Ofensiva final da Wehrmacht na Criméia
Campanha da Criméia
Conquista de Sebastopol
Batalha de Karkov
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Fins de janeiro de 1942. Sobre a superfície gelada do estreito de Kertsch, marcham rumo ao oeste milhares de soldados soviéticos. Uma após outra, as intermináveis colunas alcançaram as costas da Criméia. Atrás deles avançam lentamente, através dos sulcos abertos na neve, centenas e centenas de tanques, caminhões e peças de artilharia puxadas por tratores e cavalos. Essa gigantesca concentração de homens e de material foi determinada pelo próprio Stalin. Sua missão: reconquistar a Criméia e aniquilar o 11o Exército alemão, cujas forças estão empenhadas no bloqueio de Sebastopol. O General von Manstein, Chefe do 11o Exército, prepara-se para conter o ataque. Na estreita faixa que dá acesso à península de Kertsch, coloca três divisões de infantaria alemã e uma coluna romena, e dispõe, na retaguarda, seu único regimento de reserva. Com essa débil força terá que bloquear o ataque de 14 divisões de infantaria, uma de cavalaria, e duas brigadas de tanques soviéticos. A oeste, em redor de Sebastopol, o restante de suas unidades (4 divisões alemães e uma brigada romena), dispõe-se a impedir a saída das sete divisões russas que integram a guarnição da fortaleza. Em toda a Criméia os alemães contam nesse momento, com apenas 60 aviões de combate. A 27 de fevereiro, e depois de longos preparativos, os soviéticos desencadeiam a ofensiva. Apoiados pela artilharia pesada da fortaleza, as tropas de Sebastopol arremetem contra as divisões 22a e 24a alemães, com a intenção de romper para o norte o anel do bloqueio. Os soldados alemães, combatendo furiosamente, conseguem rechaçar o ataque e manter suas posições, embora às custas de terríveis perdas. A luta se estende ao longo de todo o perímetro de Sebastopol, porém as unidades alemães e romenas mantêm obstinadamente o sítio. Na península de Kertsch, os russos lançaram ao ataque uma
primeira leva de sete divisões de infantaria e 2 brigadas de tanques,
mantendo em reserva o restante de suas forças. Entrincheirados no terreno
pantanoso, os alemães contiveram a investida, mas no seu flanco norte os
russos superaram a 18a Divisão romena e aniquilaram os
destacamentos de artilharia alemães, sediados na retaguarda. Rapidamente, von
Manstein ordenou que se fechasse a brecha, mas as tropas enviadas não
conseguiram locomover-se com suficiente velocidade, o que permitiu aos
soviéticos aprofundar seu avanço. Ficou portanto desarticulada a frente de
combate alemã diante da península de Kertsch. |
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Fracassa o ataque
soviético Ante a grave ameaça que pairava sobre suas forças, von Manstein ordenou realizar um esforço desesperado para conter a penetração russa. Tropas enviadas dos serviços de retaguarda se somaram na luta e, em ininterruptos e violentos combates, conseguiram finalmente bloquear a brecha no flanco norte. Os sangrentos choques continuaram até 3 de março, dia em que ambos os lados, esgotados pelas terríveis baixas sofridas, interromperam suas operações. Sobreveio então uma pausa que se prolongou por 10 dias. Na madrugada de 13 de março, os russos se lançaram novamente ao ataque, empregando oito divisões de infantaria e duas de tanques. Os alemães no entanto conseguiram outra vez rechaçá-los. Fazendo fogo sem interrupção, suas baterias dizimaram as formações blindadas russas e, apenas nos três primeiros dias de luta destruíram 136 tanques. Os russos porém não diminuíram seus obstinados ataques. No dia 18 já haviam conseguido esgotar a capacidade combativa das formações alemães. Nesse momento crítico, von Manstein recebeu como reforço a 22a Divisão Panzer cujos tanques entraram imediatamente na luta. Sobrepujando o esgotamento, as forças alemães iniciaram a 20 de março um contra-ataque, apoiados pelos Panzer. A operação fracassou, mas, contudo, causou aos russos muitas perdas e os obrigou a interromper seu avanço. Com sua característica tenacidade, os russos empreenderam um novo ataque, desta vez com quatro divisões. Uma vez mais foram rechaçados, depois de duros combates. Os alemães agora contavam com o apoio de outra divisão de infantaria, o que lhes permitiu, no decorrer de uma última e cruenta batalha que se prolongou de 9 até 11 de abril, quebrar definitivamente a potência ofensiva dos russos. Von Manstein considerou então que era chegado o momento de desencadear um ataque geral, destinado a aniquilar os exércitos russos que se haviam localizado na península de Kertsch. Vitória alemã Enquanto ocorriam estes acontecimentos, Hitler terminava os planos para a grande ofensiva contra Stalingrado e o Cáucaso. Esta operação devia ser precedida pela destruição de todas as forças da Criméia e a ocupação da fortaleza de Sebastopol. Cumprindo essa diretiva, o 11o Exército alemão preparou-se para levar adiante o ataque contra Kertsch. Em fins de abril de 1942, os russos contavam na península com dois exércitos, o 44o e o 51o, com 17 divisões de infantaria, duas de cavalaria e quatro brigadas blindadas. A essa força os alemães podiam opor apenas 5 divisões de infantaria, uma Panzer; duas divisões de infantaria e uma de cavalaria, romenas. Apesar de sua inferioridade numérica, os alemães contavam com a vantagem de operar numa frente muito estreita (o acesso à península tinha apenas uma extensão de 18 km), o que lhes permitiria arremeter com suas forças em massa contra um reduzido setor das posições russas. Os soviéticos, por sua vez, haviam concentrado dois terços de suas unidades no flanco norte, situando no sul apenas 3 divisões na primeira linha e duas em reserva. Von Manstein vislumbrou imediatamente as vantagens que essa distribuição dos efetivos soviéticos lhe oferecia. Decidiu, portanto, irromper pelo sul com 3 divisões de infantaria e a divisão panzer, realizando, simultaneamente, um ataque simulado no centro com as restantes forças alemães e romenas. Um grupamento de forças mecanizadas avançaria em linha reta, uma vez obtida a ruptura, até ocupar o porto de Kertsch, no extremo oriental da península. Ficaria assim cortada totalmente a retirada aos russos que, inesperadamente, estariam cercados pelas costas pelos tanques e infantaria alemães. Para apoiar a ofensiva o Alto-Comando alemão destacou na Criméia o 8o Corpo Aéreo do General Richtofen. Na manhã de 8 de maio as tropas de von Manstein iniciaram o ataque. Grupos de assalto conduzidos em botes e lanchas desembarcaram na retaguarda das posições russas e facilitaram a penetração das unidades de choque através das fossas antitanques que guarneciam a frente. Sustentando duros combates com os infantes soviéticos, os alemães abriram passagem através da barreira defensiva, para a invasão dos tanques. No dia seguinte, a 22a Divisão Panzer já havia transposto a linha fortificada e se encontrava em condições de iniciar o avanço para o norte, a fim de envolver pela retaguarda o grosso das forças russas. Os soviéticos, vislumbrando a ameaça que pairava sobre eles, desfecharam uma série de violentos contra-ataques, utilizando grande massa de tanques blindados. Durante 24 horas, a penetração alemã ficou paralisada, e fortes chuvas impediram a intervenção dos Stukas. Na tarde do dia 10, o céu se desanuviou, e os Panzer retomaram o avanço. Simultaneamente, a brigada mecanizada encarregada de ocupar o porto de Kertsch movimentou-se a toda velocidade para o leste, sem encontrar maior oposição. A 11 de maio, os tanques alemães alcançaram a costa norte da península e surpreenderam oito divisões russas. Todas as forças alemães e romenas arremeteram então contra as unidades cercadas e, depois de exterminá-las, marcharam rumo ao extremo oriental da península. A 12 de maio foi ocupado o porto de Kertsch. Milhares de russos recuaram para as praias e continuaram, ali, oferecendo desesperada resistência, sob o fogo implacável da artilharia alemã e das bombas dos Stukas. A luta terminou, finalmente, a 18 de maio. A derrota soviética era total. Mais de 170.000 soldados, 1.100 canhões e 258 tanques constituíram o saldo do triunfo alemão. Organiza-se o
ataque contra Sebastopol Desde meados do mês de abril de 1942 - antes do ataque contra Kertsch - von Manstein havia ultimado o plano para a conquista de Sebastopol. Apresentou seu projeto a Hitler, que lhe deu imediata aprovação. O chefe alemão se propunha a realizar a investida principal pelo norte, pois ali o terreno era mais favorável, apesar de estar defendido pelos principais redutos da fortaleza. Pelo leste e pelo sul, existiam agrestes maciços rochosos, que tornariam sumamente difícil o avanço da infantaria. No ataque norte, interviria o 54o Corpo de Exército com 4 divisões de infantaria e um regimento reforçado, apoiados pelo grosso da artilharia pesada e superpesada (entre as peças se contava o gigantesco canhão Dora de calibre de 80 cm). Pelo sul avançaria o 30o Corpo de Exército com 3 divisões de infantaria. O corpo de montanha romeno, com duas divisões, atacaria os russos pelo leste, e cobriria os flancos das unidades de assalto alemães, tornando-os mais eficientes. Para facilitar a ação das forças de infantaria, o Alto-Comando alemão concentrou, diante da fortaleza de Sebastopol, mais de 600 peças de artilharia e numerosas baterias de morteiros. O 8o Corpo Aéreo, com cerca de 400 aviões, recebeu a missão de arrasar o porto de Sebastopol e bombardear os redutos e posições fortificadas. Os canhões e Stukas iniciaram o fogo cinco dias antes da data fixada para o ataque das tropas. Nos últimos dias de preparação do ataque, o General von Manstein transladou-se a frente sul, a fim de inspecionar o terreno onde teria de operar o 30o Corpo de Exército. Essa visita quase lhe custou a vida. A bordo de uma lancha-torpedeira italiana, o chefe alemão percorria a costa nas vizinhanças do porto de Yalta, quando, de surpresa, a embarcação foi atacada por aviões russos. Em poucos instantes, as balas dos caças mataram e feriram 16 tripulantes. Manstein, milagrosamente, escapou ileso. A 7 de junho de 1942, iniciou-se a luta pela conquista de Sebastopol. Quando os primeiros raios de sol iluminaram a frente de batalha, a artilharia alemã abriu um fogo infernal sobre as posições russas. Com surdo rugido, os gigantescos canhões descarregaram seus projéteis e os Stukas, precipitando-se do céu, lançaram bomba após bomba sobre os redutos e trincheiras. Todo o perímetro da fortaleza ficou envolvido por uma nuvem de fumaça e pó provocada pelas incessantes explosões. Penetração no
norte A uma ordem de comando de seus oficiais, os soldados empunham seus fuzis com a baioneta calada e se lançam ao ataque contra as trincheiras soviéticas. Os sapadores, na noite anterior, abriram picadas através dos campos minados e por elas irromperam os pelotões de assalto. Muitos soldados tombaram, entretanto, atingidos pela metralha russa. Alguns homens adiantam-se e lançam granadas contra as casamatas que bloqueiam o avanço. Outros, com o joelho em terra, disparam seus fuzis e metralhadoras portáteis contra as frestas que servem de visores, imobilizado os defensores. O fragor dos disparos e explosões é ensurdecedor. A resistência cessa e o ataque prossegue. Assim, ao longo de toda a frente norte, os infantes alemães abrem passagem, arrasando, à custa de sangrentas perdas, a desesperada resistência dos russos. Estes combatem com fúria implacável, e, mesmo feridos, continuam disparando suas armas. Poucos são os que caem prisioneiros, e, ao serem evacuados para a retaguarda, apoderam-se de súbito dos fuzis que, às centenas, jazem esparramados pelo terreno, e lutam novamente com fanatismo e decisão. Palmo a palmo, os alemães conquistam o terreno. Cada trincheira, cada reduto, se converte em palco de encarniçados choques corpo a corpo. Dessa maneira, com terrível violência, luta-se durante 6 dias. Finalmente, as tropas de vanguarda da 22a Divisão de Infantaria alcançam a rampa do forte Stalin. A 13 de junho, os soldados alemães, apoiados pelo fogo dos canhões e dos morteiros, se apoderam do reduto. Outros importantes pontos fortificados, batizados pelos alemães de Tcheca, Sibéria, Volga e GPU, são também conquistados. Dessa forma, fica aberta uma profunda cunha no cinturão defensivo ao norte de Sebastopol. Também ao sul, o 30o Corpo de Exército conseguiu irromper no perímetro, apesar de sofrer grandes baixas. Entrincheirados nos redutos e em buracos abertos na rocha, os russos varrem com o fogo de suas metralhadoras e morteiros as colunas de soldados alemães e romenos, que escalam penosamente as escarpas inclinadas. Não conseguem, no entanto, deter o avanço. Na frente norte, a 24a Divisão de Infantaria alemã, desloca-se em torno do forte Máximo Gorki I. Acontece ali uma violenta batalha, que, com o correr das horas aumenta em intensidade. As baterias pesadas alemães fazem alvo direto sobre as torres artilhadas e silenciam os canhões russos. Mais para o sul, no extremo da península que domina a entrada da baía de Sewernaja - braço de mar de 800 metros de largura que se estende diante do porto de Sebastopol - a 22a Divisão de Infantaria apodera-se, depois de duro combate, do Forte Norte, último reduto importante que restava aos russos. Os infantes alemães prosseguiram então seu avanço até chegar à crista do escarpado barranco que se levanta junto à costa. Ao pé desse barranco. Em seis profundas galerias, escavadas 100 metros abaixo da rocha, milhares de soldados e civis russos buscaram refúgio, e prosseguiam resistindo furiosamente. Ao enfrentarem essa inesperada oposição, os alemães, movimentando-se sobre o barranco, arrojaram granadas e explosivos para o interior dos túneis. As explosões se sucederam com infernal seqüência, desprendendo grandes blocos de rochas e levantando nuvens de poeira e fumaça. No entanto, os russos não cederam e continuaram disparando do interior dos abrigos, com suas metralhadoras e fuzis. Amarrado à extremidade de uma corda, um sapador alemão levando uma carga explosiva, conseguiu descer até a entrada de uma das cavernas. Nesse preciso instante uma terrível detonação sacudiu o terreno. Os russos acabavam de dinamitar a galeria! Mais de 1.400 civis e toda a guarnição preferiram morrer enterradas antes de entregar-se aos alemães. Durante essa mesma jornada, os outros cinco refúgios capitularam depois de bombardeados a queima-roupa por um canhão alemão, com auto-propulsão, que conseguira descer até o estreito caminho que corria ao pé do barranco. Toda a costa norte da baía de Sewernaja caiu assim nas mãos dos alemães. Estes, no entanto, tiveram que pagar um preço terrível pelo terreno conquistado. Os regimentos de assalto estavam reduzidos à oitava parte e possuíam apenas algumas centenas de soldados em condições de lutar. Ataque através da
baía Do alto do barranco, o General von Manstein inspeciona com seus binóculos a agreste costa que se levanta do outro lado da baía de Sewernaja. O chefe alemão continuou o ataque a Sebastopol mediante uma audaciosa operação. Suas forças, esgotadas pela sangrenta luta, não estão em condições de arremeter contra as fortificações que, por terra, rodeiam a cidade. Decide, portanto, deslocar inesperadamente as tropas das 22a e 24a divisões de infantaria, através das águas da baía, em uma flotilha de lanchas de assalto, e desembarcá-las na retaguarda da linha de redutos que defendem Sebastopol. O temerário plano de Manstein não foi bem recebido por seus oficiais auxiliares. A empresa comporta graves riscos, pois os soldados alemães terão que cruzar a baía sob o fogo da artilharia e das metralhadoras russas e escalar rapidamente as inclinadas escarpas da costa. Contudo, o fator surpresa concorre em favor do projeto. Os russos, sem dúvida, não esperam um ataque por esse lado e concentraram a quase totalidade de suas forças nas posições fortificadas, que encaram da terra, o leste e o sul. Von Manstein, portanto, decide passar por cima das críticas dos seus subordinados e levar adiante a ação. Uma vez recebida a ordem, as tropas de assalto trabalham ativamente na preparação do ataque. No alto do barranco colocam-se canhões e metralhadoras com a missão de atingir os redutos russos, no outro lado da baía. Amparadas pela obscuridade, as lanchas, providas de poderosos motores de popa, são lançadas à água, e os homens se instalam a bordo com suas armas e equipamentos. Exatamente à 1h50 da madrugada de 29 de junho de 1942, a artilharia abre fogo, e as lanchas partem à toda velocidade, rumo à costa inimiga. Nesse preciso momento, os Stukas atacam Sebastopol, com o fim de ocultar, com o estampido de suas bombas, o ruído dos barcos que sulcam as águas da baía. Doze minutos depois, os primeiros soldados alemães, desembarcam na margem oposta e atacam os reduzidos destacamentos russos que montam guarda nos rochedos escarpados. A surpresa foi total! Sem perder um instante, os pelotões de assalto escalam, valendo-se de cordas, os altos rochedos e cruzam o aterro da estrada de ferro, que corre paralela à costa. Logo, novos contingentes chegam nas lanchas e se juntam ao avanço. Grupos isolados de soldados russos tentam oferecer resistência e são rapidamente aniquilados. Ao clarear o dia, a luta adquire extraordinária violência. Num túnel ferroviário, um destacamento russo, abrigado, prossegue combatendo encarniçadamente. Repetidas vezes são intimados a depor as armas, porém não acatam o ultimato e descarregam um fogo mortífero sobre os infantes alemães que se aproximam da boca da galeria. Os alemães finalmente, tapam a entrada com escombros e lançam granadas e explosivos pelos tubos de ventilação. Somente assim, com métodos radicais, conseguem forçar os russos a abandonar o reduto. Retiram-se então os obstáculos, e começam a sair semi-asfixiados e quase cegos os 500 soldados que sobreviveram ao ataque. Depois deles surgem, arrastando-se penosamente, algumas mulheres e crianças que compartilharam com os homens as terríveis alternativas do combate. A conquista de
Sebastopol Enquanto as tropas que desembarcaram na costa norte prosseguem sua penetração rumo a Sebastopol, no leste de no sul o corpo de montanha romeno e o 30o Corpo de Exército alemão, lançam-se ao assalto contra o perímetro fortificado, e numa série de rudes combates conseguem abrir uma brecha. Continuam as esquadrilhas de Stukas lançando do céu uma chuva ininterrupta de bombas, e a artilharia atacando com seu fogo demolidor. Durante os dias 29 e 30 de junho luta-se com fúria desesperada em torno de Sebastopol. Russos e alemães protagonizam episódios de incrível heroísmo. Submergidos nessa batalha infernal, os soldados de ambos os lados tombam aos milhares, regando com o sangue o terreno, esburacado pelos projéteis. As divisões alemães, esmagando a resistência dos russos, convergem inexoravelmente para o porto. Um depois de outro, caem em seu poder os pontos fortificados, onde os russos se fazem matar até o último homem. Pelo sul, a 28a Divisão alemã irrompe através do cinturão defensivo e alcança o Cemitério Inglês, onde repousam os restos dos soldados britânicos mortos na guerra da Criméia de 1854. Nesse local se trava um renhido combate. Atingidos pelas bombas e projéteis da artilharia, os velhos sepulcros de mármore voam aos pedaços pelos ares. Soviéticos e alemães lutam sem piedade corpo a corpo, entre os escombros, arremetendo com granadas de mão e a ponta de baioneta. Outras duas divisões alemães deslocam-se mais ao sul, e depois de apoderar-se do porto de Balaklava, na costa do mar Negro, marcham em direção à península de Quersoneso, para onde se dirigem em desordenada retirada milhares de soldados, marinheiros e civis russos que conseguiram escapar de Sebastopol. Nessa estreita faixa de terra, os russos se dispõem a levantar a última linha de resistência, na esperança de poderem ser resgatados por mar, pela esquadra vermelha. Sebastopol encontra-se agora rodeada pelos alemães, e entre suas ruínas os soldados russos se preparam para enfrentar o inevitável ataque. Diante da perspectiva de ter de travar uma feroz luta de ruas, von Manstein resolve - antes de enviar ao assalto as extenuadas unidades de infantaria - realizar um bombardeio devastador com a aviação e a artilharia. A 1o de julho os canhões e gigantescos obuses desataram um fogo infernal sobre Sebastopol. Atacando sem trégua, os Stukas arrasaram por completo os últimos focos de resistência que ainda se mantinham em pé, enquanto os caças, em vôo rasante, metralhavam os soldados russos dispersos entre os escombros. Poucas horas depois, penetraram na cidade os primeiros pelotões de exploração alemães, e comprovaram que a guarnição havia sido praticamente exterminada. Ao cair da noite, Sebastopol inteira estava nas mãos da Wehrmacht. A luta no entanto não havia terminado. Na península de Quersoneso, os restos dos exércitos russos protagonizavam o dramático e espantoso final de batalha. Milhares de soldados e civis, precedidos por meninos e meninas armados unicamente com baionetas, lançaram-se em formação cerrada contra as linhas alemães, numa desesperada tentativa de abrir passagem em direção aos montes Jaila. Atingida pelo fogo das metralhadoras e morteiros, a maior parte foi exterminada. Apenas alguns poucos caíram prisioneiros. Na ponta da península, entrincheirados nas cavernas e reentrâncias das rochas, os últimos contingentes russos se defenderam tenazmente durante mais três dias. Finalmente, a 4 de julho a luta terminou. Derrota soviética
em Karkov Enquanto o 11o Exército de Manstein estava empenhado na conquista da Criméia, ao norte, as forças russas, comandadas pelo Marechal Timoshenko se lançaram ao ataque em torno de Karkov, com a intenção de liberar esta cidade e simultaneamente infligir pesadas baixas às unidades da Wehrmacht ali sediadas. A ofensiva iniciou-se no dia 12 de maio de 1942, em forma de ataque concêntrico, sobre ambos os flancos da cidade. Os russos movimentaram o grosso de suas forças pelo sul e conseguiram abrir uma profunda brecha no ponto de contato entre o 6o Exército do General Paulus e o Grupamento Panzer de von Kleist. Ao norte, as unidades de assalto soviéticas foram contidas a duras penas pelos alemães, nas cercanias de Karkov, no transcurso de uma série de violentos combates, que se desenvolveram entre os dias 14 e 16 de maio. Recorrendo às suas últimas reservas, o 6o Exército alemão conseguiu parar a arremetida sobre a cidade. No setor sul porém, os exércitos russos apoiados por poderosas formações blindadas, aprofundaram sua penetração, criando uma grave ameaça para as linhas da retaguarda alemã. Nessa circunstância crítica, o Grupamento Panzer de Kleist realizou um surpreendente e devastador contra-ataque sobre o flanco esquerdo da cunha aberta pelos russos. A partir do dia 17, onze divisões alemães e duas romenas pressionaram para o norte, e conseguiram ganhar terreno rapidamente. Unidades mecanizadas do 6o Exército se incorporaram à batalha e golpearam o flanco direito dos russos, empurrando-os para a armadilha montada às suas costas pelos tanques de Kleist. As forças de Timoshenko, até aquele momento vitoriosas, viam-se agora diante da mortal ameaça de ficarem totalmente cercadas. Travando duros combates, as tropas alemães convergiram do norte e do sul, sem que os russos conseguissem bloquear o seu avanço. A 22 de maio, o cerco fechou-se definitivamente. No seu interior, 20 divisões de infantaria, 7 de cavalaria e 7 brigadas blindadas russas continuaram lutando, numa resistência feroz, que se prolongou até o dia 28. Ao finalizar a cruenta batalha, os alemães capturaram 239.000 soldados, 1.240 tanques e 2.000 canhões. Essa vitória, a que logo se havia de somar a de von Manstein, na Criméia, deixou à Wehrmacht o caminho livre para iniciar a grande ofensiva contra Stalingrado e o Cáucaso. Milhares de soldados, canhões, tanques e aviões, estavam já prontos para intervir nessa arriscada empresa que, de acordo com o pensamento de Hitler, teria que culminar inevitavelmente, com a definitiva derrota da União Soviética. Aliança
anglo-soviética No dia 11 de abril de 1942, Roosevelt enviou uma mensagem a Stalin, na qual expressava que, em vista da impossibilidade de uma entrevista pessoal entre os dois, impunha-se a presença de Molotov em Washington, com a maior brevidade, a fim de discutir a possibilidade de abrir uma segunda frente na Europa, no decorrer daquele ano. Stalin, contudo, resolveu enviar Molotov primeiro a Londres, para discutir com Churchill a assinatura de um tratado, no qual os britânicos reconheciam os direitos da URSS nos territórios por ela ocupados por ocasião da invasão da Alemanha. Esses territórios incluíam os Estados Bálticos (Lituânia, Estônia e Letônia), a parte oriental da Polônia e alguns pedaços da Romênia e da Finlândia. Roosevelt já tinha conhecimento dessas exigências do líder russo e se opunha a elas. Por isso, antes que Churchill respondesse à mensagem de Stalin, aceitando a viagem de Molotov, Roosevelt lhe pediu, por intermédio do seu embaixador em Londres, que resistisse às pressões do líder russo. Molotov chega a Londres, num quadrimotor soviético, no dia 20 de maio. Imediatamente reuniu-se com Anthony Eden e reiterou as pretensões soviéticas, especialmente no tocante aos territórios poloneses. Eden negou-se a discutir esse ponto e, no dia seguinte, enviou ao Secretário de Estado americano, Cordel Hull, um informe sobre os assuntos tratados. Hull, com base nesses dados, redigiu um memorando que apresentou a Roosevelt para ser aprovado. Nesse documento, o Secretário de Estado propunha que, se apesar da oposição americana, os russos e britânicos firmassem um acordo que incluísse cláusulas com reivindicações territoriais, o governo dos Estados Unidos deveria manifestar publicamente sua oposição a este acordo. Roosevelt aprovou integralmente a nota. Ante a atitude decidida de Roosevelt, Eden deixou de lado qualquer fórmula de compromisso e declarou terminantemente a Molotov que os britânicos assinariam um tratado público de aliança, em que não se incluísse nenhum tipo de cláusula com reivindicações territoriais. Molotov então resolveu ceder. No dia 24 o embaixador americano, Winnant, entrevistou-se com Molotov e salientou novamente, a oposição do seu governo a que se discutisse, nesse momento, qualquer tipo de problema territorial. Salientou também que Roosevelt projetava abrir a segunda frente o mais cedo possível. Estas declarações, sem dúvida, induziram Molotov a abandonar seus projetos primitivos. Assim, a 26 de maio, Molotov e Eden firmaram o tratado de aliança, no qual foram completamente omitidas quaisquer cláusulas reivindicatórias. ANEXO Sebastopol em chamas As explosões se sucediam
ininterruptamente. Os projéteis, atravessando o ar com silvos aterradores,
destruíam os edifícios, as fábricas, o cais, os barcos, tudo enfim que
estivesse de pé sobre a terra. Os incêndios, alastrando-se incontidamente,
avermelhavam o céu.. Tudo era caos e destruição em Sebastopol. Porém a cidade
não se rendia. A vida continuava nos subterrâneos, cavados na rocha viva. Ali
refugiaram-se os comandos, as fábricas, as centrais de comunicações, os
hospitais e os depósitos de abastecimentos. Dali se orientava a luta de
superfície, e se mantinham as comunicações com o grosso do Exército
soviético. Na intrincada rede de cavernas e túneis, se achavam instalados
barbearias, cabeleireiros, restaurantes e centrais telefônicas e elétricas.
Um complicado sistema de tubos e exaustores de ar permitia renovar a
rarefeita atmosfera dos redutos. Quando aqueles aparelhos deixavam de
funcionar por falta de corrente elétrica, a respiração se tornava impossível,
e todos, homens e mulheres, civis e militares, precisavam correr até as
saídas e abandonar os refúgios. Do lado de fora os esperava um espetáculo
dantesco e desolador. Não restava nada em pé, em Sebastopol. Casa após casa,
fábrica após fábrica, cais após cais, tudo havia sido destruído pelo
bombardeio constante. Os aviões alemães, dia a dia, hora a hora, metralhavam
tudo que se movesse entre as ruínas. A artilharia da Wehrmacht disparando sem
descanso, demolia metodicamente, zona por zona, bairro por bairro, casa por
casa. Na realidade, já estavam disparando sobre montes fumegantes de
escombros que ficavam pulverizados. Os barcos que entravam no
porto, transportando munições e víveres, só podiam fazê-lo durante a noite.
Então, rápidos sinais de luz do porto, indicavam a rota até o ancoradouro. Em
seguida, os alemães que permaneciam atentos a qualquer manifestação de vida
dentro da cidade, desencadeavam um fogo mortífero sobre porto. Barcos carregados de munições
voavam aos pedaços, petroleiros deixavam escapar toneladas de combustível em
chamas, navios que transportavam feridos, afundavam em meio a terríveis
explosões... E em Sebastopol a vida
continuava. E com ela a resistência. O Exército atacante Forças de Manstein que atuaram
no ataque a Sebastopol: 54o Corpo de Exército Divisões de Infantaria:
22a, 24a, 50a e 132a com 121
baterias de artilharia (56 pesadas e ultrapesadas, 41 leves, 18 de obuses e
dois setores de canhões de autopropulsão). 30o Corpo de Exército Divisões de Infantaria:
28a, 72a e 170a com 56 baterias de
artilharia (25 pesadas e ultrapesadas, 25 leves, 6 de obuses, setor de
canhões de autopropulsão, 1 setor de tanques explosivos Goliath dirigidos por
rádio). Corpo de Montanha Romeno Divisões de Montanha: 1a
e 18a com baterias de artilharia (12 pesadas e 22 leves) 8o Corpo de Aviação General von Richtofen 7 grupos de bombardeiros 4 grupos de caças 3 grupos de Stukas com um total de 400
aviões Erich von Manstein Erich von Manstein, mais
conhecido como Von Manstein, nasceu a
24 de novembro de 1887, em Berlim. Posteriormente à morte de seu pai, foi
adotado pelo General Georg von Manstein de quem tomou o nome. Entre 1900 e
1906, o futuro marechal recebeu instrução militar no Corpo de Cadetes.
Ingressou posteriormente no 3o regimento da Guarda de Berlim, e de
1913 a 1914 cursou a Escola de Guerra. Quando estourou a
Primeira Guerra Mundial, foi ajudante de regimento no 2o de
reserva da Guarda. Atuou na Bélgica, Prússia Oriental e Polônia do Sul. Foi
gravemente ferido em novembro de 1914. Voltou ao serviço ativo em 1915, como
oficial-ajudante e, em seguida, como oficial do Estado-Maior. Interveio na
ofensiva estival de 1915, na Polônia do Norte, e atuou na campanha da Sérvia,
desde o outono de 1915 até a primavera de 1916. Participou da Batalha de
Verdun, na do Somme, na da primavera de 1917, no Aisne. No outono de 1917,
foi oficial de Estado-Maior da 4a Divisão de cavalaria. Em maio de
1918, oficial de Estado-Maior da 213a Divisão de Infantaria no
ocidente. Participou na ofensiva de Reims em maio e julho de 1918. Depois de assinado o
armistício, von Manstein ingressou na Reichswehr. Em fevereiro de 1934 foi
chefe do Estado-Maior da 3a Região Militar de Berlim. Em julho de
1935, chefe da Primeira Seção do Estado-Maior do Exército. Até outubro de 1936,
general-de-brigada e primeiro chefe de serviços do Estado-Maior Central. Depois da mobilização de
1939, chefe do Estado-Maior do grupo de exércitos do Sul (von Rundstedt).
Nesse posto tomou parte na campanha da Polônia. Em outubro de 1939, com o
mesmo cargo, passou para o grupo de exércitos A do General Rundstedt, na
frente ocidental. Em março de 1941, foi
comandante do 56o Corpo de Tanques. Em setembro de 1941,
desempenhou a chefia do 11o Exército. Conquistou a Criméia. Na
primavera de 1942 derrotou e aniquilou os exércitos russos desembarcados em
Kertsch. Depois tomou Sebastopol. Recebeu então o posto de marechal. Em agosto de 1942, foi
incumbido da conquista de Leningrado, que não pôde levar a cabo. Em novembro de 1942,
depois que os russos cercaram o 6o Exército, em Stalingrado, foi
nomeado comandante-em-chefe do grupo de exércitos do Don. Procura então,
infrutiferamente, salvar o 6o Exército, bloqueado. No verão de 1943,
participou da última ofensiva alemã do leste. Quando esta fracassou, comandou
o grupo de exércitos do Sul. Dirige suas tropas em batalhas defensivas, até
alcançar a fronteira polonesa. Em fins de março de 1944, Hitler o retira do
comando, em virtude das discordâncias que tinha com o ditador, acerca da orientação
das operações. No fundo do mar As luzes do amanhecer
iluminavam debilmente o contorno das coisas. Vários homens, em fila indiana,
acercaram-se rapidamente da praia, e buscaram refúgio entre as rochas. Um solitário
avião alemão de reconhecimento passou nesse instante sobre o local. Os homens
se imobilizaram, colados às parede das rochas. Segundos depois, o avião
inimigo perdeu-se nas distância. Então, o grupo retomou as marcha. Agachados,
todos se acercaram alguns metros mais da franja das ondas, fracas naquele
ponto. Uma ordem partiu do que encabeçava o grupo. Pararam todos, e
febrilmente começaram a abrir as sacolas que levavam. Num instante o chão de
areia fina se cobriu de trajes de borracha e grandes escafandros. Uma nova
ordem e os equipamentos foram colocados em fila. O comandante do grupo passou
rapidamente e inspecionou cada elemento. Em seguida, com um gesto, ordenou a
continuação da operação. Os homens começaram a vestir as roupas. Depois,
auxiliados por um novo grupo que havia aparecido silenciosamente, ajustaram
os escafandros. Compridos tubos de borracha foram arrastados até as pedras e
atarrachados a bombas de ar, que permaneciam ocultas. Dois minutos depois, a
equipe de mergulhadores estava pronta para descer às profundezas. Um a um, os
homens foram submergindo. Em seguida, os que cuidavam das bombas cobriram com
areia, os tubos que penetravam na água, e se esconderam apressadamente. A
operação começara. A partir deste instante, a 10 ou 20 metros de
profundidade, os mergulhadores ficaram entregues a sua sorte. Sua missão:
extrair dos barcos afundados tudo que pudesse ainda ser de utilidade na
defesa de Sebastopol. Ali, nas profundezas, havia granadas, bombas, peças de
máquinas, medicamentos e armas. Tudo era útil. Tudo podia servir aos
defensores. Mas também existia ali outra coisa que apavorava os
mergulhadores. Algo que provocava reações tais que tornavam terrível o
mergulho. Ali, em baixo, havia cadáveres. Cadáveres de homens e mulheres. E
cadáveres de crianças. Centenas de homens, mulheres e crianças que pereceram
ao afundar-se seus barcos sob o impacto das bombas alemães. E aquele
cadáveres deviam ser apartados para os mergulhadores entrarem no interior dos
barcos. E muitos deles, ao serem abertas as portinholas, saíam flutuando ao
encontro dos vivos... O espetáculo, horrendo,
era temido pelos russos. Os mergulhadores russos, experientes e veteranos de
cem campanhas, sofriam diante da idéia de flutuar num mundo silencioso e
povoado de cadáveres. Porém, além dessa recusa instintiva, impunha-se a
férrea decisão de resistir e salvar a sua cidade. E sem vacilar mergulhavam
uma, outra, várias vezes. Ao sair à superfície, nos
momentos de calma em que a aviação alemã não sobrevoava a zona, os mergulhadores
traziam caixões de granadas, peças de máquinas, e medicamentos
principalmente. As granadas, sem perder um segundo, eram transportadas à
linha de frente. Os medicamentos, bandagens especialmente, eram estendidas ao
sol para secar e ficarem em condições de uso novamente. Os terríveis
mergulhos se repetiram dia após dia, enquanto os russos mantiveram a cidade
em suas mãos. Animados por uma fé inquebrantável, os mergulhadores desceram
centenas de vezes. E milhares de granadas foram salvas e usadas contra o
invasor. Dora Os homens avançaram em
silêncio, o máximo que puderam. Eram comandado por um jovem capitão. Um
sargento que os acompanhava, veterano de cem campanhas, perscrutando a
obscuridade com seu olhar penetrante... - Atenção, companheiros,
ali há um movimento estranho...- sussurrou debilmente. O capitão, distribuindo
rapidamente seus homens, protegeu-se, por sua vez, no buraco de uma granada.
A patrulha tinha uma missão especial. À retaguarda haviam chegado informações
pouco tranqüilizadoras. Informações que falavam de um canhão. Mas não de um
canhão simples, como todos. Tampouco um canhão que superava em alguns
centímetros os que já eram conhecidos. As informações falavam de um monstro.
Efetivamente, assim havia qualificado o chefe do grupo encarregado da
vigilância do depósito de munições russas de Sewernaja. O capitão russo, no seu
refúgio, meditava. Evidentemente aquela missão não tinha sentido... Para que
preocupar-se com um canhão mais, um canhão menos, qualquer que fosse o seu
calibre... O depósito de munições estava numa caverna, aberta na rocha viva,
a 30 metros de profundidade... Nenhum canhão podia alcançá-lo, era
impossível... Repentinamente um
violento resplendor iluminou todo o local. Os homens colaram-se ao solo
instintivamente. Uma fração de segundo depois chegou o ruído. Foi um troar
que aumentou sua intensidade até converter-se numa detonação, estarrecedora. A terra estremecia sem
cessar, sacudida pelos canhonaços. Violentos relâmpagos rasgavam o espaço. O
silvo dos seus projéteis fendia o ar. Um furacão de fogo e aço desencadeou-se
contra as posições russas. Os homens da patrulha
começaram a retroceder. Penosamente se arrastaram até suas posições. Faltavam
apenas algumas centenas de metros, quando uma detonação, única, incrível,
horrenda, partiu das linhas alemães. O Dora havia disparado pela primeira
vez. O famoso Dora, de 80 cm,
havia sido projetado, estudado e fabricado para demolir as defesas da Linha
Maginot, na França. Contudo, o desenrolar das operações tornou desnecessária
a sua utilização. Era, sem dúvida, uma maravilha de técnica de artilharia.
Seu comprimento total atingia 30 metros, e seu suporte tinha a altura de uma
casa de dois andares. O transporte do Dora e seu equipamento havia requerido
a utilização de 60 vagões ferroviários. Duas seções de artilharia antiaérea
vigiavam e defendiam o Dora dos ataques da aviação inimiga. O Dora não
compensou, como rendimento, seu elevadíssimo custo, porém conseguiu efeitos
que pareciam impossíveis: fazer voar um depósito de munições, aberto na rocha
viva, a 30 metros de profundidade, por exemplo. Isto foi Sebastopol Um piloto alemão que
participou da conquista de Sebastopol anotou nas páginas de seu diário
pessoal uma visão dessa trágica batalha. Eis aqui suas palavras: - Do ar, Sebastopol
parecia um panorama de batalha esboçado por um pintor. Já nas primeiras horas
da manhã, o ar estava repleto de aviões que se precipitavam em picada
arrojando suas bombas sobre a cidade. Milhares de bombas - mais de 2.400
toneladas de altos explosivos e 23.000 incendiárias - foram descarregadas
sobre a cidade e a fortaleza. Uma só incursão demorava, nada menos, que 20
minutos. Quando se atingia a altura necessária, já se estava sobre o alvo. - Com a fumaça e o pó, em
meio ao rugido das explosões, o campo de batalha era praticamente invisível
para nossas tropas em terra; elas viam apenas os bombardeiros lançando-se
sobre esse inferno. O angustiante piquê dos Stukas e o silvo aterrador que
produziam as bombas ao cair, abalavam o ânimo dos mais valentes. As tropas de
assalto, expostas ao calor abrasador de um sol ardente, detêm seu avanço
durante alguns minutos que, para os defensores, devem parecer uma eternidade.
Os russos aferram-se à terra-mãe com obstinação inigualável. Se não lhes
resta escapatória, dinamitam seus fortes e redutos e perecem junto com os
atacantes. - A artilharia antiaérea
russa foi silenciada logo nos primeiros dias, e por isso o perigo para os
aviões é menor que nos portos do Cáucaso ou nos aeródromos russos. Contudo,
nossa tarefa em Sebastopol exige o máximo dos homens e do material; 12, 14 ou
até 18 ataques diário foram feitos por cada tripulação. Um Junkers 88 com
seus tanques de combustível cheios, faz 3 a 4 ataques seguidos, sem que a sua
tripulação deixe o aparelho. Isto significa um desgaste tremendo para os
aviões e o pessoal da manutenção, esse anônimos soldados que durante muitos
dias e noites não tem um só minuto de descanso. - Sob o estrondar maciço
da avalanche de bombas, o fofo da artilharia pesada do Exército, e os
disparos do superobus Thor, mesmo a defesa mais desesperada deve finalmente
quebrar-se. Dia após dia, o anel do cerco se estreita. Milhares de alemães e
russos perecem nos sangrentos combates corpo a corpo. A terra absorve em
torrentes o sangue dos desafortunados soldados... - O único momento em que
reina uma breve calma é quando o sol se deita no mar Negro, e seus últimos
raios banham a fortaleza e o porto com um resplendor vermelho-sangue... Isto
foi Sebastopol, um nome que ainda hoje desperta terríveis lembranças em todos
que ali estiveram. Os atacantes e os defensores lutaram igualmente com uma
fúria que poucas vezes repetiu-se em toda a guerra. A última bateria O último avanço alemão
sobre Sebastopol foi precedido por um furacão de fogo e aço. Os atacantes lançaram
sobre os defensores da cidade toda a massa dos seus recursos. Tanques,
lança-chamas,. Bombas, granadas, tudo foi arrojado sobre as linhas russas,
violentamente. Um dilúvio de ferro e fogo se abateu sobre os restos informes
das defesas russas. Os aviões alemães, por sua vez, descarregaram
implacavelmente todo o poder de suas bombas e metralhadoras. E então, por
trás de todo aquele caos de disparos, explosões, lamentos, silvos de bombas,
surgiram os carros de assalto. De frente para as linhas alemães se encontrava
uma divisão russa. Uma divisão que resistiu firmemente ao ataque alemão. Um a
um, seus homens estavam tombando. Companhias inteiras haviam sido tragadas.
Batalhões desapareceram. Porém, os restos da divisão não davam um passo
atrás. Ao produzir-se o ataque final, ao cair sobre eles uma massa de ferro e
fogo, a divisão estava reduzida a 130 homens. Nem um mais. As unidades
alemães, avançando cautelosamente se aproximaram daquele punhado de homens.
Os russos, por sua vez, agrupando-se, entrincheiraram-se em redor de uma
bateria. A última bateria. O combate
desproporcionado, grotesco quase, entre uma força 100 vezes superior, e uma
companhia esgotada, travou-se, furioso. Aquilo não podia durar. Era
impossível. Não era humano resistir numa proporção de um contra cem. E a
ordem chegou: - Abandonar posição! - foi gritada com voz rouca entre o troar
dos canhões e o estouro das granadas. Porém, nenhum homem abandonou sua
trincheira. Nenhum soldado deu um passo atrás. Todos continuaram carregando e
disparando suas armas, ininterruptamente, sem descanso. Nenhum combatente
admitiu aquela ordem que podia salvá-los. Todos preferiram morrer combatendo.
Três dias e três noites durou aquela
luta desproporcional, irreal. Três dias e três noites de sucessivos ataques
alemães. Quando, vencida a
resistência dos defensores, os primeiros soldados alemães puseram o pé no
reduto, os últimos 40 homens que defendiam a bateria, fizeram-na voar pelos
ares. Foi seu último gesto de renúncia. Terminara a epopéia da última bateria. Homenagem ao vencedor “- Ao comandante-em-chefe
do exército da Criméia, General von Manstein. Em reconhecimento de seus
méritos conquistados na batalha da Criméia, com o aniquilamento dos exércitos
inimigos, na batalha de Kertsch e coroados com a vitória sobre a poderosa
fortaleza de Sebastopol que a natureza e a arte da união dos homens
protegiam, acabo de nomeá-lo Marechal-de-Campo. Quero, com esta promoção, e
com a criação de um distintivo para todos os combatentes da Criméia,
proclamar ante o povo alemão o comportamento heróico das tropas que lutaram
sob suas ordens” - Adolf Hitler” Von Manstein recebeu este
telegrama na noite de 1o de julho de 1942, poucas horas depois que
suas tropas completaram a conquista do porto de Sebastopol. A mensagem foi
precedida por uma transmissão geral feita pelas emissoras alemães, na qual se
comunicava à população do Reich a vitória obtida pelo 11o
Exército. Tal como assinalou mais tarde o próprio von Manstein: “- Poder saborear o mel
da vitória e ostentar seus lauréis no próprio campo de batalha, é uma sorte
excepcional para um soldado...” Poucos dias depois, o
chefe alemão recebeu outra homenagem das mãos de um personagem singular. Foi
entregue a ele um pacote rubricado pelo Kronprinz, filho mais velho e
herdeiro do Kaiser Guilherme II. O pacote continha uma cigarreira de ouro que
trazia gravada em relevo, a fortaleza de Sebastopol, com o detalhe de todos
os seus redutos e bastiões. Acompanhava o presente uma carta, na qual o
Kronprinz manifestava o seu prazer em felicitá-lo pela conquista de
Sebastopol, pois ele, não havia tido a mesma sorte numa empresa similar ao
comandar o ataque contra a fortaleza francesa de Verdum em 1916. A Churchill de Stalin 23 de abril de 1942 Premier Stalin ao
Primeiro Ministro: O Governo soviético
recebeu, recentemente, direito de Mr. Eden, os textos de um acordo entre a
URSS e a Inglaterra. Tais textos diferem, em parte, do contexto anteriormente
discutido por Mr. Eden em Moscou. Dado que as diferenças reveladas nesses
textos demonstram que as dificuldades não podem ser resolvidas por
correspondência, o Governo Soviético decidiu enviar a Londres, o Sr, Molotov,
para discutir pessoalmente as diferenças surgidas. Isto se torna ainda mais necessário,
porque o problema da abertura de uma segunda frente na Europa (que foi
exposto na última mensagem dirigida a mim pelo presidente dos Estados Unidos,
que convidara o Sr. Molotov a viajar para Washington para discutir esse
assunto) exige um intercâmbio preliminar de pontos de vista entre os
representantes de nossos dois governos... 23 de maio de 1942 Primeiro-Ministro ao
Premier Stalin Tivemos grande prazer em
receber o Sr. Molotov. Mantivemos utilíssimas conversações, no tocante aos
assuntos militares e políticos. Fornecemos total e verdadeira informação de
nossos planos e recursos. No que tange ao tratado, ele lhe explicará as
dificuldades, que consistem no fato de que não podemos abandonar nossos
compromissos com a Polônia, e que devemos levar em conta, tanto a nossa
própria opinião pública como a americana. Estou convencido de que
trará grandes benefícios para a causa comum, uma nova visita de Molotov
quando regressar da América. Poderemos então continuar
nossas discussões que, espero, hão de conduzir ao estabelecimento de uma
estreita cooperação militar entre nossas três nações... |