O 8° Exército se retira para El Alamein
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No dia 21 de junho de 1942, as tropas de Rommel dominaram a resistência oposta pelos Aliados em Tobruk. Nesse mesmo dia, às 10 horas da manhã, enquanto os homens do Afrika Korps avançavam pelas ruelas da cidade, arrebanhando os prisioneiros e celebrando a espetacular vitória, o Marechal Rommel emitiu aos seus assessores uma ordem categórica: “Reunir as unidades, reorganizá-las e prepará-las para recomeçar o avanço”. O infatigável lutador estava decidido a não descansar sobre os lauréis. A vantagem alcançada devia ser aproveitada. Tal como ele mesmo havia afirmado, estava “decidido a negar ao inimigo a oportunidade de criar uma nova frente, e ocupá-la com formações de reserva, procedentes do Oriente Próximo”. Rommel resolveu assim jogar a cartada mais difícil de toda a sua carreira. Lançando-se numa veloz marcha atrás dos restos do 8o Exército, o marechal propunha-se a aniquilar o inimigo numa última e decisiva batalha. Se conseguisse a vitória, então nada mais poderia deter o seu avanço até o Canal de Suez e as jazidas petrolíferas do Oriente Médio. Além disso, havia recebido garantias de que lhe seriam enviados o combustível e os abastecimentos necessários através do porto de Tobruk, a fim de continuar avançando até o Cairo. Por outro lado, em Tobruk, suas tropas se haviam apoderado de gigantescos despojos de guerra, que incluíram 10.000 m³ de combustível e centenas de caminhões e veículos de todos os tipos. O Alto-Comando italiano, contudo, baseando-se em ordens prévias de Mussolini, se opunha a prosseguir a ofensiva além da fronteira egípcia. A 22 de junho, no momento em que Rommel reagrupava suas forças, a fim de retomar o avanço para o Leste, foi enviada uma mensagem aos chefes do exército italiano, na Líbia, aconselhando-os que tratassem de impedir que Rommel ultrapassasse a linha da fronteira. A magnitude da vitória em Tobruk, porém, levou o Duce a abandonar o seu plano anterior, e, passando por cima das ordens emanadas pelos seus comandos militares, acedeu ao pedido de Rommel, no sentido de continuar o ataque. O chefe alemão, com sua característica decisão, não havia esperado a autorização. Adiantando-se a ela, na madrugada de 22 de junho reuniu-se no porto de Bardia com o General italiano Bastico, e lhe comunicou que, na ausência de ordens contrárias, procederia imediatamente à perseguição do inimigo. Novamente, Rommel, apesar dos riscos, optava pelo caminho mais direto e perigoso, confiando em que mais uma vez a sorte lhe seria favorável. A audácia de seus planos fica patenteada no reduzido número de efetivos a sua disposição. As duas divisões Panzer do Afrika Korps contavam, no total, com 50 tanques e o 20o Corpo Mecanizado italiano com 14! Além disso, seus efetivos de infantaria não iam além de 5.000 soldados. Contava, porém, com o ímpeto que o caracterizava, e com a superioridade moral que lhe emprestava a sua condição de vencedor. Decidido o avanço, as forças do Eixo se puseram em movimento, no mesmo dia 22 de junho. Paralelamente à costa, marcharam as colunas italianas, precedidas pela 90a Divisão ligeira alemã, a cuja frente ia Rommel. Mais ao sul se deslocavam as duas divisões Panzer do Afrika Korps. No dia 23, o exército invasor cruzou a fronteira do Egito. Nesse dia, Rommel escreveu a sua esposa: “Avançamos outra vez, e espero desfechar o próximo golpe muito breve. Tudo agora repousa na presteza”. |
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Auchinleck assume
a comando Depois da derrota na batalha de El Gazala, os restos do 8o Exército britânico, sob a orientação do General Ritchie, se haviam retirado aceleradamente para a fronteira egípcia, deixando para trás, isolada, a guarnição de Tobruk. O chefe britânico localizou suas tropas em fortificações que haviam sido construídas, e que consistiam em extensos campos de minas e postos resguardados por alambrados. Contudo, em virtude da perda quase total de suas unidades blindadas, os ingleses não poderiam resistir nessa linha. Com efeito, no lado do deserto, seu flanco esquerdo ficava completamente desguarnecido e exposto a uma manobra de envolvimento pelas forças do Eixo. Ritchie admitiu, pois, que devia retirar-se o quanto antes para o oeste, a fim de interpor a maior distância possível entre as suas tropas e as do inimigo. Assim comunicou ao General Auchinleck, comandante-chefe das forças britânicas no Oriente Médio, a quem se apresentou no seu posto de comando a 22 de junho. Ritchie propôs a seu superior deslocar todas as forças sob suas ordens até o reduto fortificado de Marsa Matruh, onde travaria a batalha decisiva em defesa do Egito. Auchinleck o autorizou a efetuar a manobra e ordenou que um dos corpos do 8o Exército (o 30o, comandado pelo General Norrie) continuasse a sua retirada para além de Marsa Matruh, até a posição de El Alamein, onde procederia à construção de uma nova linha defensiva. O 30o Corpo seria, por sua vez, substituído pelo 10o, proveniente da Síria, comandado pelo General Holmes. Depois dessas determinações, Auchinleck viajou de regresso ao Cairo. O chefe britânico, a esta altura dos acontecimentos, punha muitas dúvidas acerca da efetividade do plano adotado, e da capacidade de Ritchie para levá-lo a bom termo. Se o 8o Exército fosse derrotado em Marsa Matruh, nada mas poderia impedir o avanço de Rommel até o Canal de Suez. Tal conquista lhe asseguraria a penetração em todo o Oriente Médio e a eventual marcha sobre a índia. Uma vez chegado ao seu QG, tomou uma decisão extrema. Considerando que a situação era demasiada grave para confiar a direção das operações a um subordinado, decidiu destituir Ritchie, e assumir pessoalmente, o comando das forças. O General Corbett, chefe do Estado-Maior, permaneceria no Cairo, com a missão de organizar a defesa do delta do Nilo. Por sua vez, escolheu o General Dorman-Smith para ocupar o cargo de chefe do seu Estado-Maior. Em companhia deste oficial, voou, às duas da tarde de 25 de junho de 1942, rumo ao posto de comando de Ritchie. Durante o transcurso do vôo, ambos os chefes discutiram os planos a serem adotados para reter Rommel. Não se travaria uma batalha decisiva em Marsa Matruh. O 8o Exército, se conseguisse, se retiraria para a posição fortificada de El Alamein que, para Auchinleck, ofereceria maiores vantagens defensivas. Com efeito, a posição de El Alamein era constituída por uma estreita franja de deserto, de 65 km de extensão, situada entre a costa do Mediterrâneo e a depressão de Quattara, zona praticamente inabordável, coberta de areias movediças que se estendia ao longo de mais de 100 km. Era um verdadeiro funil que, adequadamente defendido, se constituiria numa posição quase inexpugnável. Nela, efetivamente, os tanques de Rommel se veriam na impossibilidade de avançar, como haviam feito em oportunidades anteriores, pelo flanco do deserto, visto que, neste caso, o flanco era constituído pelos imensos areais do Quattara. O ataque, portanto, inevitavelmente, deveria ser frontal. Quando Auchinleck chegou ao posto de comando de Ritchie, comunicou-lhe que havia resolvido substituí-lo no comando, pois, dada a gravidade da situação, considerava que ele próprio (Auchinleck) devia assumir toda a responsabilidade. Ritchie aceitou as determinações do seu superior e partiu, imediatamente, rumo ao Cairo, por via aérea. Auchinleck se entregou rapidamente à tarefa de estudar a situação. Os informes eram confusos; o único fato concreto era que Rommel havia conseguido irromper através das unidades que defendiam a fronteira, e se encontrava, já, próximo de Marsa Matruh. O General Holmes, chefe do 10o Corpo, comunicou a Auchinleck que o general alemão, sem dúvida, atacaria o 8o Exército no dia seguinte. Ante essa sombria perspectiva, Auchinleck anunciou a seus subordinados que a ordem de Ritchie, de combater até o fim em Marsa Matruh, estava revogada. Se a iminente batalha se desenrolasse desfavoravelmente para as forças britânicas, estas deveriam suspender o contato com o inimigo, e retirar-se imediatamente para El Alamein. Vitória de Rommel
em Marsa Matruh Enquanto isso, o Afrika Korps, e as forças italianas, avançavam velozmente, através do território egípcio. A 24 de junho, contudo, as colunas dos tanques tiveram que interromper a marcha, ao se esgotar o combustível. Porém, a casualidade veio em ajuda dos carros blindados do Eixo. Grandes depósitos de combustível britânico, na localidade de Habata, foram capturados e utilizados no abastecimento dos tanques. Imediatamente o avanço foi retomado e, no dia seguinte, as colunas panzer estavam já a 48 km a oeste de Marsa Matruh. Ante a ameaça, a RAF redobrou seus ataques e bombardeou, ininterruptamente, as colunas inimigas. A ação dos aviões britânicos foi facilitada pela proximidade de suas bases. A Luftwaffe, com seus aeródromos muito distanciados, na retaguarda, não podia intervir, ativamente, na luta. Apesar da violenta ação aérea inglesa, as forças de Rommel continuaram a sua penetração, sem deter a marcha nem sequer durante a noite. Na manhã de 26 de junho, Rommel chegava a 16 km de Marsa Matruh. O chefe alemão tomou providências no sentido de conseguir, numa só investida, cercar a fortaleza. A disposição das forças britânicas, distribuídas por Ritchie antes de ser substituído no comando, facilitaria seus planos. Com efeito, o chefe inglês havia dividido suas unidades em duas massas independentes entre si; ao Norte, em Marsa Matruh, colocou o 10o Corpo, com a 50a Divisão britânica e a 10a hindu; 15 km mais ao sul, o 13o Corpo, com a divisão neozelandesa, comandada pelo General Freyberg, e a 1a Divisão Blindada; esta última unidade contava com 159 tanques (60 General Grant, armados com canhões de 75 mm). Contra eles, Rommel apenas podia opor 64 carros blindados, dos quais, 14 eram antiquados tanques italianos. Rommel lançou suas unidades ao ataque, nas primeiras horas da madrugada de 26 de junho. Seu plano era sumamente audacioso, e se baseava numa informação errônea; de acordo com ela, os tanques da 1a Divisão Blindada ocupavam o centro da linha britânica. A realidade não era essa, contudo, pois, como já se assinalou, Ritchie havia deixado o centro livre, com apenas algumas unidades de exploração, sem valor combativo. A investida das forças de Rommel (21a Divisão Panzer e 90a Ligeira) não ia encontrar, assim, nenhuma oposição. Depois de iniciado o ataque, as forças alemães avançaram sem obstáculos e penetraram profundamente na retaguarda britânica, separando os dois corpos de exército. A primeira fase do ataque era, aparentemente, favorável para Rommel, porém, na prática, suas reduzidas forças se haviam introduzido numa verdadeira arapuca; com efeito, os dois corpos britânicos, que as superavam numericamente, de forma arrasadora, podiam cair sobre os flancos e aniquilá-las. Os britânicos, porém, permaneceram totalmente inativos. Contrariando as ordens de Auchinleck, que havia determinado que o 13o Corpo atacasse o flanco sul de Rommel, empurrando os alemães contra as linhas do 10o Corpo, entrincheirado em Marsa Matruh, o General Gott, chefe do 13o Corpo, manteve suas forças na maior passividade, sem executar as ordens recebidas. Este fato permitiu a Rommel completar a segunda fase de seus planos. Na manhã de 27 de junho, a 21a Divisão Panzer girou para o sul e, com seus escassos efetivos, cercou fracamente a divisão neozelandesa do General Freyberg. Rommel, depois de dirigir esta manobra, deslocou-se de automóvel para o norte e, incorporando-se à 90a Ligeira, a conduziu diretamente para a costa do Mediterrâneo, cercando, pelo leste a fortaleza de Marsa Matruh. Enquanto o chefe alemão completava essa operação, no QG britânico reinava a balbúrdia. Informes contraditórios chegavam a todo instante das unidades que participavam da batalha, contribuindo ainda mais para a confusão. Nessas condições, Auchinleck estava impossibilitado de conduzir eficazmente as operações. Em idêntica situação estavam os dois chefes dos corpos de exército. O General Gott, chefe do 13o Corpo, diante do avanço das unidades da 21a Divisão Panzer, que ocuparam posições na retaguarda da divisão neozelandesa, deu a batalha como perdida. Determinou então ao General Freyberg, chefe da unidade cercada, que, empreendesse a retirada, se assim julgasse necessário. Em seguida, entrevistou-se com o General Lumsden, comandante da 1a Divisão Blindada, e também lhe ordenou iniciar, sem tardar, a retirada para o leste. A notícia destes movimentos chegou ao QG de Auchinleck. Este compreendeu, então, que já não havia possibilidade de evitar a derrota. As ordens dadas por Gott destruíam o esquema defensivo das tropas aliadas. A frente britânica perdera a coesão e ameaçava desmoronar de um momento para outro. Auchinleck ordenou imediatamente que se enviasse uma mensagem a Holmes, chefe da fortaleza de Marsa Matruh, dizendo-lhe que abandonasse a sua posição e se retirasse para El Alamein. Durante a noite de 27 para 28 de junho, sob a luz do luar, as colunas do 10o Corpo tentaram abrir passagem através das forças alemães que rodeavam Marsa Matruh. Depararam, contudo, com o fogo mortífero das unidades alemães e tiveram que voltar para a fortaleza. Algumas unidades dispersas, porém, conseguiram infiltrar-se através das linhas inimigas. Simultaneamente, ao sul, a divisão neozelandesa, com seu chefe, o General Freyberg, à frente, abriu passagem numa furiosa arremetida e conseguiu livrar-se da armadilha. Manteve, sem descanso, encarniçados combates com as tropas alemães. Na ação, o General Freyberg foi ferido. Rommel, por sua vez, esteve a ponto de ser atingido pelo fogo das metralhadoras britânicas e teve que afastar-se do palco da luta. No amanhecer do dia 28 de junho, Rommel percorreu o campo de batalha, semeado com os restos de centenas de cadáveres e veículos calcinados. Teve assim o chefe alemão uma visão real da violência com que fôra travado o combate. Ataque à
fortaleza Pelo meio da tarde de 28 de junho, Rommel aprestou suas forças para atacar a fortaleza de Marsa Matruh. A 90a Divisão Ligeira, apoiada por outras unidades menores alemães e tropas dos corpos italianos 20o e 21o que acabavam de chegar à frente, prepararam-se para o ataque. Os britânicos ofereceram uma encarniçada resistência, porém as unidades alemães conseguiram penetrar através dos campos minados e dos alambrados. Ao cair da noite, Holmes ordenou a sua forças realizar uma última e desesperada tentativa para romper o cerco. Lutando ferozmente, as tropas britânicas, transportadas em veículos de todo tipo, arremeteram contra as posições alemães e conseguiram abrir passagem através delas. Em meio a um caos espantoso, a luta se prolongou durante toda a noite. O caminho das forças inglesas ficou semeado de veículos incendiados e soldados mortos. Quatro quintas partes do 10o Corpo de Exército se salvaram, dirigindo-se para El Alamein. Ao amanhecer do dia 29 de junho as forças alemães penetraram em Marsa Matruh, aniquilando os últimos focos de resistência. Assim se concluiu a luta, com a derrota dos exércitos britânicos. Cerca de mil soldados ingleses foram feitos prisioneiros. Capturou-se, também, uma enorme quantidade de despojos de guerra, que incluíam víveres, armamentos e equipamentos de todo tipo, em número suficiente para equipar uma divisão completa. No seu posto de comando, no deserto, Rommel, contente, escreveu a sua esposa: “A batalha de Marsa Matruh foi ganha. Nossas unidades de vanguarda se encontram a apenas 200 km de Alexandria. Alguns choques mais e teremos alcançado nossa meta. Creio que o mais difícil já passou...”. O chefe alemão, no entanto, estava enganado. Marsa Matruh seria sua última vitória. Em El Alamein desapareceria sua opinião otimista. Com efeito, lá já se encontravam os britânicos, reorganizando suas forças e trabalhando incansavelmente na construção de poderosas fortificações. Contra essa muralha se estraçalhariam os planos de Rommel. Sem dar a sua tropas tempo de respirar, o chefe alemão prosseguiu o avanço para o Leste, apenas deu por terminada a conquista de Marsa Matruh. Pouco depois de reiniciada a marcha, a coluna liderada por Rommel foi atacada com fogo de metralhadoras. O chefe alemão ordenou a suas tropas que se deslocassem para responder ao ataque. Logo, no entanto, comprovou que os disparos haviam sido feitos pelas unidades italianas da divisão Littorio. Confundidas pelos veículos britânicos que os alemães utilizavam, acreditaram achar-se em presença de unidades inglesas. Retomando o avanço, as forças da 90a Divisão Ligeira ultrapassaram o porto de Fuka, abandonado pelos ingleses. Depois de flanquear um campo minado, situaram-se, ao cair da noite, a uns 10 km a oeste da base britânica de El Daba, onde se localizava um enorme depósito de abastecimentos do 8o Exército. A presa, contudo, não foi alcançada. Violentas explosões estremeceram o deserto, mostrando aos desalentados soldados do Afrika Korps, que os ingleses haviam começado a destruir os depósitos. Faltava pouco para atingir a meta. Na manhã de 30 de junho, Rommel entrou em El Daba, onde instalou o seu posto de comando. Logo, porém, se viu obrigado a retirar-se para o deserto, ante os repetidos ataques que, em vôo rasante, realizavam os aviões da RAF. Nesse momento, menos de 160 km separavam o Afrika Korps de Alexandria. Rommel decidiu, nessa mesma tarde, lançar-se, rumo ao cobiçado objetivo. Numa reunião com seus oficiais imediatos, traçou rapidamente os planos para o ataque à posição de El Alamein. A ação se iniciaria às 3 horas da manhã do dia seguinte, 1o de julho de 1942. O chefe supremo alemão confiava cegamente no triunfo final. Acreditava, sem um mínimo de dúvida, que seus homens saberiam conquistar os baluartes inimigos, um a um, até completar o aniquilamento do 8o Exército britânico. A retirada
inglesa Depois de ordenar a seus efetivos a retirada para El Alamein, na noite de 27 de junho, o General Auchinleck abandonou seu posto de comando, frente a Marsa Matruh, num pequeno e antiquado automóvel. Esse veículo, durante vários dias, constituiu o QG do 8o Exército inglês. Afastando-se a toda velocidade pela estrada costeira, escoltado por alguns veículos blindados e um caminhão equipado com uma estação transmissora, Auchinleck se dirigiu para El Alamein. Ao despontar o dia, a reduzida caravana foi atacada por aviões da Luftwaffe, porém escapou sem danos. A 29 de junho, Auchinleck recebeu a notícia da queda de Marsa Matruh e da desordenada retirada dos efetivos britânicos que haviam sobrevivido à catástrofe. Tudo parecia indicar que a derrota era já definitiva. Os alarmantes informes chegaram ao Cairo e Alexandria, produzindo evidente estupor. Muitos funcionários e civis britânicos abandonaram a capital egípcia ante a iminência do desastre, e se dirigiram para a Palestina e outras cidades do Oriente Médio. Nesse dramático instante, Auchinleck se encontrava praticamente isolado dos restos de seu exército. Tal como afirmou posteriormente, “ninguém, e muito menos eu, estava em condições de afirmar se se poderia reunir e reorganizar o exército, a tempo de deter Rommel e salvar o Egito”. Diante dessa sombria perspectiva, Auchinleck abandonou o QG que havia instalado provisoriamente na localidade de Ommayid e voltou, em direção ao inimigo. Desejava por-se em contato com as tropas em retirada e comprovar pessoalmente o estado de ânimo delas. Sabia que, se seus homens houvessem conservado a têmpera, apesar da derrota, nem tudo estava perdido. Ainda restava um raio de esperança. No caminho deteve a marcha e dirigiu a destruição dos depósitos de abastecimentos de El Daba, impedindo, assim, que caíssem em mãos de Rommel. Depois, situando-se à margem da estrada, presenciou o desfile de suas tropas. A interminável coluna de veículos de todos os tipos, carregados de armas e abastecimentos, passou a sua frente, durante longo tempo. Sobre os caminhões, amontoados em desordem, os soldados se afastavam do campo de batalha. Cobertos de pós e esgotados pela marcha, outros homens caminhavam junto aos caminhões. Contudo, em meio ao trágico espetáculo, não se observavam sinais de pânico nem de desorganização. Mais ainda, os que se retiravam eram homens dispostos à luta, aptos para o combate. Auchinleck, serenamente, detinha alguns dos homens e os interrogava, animando-os depois, antes de mandá-los reincorporarem-se à coluna. O chefe inglês, confortado pela têmpera de seus homens, compreendeu que se conseguisse ganhar algum tempo ainda era possível o triunfo. Auchinleck, depois de observar pessoalmente o estado de seus homens, retornou ao posto de comando em Ommayid, a poucos quilômetros a leste da linha de El Alamein. Ali, secundado por seus oficiais-auxiliares, dedicou-se ativamente à tarefa de reorganizar suas tropas, reabastecê-las, ultimando os detalhes para o choque que se aproximava. As últimas colunas britânicas, enquanto isso, continuavam chegando à linha defensiva. O 10o Corpo de exército, que havia conseguido evadir-se de Marsa Matruh marchando pela costa, chegou às linhas britânicas na manhã de 30 de junho. Nesse preciso e dramático momento, em Alexandria, a frota britânica levantou âncoras, e abandonou os ancoradouros, ante o perigo que representava para ela os bombardeios da Luftwaffe. A certeza da vitória era tal, no campo do Eixo, que, no dia 29 de junho, Mussolini chegou à Líbia, de avião. Era seu propósito encabeçar a entrada das forças do Eixo no Cairo. Apesar do otimismo que reinava nas fileiras do Eixo, o comando aliado confiava ainda na vitória. A respeito, Auchinleck, a 30 de junho, emitiu aos seus soldados uma ordem em que dizia: “O inimigo se empenhou no limite máximo de suas possibilidades, e pensa que somos já um exército derrotado... Espera ocupar o Egito com um blefe... Vamos mostrar-lhe que está enganado”. Com estas palavras lacônicas e desprovidas de retórica, Auchinleck transmitiu a seus homens a confiança que o animava. Pouco depois do meio-dia, um violento temporal de areia cobriu as linhas da frente, impedindo os trabalhos de fortificações e abastecimentos. Os homens, entrincheirados em suas posições, viram, então, avançar, ao longe, e envoltos pelos redemoinhos de areia, os primeiros veículos das forças alemães. Eram unidades pertencentes à 90a Divisão Ligeira. As tropas britânicas se aprestaram para a luta. A artilharia abriu fogo, em seguida. Contudo, a esperada batalha não se produziu. Os veículos alemães, evitando os disparos, manobraram e se afastaram a toda velocidade. Poucos minutos depois haviam desaparecido, internando-se no deserto. Por ordem de Rommel, o combate se iniciaria no dia seguinte, 1o de julho, às 3 horas da manhã. Anexo Auchinleck Sir John Claude
Auchinleck nasceu na Irlanda, no ano de 1884. Seguiu a carreira das armas,
cursando a escola militar de Sandhurst. A Primeira Guerra Mundial, que se
iniciou quando Auchinleck tinha 30 anos, o viu atuar nas frentes de luta do
Oriente Médio. Interveio ativamente e destacou-se em operações no Egito e
Aden. Recebeu, pelos seus méritos, a DSO (Ordem de Distinção em Serviço).
Posteriormente, terminada a guerra, foi destacado para a Índia, onde
participou em diversas operações entre 1933 e 1935. Transferido de volta à
Inglaterra, ali o surpreendeu a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Em maio de
1940, Auchinleck encabeçou a força expedicionária que atacou Narvik, na
Noruega. Fracassada a operação, teve que retirar-se com suas tropas. Em janeiro de 1942,
assumiu o cargo de comandante-chefe das forças britânicas no Oriente Médio.
Posteriormente, em agosto desse mesmo ano, no dia 8, o primeiro ministro
Churchill enviou-lhe uma carta onde expressava: “Cairo, 8 de agosto de
1942. Estimado General Auchinleck: A 23 de junho, por meio
de um telegrama... o senhor fez referências a sua substituição e mencionou o
nome do General Alexander, como seu possível sucessor. Naquele momento de
crise para o 8o Exército, o governo de Sua Majestade não quis
aceitar sua generosa oferta. O gabinete decidiu... que chegou o momento da
troca. Pensa-se isolar o Iraque e a Pérsia, do atual comando do Oriente
Médio. Alexander será nomeado comandante do Oriente Médio; Montgomery, do 8o
Exército; ao senhor ofereço o comando do setor Iraque-Pérsia, que terá sede
em Bassora ou Bagdá. Nesse setor, que conhece perfeitamente, o senhor estará
em estreito contato com a Índia... espero que aceite a proposta e minhas
instruções, com o mesmo espírito de sacrifício demonstrado em outras
ocasiões... Winston Churchill”. Auchinleck, que tinha
razões para amargar-se, aceitou, sem protestos, a nota de Churchill. Mais
tarde, numa entrevista como primeiro-ministro britânico, efetuada no Cairo e
que foi “fria e cortês”, comunicou-lhe que não aceitava seu novo destino.
Recusou, conforme explicou mais tarde, “porque tenho, como muitas pessoas, um
certo orgulho e não creio que, depois de ser privado de um comando, possa
exercer com autoridade um novo posto de direção”. Bastaria, para descrever
Auchinleck, em toda a sua dimensão, a opinião que dele tinham os alemães: “Se
Auchinleck não tivesse sido o homem que era, isto é, o melhor general aliado
que jamais combateu na África, Rommel teria destruído o 8o
Exército”. E o melhor perfil
psicológico de Auchinleck é dado pelo General Godwin-Austen, quando diz: “Seu
principal defeito era sua incapacidade para acreditar que algum soldado podia
ser menos corajoso que ele”. “Não é um super-homem” As repetidas vitórias
alcançadas por Rommel, estenderam a sua fama às fileiras dos próprios
adversários. Essa estranha popularidade, exemplo de “jogo limpo” aplicado
pelos ingleses e alemães na guerra do deserto, levou o General Auchinleck a
redigir uma insólita ordem destinada aos chefes de seu exército. “A todos os comandantes,
chefes de estado-maior e diretores de serviço das forças do Oriente Médio. “Temo que nossos soldados
tomem o amigo Rommel por uma espécie de “feiticeiro”, ou “fantasma”, pois
falam muito dele. Apesar de ser bastante enérgico e sumamente capaz, não é
absolutamente um super-homem. Mesmo que fosse, seria lamentável que nossos
homens vislumbrassem nele uma força sobrenatural. “Recomendo agir por todos
os meios para apagar a impressão de que Rommel seja mais do que um simples
general alemão. Em primeiro lugar, é necessário impedir que se empregue
constantemente o seu nome para designar nossos adversários na Líbia. Diremos
“os alemães”, os “as forças do Eixo”, ou simplesmente “o inimigo”, sem
colocar constantemente o seu nome na frente. Vigiai, peço, o estrito
cumprimento desta ordem e fazer compreender a todos os chefes de unidades que
se trata de um assunto sumamente importante do ponto de vista psicológico. “Assinado: C.J.
Auchinleck - Comandante-chefe das forças no Oriente Médio. “P.S. Declaro que não
tenho ciúmes de Rommel”. Ciano e a situação na África do Norte 23 de junho de 1942 ... Rommel foi nomeado
marechal e isso nos causa alguns problemas; isto é, o da nomeação de Bastico e
Cavallero. Já disse ao Duce o que penso. “A nomeação de Bastico faria rir e a
de Cavallero causaria indignação”. 26 de junho de 1942 Mussolini está muito
contente com a marcha das operações na Líbia, porém muito amargurado pelo
fato de que a batalha tem tomado o nome de Rommel e de que aparece mais como
uma vitória alemã que italiana. O posto de marechal concedido a Rommel, “que
Hitler fez, evidentemente, para acentuar o caráter alemão da luta”, causa ao
Duce muita irritação. Naturalmente ataca Graziani que “sempre esteve 70 graus
abaixo da terra, numa tumba romana de Cirene, enquanto Rommel sabe impelir as
tropas com o exemplo de um chefe que vive num tanque”. 28 de junho de 1942 As operações na Líbia se
processam com muita rapidez. Marsa Matruh caiu: o caminho do Delta (do Nilo)
está aberto. 29 de junho de 1942 Mussolini viajou para a
Líbia. Estive com Riccardi que me contou da entrevista com o Duce sobre o
assunto ouro Petacci (contrabando de ouro para a Espanha, por via
diplomática). Parece que o chefe estava indignado o ordenou ao doutor Petacci
que se abstenha, daqui por diante, de qualquer tráfego. Vamos ver. 30 de junho de 1942 Na Líbia continuamos
muito bem e, segundo as notícias que recebemos, temos a impressão que os
ingleses atravessam uma profunda crise. 2 de julho de 1942 Mussolini telegrafa
dando-me instruções para que se efetue gestão junto aos alemães, relacionada
com a futura organização política do Egito: Rommel, comandante militar e um
delegado civil italiano, cujo nome pede que eu indique. 3 de julho de 1942 Hitler responde que está
de acordo com a nomeação de Rommel, porém se abstém de uma definição a
respeito do delegado italiano, aspecto que se relaciona também com o problema
da representação alemã... Uma súbita e imprevista reação inglesa nos obriga a
marcar passo frente a El Alamein. No comando supremo, em Roma, estão muito
otimistas... Cartas do Marechal Rommel 23 de junho de 1942 Outra vez avançamos, e
espero desfechar o próximo golpe brevemente. Tudo agora repousa na rapidez.
Os acontecimentos das semanas passadas me parecem um sonho. 26 de junho de 1942 Percorremos um longo
trajeto durante os últimos dias e esperamos lançar hoje mesmo nosso ataque
sobre os restos do inimigo. Passo muito tempo acampado ao ar livre, no carro.
A comida tem sido boa, porém tenho dificuldades com o problema de higiene.
Durante as últimas 24 horas, mantive meu posto de comando junto ao mar e
ontem e hoje, pude tomar banho. Porém, a água não refresca. Está quente
demais. Tenho muito o que fazer. Cavallero e Rintelen virão hoje,
provavelmente para tentar frear-nos até onde puderem... Esses mendigos nunca
vão mudar. 27 de junho de 1942 Continuamos em ação e
espero alcançar meus objetivos. Isto exige sem dúvida um grande esforço,
porém se trata de uma oportunidade única. O inimigo bate desesperadamente em
retirada, utilizando suas forças aéreas. P.S. Quem sabe ainda
possa ir à Itália no mês de julho. 29 de junho de 1942 A batalha de Marsa Matruh
foi ganha e nossas unidades de vanguarda estão a apenas 200 km de Alexandria.
Alguns encontros mais e teremos alcançado a nossa meta. Creio que o mais
difícil já passou. Estou bem. Algumas ações exigiram de nós esforços
incalculáveis. Porém existem momentos de calma para recuperar-nos do cansaço.
Encontramo-nos a 480 km a leste de Tobruk. O sistema inglês de estradas de
ferro e rodovias é excelente. 30 de junho de 1942 Marsa Matruh caiu ontem,
após o que, o exército continuou a sua marcha até a última hora da noite. Estamos
a 80 km mais a leste e a menos de 160 km de Alexandria. Abastecimentos Ao chegar diante de El
Alamein, em fins de junho de 1942, as forças de Rommel haviam já perdido
quase por completo seu poderio ofensivo. A razão: o chefe alemão não havia
recebido os reforços e abastecimentos que no início da ofensiva lhe haviam
prometido. Rommel, posteriormente, expôs as causas que, a seu ver, provocaram
a situação. “Em Roma dava-se uma
desculpa atrás da outra como paliativo pelo fracasso da organização, supostamente,
destinada a abastecer o meu exército; era muito fácil dizer: “Impossível”,
porque para eles não era questão de vida ou morte. Porém, se todos os
implicados tivessem posto mãos à obra para encontrar soluções, as
dificuldades teriam sido superadas. “Aqui estão algumas das
razões por que falhou o nosso sistema de abastecimento: a) Muitas das
autoridades responsáveis não realizaram esforço algum, pela simples razão de
que não se sentiam diretamente ameaçados. Em Roma reinava a paz, e não
existiam indícios de desastre imediato. Além disso, muitos nem entenderam que
a guerra na África chegara ao seu ponto culminante. Alguns vislumbraram esse
fato, porém, por motivos inexplicáveis, nada fizeram para reparar o erro.
Conheci bem essa classe de gente. Sempre que surgiam dificuldades diziam que
o nosso abastecimento era um problema insolúvel, e o demonstravam com uma
avalanche de estatísticas. Careciam por completo de energia e de iniciativa.
Esses funcionários deviam ter sido logo dispensados e substituídos por
pessoal mais competente. b) A proteção de nossos comboios marítimos esteve a
cargo da marinha italiana. Porém, boa parte de seus comandantes, como muitos
italianos, não eram partidários de Mussolini, e preferiam ver-nos derrotados
e não vitoriosos. Em virtude disso, realizaram um contínuo trabalho de
sabotagem. E ninguém tirou desses fatos as necessárias conclusões políticas.
c) A maioria dos líderes fascistas eram muito corruptos e pomposos para fazer
alguma coisa boa. Além disso nada entendiam das operações de guerra na
África. d) Os poucos que fizeram o possível para nos mandar reforços, apenas
puderam conseguir resultados concretos em virtude da superabundância de
organismos existentes em Roma. “Considerando que em uma
guerra moderna são os suprimentos que decidem a batalha, resulta fácil
compreender até onde o desastre ameaçava o meu exército”. As forças de Rommel Até o dia 8 de julho de
1942 os efetivos que atuavam sob as ordens de Rommel eram os seguintes: Afrika Korps 15a Divisão
Panzer Regimento de fuzileiros
(300 homens e 10 canhões antitanques) Regimento de artilharia
(7 baterias) 21a Divisão
Panzer Regimento de fuzileiros
(300 homens e 10 canhões antitanques) Regimento de artilharia
(7 baterias) 90a Divisão
Ligeira (1.500 homens de infantaria, 30 canhões antitanques e 2 baterias) Batalhões de
reconhecimento (3) (15 veículos blindados, 20 transportes blindados e 3
baterias) Artilharia: 11 baterias
pesadas e 4 leves, 26 canhões antiaéreos de 88 mm, 25 canhões antiaéreos de
20 mm. Total de carros blindados:
50 tanques As forças italianas estavam integradas por: 20o Corpo
Motorizado: 14 tanques, 40 canhões antitanques e 6 baterias leves. 10o e 21o
Corpos: 2.200 homens (11 batalhões), 30 baterias leves e 11 pesadas. |