Luta na Rússia

 

Os alemães irrompem no Don

            

Ofensiva alemã da Rússia meridional

Batalha no Don

 

 

Primavera de 1942. Ao longo da frente de combate russa, o degelo e as chuvas transformaram os campos de luta em imensos lodaçais. A lama detém a vitoriosa contra-ofensiva soviética, e a Wehrmacht consegue, numa série de encarniçadas batalhas, reorganizar suas linhas. A terrível campanha de inverno custou aos alemães tremendas baixas. Um informe oficial do Exército, datado de 30 de março de 1942, assinala que apenas 8 das 162 divisões que atuam na frente oriental se encontram em condições de efetuar ações ofensivas. Por sua vez, as 16 Divisões Panzer contam, em conjunto, com 140 tanques aptos para operar!

 

Nos sangrentos combates, tombaram 1.167.835 soldados, cifra gigantesca que a Alemanha já não tem condições de cobrir com seus próprios homens. Hitler, portanto, resolve requisitar de seus aliados e satélites novos contingentes de tropas. Já no mês de janeiro, Goering se havia trasladado para Roma, a fim de solicitar a Mussolini que enviasse reforços italianos à Rússia. O marechal nazista anunciou a sua convicção de que os russos seriam definitivamente derrotados em 1942.

 

Os prognósticos de Goering coincidiam com o pensamento de Hitler. Este, apesar do desastre sofrido pelos seus exércitos, estava convencido de que, em uma nova ofensiva, a Wehrmacht obteria a ambicionada vitória. Em meados de fevereiro, expôs pela primeira vez seus planos ao General Halder, chefe do Estado-Maior do Exército. Halder, posteriormente, escreveu sobre as declarações de Hitler: - Seu argumento era que a Rússia estava liquidada. Gastara todas as suas forças com a última ofensiva. Tratava-se apenas de dar um empurrão em quem já cambaleava. Citou Nietzche e Clausewitz para fundamentar essa sua “heróica” decisão.

 

Hitler, com sua costumeira veemência, expôs os grandiosos objetivos da nova ofensiva. Não se repetiria o erro de atacar Moscou. A Wehrmacht levaria a cabo a conquista definitiva da bacia carbonífera e industrial do Donetz, destruiria o centro fabril de Stalingrado e, depois de interromper o tráfego do Volga, ocuparia as vitais jazidas petrolíferas do Cáucaso. Dessa forma, a Rússia, privada das suas bases econômicas, indispensáveis para continuar a guerra, se veria forçada a capitular.

 

 

O plano é concretizado

 

Ao receber essas determinações do Fuhrer, o General Halder, manifestou-se em completo desacordo com o projeto. Segundo seu entender, não existia a menor possibilidade de êxito na pretensão de obrigar a Rússia a depor as armas, mediante uma ofensiva em grande escala. Sua razões: o exército alemão, depois das enormes perdas sofridas durante o inverno, não estava agora em condições de empreender uma nova campanha de alcance tão vasto. De acordo com a intenções de Hitler, a penetração até a linha Volga-Cáucaso obrigaria a Wehrmacht a percorrer uma frente de 3.000 km de extensão, em linha reta.

 

Halder assinalou, ao contrário, que, dadas as enormes reservas de homens e material dos soviéticos e a sua extraordinária capacidade de recuperação, o exército alemão devia limitar-se a estabilizar suas linhas, e desgastar as forças russas, mediante ações defensivas parciais, com objetivos limitados, principalmente no setor de Moscou. Essa tática permitiria à Wehrmacht ter o tempo necessário para recuperar seu potencial de choque e, posteriormente, empreender então a campanha decisiva. Esta iniciativa, no entanto, não deveria ser lançada no setor que Hitler indicara - Rússia meridional - pois ali os soviéticos, ao contrário de Moscou, contavam com vastíssimos espaços para escalonar sua defesa em profundidade, e escapar às operações de cerco.

 

Hitler rechaçou inteiramente esses argumentos. Estava obcecado pela idéia de apoderar-se das fontes petrolíferas do Cáucaso, e considerava  a sua posse vital para a Alemanha. Pouco antes de iniciar a ofensiva faria uma declaração ao General Paulus, chefe do 6o Exército: - Se não me apoderar do petróleo de Maikop e Grozny, tenho que parar a guerra!

 

Com o correr das semanas suas idéias evoluíram para o plano da mais completa fantasia. As vitórias alcançadas por Rommel na Líbia abrira, segundo ele, a possibilidade de realizar uma colossal manobra de pinças sobre o Oriente-Médio. Avançando através do Cáucaso e do Canal de Suez, as forças alemães, depois de unidas, marchariam para o golfo Pérsico e ameaçariam a Índia. Estes planos, mesmo carecendo de qualquer fundamento prático, foram considerados seriamente pelo Fuhrer e seus associados. Halder e os chefes militares, porém, julgaram-nos totalmente irrealizáveis.

 

Para tornar efetivo o avanço rumo ao Cáucaso, a Wehrmacht disporia de umas 60 divisões alemães e, provavelmente, umas 40 aliadas (italianas, romenas e húngaras). Estas últimas unidades, pela debilidade do seu armamento, equivaliam, na prática, à metade de uma divisão alemã. Portanto não se podia contar, para a ofensiva, com mais de 80 divisões. Dois terços dessa força teriam que ser localizadas ao longo dos rios Don e Volga, para cobrir o lado norte e leste da penetração rumo ao Cáucaso. Assim, para a operação propriamente dita, apenas ficariam livres umas 15 divisões. Essa reduzida força teria que percorrer na sua marcha até Baku, no outro lado da agreste barreira das montanhas caucasianas, uma distância de 1.200 km.

 

Estes fatores demonstram, de maneira irrefutável, a impossibilidade de concretização dos desatinados projetos de Hitler. O Fuhrer, porém, estava convencido de que seus exércitos conseguiriam aniquilar a massa das forças russas, na fase inicial da campanha, mediante uma série de manobras de cerco no setor oeste do rio Don. O caminho até Stalingrado e o Cáucaso ficaria, então, completamente desimpedido, e a ocupação daqueles objetivos seria conseguida sem maiores dificuldades. A 5 de abril de 1942, o Fuhrer emitiu a Diretiva 41 para a orientação da guerra, na qual ordenava: - Reunir todas as forças disponíveis para a operação principal no setor sul, com o objetivo de aniquilar o inimigo diante do Don para chegar, em seguida, às zonas petrolíferas nos campos caucasianos, e conquistar o próprio Cáucaso.

 

Essa ordem condenou a Wehrmacht à derrota definitiva.

 

A organização da ofensiva

 

Cumprindo a determinação, as forças do Grupo de Exércitos Sul foram aumentadas com divisões procedentes dos países ocupados da Europa e das nações satélites. As unidades alemães de reforço começaram a chegar à frente de combate a partir do mês de março.

 

No total, somaram 14 divisões de infantaria, 4 Panzer e 3 de infantaria motorizada. Esses grupamentos padeciam de muitas falhas, em virtude de sua improvisada e acelerada preparação, e não possuíam bastante armamento e elementos motorizados. A Itália e os países satélites contribuíram com contingentes importantes. No dia 29 de abril de 1942, Hitler viajou para a cidade de Salzburg e ali manteve uma longa conferência com Mussolini, na qual salientou a necessidade de aumentar a colaboração italiana à projetada ofensiva. O Duce concordou em enviar novas forças à Rússia, porém, assim como o premier romeno, Antonescu, exigiu que suas forças operassem autonomamente, e sob as ordens de chefes italianos. Ao se iniciar a campanha, 4 exércitos aliados, o 8o italiano (10 divisões), o 2o húngaro (10 divisões) e o 3o e 4o romenos (19 divisões), acompanharam o avanço da Wehrmacht. Por decisão de Hitler, estas forças teriam a seu cargo a proteção do extenso e vulnerável flanco norte, ao longo do rio Don. O grosso das forças alemães (6o Exército, 17o Exército, e 1o e 4o Exércitos Panzer) ficaria, portanto, livre para levar adiante o ataque contra Stalingrado e o Cáucaso.

 

Essa distribuição das forças comportava graves riscos, pois as divisões romenas, húngaras e italianas, apesar dos esforços realizados pelos alemães para equipá-las, careciam de armamento suficiente, especialmente com referência a tanques, canhões antitanques, artilharia de campanha e veículos motorizados. Essa debilidade foi, oportunamente, demonstrada a Hitler, pelo Alto-Comando alemão, porém o líder passou por cima de todas as advertências.

 

Ao contrário, urgiu à direção do Exército que acelerasse ao máximo a concentração das forças. A enorme distância que separava a Wehrmacht dos objetivos visados convertia o fator tempo num elemento decisivo na sorte da campanha. Era necessário conquistar Stalingrado e ocupar o Cáucaso antes da chegada do inverno! Por causa disso, o Fuhrer ordenou que se iniciasse a ofensiva, antes mesmo que se reunissem todas as unidades que nela deveriam participar. Para resolver esse problema, o Alto-Comando decidiu que a operação se efetuasse em várias fases, começando com uma primeira investida no norte, em direção à cidade de Voronesh.

 

A esse ataque inicial se seguiria um avanço das forças destacadas no setor central, em frente a Karkov. Estas unidades marchariam ao encontro das outras, que, do norte, desceriam aceleradamente ao longo das margens do Don. Com esta primeira manobra de envolvimento, projetava-se aniquilar grande parte dos exércitos russos. Numa terceira fase, a ala sul da Wehrmacht, irromperia frente à cidade de Rostov, na desembocadura do Don, e seguindo o curso, rio acima, fecharia o cerco juntamente com as forças que avançavam pelo norte, em frente a Stalingrado. Nessa última batalha deveriam ser completamente destruídas as forças russas na frente meridional. Em seguida viria a ocupação de Stalingrado e a penetração final até o Cáucaso.

 

Este plano estava baseado na suposição de que os exércitos russos manteriam suas posições e lutariam sem recorrer a manobras de retiradas em profundidade. Somente dessa forma poderiam concretizar-se as batalhas e o envolvimento previsto. No entanto, era de se esperar - e assim ocorreu - que os russos evitassem um choque decisivo na margem oeste do Don e concentrassem suas forças no Volga e nos contrafortes do Cáucaso. Os alemães, assim, se veriam forçados a golpear o vazio, comprometendo suas unidades, desprovidas de suficientes elementos motorizados e meios de abastecimentos, numa gigantesca cunha, cujos flancos ficariam expostos a um inesperado contra-ataque soviético.

 

Nenhum desses perigos alterou a decisão de Hitler: levar adiante a ofensiva, que, segundo suas palavras, culminaria com a maior vitória da história do mundo.

 

Os planos caem em mãos russas

 

No dia 18 de junho de 1942, na bruma do amanhecer, um avião Storch das forças alemães sobrevoava as linhas de combate, a oeste da cidade de Voronesh. A bordo do pequeno aeroplano, viajava em companhia do piloto, um oficial do Estado-Maior da 23a Divisão panzer. O objetivo do vôo era de simples observação de suas próprias linhas; era uma saída de rotina, mais uma das muitas que se efetuavam diariamente.

 

O Storch sobrevoou, paralelamente às posições alemães, a zona ocupada pela 23a Divisão Panzer; depois, antes de retornar à base, desviou-se da rota e se internou em direção ao leste, até as linhas russas. Voava sobre a terra de ninguém, a poucas centenas de metros das linhas alemães, quando de repente pareceu estremecer, e em seguida caiu pesadamente. Instantes mais tarde, era uma massa informe de metal retorcido. Imediatamente, nas posições alemães organizou-se uma patrulha de socorro. Rápidos, cobertos pela metralha de seus camaradas, os homens que a integravam percorreram a pequena distância que os separava do avião acidentado. Uma surpresa, porém, os aguardava. Quando, rastejando, se acercaram do aparelho, não notaram nenhum rastro de vida visível. Por fim, depois de uma busca mais cuidadosa dos restos, os membros da patrulha comprovaram que, no interior do avião já não se encontravam os homens que o tripulavam. A conclusão, lógica, tornou-se evidente: alguém se havia adiantado à patrulha. Mas os alemães sabiam muito bem que ninguém havia saído antes deles...nem depois... Voltaram, o mais velozmente possível e, nas suas linhas, comunicaram a novidade: a tripulação do Storch, viva ou morta, estava em poder dos russos.

 

A informação correu rapidamente toda a escala hierárquica da divisão até chegar ao Alto-Comando. Paralelamente, a importância do acidente foi assumindo tal gravidade, que se converteu em comunicado de prioridade absoluta. Assim, a notícia chegou diretamente, sem tardar, às mãos do Fuhrer. Ao tomar conhecimento do fato, Hitler, teve uma reação de extrema violência. A primeira conseqüência foi a destituição imediata do General Georg Stumme, chefe do 40o Corpo de Exército Blindado. Stumme, imediatamente depois da destituição, foi degradado e submetido a um Conselho de Guerra de emergência.

 

Muita gente perguntava qual poderia ter sido o motivo de tal reação. Mas logo, logo, se compreendeu. O oficial derrubado e capturado pelos russos no setor de Voronesh, levava, entre seus papéis, os planos completos e detalhados da iminente ofensiva que os exércitos alemães deviam desencadear. Aqueles planos, portanto, já deveriam estar sendo examinados pelos russos. Era uma situação semelhante, em linhas gerais, à que ocorreu na noite de 10 de janeiro de 1940, poucas horas antes de os alemães lançarem o ataque contra a França. Nessa oportunidade, um avião da Luftwaffe, em que viajava o Major Helmut Reinberger, oficial de ligação das tropas aerotransportadas, perdendo o rumo, aterrissou nas cercanias da cidade de Mechenlen-sur-Meuse, em território belga. Preso pelos guardas fronteiriços belgas, teve que entregar os planos que levava, que descreviam detalhadamente as operações da invasão da França. Naquela ocasião, a existência de outro novo plano (obra do General von Manstein) sanou o gravíssimo incidente. O que aconteceu em Voronesh, no entanto, era irreparável.

 

O ataque

 

O desenvolvimento das operações se efetuaria nas três grandes fases previstas. Para a primeira, se concentrariam, na zona de Kursk, as forças pertencentes ao 2o Exército, ao 4o Exército Panzer e ao 2o Exército húngaro. As unidades totalizavam 11 divisões de infantaria, 3 divisões Panzer, 3 divisões de infantaria motorizada e 10 divisões húngaras; na região de Belgorod, por sua vez, se concentrariam os efetivos do 6o Exército, de von Paulus, com um total de forças que compreendiam 16 divisões de infantaria, 2 divisões Panzer e 1 divisão de infantaria motorizada.

 

O sentido geral do ataque de ambos os grupamentos se orientava sobre o Don, em direção a Voronesh.

 

Na segunda fase da operação, se orientaria o avanço das unidades para Millerovo e o objetivo seria o aniquilamento das forças inimigas sediadas no Oskol inferior e no Donetz médio. O 1o Exército panzer, com 11 divisões de infantaria, 3 divisões Panzer, 1 divisão de infantaria motorizada e 4 divisões romenas, devia atacar rumo ao nordeste e envolver o inimigo.

 

A execução das duas primeiras etapas da campanha, permitiria ao comando alemão criar as condições prévias para desencadear a terceira fase. Nesta, se incorporariam à luta o Grupo de Exércitos A, com o 17o Exército e o 8o Exército italiano: o desenvolvimento das operações previa o avanço para o Sul, e a conseqüente ocupação de Rostov, o deslocamento das unidades para o sudeste e o leste e, por último, a ocupação da cidade de Stalingrado. A lenta movimentação das unidades, somada ao mau estado do tempo, obrigou, em mais de uma oportunidade, a transferir-se a data definitiva do ataque. Por fim, o dia D foi fixado. Para o grupamento de von Weichs (2o Exército, 4o Exército Panzer e 2o Exército húngaro) o dia estabelecido foi 28 de junho. Para o 6o Exército (von Paulus) o dia 30.

 

Voronesh: a ruptura no Don

 

Dia: 28 de junho de 1942. 2h15 da madrugada. O grupamento de exército de von Weichs, apoiado pelo 8o Corpo de Aviação, lança-se ao ataque contra as posições russas. A ofensiva de verão começara. Os russos tratam, inutilmente, de deter o impulso do 4o Exército Panzer, que penetra profundamente em suas linhas. Dois dias depois, 30 de junho, o 6o Exército, de von Paulus, apoiado pelo 4o Corpo de Aviação, inicia a ofensiva, obrigando os russos a cruzar o rio Oskol e retirar-se para o leste.

 

No dia 3 de julho, as pontas de lança do grupamento von Weichs se aproximaram do Don, em Voronesh. Mais ao sul, as forças do 6o Exército, de von Paulus, perseguiam ao inimigo, que já se retirava.

 

Foi aí então que Hitler, que havia estado no QG do Grupo de Exércitos Sul, em Poltava, ordenou desistir da conquista de Voronesh. De acordo com seus planos, era mais importante deixar para trás a cidade e seguir Don abaixo, sem perda de tempo, a fim de conseguir envolver as tropas inimigas. No entanto, apesar da ordem, no dia seguinte, 4 de julho, unidades do 4o Exército Panzer cruzaram o Don e estabeleceram cabeças-de-ponte na margem oposta. Von Bock, apesar da ordem recebida do Fuhrer, aprovou os requerimentos dos chefes de unidades, que o incitavam com urgência a tomar a cidade, empregando as tropas mecanizadas. A operação foi efetuada e a cidade de Voronesh caiu em poder dos exércitos alemães no dia 6 de julho. Hitler, descontente com a atitude de von Bock, ordenou-lhe conduzir suas tropas mecanizadas para o sul, imediatamente; estas, no entanto, ainda empenhadas em ações de guerra nos arredores de Voronesh, somente puderam retornar ao avanço depois de vários dias.

 

O 6o Exército, enquanto isso,  perseguindo o inimigo em retirada, cruzou o Tichaja Sosna, em direção ao sul, chegou até o Kalitva no dia 7 de julho e interrompeu a via férrea que ligava Svoboda com Rostov.

 

Em Voronesh, por fim, a 8 de julho, duas divisões do 4o Exército Panzer, conseguiram retomar a marcha para o sul. Outras duas deveriam segui-las, e as duas restantes ficariam apoiando o 2o Exército. No entanto, no dia seguinte, as colunas avançadas do 4o Exército Panzer se viram obrigadas a deter sua marcha no Tichaja Sosna, por falta de combustível.

 

Chegou-se assim (8 de julho de 1942) ao final da primeira fase da ofensiva. Os resultados foram os seguintes: a frente inimiga havia, evidentemente, sentido o golpe, porém o objetivo mais importante (o aniquilamento das forças russas) não se havia conseguido. Com efeito, a quantidade de mortos e feridos era a normal para uma ação de tal transcendência, e os prisioneiros não passavam de cifras muito reduzidas; o grupamento de exércitos von Weichs aprisionou pouco menos de 30.000 soldados, assim como uns 1.000 tanques; o 6o Exército afirmou haver aprisionado cerca de 45.000 soldados e 200 tanques. Em resumo: os resultados da operação não justificavam a sua execução. Apenas permitira aos alemães comprovar o rápido poder de recuperação das unidades russas, que haviam escapado ao cerco mediante velozes deslocamentos do grosso de suas tropas.

 

Entre o Donetz e o Don

 

No dia 7 de julho iniciaram-se as operações do 1o Exército Panzer. A 8, começou o ataque sobre o Donetz, de ambos os lados de Lissitchansk. As forças inimigas que se opunham ao avanço eram integradas por unidades dispersas; o grosso das forças russas retirava-se em massa, ante o avanço alemão.

 

As unidades do 1o Exército Panzer cruzaram o Donetz e, a 11 de julho, atingiram o Aidar, ao sul de Starobelsk.

 

Simultaneamente, o 6o Exército avançou numa larga frente, e ultrapassou a linha imaginária que unia Starobelsk com Boguchar.

 

Ao sul do Donetz, enquanto isso, as unidades russas se rearticulavam, em novas posições, nos arredores de Voroshilovgrad.

 

No dia 11 de julho, uma ordem do Alto-Comando do exército determinou que as alas internas dos dois grupos de exércitos deviam colaborar para o extermínio das forças inimigas, ao norte do Donetz. Em vista disso, o 4o Exército Panzer devia avançar em direção a Kamensk e cair sobre a retaguarda das unidades russas perseguidas pelo 6o Exército de Paulus. O 1o Exército Panzer, por sua vez, deveria unir-se ao 4o em Kamensk e, juntamente com o grupamento Ruoff (7 divisões de infantaria, 1 divisão Panzer, 1 divisão de infantaria motorizada, 4 divisões romenas, 6 divisões italianas e 1 divisão tcheca), aniquilar o adversário ao sul do Donetz.

 

As unidades de infantaria do 6o Exército, por sua vez, ficavam com liberdade de ação para preparar o posterior avanço rumo a Stalingrado.

 

Nos dias que se seguiram à ordem de 11 de julho, efetuou-se a projetada manobra de cerco no norte do Donetz. As alas internas dos dois grupos de exércitos avançaram do Oeste e do Norte, até um ponto central, localizado em Millerovo. Paralelamente, a ala norte do 6o Exército avançou com dois corpos de infantaria, até o Don médio.

 

Os movimentos das diversas unidades, porém , viram-se enfraquecidos pela carência cada vez maior, de combustível. Por fim, as divisões foram detendo seus avanços e somente destacamentos isolados prosseguiram a marcha. Na região de Millerovo, enquanto isso, as forças alemães, afluindo em grande quantidade, se encontraram num sério engarrafamento. Durante esse tempo, os russos se retiravam para leste.

 

Finalmente, a 15 de julho, os alemães ocuparam a cidade de Millerovo. O resultado da ampla batida entre o Donetz e o Don, em número de prisioneiros, não foi apreciável. Com efeito, cerca de 14.000 combatentes russos caíram em poder das forças alemães. A exígua cifra demonstrou com clareza que a segunda fase da ofensiva havia fracassado redondamente.

 

A ofensiva no Don, de Rostov até Kalatsch

 

Mesmo antes de dar por terminada a batalha pela posse de Millerovo, no dia 13 de julho, Hitler expediu uma ordem na qual expressava que era necessário penetrar rapidamente do norte até a desembocadura do Donetz e apoderar-se do Don, na sua zona de passagem em Konstant e Zymlianskaia com o fito de impedir uma retirada do inimigo ao sul do Don.

 

Com efeito, nesse momento, as forças russas abriam caminho para o leste e sudeste e ainda, em alguns lugares, para o sul. No mesmo dia 13, por outro lado, materializou-se uma nova demonstração do antagonismo que reinava entre o Estado-Maior do Exército e o Comando-Supremo da Wehrmacht (Hitler). Enquanto o Fuhrer, com ordens e contra-ordens, e interferindo nas determinações de seus chefes, entorpecia a continuidade das operações, Halder , chefe do Estado-Maior, tratava de evitar que a situação se convertesse numa crise que fatalmente os conduziria aos caos. O estado do tempo, no entanto, ofereceu uma momentânea solução para o conflito. As chuvas intensas converteram as estradas em imensos lodaçais e provocaram a imediata paralisação das atividades bélicas. Por fim, Halder, agindo com habilidade, conseguiu de Hitler a autorização necessária para acometer sobre Rostov pelos caminhos mais curtos, utilizando na operação duas divisões Panzer e duas de infantaria motorizada; por outro lado, três divisões Panzer e uma de infantaria motorizada prosseguiram rumo às passagens do Don, a leste da desembocadura do Donetz. Além disso, Stalingrado devia ser conquistada mediante uma ação que previa o emprego do 6o Exército, a que estariam subordinados o 14o Corpo Panzer, com uma divisão Panzer e duas divisões de infantaria motorizada, e o 51o Corpo de exército, com três divisões de infantaria.

 

Enquanto isso, aumentavam os indícios do metódico deslocamento russo em direção a Rostov. A 15 de julho, fortes forças motorizadas soviéticas foram vistas dirigindo-se de Voroshilovgrado para o sul. A caminhada, longe de ser precipitada, se realizava de modo lento e ordenado. No dia 17 de julho as forças alemães ocuparam a cidade de Voroshilovgrado. Paralelamente, o 1o Exército Panzer estava prestes a forças a passagem do Donetz, em Kamensk.

 

Em 20 de julho cessaram os temporais que haviam determinado a paralisação das atividades e consequentemente renovaram-se os movimentos. A ala norte do grupamento de exércitos Ruoff avançou por Rovenski para o sudeste; o 1o Exército Panzer aproximou-se, do norte, até a zona de Schachty.

 

As forças russas que efetuavam a retirada eram integradas por cinco exércitos, com 45 divisões de infantaria, 5 divisões de cavalaria, 15 brigadas blindadas e 8 brigadas antitanques.

 

A pressão sobre Rostov inflamou-se no dia 22 de julho. Nessa data, romperam, no Norte e no Oeste, simultaneamente, o cinturão de defesas que envolvia a cidade, e no dia seguinte, 23 de julho, essa importante praça de guerra caiu nas mãos dos alemães, depois de violenta luta. Os exércitos russos, entretanto, haviam conseguido evitar a destruição; fizeram as pontes voar pelos ares.

 

Reformas de Stalin

 

A gigantesca ofensiva sobre o Don, iniciada pela Wehrmacht, e que se concretizou depois da tremenda derrota sofrida pelos exércitos soviéticos na Criméia e na Ucrânia, provocou um estado de intenso alarme em todos os planos do comando russo. Não escapou a esse alarme nem mesmo a direção suprema, orientada pelo Kremlin. O confiante otimismo provocado pelas vitórias obtidas no inverno anterior, ao serem rechaçadas as forças alemães que convergia sobre Moscou, Leningrado e Rostov, desvaneceu-se diante do ressurgimento do poderio do Exército alemão. Novamente, as divisões alemães, reforçadas poderosamente, haviam dado uma reviravolta na situação. Com efeito, a penetração da Wehrmacht rumo a Stalingrado e ao Cáucaso ameaçava privar a União Soviética de suas principais zonas de abastecimento petrolífero; paralelamente, uma grande massa de suas forças armadas via-se ameaçada pelo fantasma do aniquilamento.

 

Diante dessa emergência, tomaram-se medidas severíssimas para fortalecer a disciplina no Exército. Uma intensa campanha de propaganda se desenvolveu paralelamente, ressaltando a necessidade do sacrifício total de oficiais e soldados. Com esse mesmo espírito surgiram, no plano civil, porta-vozes dessa determinação. Escritores, poetas e artistas em geral, utilizaram suas “armas” para fortalecer o espírito de resistência do povo soviético. No Exército começou-se a por em prática um plano de reformas, tendo por objetivo elevar o moral do corpo de oficiais. Entre as medidas tomadas, figurava a criação de novas condecorações militares, designadas com o nome dos grandes guerreiros do passado russo. Essas foram as ordens de Suvorov, Kutusov e Alexandre Nevsky. Essas primeiras medidas foram seguidas, posteriormente, por outras que, embora aparentemente carecendo de maior transcendência, significavam uma mudança radical na estrutura das forças armadas soviéticas. Assim, foram introduzidas insígnias douradas no uniforme dos oficiais, com o que estes voltaram a distinguir-se, como em 1917.

 

Esses símbolos tinham como objetivo principal ressaltar a nova estrutura que se pretendia dar ao Exército. Havia ficado para trás a época das improvisações. Os jovens chefes quer tomavam agora em suas mãos as rédeas da guerra, haviam feito sua aprendizagem da moderna técnica de combate, no próprio campo de luta. Essa política teve plenos resultados, como seria demonstrado pela campanha posterior levada a cabo pelo Exército soviético em Stalingrado.

 

Anexo

 

Conferência em Salzburg

Notas do diário do Conde Ciano, sobre a entrevista mantida em Salzburg, entre Hitler e Mussolini, a 29 e 30 de abril de 1942, na qual se discutiu o problema da ofensiva contra Stalingrado e o Cáucaso.

- Reina muita cordialidade. Isto em faz ficar vigilante: a amabilidade dos alemães está em razão inversa aos seus sucessos. Hitler tem aspecto cansado. Os meses do inverno russo pesaram duramente sobre ele. E, pela primeira vez, percebo que tem muitos cabelos brancos. Hitler fala com o Duce. Eu com Ribbentrop. Nas duas instâncias, toca-se, porém, a mesma música. Ribbentrop, principalmente, insiste na ária da propaganda... Napoleão, o Beresina, o drama de 1812, tudo isso revive em suas palavras. Porém o gelo da Rússia foi vencido pelo gênio de Hitler. Esse é o principal prato que me é servido. E amanhã? Que nos reserva o futuro? Neste ponto, Ribbentrop é menos explícito. Ofensiva contra os russos no sul, com o objetivo político-militar dos poços de petróleo. Esgotadas suas fontes de combustível, a Rússia terá de dobrar os joelhos.

“Hitler fala, fala, fala. Mussolini, acostumado a ser o que fala, mas ali obrigado a ouvir e calar, sofre. No segundo dia, quando tudo já havia sido dito, Hitler falou em interrupção durante uma hora e quarenta minutos. Não esqueceu de nenhum tema: a guerra e a paz, a religião e a filosofia, a arte e a história. Mussolini olhava, mecanicamente, seu relógio de pulso...

“Mussolini termina, contente, suas entrevistas com Hitler. Isso acontece sempre, porém - embora não o diga abertamente - desta vez, sente-se inclinado a refletir muito sobre coisas que não se percebem ainda muito bem, mas que se cheira no ar. Resume assim a situação: - A máquina alemã ainda é formidavelmente poderosa, mas sofreu um forte desgaste. Realizará agora outro esforço grandioso; é necessário que seja atingido o objetivo.

 

 

As forças frente a frente

Forças alemães

Grupo de Exércitos A  (Marechal List)

18o Exército (Ruoff): 4 divisões de infantaria e 2 de montanha

1o Exército Panzer (von Kleist): 3 divisões Panzer, 2 de infantaria motorizada, 2 de montanha e 1 divisão tcheca

4a Frota Aérea (4o Corpo Aéreo): 2 grupos de caça, 2 grupos de bombardeiros de picada (Stuka), 1 grupo de caça-bombardeiros

Grupo de Exércitos B (Marechal von Bock, posteriormente, von Weichs)

6o Exército (Paulus): 16 divisões de infantaria, 2 Panzer e 1 de infantaria motorizada

4o Exército Panzer (Hoth): 3 divisões Panzer, 1 de infantaria motorizada

2o Exército (von Weichs): 11 divisões de infantaria

3o Exército romeno (Dumitrescu): 8 divisões de infantaria, 2 de cavalaria e 1 blindada

8o Exército italiano (Garibaldi): 10 divisões de infantaria

2o Exército húngaro (Miklos): 10 divisões de infantaria

4o Exército romeno (Constantinescu): 5 divisões de infantaria e 2 de cavalaria

4a Frota Aérea (8o Corpo Aéreo): 7 grupos de caça, 9 de bombardeiros, 4 de Stukas e 3 de caça-bombardeiros

 

Forças russas

Grupo de Exércitos “Frente Sudoeste” (Tenente-General Vatutin)

1o Exército da Guarda (Lieljuschenko): 8 divisões de infantaria e 1 brigada blindada

5o Exército blindado (Romanenko): 7 divisões de infantaria, 2 de cavalaria e 6 brigadas blindadas

11o Exército (Tschistiakov): 7 divisões de infantaria, 3 de cavalaria e 3 brigadas blindadas

17a Frota Aérea

Grupo de Exércitos “Frente do Don” (Rokossovski)

65o Exército (Batov): 8 divisões de infantaria, 4 brigadas blindadas e 4 de cavalaria

24o Exército (Galanin): 20 divisões de infantaria e 4 brigadas blindadas

66o Exército (Shadov): 8 divisões de infantaria e 9 brigadas blindadas

15a Frota Aérea

Grupo de Exércitos “Frente de Stalingrado” (Jeromenko)

57o Exército (Tolbujin): 14 divisões de infantaria, 2 de cavalaria, 8 brigadas de infantaria e 10 blindadas.

64o Exército (Shumilov): 9 divisões de infantaria, 5 brigadas de infantaria e 5 blindadas

57o Exército (Tolbujin): 4 brigadas de infantaria e 1 divisão de infantaria

51o Exército (Trufanov): 3 divisões de infantaria, 1 de cavalaria e 2 brigadas blindadas

28o Exército (Gerasimenko): 2 divisões de infantaria, 2 brigadas de infantaria e 1 blindada

8a Frota Aérea

 

 

Os Panzergrenadier

No transcurso do inverno de 1941-1942 a organização das forças mecanizadas da Wehrmacht foi objeto de importantes modificações, à luz da experiência obtida com a primeira e fracassada ofensiva contra a Rússia. As divisões de infantaria motorizada demonstraram não possuir suficiente capacidade combativa para enfrentar eficazmente as formações mecanizadas russas, e mesmo as de infantaria (estas últimas, ao contrário das alemães, contavam com o apoio de brigadas ou regimentos de tanques). Portanto, as divisões motorizadas foram transformadas em divisões de Panzergrenadiers (granadeiros blindados), reforçadas com um batalhão de tanques, e equipando a um ou dois batalhões de infantaria, até então transportados em caminhões, com veículos blindados semilagartas.

As novas divisões de Panzergrenadier demonstraram rapidamente a sua eficácia. Valendo-se de seus tanques e veículos para qualquer terreno, cumpriram não somente missões de apoio, mas também de ataque e penetração, à maneira das divisões Panzer.

Organização de uma divisão Panzergrenadier

1 batalhão de tanques, 3 regimentos de infantaria, 1 regimento de artilharia: 3 grupos de obuses de 105 mm, 1 grupo de obuses de 155 mm; 1 bateria de canhões de 105 mm, 1 batalhão de artilharia antitanque, 1 batalhão de artilharia antiaérea, 1 batalhão de exploração, 1 batalhão de sapadores, 1 batalhão de comunicações, Serviços de Intendência, Saúde, Manutenção e Vigilância.

 

 

Ouriços

Durante suas operações, no amplo espaço do território soviético, a Wehrmacht, ante a impossibilidade de manter uma frente contínua entre suas unidades, recorreu à tática das posições “ouriço”. Ao deter sua marcha, tanto no ataque, como na defesa, as unidades alemães formavam um perímetro circular para assegurar a proteção de todos os seus flancos. Esse perímetro, ou ouriço, era integrado por três anéis sucessivos: um, interior, no qual se colocava a artilharia, ouro, intermediário, onde se situavam os tanques e as armas pesadas da infantaria (morteiros, peças antitanques, etc.) e, um terceiro, ou exterior, formado pela trincheiras e ninhos de atiradores da infantaria.

Os ouriços eram sempre estabelecidos em torno de uma fonte de água potável, para que, em caso de cerco e sítio prolongado, as tropas pudessem contar com esse elemento vital. Os canhões eram distribuídos de antemão, em baterias ou peças isoladas, cobrindo cada setor do ouriço e se mantinham prontos para romper o fogo. Deste modo, poucos segundos depois que as sentinelas da vanguarda lançavam ao ar foguetes de iluminação, em sinal de perigo, uma dezena de projéteis explodia com matemática precisão poucos metros adiante das trincheiras atacadas.

Não somente a infantaria contava com abrigos cavados na terra, mas também na retaguarda, entre os tanques e a artilharia, construíam-se curtas trincheiras, de 2 a 5 metros de comprimento, para que os soldados contassem com refúgios adequados contra ataques aéreos. Geralmente, ao estabelecer uma posição ouriço, a infantaria tomava a seu cargo a totalidade das tarefas de segurança, deixando livres as tripulações dos tanques, para que reparassem seus veículos desgastados pelas contínuas marchas.

 

 

Hitler orientador militar

O General Franz Halder foi chefe do Estado-Maior do exército alemão desde setembro de 1938 até setembro de 1942. Nessa qualidade, competiu-lhe exercer junto a Hitler a direção suprema da guerra durante 4 longos anos, período em que se esforçou inutilmente para corrigir os repetidos e catastróficos erros de Hitler. Suas contínuas críticas lhe valeram a inimizade do Fuhrer que, finalmente, acabou por destituí-lo. Eis a opinião de Halder sobre Hitler como mentor militar (Hitler als Feldherz): - “Negar que Hitler tinha intuição seria uma injustiça. Possuía um olfato finíssimo, quase animal, para tudo o que estivesse em contradição com sua mentalidade, ou que ameaçasse a sua posição. Porém, sua intuição não era objetiva, mas sim orientada num sentido puramente egocêntrico. Servia à sua própria segurança e era uma ferramenta de sua hipersensível desconfiança, da qual ele mesmo se gabava.

O hábil jogo da arte de mandar, que umas vezes consiste em ceder suavemente, e outras em fazer prevalecer rigidamente a vontade, estava completamente vedado para esse homem, a quem se podia qualificar como “a encarnação da vontade brutal”. O conceito de paciência era para ele totalmente desconhecido. Não conseguia fazer amadurecer, na tranqüila segurança de um orientador, nenhuma atividade cujo desenvolvimento estivesse em marcha. Em algumas situações passageiramente críticas, que o Alto-Comando do Exército havia previsto - mas ele, não - nós o víamos febril de impaciência, ordenar detalhes fúteis, e enviando seus ajudantes com ordens para comandos subalternos, passando por cima dos chefes responsáveis. A confiança em si mesmo que tem o líder, deixando seus subordinados com liberdade de ação dentro dos limites da missão que se lhes confiou, não a possuía Hitler. O homem que, por meio do emprego brutal da autoridade, transforma a sua palavra em lei, é porque não possuí nas questões de comando militar, a confiança do homem de capacidade”.

Irresolução

“As resoluções do comando militar de Hitler brotam, como a maior parte de suas resoluções políticas, do seu instinto de salteador de estadas. Quando se lhe apresentava uma ocasião de atingir um êxito, a pouco risco, então era tão rápido como desinibido em sua resolução. Porém, a uma resolução cujo alcance ultrapassasse um futuro imediato, somente se decidia muito a contragosto.

“Inseguro e vacilante, adiava de um dia para outro, sob os mais fúteis pretextos, as decisões que seus conselheiros militares sugeriam. Muitas falhas do comando, cujas conseqüências foram sofridas pelas tropas, provinham de que as decisões de Hitler chegavam muito tarde. Ainda mais: inúmeras vezes revogou decisões que já havia tomado, e sem nenhum motivo de ordem militar”.

Desconfiança

“Nunca teve, tampouco, nenhum contato pessoal com as tropas na frente de combate, como os que distinguiram sempre aqueles realmente grandes soldados de todos os tempos. Nos casos, extremamente raros, em que pôde ser induzido a visitar um posto de comando da frente, a viagem entre o aeródromo e o posto se realizava a grande velocidade e evitando quase todo contato com as tropas.

“Sua desconfiança para com os quadros superiores do Exército teve como conseqüência a diminuição, cada vez maior, do raio de ação dos comandantes. Passo a passo foi quebrando a unidade do Comando do Exército, até destruí-la. A Polônia foi subtraída à administração do Exército. A Noruega se constituiu num teatro particular de operações de Hitler, do qual esteve completamente separado o comandante-chefe do Exército. O mesmo aconteceu na África. Os Balcãs, uma vez terminada as operações militares, foram afastados por completo da influência do Comando do Exército. Na campanha contra a Rússia, as forças que operavam na Finlândia dependiam diretamente de Hitler, de forma que o comandante-chefe do Exército, a partir do verão de 1941, tinha a autoridade efetiva somente sobre a frente Leste, a qual, na prática, não podia desligar-se das outras, no tocante à economia das forças de combate. O passo decisivo no caminho da destruição foi a supressão do comandante-chefe do Exército como autoridade suprema da maior das Forças Armadas (o exército de terra). Este fato ocorreu em dezembro de 1941. Com a divisão das funções do Marechal von Brauchitsch entre pessoas alheias ao Exército, Hitler privou o exército de cabeça e representação.

“O divide et impera do ditador, constantemente preocupado pela sua situação no poder, destruiu uma brilhante organização das autoridades superiores das Forças Armadas, da qual um verdadeiro líder jamais poderia ter prescindido”.

 

 

Pára-quedistas soviéticos

O Exército Vermelho foi o primeiro a salientar a eficácia dos pára-quedistas e das tropas aerotransportadas nas operações bélicas. Já em 1932, os russos organizaram uma brigada de soldados pára-quedistas, que serviu de base para a posterior evolução da nova força. Três anos mais tarde, realizaram-se grandes manobras em Kiev, nas quais participaram 500 pára-quedistas e um batalhão de infantaria transportado nos grandes quadrimotores Tupolev TB 3. Pouco depois, teve lugar um exercício que pôs em evidência o extraordinário grau de preparação atingido pelas unidades aerotransportadas. Uma divisão completa de infantaria (14.000 soldados), foi transladada com armas e equipamentos, por via aérea, de Moscou até o porto de Vladivostock, na costa oriental da Sibéria.

Em 1938, os russos contavam com 4 brigadas de pára-quedistas, com um total de 8.000 homens, perfeitamente adestrados. Tais unidades foram sediadas em Leningrado, Kiev, Rússia Branca e Sibéria. No decorrer da guerra com a Finlândia (1939-1940), as tropas aerotransportadas foram utilizadas pela primeira vez em combate. Cerca de 2.000 pára-quedistas desceram na vanguarda das tropas de terra, no setor da linha Mannerheim. Nas vésperas da Alemanha invadir a Rússia, as brigadas foram transformadas em corpos aerotransportados e se incrementou o número de seus efetivos. No entanto, essas unidades não puderam atuar, devido à falta de aviões de transporte (a maioria estava sendo empregada para evacuar maquinarias para o Leste e para os Urais). Os pára-quedistas participaram da luta como tropas regulares de infantaria.

Antes de finalizar o ano de 1941, o alto-comando soviético decidiu organizar uma força com 10 corpos aerotransportados, com um total de 100.000 soldados e, simultaneamente, tornou as unidades de pára-quedistas independentes da aviação, dando-lhes autonomia.

Na contra-ofensiva soviética do inverno de 1942, e depois da derrota da Wehrmacht frente a Moscou, foram lançados 10.000 pára-quedistas na retaguarda do Grupo de Exércitos Centro de von Bock, nas cercanias da cidade de Viazma. Essa foi a operação de maior importância realizada pelos pára-quedistas russos durante toda a guerra. No transcurso da batalha de Stalingrado, em fins de 1942, utilizaram-se os corpos aerotransportados como tropas de infantaria, para reforçar os exércitos russos que defendiam a cidade. No momento mais crítico da luta foi organizada uma ponte aérea entre Moscou e Stalingrado, e por meio de aviões de bombardeio e transporte desceram milhares de pára-quedistas.

 

 

Comissários

A crise que o Exército russo defrontou, na origem da ofensiva alemã contra Stalingrado e o Cáucaso, fez que o Kremlin adotasse medidas extremas para fortalecer o moral combativo de suas forças. No dia 9 de outubro de 1942, o Presidente do Soviete Supremo emitiu uma ordem na qual se aboliam os comissários políticos que, até então, haviam exercido, junto com os chefes militares, a direção das unidades do Exército Vermelho. Essa ordem assinalava que já não havia mais necessidades de manter a instituição dos comissários políticos; essa instituição havia sido criada no processo revolucionário de 1917, para manter sob vigilância aos oficiais, muitos dos quais haviam pertencido ao antigo exército czarista. Essa condição, indiscutivelmente, havia desaparecido. Com efeito, conforme dizia a nova determinação, “uma enorme quantidade de novos e experimentados oficiais surgira. Adquiriram uma grande experiência. Provaram a sua devoção para com o país e amadureceram, tanto militar como politicamente”.

A nova ordem, além disso, declarava que os comissários, por sua vez, haviam ampliado muito os seus conhecimentos militares e muitos deles haviam sido mesmo incumbidos de comandos de tropas. Portanto, podiam ser empregados diretamente como oficiais. Depois dessas argumentações, considerava-se da maior utilidade, para incrementar a eficiência combativa do Exército, estabelecer um comando único em todas as unidades, e dar toda a responsabilidade aos oficiais, para tomar as decisões no campo de luta. Dessa forma, deu-se ampla liberdade de ação aos militares, liberando-os da interferência que os comissários políticos exerciam.

 

 

 

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