Guerra na África do Norte

 

A contra-ofensiva britânica

            

Contra ataque inglês: Operação Crusader

 

 

Na madrugada de 10 de abril de 1941, as colunas blindadas do Afrika Korps convergem sobre a fortaleza de Tobruk, último reduto que resta aos britânicos em território da Líbia. Mediante a ocupação dessa praça de guerra, Rommel se propõe a por um ponto final na fulminante campanha que, um mês atrás, iniciara contra as forças do General Wavell. Em rápida marcha, as unidades alemães conseguiram reconquistar toda a Cirenaica, infligindo aos ingleses uma série ininterrupta de derrotas. Só resta agora capturar Tobruk para que o caminho do Egito fique totalmente desimpedido.

 

Wavell compreende que a resistência nessa praça de guerra tem uma importância vital, pois retardará a continuação do avanço alemão e lhe permitirá reorganizar suas forças dizimadas. Determina, portanto, que Tobruk seja defendida até o último homem. No dia 10 de abril, o general Dorman Smith aterrissa na fortaleza a bordo de um pequeno avião e comunica ao chefe da guarnição, General Morsehead, a dramática decisão de Wavell. A partir desse momento se inicia a epopéia de Tobruk. Lutando com inquebrantável decisão, as tropas encarregadas de sua defesa rechaçarão todos os ataques das forças alemães e italianas.

 

Tobruk, pequena localidade, que em tempos de paz tinha uma população de cerca 4.000 habitantes, está construída sobre a costa deserta da Líbia, junto a uma ampla baía de águas profundas. Era, portanto, um dos melhores portos naturais da costa norte-africana, o que lhe dava um imenso valor estratégico como centro de abastecimento. Os italianos tinham convertido Tobruk, antes da guerra, em uma poderosa fortaleza, rodeando-a com um potente cinturão defensivo. Em torno do porto e de frente para o deserto, construíram uma cadeia de 170 redutos fortificados, de cimento armado, totalmente enterrados na areia. Essas obras, irregularmente distribuídas, e protegidas por campos minados e cercas de arama farpado, contavam com armas antitanques, metralhadoras e morteiros. Existia, além disso, um grande fosso antitanque, que rodeava todo o perímetro, habilmente camuflado com um telhado de tábuas cobertas de areia. Em abril de 1941, às vésperas do ataque de Rommel, a praça de guerra era defendida por cerca de 25.000 soldados, em sua maior parte australianos, considerados os melhores combatentes do Império Britânico.

 

Com sua característica impetuosidade, Rommel resolveu começar o assalto, sem aguardar que todas as suas forças se concentrassem em torno da fortaleza. A 11 de abril, as unidades avançadas completaram o cerco, e continuaram o seu avanço para a fronteira egípcia. Simultaneamente, os Stukas começaram o bombardeio das posições de defesa, cuja localização era totalmente desconhecida pelo chefe alemão (posteriormente, os italianos lhe forneceriam plantas detalhadas da fortaleza). No dia seguinte, Rommel desfechou o primeiro ataque. A divisão italiana Brescia avançou pelo oeste e pelo sudoeste, a 5a Divisão leve alemã tentou penetrar no cinturão defensivo, sendo rechaçada pelo violento fogo da artilharia britânica.

 

Este primeiro fracasso não desanimou Rommel. No dia 14 de abril lançou novamente suas forças ao assalto, apoiando-as com uma poderosa concentração de artilharia. Um batalhão da 5a Divisão leve, comandada pelo Coronel Ponath, irrompeu através das defesas e, seguido pelos tanques, avançou profundamente em direção ao porto. Os ingleses, no entanto, resistiram desesperadamente, forçando os tanques alemães a se retirarem. Permaneceu cercada a infantaria do Coronel Ponath, que foi morto junto com a maioria de seus homens. Antes de serem aniquilados haviam conseguido apoderar-se do ponto mais importante das defesas de Tobruk, uma série de colinas a menos de 5 km da cidade. Este sacrifício, no entanto, resultou totalmente estéril.

 

No dia 30, os alemães e italianos iniciaram outra ofensiva. Às 6 da manhã, as esquadrilhas de Stukas precipitaram-se do céu sobre as fortificações da colina de Ras el Madauer, situada no lado ocidental do perímetro, e bombardearam implacavelmente as posições inimigas. Em seguida, acobertados por um fogo infernal de artilharia, as unidades da infantaria e os tanques iniciaram o ataque. Os australianos não cederam, no entanto. Cada fortificação e cada trincheira converteu-se em palco de uma luta desesperada. Mesmo feridos, os australianos seguiram combatendo, e negavam-se a se entregar. A ordem era morrer em seus postos e a cumpriram sem vacilação alguma.

 

Ao amanhecer, um batalhão alemão conseguiu, depois de sangrentos combates, apoderar-se de Ras el Madauer. A batalha havia sido finalmente ganha, mas Rommel teve que encerrar a ofensiva sobre Tobruk. Suas forças haviam perdido, por causa da heróica resistência britânica, cerca de 1.200 homens, e se encontravam totalmente extenuados. Tobruk, uma vez mais, estava salva.

 

 

 

O fracasso da ofensiva de Wavell

 

Enquanto Rommel tentava, infrutiferamente, por fim à conquista de Tobruk, o General Wavell, pressionado pelas insistentes exigências de Churchill, preparava uma contra-ofensiva. O Primeiro-Ministro britânico exigia de forma categórica: - Uma vitória no deserto ocidental que destrua o exército de Rommel... Wavell, em vista disso, efetuou um primeiro ataque com a intenção de impelir Rommel para o oeste de Tobruk, antes que este recebesse o reforço da 15a Divisão Panzer, cujos efetivos sabia-se, já estavam em viagem para a Líbia.

 

Nas primeiras horas do dia 15 de maio, as forças britânicas, integradas pela 17a Divisão blindada e uma brigada motorizada, penetraram através das posições alemães, na fronteira egípcia, e se apoderaram do estratégico desfiladeiro de Halfaya, única via de acesso à Líbia, na costa do Mediterrâneo. Rommel enviou imediatamente um batalhão de tanques reforçados e uma bateria de canhões de 88 mm para conter os carros blindados britânicos que se haviam infiltrado num movimento de flanco através do deserto. Essas forças não chegaram a se encontrar, pois os ingleses optaram pela retirada, quando fracassou, ao norte, seu avanço sobre a localidade de Capuzzo, situada a alguns quilômetros do desfiladeiro de Halfaya.

 

Este último ponto permaneceu, no entanto, em suas mãos, e se apressaram a fortificá-lo. Rommel, decidido a não deixar os ingleses de posse do desfiladeiro, organizou imediatamente um contra-ataque. Na manhã do dia 27 de maio, três grupos de assalto alemães, se apoderaram de Halfaya, depois de curto e renhido combate com os britânicos. Imediatamente, Rommel empreendeu a construção de poderosas defesas para deter o novo ataque inglês que, cedo ou tarde, sabia que se efetuaria. Foram instaladas em Halfaya, e em outros pontos do maciço rochoso que corre paralelo à fronteira egípcia, numerosas fortificações e pontos de resistência, colocaram-se baterias de 88 mm, camuflando ao nível do solo as bocas dos seus mortíferos canhões. Essas fortificações desempenharam um papel decisivo na derrota sofrida pelos britânicos no decorrer de sua ofensiva, batizada pelo nome chave de Battleaxe.

 

Como reforço para Wavell, Churchill determinou que um comboio transportando 280 tanques, entre os quais 100 do novo tipo Crusader, se dirigisse ao Egito através da rota do Mediterrâneo, desafiando o perigo dos submarinos e os ataques da aviação alemã e italiana. Uma vez chegados a Alexandria, os veículos foram rapidamente conduzidos à fronteira e incorporados às unidades que interviriam no ataque, sob o comando do General Beresford-Pierce, que traçou o plano da ofensiva. O grosso das forças, integradas pela 7a Divisão blindada e uma briga motorizada, penetraria, numa manobra de flanco, ao sul do desfiladeiro de Halfaya, e, em seguida, se deslocaria para o norte em direção à costa, a fim de envolver, pela retaguarda, as forças alemães. O desfiladeiro de Halfaya seria atacado frontalmente pelas tropas da 4a Divisão hindu, apoiadas por tanques pesados Matilda. Participariam da ofensiva uns 28.000 soldados, e cerca de 180 tanques.

 

Os preparativos da ação tiveram que ser realizados em poucos dias. O General Creagh, chefe da 7a Divisão, recebeu a 29 de maio a ordem de manter a prontidão de suas forças para iniciar o ataque a 10 de junho. A seu pedido, a data foi transferida para 15 de junho. Surgiram, aliás, graves inconvenientes com os novos tanques Crusader que, depois de percorrer poucos quilômetros, sofriam uma série de desarranjos mecânicos. O ataque apresentou assim, desde o início, perspectivas sumamente desfavoráveis.

 

Rommel, nesse meio tempo, já estava a par da iminente ofensiva, pois seus aviões de reconhecimento haviam descoberto a concentração crescente de forças britânicas na fronteira. Distribuiu, então, suas forças blindadas, em profundidade, para fazer frente ao ataque. A 15a Divisão Panzer colocou-se na retaguarda do desfiladeiro de Halfaya, e a 5a Divisão leve manteve-se ao sul de Tobruk para atuar como reserva. Na noite de 14 de junho foi dado o alarma às unidades alemães e italianas. Às 4 da manhã do dia seguinte, os britânicos iniciaram a sua ofensiva. A operação Battleaxe estava em marcha. Os ataques britânicos no desfiladeiro de Halfaya esfacelaram-se contra a denodada resistência das tropas alemães e italianas, comandadas pelo Capitão da reserva Bach. Entrincheirados nos agrestes contrafortes, os homens de Bach abriram um fogo mortífero com suas metralhadoras e peças de artilharia sobre as colunas dos infantes hindus e britânicos, e conseguiram, também, destruir numerosos tanques e veículos blindados. O fracasso dos ingleses em Halfaya decidiu o curso da batalha, pois permitiu a Rommel concentrar a totalidade de suas forças blindadas, e lançá-las num movimento envolvente sobre o flanco da 7a Divisão blindada que havia conseguido avançar profundamente para o norte. Sustentando violentos combates, no transcurso dos quais perderam numerosos tanques, os ingleses se retiraram aceleradamente, e escaparam à armadilha. A 18 de junho, a luta chegou ao fim com a derrota total das forças de Wavell.

 

O fracasso da ofensiva na qual Churchill havia depositado tantas esperanças não alterou sua resolução de obter, a curto prazo, a destruição das forças de Rommel. No dia 21 de junho enviou uma mensagem a Wavell comunicando que havia resolvido substituí-lo no comando pelo General Sir Claude Auchinleck, nesse momento comandante-em-chefe das forças britânicas na Índia. Ao novo chefe, Churchill determinou preparar sem demora a ofensiva decisiva contra as forças do Eixo.

 

Vésperas do ataque britânico

 

Uma vez obtida sua vitória sobre o exército de Wavell, Rommel se dedicou com energia a preparar o ataque contra Tobruk. A conquista dessa praça de guerra se havia convertido numa verdadeira obsessão para o chefe alemão, pois sabia que os ingleses não tardariam em articular uma nova e poderosa ofensiva através da fronteira egípcia. Calculava, no entanto, que tal operação somente teria lugar em fins de 1941, o que lhe dava margem de tempo suficiente para apoderar-se da fortaleza.

 

Apesar de seus esforços, Rommel não pôde vencer as inúmeras dificuldades que impediam o adequado reforço e abastecimento de suas escassas unidades. A aviação e a marinha britânicas, com base em Malta, causavam terríveis baixas aos comboios que transportavam provisões para o Afrika Korps, e as esquadrilhas alemães, estacionadas na Sicília, não eram suficientes para neutralizar esses ataques. Em tais condições, as perdas de navios se agravavam dia a dia. Em outubro de 1941, um mês ante da data fixada para o ataque a Tobruk, os britânicos conseguiram afundar, no Mediterrâneo, 50% do material enviado a Rommel através dos comboios. Perderam-se assim mais de 7.000 toneladas de abastecimento, e cerca de 500 tanques e veículos. Só chegaram à África, como reforço, perto de 8.000 soldados, dos quais, mais de 2.000 tiveram que ser transportados por via aérea.

 

Colocado diante dessa situação crítica, à qual se somavam os contínuos entraves que os chefes italianos opunham ao projetado ataque, Rommel viajou para Roma, a fim de pedir ao alto-comando alemão que autorizasse o imediato início do ataque contra Tobruk. À medida que passavam as semanas, a potência de suas forças diminuía aceleradamente, em relação às inglesas, pois estas recebiam uma corrente contínua e crescente de reforços, através da rota do Cabo da Boa Esperança. Rommel conseguiu finalmente a aprovação para iniciar o ataque. A operação teria lugar no meio do mês de novembro.

 

Enquanto isso, no lado inglês, aceleravam-se os preparativos da operação Crusader. Sob essa denominação se haviam elaborado os planos da poderosa ofensiva que aniquilaria os exércitos de Rommel. Apesar das objeções de Auchinleck, que reclamava para esse ataque uma força mínima de 3 divisões blindadas e uma motorizada, Churchill ordenou levar adiante a operação com os recursos existentes na África: a 7a Divisão blindada e duas brigadas adicionais de tanques pesados. Estas forças somavam um total de 724 tanques operacionais e 200 de reserva, contra os quais Rommel só podia opor 414, dos quais 154 eram antiquados veículos italianos. A desigualdade no ar era ainda muito mais acentuada, pois os britânicos contavam com 1.100 aviões de combate contra 320 aparelhos alemães e italianos.

 

Com as unidades sediadas no Egito, procedeu-se à formação do 8o Exército, cuja direção Auchinleck confiou ao General Alan Cunningham, que tivera brilhante atuação na campanha da África Oriental contra os italianos. Cunningham chegou ao Cairo em agosto, e foi notificado de que devia preparar uma ofensiva geral contra Rommel no espaço de 2 meses. O ataque teria lugar no dia 1o de novembro. Nessa escassa margem de tempo, organizou o seu exército, e elaborou, juntamente com seu chefe de Estado-Maior, o General Galloway, o plano das operações. O 8o Exército ficou dividido em dois corpos: O 30o Corpo de Exército, comandado pelo General Norrie, agrupava a massa das forças blindadas (7a Divisão blindada, 1a Divisão Sul-africana e uma brigada motorizada), e o 13o Corpo de Exército, comandado pelo General Godwin Austen, reunia a maioria das tropas de infantaria (4a Divisão hindu, divisão da Nova Zelândia e brigada de tanques pesados). Além disso interviria na operação a guarnição de Tobruk (70a Divisão de infantaria), uma brigada de tanques pesados e uma brigada polonesa.

 

Assim, de acordo com o plano de Cunningham, as forças blindadas e as de infantaria atuariam de forma separada. O 30o Corpo avançaria pelo sul até a localidade de Gabr Saleh, situada no meio do deserto, a fim de atrair à luta, com a ameaça de um movimento envolvente, a massa das unidades blindadas de Rommel. Desencadear-se-ia, então, a batalha decisiva, na qual os britânicos, valendo-se de sua superioridade numérica, aniquilariam os tanques alemães. O 13o Corpo atacaria ao longo da costa as posições inimigas no desfiladeiro de Halfaya, e se manteria depois à espera, até que os carros blindados britânicos conseguissem a vitória. Uma vez conseguida, avançaria, juntamente com o 30o Corpo, para Tobruk, cuja guarnição por sua vez se incorporaria ao ataque. Nesta segunda fase, Cunningham pretendia destruir as unidades de infantaria alemães e italianas que se encontravam em torno e ao sul de Tobruk.

 

O projeto de Cunningham, aprovado por Auchinleck, foi logo dado a conhecer aos chefes das diversas unidades. Imediatamente ativou-se a concentração das forças, operação que, no maior segredo, coroou-se de êxito. O decisivo fator surpresa ficou assim assegurado. Surgiram, no entanto, inconvenientes com respeito à data do ataque, pois uma das brigadas blindadas mal chegara ao Egito, a 14 de outubro. Auchinleck viu-se então obrigado a adiar o dia D para 18 de novembro. Na noite de 17, milhares de homens, canhões e veículos se achavam já colocados em suas posições de assalto na fronteira. Chegara, finalmente, a hora decisiva.

 

Começa a Operação Crusader

 

Com as primeiras luzes do dia 18 de novembro de 1941, a RAF iniciou os seus ataques contra as posições alemães e italianas. Às 6 da manhã, o 8o Exército se pôs em movimento. Em intermináveis colunas, os tanques e veículos do 30o Corpo avançaram através do deserto, rumo a Gabr Saleh. Na frente, dispostos em forma de leque, marchavam velozmente as unidades motorizadas de exploração. No meio da manhã, os tanques britânicos fizeram alto, e procederam ao reabastecimento de combustível. A 7a Divisão, com suas três brigadas, contava com um efetivo de 453 carros blindados.

 

O objetivo de Gabr Saleh foi ocupado sem dificuldades. Cunningham, que marchava com as colunas avançadas, comprovou com satisfação que havia conseguido surpreender totalmente o inimigo. Às 6 da tarde distribuiu as ordens para o dia seguinte: destacar as patrulhas de exploração em direção ao norte e ao oeste, em busca das colunas Panzer que, sem dúvida, não tardariam em desencadear um contra-ataque. Na manhã seguinte, no entanto, a calma continuou. Os tanques de Rommel não davam sinal de vida. Indeciso, Cunningham resolveu então - seguindo os conselhos do General Norrie, chefe do 30o Corpo - prosseguir o avanço para Tobruk. Aprofundando a penetração, esperava provocar a reação dos alemães.

 

As colunas se puseram novamente em marcha, deixando atrás os tanques da 4a Brigada, com a missão de proteger o flanco esquerdo do 13o Corpo do exército. Esta decisão de Cunningham teve fatais conseqüências, pois marcou o início da dispersão das forças, acontecimento que Rommel não tardaria em aproveitar. Pouco depois das 11 da manhã as vanguardas da 7a Divisão blindada, integradas por tanques da 22a Brigada defrontaram-se nas cercanias de Bir el Gobi, ao sul de Tobruk, com os carros blindados da Divisão italiana Ariete. O General Gott, chefe da divisão inglesa, ordenou que a totalidade da brigada atacasse os italianos, certo de que haveria de aniquilá-los rapidamente. Os tanques se desviaram de sua rota e arremeteram contra a Ariete, travando-se um violento combate. Ao cair da tarde, os italianos haviam conseguido rechaçar o ataque, destruindo, com o apoio de sua artilharia, 52 tanques britânicos. A força blindada de Cunningham, que continuou a avançar para o aeródromo de Sidi Rezegh, situado ao sul de Tobruk, estava agora reduzido a uma só brigada, a 7a, integrada por tanques médios Crusader providos de canhões de 37 mm. Contra eles Rommel não tardaria em lançar suas duas Divisões Panzer constituídas pelos poderosos tanques Mark III e Mark IV, ambos armados com canhões de 50 e 75 mm.

 

Cunningham ordenou na noite de 19, que a 4a Brigada permanecesse em suas posições, na retaguarda, e que a 22a mantivesse o ataque sobre Bir el Gobi até ser substituída pela infantaria motorizada sul-africana. A 7a Brigada continuaria em Sidi Rezegh, à espera de um ataque alemão. Nessa noite, um defeito no equipamento de rádio deixou Cunningham completamente sem comunicação com seu QG. Em vista disso o comandante-em-chefe abandonou o 30o Corpo do exército e voou em direção à retaguarda.

 

A batalha de Sidi Rezegh

 

Rommel regressou à Líbia, vindo de Roma a 18 de novembro, no momento em que os britânicos punham em marcha a operação Crusader. No começo, o chefe alemão pensou que a operação se reduzisse simplesmente a um reconhecimento armado em grande escala. No entanto, ao cair da tarde, e em virtude dos informes recebidos, compreendeu que se tratava de uma ofensiva decisiva. Em vista disso, suspendeu o projetado ataque a Tobruk, e ordenou ao General Cruewell que marchasse imediatamente ao encontro dos ingleses, com as duas Divisões Panzer do Afrika Korps.

 

Na tarde do dia 20, Cruewell avançou com a 15a Divisão Panzer em direção de Gabr Saleh (a 21a Divisão Panzer teve que suspender a marcha ao esgotar-se o combustível). O representante de Rommel, agindo por conta própria, havia decidido atacar primeiramente a 4a Brigada britânica, comandada pelo Brigadeiro Gatehouse, para depois lançar-se contra o resto das forças blindadas inimigas localizadas ao sul de Tobruk. Esse movimento das forças alemães foi rapidamente comunicado ao QG de Cunningham. Este, profundamente alarmado, compreendeu o erro que havia cometido ao dispersar suas forças, e ordenou, imediatamente, que a 22a Brigada executasse um movimento de retirada ordeira de Bir el Gobi, para prestar apoio aos 120 tanques leves do Brigadeiro Gatehouse.

 

Sua decisão, no entanto, foi tardia. Os tanques de Cruewell chegaram a Gabr Saleh e travaram um furioso combate com a 4a Brigada, inflingindo-lhe grandes perdas. Às 18h30 chegaram ao palco da batalha as unidades avançadas da 22a Brigada e se incorporaram às forças de Gatehouse. Cruewell, uma vez desferido esse rude golpe, resolveu marchar junto com a 21a Divisão Panzer, que já se havia reabastecido de combustível, em direção a Sidi Rezegh, a fim de atacar pela retaguarda a 7a Brigada blindada britânica. Nas primeiras horas do dia 21 de novembro, as duas divisões Panzer empreenderam uma rápida marcha em direção do seu objetivo. Atrás, seguindo perto, marchavam os tanques da 4a e 22a Brigadas. Convencidos de que os alemães se retiravam derrotados, os carros blindados britânicos lançaram-se em sua perseguição!

 

Às 9h30 da manhã, Cunningham recebeu a notícia do “desastre”, sofrido pelos alemães em Gabr Saleh. Eufórico, ordenou ao General Godwin Austen, chefe do 13o Corpo de exército, juntar-se ao ataque, e empreender o avanço em direção a Sidi Rezegh e Tobruk, ao longo da costa, afim de completar pelo norte o envolvimento das Panzer. Todo o 8o Exército britânico empenhou-se na luta, certo de que a vitória, praticamente, já havia sido alcançada. A notícia correu com incrível rapidez e, no dia seguinte, os jornais de Londres publicaram na primeira página a sensacional manchete: Rommel Cercado!

 

O alemão, no entanto, estava na eminência de obter uma de suas mais brilhantes vitórias. As duas Divisões Panzer convergiram sobre Sidi Rezegh no dia 21 de novembro, e depois de cruenta luta conseguiram derrotar a 7a Brigada britânica. No decorrer de sua heróica resistência esta unidade ficou reduzida a 28 maltratados tanques. No dia seguinte apareceu a 22a Brigada e pouco depois, também a 4ª. Imediatamente iniciou-se uma luta violentíssima. Empenhados em furiosos duelos individuais, os tanques de ambos os lados corriam a grande velocidade pela arenosa planície, levantando gigantesca nuvem de arreia. A visibilidade tornou-se praticamente nula. Centenas de tanques britânicos foram destruídos pelo fogo das Panzer, e pelas mortíferas descargas dos canhões de 88 mm. Ao cair da noite, as três brigadas da 7a Divisão blindada haviam perdido dois terços de seus efetivos, e os 150 tanques que conseguiram escapar ilesos retiram-se desordenadamente em direção ao sul. A derrota britânica era total.

 

Somente ao meio-dia de 23 de novembro, Cunningham teve conhecimento do desastre que, surpreendentemente, se havia abatido sobre seu exército. O grosso das forças blindadas, cuja ação constituía a chave do êxito do plano Crusader havia deixado de existir. Nessa dramática circunstância, quando tudo já parecia perdido, chegou de avião, designado para o comando do 8o Exército, o General Auchinleck, comandante-em-chefe das forças britânicas do Oriente Médio. Este, num gesto de extraordinária resolução e audácia, cancelou o projeto de Cunningham de executar a retirada para o Egito, e transmitiu a ordem de reatacar Sidi Rezegh. Essa temerária atitude decidiu a sorte da batalha.

 

Rommel em retirada

 

Na manhã do dia 24 de novembro o General Cruewell entrevistou-se com Rommel e o colocou a par da brilhante vitória das Divisões Panzer sobre os britânicos. Rommel decidiu então lançar todas as suas unidades móveis numa fulminante ofensiva até a fronteira egípcia, com a intenção de desarticular, por completo, os últimos dispositivos do 8o Exército britânico. Tal ataque, segundo ele, haveria de provocar um caos total nas fileiras inglesas e forçaria o General Cunningham, já esmagado pela terrível derrota sofrida em Sidi Rezegh, a empreender imediatamente a retirada para o Egito. O Afrika Korps - reduzido pela violência da luta, a uma força de 100 tanques - conseguiria assim, sem sofrer grandes perdas, uma vitória definitiva.

 

Esse plano, no entanto, fracassaria, pois ao contrário de Cunningham, o General Auchinleck - que agora exercia diretamente o comando - estava disposto a enfrentar qualquer risco, sem ceder um metro de terreno. A 24 de novembro, as Panzer de Rommel empreenderam velozmente a sua penetração rumo ao leste, abrindo caminho através das unidades britânicas que, apanhadas de surpresa, dispersaram-se em todas as direções. O êxito da operação de Rommel parecia estar aparentemente assegurado. Auchinleck, porém, não vacilou. Nessa manhã distribuiu a todas as unidades uma decisão categórica: - Continuem atacando o inimigo sem dar-lhe descanso com todos os meios à sua disposição e, se for preciso, lutem até o último tanque!

 

O ataque de Rommel foi contido na fronteira pela 4a Divisão indiana. Quase sem combustível, e submetido a um incessante bombardeio por parte da aviação britânica, o Afrika Korps encaminhou-se para o norte, em direção ao porto de Bardia. Ali, Rommel recebeu a dramática notícia que a infantaria neozelandesa, avançando pela retaguarda, apoderara-se novamente de Sidi Rezegh, e acabava de estabelecer contato com a guarnição de Tobruk. Ante a grave ameaça, Rommel ordenou às suas forças refazer o caminho andado, imediatamente, e a 29 de novembro atacou pela segunda vez os britânicos em Sidi Rezegh. Durante dois dias travou-se ali uma encarniçada batalha, culminando com a vitória das Panzer. Tobruk estava outra vez isolada, mas o Afrika Korps havia já esgotado a sua capacidade combativa.

 

Entre o 1o e 4o dia de dezembro, a iniciativa passou para as mãos do 8o Exército britânico, comandado agora pelo General Ritchie, a quem Auchinleck designou como substituto do General Cunningham. Acossado pelos incessantes assaltos dos britânicos, Rommel resolveu, finalmente, bater em retirada. Na noite de 7 para 8 de dezembro, à frente das dizimadas colunas do Afrika Korps, rumou para o oeste. Nesse momento só lhe restavam 30 tanques! A retirada alemã pôs fim à epopéia de Tobruk. Tropas neozelandesas, hindus e sul-africanas penetraram no devastado perímetro da fortaleza e celebraram jubilosamente junto com os defensores extenuados, o final do prolongado e terrível sítio.

 

Perseguido pelas unidades do 13o Corpo de exército, Rommel conseguiu realizar uma retirada ordenada até as posições defensivas, que havia construído na área do porto de Gazala. Entre 11 e 15 de dezembro os britânicos desencadearam uma série de violentos ataques, e conseguiram forçar o Afrika Korps a prosseguir sua retirada. No dia 24, as tropas da 4a Divisão hindu ocuparam Bengási, e continuaram a perseguição. Rommel, nesse momento, recebeu, proveniente de Trípoli, um reforço de 49 tanques, e consegue infligir aos britânicos uma última derrota, destruindo 75 carros blindados ingleses. A 6 de janeiro o Afrika Korps terminou em El Agheila sua longa retirada. Na cruenta campanha, Rommel havia perdido mais de 37.000 soldados e quase a totalidade de seus tanques.

 

Assim concluiu-se a operação Crusader. Graças à valorosa resolução de Auchinleck e à coragem de seus soldados, o 8o Exército converteu uma derrota segura, numa extraordinária vitória.

 

Luta naval no Mediterrâneo

 

A vitoriosa contra-ofensiva empreendida pelo 8o Exército britânico foi possível, em grande parte, pela insolubilidade dos problemas que o abastecimento criava para Rommel. Com efeito, a marinha e a aviação britânica devastavam os comboios do Eixo que tentavam cruzar o Mediterrâneo. Apenas uma minúscula parte do material enviado a Rommel chegava ao destino. Em vista disso, para solucionar o problema, o Alto-Comando alemão encarregou Doenitz de preparar um plano que, em linhas gerais, determinava a retirada de um certo número de submarinos das águas do Atlântico, para empregá-los, posteriormente, na luta contra a Marinha britânica no Mediterrâneo. Para substituir os submarinos alemães, por sua vez, os italianos enviariam uma flotilha de seus submersíveis que ficariam sediados no porto de Bordeaux.

 

No início de novembro de 1941, e pouco antes do início do ataque do 8o Exército contra as forças de Rommel, 24 submarinos alemães conseguiram transpor o Estreito de Gibraltar e chegaram à costa italiana. Estabeleceram sua base em La Spezia. Utilizaram também as bases de Salamis, na Grécia, e Toulon, na França. A ação desses corsários não tardou em frutificar favoravelmente. A 12 de novembro de 1941, o submarino alemão U-81 interceptou, a 25 milhas a leste de Gibraltar, o grande porta-aviões britânico Ark Royal, que navegava de regresso à ilha de Malta, e conseguiu atingi-lo com seus torpedos, afundando-o. Aproximadamente 15 dias depois, outro submarino alemão, o U-331, afundou o encouraçado inglês Barham, que arrastou no bojo 500 tripulantes. A estes ataques acrescentou-se uma audaciosa incursão realizada pelos célebres “torpedos-humanos” italianos. Na noite de 18 de dezembro de 1941, o submarino italiano Scire, aproximou-se sem ser pressentido do porto de Alexandria e lançou às águas três embarcações submersíveis de assalto, cada uma tripulada por dois homens. Os torpedos humanos penetraram no porto e, aproveitando a entrada de barcos ingleses, passaram sem ser incomodados pelas redes submarinas. Aproximaram-se então dos encouraçados Queen Elizabeth e Valiant e fixaram cargas submarinas nos seus cascos. Essas bombas explodiram na manhã do dia 19 e causaram danos de tal gravidade aos dois barcos, que permaneceram inutilizados durante vários meses.

 

Assim, tal como declarou Churchill, “no decorrer de poucas semanas, a totalidade de nossa esquadra de guerra no Mediterrâneo Oriental foi eliminada como força combatente”. Isto favoreceu, posteriormente, a contra-ofensiva de Rommel.

 

Anexo

 

Os “ratos do deserto”

Tobruk, 11 de abril a 8 de dezembro de 11941. Centenas de homens disputam as tocas com os roedores. As trincheiras antitanques são o lar dos combatentes, seu refúgio e o lugar de descanso. Covas, buracos e pequenos túneis abrigam a guarnição britânica, que resiste ao assédio das forças do Eixo. E  uma só cifra, a dos ataques aéreos da aviação inimiga, justifica tal estado de coisas. Efetivamente, 1.500 ataques ensinaram aos homens a viver rastejando. Mais ainda, a enterrar-se no solo...

Um total de 25.000 homens resistem em Tobruk. Há, entre eles, uma divisão australiana, um esquadrão da Guarda de Dragões do Rei, um batalhão de Fuzileiros Reais de Northumberland, destacamentos da Real Armada, da RAF, dos regimentos de tanques, um esquadrão da Cavalaria hindu e uma brigada de infantaria polonesa.

A água, elemento precioso, está severamente racionada. A higiene pessoal deve ser feita com água do mar. Os utensílios são lavados, também, com água salgada. E a conseqüência é só uma: tudo o que se come, e o que se bebe, tem, infalivelmente, sabor de água salgada.

O combustível, durante longos períodos, é tão escasso a ponto de não se poder utilizar os tanques. Os abastecimentos chegam a ser tão esporádicos, que os canhões de 25 libras dispõem às vezes de apenas 20 balas. Quando os tanques podem carregar combustível em quantidade razoável, seus tripulantes ficam a bordo, prontos para a ação.

Nas covas, utilizando velhas baterias e motores de motocicletas, os soldados improvisam instalações que lhes permitem iluminação por breves períodos. A guarnição, oficiais e soldados, devem viver numa relação tão estreita, que só as insígnias permitem distinguir o soldado do oficial, que dormem lado a lado numa trincheira. E é precisamente, a igualdade de alimentação, a falta de comodidades e o perigo compartilhado, que faz com que, em Tobruk, vários milhares de homens de todas as armas, de todas as hierarquias, lutem destemidamente, e dispostos a resistir até as últimas conseqüências.

 

 

A estratégia de Rommel

- Os melhores resultados são obtidos pelo comandante cujas idéias se desenvolvem livremente... As decisões ousadas e arriscadas constituem uma promessa de sucesso... a rapidez é tudo...

Estas frases resumem a personalidade do Marechal Erwin Rommel. Comandante audaz, suas brilhantes ações militares nas areias da África constituem um exemplo clássico da técnica revolucionária da guerra relâmpago. Transcrevemos uma série de reflexões redigidas pelo próprio Rommel, nas quais expõe as idéias e métodos que constituíram o segredo das suas vitórias.

“As batalhas que tem por objetivo a destruição do poder de resistência do inimigo devem ser encaradas como batalhas de desgaste. Na guerra motorizada, o desgaste material e a desorganização da coordenação orgânica do exército adversário devem ser o objetivo direto do planejamento. Taticamente, a batalha de desgaste é travada com a máxima mobilidade possível. Os seguintes pontos merecem especial atenção:

(a) Devemos tratar de concentrar os próprios efetivos, tanto no espaço como no tempo, enquanto se tenta, simultaneamente, dividir as forças adversárias, e destruí-las em diferentes momentos.

(b) As linhas de abastecimento são particularmente vulneráveis, dado que todos os combustíveis e munições, matérias necessárias para a batalha, tem que passar por elas. Assim, devemos proteger as nossas, por todos os meios possíveis e tratar de desorganizar, ou melhor, interromper, as do inimigo. Operações contra os pontos de abastecimento do adversário obrigarão ao inimigo imediatamente a interromper uma batalha em qualquer ponto, pois, como já se demonstrou, os abastecimentos são a base da eficiência combativa e devemos sempre dar-lhes prioridade de defesa.

(c) Os componentes dos tanques são a coluna vertebral de um exército motorizado. Tudo se concentra sobre eles; as outras formações são apenas auxiliares. As operações de desgaste contra as unidades de tanques inimigas tem de ser realizadas, portanto, dentro do possível, pelas nossas próprias unidades destruidoras de tanques. Nossos tanques poderão então desferir o último golpe.

(d) Os resultados dos reconhecimentos devem chegar ao comandante no mais curto prazo possível, e ele deve, adotando decisões imediatas, colocá-las em execução sem o menor atraso. A rapidez das decisões do comando decide a batalha. Portanto, é essencial que os comandantes de forças motorizadas estejam o mais próximo possível de suas tropas, e eme estreita ligação com elas.

(e) A rapidez de nossos movimentos e a coesão orgânica das unidades são fatores decisivos, e requerem especial atenção. Todo sintoma de confusão deve ser enfrentado com a maior rapidez, assegurando a urgente reorganização.

(f) Disfarçar as nossas intenções é da maior importância, a fim de conseguir condições de surpresa para nossas operações, e capacitar-nos para explorar ao máximo o tempo requerido para a reação do inimigo. Deve-se fazer ampla utilização de ações simuladas de toda espécie, mesmo que seja apenas para que o comandante inimigo fique inseguro e se veja na obrigado a proceder com cautela e, assim, com vacilação.

(g) Assim que o inimigo tiver saído batido completamente, deve-se tentar explorar a vitória, submetendo e destruindo grandes grupos de suas forças desorganizadas. Aqui, novamente, a rapidez é tudo. Não se deve jamais dar tempo para que o inimigo se reorganize. O reagrupamento rápido para a perseguição, a organização veloz de abastecimento, são fatores essenciais para as forças atacantes”

Sob o aspecto técnico e da organização os seguintes pontos merecem atenção especial, nas operações no deserto:

“(a) Do tanque, deve-se exigir-se, antes de tudo, facilidade de manobras, velocidade, e um canhão de longo alcance, dado que o lado que tiver o canhão mais poderoso, terá o braço mais comprido, e poderá atacar antes que o adversário. Não compensa preocupar-se muito com a espessura da blindagem, pois esta só se obtém às custas da facilidade de manobras e da velocidade, estes sim, requisitos táticos indispensáveis.

(b) A artilharia deve ter, assim mesmo, longo alcance e, antes de tudo, o mais alto grau de mobilidade, e munição em grande quantidade.

(c) A infantaria serve apenas para ocupar e manter posições destinadas a impedir que o inimigo realize operações determinadas, ou para obrigá-lo a executá-las. Uma vez conseguida tal finalidade, devemos poder mover rapidamente a infantaria, e empregá-la em outro ponto. Portanto, deve ter mobilidade e ser provida de equipamentos que possibilitem a tomada das posições defensivas, em pontos taticamente importantes do campo de batalha.

Minha experiência pessoal é que as decisões ousadas e arriscadas constituem a melhor promessa da vitória. Há uma diferença entre ousadia e aventura militar. Uma operação ousada é aquela que só tem uma probabilidade de êxito, mas que, em caso de falhar, nos deixa com suficientes forças à mão para fazer frente a qualquer situação. Correr um risco, por outro lado, é uma operação que pode conduzir à vitória, ou à destruição das próprias forças. Uma das primeiras lições que aprendi, por experiência própria, nas operações bélicas motorizadas, foi que a velocidade da ação e a rapidez de reação do comando são fatores decisivos. As tropas tem que estar preparadas para operar na maior velocidade e em completa coordenação. Não nos devemos satisfazer, nestas eventualidades, por um rendimento normal, mas sim tratar de obter o máximo, dado que o exército que fizer o maior esforço será o mais rápido, e o mais rápido é o que ganha a batalha”.

 

 

As Divisões Panzer de Rommel

Nos meados de 1941, Rommel dispunha unicamente de duas divisões Panzer, a  15a e a 21a. Esta última era a antiga 5a Divisão leve (ou ligeira). Ambas as unidades contavam com os excelentes tanques médios Panzer III (canhão de 50 mm) e Panzer IV (canhão curto de 75 mm). Sua composição era a seguinte:

Um regimento de tanques com 194 carros blindados

Um regimento motorizado de infantaria

Um regimento de artilharia com 36 canhões

Um batalhão antitanque com 36 canhões

Um batalhão de tanques de reconhecimento, com 30 carros blindados

Unidades de engenheiros e tropas de serviço.

Junto às divisões Panzer, Rommel dispunha da divisão blindada Ariete, do exército italiano, que se compunha de:

Um regimento de soldados bersaglieri motorizado, com 36 tanques de apoio

Um regimento de tanques de infantaria, com 108 carros blindados

Um regimento de tanques de ruptura, com 72 carros blindados

Um batalhão de tanques de assalto, com 39 carros blindados

(O total alcança 255 tanques; no entanto, na prática, a divisão não contou com mais de 170)

Um regimento de artilharia com 48 canhões de 75 mm

Um grupo de artilharia antiaérea, com 24 canhões de 20 mm

Um grupo antitanque, com 8 canhões de 47 mm

 

 

Os tanques britânicos

Na ofensiva de 18 de novembro de 1941, o 8o Exército britânico lançou na luta uma divisão blindada, a 7a, e duas brigadas de tanques, com um total de 724 veículos operacionais e 200 na reserva, contra 414 de Rommel (dos quais 154 eram antiquados carros blindados italianos). Os tanques britânicos, sem dúvida, eram nitidamente inferiores aos veículos alemães Mark III e Mark IV, pois este possuíam peças de artilharia de calibre superior (50 e 75 mm respectivamente). Todos os carros blindados ingleses estavam armados com canhões de duas libras (37 mm), incluindo o tanque pesado Mark I Matilda. Esses canhões, para serem eficazes, tinham que ser disparados de uma distância inferior a 800 metros, enquanto que os tanques alemães podiam atirar de distâncias muito superiores. Os tanques de Rommel, portanto, estavam em condições de atingir os veículos ingleses, sem que estes pudessem replicar. Esta desvantagem causou a perda de numerosos tanques.

Um oficial da 7a Divisão Blindada, o Tenente-Coronel Carver, descreveu as terríveis condições sob as quais tiveram que combater. Reproduzimos seu relato: “Aos que participaram das operações restou uma grande amargura; os que combatiam nos tanques, maldiziam aqueles que os enviaram para a batalha, com armamento e blindagem inferior, e com tanques que ficavam continuamente inutilizados por falhas mecânicas. A infantaria, com um punhado de canhões antitanques absolutamente inúteis, confiava nos seus tanques para que a protegessem contra os tanques inimigos, e lhes guardavam rancor porque não cumpriam sua missão. Os comandantes das guarnições blindadas, que corriam de um lugar para outro, a fim de proteger a infantaria contra a ameaça dos tanques inimigos, que nem sempre se materializava, censuravam a infantaria porque os obrigavam a desgastar seus veículos, e seus homens, num emprego inadequado da arma decisiva da guerra do deserto”.

 

 

Diário de Ciano

20 de novembro de 1941

Ataque inglês na Líbia. Em alguns pontos a resistência é eficaz; em outros, ao contrário, a penetração ofensiva tem sido rápida e profunda. Cavallero é otimista, e considera normal a situação. Isto se reflete no ânimo de Mussolini. A mim, me causam receio, de modo especial, os abastecimentos e a ineficiência da aviação, que neste primeiro ataque já experimentou muitas perdas...

21 de novembro de 1941

A batalha da Líbia continua desenvolvendo-se, e as opiniões de nossos correspondentes militares são otimistas. Churchill, num discurso, mostrou-se extremista no tocante aos objetivos, e muito prudente no tocante, à continuidade das operações em curso.

 

 

Operação “caça à raposa”

“Foi uma operação brilhante e de grande audácia”.  Rommel

No outono de 1941, uma figura havia alcançado, no teatro da guerra do deserto, uma fama que era quase uma lenda: Rommel.

Auchinleck, o general britânico, dizia referindo-se ao chefe alemão: ... Fala-se muito a seu respeito. Rommel não é, certamente, um super-homem. Mas, ainda que fosse, não seria desejável que nossos homens acreditassem em seus poderes sobrenaturais. De modo que é necessário desvirtuar de qualquer maneira a idéia de que Rommel seja algo mais que um simples general alemão...

Entre as tropas do 8o Exército britânico existia grande admiração pelo chefe alemão e suas façanhas. Em apenas dois meses, Rommel havia mudado radicalmente o curso da guerra africana, obrigando o exército do General Wavell, que atacava, a recuar, e combater na defensiva. Por isso, o General Auchinleck foi enviado para substituir Wavell. Por sua vez, o General Alan Cunningham, encarregado de dirigir a ofensiva geral contra as posições alemães a 18 de novembro, teve a idéia de eliminar previamente Rommel, mediante uma furtiva e eficaz cilada. Algo muito ousado, por certo. Se conseguirmos eliminá-lo de qualquer modo que seja - dizia - conseguiremos semear a confusão no Afrika Korps. E foi assim que, dispostos a concretizar a idéia, alguns jovens oficiais propuseram um temerário plano de ação. Sabia-se, seguramente, que Rommel tinha seu QG na localidade de Sidi Rafa, a 375 km atrás das linhas alemães, e a 18 km do mar. O acesso ao local era possível por mar ou pela estrada paralela à costa. Atacando Sidi rafa poder-se-ia destruir o QG e matar o próprio Rommel.

Cunningham aprovou imediatamente a idéia. Foi esse o começo da Operação Caça à Raposa. Um plano excepcional, de uma audácia sem par, a ser executado na madrugada de 18 de novembro.

Neste ponto surgiu uma questão: Quem comandará a operação?

A resposta não demorou. Havia entre eles um autêntico adepto da caça às raposas. Era Geoffrey Charles Ticker Keyes, do 2o Regimento dos Dragões Reais. Ex-aluno de Eton, e pertencente a uma aristocrática família britânica, Keyes manifestou-se ao ser informado: - Estou certo do sucesso, se me confiarem a missão...

Dispostos os planos para a operação, determinou-se o seguinte dispositivo: interviriam, na ação, três destacamentos. O primeiro, comandado por Keyes, atacaria exclusivamente a casa de Rommel, a meio quilômetro a oeste da cidade, e o QG alemão que se encontrava em Beda Littoria. O segundo destacamento sob o comando do Tenente Southerland, assaltaria o QG italiano em Cirene, e destruiria as comunicações telefônicas e telegráficas. Havia um terceiro grupo que sabotaria as comunicações entre Faidia e Lamdula. Dois submarinos, o Tobray e o Talisman, se incumbiriam do transporte dos soldados.

Às 20 horas da sexta-feira, 14 de novembro de 1941, os submarinos deixaram o porto. Eram 22 horas, quando os homens reuniram-se na coberta do submarino. Keyes, com serenidade e sangue-frio britânico, ordenou abrir várias garrafas de champanha reservadas para a ocasião. Às 23 horas, o tempo começou a piorar. De súbito s máquinas pararam. Fez-se silêncio. Os homens subiram à ponte. A visibilidade era escassa. A praia aparecia recortada ao longe, entre as sombras.

Keyes consultou seu relógio. Era a hora estabelecida. Deviam desembarcar. Rapidamente apareceram os botes de borracha. Foram inflados com bomba de bicicleta. Depois, jogados ao mar. Cada bote tinha capacidade para dois homens. O desembarque, que nos treinamentos se efetuava em uma hora, demorou seis.

No sábado, 15 de novembro, todos permaneceram ocultos num bosque próximo à costa. Nessa mesma tarde, começou a chover. Ao anoitecer do dia seguinte, às 20 horas, conseguiram chegar a 8 km de Sidi Rafa. Decidiram pernoitar numa caverna. Ao longe, no meio de um pequeno bosque, sobre uma colina, se erguia uma construção de dois andares. Ali estaria Rommel.

No dia 17 de novembro, às 18 horas, Keyes consultou seu relógio. Faltavam seis horas para começar a operação. Ainda chovia. Todos se mantinham tensos, prontos para a aventura, preparados para a acça à raposa...

E assim esperaram a meia-noite. Quando o relógio marcou 12 horas, os soldados deixaram o refúgio, e partiram debaixo da chuva. Três deles deviam inutilizar a instalação elétrica. Cinco vigiariam do lado de fora. O resto controlariam as barracas vizinhas. Junto a Keyes marcharam Campbell, Coulthread, Drori e Brodie. Engatinharam até uma sala vazia. Várias portas abriam-se de ambos os lados. Por qual entrar?

De repente uma delas se abriu e apareceu um soldado alemão, em atitude despreocupada. Ficou imóvel. Recuperou-se imediatamente e abriu a boca para gritar. Mas Campbell, rápido como um raio, lançou-se sobre ele e o derrubou com um certeiro golpe de seu punhal, que penetrou até o cabo, no corpo do alemão. O soldado caiu sobre uma mesa, arrastando na queda, um recipiente de cristal, que se estilhaçou estrepitosamente. Keyes, compreendendo o risco do incidente, que fazia perigar todo o êxito da missão, precipitou-se para outra porta. Abriu-a rapidamente. Dentro do quarto estava um grupo de soldados alemães, displicentemente sentados ao redor de uma mesa. Não escutaram o barulho? Tanto pior para eles. Lançou uma granada que levava em sua mão direita e atirou-se no chão. Mas, nesse mesmo momento, uma descarga de metralhadora, disparada por um soldado alemão, o atingiu, matando-o.

Seu sacrifício havia sido inútil. Como também o de seus companheiros. De fato, nesse mesmo momento, Rommel se achava muito longe dali...

No dia 18 de novembro, Rommel soube do ocorrido. Imediatamente deu ordem a seu capelão, reverendo Rudolf Dalmrath, que se dirigisse a Sidi Rafa, para dar sepultura cristã a Keyes. Depois de uma viagem de 36 horas, o sacerdote, chegou a tempo para o funeral. Um oficial colocou na tumba uma pequena coroa. Depois, uma cruz improvisada com ramos de ciprestes. Sobre a cruz, um papel com os seguintes dizeres: Em nome de Rommel.

 

 

Armadilha no mar

19 de dezembro de 1941. As autoridades navais britânicas da ilha de malta recebem um dia uma notícia urgente: um importante comboio do Eixo fora avistado navegando rumo a Trípoli. Sem demora, foram emitidas as ordens correspondentes, para que uma flotilha integrada pelos cruzadores Neptune, Penélope e Aurore, escoltados por quatro destróieres, zarpassem à caça das naves inimigas. Ao se aproximarem do porto de Trípoli, os barcos ingleses penetraram, involuntariamente, num extenso campo de minas, preparado dias antes, pelo inimigo. A tripulação, que ignorava o fato, descobriu-o, dramaticamente, quando a morte rondava ao seu lado. E era já muito tarde.

O Neptune foi o primeiro a chocar-se em uma mina. Com a explosão, ficou à deriva. Para ajudá-lo, aproximou-se o destróier Kandaar, porém outra mina o esperava e ele também ficou à deriva. Os restantes cruzadores, o Penélope e o Aurore, apesar de haverem sofrido danos em conseqüência de choques com minas, conseguiram abandonar a zona minada e escapar à ratoeira. O Neptune, à deriva, voltou a chocar-se com um novo artefato flutuante e afundou rapidamente. Da sua tripulação, integrada por mais de 700 oficiais e marinheiros, apenas 13 conseguiram abandonar o navio. Entre eles se encontrava o comandante, Capitão O’Connor. No entanto, a sorte não seria propícia para os náufragos. Durante 4 dias, permaneceram abandonados, em uma balsa. Como resultado, 12 deles morreram, inclusive o Capitão O’Connor. O último, um simples marinheiro, sobreviveu e foi capturado pelos alemães.

 

 

 

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