|
A primeira vitória
Frente às posições alemães em El Agheila, os britânicos haviam
concentrado uma brigada de infantaria motorizada e a 1a Divisão
blindada. Esta unidade, comandada pelo General Messervy, contava com uma
força de 150 tanques médios e leves. Mais atrás, em Bengási, estava
localizada a 4a Divisão de infantaria hindu. O grosso do 8o
Exército permanecia a centenas de quilômetros para o leste, nos arredores do
porto de El Gazala e Tobruk. Rommel, portanto, tinha condições de aniquilar a
1a Divisão blindada, antes que esta pudesse receber auxílio da
massa das forças britânicas.
O chefe alemão deslocou suas unidades em duas colunas.
Uma avançou pela estrada da costa, e a segunda pelo interior, através do
deserto. No lado britânico, a surpresa foi total. As tropas avançadas da 1a
Divisão, nos areais, ao sul da localidade de Agedabia, viram-se
repentinamente sob o fogo concentrado das Panzer, e tiveram de empreender
acelerada retirada, deixando nas mãos dos alemães 9 canhões e 100 veículos.
No dia 22, Rommel entrou em Agedabia e determinou que parte de suas forças
efetuassem um movimento envolvente para o leste, para cercar, pela
retaguarda, os tanques de Messervy.
Diante da grave ameaça que se articulava às suas costas,
o chefe britânico ordenou retirada imediata. A 23 de janeiro, os tanques
ingleses marcharam para o norte e se defrontaram com a muralha das Panzer.
Estabeleceu-se uma violentíssima luta, durante a qual os ingleses perderam
numerosos carros blindados. A maior parte, no entanto, conseguiu evadir-se
através de uma brecha. Rommel, sem vacilar, lançou-se à sua perseguição e, no
dia seguinte, conseguiu, depois de uma série de combates bem sucedidos,
aniquilar a divisão. Messervy havia perdido na batalha 100 dos seus 150
tanques. A 27 de janeiro, Rommel enviou um grupo mecanizado em direção a
Mechili para atrair a essa localidade as unidades do 8o Exército,
que marchavam para apoiar a 4a Divisão hindu, que ainda permanecia
entrincheirada em Bengási. Simultaneamente arremeteu com o grosso de suas
forças contra Bengási, cortando a rota de escape dos hindus. Estes, contudo,
conseguiram romper o cerco e se evadiram para o norte. No dia 29, os tanques
alemães e italianos entraram em Bengási. Apesar da destruição feita pelos
ingleses, antes da retirada, Rommel conseguiu capturar uma enorme quantidade
de combustível, armas, víveres e provisões. A extraordinária presa incluía
1.300 caminhões, em perfeito estado de funcionamento, que foram usados pelo
chefe alemão, no seu avanço posterior.
A marcha para El
Gazala
A notícia do desastre sofrido pela 1a Divisão
blindada convenceu finalmente o General Ritchie, chefe do 8o
exército, que o ataque de Rommel não era uma simples tentativa de penetração,
mas sim uma ofensiva em grande escala. Em vista disso, ordenou que todas as
suas forças se deslocassem, aceleradamente, até um determinado ponto, ao sul
do porto de El Gazala.
Uma coincidência fez com que, no mesmo dia em que Rommel
ocupou Bengási, recebesse de Mussolini a ordem terminante de conquistar a
cidade. O ditador ainda assinalava, na sua presunçosa determinação, que a
cidade devia ser atacada unicamente por forças motorizadas, sem recorrer às
divisões de infantaria italianas, que, por sua ordem, haviam permanecido na
retaguarda, sem intervir na luta. Rommel, no entanto, estava já preocupado
com coisas mais importantes. Estabeleceu o corpo blindado italiano a leste de
Bengási, e lançou suas Panzer em perseguição aos britânicos. O avanço
adquiriu, então, um ritmo vertiginoso.
Deslocando-se pela estrada costeira, e através do
deserto, as colunas do Afrika Korps convergiram sobre a linha de El Gazala. A
2 de fevereiro teve lugar um choque sangrento com tropas de uma brigada
hindu, a qual, depois de encarniçada resistência, teve de bater em retirada.
A bordo de um veículo de exploração, Rommel, nesse dia, entrou na cidade de
Derna, abandonada já pelo inimigo. No dia 4, os britânicos dispersaram sua
concentração em El Gazala e tentaram imediatamente consolidar posições
defensivas.
A luta se interrompe
Uma vez alcançada as linhas britânicas, as forças
alemães detiveram seu avanço. A longa e rápida marcha e os ininterruptos
combates haviam extenuado as tropas e diminuído o potencial combativo do
Afrika Korps. Rommel, em vista disso, resolveu fazer uma pausa, para
descansar seus homens e reparar as armas e os veículos. Necessitava, além
disso, de reorganizar suas linhas de abastecimento, e receber reforços das
sua bases de provisões, situadas a centenas de quilômetros, na retaguarda.
Exista também a possibilidade do 8o Exército tentar retomar a
iniciativa lançando-se de surpresa num contra-ataque.
Para frustrar esta última ameaça, o chefe alemão iniciou
a construção de posições fortificadas e estendeu um vasto campo de minas,
frente às linhas inglesas. Os caminhos que corriam atrás da frente de combate
foram também minados e protegidos com ninhos de metralhadoras e canhões
antitanques. O Afrika Korps pôde assim dedicar-se, por inteiro, à
reconstituição de suas forças.
No lado inglês desenvolviam-se trabalhos semelhantes.
Por ordem do General Auchinleck, comandante-em-chefe britânico no Oriente
Médio, Ritchie também passou a construir uma cadeia de poderosas
fortificações. De El Gazala, na costa do Mediterrâneo, até Bir Hacheim,
reduto situado a 64 km para o sul, os ingleses semearam centenas de milhares
de minas, e levantaram inúmeras fortificações. Esses redutos tinham por
missão impedir que os alemães abrissem brechas através do campo minado. Eram
defendidos por fortes alambrados e suas guarnições contavam com
abastecimentos para resistir por muito tempo, em caso de serem sitiados.
O flanco direito dessa linha era defendido pela 1a
Divisão de infantaria Sul-africana e pela 50a Britânica. Na
extremidade esquerda situou-se uma brigada de tropas da França Livre, com
base em Bir Hacheim. Na retaguarda, em Tobruk, ficaram a 2a
Divisão Sul-africana e a 5a hindu. O grosso das forças blindadas,
integradas pelas 1a e 7a Divisão, colocou-se em
profundidade, em torno do entroncamento rodoviário de Knightsbridge. Todas
essas forças foram submetidas a um intenso treinamento, pois, por ordem de
Churchill, teriam de lançar-se o quanto antes ao contra-ataque.
Em março, Rommel viajou até o QG de Hitler, para fazer
sentir ao Fuhrer a necessidade de incrementar o poderio do Afrika Korps e de
ordenar a conquista de Malta. Hitler resolveu invadir essa ilha com forças
italianas e alemães, no mês de junho. Posteriormente decidiu adiar a data
desse ataque. No dia 28 de abril chegou ao posto de comando de Rommel o
Marechal Kesselring, que exercia o comando supremo de todas as forças alemães
no Mediterrâneo, e lhe comunicou que havia sido resolvido ocupar Malta em
fins de maio. Este plano, batizado com o nome-chave Hércules, foi, no
entanto, abandonado. A 21 de maio, Hitler ordenou que os preparativos
continuassem apenas no papel, e que o ataque a Malta fosse suspenso, caso
Rommel conseguisse conquistar Tobruk. Essa decisão traria funestas
conseqüências para o Afrika Korps, pois os aviões e barcos britânicos, com
base em Malta, conseguiriam, brevemente, interromper quase por completo o
tráfego de comboios de abastecimento pelo Mediterrâneo.
Diante da grave ameaça que pairava sobre Malta,
submetida já a incessantes bombardeios, Churchill ordenou ao General
Auchinleck, a 10 de maio, que aprontasse suas forças para realizar uma
ofensiva que obrigasse Rommel e o alto-comando alemão a concentrar todos os
seus efetivos na Líbia.
O ataque deveria se efetuar nos primeiros dias de junho,
coincidindo com o envio de um grande comboio de abastecimento à ilha. Na sua
carta, Churchill expressava a Auchinleck a vital importância para os aliados
que a conservação de malta representava. “Sua posse - dizia - dará ao inimigo
uma ponte livre e segura para a África, com todas as conseqüências que advêm
de tal fato. Sua perda cortará a rota aérea, da qual o senhor e a Índia
dependem, para receber substancial reforço por meios de aviões... Comparados
com a certeza desses desastres, consideramos que os riscos expostos pelo
senhor sobre a segurança do Egito são seguramente menores, e os aceitamos”.
Foi assim, que, tanto o 8o Exército
britânico, como o Afrika Korps, prepararam-se, simultaneamente, para passar à
ofensiva.
As forças frente a frente
Ao começar o seu ataque contra as posições britânicas,
Rommel dispunha de 320 tanques alemães e 240 italianos (estes, totalmente antiquados,
chamados pelas tropas caixões motorizados). Os ingleses, por sua vez,
contavam com 900 carros blindados, dos quais cerca de 200 eram tanques
americanos Grant, armados com canhões laterais de 75 mm e canhões em torre
giratória, de 37 mm. Os Grant, usados pela primeira vez na Líbia,
surpreenderiam Rommel e causariam graves perdas ao Afrika Korps, pois seus
canhões de 75 mm tinham maior alcance que as peças de artilharia dos tanques
alemães Mark III e Mark IV. O restante dos tanques britânicos eram do tipo
Crusader e Stuart, claramente inferiores aos similares alemães.
No ar, as forças do Eixo estavam, pela primeira vez, em
relativa superioridade. A Luftflotte II, comandada pelo Marechal Kesselring, e
as unidades da Régia Aeronáutica dispunham de 542 aparelhos, dos quais 120
eram velozes caças Messerschmitt 109. Os britânicos tinham 604 aviões de
combate, porém seus caças Hurricane e Curtiss P-40 não podiam competir com os Messerschmitt. No terreno
das armas antitanques, Rommel levava uma vantagem decisiva com suas numerosas
baterias de 50 e 88 mm.
Para romper as fortificações de El Gazala, Rommel traçou
um plano audacioso. O movimento inicial seria desfechado pelas divisões
italianas de infantaria, na forma de um ataque frontal contra o extremo norte
e o centro das posições inglesas. Alguns tanques e veículos se deslocariam na
retaguarda dessa frente, simulando a concentração de forças blindadas nessa
zona. Dessa forma, se faria crer ao inimigo que o ataque principal seria
efetuado nesses setores. Conseguir-se-ia assim que os britânicos
concentrassem a totalidade ou uma parte importante de seus tanques ao norte
da linha fortificada. Enquanto isso, a maior parte das forças blindadas formadas pelo Afrika Korps
(Divisões Panzer 15a e 21a e a 90a leve) e pelo 20o Corpo motorizado
italiano (Divisão blindada Ariete e motorizada Trieste) irromperiam pelo
extremo sul, num movimento de flanco através do deserto, em torno do reduto
de Bir Hacheim.
Uma vez alcançada a retaguarda das posições
fortificadas, o Afrika Korps e os blindados italianos avançariam velozmente
para o norte, em direção à costa do Mediterrâneo, para destruir as unidades
blindadas do 8o Exército britânico. O aniquilamento dessas forças selaria
a sorte das divisões de infantaria inimigas, entrincheiradas ao longo da
linha de El Gazala. Sem o apoio dos tanques, os infantes, cercados, não
teriam como resistir à investida dos Panzer. Simultaneamente, a 90a
Divisão leve alemã penetraria profundamente para o nordeste, e cortaria a
retirada da guarnição de Tobruk.
Sem saber, o General Ritchie, chefe do 8o
Exército britânico, facilitaria os planos de Rommel, ao determinar a
localização, em forma dispersa, de suas unidades blindadas. Colocou o 30o
Corpo de exército, que agrupava a maior parte dos carros blindados, no flanco
esquerdo, distribuindo suas várias unidades através do deserto. No extremo
sul, junto a Bir Hacheim, situou a 3a Brigada motorizada hindu e a
7a Brigada motorizada. Mais ao norte localizou-se a 4a
Brigada blindada, e no centro, em torno do reduto de Knightsbridge, a Brigada
motorizada da Guarda e as 2a e 22a Brigadas blindadas.
Assim, separadas umas das outras, as formações blindadas inglesas não estavam
em condições de opor uma resistência eficaz ao impetuoso avanço do Afrika
Korps.
Do seu posto de comando, no Cairo, o General Auchinleck,
comandante-em-chefe das forças britânicas no Oriente Médio, vislumbrou
claramente o perigo que representava a distribuição das forças adotada por
Ritchie. Escreveu-lhe, então, a 20 de maio, uma longa carta, instando-o a
manter juntas suas unidades blindadas, e colocá-las numa posição central,
para possibilitar a utilização da totalidade de seus tanques, num
contra-ataque de flanco contra o Afrika Korps, quando este conseguisse
irromper através da linha fortificada. Ritchie, no entanto, não levou em
consideração o acertado conselho. Deveria pagar muito caro o seu erro.
A Operação Veneza
Às duas da tarde de 26 de maio de 1942, Rommel deu às
suas forças a ordem de ataque. Acobertadas por violento fogo de artilharia,
as tropas italianas se lançaram ao assalto contra o setor central da linha de
El Gazala. Cumprindo o plano de simulação, um regimento de tanques do Afrika
Korps e outro do 20o Corpo motorizado italiano, acompanharam os
infantes na etapa inicial do ataque e se expuseram às vistas dos aviões
britânicos de reconhecimento. Ai cair da tarde, porém, estas unidades se
deslocaram velozmente para o sul, a fim de reincorporar-se ao restante do grupamento
blindado.
A concentração do Afrika Korps, no extremo sul, não
passou, no entanto, inadvertida para as unidades de vanguarda britânicas,
colocadas junto a Bir Hacheim. Os carros blindados de reconhecimento da 7a
Brigada motorizada informaram pelo rádio às 15h30 que numerosos tanques e
caminhões alemães avançavam em direção às linhas inglesas. Essa informação
vital, porém, não foi levada em consideração pelo alto-comando britânico. O
General Messervy, chefe das unidades blindadas que cobriam o setor de Bir
Hacheim, tentou em vão convencer seu superior, o General Norrie, chefe do 30o
Corpo de exército, que o ataque principal de Rommel deveria vir do sul.
Enquanto a confusão se alastrava nas fileiras
britânicas, as forças blindadas do Eixo davam início ao ataque decisivo. A
ação, batizada com o nome-chave de Operação Veneza, começou às 22h30 de 26 de
maio. Sob um luar esplêndido, 10.000 veículos alemães e italianos,
deslocaram-se em intermináveis colunas através das areias do deserto. Na
vanguarda, no seu carro de comando, marchava Rommel. Pouco antes do
amanhecer, as colunas fizeram alto a 18 km ao sul de Bir Hacheim. Ali, sem
pressentir o perigo, montavam guarda os soldados da 1a Brigada de
Franceses Livres, do General Koenig.
Depois de uma hora de descanso, Rommel ordenou reiniciar
o avanço. As divisões italianas Ariete e Trieste, marchando sobre Bir
Hacheim, lançaram-se ao ataque, confiantes que haviam de desbaratar
facilmente a reduzida guarnição. Os franceses, no entanto, ofereceram
encarniçada resistência e rechaçaram os italianos, infligindo-lhes grande
perdas. O Afrika Korps, enquanto isso, irrompeu na retaguarda da linha
fortificada, e, às 7h30 de 27 de maio, superou a 3a Brigada
motorizada hindu, destruindo-a por completo. A 7a Brigada motorizada
britânica caiu também frente à demolidora investida e, sofrendo sangrentas
baixas, retirou-se, desordenadamente, para o leste. Com o caminho
desguarnecido, a 90a Divisão leve alemã iniciou sua penetração
para Tobruk e, às 10 horas da manhã, suas vanguardas alcançaram a localidade
de El Adem, situada a poucos quilômetros ao sul da fortaleza.
À beira da derrota
Aparentemente, o plano de Rommel, parecia desenvolver-se
com sucesso total. A surpresa havia sido conseguida, e as dispersas unidades
blindadas do 8o Exército não haviam conseguido concatenar suas
ações para conter a penetração dos alemães. No entanto, breve se produziria
uma reviravolta da situação.
Ao ter conhecimento do desastre sofrido pelas brigadas
motorizadas ao sul de Bir Hacheim, o alto-comando britânico ordenou que a 4a
Brigada blindada saísse imediatamente ao encontro do Afrika Korps e
bloqueasse o seu avanço para o norte. Entretanto, a unidade nem chegou a
pôr-se em movimento. Deslocando-se, velozmente, a 15a Divisão
Panzer atacou-a, repentinamente, e depois de um violento combate, obrigou-a a
retirar-se. Os alemães, contudo, sofreram grandes perdas, pois, como
assinalou o próprio Rommel: “- Nos esperava ali uma surpresa, muito pouco
agradável: o novo tanque Grant”.
Apesar das baixas sofridas sob o fogo dos Grant, o
Afrika Korps continuou o seu avanço para o norte. Os ingleses saíram
novamente em seu rastro, lançando na batalha a 22a Brigada
blindada. Rommel, porém, novamente se antecipou ao ataque, e arremeteu contra
os tanques inimigos, antes que estes, sequer, saíssem para o combate. Os
britânicos combateram encarniçadamente, apoiados por violento fogo de
artilharia e, antes de retirar-se, conseguiram destruir muito tanques e
veículos alemães.
Ao cair da noite, Rommel, alarmado e preocupado,
compreendeu que seu plano havia fracassado. Os ingleses, apesar das
sucessivas derrotas, continuavam resistindo tenazmente ao longo de toda a
frente, e haviam conseguido cortar, na retaguarda, as linhas de abastecimento
do Afrika Korps. Além disso, a 90a Divisão leve alemã, acabava de
ficar isolada em El Adem. A estes reveses somavam-se a falta de combustível e
de munições, e a perda, em combate, de um terço de seus tanques.
Diante do difícil problema, e sob a ameaça iminente de
um contra-ataque britânico, Rommel decidiu reagrupar, com presteza, todas as
suas forças. 28 de maio, foi o dia decisivo, em que, em virtude da vacilação
de seus chefes, o 8o Exército britânico perdeu a chance mais
favorável para derrotar o Afrika Korps. Durante todo esse dia, as duas
divisões Panzer permaneceram, por falta de combustível, praticamente
paralisadas no meio do deserto. Por sua vez, a 90a Divisão leve
viu-se obrigada, depois de sofrer pesadas baixas, a retirar-se de El Adem, e
não conseguiu reincorporar-se ao restante das forças alemães. Nessas
condições, um ataque britânico teria alcançado êxito seguro.
Com sua característica energia, Rommel conseguiu,
contudo, afastar o perigo. Ordenou à 90a Divisão leve que se
unisse, imediatamente, ao grosso do Afrika Korps, e apoiou sua movimentação,
intercalando na brecha a Divisão blindada Ariete. Simultaneamente, organizou
uma coluna de abastecimento, e, à frente dela, atravessou na manhã de 29 de
maio o campo de batalha e reabasteceu as unidades Panzer.
Rommel na defensiva
Na noite de 29 de maio, resolveu o chefe alemão pôr um
fim ao ataque, e passar à defensiva, para reorganizar suas forças. Havia já
conseguido reagrupar suas unidades no próprio centro do dispositivo britânico
(zona de luta intensa e incessante, a que os próprios britânicos chamavam de
a caldeira). Apoiou sua retaguarda no oeste, nos extensos campos minados da
linha de El Gazala, e cobriu os flancos, ao norte, ao sul e a leste, com uma
barreira de armas antitanques. Adotando essa posição, Rommel, aparentemente,
ficava aprisionado.
Não tardou, contudo, livrar-se do aperto. Destacamentos
de sapadores do 10o Corpo de exército italiano abriram, partindo
do oeste, duas sendas à margem da franja minada, permitindo o envio de
suprimentos ao Afrika Korps. O próprio Rommel franqueou a barreira e, a 30 de
maio, manteve, do outro lado da linha, uma conferência com o Marechal
Kesselring, durante a qual comunicou-lhe seus planos para reassumir a
ofensiva. Manteria, temporariamente, a maior parte de suas forças na cabeça
de ponte, junto ao campo minado, obrigando os ingleses a desgastar suas
unidades blindadas, numa série de ataques frontais contra as baterias
antitanques. Ao mesmo tempo, consolidaria, definitivamente, suas linhas de
comunicações, aniquilando a 150a Brigada britânica, que estava
entrincheirada às costas do Afrika Korps, e à guarnição francesa de Bir
Hacheim, que bloqueava a rota de abastecimento pelo sul.
Na manhã de 31 de maio, a 90a Divisão leve e
a Ariete iniciaram o ataque contra o reduto da 150a Brigada.
Lutando desesperadamente, os infantes ingleses infligiram sangrentas baixas
às força alemães e italianas (entre os feridos estava o Coronel Westphal,
chefe do estado-maior de Rommel). Contudo, no dia seguinte, a resistência
pôde ser superada e perto de 3.000 soldados foram feitos prisioneiros. Esta
vitória deu a Rommel o controle definitivo de todo o setor central da linha
de El Gazala.
Chegava agora a vez de Bir Hacheim, onde se travaria um
dos mais encarniçados encontros de toda a campanha. Abrigados sob uma
intrincada rede de casamatas, trincheiras e ninhos de metralhadoras, quatro
batalhões de soldados franceses, comandados pelo General Koenig, conseguiram
rechaçar, durante 11 dias, os furiosos ataques da 90a Divisão leve
alemã, e da Divisão italiana Trieste. A Luftwaffe incorporou-se à luta, e
submeteu as posições de Bir Hacheim a um implacável bombardeio. De 2 a 11 de
junho, os Stukas realizaram 1.300 ataques contra o reduto francês. Com um
heroísmo incomparável, os soldados de Koenig, entre os quais se encontravam
dois batalhões da Legião Estrangeira, mantiveram-se firmes em suas posições.
Finalmente, receberam ordem de retirar-se. Na noite de 10 de junho, os
sobreviventes, com o General Koenig à frente, abriram passagem através do
cerco e chegaram às linhas britânicas.
Enquanto se desenrolava, em Bir Hacheim, essa dramática
luta, Rommel trabalhava, aceleradamente, reorganizando suas forças. Sabia que
os ingleses não tardariam a lançar suas unidades blindadas contra a cabeça de
ponte que o Afrika Korps sustentava junto ao campo minado. Ali, na caldeira,
dar-se-ia o choque que iria decidir a sorte da batalha.
Otimismo em Londres
Enquanto a luta de desenrolava na Líbia, em Londres
Churchill dava publicidade ante a Câmara dos Comuns a uma informação que
acabava de receber da frente de combate, enviada pelo general Auchinleck. O
documento rescendia otimismo e dava a entender que os comandos britânicos na
África confiavam obter a vitória sobre Rommel. De fato, Auchinleck, no seu
informe, dizia o seguinte: “O ataque contra a frente norte de nossa posição
principal, ao sul de El Gazala, realizado no dia 27, conseguiu pouco ou nada.
Outra tentativa de irromper através de nossas defesas, pela estrada da costa,
foi detida. Durante os dias 28, 29 e 30 de maio foram travadas lutas
contínuas e violentas, entre nossas divisões blindadas e o Afrika Korps
alemão, apoiado pelo Corpo móvel italiano. A batalha deslocou-se em vaivéns,
numa ampla região, limitada ao norte por Acroma e, 40 milhas ao sul, por Bir
Hacheim ...
O inimigo, ao esgotar seus abastecimentos e água, teve
que abrir brechas em nossos campos minados...
A 31 de maio, o inimigo conseguiu retirar muitos de seus
tanques e veículos através dessas brechas, as quais tratou imediatamente de
proteger de ataques provenientes do leste, localizando canhões antitanques,
com os quais está bem equipado... Uma luta intensa ainda está-se travando, e
a batalha, de modo algum, terminou. Esperam-se novos e violentos combates, porém
quaisquer que sejam os resultados, não existe a menor sombra de dúvida de que
os planos de Rommel para sua ofensiva inicial foram totalmente desbaratados,
e que seu fracasso lhe custou grandes perdas em homens e materiais...”.
Baseado nesse informe alentador, Churchill pôde encerrar
suas declarações, dizendo: - Temos todas as razões para estar muito
satisfeitos com o desenvolvimento da batalha até o presente... Logo, no
entanto, a “Raposa do Deserto” demonstraria que os chefes britânicos se
haviam apressado demais, julgando-o derrotado.
Anexo
A Linha El Gazala - Bir Hacheim
A chamada Linha El Gazala
- Bir Hacheim era uma longa posição fortificada que se estendia desde El
Gazala, na costa do Mediterrâneo. Até Bir Hacheim, situada 64 km ao sul. A linha
defensiva era integrada, principalmente, por campos minados. Havia 500.000
minas que se constituíam, logicamente, um obstáculo muito difícil de
franquear. Porém, dada a possibilidade de abri caminho através dos campos
minados, aquilo não era suficiente. Devia ser complementada com uma defesa
muito firme. Sob esse aspecto, os britânicos admitiram que, mesmo a mais
férrea das obras defensivas sempre, invariavelmente, ofereceria seu flanco
esquerdo desguarnecido. Era, com efeito, impossível construir uma linha
defensiva de tal extensão, que fosse efetivamente capaz de proteger as
forças. Uma linha nessas condições se prolongaria quase indefinidamente.
A situação foi
solucionada construindo-se uma cadeia de reditos fortificados, que abrigavam
desde pequenas unidades até brigadas inteiras. Defendidos pelos campos de
minas, e por fortes alambrados, eram, na verdade, pequenos fortins. As
guarnições tinham abastecimentos para resistir a um longo assédio e possuíam
sua própria artilharia.
A função dos redutos era
dupla. Em primeiro, defender os campos de minas. Em segundo, convertiam-se em
baluartes que era necessário eliminar e não deixar atrás.
Dois contra um
31 de janeiro de 1942. As
colunas do Afrika Korps avançam velozmente através das areias da Cirenaica,
depois de derrotar e causar graves danos aos tanques do 8o
Exército britânico. Nessa dramática circunstância, o General Auchinleck
enviou a Winston Churchill um detalhado relatório sobre a causa fundamental
do desastre: os carros blindados foram superados pelos poderosos canhões das
Panzer.
O informe dizia
textualmente: “- Com relação à atuação da 1a Divisão blindada: não
tenha a certeza de que os tanques inimigos hajam sido numericamente
inferiores aos nossos... mas é possível mesmo que, na zona de lutas, nossa
força de tanques, tenha sido superior à deles. Já dei a V. Excia. as razões
da derrota de nossas forças blindadas e creio que elas continuam válidas. As
causas que mencionei, são o alcance e o rendimento inferiores do canhão de
duas libras, comparados com os canhões alemães, e a pouca segurança mecânica
de nossos tanques de cruzeiro, comparados com os tanques alemães. Além disso,
não estou satisfeito com a atuação tática de nossas unidades blindadas, que
não é de nível suficientemente elevado, para compensar a superioridade
material dos alemães. Vejo-me obrigado, muito a contragosto, a chegar à
conclusão de que, para enfrentar as forças blindadas alemães, com uma
esperança razoável de sucesso, as nossas forças blindadas, tal como estão
atualmente equipadas, organizadas e dirigidas, precisam apoiar-se, pelo
menos, numa superioridade de dois contra um. Mesmo assim, devem recorrer,
para obter êxito, a uma estreita cooperação com a infantaria e a artilharia”.
As forças frente a frente
Forças à disposição de Rommel
Afrika Korps
15a Divisão
Panzer
21a Divisão
Panzer
90a Divisão
Leve
20o Corpo de Exército
101a Divisão
motorizada Trieste
132a Divisão
blindada Ariete
133a Divisão
blindada Littorio
21o Corpo de Exército
17a Divisão de
infantaria Pavia
27a Divisão de
infantaria Brescia
102a Divisão
de infantaria Trento
Forças blindadas: 320 tanques alemães (40 Pz IV, com canhão de 75 mm), 240 tanques
italianos
Força aérea:
542 aviões (120 Me 109)
Forças à disposição de Ritche
13o Corpo de Exército
1a Divisão
Sul-africana
50a Divisão de
infantaria
Guarnição de Bir Hacheim
1a Brigada de
tanques
30a Brigada de
tanques
30o Corpo de Exército
1a Divisão
blindada
7a Divisão
blindada
12a Brigada de
lanceiros
4o Regimento
de tanques (sul-africano)
Guarnições de Tobruk, Gambut e Bardia
2a Divisão
Sul-africana
5a Divisão
hindu
Forças Francesas Livres
Forças blindadas: 900 tanques (200 Grant, americanos, com canhão de 75 mm)
Força aérea:
604 aviões
O Afrika Korps
O Afrika Korps não foi,
como se pode supor, um corpo integrado por tropas selecionadas. Tampouco,
suas unidades eram formadas por soldados voluntários, treinados especialmente
para a guerra no deserto. Pelo contrário, o Afrika Korps era uma unidade
formada por soldados recrutados segundo o procedimento comum, e treinados
segundo os planos normais das unidades alemães. Somente alguns de seus
oficiais recebiam instruções especial, quando agregados a unidades italianas,
veteranas do combate no deserto. Em outros pontos, nada diferenciava o Afrika
Korps dos demais grupos de combate da Reichswehr.
O soldado alemão era
jovem, forte, e se achava perfeitamente adestrado no uso de suas armas. Seu
sentido de dever e de disciplina o convertiam num bom soldado. Todas essas
condições, importantes em outros campos de batalha, não se aplicavam, porém,
no deserto. Com efeito, a experiência demonstrou que os australianos, os
neozelandeses, os sul-africanos e até os ingleses, se adaptam melhor que os
alemães à luta no deserto. De outra parte, não apenas os soldados, mas também
os oficiais e corpos técnicos, careciam de experiência de luta em solo
africano; experiência, que os ingleses possuíam, em alto grau. Compensando
seus fatores negativos, o Afrika Korps possuía uma vantagem muito importante:
a homogeneidade de suas unidades. Com efeito, as unidades britânicas eram um
verdadeiro mosaico de raças, nacionalidades e idiomas. Seus oficiais e seus
homens, muitas vezes, precisavam entender-se por meio de intérpretes.
Forçosamente, sua organização e eficiência deveriam ressentir-se. Isto não
ocorria aos alemães.
O Afrika Korps teve, e
manteve nos seus veteranos, mesmo depois de terminada a guerra, um
extraordinário espírito de equipe. O mesmo espírito que Rommel, o chefe
incontestável, havia sabido inculcar nos seus soldados.
Os heróis de Bir Hacheim
A 64 km da costa do
Mediterrâneo, encontra-se Bir Hacheim. Seu nome deriva de um antigo poço de
;água, que existiu na região em tempos imemoriais. Até o mês de maio de 1942,
Bir Hacheim se caracterizava por ser, apenas, o extremo sul da linha
defensiva El Gazala - Bir Hacheim. A 27 de maio, ali se encontravam quatro
batalhões que integram a Brigada de Franceses Livres, sob o comando do
General Koenig. Nesse mesmo dia, as Divisões italianas Ariete e Trieste
atacam o reduto. Dada a disparidade das forças, sua queda em mãos dos
atacantes deve ser rápida. Essa previsão, porém, não se cumpre. Os franceses
resistem ao ataque, encarniçadamente, e retêm, em suas mãos, o fortim, a
Ariete, perde, no ataque, 40 tanques.
Bir Harcheim, nas mãos dos
franceses, converte-se numa perigosa cunha, que ameaça interromper as linhas
de abastecimento do Afrika Korps, que, mais ao norte, combate os britânicos.
Rommel decide, diante
disso, forçar a rendição dos defensores. Preliminarmente, durante a noite de
1o para 2 de junho, rodeia a posição francesa com os efetivos da
90a Divisão leve alemã e com a Trieste. Em seguida, exige a
rendição. Koenig, sem vacilar, rechaça a intimação e abre fogo. As unidades
do Eixo iniciam, então, o ataque, que se prolonga, ininterruptamente, durante
10 dias,
A Luftwaffe, por sua vez,
apoiando o ataque dos efetivos terrestres, lança onda após onda de aviões
sobre os franceses. Entre 2 e 11 de junho, a aviação alemã realiza 1.300
ataques contra Bir Hacheim. Além disso, a artilharia bombardeia
incessantemente a posição, e a infantaria realiza repetidos ataques. Bir
Hacheim, contudo, resiste.
O dispositivo francês
constava de 1.200 ninhos de metralhadoras, trincheiras de combate e
esconderijos de armas leves e pesadas. Densos campos minados defendiam,
também a cidadela francesa. Até 6 de junho, a 90a Divisão leve
alemã realiza desesperadas tentativas, e suas pontas de lança chegam a
aproximar-se até 800 metros do centro do reduto. Contudo, são contidas e
rechaçadas. A esta ação seguem-se novos e terríveis bombardeios aéreos e
terrestres. Mas Bir Hacheim continua resistindo. No dia 9, a infantaria
alemã, sob as vistas de Rommel, que, pessoalmente, presencia a operação, se
lança ao ataque, conseguindo chegar a 200 metros do reduto central, mas
sofrendo terríveis perdas. Nesse meio tempo, a Luftwaffe continua martelando
a posição francesa. No dia 10, um grupo de combate, sob a orientação do
Coronel Baade consegue apoderar-se dos principais ninhos defensivos dos
franceses. Estes, sem esmorecimentos, continuam combatendo. Nessa mesma noite
(10 de junho), obedecendo ordens do comandante-em-chefe britânico, o General
Koenig abandona a posição com a maior parte de suas tropas. É auxiliado, na
emergência, pela 7a Brigada motorizada britânica. O carro do
General Koenig é dirigido, debaixo do fogo alemão, por uma enfermeira, Susan
Travers, até as posições britânicas. Ao chegar, o carro apresenta 11
perfurações de bala.
Na manhã de 11 de junho,
a 90a Divisão leve alemã
ocupa Bir Hacheim. Encontra ali, perto de 500 franceses, feridos na sua
maioria, que não puderam ser evacuados.
A epopéia de Bir Hacheim
terminara. Os Franceses Livres de Koenig escreveram uma brilhante página de
heroísmo. França, a França imortal, não se rende.
Um velho soldado
26 de maio de 1942. O
Afrika Korps avança através dos campos de minas que se alongam no flanco sul
do exército britânico e irrompe nas linhas da retaguarda. Um grupo de carros
blindados e veículos semilargatas alemães ataca, repentinamente, o QG da 7a
Divisão Blindada britânica. Os ingleses, surpreendidos, esboçam uma fraca
resistência. O General Messervy, chefe da divisão, trata de se afastar do
local, com dois oficiais de seu Estado-Maior. As metralhadoras alemães, no
entanto, matam o motorista e o veículo para. Messervy compreende que não tem
escapatória. Toma então uma resolução audaciosa. Sem vacilar, com um rápido
golpe, arranca do colarinho as insígnias do seu posto. Consegue assim não ser
identificado. Um pouco depois, conduzido para a retaguarda junto com seus
oficiais, é entrevistado por um oficial médico do Afrika Korps. Este ao ver
diante de si um homem de idade madura, vestindo o uniforme, lhe diz: - O
senhor tem mais de 35 anos, não é?...
Nós, no Afrika Korps não queremos ninguém com menos de 35 anos... Messervy,
imperturbável lhe respondeu: - Sou um velho soldado ... lutei na outra guerra
e me apresentei novamente, como voluntário, para lutar nesta... porém não sou
nada mais que o limpador de banheiros do comando da minha divisão...
Nessa noite, Messervy
conseguiu iludir a vigilância de seus captores e se internou no deserto, rumo
às linhas britânicas. Caminhando sem parar, sol o sol ardente da manhã, ao
longo de quase 30 km, o General Messervy conseguiu finalmente chegar ao QG do
8o Exército. O “velho soldado”, um dia e meia depois, estava
novamente à frente da sua divisão.
|