, já em alto grau
de eficiência, está sendo constante e rapidamente reforçada, e sua arrogância
e confiança em si mesma é completa. A Armada está, também, tomando um
belicoso incremento. Com esta disposição do Exército, a Armada e o público,
corre-se o risco de que qualquer incidente pode induzir o Japão a tomar
atitudes radicais.
Minas
O povo chinês é velho
aficionado dos fogos de artifício. Há centenas de anos atrás, as festas
populares são realizadas com exibições pirotécnicas. O manejo dos explosivos,
em resumo, não tem segredos para o chinês. Nada mais lógico, portanto, o seu
emprego maciço na guerra contra os japoneses.
Todos os elementos ao alcance
do povo são factíveis de converter-se em minas. Garrafas, louças, latas vazias,
caixas de madeira e cem objetos mais converteram-se em perigosos artefatos
recheados de explosivos e providos de uma simples mecha.
Começou-se minando os caminhos
de acesso aos povoados. O objetivo era afastar os japoneses dos centros povoados,
para evitar ataques à população civil chinesa. Depois, lentamente, foram
surgindo novas técnicas e novas idéias e as minas começaram a ser usadas até
sua aplicação converter-se em verdadeira arte.
Uma das mais comuns era
enterrar grande número de minas dispersas em ampla zona, atravessando um
caminho e, também, às margens dele. De cada mina parte uma comprida corda,
que corre através de um conduto subterrâneo até o ponto onde se oculta o
observador. Tão logo as tropas japonesas começam a atravessar aquela zona, o
observador oculto puxa esta ou aquela corda, fazendo estalar as minas que ele
decide.
Utilizam-se as minas em suas
mais variadas variedades: minas que saltam, minas de tempo e minas
invertidas. Esta última variedade consiste em uma mina abandonada pelo campo,
como se fosse esquecida. Quando um japonês a toma, um pequeno recipiente
contendo ácido sulfúrico, que se encontra no seu interior, entorna seu
conteúdo e a mina explode. Tudo, desde uma cesta abandonada até uma coberta
de automóvel, poderá ser uma mina.
Alarma antiaéreo
Chungking. Típica cidade
chinesa, suas ruas são um fervedouro de gente, em confusa mistura de
dialetos, roupas, costumes e reações. Centenas de ruelas sórdidas, povoadas
por milhares de seres que parecem não alterar seus costumes diante da guerra,
contornam o centro da cidade. Nos seus arredores, numerosas colinas se
levantam, dominando os mais elevados tetos. É a elas que com freqüência, se
dirigem os olhares de todos. Que há ali?
Chungking suporta continuamente
os bombardeios da aviação japonesa. Como prevenir a população? Como organizar
a defesa passiva? A velha capital carece de sirenes; as bombas não seriam
ouvidas mais além do centro da cidade, tal o estrépito constante. As
autoridades, então, com engenhosidade oriental, aperfeiçoaram um método que
reúne a segurança, a precisão e o silêncio.
No cume das colinas erguem-se
altos postes. São muito, dispostos em círculo nos arredores de Chungking. São
vistos de qualquer ponto, desde o centro até aos subúrbios. Qual a sua
utilidade?
Quando as autoridades chinesas
tem conhecimento de que aviões japoneses partiram de suas bases, levantam uma
grande bola vermelha no alto dos postes. Isto significa que devem começar a
tomar precauções, mas com calma. Quando os japoneses estão aproximadamente a
uma hora de vôo da capital, é içada a segunda bola vermelha. A partir desse
momento, a população sabe o que deve fazer. Mediante este rudimentar, porém
engenhoso sistema de alarme, os habitantes de Chungking puderam escapar do
aniquilamento. Uma e outra vez, os japoneses atacaram a cidade com sua
aviação, mas não conseguiram dobrar a vontade de resistência dos valorosos
habitantes de Chungking.
Bombardeio em Chungking
A família avançava, lentamente,
rua acima. Na frente, abrindo caminho, o pai, atrás dele, uma mulher jovem, a
mãe, em seguida, os filhos pequenos e, por último, três ou quatro anciãos.
Todos carregavam grandes embrulhos nas costas e até os menores arrastavam
pesadas trouxas contendo roupas, panelas e outros objetos.
No fim da rua, pararam e se
agruparam em torno do pai. Contemplaram silenciosamente um informe monte de
madeiras queimadas e trapos de pano chamuscado. Era tudo o que restava do
lar.
Não houve cenas desoladoras
diante da catástrofe, nem gritos, nem prantos, nem gestos inabituais. Apenas
olhavam entre si, entendendo-se sem palavras. Depois, aproximaram-se das
ruínas, abrindo caminho até o centro dos despojos. Ali, depositaram os
embrulhos no chão, acocorando-se ao redor. A mãe abriu uma pequena bolsa e
retirou várias bolas pequenas, feitas com arroz amaçado e distribuiu-as uma a
uma. O homem, os meninos e os velhos começaram a comer em silêncio.
Minutos depois, levantando-se,
iniciaram a tarefa. Separando os restos, classificaram cuidadosamente os
pedaços de madeiras e tecidos. Depois, com minuciosidade, começaram pela
centésima vez, a erguer a vivenda. Assim, dia a dia, hora a hora, a população
chinesa de Chungking afronta as conseqüências dos bombardeios japoneses.
Tudo começou a 7 de julho de
1937. Naquele dia, um incidente ocorreu nos arredores de Peiping, no qual
intervieram tropas chinesas e japonesas, desencadeando uma longa guerra.
E desde então o povo das
cidades chinesas espera, dia a dia, os bombardeios maciços dos japoneses.
Porém, o fazem com estranha calma. Uma calma incompreensível para o
temperamento europeu
Canhões de madeira
A artilharia chinesa,
praticamente inexistente, recorreu a mil artifícios para poder combater o
invasor. Um deles foi o canhão de madeira. Como seu nome diz, o canhão foi
construído... de madeira.
A arma consiste num tronco de
árvore descascado e polido de aproximadamente um metro de comprimento. No seu
interior fazia-se um orifício de uns 10 cm. O tronco era reforçado na parte
externa com cabos telefônicos, retirados das instalações que o inimigo
colocava. A arma era carregada e disparada por um primitivo sistema que
consistia em abastecê-la pela parte posterior com uma cera quantidade de
pólvora e introduzir-lhe pela bica um projetil pesando uns 2 kg. Logicamente
seu alcance de fogo era muito limitado, assim como sua precisão de tiro, mas
cumpria seu principal objetivo. Realmente, os soldados japoneses chegaram a
temer os canhões de madeira, que ocasionavam com seus disparos múltiplas
dilacerações.
Ajuda americana à China
No dia 26 de julho de 1941, o governo americano tomou
uma medida que significava o apoio
sem vacilações nem dissimulações ao regime chinês que se defendia da
agressão japonesa. Nesse dia, efetivamente, uma Missão Militar Americana foi
estabelecida na China. Seu chefe era o General Magruder. Não significava, no
entanto, que aquela fosse a primeira ajuda que, direta ou indiretamente os
Estados Unidos prestavam à China. Com efeito, desde muito antes, no
território chinês combatiam, junto com os efetivos de Chiang Kai-shek, os
“Tigres Voadores”, de Chennault. Era um aviador americano nascido no Texas,
em 1891, e incorporado às forças aéreas do exército americano em 1917. Entre
1925 e 1926 tinha sido comandante de um grupo no Havaí e realizado intensos
estudos sobre as táticas aéreas e o emprego de tropas pára-quedistas. Ao se
dar a invasão japonesa à China, Claire Lee Chennault, retirado do exército
americano, ofereceu seus serviços a Chiang Kai-shek e formou, com pilotos
voluntários, o grupo denominado “Tigres Voadores”. Com essa força defendeu,
com êxito, a estrada da Birmânia das forças aéreas japonesas muito superiores
em número. Em 1942 recebeu a nomeação de brigadeiro-general. Ficou, além
disso, no comando das forças aéreas americanas na China e subiu, finalmente,
em 1943, a general.
Em setembro de 1941, o governo
chinês tinha a seu serviço 100 aviões Curtiss P-40, servidos por 100 pilotos
americanos e 181 membros auxiliares.
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