Luta na Rússia

 

Von Manstein salva a Wehrmacht

            

Contra-ofensiva russa

Contra-ataque alemão (de von Manstein)

 

 

Um manto branco cobre as ruínas de Stalingrado. O estampido das granadas, ininterrupto, faz estremecer os milhares homens refugiados entre os escombros. O frio glacial tortura os corpos magros dos soldados que resistem ao assédio dos russos. A fome açoita sem piedade o contingente de desventurados que, há quase dois meses, permanecem encerrados naquela imensa arapuca. A vida parece terminada para eles. Hitler lhes ordenou que combatessem até o fim, até o último cartucho, numa luta sem sentido e sem esperanças. 200.000 homens se preparam para ser sacrificados em nome do que consideram seu dever. A maior parte já está morta ou ferida. Aos demais, apenas resta a esperança, cada dia mais fraca, cada dia mais longínqua...

 

Enquanto isso, as forças soviéticas vitoriosas prosseguem sua arrasadora ofensiva rumo à desembocadura do Don. Os planos do Alto-Comando russo, traçados por Zhukov e Vassilevski e aprovados por Stalin, tem por objetivo final destruir a todas as forças alemães na Rússia meridional e no Cáucaso.

 

Tudo parece garantir que a meta fixada pelos dirigentes russos será alcançada. Hitler, uma vez mais, facilita a ação dos russos. Desdenhando os desesperados apelos de seus generais, ordena à Wehrmacht não dar um só passo atrás, e defender a qualquer custo o terreno conquistado. As forças alemães, imobilizadas por essa inflexível determinação, enfrentam uma mortal ameaça. Se os russos conseguem alcançar a desembocadura do Don e cortar as pontes de Rostov, não restará nenhuma via de escape aos milhares de homens que combatem na região caucasiana.

 

Em 7 de janeiro de 1943, num avanço rápido, colunas mecanizadas soviéticas abrem caminho para o sul, e, sem encontrar nenhuma oposição, alcançam as margens do Don a uma distância de 40 km ao nordeste de Rostov. Para a Wehrmacht, tudo parece perdido. A cidade poderá ser ocupada em questão de horas! Os russos, contudo, detêm, inexplicavelmente, seu avanço, e não aproveitam a extraordinária vantagem que lhes é oferecida. Von Manstein, chefe das forças alemães que combatem no Don, reúne apressadamente improvisados combatentes e consegue deter a penetração.

 

 

Vitória russa no Norte

 

Sob o comando do General Golikov, os exércitos russos, localizados no Don setentrional, passam à ofensiva a 12 de janeiro. Numa avalanche incontida, as massas de infantes e tanques soviéticos despedaçam as linhas defendidas pelas tropas do 2o Exército húngaro, cercando-o completamente. No dia 26, a cidade de Voronesh cai em poder dos russos, depois de rudes combates. Toda a frente alemã cambaleia ante a arremetida soviética.

 

Numa nova manobra envolvente, realizada mais ao norte, os russos conseguem cercar sete divisões do exército alemão. A 27 de janeiro, uma imensa brecha de mais de 300 km foi aberta no flanco norte do Grupo de Exércitos B. O Alto-Comando alemão, desesperado, aconselhou Hitler a ordenar imediatamente o deslocamento das forças alemães do Cáucaso para a margem ocidental do Don. Somente mediante o auxílio dessas unidades se poderia conter o rompimento russo. Com efeito, nesse momento não existia nenhuma reserva na frente russa em condições de socorrer o setor ameaçado. O Fuhrer, porém, permaneceu indeciso, e somente ante a nova ameaça representada pelo avanço de unidades blindadas russas até os subúrbios de Rostov foi que decidiu retirar quatro divisões mecanizadas do Cáucaso e deslocá-las até o Norte. O resto das forças do Grupo de Exércitos A permaneceu, por ordem de Hitler, entrincheirada no rio Kuban, sem possibilidade de intervir na batalha.

 

A situação, rapidamente, foi evoluindo até alcançar um ponto crítico insustentável. A 2 de fevereiro de 1943, Stalingrado se rende aos soviéticos. Além disso, os russos obtêm novas vitórias no Norte. Avançaram em direção às cidades de Kursk, Karkov e Belgorod, vencendo a denodada oposição dos exércitos alemães. No Sul, sobre as margens do Donetz, os russos lançaram uma poderosa ofensiva contra as posições defendidas pelas tropas de von Manstein. Um grupamento, comandado pelo general russo Popov e integrada por três corpos de tanques e um de sapadores, cruzou o rio e convergiu para o sul, em direção à cidade de Stalino. Um segundo grupamento, completando o movimento envolvente, realizou uma manobra semelhante, vindo do sul, a leste de Voroshilograd. Enquanto isso, outros exércitos russos estavam preparados a leste do Don para atacar Rostov. Diante da desesperada situação, von Manstein apelou insistentemente para o QG do Fuhrer autorizar a retirada do 4o Exército Panzer do campo de batalha, na desembocadura do Don, deslocando-o para o Norte, com o fim de conter a investida russa. Essa operação, no entanto, foi recusada por Hitler, pois significaria o abandono da rica zona carbonífera situada na margem oriental do Don. O Fuhrer usava, como principal argumento, a vital importância da região para a indústria bélica alemã. Os acontecimentos, contudo, o forçariam a ordenar a retirada

 

À beira da catástrofe

 

Nos dias que se seguiram, a situação agravou-se gradualmente. Em Rostov, as unidades do 4o Exército Panzer mantinham-se em suas posições a duras penas, suportando a pressão de três exércitos soviéticos. Mais ao norte, os russos, apesar dos contra-ataques alemães, consolidavam sua cabeça-de-ponte na margem ocidental do Dontez. Von Manstein reiterou várias vezes o seu pedido anterior para que se autorizasse a retirada dos efetivos. Finalmente, dada a gravidade extrema da situação, seu apelo encontrou resposta. A 6 de fevereiro aterrissou no QG de von Manstein, em Stalino, um quadrimotor Condor, com a missão de transportá-lo à “Toca do Lobo”, na Prússia Oriental.

 

Na presença de Hitler, o chefe alemão manteve com ele cansativa reunião que se prolongou por mais de quatro horas. Apelando para todo tipo de argumento, o marechal conseguiu convencer a intransigência do Fuhrer e obteve autorização para a retirada das forças que combatiam na desembocadura do Don, transferindo-as para as posições fortificadas situadas mais para o oeste, nas margens do rio Mius.

 

A 7 de fevereiro, ao meio-dia, von Manstein estava de regresso ao seu QG. Sem perder um instante emitiu as ordens correspondentes para iniciar a retirada. O 4o Exército Panzer, por sua vez, começou o deslocamento de suas unidades rumo ao Norte, para defender a frente do Don.

 

Enquanto isso, os russos não permaneceram inativos. No dia 8, o 60o Exército, comandado pelo jovem General Cherniakovski, libertava Kursk e prosseguia seu avanço irresistível para o Oeste. Mais ao sul, outros três exércitos russos convergiam sobre Karkov e Belgorod. Esta última cidade foi reconquistada no dia 9 de fevereiro de 1943. Todas as tropas alemães nesse setor, ante o perigo de serem cercadas, se retiraram para Karkov. Essa cidade, por ordem de Hitler, devia ser defendida até o último soldado. A missão recaiu sobre o 2o Corpo Panzer SS, comandado pelo General Lanz.

 

A repentina retirada alemã provocou enorme entusiasmo no Alto-Comando soviético que a interpretou como uma retirada geral até o Dnieper. Essa confusão teria sérias conseqüências para os futuros movimentos do Exército russo. O General Vatutin, chefe das forças que combatiam no Donetz central, propôs que se modificasse o plano de avançar para o Sul, sobre as costas do mar de Azov e se concentrasse a direção do ataque em linha reta até o Dnieper, para cortar a retirada dos alemães. O movimento russo teve como resultado um exagerado alongamento de suas linhas de comunicações, que ficaram expostas a um repentino contragolpe alemão.

 

Na noite de 11 de fevereiro, os tanques russos irromperam sobre o flanco esquerdo do 1o Exército Panzer e, penetrando profundamente na sua retaguarda, cortaram a linha ferroviária de Dniepropetrowski a Krasnoarmeiskoje. Essa linha era de vital importância para os alemães, dado que, através dela era canalizada a quase totalidade do abastecimento de suas forças.

 

A gravidade da situação, no entanto, não se cingiu ao rompimento citado. Um corpo de cavalaria soviética, simultaneamente, infiltrou-se através do flanco direito do 1o Exército Panzer, ameaçando cercá-lo completamente. Os tanques alemães conseguiram, contudo, e após duras e sangrentas lutas, fechar a brecha. Mais ao norte, contudo, os soviéticos aprofundaram a penetração através de um claro de 150 km de largura. A cidade de Karkov foi ocupada a 15 de fevereiro. No dia anterior os russos haviam libertado também Rostov. Todo o Grupo de Exércitos Sul, ficou, dessa forma, isolados das forças alemães que combatiam no centro da Rússia.

 

Von Manstein planifica o contra-ataque

 

Deparando a terrível crise que havia enredado os seus exércitos, Hitler decidiu viajar até o QG de von Manstein, situado na cidade de Saporoshje, às margens do Dnieper. Acompanhavam o Fuhrer o chefe do Estado-Maior, General Zeitzler, e o General Jodl. Nesse dia, 17 de fevereiro, os tanques russos estavam a poucos quilômetros da cidade e o retumbar da sua artilharia era claramente audível pelos recém-chegados. A decisão de Hitler, inesperada, demonstrava claramente a gravidade da situação; mais ainda, emprestava colorido de tragédia ao que ali ocorria. Von Manstein, com sua característica impassibilidade, expôs ao Fuhrer o audacioso projeto que havia elaborado para converter a iminente derrota em retumbante vitória. Tinha ele o propósito de concentrar as unidades do 2o Corpo Panzer SS e o 4o Exército Panzer e lança-las em uma manobra de pinças sobre as colunas russas que avançavam para o Dnieper. Uma vez conseguido o aniquilamento dessas forças, as unidades alemães reconquistariam Karkov, pressionando os russos e obrigando-os a retirarem-se para além do Donetz. Essa manobra implicava um grave risco de desguarnecer as duas alas do dispositivo alemão, com o objetivo de golpear fortemente no centro. Contudo, para von Manstein não existia outra alternativa. Era necessário jogar o destino de suas unidades numa única cartada.

 

Hitler, negando sua aprovação ao plano, opôs uma série de obstáculos. A discussão se prolongou até que o Fuhrer manifestou sua total oposição ao projeto. A conferência chegou ao fim sem que nenhuma solução viável fosse escolhida.

 

No dia seguinte houve uma nova reunião. Como a anterior, realizou-se num clima de nervosismo e tensão, pois chegavam notícias cada vez mais alarmantes. Os russos prosseguiam o seu avanço para o Dnieper e haviam ocupado a cidade de Pavlograd, ao sul de Karkov, depois de ser abandonada pela guarnição italiana encarregada de sua defesa. Esse desastre obrigou Hitler, finalmente, a concordar com as proposições de von Manstein. O 4o Exército Panzer e as forças SS podiam passar à ofensiva contra a ponta-de-lança russa.

 

A 19 de fevereiro, Hitler e von Manstein estudavam sobre os mapas os detalhes da operação. Nesse instante chegou ao QG uma dramática notícia: as unidades russas acabavam de ocupar a estação de Sinsinikowo, situada a menos de 60 km do QG onde Hitler estava. Não havia, nesse momento, nenhuma unidade alemã capaz de conter o avanço russo. Sem tardar, Hitler e sua comitiva tomaram um avião, e fugiram dali, precipitadamente.

 

Vitória alemã no Donetz

 

Uma vez obtida a aprovação do Fuhrer, von Manstein determinou ordens de ataque ao 4o Exército panzer. Os carros blindados dessa unidade se deslocaram rapidamente para o Norte, a fim de atacar de surpresa o flanco das colunas russas que, sem esperar a reação alemã, avançavam confiantemente rumo ao Dnieper. Enquanto isso, no setor sul da frente, os alemães conseguiram aniquilar as forças russas que se haviam infiltrado através das suas linhas, anulando assim o perigo que tais unidades representavam.

 

A 21 de fevereiro, os tanques do 4o Exército Panzer, superando as forças russas, ocuparam a localidade de Pavlograd. Alguns grupamentos de tanques russos, contudo, continuaram avançando para o Sul e conseguiram situar-se a uma distância de 20 km do QG de von Manstein. Contudo, acabando-se o combustível e desbaratada a sua retaguarda, essas unidades tiveram que deter o avanço. Posteriormente, foram destruídas pelos alemães. No dia seguinte, a vitória alemã se confirmou. A partir desse momento, a iniciativa passou decididamente para as mãos de von Manstein. Coordenando as suas ações, os tanques do 1o e 4o Exércitos Panzer conseguiram derrotar todas as forças russas que encontraram em seu caminho e convergiram para as margens do Donetz.

 

Até o dia 2 de março, havia terminado a primeira parte do contra-ataque. Após encarniçada luta, os alemães conseguiram recuperar o terreno situado entre o Donetz e o Dnieper, tendo perdido 23.000 homens, 615 tanques e 354 canhões. Contudo, apenas 9.000 russos foram aprisionados. As forças alemães, integradas em sua maioria por tanques, careciam de unidades de infantaria em condições de capturar e reter em suas mãos uma grande quantidade de cativos, pois não podiam fechar as grandes brechas através das quais se evadiam os russos.

 

A reconquista de Karkov

 

Já no transcurso das operações anteriormente citadas, von Manstein havia emitido às suas forças a ordem de levar adiante o ataque rumo a Karkov. O chefe alemão propunha-se realizar com suas unidades blindadas uma ampla manobra de cerco em torno da cidade, envolvendo pela retaguarda as poderosas unidades russas localizadas a oeste de Karkov. O 4o Exército Panzer completou, a 5 de março, a destruição das forças russas sediadas ao sul da cidade, destruindo ou capturando 61 tanques, 225 canhões e 600 carros de combate; além disso, 12.000 soldados soviéticos pereceram na ação.

 

Essa vitória facilitou a realização das operações que, impetuosamente, se iniciaram no dia 7 de março.

 

O 4o Exército Panzer, apoiado pelo 2o Corpo Blindado SS, irrompeu pelo sul, com o apoio, pelo oeste, das forças comandadas pelo General Kempf. O avanço alemão processou-se vitoriosamente e ameaçou envolver totalmente as forças russas situadas no âmbito de Karkov.

 

Ante o perigo, os russos enviaram rapidamente reforços do setor meridional da frente, para golpear o flanco das unidades alemães atacantes. Essa operação, no entanto, não teve êxito, e os alemães prosseguiram sem interrupção o avanço para Karkov.

 

Na vanguarda marchavam as divisões SS, cujos homens desejavam ser os primeiros a atingir o objetivo. Von Manstein, porém, proibiu a realização de um ataque direto contra a cidade, pois temia que os russos resistissem obstinadamente e convertessem Karkov em uma nova Stalingrado. Ordenou, portanto, continuar a manobra de envolvimento, superando a cidade pelo leste e cortando-lhe assim toda comunicação com o resto das forças russas. Sua hábil manobra deu o resultado esperado. Diante do perigo de se verem isolados, os russos começaram a retirar-se apressadamente para o Donetz. Paralelamente, a resistência russa cedeu, ao longo de toda a frente.

 

Nesse momento, quando a vitória estava praticamente assegurada, chegou Hitler ao QG de von Manstein e ali tomou conhecimento direto da evolução favorável das operações a que ele havia se oposto obstinadamente.

 

O êxito alcançado pelas forças alemães se devia, inquestionavelmente, ao gênio militar de von Manstein. Se Hitler, em troca, tivesse feito prevalecer suas opiniões, outra teria sido a evolução dos acontecimentos. Sem dúvida, teriam culminado numa catástrofe para as armas alemães.

 

Travando violentos combates, a 14 de março os tanques da SS se apoderaram de Karkov. Mais ao norte, as tropas do General Kempf penetraram velozmente rumo ao leste e ocuparam Belgorod. A conquista destas cidades deixou a Wehrmacht novamente na linha do Donetz, nas mesmas posições que ocupava antes de iniciar sua catastrófica ofensiva contra Stalingrado em junho de 1942. Esta vitória parcial seria a última que os efetivos da Wehrmacht alcançariam na sua luta contra os exércitos russos. A chegada da época das chuvas e o degelo converteu toda a frente num imenso mar de lama. A partir desse momento, ambos os lados dedicaram seus esforços no sentido de reorganizar suas fileiras, cobrir as baixas, e traças os planos definitivos que deveriam materializar-se no encontro final e decisivo.

 

A nova situação

 

O fracasso dos planos soviéticos no sentido de conseguir o completo aniquilamento das forças alemães que combatiam na Rússia meridional permitiu ao Alto-Comando alemão elaborar novos projetos de ação. A questão fundamental era resolver a forma com que a luta poderia prosseguir na Rússia, durante 1943. Já não poderia ser como antes, sob a forma de ofensivas em escala gigantesca, com objetivos de alcance amplo, pois a desproporção que existia entre as forças alemães e russas impedia esse tipo de ação.

 

Efetivamente, no âmbito do Grupo de Exércitos Sul, onde, até esse momento, se haviam desenvolvido as ações decisivas, a Wehrmacht contava apenas com 32 divisões para cobrir uma frente de mais de 700 km. Se se continuasse com a política de Hitler, de manter a ofensiva, rigidamente, os soviéticos, com sua esmagadora superioridade, estariam em condições de romper a frente em diversos setores, simultaneamente, tal como ocorrera até aquele momento. Novamente se apresentaria então a ameaça de envolvimento de grandes massas de forças alemães.

 

O chefe do Grupo de exércitos Sul, Marechal von Manstein, analisou claramente a situação. Mesmo considerando necessário, e inevitável, passar à defensiva, achava que esta teria que se acomodar numa modalidade móvel e não estática. Desta forma, os alemães poderiam fazer valer as vantagens que ainda operavam em seu favor, tais como a aptidão de seus comandantes e as capacidade e flexibilidade de suas tropas para operar em ações eminentemente móveis. Essa capacidade havia ficado claramente demonstrada no vitorioso contra-ataque que culminou com a reconquista de Karkov.

 

Assim, sem abandonar uma atitude geral defensiva, a Wehrmacht poderia, mediante rápidas manobras, assestar duros golpes parciais nas forças russas, infligindo-lhes pesadas perdas em homens e material.

 

A proposta de Manstein

 

Já em princípios de fevereiro de 1943, quando ainda se lutava em frente a Karkov, Manstein expusera a Hitler o seu ponto de vista. A tática que o marechal defendia, porém, comportava uma interrogação: deveria a Wehrmacht esperar o ataque previsto, para em seguida assestar o contragolpe mo momento oportuno, ou, pelo contrário, deveria tomar a iniciativa, adiantando-se ao ataque inimigo?

 

Manstein estava convencido que o melhor caminho era esperar o ataque russo, e imediatamente, lançar um contragolpe sobre os flancos. Para isso, estava disposto a recuar diante da investida inicial russa, cujo início ele previa na bacia do Donetz, obrigando assim os russos a estender suas linhas numa perigosa penetração, sobre cujo flanco norte os alemães descarregariam um contra-ataque de surpresa. Hitler, porém, negou-se terminantemente a apoiar esta proposta: a seu ver, a região do Donetz não podia ser abandonada sob nenhum pretexto, pois seus recursos minerais e industriais eram vitais para a economia de guerra alemã.

 

Os planos para 1943 tiveram que ser traçados, então, por decisão de Hitler, em função de uma nova ofensiva.

 

Anexo

 

Guerrilheiros

A 3 de junho de 1941, Stalin conclamou a população russa da zona ocupada à luta guerrilheira. O êxito foi imediato. Em realidade as bases para a organização existiam já há muito, e consistiam nos ensinamentos emitidos pelas “Osoviachim”(organizações paramilitares). As unidade foram divididas em grupos (Otriadi), em batalhões e, mais tarde, em brigadas autônomas. O número de homens que integrava cada brigada era variável; algumas reuniam 40 a 50 combatentes; outras, vários milhares. Os homens não levavam nenhum tipo de uniforme. Freqüentemente estavam sob o comando de oficiais do Exército Vermelho. Numerosos soldados dispersos ou fugitivos dos campos de prisioneiros alemães, se incorporavam, na primeira oportunidade, aos grupos guerrilheiros, contribuindo com seu treinamento e experiência. Também ajudavam a dar solidez a essas formações de guerrilheiros os especialistas em explosivos, os peritos em manejo e reparação de armas e os habitantes da zona onde o grupo atuava, pelo conhecimento do terreno. A coesão e a disciplina estavam a cargo dos oficiais, quando houvesse, ou de membros da NKVD ou organizações similares.

A tática dos guerrilheiros era ágil e elástica. Adaptava-se, em resumo, às circunstâncias. Recursos, não havia; eram arrancados aos próprios alemães. Os alimentos eram fornecidos pela população civil da zona de operações.

O principal elemento do seu dispositivo era surpresa. Cair de improviso sobre uma formação ou um reduto, destruí-lo e retirar-se, rapidamente, sem oferecer combate aberto, era o procedimento habitual. As emboscadas se realizavam em todas suas possíveis e infinitas variantes. Os soldados isolados, perdidos, ou em missão de patrulhamento, eram preferencialmente atacados. Veículos isolados, correios, linhas telefônicas, vias ferroviárias eram atacadas em qualquer ocasião que se apresentasse. Muitos grupos operavam sem receber instruções precisas. Outros o faziam coordenando a sua ação com um comando central, em contato com o Exército Vermelho. Freqüentemente os grupos guerrilheiros eram abastecidos pelo ar. Ao redor de 85% dos guerrilheiros se ocultavam nos bosques de difícil acesso. Outros, escondidos nas cidades, utilizavam como abrigo e depósito de materiais, velhas tumbas, catacumbas, sótãos isolados e redes de túneis de esgoto. Tinham a máxima habilidade na camuflagem. Um riacho aprazível e de pouca profundidade podia ocultar um grupo inteiro, submerso e coberto de folhagens. Algumas vezes muitos guerrilheiros se enterraram por completo dissimulando assim a sua presença. Em Moscou, em 1942, deu-se publicidade a uma lista que expunha os resultados da luta de guerrilhas. Até esse momento, as baixas causadas aos alemães, pelas formações irregulares, eram perto de 300.000 mortos.

 

 

Ajuda aliada à Rússia

O auxílio em material bélico aliado aos russos atingiu o seu ponto culminante em meados de 1943. O número total é resumido pelas seguintes cifras:

Caminhões - 427.284

Jipes - 50.000

Motocicletas - 35.000

Motores Diesel - 7.600

Pneumáticos - 3.000.000

Aviões - 14.800

Metralhadoras - 135.000

Lanchas e outros barcos - 301

Aparelhos telefônicos - 415.000

Automotrizes - 8.007

Vagões - 11.159

Locomotivas - 2.000

Barcos mercantes - 90

Pares de botas - 15.000.000

Veículos blindados - 13.304

Canhões - 8.200

Explosivos (t) - 345.735

Víveres (t) - 4.500.000

 

 

Armamentos soviéticos

As vitórias obtidas pelo Exército Vermelho em Stalingrado e no Cáucaso se deveram em grande parte ao acelerado incremento da produção de armamentos nas novas fábricas instaladas a leste do Volga e nos Urais. Nos primeiros meses de 1943 essas fábricas haviam atingido um ritmo de produção impressionante: os grandes centros de Cheliabinsk, Uralmashzaved e Kirov, montaram mensalmente cerca de 2.000 tanques. O grossos desses carros blindados era constituído pelos famosos T-34, considerados os melhores da Segunda Guerra Mundial. Em 1943, além disso, os russos produziram perto de 130.000 canhões e morteiros de todos os calibres. Incrementou-se também a fabricação de armas de infantaria, especialmente fuzis-metralhadoras e metralhadoras leves e pesadas. Na parte da aviação, a supremacia russa se acentuou não somente pelo aumento quantitativo como também pela produção de novos aparelhos que podiam se equiparar aos melhores aviões alemães. O caça Yak 9 equipado com canhões de 37 mm e o La-5 FN demonstraram em combate sua extraordinária qualidade, frente aos terríveis Fw 190 e Me 109. A produção de aviões aumentou em cerca de 2.900 aparelhos mensais e, em 1943, totalizou 35.000 máquinas. Os russos, porém, concentraram seus esforços na produção de aviões de apoio às forças terrestres - caças, caça-bombardeiros e bombardeiros leves e médios - e não montaram unidade de bombardeio estratégico de longo alcance. Essa política era, em parte, justificada pelos fato de que os britânicos e os americanos havia já tomado a seu cargo o bombardeio estratégico das cidade e industrias alemães.

Alimentado por essa indústria bélica em constante expansão, o Exército soviético se converteu, rapidamente, numa máquina guerreira de primeira ordem. Foi superior à Wehrmacht, no tocante a tanques e artilharia.

 

 

A experiência de Von Kluge

A dominação alemã na Rússia caracterizou-se pela dureza. Contribuía para tornar esse domínio um regime impiedoso a extrema confusão que reinava nos comandos alemães. No tocante a autoridades de ocupação; atuavam oito chefes, independentes entre si. Eram eles Alfred Rosenberg (Ministério do Leste), Martin Bormann (Partido Nazista), Hermann Goering (Plano de Quatro Anos), Heinrich Himmler (SS), Joachim von Ribbentrop (Comitê Especial de Assuntos Exteriores), Richard Saukel (Recrutamento de mão-de-obra), Joseph Goebbels (Ministério de Propaganda), e além desses, autoridades da Wehrmacht, estados-maiores, etc. Eram, no total, mais de 2.000 pessoas separadas por diferentes ideologias, por conceitos humanos opostos, amigos e inimigos da coexistência, competentes ou incapazes.

A Wehrmacht, por sua vez, administrava uma estreita faixa de terreno, limitada pela frente de combate. Isso deu oportunidade aos militares alemães colocar-se em contato direto com parte da população russa. Daí nasceu a idéia de recrutar forças especiais entre os russos. Contribuía para isso a necessidade, cada vez mais premente, que a Wehrmacht tinha de homens úteis.

A partir de 1941 começou-se a recrutar pessoal auxiliar: cozinheiros. Motoristas, enfermeiros, etc. Em meados de setembro de 1943, de cada quatro homens da Wehrmacht, um era estrangeiro. O Alto-Comando alemão contava com um total de um 1.200.000 não alemães. Com respeito a combatentes propriamente ditos, as fileiras alemães eram nutridas por 100.000 turquestanos, 100.000 caucasianos, uma legião tártara, vários regimentos do Azerbaidjan, a “brigada Kaminski”, 29 esquadrões de cavaleiros calmucos e o Corpo Cossaco, de duas divisões de cavalaria do General Helmuth von Pannwitz.

Em 1942, o Grupo de Exércitos Centro iniciou uma extraordinária experiência. Sem contar com aprovação superior, o Marechal von Kluge cedeu a zona de Likojt a um antigo funcionário russo, o engenheiro Bronislav Kaminski. Em pouco tempo, este criou uma nova organização, fundou escolas, hospitais, jornais e dependências públicas, manejadas exclusivamente por russos. Constituiu, além disso, uma brigada armada.

Muitos oficiais alemães de alta patente apoiaram a idéia, como solução para o domínio da Rússia e como freio para a ambição desmedida dos nazistas. Assim foi que um general russo, Andrei Vlassov, aprisionado em 1942, fez em proclamação ao povo russo para que se levantasse contra o poder de Stalin. Vlassov conseguiu dar forma a uma organização militar, apoiada pelos alemães, e constituiu duas divisões. A oposição, porém, apareceu logo. Himmler e Bormann se declararam contrários à iniciativa. Hitler, afinal, ordenou que de pusesse fim à experiência. Vlassov foi afastado do comando e reconduzido à sua condição de prisioneiro de guerra embora gozando de considerações especiais.

 

 

O corredor da morte

Janeiro de 1943. Leningrado. A vital cidade do norte da Rússia sobre o assédio permanente das forças alemães. Dentro do rígido sítio armado pelas unidades alemães, os russos lutam denodadamente para manter a cidade e suas mãos. Um obstáculo se interpõe entre seu desejo de resistir e a realidade: a fome, a falta de abastecimentos, as munições racionadas... Leningrado é uma cidade sitiada. E como toda cidade nessas condições, não basta a coragem de seus habitantes para resistir; é preciso algo mais: víveres, medicamentos e armas...

No mês de janeiro de 1943 a situação se tornou insustentável. Centenas de civis morrem de fome diariamente. Os operários caem mortos sobre seus tornos, nas fábricas, nas ruas. Os cadáveres se acumulam nas sarjetas. Os cemitérios estão ao abandono... por falta de braços para transportar até eles os milhares de cadáveres que se amontoam nas ruas.

Nas frentes de luta, os combatentes recebem, diariamente, uma limitada quantidade de munições. Disparam dez, quinze minutos, e depois precisam esperar que um companheiro caia morto, para apanhar o seu fuzil e continuar atirando.

A situação precisa ser solucionada a qualquer custo. E os chefes militares se decidem.

Sob o comando do General Govorov, os efetivos russos se lançam ao assalto das posições alemães. A luta é terrível, impiedosa, cruel. Combate-se com unhas e dentes. Os homens disparam suas armas até consumir toda a munição. Então se lançam sobre os alemães, brandindo suas metralhadoras portáteis como cacetes. Homem a homem, russos e alemães disputam cada metro do terreno. Uns, atacando com ferocidade ditada pelo desespero. Outros, defendendo-se com a coragem de quem defende a própria vida.

Por fim, os russos triunfam. Um triunfo parcial, insignificante, que não pesa no curso dos acontecimentos. Porém, para Leningrado, tem a importância da vitória de toda uma guerra. Porque esse minúsculo triunfo significa a vida da cidade.

Os russos, rompendo as linhas alemães, unem suas forças com as do General Meretskov, que avança do Sul. E um corredor fica aberto.

A brecha tem 12 km de largura. Está situada ao sul do lago Ladoga. É apenas um corredor, porém seu valor é imenso. Trabalhando sem descanso, dia e noite, empregando na tarefa mulheres, velhos e crianças, os russos atacam um trabalho gigantesco: construir uma via férrea que inclui uma ponte  sobre o rio Neva. E o fazem. Sob o fogo constante da artilharia alemã. Acossados dia e noite, trabalham, sem descanso, sem pausa. Por fim, a estrada de ferro se torna realidade. O que parecia impossível foi conseguido. Leningrado permanece unida à Rússia por uma delgada linha ferroviária. Por ali chegam víveres, medicamentos e munições.

A estrada é uma realidade. Porém o seu preço é uma horrível verdade: centenas e centenas de mortos e feridos. Homens que se substituem diariamente, porque a linha está sob o fogo direto dos alemães. Porém o trânsito não cessa, não se detém nem um minuto.

O corredor da morte estava aberto. E para muitos, em Leningrado, levava a vida.

 

 

Movimento “Búfalo”

6 de fevereiro de 1943. Na “Toca do Lobo”, o QG de Hitler na Prússia Oriental, ocorre uma dramática reunião: o Fuhrer, inclinado sobre os mapas, estuda junto com von Manstein, chefe do Grupo de Exércitos Don, e von Kluge, chefe do Grupo de Exércitos Centro, a ameaçadora penetração das unidades russas nas linhas alemães. Toda a frente ameaça desmoronar-se em poucas horas. Depois de insistentes apelos, os marechais conseguem que Hitler autorize o recuo dos exércitos alemães para novas posições defensivas, situadas mais para o oeste. Começara a operação “Búfalo”. As forças do Grupo de Exércitos Centro ocupam, diante de Moscou, um posto avançado que até aquele momento defenderam, às custas de terríveis perdas, por ordem terminante de Hitler. O Fuhrer fazia questão de conservar esse posto avançado, como futuro trampolim para uma nova ofensiva sobre a capital russa. Na reunião de 6 de fevereiro, Hitler compreende finalmente que essa empresa já não mais se poderá efetuar, e autoriza Kluge a abandonar o posto. Esse movimento permitirá obter uma grande diminuição da frente e uma conseqüente economia de forças que poderão ser utilizadas em outras frentes.

A 1o de março inicia-se o movimento “Búfalo” e, apesar dos violentos ataques russos, se desenvolve com matemática precisão. As tropas alemães se retiram ordenadamente, com rapidez, arrasando o terreno que abandonam. Duas semanas e meia depois a retirada termina. Com sua execução, a frente foi encurtada em 230 km.

 

 

A Alemanha e os prisioneiros russos

De acordo com as cifras citadas pelo Alto-Comando da Wehrmacht, em maio de 1944, a quantidade total de prisioneiros russos era de, aproximadamente, 5.160.000; desse total, 3.110.000 permaneciam em campos de concentração na Alemanha e na Polônia e 2.050.000 em território russo ocupado pelos alemães.

Outros cálculos fazem elevar essa cifra a 5.734.000 prisioneiros. Destes, 3.335.000 foram capturados em 1941, 1.653.000 em 1942, 565.000 em 1943, 147.000 em 1944 e 34.000 em 1945.

Ao terminar a guerra, em 1945, 2.000.000 de prisioneiros russos haviam perecido nos campos de concentração da Alemanha nazista. A fome e privações de todo o tipo causaram esse elevado número de baixas.

O tratamento indescritível que os prisioneiros russos sofreram fica patenteado nas palavras de Rosemberg, ministro do regime nazista para os territórios ocupados do Leste, e executado, posteriormente, como criminoso e guerra, depois de julgado em Nuremberg, escreveu a von Keitel (arquivo do OKW. Documento publicado pelo Tribunal de Nuremberg): “A sorte dos prisioneiros de guerra russos na Alemanha é uma tragédia de grandes proporções. Dos 3.600.000 capturados, somente alguns milhares estão em condições de trabalhar. Uma grande pare deles morreu de inanição e pelos rigores do clima. Isto podia ter sido evitado, porque havia provisões suficientes para alimentá-los; no entanto, na maioria dos casos, os chefes dos campos proibiam que se entregassem alimentos aos prisioneiros, para que os deixassem morrer de fome. Até na caminhada para os campos, a população civil era proibida de dar alimentos aos prisioneiros. Em muitos casos, quando eles não podiam continuar caminhando por causa da fome e do esgotamento, eram fuzilados diante dos olhos da aterrorizada população civil. Em muitos campos não se forneceu aos prisioneiros nenhum tipo de alojamento ou abrigo e eles permaneceram em céu aberto, sob a chuva e a neve...”

 

 

Arapuca de guerra

(relato de um oficial alemão)

“A aldeia estava muito bem fortificada e muitos tanques haviam sido postados entre as casas, para servir como casamatas. Os carros blindados eram difíceis de descobrir e eliminar. Nosso primeiro ataque havia fracassado ao enfrentar o fogo dos tanques, embora nossas perdas tenham sido reduzidas, pois nossas tropas, veteranas, ante o perigo, haviam sabido retirar-se a tempo.

Para desfechar o segundo ataque, era necessário fazer os tanques saírem - a maioria dos quais estava entrincheirada na parte sul da aldeia - de suas posições protegidas. Com o fim de conseguir isto, o fogo de toda nossa artilharia foi concentrado no setor nordeste da aldeia, e um ataque simulado foi efetuado nesse setor por carros blindados e veículos semilagartas, acobertados por uma cortina de fumaça. Então, inesperadamente, o fogo da artilharia foi orientado sobre o setor sul da aldeia e concentrado, maciçamente, sobre o ponto pelo qual nos propúnhamos irromper. Apenas uma bateria continuava apoiando, com bombas de efeito moral, o ataque simulado. Enquanto os projéteis estavam ainda caindo sobre as posições inimigas, os tanques do 15o Regimento Panzer se lançaram sobre a aldeia e superaram, de sul a norte, a defesa russa. Os tanques russos que haviam deixado os seus abrigos, deslocando-se para o setor norte da aldeia, foram atacados pela retaguarda, pelos nossos Panzer e destruídos depois de encarniçada luta.

A infantaria russa abandonou a localidade e se retirou desordenadamente, seguida pelos nossos atiradores motociclistas. Vinte tanques russos foram destruídos na ação e 600 soldados ficaram mortos os feridos”.

 

 

 

 

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