Luta na África do Norte

 

Vitória do 8o Exército

            

El Alamein: Vitória do 8o Exército

A Batalha de Alam Halfa

 

 

No dia 30 de junho de 1942, Auchinleck reuniu-se no seu QG com os chefes superiores do seu exército. Depois de recapitular, e passar em revista as ações efetuadas até aquele momento, chegou-se a uma alentadora conclusão; os repetidos contra-ataques britânicos haviam detido ao avanço de Rommel, causando-lhe grandes baixas e diminuindo consideravelmente a sua potência combativa. O chefe britânico também informou a seus lugar-tenentes que não realizaria novas operações ofensivas, até ter recebido novos reforços, os quais, esperava, chegariam em grandes quantidades. Com efeito, se achavam já em marcha para o Egito grandes comboios transportando centenas de novos tanques americanos Sherman e Grant, providos de canhões de 75 mm e canhões autotransportados de 105 mm, com os quais, pela primeira vez, o 8o Exército passaria a dispor de elementos blindados superiores aos de Rommel. Esse material estaria em condições de ser utilizado a partir de meados do mês de setembro. Portanto, as operações ficariam adiadas até essa data.

 

Auchinleck esclareceu, no entanto, que também Rommel, durante o mês de setembro, receberia importantes reforços, apesar dos devastadores ataques da aviação britânica contra os comboios de Eixo, no Mediterrâneo.

 

O chefe alemão, além disso, contaria com tempo suficiente para fortificar poderosamente as suas linhas defensivas. Em conseqüência, e com base num primeiro plano esboçado pelo General Dorman-Smith, Auchinleck declarou-se partidário de levar adiante a futura ofensiva, sob a forma de um ataque frontal contra as posições ocupadas pelos alemães diante do reduto de El Alamein, no extremo norte da mesma. Essa operação, limitada a um ataque conjunto de infantaria e dos tanques num reduzido setor da frente, com o apoio concentrado da artilharia e da aviação, oferecia, segundo Auchinleck, maiores possibilidades de êxito que uma manobra envolvente pelo sul, executada com os elementos blindados. Ordenou, portanto, ao General Ramsden, que iniciasse, imediatamente, o detalhamento do plano de ataque pelo norte. A reunião terminou com uma discussão acerca das medidas defensivas que se tomariam para enfrentar um possível ataque de Rommel, a realizar-se em fins de agosto.

 

O General Dorman-Smith previra acertadamente, que o chefe alemão tentaria novamente envolver as forças britânicas concentradas em El Alamein, mediante uma manobra de flanqueamento. Para frustrar essa possibilidade, os maciços de Ruweisat e Alam Halfa haviam sido poderosamente fortificados. Essas colinas estavam situadas ao sul de El Alamein e formavam uma barreira natural de defesa. Contra ela iria espatifar-se a investida das unidades Panzer.

 

 

Montgomery assume o comando

 

Enquanto Auchinleck ultimava os seus planos, Churchill, em Londres, resolvia ir ao Cairo, a fim de executar uma total reorganização das forças britânicas. Os sucessos de Auchinleck não alteraram a decisão de Churchill de removê-lo do comando. O primeiro-ministro inglês considerava necessário colocar à frente do 8o Exército um homem de maior combatividade e audácia que as demonstradas por Auchinleck. No dia 4 de agosto de 1942, Churchill chegou ao Cairo. Nesse mesmo dia entrevistou-se com Auchinleck, mantendo com ele uma prolongada reunião. O general britânico lhe expôs detalhadamente a situação da frente de El Alamein. Posteriormente, o primeiro-ministro foi a esta frente de combate (no dia 5 de agosto) e passou em revista as tropas que se achavam prontas para a luta. Nesse mesmo dia, também, entrevistou-se com o General Gott, chefe do 13o Corpo de Exército; era exatamente esse chefe que Churchill pretendia colocar como substituto de Auchinleck no comando do 8o Exército. Para o cargo de comandante supremo das forças do Oriente Médio, o primeiro-ministro propunha-se designar o General Alexander, que já havia sido nomeado chefe das forças aliadas que desembarcariam no Marrocos e na Argélia. Para substituí-lo nesse posto, por sua vez, Churchill havia pensado no General Bernard Montgomery, que gozava de grande prestígio nas fileiras do Exército britânico.

 

No dia 6 de agosto, depois de uma longa conferência com o General Alan Brookes, chefe do Estado-Maior e com o Marechal Smuts, primeiro-ministro da África do Sul, Churchill enviou uma mensagem ao seu gabinete solicitando autorização para executar as mudanças previstas. A 7 de agosto, um acontecimento inesperado transtornou os planos do primeiro-ministro inglês. Nesse dia, quando voava rumo ao Cairo, o avião que transportava o General Gott foi derrubado pelos alemães. O alto chefe inglês pereceu no acidente. Ao receber a notícia, Churchill, profundamente contrariado pela perda de um homem de tão grande experiência da luta no deserto, resolveu designar chefe do 8o Exército, o General Montgomery. Em seguida, enviou uma mensagem informando ao gabinete. Os membros do Governo, em Londres, depois de longa discussão, resolveram aprovar as designações feitas por Churchill.

 

A 8 de agosto de 1942, Montgomery foi notificado de seu novo destino. Rapidamente voou até o Cairo. Nesse mesmo dia, Churchill enviou uma carta a Auchinleck, comunicando-lhe sua destituição. Na nota, o primeiro-ministro lhe oferecia a chefia das forças britânicas no Iraque e na Pérsia. No dia seguinte, numa entrevista mantida entre ambos, Auchinleck recusou o oferecimento. Na manhã do dia 9, chegou ao Cairo o General Montgomery. Imediatamente conduzido à presença de Churchill, este lhe ordenou categoricamente, entre outras coisas, que “seu primeiro e principal dever será capturar ou destruir, na primeira oportunidade, o exército ítalo-alemão comandado pelo Marechal Rommel, juntamente com seus abastecimentos e redutos, no Egito e na Líbia”.

 

No dia 12 de agosto, Montgomery entrevistou-se com Auchinleck, que lhe fez uma detalhada exposição da situação militar. No dia seguinte, Montgomery transladou-se a El Alamein, onde assumiu o comando direto das forças. O general britânico falou aos combatentes e os incitou a cumprir o seu dever.

 

Os diversos comandos foram percorridos, um por um. O general Montgomery, sem anunciar a sua chegada, foi visitando as unidades, animando os homens e infundindo-lhes confiança no triunfo. A figura de Montgomery rapidamente tornou-se popular entre os combatentes. Sua personalidade enérgica e austera, afastada de todo convencionalismo, suscitou a admiração dos soldados. Foi assim que nasceu a lenda do popular “Monty” que, em pouco tempo, haveria de alcançar a dimensão do mito de Rommel.

 

Seguindo as ordens de Alexander, nas quais se ordenava comunicar às tropas que, a partir desse momento, não haveria mais retiradas, Montgomery iniciou o seu comando com uma frase que se tornou célebre: “Ficaremos aqui, vivos, ou morreremos todos”. Para concretizar a ordem, Montgomery ordenou que fossem queimados todos os planos de retirada que haviam sido arquivados. Também todos os veículos que não pudessem ser empregados na luta, deveriam ser retirados da frente de combate. Um oficial neozelandês resumiu, em poucas palavras, a situação criada pelas medidas de Montgomery: “Não poderíamos escapar nem que quiséssemos...”

 

No dia 19 de agosto, Montgomery recebeu no seu posto-de-comando, instalado na localidade de Burg-el-Arab, Winston Churchill. O veterano líder inglês acabava de regressar do Cairo, em vôo direto de Moscou, onde se entrevistara com Stalin. Montgomery explicou ao primeiro-ministro os seus planos, que, tal como os de Auchinleck, em que havia se inspirado, previam a realização por parte de Rommel, de um ataque de flanco contra as posições britânicas. Essa operação seria contida mediante uma barreira defensiva localizada nas colinas de Alam Halfa, ao sul de El Alamein. Uma vez rechaçado o ataque de Rommel, que se considerava iminente, o 8o Exército passaria à ofensiva. Esta operação teria lugar, em princípio, nos fins de setembro, depois que as tropas britânicas houvessem cumprido um período de intensa reorganização e treinamento.

 

Churchill, satisfeito pelo estado das tropas e pela decisão de Montgomery, empreendeu vôo de regresso à Inglaterra a 23 de agosto, tendo antes, porém, emitido as ordens correspondentes para realizar uma última resistência no Cairo e na zona do Delta do Nilo, caso Rommel atravessasse as linhas britânicas em El Alamein.

 

A Batalha de Alam Halfa

 

Enquanto decorriam esses acontecimentos no setor britânico, no campo alemão, Rommel se preparava para um último e desesperado esforço no sentido de alcançar a vitória decisiva. O chefe alemão estava decidido a agir o mais cedo possível, pois sabia que o tempo conspirava contra ele. Efetivamente, a cada minuto que passava os britânicos fortaleciam suas linhas e recebiam uma corrente ininterrupta de armas e homens.

 

Rommel, reiteradamente, solicitou ao Alto-Comando o envio de reforços e abastecimentos. No entanto, seu apelo não encontrou eco. Não se fez a menor tentativa de enviar-lhe combustível, armas e equipamentos para reabastecer suas unidades exauridas pelos sucessivos combates que, mesmo vitoriosos, haviam diminuído o poderio das tropas. A aviação inglesa, por sua vez, concentrou os seus ataques, desde o final do mês de julho, sobre os portos de Tobruk, Marsa Matruh e Bardia. Com esses ataques, os aviões britânicos conseguiram reduzir ainda mais a escassa corrente de abastecimentos que chegava às tropas de Rommel. Apesar dos repetidos contratempos, o chefe alemão ultimou os detalhes da ofensiva. Tratava-se mais uma vez de uma manobra de flanqueamento, pelo extremo sul das linhas britânicas. O elemento decisivo era a velocidade de penetração e a surpresa. Avançando através do deserto, o Afrika Korps e o 20o Corpo Motorizado italiano penetrariam e avançariam. Depois, diretamente, rumo à costa, até cercar por completo as forças do 8o Exército entrincheiradas nas posições de El Alamein. Sitiados, os ingleses se valeriam da alternativa de lutar até o fim ou abrir caminho para o leste, abandonando a última posição defensiva que restava no Delta do Nilo.

 

Enquanto Rommel ultimava os preparativos da sua investida, depositando fé na surpresa como fator decisivo para a vitória, as forças de Montgomery aguardavam o ataque, nas suas fortificações do maciço de Alam Halfa. Paradoxalmente, a surpresa que Rommel acreditava preparar para os britânicos se voltaria contra ele... Os ingleses esperavam o ataque, prontos para repeli-los. Chegou assim o fim do mês de agosto. E com ele, o momento previsto para o ataque. Rommel, contudo, não receberia o combustível necessário que lhe fôra prometido. Contudo, o chefe alemão decidiu atacar; sua decisão baseou-se na afirmação do Marechal Cavallero, comandante-chefe das forças italianas, que confirmou a iminente chegada de navios-tanques.

 

A ordem de ataque foi emitida finalmente. Era a noite de 30 para 31 de agosto. Rommel, consciente de que nesta operação jogava sua última cartada, declarou nesse dia ao seu médico pessoal: “A decisão de atacar hoje é uma das mais duras que já tomei na minha vida. Ou na Rússia chegamos a Grozny e na África ao Canal, ou ...”. E encerrou sua frase com um gesto de derrota.

 

Na noite de 30 de agosto, as unidades de sapadores do Afrika Korps se internaram nos campos minados britânicos. Com grande surpresa, comprovaram que eram muito mais extensos do que haviam calculado. Sob o fogo incessante da artilharia inglesa e dos bombardeiros da RAF, que iluminavam o terreno com bengalas luminosas, os soldados alemães conseguiram abrir algumas passagens, sofrendo grandes baixas. A operação se prolongou durante toda a noite e, ao amanhecer, as unidades blindadas alemães haviam conseguido penetrar apenas uns 15 km em direção às linhas  inglesas. A rápida e surpreendente penetração prevista por Rommel fracassara. Com efeito, o chefe alemão havia ordenado às suas tropas completar, durante a noite, um avanço de 50 km. A extensão do campo minado britânico, superior à calculada por Rommel, fizera malograr essa manobra. Apesar disso, o chefe alemão ordenou prosseguir a ataque. Considerando, porém, que as forças britânicas já estariam prontas para lançar-se sobre seus flancos, Rommel decidiu deter a penetração rumo ao leste e desviar a marcha das tropas para o norte, contra as posições de Alam Halfa. Os Panzer, depois de reabastecerem de combustível e munições, iniciaram a marcha através de um terreno coberto de areia fofa e em meio a violentos temporais. Essas dificuldades retardaram a penetração e esgotaram novamente a reserva de combustível dos veículos. Às quatro da tarde as operações haviam ficado, outra vez, paralisadas. Durante toda a noite, a RAF bombardeou as colunas dos veículos alemães e italianas, causando-lhes grandes quantidades de baixas. Rommel, abatido pelo fracasso da operação, aguardava ansiosamente a chegada dos abastecimentos prometidos, para reativar o avanço no dia seguinte. Mas, no outro dia, 1o de setembro, o combustível esperado não chegou. Diante da crítica situação, Rommel decidiu utilizar a reserva de gasolina que ainda restava para abastecer a 15a Divisão Panzer, com a qual tentou abrir caminho através das posições fortificadas britânicas. Os tanques alemães chegaram até ao sopé do maciço rochoso, sob o fogo incessante dos canhões e da RAF, mas tiveram que deter o avanço ao se esgotarem, praticamente, o combustível. O Afrika Korps ficou assim imobilizado em pleno deserto. Os aviões britânicos, então, o submeteram a uma série de devastadores bombardeios. Uma após outra, as esquadrilhas de caça-bombardeiros se lançaram ao ataque metralhando as posições alemães. Alguns caças alemães tentaram, sem êxito, impedir a ação da RAF. No dia 2 de setembro, Rommel, considerando que era impossível manter-se nessa posição, ordenou a retirada. O combustível prometido, num total de 5.000 toneladas, tivera destino muito diferente do esperado. Atacados por aviões ingleses, muitos dos navios-tanques haviam afundado, arrastando consigo perto de 2.600 toneladas de combustível. O restante, que completaria as 5.000 prometidas, não havia saído dos portos italianos. Na noite de 2 de setembro, o Afrika Korps e as divisões italianas iniciaram o recuo, sob o contínuo martelar dos aviões britânicos. Montgomery limitou-se a realizar alguns contra-ataques locais e não se empenhou na perseguição, guardando suas forças para a grande ofensiva.

 

Na manhã de 6 de setembro, as forças alemães e italianas terminaram a retirada, assim se concluindo a última tentativa de Rommel ...

 

Na decisiva vitória os britânicos perderam apenas 1.750 oficiais e soldados. Rommel resumiu o resultado da batalha com uma opinião categórica: “Com o fracasso do nosso avanço, desaparecera a última oportunidade para chegar ao Canal de Suez. Cabia agora esperar que a produção industrial inglesa, assim como o enorme potencial americano, afluindo para o lado contrário, inclinassem a balança a seu favor”.

 

Rommel abandona a frente

 

Concluída a retirada das forças do Eixo, Rommel tomou as providências necessárias para enfrentar o inevitável contra-golpe britânico. As experiências obtidas na derrota de Alam Halfa o convenceram de que já não podia, como no passado, utilizar como centro das operações suas forças blindadas. Essas unidades, que até aquele momento haviam sido a chave de suas vitórias, eram já superadas amplamente pelas formações blindadas do inimigo, que contava com mais de 1.000 tanques. Contra eles Rommel apenas podia opor 200 tanques alemães e 300 italianos. Além disso, os ingleses haviam estabelecido um domínio absoluto do ar, tanto na frente de luta como na retaguarda e nas vias de comunicações através do Mediterrâneo. Essa superioridade impedia a realização de grandes deslocamentos com as unidades mecanizadas e, também, reduzia ao mínimo as possibilidades de reabastecer as forças.

 

Por essas razões, Rommel resolveu basear a sua defesa numa linha fortificada, defendida pela infantaria, entrincheirada em redutos autônomos. Para tal fim, o chefe alemão ordenou estender um imenso campo minado que incluía cerca de 500.000 minas. A zona principal de defesa, onde concentrou o grosso das forças de infantaria, foi situada a uma distância de uma dois quilômetros da retaguarda da primeira leva de minas, para dificultar uma possível superação por investidas inimigas. As unidades italianas foram intercaladas entre as alemães, para impedir que, pelo seu armamento inferior, fossem presa fácil para os atacantes. Na retaguarda das unidades de infantaria se colocaram, em pontos habilmente camuflados, a divisões Panzer e as mecanizadas italianas, com a missão de eliminar por meio de velozes contra-ataques as penetrações que os britânicos tentassem.

 

Uma vez ordenada a realização dos citados preparativos, Rommel dirigiu repetidos apelos ao Alto-Comando e ao próprio Hitler, solicitando o envio imediato de reforços e abastecimentos. Numa carta dirigida ao Fuhrer, Rommel lhe expressava: “... de outra maneira será impossível manter essa frente...”

 

A saúde do chefe alemão, no entanto, havia enfraquecido, paulatinamente. Por fim, apesar da sua decisão de permanecer junto a seus homens, viu-se obrigado a transladar-se para a Alemanha, a fim de submeter-se a tratamento adequado. Para substituí-lo na direção foi enviado o General Stumme, que, a 22 de setembro, tomou posse do comando das tropas no deserto. No dia 23 de setembro de 1942, Rommel partiu para Roma, de avião. No dia 24 entrevistou-se com Mussolini e lhe declarou, claramente, que se não se fizesse o máximo esforço para enviar as provisões necessárias, as forças do Eixo deveriam retirar-se da África do Norte. Dias mais tarde viajou para o QG de Hitler e também lhe descreveu, sem ocultar nada, a gravidade da situação. O Fuhrer, manifestando otimismo, menosprezou os alarmantes informes de Rommel e lhe prometeu que se tomariam todas as medidas necessárias para assegurar o abastecimento de suas tropas. Suas promessas, contudo, não passariam do terreno da boa vontade. Nunca chegaria a concretizar-se.

 

Às vésperas do ataque

 

No dia 15 de setembro, Montgomery reuniu os chefes das suas divisões e lhes deu a conhecer o plano que se propunha desencadear para derrotar o Afrika Korps. Semelhante ao projeto de Auchinleck, o plano de Montgomery visualizava um rompimento no setor norte. O 30o Corpo de Exército, que agrupava as principais unidades de infantaria (divisões neozelandesa, australiana, sul-africana e 51a escocesa), irromperia através dos campos minados e das posições defendidas pelo Eixo, abrindo assim uma brecha pela qual se precipitaria na retaguarda alemã as unidades blindadas do 10o Corpo de exército. Ao sul, no setor meridional da frente, o 13o Corpo de Exército, realizaria um ataque de diversificação, para forçar Rommel a manter nessa posição as divisões 21a e Ariete (blindada italiana). Uma vez alcançado o rompimento no norte, os tanques britânicos travariam luta com as unidades blindadas alemães e, baseadas na sua esmagadora superioridade, as aniquilariam. Em seguida todas as forças seriam concentradas para destruir as unidades de infantaria alemães e italianas.

 

O plano citado, contudo, foi objeto, dias mais tarde, de importantes modificações por parte do General Montgomery. Este considerava que o adestramento das forças do 8o Exército era ainda insuficiente para uma luta eminentemente móvel, na qual, os alemães haviam demonstrado inúmeras vezes a sua superioridade. Por conseguinte, a 6 de outubro, alterou a ordem das operações planejadas e determinou que, em primeiro lugar, se realizasse a destruição da infantaria inimiga mediante uma série ininterrupta de assaltos.

 

O ataque, portanto, teria de ocorrer da seguinte maneira: as tropas de infantaria do 30o Corpo de Exército, apoiadas por duas brigadas de tanques, realizariam a investida inicial, abrindo passagem através dos campos minados. De perto, na retaguarda, seriam acompanhadas pelas divisões blindadas do 10o Corpo que, uma vez cruzados os campos de minas e atingida a área livre, constituiriam uma frente defensiva à espera do contra-golpe alemão. Assim, mediante o rompimento de uma estreita frente de apenas 6 milhas de extensão, Montgomery se propunha aniquilar as forças do Eixo obrigando-as a travar uma batalha de desgaste.

 

A fase inicial da operação devia cumprir-se na escassa margem de uma noite. Nesse lapso, a infantaria devia abrir caminho através dos campos minados, destruir os redutos inimigos e dar passagem aos blindados que os seguiam; estes, ao amanhecer do dia seguinte, já deveriam ter cruzado o campo minado e ter-se colocado em posição de enfrentar o contra-golpe alemão.

 

O General Lumsden, chefe do 10o Corpo de Exército, e o General Gatehouse, chefe da divisão blindada, expressaram suas dúvidas a respeito do êxito da operação, afirmando que os sapadores não poderiam abrir os corredores planejados numa só noite de trabalho. As colunas de tanques e veículos blindados acabariam por ficar engarrafadas nas estreitas passagens, em meio aos campos minados, e constituiriam alvo fácil para a artilharia e a aviação alemã.

 

Montgomery reagiu energicamente a essas críticas, e declarou que os tanques “teriam que abrir passagem a qualquer custo, mesmo que não se tivesse terminado a abertura dos corredores...”

 

O plano de operações ficou então, definitivamente, decidido. A batalha, que de acordo com os cálculos de Montgomery deveria prolongar-se durante 10 dias ou mais, se iniciaria na noite de 23 de outubro de 1942.  O nome-chave da gigantesca ofensiva era Lightfoot. A hora zero: 21h40.

 

A batalha se inicia

 

A 19 de outubro a RAF iniciou o bombardeio de todas as bases aéreas alemães e italianas, numa sucessão de devastadores ataques que se prolongaram ate o dia 23. A ação da força aérea britânica teve como resultado a conquista de absoluta supremacia aérea.

 

Chegou finalmente o dia D. A hora assinalada, 21h40. Nesse preciso instante, 892 canhões abriram fogo ao mesmo tempo. A frente britânica se iluminou com os canhonaços das baterias que disparavam sem cessar. Um rugido surdo e crescente se espalhou por toda a frente. O bombardeio começara. O objetivo era a localização das baterias inimigas.

 

Durante 15 minutos manteve-se um fogo arrasador sobre as posições da artilharia ítalo-alemã. Minutos antes das 22 horas, as baterias britânicas encurtaram o alcance dos seus disparos e começaram a alvejar as posições da vanguarda do Eixo. A partir desse momento, a cada três minutos, a barreira de fogo deslocava-se 10 jardas para diante. Às 22 horas em ponto, os soldados das quatro divisões saltaram de suas trincheiras e avançaram, em colunas, e precedidos por seus oficiais, rumo aos campos de minas alemães. As tropas escocesas, segundo o seu costume, marchavam no combate precedidas pelos gaiteiros que executavam suas árias marciais. Ao todo, 70.000 soldados britânicos, apoiados por 600 tanques, dirigiam-se para enfrentar 12.000 combatentes do Eixo (164a Divisão de Infantaria alemã e a Trento italiana). A enorme superioridade britânica permitia supor estar a batalha já decidida. Contudo, a encarniçada resistência dos combatentes do Eixo e a profundidade dos campos minados, que superava o cálculo de Montgomery, fizeram com que o avanço fosse consideravelmente retardado. Apresentava-se assim a ameaçadora perspectiva prevista pelos generais Lumsden e Gatehouse, de que as forças blindadas que marchavam na retaguarda da infantaria não alcançassem a zona livre antes da chegada do dia.

 

A 10a Divisão Blindada; integrada por 250 tanques Sherman, Grant e Crusader e centenas de veículos de acompanhamento, ficou detida ao pé da colina de Miteiriya, no meio dos campos minados. A 1a Divisão, por sua vez, paralisou seu avanço diante da colina chamada “Rim”, pela sua conformação especial.

 

E o dia chegou. As primeiras luzes do amanhecer começaram a iluminar a cena. As baterias alemães, em uníssono, abriram um ininterrupto bombardeio. Um episódio contribuiu então, para aumentar a confusão no campo alemão.

 

O General Stumme, substituto de Rommel, dirigiu-se num veículo para a frente de batalha. Inesperadamente o veículo foi alvejado por muitos impactos. O motorista, acelerando a marcha para escapar da zona batida pelo fogo, virou rapidamente. O General Stumme, com a brusca manobra, foi lançado fora do veículo, e, caindo ao solo, sofreu um ataque cardíaco, perecendo. Foi rapidamente substituído no comando pelo General von Thoma, que ordenou às unidades da 15a Divisão Panzer lançar um contra-ataque contra os blindados da 1a Divisão britânica que se encontravam detidas frente ao Rim. Paralelamente, o General Lumsden, se apresentou no comando da 1a Divisão britânica e comunicou ao chefe da unidade que o General Montgomery, descontente com o desenrolar dos acontecimentos lhe ordenava reativar o avanço a qualquer custo. Cumprindo essa diretiva, os tanques ingleses se puseram em marcha através dos campos minados. Às 16 horas movimentaram-se até o pé da colina do Rim. Nessa posição foram atacados pelos blindados da 15a Panzer e da Littorio, e se estabeleceu uma furiosa batalha, prolongada até a noite. Os alemães, então, se retiraram, deixando para trás 26 tanques destruídos, sem haver conseguido desalojar os ingleses de suas posições.

 

Ao sul, na colina de Miteiriya, a 10a Divisão Blindada tentou abrir caminho através dos campos minados, para alcançar seu objetivo no terreno livre. A operação, contudo, se viu frustrada pelos bombardeios da Luftwaffe, que causaram graves danos a uma das colunas blindadas.

 

Diante da paralisação do avanço, o General Gatehouse, chefe da divisão decidiu cancelar a ordem e detê-lo. Isto deu lugar a uma violenta discussão com Montgomery que, diretamente, o intimou a retomar a ação, tal como havia sido prevista. Decidida a ação, os tanques ingleses se puseram novamente em movimento e alcançaram o objetivo.

 

Chegou-se assim a 25 de outubro. Ao meio-dia, Montgomery teve uma reunião com os generais Leese e Lumsden, chefes dos 30o e 10o Corpos de Exércitos. O chefe supremo lhes comunicou que, diante do evidente estancamento das operações, havia resolvido mudar a direção do ataque. Investiria para o norte rumo à costa, inesperadamente, com as tropas australianas, numa tentativa para cercar a 164a Divisão de Infantaria alemã e os Bersaglieri italianos. Simultaneamente, prosseguiria o ataque à colina do Rim, com a 1a Divisão Blindada, para apoiar, pelo flanco, a manobra dos australianos e obrigar os carros blindados alemães a batalhar novamente.

 

A 15a Divisão Panzer e a Ariete  realizaram, nesse mesmo dia, um novo contra-ataque, porém foram rechaçadas e perderam 18 tanques. À meia-noite, as tropas australianas, cumprindo as ordens, passaram à ofensiva. Conseguiram penetrar para o norte, mantendo furiosos combates corpo a corpo com as forças alemães.

 

Rommel toma o comando das operações

 

Na tarde de 24 de outubro, Rommel recebeu um chamado do Marechal Keitel. Encontrava-se nesse momento na Alemanha. Keitel lhe comunicou que os britânicos acabavam de iniciar a ofensiva em El Alamein e que o General Stumme havia desaparecido. À pergunta, então, sobre se ele estava em condições de regressar à África do Norte, Rommel, sem vacilar, respondeu afirmativamente. À noite recebeu uma comunicação do Fuhrer, na qual lhe ordenava transladar-se imediatamente para a África. Rommel empreendeu vôo às 7 da manhã do dia seguinte, para Roma. Já não era mais o chefe alemão um soldado convencido da vitória. Como ele mesmo expressou, “estava convencido que não havia mais lauréis a ganhar naquelas plagas...”

 

Rommel chegou à frente na tarde de 25 de outubro. O General von Thoma o informou acerca do que ocorrera com Stumme, cujo cadáver havia sido encontrado, e lhe disse que, pela terrível escassez de combustível, as unidades Panzer haviam sido obrigadas a realizar simples contra-ataques locais, nos quais haviam sofrido graves perdas. Rommel, compreendendo a gravidade da situação, dispôs-se a realizar um esforço supremo para empurrar os ingleses para além das linhas da defesa alemã e recuperar o terreno perdido.

 

Às 5h da manhã do dia 26, Rommel subiu ao seu auto de comando e se transportou à frente. Unidades da 15a Divisão Panzer, a Littorio e tropas de Bersaglieri, contra-atacaram por sua determinação, na colina do Rim. Porém foram contidos por um terrível fogo britânico e sofreram graves baixas. Os britânicos, por sua vez, haviam perdido muitos tanques e grande quantidade de homens. A infantaria inglesa, também, estava já esgotada pelo tremendo esforço realizado. Montgomery, portanto, decidiu deter as operações, dar descanso às suas tropas e reforça-las com a 7a Divisão Blindada, que fez vir do sul, onde o ataque do 13o Corpo de Exército não tivera sucesso. Rommel, por sua vez, ordenou à 21a Divisão Panzer, que também se encontrava no extremo sul da frente, que se deslocasse rapidamente para o norte. Ao mesmo tempo, enviou uma mensagem a Hitler, comunicando-lhe que a batalha seria irremediavelmente perdida se não lhe enviassem abastecimentos e combustível com a máxima urgência. Começava a fase decisiva da luta. A 29 de outubro, os australianos lançaram um novo ataque em direção à costa. O restante das forças do 30o Corpo de exército, apoiadas pelas 1a, 10o e 7a Divisões Blindadas, se aprontaram para levar adiante a operação decisiva, batizada com o nome de Supercharge, em torno da colina do Rim. Rommel, enquanto isso, resolvera realizar um derradeiro esforço defensivo. Se este fracassasse, retiraria as forças de todas as unidades possíveis para uma nova linha, mais para o oeste.

 

À 1 hora da manhã de 2 de novembro, as tropas britânicas se lançaram ao assalto apoiadas por 800 tanques e 360 canhões. Quando o dia despontou, os ingleses conseguiram finalmente irromper na zona livre, precedidos pela tropa de infantaria neozelandesa e pelos tanques da 9a Brigada Blindada. Sem vacilar, Rommel ordenou um contra-ataque. A 21a e os restos da 15a Panzer, com um total de 90 tanques, se lançaram do norte e do sul, sobre os flancos da penetração inglesa. A Littorio e a Trieste apoiaram a operação, porém seus veículos foram destruídos, um a um, pelos britânicos. Muitos de seus soldados abandonavam suas armas e fugiam para retaguarda. Ao cair a noite a situação do Afrika Korps era desesperadora. Praticamente, carecia de combustível e munições e somente lhe restavam 35 tanques. Rommel decidiu, então, empreender a retirada. O chefe alemão, desalentado, escreveu nesse mesmo dia para a sua mulher: “Estamos literalmente arrasados pela força do inimigo. Estou tentando salvar parte do exército... não sei se conseguirei... os mortos tem sorte. Tudo passou para eles”.

 

A 3 de novembro os ingleses reorganizaram suas forças para a investida final. Rommel, enquanto isso, instou as unidades italianas para acelerar a retirada. Estas, que careciam de veículos, deviam efetuá-la a pé. O chefe alemão regressou ao seu posto-de-comando, onde, à 1h30, recebeu uma categórica ordem de Hitler incitando-o a continuar a luta, sem retroceder. O ditador concluía sua mensagem com as seguintes palavras: “Quanto às suas tropas, não pode mostrar-lhe outro caminho senão o da vitória ou da morte”.

 

Totalmente abatido diante dessa implacável exigência, que condenava o seu exército ao aniquilamento, Rommel ordenou suspender a retirada.

 

O final

 

Na manhã de 4 de novembro, o Afrika Korps e os restos do 20o Corpo Blindado italiano preparavam-se para resistir à última investida dos britânicos. A luta foi precedida por um violento fogo de artilharia que martelou as linhas do Eixo. Os alemães, a duras pemas, conseguiram deter a primeira irrupção, combatendo desesperadamente. Ao entardecer, os ingleses conseguiram cercar e aniquilar o 2o Corpo italiano. Os últimos tanques da Ariete combateram até o fim e foram destruídos um por um. Também a frente do Afrika Korps começou a ceder. Sobre seu flanco direito, os ingleses conseguiram abrir uma brecha de 17 km, através da qual se lançavam ao assalto centenas de tanques. Havia chegado o momento culminante. Rommel, decidido a salvar os restos do seu exército e passando por cima da determinação de Hitler, ordenou então que a retirada se iniciasse imediatamente.

 

Às 15h30 os contingentes do Eixo começaram o recuo, martelados sem cessar pelo fogo da aviação britânica. A batalha de El Alamein chegara ao fim. Os sonhos de Rommel acabavam de desmoronar-se... Seus panzer já não desfilariam pelas ruas do Cairo...

 

Montgomery e os heróicos soldados do 8o Exército haviam destruído para sempre a lenda de invencibilidade da “Raposa do Deserto”.

 

Na manhã seguinte, e como disse o próprio Rommel, “já demasiado tarde”, chegou uma mensagem de Hitler autorizando a retirada. Nesse exato momento, 25.000 homens das forças do Eixo jaziam mortos e 30.000 marchavam para o cativeiro.

 

Anexo

 

O Brigadeiro Clifton

4 de setembro de 1942. Primeiras horas da madrugada.

O Brigadeiro Clifton, comandante da 6a Brigada da Nova Zelândia, dirigiu-se para a terra de ninguém, onde grupos isolados se enfrentavam em esporádicos tiroteios. “Minha intenção era por um pouco de ordem na batalha, que era muito confusa...” disse ele depois.

Não havia ainda amanhecido e as sombras cobriam a região. Clifton, de rastros, seguido pelos seus homens, procurava encontrar uma de suas próprias companhias avançadas. De súbito, muito próximo, divisou um grupo de uns 50 homens. “São eles”, murmurou para si mesmo. Rapidamente, e sem hesitação, se aproximou dos desconhecidos. Ao chegar do lado deles, acompanhado sempre pela sua patrulha, descobriu alarmado, que se tratava de uma patrulha inimiga, composta por homens da divisão italiana “Folgore”. Os combatentes do Eixo, surpresos, não atacaram os neozelandeses, que também não abriram fogo. Seguiu-se um longo minuto onde os homens se vigiaram mutuamente, sem saber que atitude tomar. Por fim, num rasgo de audácia, Clifton se dirigiu aos italianos exortando-os a voltar com eles às linhas britânicas. Surgiram vozes na escuridão e se estabeleceu animada discussão entre os dois grupos. Alguns soldados italianos começaram a descarregar suas armas com intenção de entregar-se aos neozelandeses. Porém, nesse momento, surgiu um vulto que se aproximou correndo dos italianos. Era um oficial alemão que, em altas vozes, exortou os italianos a que “não fossem tão estúpidos” e ordenou que aprisionassem os neozelandeses. Um instante depois, segundo a expressão do Brigadeiro Clifton, “caíamos na rede”.

O Brigadeiro Clifton, com quem Rommel conversou em várias oportunidades, escapou das mãos italianas e vagou pelo deserto, sem rumo, durante vários dias. Por fim, foi encontrado por uma patrulha alemã. Enviado posteriormente para a Itália, não alterou seus objetivos. Internado no campo de prisioneiros de guerra 29, pulou, durante a noite, de uma janela do segundo andar e se escondeu até que a sentinela que fazia a ronda passou perto deles. Depois, rastejando, introduziu-se por baixo dos alambrados que cercavam o campo de concentração, e fugiu. Na estação ferroviária mais próxima, Pont D’Olio, tomou um trem que o conduziu a Milão. Enquanto isso, no campo de prisioneiros a sua ausência ainda não fora notada. Em Como, por fim, cometeu um erro. Queria chegar à Suíça e, para isso, alugou um carro. Porém o preço da viagem suscitou uma discussão com o motorista. Então, dois soldados se aproximaram.

A conseqüência foi a única previsível: nessa mesma noite, Clifton estava de novo no acampamento. Tempos depois, quando era transportado para a Alemanha, Clifton foi visto quando se jogava do trem. Ficou gravemente ferido, porém, a 22 de março de 1945, conseguiu fugir novamente. A 15 de abril do mesmo ano regressava a sua casa, em Auckland, Nova Zelândia. Muito tempo depois, quando terminou a guerra, a viúva do Marechal Rommel, entrevistada por um ex-combatente e escritor, perguntou-lhe: - O Senhor conheceu o Brigadeiro Clifton? Conseguiu escapar? Meu marido esperava que ele conseguisse escapar da Itália... Tinha grande admiração por ele...

 

 

As forças que se enfrentam

8o Exército Britânico (General Montgomery)

10o Corpo de Exército - 1a e 10a Divisões Blindadas

13o Corpo de Exército (Horrocks) - 7a Divisão Blindada - 44a e 50a Divisões de infantaria - Corpo de Franceses Livres (Koenig) - Brigada de infantaria grega (Katsotas)

30o Corpo de Exército (Leese) - 51a Divisão escocesa - 2a neozelandesa - 9a australiana - 4a hindu e 1a sul-africana

Os britânicos cotavam com 220.476 soldados, 1.114 tanques, 892 canhões, 1.451 peças antitanques, 1.200 aviões (incluindo um grupo de bombardeio americano).

Panzerarmee Afrika (Marechal Rommel)

Afrika Korps (von Thoma) - 15a e 21a Divisões Panzer - 90a Divisão Ligeira - 164a Divisão de infantaria - Brigada de pára-quedistas

Exército Italiano (Marechal Bastico)

10o Corpo de Exército (Fratini) - Divisões de infantaria Brescia e Pavia e Divisão de pára-quedistas Folgore.

20o Corpo de Exército (Stephanis) - Divisões blindadas Ariete e Littorio - Divisão motorizada Trieste

21o Corpo de Exército (Gloria) - Divisões de infantaria Trento e Bologna

Alemães e italianos: 108.000 soldados (53.736 alemães), 548 tanques 9249 alemães), 552 canhões, 1.063 peças antitanques, 350 aviões.

 

 

O Sargento Mail

O 8o Exército britânico ataca sem  descanso as posições do Eixo. Os homens de Rommel, combatendo desesperadamente, retêm suas trincheiras. A situação parece não ter fim. Por último, o comando britânico, depois de examinar o estado de suas forças e as aparentes reservas do inimigo, decide forçar a situação.

Diante das linhas inglesas, a uns 4 km, uma colina fortemente fortificada impede o avanço dos efetivos do 8o Exército. É necessário anulá-la.

Ao caírem as sombras da noite, dezenas de soldados britânicos se arrastam até os arredores da posição inimiga. Levam detectores de minas nas mãos. Lenta e minuciosamente, examinam metro por metro, o terreno. Uma por uma, desenterra centenas de minas. Por fim, depois da meia-noite, um amplo corredor fica limpo de obstáculos. Os ingleses, então, se retiram, tão silenciosamente como chegaram. São duas horas da manhã quando o ronco dos motores põe em alarma as tropas alemães que defendem a colina. Rapidamente ocupam suas posições e se aprontam para repelir o ataque que supõem iminente. Em seguida, vêem o inimigo. É um grupo de tanques ingleses que avança. Ao vê-los, intranqüilizam-se os alemães. Trata-se dos novos Sherman, providos de canhões de 75 mm. Os tanques, pertencentes ao Regimento 10 de Hussardos, em colunas, avançam pela passagem que os sapadores abriram. Seus canhões despejam fogo, sem cessar, sobre as posições alemães da colina. Quando os Sherman se encontram a poucos metros do inimigo, o fogo dos alemães sobre eles torna-se mais intenso. Por fim, os tanques detêm o avanço. O fogo aumenta ainda mais.

Pelo rádio, o tanque que comanda o grupo se comunica com a retaguarda. A mensagem é lacônica: “Fogo inimigo muito intenso, impossível continuar avançando”. A resposta é imediata: “Retirar-se”.

Na manhã seguinte, depois de uma noitada em que o canhão troou incansavelmente, outro esquadrão do Regimento 10 de Hussardos se lança ao assalto. Os tanques estão à metade do caminho para as posições alemães, quando o inimigo abre novo fogo arrasador. Cinco minutos depois, três Sherman se incendeiam. Os demais, manobrando a toda velocidade, tratam de alcançar o objetivo. Enquanto isso, as tripulações dos tanques incendiados, depois de abandoná-los, encontram-se entre dois fogos, ameaçados pelas armas inimigas e pelas próprias. Os homens se arrastam nas proximidades dos tanques, procurando evitar os disparos e, ao mesmo tempo, aproximar-se de suas unidades, envolvidas pelas chamas. Febrilmente, utilizando suas facas e até suas mãos, os homens cavam afobadamente buracos na areia. Os projeteis alemães continuam explodindo em volta deles. Horas depois, quando as primeiras sombras da noite começam a cobrir o deserto, os britânicos observam estranhos movimentos nas linhas alemães. Logo compreendem: uma patrulha alemã se prepara para capturá-los.

O Sargento Mail, que comanda o grupo, decide rapidamente. Ser capturado, ou arriscar-se a cair sob as balas alemães, é a opção. Para o combatente, já veterano, a dúvida não existe; grita uma ordem: - Todos atrás de mim! Corram em ziguezague! Tratem de cobrir-se! Quem ficar para trás está perdido! Levantem-se todos! Agora! Vamos!...

De um salto, o Sargento Mail se ergue e se lança, às carreiras, em direção às linhas britânicas. Os outros o seguem, tropeçando, e caindo uma e outra vez. Atrás deles, a patrulha alemã, engatilhando suas armas, abre fogo sobre os fugitivos. Porém as sombras envolvem os ingleses. Um minuto mais, são apenas um grupo de pequenas silhuetas que se perdem na distância.

No dia seguinte, o Sargento Mail, possuidor de um verdadeiro recorde em matéria de destruição de tanques e canhões inimigos, estava novamente em marcha rumo às linhas alemães, tripulando um novo Sherman.

 

 

O longo caminho para Tipperary

El Alamein, 23 de outubro de 1942: 21h35... As sombras da noite envolvem as linhas britânicas do 8o Exército.

Da retaguarda, no silêncio mais absoluto, longas filas de infantes marcham para o oeste. Vão em fila indiana, com intervalos de 2 metros entre cada homem. Um espaço de 5 metros separa as filas paralelas. Na frente, suboficiais veteranos. Mais à frente ainda, oficiais, alguns imberbes, voltam a cabeça e observam os homens. Todos carregam as armas prontas. Fuzis e metralhadoras, os soldados e os suboficiais. Revólveres, os oficiais.

À pálida luz da lua parecem longas colunas de fantasmas. Calados, os soldados caminham mergulhados em seus pensamentos. Para muitos aquela será a última noite. É fácil descobrir em que pensam: no lar, nos seres queridos, na pátria distante...

21h36: Os oficiais que marcha, à frente das colunas levantam em silêncio o braço direito. Depois se inclinam e apoiam um joelho na areia. Atrás deles, os suboficiais imitam o gesto, e levantam seus braços. Os soldados detêm a marcha. O terreno fica coberto de homens, imóveis e silenciosos.

21h37: Alguns oficiais consultam os seus relógios; outros ajustam seus cinturões; um revisa, uma por uma, as granadas que pendem dos seus talabartes; além, um subtenente gira o tambor do revólver, comprovando que funciona sem inconvenientes; outros, a maioria, permanecem silenciosos e imóveis, com o olhar fixo na noite...

21h38: O silêncio da noite e a imobilidade de todos se quebra quando algumas sombras se aproximam, vindas da retaguarda. Lentamente, o grupo de homens ocupa o seu lugar junto aos oficiais. Na obscuridade, os soldados os identificam claramente. Cada um dos recém-chegados se colocou junto a um oficial, à frente de uma coluna. Nas mãos levam suas armas para o combate. E nunca foi melhor aplicada a qualificação: armas de combate; porque aquelas gaitas são as armas. Os récem-chegados são os gaiteiros das diversas companhias. E são eles que encabeçarão a marcha com os sons marciais dos seus tradicionais instrumentos. Sua música marcará o ritmo do avanço. Seus acordes vibrarão no deserto.

21h39: Ao longo de muito quilômetros uma cena se repete. Um oficial consulta o relógio cada 10 segundos, levanta a mão direita e a deixa cair novamente. Os demais o imitam. Repete a manobra duas vezes mais. Em seguida se inclina até roçar a areia com os cotovelos. Atrás deles, todos, suboficiais, soldados e gaiteiros fazem o mesmo. Depois, ficam tensos, à espera...

21h40: Uma fração de segundo antes que os ponteiros dos relógios assinalem a hora, o silêncio é total, absoluto, impressionante, doloroso quase. De repente, como o estouro imprevisto de um vulcão, a terra parece tremer. A areia estremece. Os homens abaixam mais a cabeça e cobrem o rosto. E, de súbito, como se o amanhecer tivesse despertado por obra de um ser sobrenatural, o deserto se ilumina. É uma luz deslumbrante, como de mil sóis reunidos. E rapidamente, depois de uma fração de segundo, chega o trovão. Uma explosão atrás da outra, 10, 100, 1.000... até se superporem convertendo-se numa só espantosa detonação, que não parece ter nem princípio nem fim.

Numa frente de 10 km, com intervalos de poucos metros de canhão para canhão, 892 peças de artilharia do 8o Exército britânico começaram o bombardeio.

As areias do deserto tremem. A terra parece ser sacudida. Muitos homens não conseguem manter-se em pé e caem. O suor empapa o rosto dos soldados. As mãos, umedecidas, apertam a culatra das armas. Uma imensa prece parece elevar-se daquela massa de homens que se aprontam para a luta.

22h: Bruscamente, tal como começou, o fogo se detém por alguns instantes. Um silêncio mortal cobre as areias do deserto. Durante 20 minutos a terra foi sacudida por um cataclisma provocado pela mão do homem. Agora, o silêncio é total. Ao longe, de repente, um gemido parece elevar-se para o alto. Logo, outros o imitam. Parece o lamento de mil seres de outros mundos. Porém todos os homens conhecem aquele som. É a primeira gaita. E logo outra. E depois mais uma. Logo são dezenas de gaitas que soltam os seus sons marciais. A pele se arrepia sob o pano rosco dos uniformes. As mãos empunham, mais fortes que nunca, os punhos das armas. Os soldados veteranos ajustam seus capacetes e se levantam. Os suboficiais olham seus homens e sorriem. Chegou o momento.

Os oficiais consultam-se reciprocamente, e levantam seus braços. Os gaiteiros, tocando ininterruptamente, os observam.

“Adiante!” E os oficiais avançam. Depois deles, a pouco mais de um metro, os gaiteiros. Em seguida, a longa fila coleante. Um oficial veterano, de cabelos grisalhos, sorri. Além, outro, que ainda não completou 20 anos, umedece os lábios. Porém todos avançam, quase solenemente. Avançam para o inimigo, para a morte. Ou para a glória!...

Os gaiteiros, com suas saias curtas escocesas, vão na frente. Os homens armados, atrás. O 8o Exército britânico, escoltado pela música, está em marcha.

 

 

“A vitória ou a morte...”

“Ao Marechal Rommel: Com a máxima confiança nos seus dotes de comando, e na coragem das tropas ítalo-alemães, o povo alemão e eu seguimos atentamente a heróica luta que se trava no Egito. Na situação em que se encontra, não lhe resta outra alternativa senão resistir ao máximo, sem ceder um metro de terreno e lançando na batalha todos os canhões e homens disponíveis. Consideráveis elementos aéreos estão sendo enviados ao setor sul. O Duce e o Comando-Supremo realizam também os maiores esforços para dotá-los de meios para continuar a luta. O inimigo, apesar da superioridade, deve encontra-se já no limite de suas forças. Não será a primeira vez ma história que uma vontade férrea triunfa sobre os mais nutridos batalhões. Quanto às suas tropas, não pode mostrar-lhes outro caminho que não seja a vitória ou a morte. Adolf Hitler”.

 

 

Depois de El Alamein

“Perdemos a batalha decisiva da campanha africana. Foi decisiva porque a derrota ocasionou a perda da maior parte de nossa infantaria e de nossas forças motorizadas. As conseqüências escapam a qualquer apreciação. Porém o mais assombroso é que as esferas oficiais, tanto na Alemanha como na Itália, atribuem a derrota não à falta de abastecimentos, nem a nossa inferioridade aérea, nem à ordem de morrer ou triunfar em El Alamein, mas sim às tropas mesmas e ao comando. A carreira militar da maioria das pessoas que fizeram semelhante acusação contra nós, é caracterizada pela ausência constante no combate, de acordo com o princípio que diz: Manter-se longe dos tiros leva os soldados à velhice.

“Chegou-se até a dizer que depusemos as armas e que eu sou um derrotista, um pessimista diante da batalha ou de situações críticas e que, portanto, sou, em grande parte, responsável por tudo... Não tem nenhum sentido negar que houvesse homens, nas altas esferas, que possuíssem inteligência para compreender o que estava acontecendo, porém, em troca, careciam de coragem para enfrentar tranqüilamente uma situação que já não se podia modificar, e dela tirar as necessárias conclusões. Preferiram esconder suas cabeças na areia, viver uma espécie de sonho militar e buscar vítimas propiciatórias que habitualmente encontravam nas tropas ou nos comandantes em campanha.

“Confesso haver cometido um só erro: não ter invalidado 24 horas antes a ordem de “Vitória ou morte”, ou não tê-la ignorado completamente. Se o tivesse feito, meu exército, junto com toda a sua infantaria, teria podido se safar, apto para travar novas batalhas.

“A fim de não deixar nenhuma dúvida para os futuros historiadores, sobre as condições e as circunstâncias sob as quais tiveram que operar as tropas e o comando na batalha de El Alamein, faço o seguinte resumo:

Um sistema adequado de abastecimento e depósito de armas, combustível e munições, são condições essenciais para que qualquer exército esteja apto para resistir, com êxito, ao esforço de uma batalha... O homem mais valente nada pode fazer sem armas de fogo; as armas não servem para nada sem abundante munição e tanto as armas como as munições são inúteis numa operação móvel, se não podem ser transportadas por veículos que disponham de suficiente combustível. Os abastecimentos devem igualar-se, em quantidade, aos dos inimigos, e não só em quantidade, mas também em qualidade.

No futuro, os combates terrestres serão precedidos por combates aéreos... Nenhuma dessas condições que mencionei foram absolutamente cumpridas e nós tivemos que sofrer as conseqüências... O aprovisionamento do exército era apenas suficiente para nos permitir subsistir nos dias tranqüilos... Era absolutamente impossível pensar em armazenar reservas para uma batalha defensiva... As quantidades de material que estavam à disposição dos britânicos excederam consideravelmente os nossos piores temores... O domínio aéreo britânico era absoluto...

O 8o Exército teve êxito pelas seguintes razões:

1o) Não se chegou a travar uma batalha em deserto aberto, dado que nossas forças motorizadas se viram obrigadas a formar uma frente para proteger as divisões de infantaria que havia sido atacadas frontalmente e careciam de meios de transporte. O combate tomou a forma de uma batalha de material. 2o) Os britânicos tinham uma tal superioridade em armas, tanto quantitativa como qualitativamente, que tinham condições de impor qualquer classe de operação.

Os métodos empregados pelo comando britânico para a destruição das minhas forças foram o resultado da sua superioridade arrasadora. Consistiram nos seguintes: a) Fogo de artilharia altamente concentrado. b) Contínuos ataques de bombardeio por poderosos efetivos. c) Ataques... com exuberância de material... e que revelaram um extraordinário nível de treinamento...

Rommel

 

 

 

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