Invasão da Itália

 

Inicia-se a guerra no continente europeu

            

Ocupação de Pantelleria

Invasão da Sicília

 

 

A conferência entre Churchill e Roosevelt teve como resultado a decisão de efetuar a invasão da Sicília, operação planejada sob o nome-chave de Husky. O principal mentor desta operação foi o primeiro-ministro britânico, que estava convencido de que um ataque resoluto e maciço contra a Itália provocaria a queda do regime fascista e o desaparecimento, a  curto prazo, do aliado da Alemanha.

 

Os chefes militares americanos, General Marshall e Eisenhower, deram a sua aprovação ao projeto, pois consideraram que o ataque à Sicília não exigiria o uso de grandes contingentes; em conseqüência, o plano foi colocado imediatamente em marcha.

 

Em princípios de fevereiro, quando ainda continuavam as operações em Túnis, iniciou-se a preparação das forças que invadiriam a Sicília.

 

Fixou-se como possível data do ataque os primeiros dias do mês de julho. As forças que interviriam seriam comandadas pelo General Alexander e compostas por dois grupos: o 8o Exército britânico de Montgomery e o 7o Exército americano de Patton; este chefe foi retirado da frente de Túnis no mês de abril e, no norte da África, começou a preparação da operação Husky.

 

A invasão deveria realizar-se depois que se efetuasse uma primeira fase de “amaciamento” aéreo, em que interviriam mais de 4.000 aparelhos aliados. Ainda assim, antes de realizar o ataque contra a Sicília, Eisenhower resolveu apoderar-se das ilhas de Pantelleria e Lampedusa. A importância de tais bases era indiscutível. Os Aliados, com efeito, não podiam deixar atrás de si importantes núcleos inimigos capazes, teoricamente ao menos, de bloquear suas linhas de comunicações e perturbar seriamente o desenvolvimento das operações. Por outro lado, a queda da “Malta italiana” significaria um golpe moral de enorme importância para os acontecimentos posteriores. Esperava-se, também,  tanto no campo aliado como no do Eixo, que as tropas italianas, ao defender seu próprio território, o fizessem valentemente. Era, portanto, indispensável conquistar os redutos que, a curto prazo, deveriam ser deixados para trás pelas linhas anglo-americanas.

 

 

Ocupação de Pantelleria

 

Na metade da distância entre Túnis e a costa sul da Sicília existe, no mar, um grupo de ilhas vulcânicas. A principal, Pantelleria, de apenas 80 km² de extensão, reduto importante do Eixo convertido por Mussolini em forte baluarte, conta com um aeródromo, com hangares subterrâneos com capacidade para 80 caças. As defesas eram exercidas por 12.000 homens e 40 baterias. O comando da base estava a cargo do Almirante Pavessi.

 

Eisenhower resolveu levar a cabo a ocupação dessas ilhas, prevendo que, além de eliminar a base inimiga, poderia aproveitar o aeródromo como ponta de lança a ser utilizada pela aviação aliada.

 

A natureza do terreno, eminentemente rochosa, apresentava grandes dificuldades para uma operação anfíbia. A costa, principalmente, era inacessível, salvo na boca do pequeno porto da ilha. Estes obstáculos fizeram com que muitos oficiais aliados considerassem arriscada a operação de desembarque e aconselhassem energicamente que não fosse efetuada. Argumentavam que um possível fracasso do desembarque teria efeitos negativos sobre o moral das tropas que, posteriormente, deveriam invadir a Sicília. Eisenhower, no entanto, acreditava que o moral da guarnição italiana cederia facilmente se a ilha fosse submetida a um bombardeio maciço da aviação durante um período prolongado.

 

Os chefes da aviação aliada, Marechal Tedder e o General Spaatz, apoiaram a posição de Eisenhower. A ofensiva aérea se iniciou a 18 de maio. Bombardeiros médios e caça-bombardeiros efetuaram repetidas incursões contra o aeródromo e as instalações subterrâneas.. Em menos de um mês foram realizadas perto de 3.000 incursões aéreas e se lançaram 4.844 toneladas de bombas. Nos últimos seis dias e noites que precederam o desembarque, somaram-se à ofensiva os grandes bombardeiros pesados B-17, intensificando violentamente os ataques. As instalações subterrânea, porém, não foram muito danificadas e a população e a guarnição, que ali buscaram refúgio, praticamente não sofreram baixas. Ao todo, o enorme bombardeio somente provocou a morte de 56 soldados e ferimentos entre outros 116.

 

Dois dias antes do ataque, Eisenhower e o Almirante Cunningham realizaram um último reconhecimento da ilha, para resolver se o desembarque seria feito ou não. A bordo de uma frota integrada por seis cruzadores e dez destróieres, os chefes aliados se aproximaram da ilha e a submeteram a um intenso bombardeio, sem encontrar praticamente nenhuma reação por parte dos italianos. Este fato acabou por convencer Eisenhower de que a invasão não encontraria nenhuma, ou pouquíssima, posição.

 

A 11 de junho, a frota de invasão se aproximou da ilha, conduzindo uma divisão de infantaria e um esquadrão de tanques Sherman. Ao se aproximarem da costa, nas lanchas de desembarque, os soldados avistaram, na colina mais alta da ilha, a bandeira branca de rendição.

 

O chefe italiano, Almirante Pavessi, ao comunicar a Roma sua decisão de entregar a praça, informou que o fazia premido pela falta de água potável. Esta mensagem cruzou-se com outra, enviada pelo Alto-Comando, em Roma, em que era elogiado pela sua resistência ante o demolidores bombardeios aliados. Paradoxalmente, nesse mesmo momento, as forças aliadas desembarcavam na ilha, sem encontrar oposição. A inesperada capitulação foi interpretada como uma traição nos altos círculos fascistas.

 

Assim se encerrou o episódio de Pantelleria, que constitui o único caso na História de uma vitória alcançada unicamente mediante o uso de ataques aéreos. Lampedusa caiu no dia seguinte. Foram feitos ali 4.000 prisioneiros. Os Aliados, enquanto isso, completavam os planos do ataque à Sicília.

 

Prepara-se a invasão

 

O plano que os Aliados se propunham a executar consistia num desembarque simultâneo dos dois exércitos (o 7o de Patton, e o 8o, de Montgomery) no extremo sudoeste da ilha. A incorporação de novos meios de desembarque, chegados dos Estados Unidos - barcos LST, para desembarque de tanques e veículos anfíbios (DUKW), denominados “patos” (caminhões anfíbios de duas toneladas e meia com tração nas seis rodas) - facilitou aos Aliados projetar um desembarque direto nas praias, sem a necessidade de conquista prévia de um porto importante.

 

Os americanos, com quatro divisões de infantaria e uma divisão blindada, desembarcariam pelo flanco esquerdo, lançando uma primeira leva de 80.000 soldados nos arredores da localidade de Gela. Os ingleses, por sua vez, com quatro divisões de infantaria e três brigadas blindadas, alcançariam as praias do flanco direito, no porto de Siracusa. Além disso, pensava-se empregar duas divisões aerotransportadas, a 82a americana  e a 1a britânica, que desceriam, horas antes do desembarque, nas linhas de retaguarda do inimigo para capturar aeródromos e centros vitais à defesa. Os americanos, empregando 220 aviões C-47, saltariam de pára-quedas. Os ingleses, com 133 planadores, cairiam inesperadamente ao sul de Siracusa, para capturar as pontes que conduziam a essa cidade. Depois de consolidar as cabeças-de-ponte, as forças aliadas rumariam para o interior, a fim de ocupar os aeródromos vizinhos da costa. Em seguida, os americanos aprofundariam sua penetração para o centro da ilha, até alcançar o estratégico entroncamento de comunicações de Caltanisetta, que dominava as rotas de toda a ilha. Os britânicos se lançariam ao longo da costa oriental, rumo ao norte, para ocupar o porto de Messina. Os Aliados haviam calculado que as defesas do Eixo não eram muito poderosas. Na verdade, a guarnição italiana, avaliada em 200.000 homens, carecia de elementos motorizados e de armas modernas. De umas dez divisões, somente quatro tinham poder de operação. As restantes eram unidades de defesa costeira, pobremente equipadas. Tinha-se informações acerca da existência, na ilha, de duas divisões alemães. Uma delas seria a Hermann Goering, blindada com seu número de tanques completo; a outra era a 15a de Infantaria Motorizada, formada por restos de tropas que haviam lutado na África. As duas unidades alemães foram localizadas pelo Serviço de Inteligência americano no setor da invasão. Das quatro divisões operativas italianas, uma se achava também no setor da invasão; outra colocada no centro, e duas no estremo oeste da ilha. Assim distribuídas, as forças do Eixo estavam praticamente condenadas ao aniquilamento pelas doze divisões aliadas.

 

Ofensiva aérea

 

Já no mês de abril se iniciaram as operações preliminares de invasão com o ataque da aviação americana e britânica aos centros ferroviários, meios de comunicação e aeródromos da ilha da Sicília e do sul da Itália. Intervieram nessas ações cerca de 4.000 aviões da RAF e da 9a e 12a Força Aérea americana. Em uma manobra tática diversionista, a força aérea aliada bombardeou também a Sardenha e a Córsega. Na primeira das ilhas, foi intensamente bombardeado e reduzido a escombros o porto de Cagliari. Os bombardeios foram crescendo de intensidade a partir de 12 de junho e se concentraram sobre as bases aéreas da Sicília. Os Aliados consideravam a existência da aviação inimiga como uma grave ameaça. Na verdade, a concentração da frota de ataque, integrada por mais de 2.000 embarcações de todos os tipos, oferecia um alvo sumamente vulnerável. O mesmo ocorria com as tropas, que durante vários dias ficariam imobilizadas nas estreitas faixas da invasão, nas praias.

 

A força aérea do Eixo, no entanto, estava incapacitada de oferecer uma resistência efetiva aos ataques aliados. Em todo o setor do Mediterrâneo, os alemães e italianos apenas podiam dispor de uns 1.250 aparelhos. Esta força, além disso, era obrigada a cobrir diferentes setores, o que tornava impossível a sua concentração apenas no ponto da invasão. Em conseqüência, perdia, de forma evidente, a sua eficiência. Por isso, na Sicília, os italianos apenas contavam com 60 caças, para enfrentar os 4.000 aviões...

 

A arrasadora superioridade aérea dos Aliados lhes permitiu dominar os céus da Sicília e exterminar as bases inimigas. Para impedir a chegada de reforços e abastecimentos, os bombardeiros ingleses e americanos martelavam dia e noite os principais portos, principalmente o de Messina, cuja capacidade de 4.000 toneladas diárias chegou a reduzir-se a uma ínfima fração dessa cifra. Estas ações conseguiram diminuir em 75% a ração diária de abastecimentos para a população e as guarnições da ilha. A desmoralização da população e dos combatentes do Eixo, alentada por uma hábil propaganda e mantida pelos contínuos bombardeios, atingiu um nível bastante crítico.

 

A partir do dia 5 de julho recrudesceram os ataques contra os aeródromos da ilha. Sob um verdadeiro diluvio de bombas, as bases forma arrasadas, uma após outra. A maior parte dos aviões do Eixo, que ainda restavam na ilha, foram transferidos, então, para as bases da península. Ali, também chegou a ofensiva aérea dos Aliados, que não se deteria nem diante de Roma. A capital da Itália, efetivamente, pela primeira vez na História, foi atacada pelo ar, nove dias depois de iniciado o desembarque na Sicília. Fortalezas-Voadoras e Liberators deixaram cair suas bombas sobre os grandes centros ferroviários de Roma, para impedir o envio de reforços provenientes a Alemanha, rumo ao sul.

 

Assim, ao chegar o dia D, 10 de julho de 1943, a Sicília, praticamente carecia de qualquer defesa aérea. Somente dois aeroportos, no extremo oeste da ilha, a muitos quilômetros das praias de desembarque, estavam em condições de operar. A aviação aliada havia cumprido o seu objetivo primordial. A força aérea do Eixo, embora pequena, poderia ter representado um perigo. Agora já não o era. Fôra aniquilada pela aviação aliada.

 

O dia D

 

Às vésperas do ataque, o General Eisenhower transladou-se, juntamente com o Almirante Cunningham, para a ilha de Malta, onde instalou o seu posto de comando. Entrementes, os grandes comboios aliados já estavam em movimento. Duas unidades, a 45a Divisão de Infantaria americana e a 1a Divisão canadense, navegavam rumo à Sicília, tendo zarpado diretamente da Inglaterra e dos Estados Unidos, com todo o seu equipamento de combate. As forças dos EUA, divididas em três grupos de assalto, deslocaram-se a partir dos portos de Argélia e Túnis. A bordo do cruzador Monrovia, Patton se dirigia ao centro das futuras operações, acompanhado pelo Almirante Hewitt.

 

Os comboios americanos, recorrendo a um ardil em sua marcha, simularam movimentar-se rumo a Malta, para depois, ao amparo da escuridão, trocar de direção, e aproar para a costa sul da Sicília.

 

Os barcos que transportavam os efetivos do 8o Exército, por sua vez, viram-se obrigados a realizar uma manobra de concentração muito mais difícil. De fato, as tropas inglesas embarcaram em portos que se distribuíam ao longo de mais de 2.000 quilômetros de costa, de Trípoli até Beirute.

 

As operações de embarque e concentração de ambas as forças foram realizadas sem tropeços, e cumprindo, passo a passo, os planos previstos.

 

Na manhã de 9 de julho ocorreu um fenômeno ameaçador: um forte vento, que logo alcançou características alarmantes, encrespou a superfície do Mediterrâneo. Os balões das barreiras antiaéreas, transportados pelas embarcações, balançavam-se até cortar os cabos de amarração e perdiam-se na distância. As ondas tornavam-se cada vez mais violentas e as embarcações corcoveavam furiosamente.

 

E, seu posto de comando de Malta, Eisenhower, demonstrando ansiedade, examinava, uma após outro, os boletins meteorológicos que davam conta do crescente aumento da velocidade do vento. A velocidade máxima admitida para a segurança dos pára-quedistas era de 32 km/hora. Ao cair da noite, as rajadas alcançavam os 64 km/hora. Toda a operação corria o risco de ser frustrada pela inesperada mudança das condições climáticas. Porém, ao chegar a meia-noite, tal como assinalou o General Bradley, “como que respondendo às nossas preces”, o vento amainou e as águas também se acalmaram.

 

Enquanto isso, os aviões de reconhecimento alemães e italianos já haviam avistado os comboios aliados. Pouco depois das sete da noite o comandante da guarnição, General Guzzoni, dava ordem de alerta a todos os quadrantes da ilha. Mais ainda não se podia precisar o ponto onde seria realizado o ataque principal. Os bombardeios realizados pela aviação aliada, principalmente na costa oeste, haviam criado nos comandos do Eixo a impressão que o ataque seria efetuado nesse setor.

 

Atacam os pára-quedistas

 

Às sete da noite de 9 de julho, os transportes e planadores que conduziam os pára-quedistas e soldados das divisões aerotransportadas aliadas, começaram a levantar vôo nos aeródromos de Túnis. Cerca de 400 bimotores C-47 e 133 planadores conduziam 2.700 pára-quedistas americanos e 1.600 soldados britânicos aerotransportados.

 

Nos aviões e planadores, os combatentes se preparavam para a ação. Era um instante terrível: aquele em que cada homem está sozinho consigo mesmo, com suas lembranças e seu desejo de viver, apesar da ameaça da morte.

 

A forte ventania que soprava sobre o Mediterrâneo agregava um elemento a mais ao perigo que, por si só, já encerrava a arriscada missão. Várias das esquadrilhas, em seu vôo de aproximação da Sicília,  sobrevoaram a ilha de Malta. Ali, no topo de uma colina, o General Eisenhower rodeado por seus assessores presenciou o desfile dos aparelhos que se dirigiam, em desordenada formação, rumo à costa inimiga. Possivelmente, o júbilo de ver seus aviões em vôo talvez se tenha associado à dor de imaginar quantos deles seriam derrubados pelas péssimas condições do tempo. E de fato, isso ocorreu. Às 23 horas, os aviões rebocadores soltaram os planadores. Estes, em meio da escuridão que reinava, ficaram entregues à sua sorte. Muitos deles, lançados muito longe da costa, caíram diretamente no mar, onde tripulantes e soldados pereceram em poucos instantes. Assim desapareceram 47 planadores. Os demais, dispersados pelos fortes ventos, em todas as direções, se internaram terra adentro. Apenas 12 planadores conseguiram chegar às imediações do objetivo: a grande ponte que cruza o canal contíguo ao porto de Siracusa. Oito oficiais e 65 soldados se apoderaram da ponte, e enfrentaram depois o ataque de um batalhão inteiro da infantaria inimiga, apoiado por artilharia e morteiros. Os britânicos, porém, se mantiveram firmes em suas posições. Era a tarde do dia D. As tropas da vanguarda do 8o Exército britânico alcançam a ponte de Siracusa e ali estabelecem contato com os últimos sobreviventes do batalhão  de pára-quedista. Somente 19 homens restaram à cruenta luta. Sua missão, no entanto, foi cumprida. A ponte estava intacta e por ela passarão os tanques de Montgomery.

 

Simultaneamente com a ação das tropas aerotransportadas britânicas, produziu-se a descida dos pára-quedistas americanos. Sua missão era apoderar-se das colinas e dos centros de comunicações que dominavam o acesso à praias de invasão. Deverão reter estas posições e impedir que as forças alemães e italianas alcancem as praias, enquanto os efetivos do exército efetuarem o seu desembarque; os fortes ventos porém, desagregaram as formações dos bimotores C-47 e os pára-quedistas, ao se lançarem ao espaço, foram dispersados numa faixa de quase 100 km. Isolados em pequenos grupos, os soldados não conseguiram alcançar os seus objetivos e muitos deles foram executados pelas patrulhas do Eixo. Porém a operação alcançou um resultado positivo, ao introduzir a confusão e o alarme ao longo de toda a frente. A dispersão dos pára-quedistas contribuiu, incidentalmente, para que os alemães acreditassem estarem sendo atacados por forças muito superiores às que realmente haviam descido. Para se ter uma idéia da pouca precisão do lançamento, basta saber que, uma semana mais tarde, ainda continuavam chegando às linhas liadas, isoladamente ou em grupos, numerosos pára-quedistas extraviados, vindos das aldeias ou dos campos onde haviam caído, situados profundamente na retaguarda inimiga. Rapidamente esses homens eram incorporados às unidades da infantaria desembarcadas nas praias.

 

O desembarque

 

Às 2h45 de 10 de julho de 1943, o mar se iluminou com os clarões dos canhões da esquadra. Quinze minutos depois, as primeiras lanchas de desembarque se separavam das grandes unidades e navegaram rumo à praia, sobre uma frente de 250 km. As tropas americanas estavam divididas em três grupos de ataque. Sobre o flanco direito, a 45a Divisão de Infantaria devia desembarcar a leste e a oeste da localidade de Scoglitt. No centro, a 1a Divisão de Infantaria se lançaria à terra nas proximidades do porto pesqueiro de Gela. Dois batalhões de Rangers, num golpe audaz, se internariam em Gela e tratariam de apossar-se dos ancoradouros, antes que fossem destruídos. Sobre o flanco esquerdo, a 3a Divisão de Infantaria e a 2a Blindada tocariam a terra nas proximidades de Licatta e formariam ali uma posição defensiva, para cobrir as restantes forças de invasão. O 8o Exército, por sua vez, efetuaria desembarques ao sul do porto de Siracusa.

 

Com as primeiras luzes do dia concretizaram-se, sem encontrar praticamente oposição, as capturas de todas as cabeças-de-ponte.

 

Os Rangers ocupam Gela

 

Comandados pelo Coronel Darby, os dois batalhões de Rangers desembarcaram de surpresa nos ancoradouros de Gela e se internaram pelas ruas da localidade. Às 9h30 chegou ao porto o General George Patton, chefe das forças americanas de invasão. Nesse preciso momento, sete tanques italianos se deslocaram em direção à localidade, seguidos por tropas de infantaria. Os Rangers, utilizando três semilagartas com canhões de 75 mm, repeliram a infantaria italiana que tentava envolvê-los por um dos flancos; os tanques, por sua vez, tentaram cercá-los pelo lado oposto. O Coronel Darby, pessoalmente, tentou deter um dos blindados atirando com uma metralhadora de uma distância de 40 metros. Ao comprovar que os projéteis não perfuravam a blindagem dos tanques, o coronel americano correu para o cais, debaixo do fogo inimigo. Os projéteis ricocheteavam a seu redor e o obrigavam a correr em ziguezague. A sorte o favoreceu. Ao chegar à beira-mar encontrou-se com um grupo de soldados que acabavam de desembarcar um canhão de 37 mm. Rapidamente, junto com os homens, conduziu a peça para uma elevação do terreno e abriu fogo contra um dos tanques que se havia infiltrado. O primeiro projétil ricocheteou na superfície de aço do tanque. Um segundo disparo, certeiro, inutilizou o mecanismo da lagarta e deteve o tanque. Darby correu para o blindado, sacando a sua arma de campanha, com o objetivo de capturar a tripulação. Porém os combatentes do Eixo, demonstrando não querer entregar-se abriram fogo com suas armas portáteis, através das aberturas do tanque. O Coronel Darby, então, saltando sobre o carro blindado, lançou uma granada incendiária no seu interior, através da parte superior. Instantes depois, uma detonação surda estremeceu o veículo que foi logo envolvido pelas chamas.

 

Os Rangers prosseguiram resistindo encarniçadamente na localidade e, ao meio-dia, receberam o reforço de 12 tanques enviados apressadamente da cabeça-de-ponte de Licatta, situada a oeste de Gela. O General Patton, que permanecera na localidade durante o transcurso dos combates, ordenou imediatamente a realização de um contra-ataque, que culminou com a destruição de todos os blindados inimigos e a captura de cerca de 500 soldados.

 

Contra-ataque do Eixo

 

Apenas recebidos os informes dos desembarques aliados, as forças do Eixo organizaram um contra-golpe. A divisão Panzer Hermann Goering, apoiada pela motorizada italiana Livorno, deslocou-se para Gela, com a intenção de desalojar as forças americanas e lança-las ao mar.

 

Nas primeiras horas de 11 de junho, 20 tanques Mark IV irromperam através das unidades avançadas da 1a Divisão de Infantaria americana, que protegiam o caminho de acesso ao porto. Simultaneamente, outros 40 tanques alemães realizaram uma manobra de flanco, apoiando o movimento dos primeiros. Atrás, distribuídos sobre o terreno, avançavam os Panzergrenadier e os infantes italianos. A situação se tornou bastante crítica, pois a 1a Divisão americana não contava ainda com sua artilharia e canhões antitanques. Essas peças ainda estavam nas parias. A infantaria, com seu armamento leve, foi facilmente dominada pelos blindados inimigos. Os soldados, no entanto, não foram tomados de pânico. Veteranos da luta na África, deixavam passar a leva de carros lindados, enterrados em seus “poços de atirador” e se prepararam para enfrentar os infantes que os seguiam. Conseguiram, então detê-los, travando sangrento combate.

 

Enquanto isso, na retaguarda, o chefe da divisão se defrontava com uma situação desesperadora. Se as duas colunas de tanques alemães conseguissem envolvê-los, com a infantaria cercada, as cabeças-de-ponte estariam ameaçadas. O chefe da divisão, General Allen, tomou então uma resolução extrema: ordenou que todos os veículos se dirigissem para as praias e arrastassem até as posições da frente os canhões que estavam sendo desembarcados. Ao mesmo tempo, solicitou, pelo rádio, o imediato apoio da artilharia da frota. Minutos mais tarde, os grandes canhões dos enormes barcos de guerra começaram a disparar contra as posições inimigas; o fogo eram então, dirigido da terra, por oficiais de ligação situados na primeira linha. Pouco depois, os americanos conseguiram colocar em ação os seus canhões e peças antitanques, submetendo então os blindados inimigos a um violento bombardeio. O contra-ataque ficou assim detido nos arredores de Gela. Mais de 30 blindados alemães foram destruídos.

 

Nessa tarde os alemães reativaram os seus intentos de apoderar-se de Gela, empregando então maior número de blindados. Alguns deles, conseguiram infiltrar-se e chegaram a poucos metros das praias. Ali, no entanto, atingidos pelas descargas dos navios de guerra, foram, finalmente, destruídos.

 

Avança Montgomery

 

No dia D, a 51a Divisão escocesa e a 1a Canadense foram despejadas na praia, sobre ambos os flancos da península de Pachino, situada no extremo sudeste da ilha da Sicília. Os barcos da esquadra e a aviação bombardearam violentamente as posições inimigas, facilitando a penetração das tropas. Nesse dia foi capturado um aeródromo próximo da costa. A pista foi rapidamente recondicionada e os aviões começaram a utilizá-la imediatamente. A resistência italiana era praticamente nula e, salvo alguns bombardeios ocasionais de aviões da Luftwaffe, nãos e encontrou maior oposição.

 

A 5a Divisão de Infantaria britânica empreendeu, sem demora, o avanço rumo ao porto de Siracusa e estabeleceu contato com os pára-quedistas que haviam capturado a ponte situada ao sul daquela localidade. Para frear o avanço das tropas de Montgomery, os comandos do Eixo deslocaram em direção a Siracusa a divisão de infantaria italiana Napoli e o grupamento de combate alemão Schmaltz. Um dos regimentos da Napoli deparou, na noite de 10 de julho com um grupamento motorizado de vanguarda inglês. Travou-se então um violento combate, que se prolongou durante todo o transcurso do dia seguinte. O porto de Siracusa, entrementes, foi ocupado pelos ingleses. Nada parecia deter o avanço das colunas do 8o Exército. Seu objetivo final era o porto de Messina, situado no extremo norte da ilha. Sua conquista significaria cortar as vias de saída das forças do Eixo estacionadas na Sicília.

 

Em demanda desse objetivo avançaram as tropas britânicas; precedidas por destacamentos mecanizados e tanques, pressionaram e ocuparam o porto de Augusta. Imediatamente continuaram a sua marcha rumo ao norte. A 10 km de Catânia, os ingleses efetuaram uma audaciosa ação para capturar uma ponte, vital para o deslocamento das tropas. Para esse fim, uma brigada de pára-quedistas foi lançada, na noite de 11 de julho e conseguiu apossar-se da ponte. O chefe da unidade de ataque, prevendo que talvez a reação inimiga o obrigaria a abandonar a ponte antes da chegada das forças restantes, ordenou trocar as cargas de demolição inimigas por outras, falsas, exatamente iguais às reais. Com a chegada do dia, os alemães contra-atacaram e conseguiram desalojar os pára-quedistas do lugar. Contudo a 50a Divisão de Infantaria britânica, deslocando-se rapidamente, lançou-se ao assalto e reconquistou a ponte. O inimigo, enganado pelas falsas cargas, confiou na sua existência, até que, no minuto decisivo, comprovou que se tratava de uma substituição que o privava de sua arma mais importante. Já era tarde, no entanto.

 

Assim, no dia 12 de julho, tanto britânicos como americanos haviam completado a primeira e mais importante fase da invasão da Sicília. Todos os contra-ataques do Eixo haviam sido repelidos e se infligira ao inimigo duras perdas. O Eixo já não poderia recuperar-se delas. Além disso, a consolidação das cabeças-de-ponte e, especialmente, a ocupação do porto de Siracusa, forneceram seguras bases para o abastecimento das forças aliadas.

 

Anexo

 

Forças frente a frente na Sicília

 

15o Grupo de Exércitos Aliado - Alexander

7o Exército americano - Patton

2a Divisão Blindada, 82a Divisão Aerotransportada e Divisões de Infantaria: 1a, 3a, 9a e 45a.

8o Exército britânico - Montgomery

1a Divisão Aerotransportada; 1a Divisão canadense, 1a  Divisão escocesa; 5a Divisão de Infantaria e Brigadas Blindadas: 1a; canadenses, 4a e 23a.

A frota de invasão, comandada pelo Almirante Cunningham contava com mais de 2.000 embarcações de todos os tipos. A aviação aliada, capitaneada pelo Marechal Tedder, dispunha de uns 4.000 aviões de caça e bombardeio.

7o Exército do Eixo - Guzzoni

12o Corpo de Exército:

Divisão de Infantaria Aosta e Assietta; 15a Divisão Motorizada alemã

15o Corpo de Exército:

Divisão de Infantaria Napoli; Divisão Panzer Hermann Goering e o Grupo de combate alemão Schmattz

Reserva:

Divisão Motorizada Livorno; Grupo de combate alemão Neapel e Fulrriede e 11 batalhões antipára-quedistas

Defesa costeira:

6 divisões de infantaria

As forças de aviação alemães e italianas, incluindo as esquadrilhas estacionadas no sul da França, somavam 1.250 aparelhos.

 

 

Rangers

Este corpo americano de tropas selecionadas, utilizado como unidade de choque, no estilo dos comandos britânicos, foi criado pelo Major William Darby, oficial da 34a Divisão de Infantaria. Quando estava na Irlanda, no verão de 1942, Darby estudou a possibilidade de organizar um batalhão apto para missões especiais, capaz de realizar operações de alto risco, e que superasse, tanto em capacidade combativa, como em resistência física, os batalhões usuais da infantaria. Esta unidade deveria ser integrada, em sua totalidade, por voluntários, que aceitassem prazeirosamente a cota de perigo adicional que significava a atuação no novo corpo. O distintivo de ranger se converteu num símbolo de audácia e coragem, ostentado orgulhosamente por todos os homens que integraram o corpo. O primeiro grupo de rangers, composto por 600 soldados, foi treinado no centro de comandos, no velho castelo de Achnacarry, num isolado rincão da Escócia. Ali, os voluntários foram submetidos a um programa de duro e intenso treinamento. Um reduzido contingente desses rangers - seis oficiais e 44 soldados, recebeu o batismo de fogo no fracassado reide contra o porto francês de Dieppe, no mês de agosto de 1942. Comandados pelo Capitão Roy Murray, os rangers se integraram às unidades dos comandos que intervieram no desembarque. No decorrer da ação 13 rangers foram mortos, feridos ou aprisionados. Entre as baixas se contava o Tenente Edwin Loustalot, que foi o primeiro americano a morrer em combate contra as tropas alemães, em solo europeu. Posteriormente, os rangers atuaram, já como força organizada, na invasão da África do Norte e da Sicília. Nesta última ação tomaram parte os batalhões comandados pelo Major Darby, que, por sua heróica atuação na conquista do porto de Gela, onde destruiu vários tanques inimigos com um canhão de 37 mm, foi condecorado e promovido a chefe de um regimento de infantaria. Darby, porém, declinou da honraria para permanecer à frente dos seus homens. Era tal o espírito que reinava na corporação a ponto de seu próprio chefe recusar a promoção oferecida para continuar exibindo a preciosa insígnia dos rangers. Sua condição de força de elite ficou claramente assinalada em uma frase do General Omar Bradley: “... chegaram a ser tão competentes que, ao finalizar a guerra, creio honestamente que não havia nada que não pudessem fazer”.

 

 

Correspondentes de guerra

Junho de 1943. Falta ainda um mês para o ataque à Siracusa. Nas praias do norte da África, em quantidade cada vez maior, desembarcam homens e materiais. Infantaria, artilharia, tanques, equipamentos e abastecimentos de todos os tipos se acumulam, ultrapassam a capacidade dos ancoradouros e dos depósitos, e se estendem pelas estradas que se internam no continente. Misturados com os soldados, observando tudo e tomando notas sem cessar, os correspondentes de guerra percorrem os depósitos, vigiam as praias e compartilham da vida dos soldados. Os jornalistas compreendem que algo muito importante se está preparando. A movimentação dos homens e de material o comprova. E esse passa a ser o tema obrigatório de suas indagações que se repetem sem cessar.

No comando das forças, no entanto, alguém, se preocupa com os movimentos dos correspondentes. É alguém que sabe que os homens da imprensa tem uma missão a cumprir e a estão cumprindo. Sua missão é informar e procuram fazê-lo. As notícias partem diariamente para centenas de órgãos de difusão do mundo aliado. E nada do que se faz passa despercebido para eles.

Alguém, no comando supremo, percebe logo que uma mensagem, apenas uma, pode ser trágica para o futuro da operação. Sabe que uma nota, aparentemente inocente, pode esconder uma informação vital para a segurança do que se está preparando. O homem que pensa tudo isso sabe que nenhum dos correspondentes que ali estão é agente inimigo. Sabe que todos são homens conhecidos e leais. Porém sabe que, no exercício da sua missão, são tentados a enviar comentários que depois podem representar um verdadeiro desastre para as forças que devem combater. Então, esse homem, que não é ouro senão o General Eisenhower, planeja uma reunião de imprensa com todos os correspondentes de guerra.

Pouco mais tarde, num grande salão, os jornalistas começam a reunir-se. Após verificar detidamente as credenciais de cada um, os soldados dos serviços de segurança que controlam as entradas da sala, permitem o ingresso. Ali, aguardam, em silêncio, pacientemente, intrigados com o que parece ser anúncio de importantes acontecimentos. Por fim, depois de uns minutos, ingressa no recinto o comandante supremo, General Eisenhower. Este, sem preâmbulos, diz aos correspondentes que tem uma importante notícia a dar. Esclarece, em seguida, que a novidade não poderá, contudo, ser transmitida senão um mês mais tarde. A surpresa paralisa os jornalistas. Não é habitual que uma notícia seja dada com um mês de antecedência... Eisenhower, porém dissipa todas as dúvidas. E suas palavras, embora esclareçam o assunto, criam uma verdadeira onda de comentários, frases em voz alta e perguntas. O chefe aliado, sorridente, espera que a calma retorne... O que Eisenhower anunciou? Que notícia caba de dar? Simplesmente, nada menos que a invasão da Sicília, que se efetuará um mês mais tarde.

A razão dessa informação escapa aos correspondentes, até que o próprio Eisenhower, pouco depois, forneça a chave da situação: a informação foi dada, precisamente, para que os correspondentes, involuntariamente, não deixem filtrar os dados necessários para que o inimigo se ponha de sobreaviso antes do tempo.

Os jornalistas, homens de responsabilidade, honrarão o compromisso, durante o longo mês que precederá ao ataque. E nenhum despacho sairá do norte da África que possa ser útil ao inimigo.

 

 

É ele, Winston Churchill...

Junho de 1943. África do Norte. Os dois líderes máximos aliados, o Primeiro-Ministro inglês Winston Churchill, e o chefe militar americano, General Eisenhower, se reúnem a fim de ultimar os detalhes da invasão da Sicília e da posterior penetração na península. Assistem à conferência os mais altos chefes militares e Anthony Eden.

Ao se concluírem as conversações, os dirigentes britânicos, Churchill e Eden, regressam imediatamente a Gibraltar. Os alemães, no entanto, estão atentos e mobilizam os seus serviços de informações. A espionagem que se desenvolve nos arredores de Gibraltar e me território espanhol e português estende-se às rotas habituais e aos aeroportos.

É então que parte de Lisboa um avião comercial, pertencente a uma empresa privada. Seu destino: Londres. Os passageiros: homens de negócios e os personagens que em tempo de guerra viajam em missões impossíveis de definir.

No aeroporto de Lisboa, atentos ao movimento dos aparelhos comerciais, os agentes alemães vigiam detidamente os viajantes. Um dos membros da espionagem alemã, num momento determinado, acredita vislumbrar uma figura conhecida. Rapidamente se acerca e contempla o desconhecido. Algo chama a sua atenção. E reage imediatamente. O passageiro desconhecido é um homem de certa idade, de físico volumoso, que fuma um grosso havana. O agente pode vê-lo uma última vez, quando o desconhecido sobe ao avião; instantes antes da partida.

Com um rugir dos motores, o avião comercial levanta vôo. Nesse mesmo instante, com um veloz automóvel, o agente alemão sai do aeroporto, rumo a uma casa nas redondezas. Um pouco mais tarde, transmitindo em código, uma emissora alemã envia ao ar uma mensagem que estremece os escutas: “Churchill acaba de partir de Lisboa  no avião comercial...”

Não é preciso mais nada. Dois caças alemães, alertados, se lançam ao encontro do aparelho comercial. O avião de passageiros sobrevoa as águas do Atlântico quando as suas silhuetas, velozes, se precipitam sobre ele. Rajada após rajada, as metralhadoras perfuram em 10, 20, 100 lugares o lento avião. E o esperado acontece. Vinte segundos mais tarde, a enorme máquina se precipita nas águas, envolta em chamas. Treze pessoas perecem no incidente. Entre elas, o ator inglês Leslie Howard e um desconhecido que fumava um grosso havana e era assombrosamente parecido com o Primeiro-Ministro inglês.

 

 

Erro trágico

11 de junho de 1943. Ao cair a tarde, nos aeródromo de Túnis, 2.000 pára-quedistas da 82a Divisão Aerotransportada americana embarcam nos aviões que devem conduzi-los às praias da Sicília. Lá, há já um dia inteiro estão combatendo as forças de ataque do General Patton. Os pára-quedistas, por ordem do Alto-Comando, devem lançar-se de noite sobre as posições avançadas aliadas, para reforçar as tropas de infantaria. Um atrás do outro, os bimotores levantam vôo e rumam para o norte. São 144 aviões C-47 distribuídos em formação aberta sobre as águas do Mediterrâneo. A viagem se realiza sem tropeços e as esquadrilhas convergem para o objetivo. Os pilotos, ao se aproximarem da Sicília iniciam a descida. Faltam agora poucos minutos para concretizar-se o lançamento...

Na hora indicada, os primeiros aviões sobrevoam a grande concentração de barcos de guerra e transportes aliados ancorados junto às praias. Os pára-quedistas ajustam as correagens e conferem suas armas. Impacientes, os chefes de pelotão fixam seu olhar nas luzes que darão o sinal para se lançarem ao espaço. Lá embaixo, nos barcos e nas praias, milhares de canhões e metralhadoras antiaéreas apontam para o céu. Para possibilitar o lançamento, se lhes ordenou, taxativamente, não abrir fogo, mesmo se aparecessem aparelhos inimigos. Os artilheiros, porém não tem, nessa noite, os nervos controlados. Minutos antes da chegada dos bimotores aliados, uma esquadrilha de bombardeiros alemães atacou inesperadamente a cabeça-de-ponte, provocando a reação maciça e instantânea da artilharia antiaérea. Os dedos estão ainda nos gatilhos e disparadores... A 200 metros de altura, os aviões aliados continuam confiantemente a sua aproximação da zona do lançamento. De súbito, em um barco, um artilheiro pensa distinguir entre as sombras um avião alemão e, violando a ordem rompe fogo. Instantaneamente, como respondendo a um sinal, todas a baterias se juntam ao primeiro canhão e incendeiam o céu em infernal barreira de explosões.

Apanhados inesperadamente nessa mortal armadilha, os aviões aliados manobram bruscamente para escapar. Muito o conseguem; alguns, avariados, continuam o vôo para as praias, outros, porém, caem abatidos pelos projéteis e se precipitam no mar, envoltos em chamas. Assim, por um trágico erro, são destruídos pela artilharia aliada 23 transportes C-47. Com os aparelhos, perecem a totalidade dos pilotos e pára-quedistas que neles viajavam.

 

 

Resistir a todo custo!

Diretiva emitida por Mussolini ao chefe do Estado-maior das Forças Armadas, a 14 de junho de 1943:

“Depois de transcorridos quatro dias do desembarque inimigo na Sicília, considero a situação sumamente delicada e inquietante, porém ainda não de todo comprometida. Trata-se agora de avaliar os principais elementos da situação e decidir que coisa deve e tem que ser feita. A situação é crítica porque: a) depois do desembarque, a penetração em profundidade se desenvolveu num ritmo mais que veloz; b) o inimigo dispõe de superioridade aérea esmagadora; c) dispõe de tropas adestradas e especializadas (pára-quedistas, etc.); d) exerce, quase sem oposição, o domínio do mar; e) seus comandos demonstraram decisão na condução da campanha.

“Antes de decidir o que devemos fazer, é absolutamente necessário, para julgar os homens e os fatos, conhecer tudo o que sucedeu. É absolutamente necessário. Todos os informes do inimigo (que diz a verdade apenas quando vence) e as comunicações oficiais aliadas, impõem um exame dos acontecimentos das primeiras jornadas... A irregularidade e a pobreza dos informes recebidos deram origem a notícias falsas que provocaram uma profunda depressão em todo o país. Conclusão: a situação pode ainda ser dominada se tivermos, além dos meios, um plano e a vontade e a capacidade de aplicá-lo.

“O plano não pode ser, sinteticamente, senão este: a) Resistir a todo custo; b) Criar obstáculos ao abastecimento do inimigo com o uso maciço de nossas forças navais e aéreas”.

 

 

Fossos de proteção

Na costa sul da Sicília se estende a cidade de Gela. Franja arenosa banhada pelas águas do Mediterrâneo, perdeu o encanto para transformar-se em uma das tantas cabeceiras da invasão à grande ilha do sul da Itália. Já não barcos de pescadores que sulcam as águas próximas às praias. Agora se trata de grandes barcaças que se aproximam da terra e despejam sua carga. Mar adentro, as ameaçadoras silhuetas dos navios de guerra se recortam contra o horizonte. Seus canhões apontam para a terra. Suas metralhadoras antiaéreas giram sobre os eixos, prontas para entrar em ação. Enquanto isso, as barcaças menores continuam o seu ir e vir ininterrupto. Pequenos veículos desembarcam sem cessar. Jipes, motocicletas e caminhões descem as pranchadas, com os motores em movimento, e se internam rapidamente na ilha. Algumas barcaças, semelhantes às demais no aspecto, seguem um rumo diverso. Se acercam de um ponto mais afastado daquele que as tropas utilizam para desembarcar e encalham, roçando o fundo chato nas pedras da praia. Bandeiras especiais que ornamentam o seu costado, chamam a atenção. Aquelas barcas conduzem explosivos e munições. São em realidade barris de pólvora flutuantes. Bastará um projétil disparado com precisão ou uma bala que acerte o alvo casualmente e a embarcação se converterá num vulcão.

Várias das lanchas especiais encalham e, imediatamente, um grupo de soldados que se encontra na praia corre até elas. Formando uma longa fila, os homens se internam na água. Rapidamente, os grandes caixões de explosivos são passados de mão e mão através da cadeia de homens. Depois seguem as pesadas bombas. Uma tarde inteira se prolonga na cansativa e perigosa tarefa. Por fim, na manhã seguinte, 300 bombas de 250 kg se acumulam na praias, prontas para serem levadas para o interior da ilha. Junto a elas, sete toneladas de projéteis de 20 mm foram uma montanha de metal e explosivos.

É quase meio-dia quando o General Patton chega ao local. A viagem de inspeção se vê interrompida por uma exclamação afogada do chefe americano. O jipe detém logo a marcha e Patton salta. Acerca-se da praia a grandes passadas e, quando vai chamar a atenção dos homens, o rugido de potentes motores enche de ecos o espaço. Patton, tal como os demais,  se protege numa depressão do terreno e cobre a cabeça com as mãos. Porém nada acontece. Os caças alemães já estão longe quando o general americano se levanta e corre para a praia. E ali vê seus homens dedicados a uma tarefa que o faz explodir de impropérios. Os homens cessam de trabalhar e assumem a posição de sentido. A uma nova ordem de Patton, se afastam dali, em formação correta. Porém, apenas percorreram 20 metros, o rugir dos motores dos caças alemães volta a estremecer o espaço. Patton grita uma ordem. Porém sua voz é afogada pelo estrondo dos motores. E o general vê seus homens que, mais uma vez, se atiram nos refúgios que estavam construindo quando sua primeira ordem os interrompeu.

Os fossos de proteção; os refúgios, onde os soldados, procuram preservar suas vidas, estão cavados entre os dois gigantescos montes que formam os 28.000 kg de explosivos. Uma bala, uma só bala que perfure a barreira de metal que protege o explosivo, bastará para provocar uma explosão de tal magnitude que nenhum deles chegará nem sequer a ouvir a detonação.

 

 

Bombardeio de Roma

O General Brereton, chefe da 9a Força Aérea americana, relata em seu Diário os pormenores da primeira incursão da aviação aliada contra a capital italiana.

“Cairo, 19 de julho de 1943 - O primeiro ataque aéreo  realizado contra a cidade de Roma, no curso da sua história, foi concretizado hoje, cumprindo a decisão do Presidente Roosevelt e do Primeiro-Ministro Churchill, tomada na entrevista que ambos mantiveram em Washington. Foi um ataque combinado das Fortalezas Voadoras e Marauders da 12a Força Aérea, com bases em Túnis e Pantelleria, e dos Liberators da 9a Força Aérea, com base em Bengasi. O objetivo da 9a Força eram os parques ferroviários de Littorio, uma grande rede de vias férreas em forma de um relógio de areia, através da qual se escoa a totalidade do tráfego ferroviário da Alemanha e do norte da Itália, ao sul da península. Os parques cobrem uma superfície de 300 metros de largura por 4 km de comprimento, no extremo norte da cidade, e tem uma capacidade de trabalho de cerca de 3.000 vagões de carga por dia. O aeródromo que separa os parques ferroviários do rio Tibre, foi também atacado. O objetivo da 12a Força Aérea foram as gares de San Lorenzo, em outro setor da cidade. Tomaram-se todas as precauções para não danificar os monumentos religiosos e culturais de Roma. As tripulações receberam um adestramento especial e estudaram detidamente grandes mapas ampliados de Roma. Nesses mapas, todos os santuários, monumentos e edifícios históricos foram marcados com grandes quadros vermelhos e com advertência: “Não deve ser danificado”. Ordenou-se aos bombardeiros que, se surgisse alguma dúvida acerca do lugar em que cairiam as bombas, deveriam abster-se de arrojá-las. Antes do reide declarou-se aos tripulantes católicos que, caso desejassem, poderiam ser dispensados de participar do ataque. Pedi ao general Ent que me informasse se alguém desistira, porém não tive notícia de ninguém que o fizesse. Na manhã do ataque e na jornada anterior, foram lançados milhares de volantes sobre a cidade, nos quais se informava à população que o bombardeio se produziria ao meio-dia de 19 de julho, e se instava que o povo buscasse refúgio. Os Aliados, audaciosamente, deram assim um aviso prévio do seu golpe e depois o executaram. Esta foi uma medida psicológica extraordinariamente eficaz, pois deu aos habitantes de Roma uma demonstração clara do nosso poderio aéreo e da facilidade de que dispúnhamos para comunicar antecipadamente as nossas intenções. Ao discursar para as tripulações, o General Ent disse: “Recordem que estes objetivos militares estão localizados nos lugares mais sagrados e historicamente mais importantes de toda a Terra. Acima de qualquer outra consideração, devem os senhores ser extremamente precisos. Voem baixo, se for necessário, e seja qual for a resistência que encontrem, não se apressem e bombardeiem certeiramente...” A viagem de ida e volta a Roma cobriu uma distância de quase 2.000 milhas. Participaram um total de 521 bombardeiros, 272 pesados e 249 médios.

Cairo, 22 de julho de 1943 - Os informes dos reconhecimentos efetuados sobre o reide contra Roma, assinalam que o mesmo teve um êxito absoluto. Os parques ferroviários de Littorio ficaram reduzidos a um montão de escombros e ferros retorcidos; restos de vagões destruídos cobriam todo o terreno. O edifício da administração da Estrada de Ferro foi consumido pelas chamas e os galpões das locomotivas, destruídos. Um trem carregado de munições, que se deslocava pelo entroncamento, foi atingido e voou aos pedaços, causando uma série de explosões que contribuíram para aumentar os danos. O aeródromo vizinho foi atingido pelos incêndios e três aviões ficaram inutilizados sobre as pistas. O Eixo desatou uma onda de protestos e todas as rádios da Europa empreenderam uma violenta campanha propagandista, dirigida à África e aos EUA, condenando os “desapiedados aliados”. Os comunicados italianos sustentaram que 11 edifícios “sagrados para a fé e para a ciência foram gravemente danificados”, entre eles a Basílica de San Lorenzo. A rádio de Roma divulgou, por sua vez, que 717 pessoas foram mortas e 1.599, feridas”.

 

 

Cenas da derrota

“Quando, pela manhã, chegamos a Messina, o porto estava em chamas e a cidade semidestruída. Tive a sensação de um desastre acontecido de repente. Falava-se de traição. Todos se inclinavam à desconfiança. Até os militares. Entrementes, começaram os bombardeios aéreos, que nos surpreenderam quando nos dirigíamos ao comando alemão para nos informamos. No meio da rua, sem proteção alguma, assistimos aos terrificantes bombardeios de Messina, de Villa San Giovanni e de Reggio. Podemos dizer que vimos destruírem sob os nossos olhos o que restava da cidade de Messina. O fogo da artilharia antiaérea era fortíssimo, porém impreciso. Muitos poucos aparelhos foram abatidos. Vimo-nos impossibilitados de continuar para a frente ou de retroceder, rodeados de grupos de soldados, principalmente aviadores e marinheiros, que corriam em debandada. O espetáculo da estação de Scilla e da de Bagnara era realmente penoso. Uma multidão de civis e outra “multidão” de militares tomavam de assalto os trens. Marinheiros, aviadores, soldados, provenientes de Augusta, de Catânia, de Riposto, de Messina desfalecendo de fome e cansaço se espremiam, gritavam, proferiam insultos. A atmosfera era de desastre. Os oficiais, inclusive, não pareciam estar moralmente muito longe de seus soldados”.

“Apesar dos dois anos de preparação, o Comando de Enna, que se encontrava no centro da ilha e no lugar mais elevado, não estava preparado para enfrentar uma simples ação de bombardeio. O Comando de Enna abandonou a cidade depois do primeiro e único bombardeio. Tal fato criou uma situação cujos efeitos serão certamente deploráveis para nossas tropas e aos serviços de guerra. Tivemos a sensação de um desastre militar, porque eram evidentes os sinais de desorganização das unidades, principalmente por causa dos soldados da marinha e da aviação, que se dirigiam desordenadamente no rumo de Messina. O caso da cidade de Augusta, que não quis defender-se; o caso de algumas divisões que se dispersaram e não combateram, tem sua razão de ser na insuficiente organização dos comandos... Efeitos suicidas tiveram os episódios dos grupos de aviação e da marinha, desorganizados e desfeitos, mal apareceram as forças inimigas - Corriere della Sera, julho de 1943.

 

 

 

 

Voltar