Fim da Luta na África do Norte

 

O 8o Exército persegue o Afrika Korps

            

Retirada de Rommel após El Alamein

 

 

No dia 4 de novembro de 1942, Winston Churchill recebeu um telegrama do General Alexander. Dizia que, depois de violenta luta, o 8o Exército britânico havia conseguido infligir em El Alamein uma derrota decisiva às forças alemães. O veterano líder britânico respondeu imediatamente ao General Alexander, enviando-lhe comovidas felicitações, extensivas a Montgomery e aos oficiais e soldados que haviam consumado a operação. Na sua mensagem, Churchill dizia: “Ainda que os frutos desta ação tardem alguns dias, ou até semanas para serem colhidos, é evidente que se trata de um acontecimento primordial, que haverá de atuar na totalidade do futuro desenvolvimento da guerra mundial”. Mais tarde, Winston Churchill afirmaria, numa frase histórica: “Antes de El Alamein, nunca tivemos uma vitória. Depois de El Alamein nunca tivemos uma derrota”.

 

De fato, o desastre sofrido pelas forças de Rommel em El Alamein, a que se acrescentaria, pouco mais tarde, a derrota das unidades alemães em Stalingrado, marcava o momento decisivo em que a guerra principiava a mudar de curso. No Pacífico, paralelamente, os americanos, cinco meses antes, haviam posto fim, mediante a vitória naval obtida em Midway, à expansão japonesa.

 

Assim, em fins de 1942, as potências do Eixo iniciavam a dura caminhada rumo à derrota final. De nada valeria o sacrifício de seus combatentes, nem as penúrias que a população civil ainda teria que suportar. Os países aliados, por sua vez, superados os momentos críticos, alcançariam a curto prazo, utilizando os seus imensos recursos, uma esmagadora superioridade militar em todas as frentes.

 

 

Rommel se retira

 

Uma vez conseguido o rompimento da frente de El Alamein, Montgomery ordenou que suas forças empreendessem imediata perseguição das unidades inimigas. O chefe britânico havia projetado apanhar as colunas ítalo-alemães, que se retiravam desordenadamente, empregando as forças do 10o Corpo Blindado. A divisão neozelandesa, apoiada por duas brigadas blindadas, recebeu ordem de realizar uma primeira manobra envolvente para a costa, sobre a localidade de Fuka. Sua movimentação se viu prejudicada, porém, ao terem as suas rotas de avanço bloqueadas pelos comboios de abastecimento do 10o Corpo. Ao cair a noite, os neozelandeses se encontravam ainda a meio caminho do objetivo. Três divisões blindadas, a 1a, a 7a e a 10a, avançaram também, com a intenção de exterminar as tropas de Rommel. O chefe alemão, enquanto isso, ordenava às suas colunas que se retirassem a toda velocidade em direção a Fuka, operação que se iniciou na noite de 4 de novembro, através do deserto, pois a estrada da costa era submetida a constante bombardeio por parte da RAF, que iluminava os seus alvos utilizando bengalas luminosas.

 

Assim se iniciou a dramática retirada dos restos do Afrika Korps e do exército italiano. Em meio à mais profunda escuridão, os veículos alemães se deslocavam em uma marcha confusa através do areal. Muitos dos caminhões ficavam atolados uma e outra vez, e mesmo definitivamente enterrados até o eixo, na massa movediça de areia.

 

Na madrugada do dia 5, Rommel chegou ao aeródromo de Fuka e depois de permanecer ali algumas horas se dirigiu a um ponto situado ao sul dessa base, onde instalou, provisoriamente, o seu posto de comando. Havia já recebido de Hitler a autorização para abandonar a frente em El Alamein. A lacônica mensagem dizia: “Dada a evolução que a situação sofreu, aprovo vosso propósito”. A ordem havia, porém, chegado muito tarde. Rommel, pressionado pela dramática circunstância, agira por conta própria, ordenando a retirada de todas as forças que ainda tinham condições de fazê-lo, antes de receber a autorização do Fuhrer. Ficou na retaguarda, no entanto, o grosso das unidades de infantaria italianas, que, desprovidas de veículos e obrigadas a permanecer em suas posições pelos constantes ataques britânicos, não haviam podido dar cumprimento à ordem de Rommel.

 

O 10o Corpo italiano, integrado pelas divisões Pavia, Brescia e pela de pára-quedistas Folgore, colocado no extremo sul da frente de El Alamein, empreendera a pé a retirada para Fuka, fustigado constantemente pelas colunas blindadas inglesas. Não haveria escapatória para eles. O 21o Corpo de Exército, que compreendia as divisões Trento e Bologna, teria a mesma sorte, após oferecer tenaz resistência. Por seu lado, o 10o Corpo Motorizado italiano, cercado pelos ingleses em 4 de novembro, fôra praticamente exterminado e de suas divisões, a Littorio, a Trieste e a Ariete, apenas um batalhão dizimado e sem tanques conseguiu incorporar-se às colunas em retirada. Esta catástrofe fôra prevista por Rommel que, antes de receber a determinação de Hitler de que a frente deveria ser mantida até o último soldado, pretendia retirar, sob cobertura das formações blindadas, a infantaria italiana. Seus projetos, porém, não chegaram a cumprir-se. Posteriormente, Rommel seria acusado de ter abandonado os italianos na retirada. Essa, no entanto, não foi nunca a sua intenção, como acabamos de dizer. Foi Hitler que, com sua categórica ordem de resistir a todo custo, impediu que a infantaria italiana se retirasse, tal como Rommel havia determinado. O chefe alemão explicou, posteriormente, nos seguintes termos, o seu acatamento à descabelada determinação: “Vi-me obrigado a isso; posto que sempre exigia de todos uma obediência incondicional, devia agora respeitar o mesmo princípio. Se soubesse o que iria ocorrer, teria atuado de modo diferente, já que, a partir de então, tivemos que ignorar muitas ordens do Fuhrer e do Duce, a fim de salvar o exército da destruição”.

 

Uma vez em Fuka, Rommel decidiu manter-se nessa posição o maior tempo possível, para cobrir a retirada das colunas que ainda haviam conseguido afastar-se da frente. Assim foi que, durante essa jornada, chegaram a Fuka a 90a Divisão Ligeira e elementos dispersos das forças motorizadas italianas. À medida que transcorriam as horas, contudo, evidenciou-se que seria impossível manter a posição. Ao QG alemão chegavam informes anunciando a movimentação de poderosas forças britânicas pelo flanco sul. Diante da ameaça de ser inteiramente cercado, Rommel, a contragosto, viu-se obrigado a ordenar o reinício da retirada em direção a Marsa Matruh. O grosso da infantaria italiana, ficou assim definitivamente condenado à destruição e ao cativeiro.

 

Em meio a uma violenta tempestade de areia e acossados pelos bombardeiros da RAF, os alemães se puseram novamente em marcha. A noite chegou e a escuridão introduziu um novo elemento de confusão nas fileiras do Eixo. Muitos veículos perdiam o contato com a cabeça da coluna e se dispersavam através do deserto. Na manhã de 6 de novembro, realizaram-se esforços extremos para reagrupar as tropas desorganizadas. Nesse momento, as únicas unidades que restavam a Rommel como forças combativas organizadas, eram os restos das 15a e 21a divisões Panzer (dizimadas e exauridas) e alguns escassos elementos da 164a Divisão de Infantaria alemã que haviam escapado à destruição.

 

A falta de gasolina era angustiosa e muitos veículos foram abandonados no meio do deserto por falta de combustível. Assim, em desordenada retirada, as forças do Eixo se aproximaram de Marsa Matruh, pelo sul, e, com grande dificuldade, infiltraram-se através dos extensos campos minados que rodeavam esse reduto.

 

O Afrika Korps escapa à armadilha

 

Enquanto Rommel tentava recompor suas forças em Marsa Matruh, na retaguarda, em Fuka, um destacamento alemão, comandado pelo Capitão Voss, combatia encarniçadamente, cobrindo as costas do chefe alemão. Este grupo foi finalmente anulado pelas formações inglesas que, na manhã de 6 de novembro, realizaram um violento ataque com 60 tanques, contra a 21a Divisão Panzer. Esta unidade, ao esgotar seu combustível, ficara imobilizada a sudoeste de Marsa Matruh; em conseqüência, viu-se obrigada a enfrentar o assalto das forças inimigas, distribuindo seus veículos numa formação “ouriço”.

 

Durante várias horas a unidade combateu encarniçadamente, rechaçando todas as tentativas britânicas de romper as linhas. Entrementes, o grupamento do Capitão Voss, retirando-se de Fuka, atacou pela retaguarda as forças inglesas que estavam empenhadas na luta contra a 21a Divisão Panzer. Rommel, por sua vez, enviou em socorro da divisão uma coluna de caminhões-tanque carregados de combustível, para reabastecer as unidades. Essa coluna não pôde, no entanto, abrir passagem através das linhas britânicas. Diante da difícil situação, as tropas alemães cercadas, destruíram, ao cair da tarde, todos os seu veículos blindados e, combatendo furiosamente, abriram passagem em direção a Marsa Matruh, incorporando-se, já quase noite, ao resto das forças alemães. Enquanto isso ocorria, Rommel mantinha, em seu posto de comando, uma entrevista com o general italiano Grandin, enviado pessoal do Marechal Cavallero. O chefe alemão expôs ao colega, sem ocultar nada, a situação crítica que suas forças enfrentavam. Diante do alarma de Grandin, Rommel acrescentou que considerava totalmente impossível manter uma posição defensiva em território egípcio. A falta de combustível, munições e abastecimentos, e o esgotamento das tropas, unidos à confusão e desorganização reinantes, tornavam impossível qualquer resistência. Era necessário, portanto, conduzir, com a maior velocidade possível, os restos do exército ítalo-alemão para o outro lado das montanhas da fronteira da Líbia, para tratar, ali, de recompor as extenuadas unidades. O essencial era que fosse enviado bastante combustível o quanto ante, pois, como Rommel declarou categoricamente, “cada gota deve ser usada para salvar as tropas”; isso impossibilitava, logicamente, o desencadeamento de operações ofensivas. Os italianos, entrementes, haviam enviado, a 4 de novembro, uma flotilha de navios-tanque a Bengasi, carregados com 5.000 toneladas de gasolina. Esse auxílio, contudo, chegava muito tarde e não havia meios adequados para transportar rapidamente o combustível para a frente. A RAF atacou repetidamente Bengasi e conseguiu destruir, em pouco tempo, mais de 2.000 toneladas do precioso carregamento.

 

Os britânicos, por sua vez, continuavam encarniçadamente a perseguição. A 1a Divisão Blindada, comandada pelo General Briggs, deslocando-se aceleradamente através do deserto, conseguiu cruzar Marsa Matruh pelo sul e preparou-se para cercar, pela retaguarda, as tropas de Rommel. Isso ocorreu no próprio dia 6 de novembro. No decorrer desse dia tudo parecia indicar que Rommel seria encurralado e aniquilado. Todavia, a sorte veio novamente em sua ajuda. Os carros blindados de Briggs, desprovidos de combustível, se viram obrigados a deter a marcha, com o que frustrou a projetada manobra de cerco. Ao mesmo tempo, desencadeou-se em toda a frente uma chuva torrencial que se prolongou por toda a noite. Em poucas horas o deserto se transformou num lodaçal intransitável. As rotas praticamente desapareceram, transformando-se em verdadeiros pântanos, onde se atolaram milhares de caminhões, automóveis e tanques das forças britânicas. Energicamente, os oficiais percorriam as colunas, incitando os homens a tirar os veículos do pântano onde estavam mergulhados até o eixo; tudo, porém, foi em vão. A “Raposa do Deserto” escaparia novamente da armadilha...

 

Em marcha para a Líbia

 

Surgiram as primeiras luzes do dia 7 de novembro. No QG de Rommel, o chefe alemão está reunido com seu Estado-Maior e com os chefes das principais unidades. Uma leve esperança anima Rommel. A parada dos britânicos é um bom indício e talvez se prolongue. O temporal freou o acelerado ritmo do avanço britânico e essa pausa pode significar para Rommel a oportunidade de recompor suas malfadadas forças. Caso consiga manter os ingleses na posição em que estão por mais alguns dias, poderá estruturar uma frente fortificada na fronteira da Líbia e, ao mesmo tempo, receber combustível, munições e reforços da retaguarda. Todos os projetos de Rommel, contudo, se desmoronam rapidamente. As patrulhas enviam informes sobre a disposição dos britânicos em reavivar o avanço. Rommel não vacila. Ordena às suas forças resistir aos ataques do inimigo e, caso a pressão seja impossível de conter, iniciar rapidamente a retirada. Ainda espera que elementos dispersos alcancem Marsa Matruh. O 20o Corpo Mecanizado italiano, por sua vez, conseguira reunir, nos últimos dias, colunas de soldados em debandada, com os quais integra uma força equivalente a um batalhão; conta ainda com 10 tanques.

 

Na manhã do dia 7, se aproxima de Marsa Matruh uma coluna de veículos aparentemente inimigos. Quando chegaram mais perto, os homens da vanguarda observaram alvoroçados, que se tratava de soldados alemães tripulando caminhões britânicos. São os 600 sobreviventes da brigada de pára-quedistas alemães, comandada pelo General Ramcke. Esta unidade, colocada no extremo sul da frente de El Alamein, havia sido considerada perdida, pois carecia de veículos suficientes. Porém Ramcke e seus homens, num audacioso golpe, se apoderaram de caminhões ingleses e, infiltrando-se através das linhas inimigas, haviam conseguido atingir as próprias.

 

Montgomery determinava, entrementes, a reorganização das unidades encarregadas da perseguição. O rápido e extenso alongamento das linhas provocado pelo avanço criara problemas de abastecimento, como acabava de acontecer com a paralisação da 1a Divisão Blindada do General Briggs, por falta de combustível. Portanto, resolveu reduzir o número de forças que marchavam na vanguarda. O prosseguimento da perseguição ficaria agora a cargo da 7a Divisão Blindada, que avançaria através do deserto, e da divisão neozelandesa, apoiada por tanques, que se deslocaria pela estrada da costa. Mais atrás marcharia a 1a Divisão Blindada. O avanço seria retomado no dia 8. Desta vez, esperava-se agarrar Rommel na fronteira, ou, em último caso, no reduto de Tobruk.

 

As possibilidades de alcançar as forças de Rommel antes que cruzassem a fronteira, dependiam não somente de razões militares, mas também geográficas. De fato, a fim de retirar-se para o interior da Líbia, as formações de Rommel deveriam cruzar as estreitas passagens montanhosas de Halfaya e Sollum. Nesses lugares, forçosamente, as unidades tinham que enfileira-se ao longo de muitos quilômetros. Constituiriam assim um excelente alvo para os bombardeiros da RAF. Em conseqüência, a ameaça de extermínio pendia, inexoravelmente, sobre os homens de Rommel.

 

O Afrika Korps escapa mais uma vez

 

Avançando lentamente, pára-choques contra pára-choques, uma gigantesca coluna de veículos italianos e alemães serpenteia ao longo de uma extensão de 40 km. A interminável fila de carros foi se aproximando das passagens nas montanhas. Surgiram, então, as dificuldades. Numerosos veículos, por falhas mecânicas e mesmo por falta de combustível, tiveram que deter a marcha. O trânsito, desta forma, foi parando gradualmente até ficar praticamente paralisado. Criou-se um gigantesco engarrafamento. O que Rommel temia, e que os ingleses previam. Os oficiais de intendência do Afrika Korps, imediatamente informaram Rommel, que se achava em Sidi Barrani, da situação catastrófica em que estava a coluna. De acordo com os cálculos da oficialidade, a retirada nessas condições, através das montanhas, demandaria pelo menos uma semana. Rommel imediatamente compreendeu que se não conseguisse acelerar a retirada, as colunas inglesas que avançavam em seus calcanhares cairiam sobre eles e completariam o aniquilamento do Afrika Korps.

 

Forças blindadas britânicas já haviam sido avistadas avançando ao sul de Marsa Matruh e a retirada das forças da 90a Divisão Ligeira alemã, que cobria a retaguarda nessa zona, se impunha. O caminho, a partir desse momento, ficaria desimpedido para os ingleses, já em condições de lançar-se sobre as colunas engarrafadas nas passagens da fronteira. Diante da alternativa crítica, Rommel não vacilou. Resolveu recuar a 90a Ligeira para evitar a sua destruição e, ao mesmo tempo, ordenou que se acelerasse ao máximo, e com toda a energia, a marcha das unidades através das passagens. Numerosos oficiais foram destacados para dirigir o trânsito da interminável coluna de veículos, determinando-se categoricamente: “A retirada prosseguirá dia e noite, sem nenhuma parada, mesmo quando a coluna for bombardeada ou atacada em vôo rasante pela RAF”.

 

Com esta resolução extrema, o chefe alemão deu novo impulso às tropas que tentavam, desesperadamente, escapar à destruição.

 

Nessa noite, os veículos alemães, apesar dos ataques incessantes dos aviões ingleses, prosseguiram a marcha ascendente através das colinas. O avanço, porém, continuava sendo desesperadamente lento. Muitos veículos foram atingidos pelas bombas e pelas rajadas das metralhadoras dos aviões ingleses, ocasionando contínuas paralisações e sucessivos engarrafamentos. Imediatamente, grupos de soldados se entregavam à tarefa de extinguir as chamas e tirar do caminho os restos dos veículos destroçados. A retirada se tingiu de contornos dramáticos: era necessário cruzar as passagens a qualquer custo. Assim, chegamos a 8 de novembro, dia decisivo para o desenvolvimento da guerra na África.

 

Pelas 8 da manhã, Rommel recebeu uma mensagem do Alto-Comando alemão. O marechal, ao terminar a leitura, estendeu-a, com uma expressão de extremo abatimento, ao seu chefe do Estado-Maior, General Bayerlein. Era a mais trágica notícia que podia chegar às mãos de Rommel nesse momento: as forças americanas e britânicas acabavam de desembarcar no Marrocos e na Argélia. O Afrika Korps ficava, a partir desse momento, entre dois fogos. O gigantesco cerco começa a se fechar.

 

Rommel resumiu a situação com uma frase lacônica: “Isso significa o fim do meu exército”.

 

O chefe alemão, apesar da terrível notícia, continuou levando adiante a sua decisão de salvar o exército. Transladou-se em seguida para as passagens, com a intenção de estudar objetivamente a situação e, com alívio, comprovou que a retirada se fazia numa velocidade maior do que a suposta. De acordo com o ritmo da marcha, podia-se calcular o cruzamento para uma questão de horas, o que permitiria às unidades que cobriam a retaguarda, integradas pelos restos das 15a e 21a Divisões Panzer e da 90a Ligeira, se colocarem também a salvo.

 

Na manhã de 9 de novembro, as passagens estavam praticamente desimpedidas. Apenas perto de mil veículos estavam ainda por cruzá-las. As perspectivas, apesar dos contínuos ataques da RAF, eram favoráveis para o êxito da operação.

 

Rommel determinou imediatamente que todas as forças que cobriam a retaguarda se somassem à retirada. No dia 11 de novembro, pela manhã, os últimos veículos da 90a Ligeira se internaram nas passagens e iniciaram o cruzamento. Pela tardinha, nenhuma força alemã restava do outro lado da fronteira da Líbia. Grupos de sapadores fizeram voar pelos ares, em vários pontos, a estrada, bloqueando-a ao inimigo. O que parecia impossível havia sido alcançado.

 

Evacuação na Cirenaica

 

Enquanto suas unidades recuavam, no outro lado da fronteira, Rommel já estudava a possibilidade de abandonar definitivamente a África do Norte. O chefe alemão havia recebido a notícia do desembarque de tropas alemães na Tunísia, destinadas a resistir ao avanço aliado; Rommel, porém, estava convencido da inutilidade da medida, em vista da esmagadora superioridade dos Aliados e da absoluta incapacidade das potências do Eixo em abastecer as tropas sediadas na África. Qualquer tentativa para continuar a luta, estaria, na opinião de Rommel, condenada ao fracasso, de saída. A oportunidade perdida diante de El Alamein não voltaria a repetir-se e Rommel sabia disso.

 

A retirada das forças do Eixo prosseguiu, portanto, em direção ao oeste. No dia 11 de novembro as colunas britânicas transpuseram o passo de Halfaya, continuando aceleradamente a perseguição. A 7a Divisão Blindada deslocou-se, num movimento de flanco através do deserto, para cortar as colunas inimigas antes de Tobruk. Essa manobra, contudo, não chegou a concretizar-se. Rommel, com seus homens, conseguiram escapar em direção a El Gazala, abandonando a cidadela de Tobruk, cuja conquista, a seu tempo, havia marcado o momento culminante da sua campanha e lhe valido o posto de marechal.

 

Os britânicos, entrementes, se viram obrigados a debilitar as forças que participavam da perseguição. A divisão neozelandesa teve que deter-se em Bardia, por causa da urgente necessidades de reabastecer-se e reorganizar-se. O avanço ulterior foi realizado pelas duas divisões blindadas, a 7a e a 1a .  A movimentação, contudo, viu-se muito dificultada pelos campos de minas e por todo tipo de obstáculos interpostos no caminho pelos sapadores alemães.

 

Porém, na noite de 12 de novembro ocuparam Tobruk e continuaram a perseguição. Os primeiro contingentes ítalo-alemães que caminhavam na vanguarda das colunas em retirada, atingiram, no dia seguinte, 13 de novembro, o desfiladeiro de Mersa el Brega, nos confins da Cirenaica. O grosso das forças, por sua vez, continuava ainda a marcha dentro do território citado, acossado pela falta de combustível e pela chuvas torrenciais que o castigavam ininterruptamente.

 

Nessas circunstâncias, os britânicos empreenderam, com forças da 7a Divisão Blindada, uma marcha através do deserto, para cortar a retirada das formações ítalo-alemães que recuavam pela costa. Esse mesmo movimento havia sido realizado no mês de fevereiro de 1941, quando os efetivos ingleses cercaram e aniquilaram, no mesmo setor, os restos do exército italiano do Marechal Graziani. Rommel, portanto, conhecia o perigo que a manobra inglesa encerrava, e assim julgou a situação: “Aquilo significava que devíamos sair da Cirenaica o quanto antes, se não quiséssemos ver o exército destruído em torno de Bengasi”. A força de ataque inglesa era, contudo, muito fraca e não pôde concretizar a operação que teria culminado com o extermínio do inimigo.

 

Entrementes, em Bengasi, os alemães destruíam já as instalações portuárias e os depósitos, em meio ao pânico que dominava a população civil italiana. Nas primeiras horas da manhã de 19 de novembro, a 90a Divisão Ligeira, última unidade que cobria a retaguarda, abandonou Bengasi e se retirou apressadamente pela estrada costeira até o reduto de Agedabia. Assim terminou a evacuação da Cirenaica. No mesmo ponto onde, dois anos antes, Rommel havia iniciado a sua marcha triunfal para o Egito, ocorria agora um episódio diametralmente oposta: suas forças batiam em retirada, vencidas e sem esperanças. Do antes poderoso Afrika Korps, somente restavam 15.000 exauridos soldados, dos quais unicamente 5.000 estavam armados. Dos 371 tanques que haviam combatido em El Alamein, apenas restavam 35, em petição de miséria. Das centenas e centenas de peças de artilharia e antitanques, apenas algumas dezenas de gastos canhões continuavam em uso. O combustível estava praticamente esgotado e só existiam reservas na ordem de 600 toneladas, em depósitos situados a centenas de quilômetros, na retaguarda.

 

A retirada final até a Tunísia

 

Entrementes, uma débil frente havia sido improvisada em Mersa el Brega, sob a direção do Marechal Bastico: três divisões de infantaria italianas e unidades da divisão blindada Centauro. Por trás dessa posição se retiravam os efetivos do Afrika Korps. Rommel, depois de inspecionar objetivamente o terreno, compreendeu que a posição era totalmente indefensável e disse a sua opinião aos marechais Cavallero e Kesselring quando estes visitaram, a 24 de novembro, o seu posto de comando. Rommel expressou, também, a sua intenção de evacuar por completo a Tripolitânia e formar, ao sul da Tunísia, uma frente defensiva em ligação com as forças ítalo-alemães que já se encontravam naquele território, Cavallero e Kesselring se manifestaram totalmente contrários a esse plano.

 

Rommel compreendeu que nada obteria com essas discussões e que necessitava uma entrevista imediata e pessoal com o Fuhrer. A 28 de novembro abandonou a África, de avião, e nessa mesma tarde, se entrevistou com Hitler, no QG de Rastenburg, na Prússia Oriental. Com sua habitual franqueza, Rommel expôs ao chefe supremo alemão a necessidade vital de encarar decididamente a evacuação total das forças da África do Norte. A reação de Hitler foi imediata. Enfurecido, o Fuhrer repeliu a proposta de Rommel e lhe determinou que não fizesse nenhuma retirada das posições de Mersa el Brega. Ao mesmo tempo, prometeu que seriam enviados todos os abastecimentos necessários. Hitler repetia, mais uma vez, uma promessa muitas vezes feita e nunca cumprida. Rommel abandonou o QG e, em companhia de Goering, dirigiu-se a Roma, para entrevistar-se com Mussolini. O Duce, assessorado por seus chefes militares, mostrou-se partidário da retirada, e autorizou o recuo até a localidade de Buerat, situada mais para o oeste.

 

O Marechal Rommel regressou então à África e, na noite de 6 de dezembro, emitiu, juntamente com o Marechal Bastico, a ordem de iniciar a retirada.

 

Partiram na vanguarda as forças motorizadas italianas, enquanto as unidades mecanizadas do Afrika Korps permaneciam em Mersa el Brega, para cobrir a retirada.

 

Na noite de 11 de dezembro, Montgomery lançou o ataque sobre Mersa el Brega, com a 51a Divisão escocesa atacando as forças de Rommel pela frente, enquanto a 2a Divisão neozelandesa faria um movimento envolvente pelo flanco sul, no dia 14. A falta de simultaneidade entre ambos os movimentos permitiu às forças mecanizadas alemães escapar facilmente da armadilha. Com efeito, ao ataque dos escoceses pela costa, Rommel pensou que a ofensiva geral tivesse começado e ordenou às suas forças abandonar, sem tardar, Mersa el Brega. Posteriormente, o chefe alemão classificou assim o frustrado ataque de Montgomery: “O chefe inglês cometeu apenas um erro. A experiência devia ter-lhe ensinado que não aceitaríamos batalha em Mersa el Brega. Era inútil começar o bombardeio dos pontos vitais e atacar nossa linha, antes que suas unidades de flanqueio tivessem completado o movimento e se encontrassem em condições de avançar para a costa, quando se iniciasse o ataque frontal”.

 

Escapando a sucessivas tentativas de cerco, as forças alemães conseguiram finalmente atingir a linha fortificada de Buerat a 29 de dezembro. Montgomery, entrementes, sem apressar o ritmo da perseguição, concentrou suas forças para efetuar um ataque, no dia 15 de janeiro, com as unidades do 30o Corpo de exército.

 

A demora de Montgomery em lançar suas forças à batalha concedeu a Rommel uma trégua que lhe permitiu, por sua vez, reagrupar suas desbaratadas unidades. Um novo fato veio debilitar ainda mais as escassa potência das forças do Eixo. Ante os avanços das tropas anglo-americanas na Tunísia, Rommel se viu obrigado a deslocar a 21a Divisão Panzer para defender aquele território. Essa unidade partiu rumo ao oeste na manhã de 13 de janeiro. No dia 15, o 8o Exército britânico passou ao ataque. Dois dias mais tarde, e diante das pressões sofridas em toda a linha, Rommel ordenou novamente que se empreendesse a retirada rumo a Trípoli. Esta cidade tampouco pôde ser defendida. Cerca de 450 tanques ingleses intervieram na operação e contra eles Rommel só podia opor 93 carros blindados.

 

A 20 de janeiro se iniciara as destruições em Trípoli, demolindo todas as instalações portuárias e depósitos de abastecimentos. Na noite de 22, iniciou-se a evacuação da cidade. A 23 de janeiro, as vanguardas do 8o Exército entravam em Trípoli. Em sua vitoriosa marcha, desde El Alamein, os ingleses haviam coberto, sem deixar de combater, uma distância de 2.250 km.

 

As tropas alemães e italianas se retiraram para o interior da Tunísia, sobre a linha Mareth, antiga posição fortificada construída pelos franceses. No dia 15 de fevereiro de 1943, as últimas unidades de retaguarda da 15a Divisão Panzer atingiram os redutos da linha fortificada.

 

A dramática retirada do Egito estava concluída. Estava em marcha a etapa final da luta na África do Norte.

 

A linha Mareth

 

Enquanto Rommel dirigia as operações da retirada para a Tunísia, em Roma o General Cavallero, chefe das forças armadas italianas, reorganizava o comando das tropas peninsulares que combatiam nas unidades do Eixo. Constituiu-se, assim, com todas as unidades italianas localizadas o sul da Tunísia, o 1o Exército, confiando-se o comando dessas tropas ao General Giovanni Messe. Este chefe recebeu, a 21 de janeiro, o comunicado da sua designação. Por sua vez, o Alto-Comando alemão enviou, cinco dias depois, uma mensagem ao Marechal Rommel, anunciando-lhe que, por causa do seu estado de saúde, seria relevado do comando quando suas forças chegassem à linha Mareth. Assumiria o comando de todas as unidades do Eixo o General Messe. Rommel respondeu à mensagem imediatamente, solicitando que Messe fosse enviado o quanto antes à África, para ser posto a par da situação.

 

Nesse mesmo dia, o chefe alemão inspecionou a frente da linha Mareth, a fim de estudar a possibilidade que existiam para a defesa. Essa linha, designada com o altissonante título de “Maginot do Deserto”, se estendia da costa para o interior, ao longo de 128 km. Consistia numa série de 27 antiquadas casamatas, situadas em uma posição avançada, construídas a prova de peças de artilharia leve. Existiam também algumas fortificações de campanha, destinadas à colocação de metralhadoras, canhões antitanques ou, no máximo, canhões de 75 mm. Os franceses haviam previsto a construção de uma segunda posição defensiva, formada de 21 redutos semelhantes. E ainda se havia iniciado a construção de uma terceira. Rommel assim classificou a linha: “Servia muito pouco, a não ser empregada como proteção contra a artilharia, e sendo a defesa efetuada de posições de campanha, situadas entre as casamatas... O planejamento da linha é muito ruim, por estar situada imediatamente atrás de terreno ligeiramente elevado, que impede a observação do artilheiro, e, ao mesmo tempo, dota os atacantes de uma zona excelente para controlar seu fogo...”.

 

Além disso, como Rommel demonstrou imediatamente, a linha Mareth podia ser flanqueda pelo sul, mediante o deslocamento de tropas mecanizadas. Portanto, solicitou ao Alto-Comando que deixasse de lado o projeto de resistir nessa posição e permitisse o recuo das forças do Eixo até a estreita franja situada entre o mar e o extenso lago salgado de Chott el Jerid. Porém, a solicitação não foi atendida. O marechal alemão teve que preparar-se, então, para repelir o ataque aliado, numa posição claramente desfavorável.

 

Anexo

 

Montgomery

O legendário Monty, vencedor em El Alamein, nasceu a 17 de novembro de 1887, em Kennington, Londres, onde seu pai, vigário, exercia seu ofício. Terceiro filho de numerosa família, passou a primeira infância na Tasmânia, para onde seu pai foi enviado como bispo, em 1889. A família regressou à Inglaterra em 1901 e o jovem Bernard foi educado na Saint Paul’s School. Posteriormente, ingressou na Academia Militar de Sandhurst e prestou importantes serviços na Primeira Guerra Mundial, como oficial, naquele conflito lhe foi concedida a medalha de Serviço Relevante por capturar um reduto alemão a ponta de baioneta. Foi ferido várias vezes; numa oportunidade, gravemente, permanecendo 4 horas na “terra de ninguém”. Recuperado, retornou à frente e ao terminar a guerra permaneceu com as tropas britânicas que prestaram serviço de vigilância no Reno. Durante esse período de sua vida militar foi agraciado com a “Croix de Guerre” francesa. Foi citado, também, seis vezes, nas ordens do dia. Depois de concluída a guerra. Montgomery prestou serviços na Inglaterra e nas colônias. Ao estourar a Segunda Guerra Mundial, Montgomery já era major-general e exercia o comando da 3a Divisão de Infantaria. Esta unidade, que esteve colocada na primeira linha de combate, teve destacada atuação na dramática campanha que se concluiu com a evacuação de Dunquerque. Nos últimos dias que antecederam a retirada das tropas britânicas, Montgomery exerceu o comando de um corpo de exércitos da força expedicionária, como subordinado do General Alexander. Posteriormente, passou a comandar as forças encarregadas da defesa do sudoeste da Inglaterra, nos momentos em que a invasão alemã era iminente. Participou, além disso, da fase inicial do planejamento do reide contra Dieppe. Quando o General Gott, escolhido por Churchill para comandante do 8o Exército na Líbia, morreu num acidente aéreo, foi indicado pelo Primeiro-Ministro para substituí-lo. A 12 de agosto de 1942, às vésperas do ataque final de Rommel contra a linha de El Alamein, tomou posse do cargo. Com sua característica energia conseguiu reavivar o moral dos combatentes do 8o Exército e deu início a uma intensa ação de reorganização e treinamento, que converteria a unidade em uma poderosa força de combate. A batalha de Alam Halfa que terminou com a derrota absoluta das forças alemães e italianas, se desenrolou sob sua direção. Posteriormente, planejou e efetuou a avassaladora ofensiva britânica que culminou com o triunfo de El Alamein e que se encerrou a 4 de novembro de 1942. Conduziu, em seguida, o 8o Exército, na sua longa e vitoriosa marcha pela costa da África, e dirigiu, mais tarde, as operações contra a linha Mareth, na Tunísia. Derrotado finalmente o Afrika Korps, comandou as forças britânicas na campanha de invasão da Sicília, e ao extremo da península. Em fins de dezembro de 1943, transladou-se à Inglaterra, ode interveio na preparação do desembarque aliado na Normandia. Designando comandante-chefe das forças aliadas na primeira etapa da invasão, foi diretamente responsável pelo resultado vitorioso das batalhas realizadas em Caen, Saint Lo e Falaise. Concluída a campanha da Normandia, quando o General Eisenhower assumiu o comando supremo, Montgomery exerceu a chefia do 21o Corpo de Exército britânico, encarregado de realizar a ofensiva sobre o baixo Reno. Em setembro de 1944 foi promovido a marechal-de-campo. Teve destacada atuação na batalhas das Ardenas, onde assumiu temporariamente o comando do 1o e 9o Exércitos americanos, além do 2o britânico e do 1o canadense. Em seguida dirigiu a invasão da Alemanha, no setor norte e, em maio de 1945, recebia a rendição de todas as forças alemães no norte da Alemanha. Dinamarca e Holanda.

Em 1946, recebeu, como prêmio pelos seus extraordinários serviços, o título de Visconde de El Alamein. Foi também agraciado com numerosas condecorações estrangeiras. Comandou o exército britânico de ocupação na Alemanha, e foi, depois, chefe do Estado-Maior imperial e da NATO. Retirou-se da vida militar em setembro de 1958.

 

 

Forças do Afrika Korps

Ao alcançar a posição de Mersa el Brega, as tropas de Rommel haviam sofrido terríveis perdas. A escassez de material era quase absoluta, como demonstram as seguintes cifras:

Divisões Panzer 15a e 21a:  De um total de 371 tanques, lhe restavam 35; carros blindados, de 60, restavam 16; de 246 canhões antitanques, 12; de 60 obuses, 12; de 8 peças de artilharia de 100 mm, 2 apenas.

90a Divisão Ligeira: Nenhum tanques (antes de El Alamein deveria receber 70 tanques, porém nunca foram enviados). Do total de 30 carros blindados, sobravam 4, e sua artilharia reduzia-se a 81 canhões antitanques e 7 obuses.

164a Divisão de Infantaria: Do total de 200 canhões antitanques, restavam 2; de 72 canhões de 88 mm, 40; e de 225 de 20 mm, apenas 60.

Brigada de pára-quedistas “Ramcke”: De 102 canhões antitanques, ficaram 21; de 80 peças de artilharia, 26.

O total de soldados em condições de combater chegava a 15.000, dos quais cerca de 5.000 possuíam armas.

 

 

A luta vista pelo General Brereton

Extrato do diário do General Lewis Brereton, comandante das forças aéreas americanas no Oriente Médio:

“Deserto Ocidental, 4 de novembro de 1942. A retirada do inimigo, que se iniciou ontem à noite, continua, e as estradas estão congestionadas, porém o deslocamento se realiza ordenadamente e mantendo os veículos dispersos. Apesar disso, nossos caças e caça-bombardeiros os castigaram duramente, e as perdas (do inimigo) foram tremendas. A 10a Divisão Blindada, deslocando-se velozmente através do deserto, flanqueou o inimigo que se retirava pela estrada costeira, e destruiu 54 tanques alemães e capturou 1.000 prisioneiros. O General von Thoma, que havia substituído o General Stumme, como segundo no comando, foi aprisionado quando realizava um reconhecimento pessoal a bordo de um tanque. Em entrevista com oficiais da Inteligência, o General von Thoma declarou que Rommel cometeu dois erros táticos ao preparar-se para resistir à ofensiva britânica: primeiro, concentrou seus blindados e canhões antitanques tão próximos da frente, no setor norte, que o fogo da artilharia lhe causou grandes baixas; segundo, distribuiu seus campos de minas de tal forma que ficaram fora do limite de observação de sua própria artilharia de apoio, o que permitiu que fossem cruzados muito mais facilmente. As duas críticas de von Thoma eram acertadas, porém esses erros não foram decisivos no resultado da batalha; a supremacia aérea cavou a sepultura de Rommel. Nossos ataques aéreos interromperam os seus abastecimentos através do Mediterrâneo e destroçaram os seus sistemas de transportes por terra. Estes dois fatores constituíram os pontos de partida para a vitória.

“Deserto Ocidental, 5 de novembro de 1942. Se a batalha continuar como até o presente, existem fortes razões para crer que as forças de Rommel serão destruídas. A noite de ontem foi a melhor até agora para os ataques aéreos. A estrada costeira esteve congestionada a noite inteira. Informa-se que se efetuou uma tremenda carnificina. Os transportes inimigos já não se detém nem se dispersam durante os nossos ataques. É evidente que o principal objetivo de Rommel é escapar com a maior parte dos soldados e equipamentos alemães possível, sacrificando seus aliados.

“Cairo, Egito, 6 de novembro de 1942. A coluna vertebral do poderio do Eixo foi rompida. Com exceção de ações de contenção, o inimigo já não pode oferecer uma resistência firme antes da posição de El Agheila, a 800 milhas a oeste de El Alamein. Pela tarde, os elementos da vanguarda do 8o Exército alcançaram Marsa Matruh. Informes do Alto-Comando assinalam que o moral do inimigo se acha profundamente abatido e que existem muitos casos em que os próprios combatentes, tanto alemães como italianos, giram seus veículos e rumam para o leste a fim de render-se. A contribuição americana para resolver o destino da batalha não foi de pouca monta. As unidades que tomaram parte foram o 57o Grupo de caça, reforçado com pilotos do 79o Grupo de caça; o 12o Grupo de bombardeiros médios; os 98o e 37o grupos de bombardeio e o 9o Esquadrão de bombardeio, equipado com B-17 que veio da Índia junto comigo. Durante os 14 dias da batalha, os aviões americanos realizaram 1.366 incursões. Desde 1o de outubro até o fim da batalha, confirmou-se a destruição de 45 aviões inimigos e se informou como possivelmente destruídos mais de 55. Milhares de toneladas de navios do Eixo foram avariadas e destruídas. O deserto ficou semeado com centenas de tanques e veículos motorizados, imobilizados ou destruídos por nossos ataques aéreos. Nossas perdas foram 4 caças, 1 bombardeio médio e 1 pesado”.

 

 

Cartas de Rommel

10 de novembro de 1942

Não pude escrever-te desde que o inimigo rompeu a frente de El Alamein, porém hoje te dedicarei um pouco mais de tempo. As coisas vão mal, como não podia deixar de ocorrer com um exército que se viu superado, e que tem de abrir caminho para escapar, perdendo ao mesmo tempo tudo quanto lhe restava de poder combativo. Não podemos resistir por muito tempo, porque nos acossa um inimigo superior.

13 de novembro de 1942

A batalha do norte da África se aproxima do fim. Isso acumula ainda mais obstáculos contra nós. E a decisão final não se fará esperar, pois as tropas estão esmagadas pela superioridade do inimigo.

14 de novembro de 1942

De novo, rumo ao oeste. Estou bem, porém acho que não preciso definir o meu estado de espírito. Devemos render graças por jornadas em que não somos acossados pelo inimigo. Não posso dizer até onde resistiremos. Tudo depende do petróleo que nos resta.

16 de novembro de 1942

Outro considerável passo para trás. Para piorar tudo, chove intensamente, dificultando ainda mais os nossos movimentos. Gasolina...

21 de novembro de 1942

As últimas jornadas transcorreram tranqüilas, dentro do possível. Não cessa de chover e a nossa existência está muito longe de ser cômoda, especialmente considerando que tenho morado no meu carro, ao ar livre.

11 de dezembro de 1942

Nosso abastecimento é tão ruim como de costume, e minhas preocupações não cessam nunca.

16 de dezembro de 1942

Acampamos numa pradaria coberta de fores. Desgraçadamente porém, temos que prosseguir a retirada, sem que existam indícios de que a situação melhore. Faltam 8 dias para o Natal. Pergunto-me onde estaremos quando essa data chegar...

18 de dezembro de 1942

Outra vez a luta recrudesce, com poucas esperanças de êxito, visto que carecemos de tudo. O destino pessoal de cada um se desvanece diante do problema coletivo do exército, mais amargo ainda, e as conseqüências e efeitos que decorrem dessa situação. Bastico mostrou-se ontem muito deprimido. A situação não melhorou no oeste, especialmente nos portos. Esperamos poder resistir alguns dias mais. Porém a gasolina escasseia e nada se pode fazer.

 

 

A perseguição

O General Giffard Martel, um dos mais destacados peritos militares britânicos em tropas blindadas, opina sobre a atuação do 8o Exército de Montgomery, na perseguição dos restos do Afrika Korps até a fronteira da Tunísia.

“O 8o Exército avançou mais de 2.250 km a uma velocidade média de 28 km/dia. A oposição não foi muito violenta, porém as forças encontraram o caminho impedido a maior parte do tempo, e na etapa final as demolições e as armadilhas inimigas impuseram um considerável atraso. Em Mersa el Brega e Buerat, o inimigo efetuou uma defesa firme, que causou também uma longa demora. Excluindo esses períodos, a velocidade média do avanço chegou a formidável cifra de 48 km/dia. Até então, nenhum exército havia conseguido nada semelhante. Desde logo, rendemos nosso tributo ao magnífico apoio brindado pela RAF e pela Armada. Do ponto de vista administrativo, o problema era único. A estrada de ferro terminava na fronteira original da Líbia e o transporte não ia além da estrada costeira, que amiúde era seriamente danificada pelas demolições inimigas. A Armada procurou dar a maior assistência possível, apesar de que os poucos portos existentes estavam todos sabotados. Às vezes, a aviação ajudava com o transporte aéreo, porém este se efetuou em reduzida escala. Pode servir como exemplo do esforço na questão de transporte o fato de que, durante uma semana, na última parte do avanço, se consumiram mais de 3.000.000 de galões de gasolina e 8.000 t de munições”.

“A cautela se impôs...”

“Como pudemos usar nosso 10o Corpo na perseguição, para assegurar a captura de todo o valioso pessoal do Afrika Korps? Até então (em El Alamein) tudo se reduzira a uma batalha de infantaria. Nesse sentido, o comandante do exército (Montgomery) pisava terreno firme, mas não se sentia tão seguro na condução de um corpo blindado. Na Inglaterra havia-se tropeçado com certa aposição, ao formar corpos dessa natureza.

Nas batalhas do Oriente Médio, os generais Norris e Lumsden havia dirigido corpos blindados com considerável êxito, mas seriam os primeiros a reconhecer que a falta de treinamento prático constituía uma desvantagem nítida com esse tipo de unidade. Em conseqüência, ninguém se sentia seguro. O comandante do 10o Corpo recebeu poucas instruções. Para cercar os efetivos do Afrika Korps em rápida retirada, teria que correr riscos consideráveis. Evidentemente, deveria ter recebido instruções a respeito desses riscos. Era essa a responsabilidade do comandante do exército, General Montgomery.

Neste caso, a preocupação do comandante do exército, naturalmente, era a possibilidade de que, depois de avançar, se visse obrigado a retroceder. Isso sucedera várias vezes. De fato, “A Begasi, ida e volta” se convertera numa expressão popular. A cautela então se impôs, emitindo-se instruções sobre as paradas a serem efetuadas em certas linhas. Embora fossem medidas acertadas, do ponto de vista do exército como conjunto, não deveriam ter sido impostas às formações avançadas do corpo blindado. Foi assim que Rommel teve êxito na tentativa de salvar a maior parte do seu pessoal altamente adestrado”.

 

 

Rommel diante de Hitler

28 de novembro de 1942. Rastenburg. Prússia Oriental. Primeiras horas da tarde.

Rommel, voando de Roma, desembarcou em território alemão. Imediata e rapidamente, é conduzido ao QG do Fuhrer.

São 16 horas quando Rommel faz sua entrada nos aposentos privados de Hitler. Ali é esperado por Keitel e Jodl. Após as saudações de praxe, uma fria conversa se entabula entre os três chefes. Keitel e Jodl se mostram, conforme dirá posteriormente Rommel, “extremamente sérios e reservados”.

Uma hora depois, às 17 horas, o marechal é chamado ao gabinete de Hitler e em seguida ingressa no salão. Imediatamente, a um sinal do Fuhrer, que acaba de responder à saudação do chefe alemão, Rommel começa a sua exposição. Descreve detida e minuciosamente, as operações na África, as batalhas, e a retirada. Seus interlocutores, sem interrompê-lo, tomam nota detalhada de tudo o que ele diz. Por fim, “demasiado bruscamente”, Rommel fala de retirada. Diz, que, como “não pode esperar melhora nos transportes”, é necessário proceder à evacuação das tropas. Se o exército continuar na África do Norte “será exterminado”.

A reação de Hitler, apesar de Rommel esperar por ela, o surpreende. O Fuhrer explode numa avalanche de impropérios. A maioria dos componentes do QG, “muitos dos quais jamais haviam ouvido um tiro na vida”, segundo Rommel, manifestam completo acordo com as palavras de Hitler. Evidentemente, a retirada não faz parte dos planos do Fuhrer. E isso é dito a Rommel. Este, pacientemente, faz notar aos presentes que apenas 5.000 dos 15.000 homens do Afrika Korps, e da 90a Ligeira, dispõem de armas. A violência verbal, ante estas palavras, cresce desmensuradamente. Uma acusação injusta e infundada cai sobre Rommel: as armas foram abandonadas por ele... A “Raposa do Deserto” reage violentamente e diz aos presentes, intencionalmente, que da Europa é impossível acompanhar o desenrolar das batalhas... Continua, em seguida, descrevendo as condições da luta no deserto, e o formidável poderio do inimigo, e termina vaticinando que os demais exércitos sofrerão idêntico destino “se os americanos puserem o pé no Continente”.

Hitler, porém, não cedeu em sua posição. Após declarar que sua decisão de resistir na Rússia, durante o inverno de 1941-1942, havia dado excelentes resultados, manteve a sua ordem: não haveria retirada de Mersa el Brega. Posteriormente, após prometer o envio de abastecimentos necessários, terminou a entrevista.

 

 

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