Fim da Luta na África do Norte

 

Desembarque Aliado na África do Norte

            

Operação Torch (Tocha)

 

 

Durante a conferência que Churchill e Roosevelt mantiveram em Washington, em dezembro de 1941, pouco depois da entrada dos Estados Unidos na guerra, foram amplamente discutidas as possíveis linhas de ação a seguir no futuro imediato. Os japoneses ainda não haviam iniciado seu arrasador avanço no Pacífico, e os chefes aliados acreditavam poder mantê-los a distância. Churchill, em conseqüência, propôs a Roosevelt que os Estados Unidos e a Inglaterra empreendessem uma ação conjunta ofensiva, no norte da África, como primeiro passo na luta contra a Alemanha, o inimigo mais importante nesse momento.

 

A 31 de dezembro de 1941, ao término da conferência, os chefes militares de ambos os países, fixaram seus objetivos, da seguinte forma: “Em 1942, os métodos para desgastar a resistência alemã serão: bombardeio aéreo sempre crescente, pelas forças britânicas e americanas. Ajuda à ofensiva russa, por todos os meios possíveis, e a realização de operações cujo principal objetivo será conquistar a totalidade da costa norte-africana”.

 

Estes planos, porém, foram logo desbaratados pela fulminante expansão militar japonesa no Extremo Oriente. Tanto os americanos como os britânicos se viram obrigados a desviar importantes contingentes de homens e de armas para o Pacífico. No dia 13 de janeiro de 1942, os chefes do Estado-Maior das forças armadas americanas enviaram um relatório a Roosevelt assinalando-lhe a necessidade de deixar de lado as operações previstas para o norte da África, até que se conseguisse equilibrar a situação no Extremo Oriente. Este compasso de espera deu lugar ao surgimento de novos projetos, sugeridos pelos altos chefes militares. Entre estes últimos se destacava o General Eisenhower, que ocupava um alto cargo no Estado-Maior. Eisenhower defendia a tese de concentrar a quase totalidade do poderio bélico aliado na luta direta contra a Alemanha, em território europeu. Essa ação seria iniciada por uma ofensiva aérea maciça seguida, o quanto antes, por um desembarque em grande escala de tropas.

 

No dia 16 de março, os chefes do Estado-Maior aprovaram o projeto de Eisenhower. Dias mais tarde, foi submetida à apreciação do Presidente Roosevelt, que, depois de algumas vacilações, aprovou-o, determinando que o General Marshall se dirigisse a Londres junto com seu assessor pessoal, Harry Hopkins, para conseguir o apoio dos britânicos. O plano, em linhas gerais, previa o desembarque de 30 divisões americanas e 18 britânicas, apoiadas por 5.500 aviões, na costa francesa, mediante um ataque através do canal da Mancha. A ação se iniciaria nos primeiros dias do mês de abril de 1943; como alternativa, elaborou-se também outro projeto, sob o nome chave de Sledgehammer, pelo qual se previa a realização de um desembarque em grande escala na França, no outono de 1942, em caso da resistência soviética vir a fraquejar. Este ataque obrigaria os alemães a retirar grande quantidade de forças da frente russa, aliviando assim a pressão exercida sobre os exércitos soviéticos.

 

 

Churchill se opõe ao plano dos EUA

 

Seguindo as instruções de Roosevelt, Marshall e Hopkins viajaram para Londres, onde informaram Churchill e os chefes militares britânicos dos detalhes do novo plano. A 14 de abril, os dirigentes ingleses formalizaram o seu acordo com o plano proposto por Marshall, condicionando, porém, o consentimento, a que se mantivesse uma considerável força de homens e armas no Extremo Oriente, para defender a Índia, a Austrália e a Nova Zelândia, dos japoneses.

 

Marshall e Hopkins abandonaram Londres certos de terem chegado a um acordo definitivo com os britânicos. Contudo, Churchill e seus assessores militares mostraram-se, mais tarde, contrários à execução do projeto. Consideravam que as conversações se destinavam a fixar os planos, porém não datas definitivas. O primeiro-ministro, especialmente, achava que a invasão em 1943, ou possivelmente 1944, se apresentava como uma aventura, a menos que o poderio da Alemanha fosse consideravelmente debilitado. Para Churchill, a invasão deveria ser o episódio que encerraria as operações; de fato, o primeiro-ministro considerava que somente depois de limpar a África do Norte, eliminar a Itália da luta, e alcançar um equilíbrio favorável na Rússia, se poderia levar a cabo a operação. Na reunião do gabinete de guerra britânico a 11 de junho resolveu-se definitivamente que a invasão seria efetuada somente quando as operações na Rússia se tivessem tornado totalmente desfavoráveis para os alemães.

 

Uma vez obtida a aprovação no seio do seu próprio governo, Churchill viajou a Washington para dissuadir Roosevelt. As conversações mantidas entre ambos os chefes de estado se estenderam de 19 a 25 de junho de 1942. O líder inglês utilizou todos os seus recursos, diante do presidente americano e de seus assessores, para impor os seus pontos de vista; ofereceu, como alternativa, o desembarque na África do Norte. O General Marshall rebateu energicamente esse argumento, lembrando que a crítica situação da Rússia não permitia adiar as operações; de fato, sustentava o chefe americano, as tropas alemães podiam chegar a dominar a situação na União Soviética, a ponto de poder retirar forças da frente e enviá-las ao oeste, sem ameaçar a sua segurança. Além disso, um desembarque no norte da África, em 1942, absorveria uma grande parte das forças necessárias para o ataque planejado contra a França no ano seguinte. As discussões, por fim, chegaram a seu término, sem que se alcançasse qualquer acordo.

 

Porém, o agravamento da situação na África, onde Rommel havia conquistado Tobruk e iniciava a marcha para o delta do Nilo, obrigou os americanos a entregar aos britânicos grande parte do material bélico - tanques, canhões autopropulsados, etc. - que reservavam para a operação projetada. Assim, todas as circunstâncias se inclinavam em favor do plano de Churchill. Este, de regresso a Londres, resolveu tomar uma atitude terminante e, em carta enviada a Roosevelt a 8 de julho, lhe comunicou: “Nenhum general, almirante ou marechal-do-ar britânico responsável está disposto a considerar o plano Sledgehammer, como uma operação realizável em 1942”. E acrescentava: “Tenho certeza que a África do Norte francesa constitui a melhor oportunidade para ajudar a frente russa em 1942... para mim, ali está a verdadeira frente de combate, em 1942”.

 

A atitude convicta de Winston Churchill se impôs finalmente. Roosevelt passando por cima da oposição de Marshall e do Secretário de Guerra Stimson, que propunham não secundar a iniciativa britânica na África, e deslocar suas forças para a frente do Pacífico, determinando que se chegasse a um acordo com os ingleses. Se os britânicos continuassem negando-se a participar de uma invasão através do Canal da Mancha, em 1942, devia-se pôr em marcha a operação da África antes do fim desse ano.

 

Marshall, o Almirante King e Harry Hopkins, viajaram novamente a Londres e, a 24 de julho, depois de insistir, sem êxito, em seu primitivo projeto, tiveram que aceitar os pontos de vista ingleses.

 

No dia 30 de julho, Roosevelt comunicou ao chefe do Estado-Maior das forças americanas que, como comandante-chefe, havia decidido que a operação na África do Norte devia ser iniciada o quanto antes, e teria precedência sobre as demais ações planejadas. Foi assim tomada, definitivamente, a decisão de realizar o desembarque. A operação foi cognominada Torch.

 

Como chefe das forças aliadas foi designado o General Eisenhower, que exercia já o comando das tropas americanas estacionadas na Inglaterra. Uma vez obtida o pleno apoio de Roosevelt, Churchill decidiu viajar a Moscou para comunicar a Stalin que não haveria segunda frente naquele ano, no continente europeu, mas que, em compensação, os Aliados se propunham a realizar um esforço decisivo no Mediterrâneo, para anular o poderio do Eixo nesse setor. A 12 de agosto, depois de escalar no Egito, onde reorganizou o comando do 8o Exército, o primeiro-ministro inglês chegou a Moscou. Entrevistou-se logo com Stalin e, numa série de discussões carregadas de mútuas recriminações, detalhou ao líder russo os planos aliados.

 

Posteriormente, Churchill relatou aos generais Eisenhower e Clark alguns aspectos da entrevista: “Quando estive em Moscou, Stalin e eu conversamos de cartas na mesa e confesso que, em alguns momentos me vi em apuros. Stalin disse que a luta que se travava lá demonstrava que o Exército alemão não era tão invencível como se jactava. Disse-me: “Por que não fazer algo?” e me vi na obrigação de admitir que ainda não podíamos cruzar o Canal da mancha. Depois lhe contei do plano Torch e lhe disse que pensávamos colocá-lo em marcha. Logicamente, Stalin ficou contrariado quando se inteirou de que naquele ano não haveria segunda frente na Europa, porém quanto mais refletia sobre o ataque à África do Norte, mais lhe agradava a idéia”.

 

Acende-se a “Tocha”

 

A 13 de agosto de 1942, os chefes do Estado-Maior anglo-americano determinaram ao General Eisenhower os detalhes finais que puseram em ação o Plano Torch. O documento fixava claramente o objetivo: “O presidente (Roosevelt) e o Primeiro-Ministro (Churchill) resolveram que sejam dirigidas operações militares combinadas contra a África, tão logo seja possível, tendo em vista conquistar, em conjunto com as forças aliadas do Oriente Médio, o controle completo na África do Norte, desde o Atlântico até o Mar Vermelho.

 

Eisenhower entregou-se imediatamente à tarefa de organizar suas forças e planejar o ataque. Designou como seu lugar-tenente o General Mark Clark, e chefe das forças aéreas o General-de-Brigada Jimmy Doolittle. O comando da frota de invasão ficaria a cargo do Almirante Sir Alan Cunningham. As tropas de terra britânicas seriam comandadas pelo General Kenneth Anderson.

 

Um primeiro projeto de ataque foi elaborado. A invasão se realizaria por intermédio de três grupos de desembarque; um deles, a Força-Tarefa Ocidental, partiria diretamente de portos americanos e ocuparia Casablanca, na costa Atlântica do Marrocos francês; o comando das tropas desse grupo estaria a cargo do General Patton. As outras duas forças zarpariam de portos britânicos e, atravessando o estreito de Gibrlatar, ocupariam os portos argelinos de Orã (Força-Tarefa Central) e Argel (Força-Tarefa Oriental). Eisenhower instalaria o seu posto de comando ma base britânica de Gibraltar, de onde dirigiria o desembarque.

 

A 22 de agosto, uma vez delineado em termos gerais o plano de invasão, fixou-se provisoriamente a data do início da operação Torch para 15 de outubro.

 

Desde o primeiro momento, o êxito da operação ficou condicionado a uma série de fatores imprevisíveis. Entre eles, estava uma possível intervenção da Espanha em favor do Eixo; a reação das forças armadas francesas do governo de Vichy, estacionadas na África do Norte, que totalizavam umas 14 divisões e a possível e rápida intervenção dos alemães, no caso de que a informação do projetado ataque chegasse até eles antes de começar. Se ocorresse esta última possibilidade, os alemães poderiam ocupar a Tunísia e a Argélia antes que o desembarque se concretizasse.

 

Churchill, que acabava de regressar a Londres no dia 24 de agosto, encarou os problemas citados com otimismo. Em carta a Roosevelt, enviada dois dias mais tarde, manifestou-lhe: “Esta operação, tal como eu a vejo, é essencialmente política em seus fundamentos. A primeira vitória que teremos que ganhar é evitar uma batalha. A segunda, se não pudermos evitá-la, é procurar ganhá-la...”.

 

Para o primeiro-ministro, a eventual resistência das forças do regime de Vichy poderia ser anulada mediante um grande deslocamento de forças, o maior possível, no momento do primeiro ataque, e simultaneamente, o maior número de desembarques possível, em pontos diferentes, dando assim a palpável impressão de um ataque devastador.

 

Churchill definia assim a operação prevista: “Uma tentativa audaz, atrevida, para conseguir conquistar uma vitória sem derramamento de sangue, pode obter uma extraordinária recompensa”. Os chefes americanos, em Washington, porém, se mostravam reticentes quanto a estender as operações ao interior do Mediterrâneo, temendo que as tropas empregadas na ação fossem surpreendidas por um ataque alemão ou espanhol.

 

Divergências no comando aliado

 

Na madrugada de 25 de agosto, o General Clark foi arrancado do leito pela chegada de um insólito telegrama destinando a Eisenhower, enviado de Washington pelo General Marshall. A mensagem dizia: “A junta de chefes do Estado-Maior americano crê que Torch é uma operação em escala excessiva, e que se devem modificar os planos de maneira a eliminar a zona de Argel, tendo em vista as limitadas forças militares disponíveis. O risco é muito grande, especialmente considerando a sua gravidade do efeito que o fracasso dos Estados Unidos, em sua primeira operação importante, teria nos povos da Europa ocupada, da Índia e da China. A operação deve limitar-se a um ataque americano à zona de Casablanca e Orã, seguido mais tarde pelo avanço de forças britânicas”.

 

A notícia causou enorme desalento, tanto em Churchill, como em Eisenhower e seus lugares-tenentes. O General Clark assim definiu a situação: “Mesmo que capturássemos setores de Orã e Casablanca, não teríamos melhorado a situação estratégica dos Aliados no teatro Mediterrâneo-África do Norte, que era finalidade essencial da Torch... com as operações limitadas propostas, não poderíamos impressionar suficientemente os franceses para fazê-los aderir à nossa causa... No nosso entender, nenhuma dúvida cabia que desembarcar, tanto a leste de Argel, ou em Bone, era um risco calculado, porém que valia a pena correr se quiséssemos utilizar a África do Norte como trampolim para atacar o continente europeu”. Churchill, por sua vez, considerou a alteração dos planos como um golpe fatal para a Torch e escreveu imediatamente a Roosevelt, pedindo a reconsideração da medida. Roosevelt, na sua resposta a 30 de agosto, declarou ao primeiro-ministro que o principal inconveniente para estender os desembarques a Argel estava na falta de barcos de guerra e de transporte. Na mesma comunicação, porém, o presidente americano prometia a Churchill que estudaria detidamente as disponibilidades navais, e que tentaria usar todos os recursos a fim de tornar possível o terceiro desembarque.

 

No dia 3 de setembro, Roosevelt escreveu novamente a Churchill comunicando-lhe que o ataque a Argel também seria efetuado. Especificou a quantidade de forças que os Estados Unidos empregariam na ação. Em Casablanca, 34.000 soldados na primeira leva, e 24.000 na segunda. Em Orã, 25.000 e 20.000 respectivamente. Em Argel, 10.000 soldados na primeira leva, aos quais se uniriam, numa segunda fase, os efetivos britânicos (23.000 homens). Desta forma ficou definitivamente superado o desacordo que obstaculizava o desenvolvimento da ação. Já nada podia impedir o desembarque. No dia 22 de setembro, se tomou em Londres a decisão final. Numa reunião do Alto-Comando Aliado, que foi assistida pelo Primeiro-Ministro Churchill, fixou-se a data do ataque para o dia 8 de novembro de 1942. A operação Torch se poria em marcha na forma coordenada com o ataque que o 8o Exército, sob as ordens de Montgomery, desencadearia, a 23 de outubro, contra as forças alemães do Marechal Rommel. Assim, entre dois fogos, as forças ítalo-alemães seriam definitivamente aniquiladas.

 

Hitler ante a Operação Torch

 

A 9 de outubro de 1942, o Conde Ciano, genro de Mussolini e ministro das Relações Exteriores da Itália, registrou no seu Diário os seguintes fatos: “Longa conversa com o General Amé chefe do SIM (Serviço de Informações Militares). Claramente pessimista. Todas as informações e considerações levam à conclusão de que os anglo-saxões se preparam para desembarcar, com grandes forças, na África do Norte, de onde pensam, depois, atacar o Eixo. Geográfica e logicamente, a Itália é o primeiro objetivo”. Esta reflexão de Ciano demonstra claramente que o Alto-Comando italiano previa já o iminente ataque contra a África do Norte, e mesmo contra o seu próprio país. Já em 1941, Mussolini havia escrito a Hitler incitando-o a ocupar a Tunísia para assegurar a retaguarda das forças do Eixo que nesse momento combatiam na Líbia e, além disso, contar com uma base de suprimentos muito próxima do território italiano. O Fuhrer, na ocasião, não prestou a menor atenção ao pedido do Duce. Tampouco agora, em outubro de 1942 e nas vésperas do ataque aliado, cedeu ao pedido do Estado Maior alemão, para que outorgasse ao governo francês de Vichy a autorização correspondente a fim de que este enviasse tropas de reforço à África do Norte, para consolidar a situação militar da região e dificultar, por conseguinte, qualquer tentativa de desembarque aliado. O ditador alemão estava convencido de que os Aliados não levariam a cabo nenhum ataque naquela zona. Por isso, em meados do mês de outubro, comissionou o General von Rintelen para que advertisse o Alto-Comando italiano de que a Alemanha se opunha a qualquer intervenção armada na Tunísia. Uma vez mais, Hitler demonstrava a sua falta de visão ante um perigo que era por demais evidente.

 

Assim, poucos dias depois de iniciada a ofensiva de Montgomery em El Alamein, declarou a seus assessores estar convencido de que os Aliados, se atacassem no Mediterrâneo ocidental, não o fariam contra a África do Norte, mas contra a ilha de Córsega.

 

O Estado-Maior alemão, porém, realizou um estudo, naqueles dias, sobre a situação e, apesar dos poucos informes sem eu poder, deduziu, acertadamente, que a África do Norte francesa era o setor mais indicado para uma operação ofensiva por parte dos Aliados. Esta análise, contudo, dava como data provável para a realização do desembarque a primavera de 1943. O Comando alemão, e mesmo o seu líder supremo, o Fuhrer, demonstravam estar muito longe da realidade. Esta cegueira persistiu mesmo depois de ter recebido informes concretos acerca da concentração de barcos aliados em Gibraltar. Os italianos, em troca, vislumbraram claramente o perigo que ameaçava as forças do Eixo, e até o seu próprio território continental. Mussolini compartilhou as inquietudes do Alto-Comando, porém não conseguiu demover Hitler do seu erro.

 

A 6 de novembro, dois dias antes da invasão, Hitler, que, na ocasião, se achava no seu QG na Prússia, ordenou a Goering que comunicasse ao Marechal Kesselring, chefe das forças alemães no Mediterrâneo, que se os Aliados realmente tencionavam desembarcar em grande escala no Mediterrâneo ocidental, o fariam fixando como objetivo as ilhas da Córsega ou Sardenha ou, talvez e muito improvavelmente, os portos líbicos de Derma ou Trípoli. Na manhã de 7 de novembro chegaram ao QG do Fuhrer os últimos informes acerca da situação no Mediterrâneo. Os serviços da marinha haviam detectado a concentração de grandes forças navais aliadas de guerra e transporte na boca do estreito de Gibraltar e deslocando-se para o interior do Mediterrâneo. A dramática notícia deu lugar a uma série de ásperas discussões sobre os possíveis destinos e propósitos dessa força. O Fuhrer, uma vez mais, enganou-se em sua apreciação. De acordo com a sua opinião, os Aliados preparavam provavelmente um desembarque, com quatro ou cinco divisões, em Trípoli ou Bengasi, com intenção de apanhar pelas costas as forças de Rommel em retirada. Por conseguinte, o Fuhrer ordenou que se adotassem todas as medidas possíveis para enfrentar a provável ofensiva aliada e que, em Trípoli e em Bengasi se construíssem defesas de urgência. Exigiu também que a Luftwaffe, no Mediterrâneo, fosse imediatamente reforçada. Foi informado, a respeito desta última decisão, que seria impossível, pois não existiam reservas disponíveis. Todos os aviões alemães se achavam em operações. Em seguida, comunicou ao Marechal von Rundstedt, comandante-chefe das forças alemães na Europa ocidental, o alerta para a efetuação da operação Anton. Sob esse nome se escondia o plano de ocupação militar, de surpresa, da França de Vichy.

 

Tomadas essas disposições, o Fuhrer, acompanhado pelos chefes da Wehrmacht, von Keitel e Jodl, embarcou num trem que o conduziu à Alemanha. Seu destino: Munique. Ali teria, na tarde do dia seguinte, 8 de novembro, de pronunciar o tradicional discurso anual aos velhos membros do Partido Nazista, em comemoração do aniversário do putsch de 1923. Desta forma, no momento, talvez mais crítico da guerra, quando os Aliados estavam a um passo de desembarcar na África do Norte,  e os soviéticos realizavam os últimos preparativos para lançar a sua contra-ofensiva em Stalingrado, Hitler, num ato de inexplicável divórcio da realidade, permitiu que sua personalidade como político sobrepujasse a sua responsabilidade como condutor militar. De fato, ao viajar para Munique, acompanhado por Keitel e Jodl, deixou praticamente acéfalo o QG da Prússia. Ali permaneceu, como substituto, um simples coronel.

 

Enquanto o comboio viajava para Munique, o Fuhrer e seus assessores prosseguiram analisando a ameaçadora situação do Mediterrâneo. Continuavam ainda convencidos de que a iminente invasão não estava dirigida contra a África do Norte. Às 20 horas, um oficial entregou ao Fuhrer uma mensagem urgente; ela dizia que a movimentação dos navios aliados indicava que eles não se propunham a continuar a navegação para além do estreito da Sicília. O enigma ficava então definitivamente esclarecido. O que Hitler e seus assessores haviam-se recusado a acreditar durante dias, era já um fato concreto: o desembarque anglo-americano se produziria no Marrocos e na Argélia.

 

Invasão!

 

A 24 de outubro de 1942, fez-se ao mar, dos portos dos Estados Unidos e das Bermudas, a Força Tarefa Ocidental. Escoltava os 31 transportes de tropas e material uma frota de apoio, sob o comando do Contra-Almirante Hewitt, e  integrada por quatro porta-aviões, três encouraçados, sete cruzadores e 38 destróieres. Este grupo de invasão conduzia 35.000 soldados americanos e 250 tanques, sob as ordens do General Patton. Seu objetivo era Casablanca, na costa atlântica do Marrocos. Nesse porto se encontravam importantes unidades da frota francesa sob o comando do Almirante Michelier: o encouraçado Jean Bart, o cruzador Primouguet, destróieres e submarinos.

 

Os Aliados confiavam em que o chefe da guarnição, General Béthouart, se uniria às forças invasoras, pois havia mantido contatos secretos com os agentes americanos no Marrocos. É de destacar que, até esse momento, os Estados Unidos mantinham relações diplomáticas com o governo francês de Vichy, o que facilitou a ação conspiratória dos Aliados. A ação de Béthouart, porém, foi frustrada, pois o General Nogues, residente-geral francês no Marrocos, se negou a participar da confabulação e deu ordens às forças navais e terrestres para resistir.

 

Os navios que conduziam as tropas de Patton se acercaram da costa marroquina e, aproximadamente às 4 da madrugada, desembarcaram as unidades em ambos os flancos de Casablanca, Port Liautey e Fedal, ao norte, e Safi, ao sul.

 

As primeiras tropas conseguiram ganhar terra firme, sem praticamente encontrar oposição. Depois, no entanto, os franceses, seguindo as ordens de Nogues ofereceram resistência. A luta foi encarniçada, principalmente em Port Liautey. Em Casablanca, entrementes, os barcos franceses apoiados pelas baterias costeiras, ofereceram uma violenta oposição à naves aliadas. O encouraçado Jean Bart, imobilizado na enseada, abriu fogo com seus gigantescos canhões de 15 polegadas, e o cruzador Primauguet e cinco destróieres lançaram-se ao ataque da frota inimiga. O desigual combate, porém, não tardou a definir-se. Sete naves francesas, entre as quais o Primauguet, foram afundados, e o Jean Bart, gravemente danificado pelos projéteis do encouraçado americano Massachussetts, ficou encalhado junto à costa. Cerca de 1.000 marinheiros franceses perderam a vida ou ficaram feridos na batalha. Esmagada a oposição inimiga, as forças dos EUA não tardaram a consolidar a sua conquista das praias e, no dia 9, iniciaram a marcha para o interior. O General Nogues, porém, não se rendeu até 11 de novembro, quando recebeu de Argel a ordem do Almirante Darlan de terminar a luta. Foi em Argel, efetivamente, que tiveram lugar os acontecimentos decisivos que culminaram com a cessação da resistência por parte das forças de Vichy.

 

As unidades da Força Tarefa Oriental, encarregada da conquista de Argel, haviam zarpado da Inglaterra entre 22 e 26 de outubro de 1942. Uma frota comandada pelo Almirante britânico Burroughs, integrada por três cruzadores, dois porta-aviões e numerosas naves auxiliares, escoltou os 16 navios transportes que conduziam os 33.000 soldados americanos e britânicos. As forças de terra seriam comandadas na fase de desembarque pelo general americano Ryder. Posteriormente, o comando passaria para as mãos do general inglês Anderson, o qual, uma vez ocupado o porto, empreenderia sem tardar o avanço rumo a Túnis. Em Argel se desenvolveu o principal esforço conspiratório aliado para obter a adesão dos chefes militares franceses. O comandante-chefe das forças das África do Norte, General Juin, era considerado como o homem que lideraria o levante. Porém, um acontecimento acidental dificultou até o último momento a concretização desses planos, nos quais havia tido decisiva atuação Robert Murphy, representante diplomático americano na África do Norte. Com efeito, o Almirante Darlan, chefe-supremo das forças armadas do regime de Vichy, depois de completar um giro de inspeção pelo norte da África, havia regressado à França, porém, repentinamente, voltou a Argel, no dia 5 de novembro, pois um filho seu, residente nessa cidade, acabava de ser vitimado pela paralisia infantil. A presença de Darlan, até esse momento rancoroso adversário dos Aliados, alterava por completo os planos subversivos. Murphy porém, à meia noite de 7 de novembro, quando já faltavam poucas horas para o desembarque das tropas aliadas, resolveu comunicar a Juin que a invasão estava a ponto de concretizar-se. Essa notícia tomou o general francês totalmente de surpresa. A presença de Darlan, inesperada, introduzia um elemento dissociado dos planos de Juin, ao mesmo tempo que o privava de autoridade sobre as tropas; estas, por motivos hierárquicos, estavam sob as ordens de Darlan.

 

Murphy e Juin, decididos a arriscar tudo, chamaram Darlan com o objetivo de manter com ele uma entrevista. Essa reunião, contudo, teve um final adverso. Darlan se opôs terminantemente a secundar os planos de Juin e mandou prender Murphy. Entrementes, as forças aliadas haviam iniciado, pouco depois da uma da madrugada desse dia, 8 de novembro, o desembarque a leste e a oeste de Argel. Os Aliados encontraram pouca resistência nas praias, porém a tentativa de dois destróieres britânicos carregados de soldados de irromper inesperadamente no porto foi desbaratada pelas baterias costeiras inimigas.

 

Darlan, nesse momento, estava em seu QG e, às 7h40 da manhã enviou um cabograma a Pétain, anunciando-lhe o ataque aliado, e comunicando-lhe que as defesas seriam rapidamente superadas. Isso foi o que efetivamente ocorreu. Às 19 horas as forças francesas de Argel capitularam. Duas horas antes, Darlan havia enviado uma nova mensagem a Pétain, dizendo: “Tropas americanas entraram na cidade, apesar da nossa resistência. Autorizei o General Juin, comandante-chefe, a negociar unicamente a rendição de Argel”. Juin, por sua vez, ao completar-se a vitória aliada, assumiu novamente o comando das forças francesas.

 

Darlan abandona Vichy

 

Do seu QG em Gibraltar, o General Eisenhower havia acompanhado, minuto por minuto, o desenvolvimento das operações. Manteve ali, também, uma entrevista com o general francês Giraud, que fôra trazido da França num submarino britânico, a fim de lhe confiar o comando-supremo das forças francesas. Na manhã de 9 de novembro, Giraud se transladou a Argel, porém foi recebido muito friamente pelos oficiais do exército francês. Este acontecimento desbaratou por completo os planos dos Aliados. O General Clark, segundo de Eisenhower, diante da crítica situação, decidiu substituir Giraud por Darlan, pois este era quem podia exercer, com absoluta autoridade, a chefia das tropas de Vichy que ainda resistiam na Argélia e no Marrocos. Com efeito, no porto de Orã, onde desembarcava a Força Tarefa Central, a luta continuava, assim como em Casablanca. Era necessário economizar o sacrifício inútil de vidas que aquela luta sem sentido significava, e, ao mesmo tempo, acelerar a progressão das operações para atacar a Tunísia e impedir que os alemães se fortalecessem nesse território.

 

Clark entrevistou-se com Darlan na manhã de 10 de novembro e lhe concedeu meia hora para que decidisse a posição. O Almirante, finalmente, cedeu. Rapidamente, emitiu ordens para que todas as tropas que ainda resistiam na África do Norte, cessassem o fogo.

 

A reação de Hitler

 

Quando o Fuhrer chegou a Munique nas primeiras horas da tarde de 8 de novembro, recebeu informes detalhados acerca da invasão aliada. Eram, porém, otimistas, e afirmavam que os franceses haviam conseguido rechaçar as tentativas de desembarque em Argel e Orã e que o Almirante Darlan estava organizando as defesas, com a aprovação do governo de Vichy.

 

As primeiras reações do Fuhrer foram convocar urgentemente para uma conferência o Conde Ciano e Pierre Laval, primeiro-ministro do governo colaboracionista de Vichy. Ao mesmo tempo, ordenou ao Marechal von Rundstedt que pusesse em marcha a operação Anton, porém com determinações expressas de não cruzar a linha demarcatória da fronteira da França de Vichy, até que recebesse novas ordens. No dia seguinte, 9 de novembro, reuniu-se com Ciano e lhe comunicou que não alimentava nenhuma ilusão a respeito do desejo dos franceses de continuarem lutando. Anunciou, também, que havia resolvido ocupar a totalidade do território francês e a ilha de Córsega e, além disso, estabelecer o quanto antes uma cabeça-de-ponte na Tunísia. No dia seguinte, 10 de novembro, Laval chegou a Munique e foi logo recebido por Hitler. Este lhe comunicou o que já havia dito a Ciano, porém se absteve de dar-lhe a conhecer o momento em que levaria à prática os seus planos.

 

Às 8h30 da noite, Hitler enviou a von Rundstedt o sinal decisivo para iniciar a operação Anton. Na manhã seguinte, 11 de novembro, Laval foi despertado pelo embaixador alemão Otto Abetz que, em tom solene, anunciou: “O Fuhrer ordenou ao Exército alemão que ocupasse hoje a zona livre da França”.

 

Nesse momento, as forças de von Rundstedt já haviam cruzado a linha demarcatória e, sem encontrar nenhuma oposição, marcharam para o Mediterrâneo, via Marselha e Toulon, a principal base da frota francesa.

 

A 13 de novembro, Hitler assegurou a Pétain que as tropas alemães não ocupariam Toulon. A base estava rodeada pelos efetivos alemães. O Almirante Laborde, comandante da frota francesa no Mediterrâneo, havia feito um acordo com os chefes alemães, segundo o qual as tropas francesas da marinha custodiariam uma zona livre que rodeava a base.

 

De Argel, o Almirante Darlan, pressionado pelos Aliados, havia enviado mensagem a Laborde, convidando-o a transladar-se com a frota para a África do Norte. Laborde, que era um fanático antibritânico, negou-se terminantemente. Hitler, entrementes, decidira não correr mais riscos e, a 25 de novembro, deu ordem de iniciar a operação Lila, palavra chave que designava um movimento militar tendente a ocupar Toulon, e capturar a frota francesa. No dia 27, as tropas alemães atacaram o porto, porém a marujada francesa, seguindo as ordens de Laborde, resistiu e conseguiu contê-las. Enquanto isso, no cais, 73 barcos de guerra foram inutilizados e afundados. Desta forma, o Almirante Laborde frustou a tentativa alemã de apoderar-se da frota de guerra francesa.

 

Avanço sobre a Tunísia

 

Na tarde de 9 de novembro, começaram a chegar à Tunísia, por via aérea, os primeiros contingentes alemães. A esses, seguiram-se dois regimentos de pára-quedistas e quatro batalhões de infantaria. A estas unidades se somaram, posteriormente, os efetivos da 10a Divisão Panzer e a divisão de infantaria italiana “Superga”.

 

O chefe das forças francesas locais, General Barré, passou-se, com o grosso de suas tropas, para o lado aliado, com o que a resistência na Tunísia ficou totalmente nas mãos dos alemães. Entrementes, Eisenhower, a 11 de novembro, ordenou ao General britânico Anderson que iniciasse rapidamente a marcha sobre a Tunísia. Este chefe enviou, por mar, uma brigada de infantaria, e se apoderou no próprio dia 11 do porto de Bougie, a leste de Argel. Duas companhias de pára-quedistas britânicos desceram sobre o porto de Bone, nas cercanias da fronteira da Tunísia. A esses primeiros ataques se seguiram outros, já dentro do território tunisiano. No dia 16 um novo contingente de pára-quedistas britânicos tomou o aeródromo de Souk-el-Arba. As tropas de infantaria, que marchavam na retaguarda, cruzaram a fronteira e, pela estrada, velozmente, se uniram às unidades de pára-quedistas. Mais ao sul, pára-quedistas americanos capturaram a base de Youks-les-Bains; depois prosseguiram o seu avanço até a localidade de Gafsa. A esta altura dos acontecimentos, a resistência alemã se tornou mais forte e conseguiu deter a progressão das forças aliadas. A proximidade da Tunísia às bases de abastecimentos da Sicília e da Itália continental permitiu o rápido reforço das tropas do Eixo. Em fins de novembro, as tropas ítalo-alemães contavam com mais de 15.000 soldados, 100 tanques e 90 peças de artilharia. Com esse elementos, o Alto-Comando constituiria um novo exército, o 5o, sob a chefia do General von Arnim

 

No sul da Tunísia, outro exército, o 1o, sob as ordens do General italiano Messe, que substituiria Rommel, tomaria a seu cargo a defesa do setor sul da Tunísia, com os restos das forças do Afrika Korps e as unidades italianas que haviam conseguido escapar ao desastre de El Alamein.

 

A 28 de novembro, desembarcou em Argel o General Eisenhower e assumiu o comando direto das operações. Nesse mesmo dia, as tropas do General Anderson, apoiados por contingentes americanos, rapidamente transladados do oeste, ocuparam a localidade de Djedeida, situada a menos de 24 km da Tunísia. Esse foi o ponto máximo da penetração.

 

Afastados de suas bases e desprovidas de suficientes elementos motorizados, as forças aliadas tiveram que deter o avanço, quando praticamente haviam alcançado o objetivo final.

 

A 1o de dezembro os alemães contra-atacaram e desalojaram os ingleses de suas posições em Djedeida, obrigando-os a retroceder para o oeste e inflingindo-lhes pesadas baixas. Eisenhower, apesar do tropeço, resolveu realizar um último esforço para quebrar a resistência alemã. O tempo, entrementes, havia piorado. Chuvas torrenciais se precipitavam em toda a frente, convertendo em lodaçais as escassas estradas, e os aeródromos improvisados em verdadeiros pântanos. Apesar disso, Eisenhower confiava poder levar adiante o ataque. Sabia que se fosse paralisado, perderia o efeito da surpresa, e entraria numa luta de posições, cuja duração seria imprevisível. E, aproveitando a trégua, os alemães reforçariam convenientemente suas linhas.

 

A 24 de dezembro, Eisenhower se transladou à frente em companhia do General Anderson e inspecionou o terreno sobre o qual as tropas deveriam avançar. A chuva continuava caindo com intensidade e dezenas de veículos estavam atolados no barro, onde eram abandonados pelos soldados. O chefe americano compreendeu então que, nessas condições, era impossível fazer suas tropas avançarem. Regressou ao posto de comando de Anderson e deu ordem de suspender indefinidamente o ataque. Tal como expressou mais tarde, essa foi, para ele “uma decisão amarga”.

 

Contudo, a campanha de invasão da África do Norte, apesar do fracasso do ataque contra a Tunísia, havia conseguido o seu principal objetivo: encurralar as forças do Eixo. Hitler, contra toda lógica, teimaria em prosseguir na Tunísia uma luta que já estava definitivamente perdida.

 

Anexo

 

Força de Invasão

Comandante-chefe: General Eisenhower

Chefe da força naval: General Cunningham

Chefe da força aérea: General Doolittle

Força Tarefa Oriental

Generais Ryder e Anderson

Objetivo: porto de Argel. Intervieram 10.000 soldados americanos e 23.000 britânicos (unidades das 9a e 34a divisões de infantaria e a 1a blindada dos EUA, e 78a de infantaria britânica).

Frota: 2 couraçados, 2 porta-aviões de escolta, 13 destróieres, 16 transportes de tropas e embarcações auxiliares.

Força Tarefa Central

General Fredendall

Objetivo: porto de Orã. Intervieram 39.000 soldados americanos (unidades da 1a divisão de infantaria e da 1a blindada americanas)

Frota: 2 cruzadores, 2 porta-aviões de escolta. 13 destróieres, 28 navios-transporte de tropas e embarcações auxiliares.

Força Tarefa Ocidental

General Patton

Objetivo: porto de Casablanca. Intervieram 34.000 soldados americanos (unidades da 9a divisão de infantaria e 3a e 2a blindadas americanas)

Frota: 3 encouraçados, 7 cruzadores, 4 porta-aviões de escolta, 38 destróieres, 23 navios transportes de tropas e embarcações auxiliares.

Esquadra de apoio

Almirante Syfret

Efetivos: 3 porta-aviões, 4 encouraçados, 3 cruzadores, 17 destróieres e embarcações auxiliares (corvetas, draga-minas, petroleiros, etc.)

 

 

Missão na África do Norte

17 de outubro de 1942. 10h da manhã. O General Mark Clark acaba de entrar em seu gabinete, em Londres. O chefe americano larga o gorro sobre a mesa e está prestes a sentar-se quando entra um oficial. Traz nas mãos um papel. Estende-o a Clark, que o apanha sem muita atenção. O chefe americano relanceia o olhar pelas linhas e sua expressão muda radicalmente. Nesse mesmo instante, o telefone começa a tocar insistentemente. Clark atende. Escuta poucas palavras; mas suficientes”- Venha para cá. E já... Clark desliga e sai precipitadamente. Quem acabava de ligar era o general Eisenhower. Minutos depois, Clark saúda o seu superior. Suas primeiras palavras, que denotam a excitação que o domina, são expressivas: - Quando parto? A resposta, igualmente imediata, não deixa lugar a dúvida acerca da importância do chamado: - Provavelmente, agora.

Sobre a escrivaninha de Eisenhower, aberto, um papel é a chave de tudo. Trata-se de um cabograma de Bob Murphy, conselheiro da embaixada em Argel. Por ele comunica que oficiais franceses estão dispostos a facilitar a entrada dos americanos na África do Norte. Isso tem para Eisenhower o valor de 50 divisões de infantaria. Significa simplesmente que a operação de desembarque se poderá fazer com baixa possibilidade de perdas humanas e materiais. Daí a importância do comunicado.

Para concretizar a ação conjunta, um alto oficial americano deve viajar para a África do Norte e entrevistar-se com os oficiais franceses conluiados. Esse oficial americano, será o General Mark Clark, segundo de Eisenhower.

A viagem se inicia com uma aventura aérea, qual seja, aterrissar em Gibraltar, com um gigantesco B-17. Ali, ocultando-se dos espiões alemães, que do território espanhol vigiam constantemente o aeródromo, Clark e seus acompanhantes se dirigem à zona portuária. Para isso tem que disfarçar-se e esconder suas insígnias que fariam suspeitar ao agente menos avisado.

O submarino que o espera, uma pequena unidade, “incrivelmente lenta”, é o Seraph P-219, sob o comando do Tenente-de-Fragata Norman Ambury Auchinleck Jewell (a quem depois Clark chamaria Bill). A tripulação do submarino, “quase todos adolescentes” dispensou aos recém-chegados uma acolhida cordial. Depois, todos se entregaram ao trabalho de acomodar os equipamentos e colocarem-se eles próprios, nos escassos lugares disponíveis.

A navegação, lenta na superfície, pareceu a Clark desesperante na imersão. O prazo para a entrevista se escoava rapidamente e Clark compreendeu que não chegaria a tempo. Por fim, arriscando tudo, decidiram navegar na superfície, vigiando a possível aparição de unidades inimigas.

- Bem vindo à África do Norte!... Aquelas foram as primeiras palavras que Clark escutou ao pisar território argelino. Quem acabava de as pronunciar era Murphy. Em seguida, depois de caminhar uns minutos através dos atalhos que bordejavam a costa, chegaram a uma velha mansão. Ali, recebeu-os o dono, o cidadão francês M. Teissier, que, posteriormente, serviu sob as ordens de Clark na campanha da Itália. Na casa já se encontravam os representes do General Giraud.

A reunião foi interrompida por uma notícia inesperada: - A polícia estará aqui dentro de minutos!

Uma velha adega foi o refúgio de Clark e seus acompanhantes. Ali, durante uma longa hora escutaram o ir e vir dos policiais franceses, avisados pelos nativos. Afinal, nada encontrando de suspeito, e convencidos por Murphy de que se tratava de uma “festa íntima” que se estava realizando “em companhias de senhoras”, os agentes franceses saíram.

Ao regressar a bordo do submarino, Clark havia cumprido a sua missão. Um “Catalina” recolheu o chefe americano e o transportou a Gibraltar. Dali, Clark enviou a Eisenhower uma mensagem resumindo o acontecido. Uma de suas frases sintetizava o que Eisenhower desejava: “Espera-se que Giraud tome uma decisão definitiva 3a feira e prevê-se que ela será favorável...”.

A aventura do General Clark estava concluída.

 

 

Rumo à morte

Orã, 8 de novembro de 1942. A operação aliada se desencadeia nas praias norte-africanas.

À direita e à esquerda do porto de Orã, nas praias, as barcaças despejam homens, tanques, canhões de todos os calibres. O matraquear das metralhadoras manejadas por atacantes e defensores, povoa o espaço de um ruído estarrecedor. As baterias costeiras, disparando a queima-roupa, levantam colunas de água entre os navios aliados. Os atacantes se lançam à luta com todo o peso dos seus equipamentos. Os defensores, inferiorizados, resistem com tenacidade e coragem.

Em um dos navios, após rápida conferência, decide-se que um grupo especial se acerque de Orã. Sua missão não será a de combater na primeira linha. Contudo, o risco que esses homens sofrerão será maior que o dos soldados que correm pela praia com baioneta calada. O grupo especial deverá desembarcar na boca do lobo; com efeito, os dois navios que os transportarão, pretendem penetrar n porto e ali desembarcar os homens. Estes, peritos na luta contra a sabotagem, procurarão salvar as instalações portuárias da destruição que os defensores, provavelmente, promoverão, ante a eventualidade de ser derrotados.

Duas pequenas naves se desprendem dos costados de uma unidade maior. São os ex-guarda-costas americanos Walney e Hartland. À frente do grupo vai o Capitão Peters, da Armada britânica. Os dois pequenos barcos se aproximam a toda velocidade que lhes permitem os seus fracos motores. Escassamente protegidos, os homens se deitam contra o fundo das cobertas. Peters, após uma manobra tendente a enganar os defensores, ruma diretamente para a boca de entrada do porto. Os soldados que disparam da terra reagem imediatamente. Todas as bocas de fogo disponíveis apontam para os pequenos barcos. Um dilúvio de balas de todo o calibre chove sobre eles. Um após outro, os homens são mortos. As duas pequenas embarcações avançam com dificuldade. Finalmente, destroçados pelos impactos, os barcos ficam à deriva. A bordo, já não há ninguém em condições de governá-los. Um homem sobreviveu milagrosamente à chuva de balas. É o Capitão Peters. No entanto, tampouco ele viverá. Um pouco depois, enquanto era conduzido de regresso à Inglaterra, de avião, faleceu.

A Cruz Vitória, outorgada postumamente, e a Cruz Americana de Serviço Relevante premiarão sua façanha. É o reconhecimento dos Aliados à coragem e ao sacrifício.

 

 

Laval em Munique

Roma, 8 de novembro de 1942. Aposentos privados particulares do Conde Ciano. São 5h30 da manhã.

Um telefone, linha direta, somente conhecido pela alta hierarquia do Eixo chama insistentemente, à cabeceira do leito do ministro das Relações Exteriores da Itália. Ciano atende. Na outra extremidade da linha, Ribbentrop o saúda. Suas palavras, embora corteses, revelam nervosismo. Diante da muda interrogação de Ciano, o chefe alemão lança a notícia que abala profundamente o líder italiano: - Os Aliados acabam de desembarcar na África do Norte...

Ciano, abalado pela surpresa, guarda silêncio. Ribbentrop, nervosamente o interroga uma e outra vez: - O que é que vocês pensam fazer? O que é que vocês pesam fazer, Ciano?

O ministro italiano não pode dar-lhe uma “resposta satisfatória”. E corta a comunicação segundos depois. Ciano, rapidamente, se dirige aos aposentos de Mussolini. Inteirado da má notícia, o Duce reage vivamente. Anda pelo quarto em largas passadas, falando em desembarcar na Córsega e ocupar a França. Ciano o interrompe: - Com que forças? De acordo com os porta-vozes mais autorizados do Exército não se pode nem pensar nisso... os alemães, talvez...

Na opinião de Mussolini eles tem que agir rápido. Ciano, no entanto, não compartilha do otimismo do Duce. Sabe, por um de seus contatos, que na embaixada alemã “estão aterrados com o golpe”.

No dia seguinte, 9 de novembro, uma chamada de Ribbentrop comunica a Ciano que ele e o Duce partam imediatamente para Munique, para onde também se dirigirá Laval. Chegara o momento de decidir qual a atitude a tomar com a França.

Mussolini, inteirado por Ciano da novidade, resiste a ir pessoalmente. Decide-se que o ministro viajará, com as seguintes instruções do Duce: “Caso a França esteja disposta a colaborar lealmente, receberá de nós toda a ajuda possível; se não adotar uma posição clara, teremos que tomar medidas de precaução: ocupação da zona livre e desembarque na Córsega”.

Ao chegar a Munique, de trem. Ribbentrop o esperava na estação. Após as saudações de praxe, Ribbentrop informa a Ciano que Laval chegará naquela mesma noite, de automóvel. Sem aguardar a chegada de Laval, nessa mesma tarde, Ciano é recebido pelo Fuhrer. O dirigente máximo alemão manifesta a Ciano a sua absoluta certeza acerca da atitude que os franceses tomarão: “Não desejam bater-se...” A uma pergunta de Ciano, Hitler responde: “Escutarei Laval, porém nada mudará meu ponto de vista: ocupação da França, desembarque na Córsega e cabeça-de-ponte na Tunísia”. No dia seguinte, 10 de novembro, chega Laval. Ciano, em seu Diário assim descreve a entrevista:

“Hitler, Goering, Ribbentrop e eu na Fuhrerbau. Tomamos a resolução de agir. Tanto mais que a atitude do Almirante Darlan, em Argel, é muito equívoca e dá direito a suspeitar que exista um acordo com os rebeldes. A entrevista com Laval é quase supérflua, posto que não se lhe dirá nada, ou quase nada, do que resolvamos.

“Laval, com sua gravata branca, e o traje provinciano de francês médio, está muito desorientado no grade salão, entre tantos uniformes. Procura falar em tom familiar da sua viagem e do seu longo sono no carro, porém suas palavras caem no vazio. Hitler o trata com uma cortesia fria. A entrevista é breve. Fala em primeiro lugar o Fuhrer. Pergunta se a frança está em condições de nos garantir pontos de desembarque na Tunísia. Laval, como bom francês, responde indiretamente, e pretende aproveitar a oportunidade para que a Itália assegure que renuncia aos seus pedidos. Não tenho sequer tempo de contestar, porque Hitler, com a mais firme decisão, declara que não pensa em discutir nesse terreno e que as reinvidicações italianas são mais que modestas. Laval não pode aceitar a responsabilidade de ceder a Tunísia e Bizerta ao Eixo: ele mesmo nos aconselha a que o coloquemos diante do fato consumado; isto é, que se redija uma nota para Vichy onde se comunica o que o Eixo pensa fazer. O coitado nem sequer suspeitava diante de que classe de fato consumado os alemães o iam colocar. Não se lhe disse nem uma palavra da ocupação iminente, e as ordens de ocupar a França eram transmitidas, enquanto ele, na sala contígua, fumava um cigarro e falava com uns e outros...”.

 

 

Suspendam o fogo

Deslocando-se lentamente através de estradas primárias, centenas de veículos carregados de soldados, tanques e canhões, avançam rumo ao porto de Casablanca. A obscuridade reina ainda, porém os primeiros raios do dia assomam já no horizonte desértico. É 11 de novembro de 1942. As forças que se aproximam de Casablanca pertencem à 3a Divisão de Infantaria americana. À frente da coluna, em um veículo semilagarta, marcha o General George Patton, comandante-chefe das forças dos EUA que, três dias antes, haviam desembarcado na costa africana. Sua missão: conquistar Casablanca e concretizar a rápida ocupação de todo o Marrocos francês, controlado pelo governo de Vichy. As tropas aliadas tiveram que combater duramente com as unidades de Vichy nas praias de Port Liautey e Safi, em ambos os flancos de Casablanca. Agora, no entanto, a luta se aproxima do final. Casablanca está rodeada e já nada pode impedir a sua ocupação. Patton, a contragosto, resolveu levar adiante o ataque final. Como última precaução no caso de que os franceses decidam inesperadamente capitular, emitiu às unidades da frota uma orientação categórica. O bombardeio naval previsto será instantaneamente cancelado no momento exato em que se receber a primeira oferta de rendição por parte dos franceses. Patton espera que isso ocorra logo, poupando milhares de vidas. As horas correm e a capitulação não acontece. Um oficial francês procedente da localidade de Rabat, sede do governo de Vichy, em Marrocos, traz a Patton a notícia que ali o fogo cessara... Porém, de Casablanca não chega informação alguma. Patton, nervoso, consulta incessantemente os ponteiros do seu relógio... Aproxima-se inexoravelmente a hora. Às 6h40 aparecem no céu as primeiras esquadrilhas americanas sobrevoando Casablanca. Na costa, os encouraçados apontam para o objetivo os seus gigantescos canhões... Tudo está pronto para iniciar o ataque. De súbito, um oficial entrega a Patton uma mensagem que acaba de ser recebida pelo rádio: o Almirante Michelier, chefe da guarnição de Casablanca, anuncia a capitulação incondicional de suas forças... Instantaneamente, parte a ordem de Patton à esquadra e à aviação de bombardeio: “Suspendam o fogo!”

Nessa tarde o chefe americano se entrevista com o Almirante Michelier e lhe dá cordiais boas-vindas. Não pode ocultar a sua alegria. O estéril derramamento de sangue foi evitado... Americanos e franceses voltarão a combater unidos contra a Alemanha.

 

 

O assassinato de Darlan

O General Mark Clark, segundo de Eisenhower, relata os pormenores da morte do Almirante Darlan, assassinado a 24 de dezembro de 1942, por um membro da resistência.

“Na véspera do Natal, eu era o único oficial do comando americano que permanecia em Argel. O General Eisenhower estava na frente da Tunísia. De minha parte havia aceitado a sugestão de alguns velhos amigos para que encurtasse o expediente do trabalho do dia, e pensava deixar o escritório mais ou menos às seis, para jantar. No meio da tarde, Bob Murphy (representante diplomático dos EUA em Argel) irrompeu no gabinete. - Feriram o “homenzinho” - foram suas primeiras palavras. - Darlan? - perguntei. - Onde está? - A caminho do hospital. - Vamos - disse, dirigindo-me para a saída à procura de um veículo.

Bob Murphy ainda ignorava os detalhes. Tudo o que se sabia era que o almirante havia sido ferido a bala. No hospital havia um grupo tenso e excitado de franceses que se acusavam, voluvelmente, uns aos outros, ao Eixo e aos Aliados, de toda sorte de provocações. Foram muitas as perguntas hostis e os olhares rancorosos de que Bob Murphy e eu fomos alvo. Darlan já havia morrido, ferido no rosto e no peito. O “homenzinho” parecia sereno e tranqüilo; não pude fazer menos que pensar que isto talvez tenha sido um alívio para ele depois da situação “quente” em que se encontrara no último mês e meio... Darlan se dirigia ao Palácio de Verão, depois de um almoço tardio, quando um estudante universitário de 22 anos gritou uma frase ininteligível, ao mesmo tempo em que disparava, a queima roupa contra o almirante. Um dos ajudantes de Darlan enfrentou o assassino e conseguiu finalmente dominá-lo, depois de receber dois ferimentos na perna. De minha parte não sabia o que o fato podia significar do ponto de vista político, de modo que alertei imediatamente todas as nossas tropas... Pessoalmente, jamais vi o assassino de Darlan e tampouco sei muito, inclusive hoje, acerca de sua pessoa, e dos motivos que o levaram a praticar tal ato. A melhor informação que pude obter me indicou que o ataque não tinha antecedentes complexos, mas que se tratava, simplesmente de um ato de um “degaullista” desequilibrado. Os franceses submeteram o rapaz, Bonier de la Chapelle, a um rápido julgamento no dia do natal e o executaram nas primeiras horas do dia seguinte... O General Eisenhower, o General Giraud e eu, assim como todos os oficiais franceses, de todas as convicções políticas, assistiram ao funeral de Darlan...

“Na minha opinião, a morte do Almirante Darlan foi um ato da Providência. Foi uma lástima que tivesse de ser assim, mas falando em termos estratégicos, o seu desaparecimento do panorama eqüivaleu à abertura de um abscesso incômodo. Havia servido ao seu propósito, e sua morte solucionava o dificílimo problema colocado pela necessidade de decidir o que fazer com ele no futuro... Darlan era um investimento político que as circunstâncias nos obrigaram a fazer, porém que nos trouxe dividendos sensacionais de vidas e tempo”. Do livro Calculated Risk, Mark Clark.

 

 

 

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