O 5o Exército irrompe nas Linhas Alemães
Rompimento no Vale do Pó
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O general italiano Mario Paddu, em sua valiosa obra “Entre duas invasões”,
descreve os bastidores da campanha da Itália, durante a “batalha da Romagna”. A região da Itália, direta ou indiretamente relacionada com a
linha Gótica, atacada de surpresa pelos Aliados e posteriormente rompida,
está compreendida entre os paralelos de Bolonha e Florença, e compreende a
Romagna e os Apeninos setentrionais tosco-emilianos. A Romagna é uma região
mais ou menos triangular, plana, com algumas colinas, localizada entre o
Adriático e a cadeia dos Apeninos. A zona montanhosa é formada por uma série de cadeias de
montanhas quase paralelas, algumas das quais superam 1.500 metros, são de
tipo calcário e apresentam formas suaves e arredondadas. Todos, em geral,
descem para o sudeste. Há duas encostas: a adriática, que é uma pendente suave
e tem numerosos vales inclinados para o nordeste, sulcados por cursos de água
geralmente caudalosos; e a tirrênica, que é uma encosta mais abrupta, com
cursos de água menos caudalosos. Existem numerosas vias de comunicação,
originadas principalmente no vale do Arno, base natural para operar rumo à
zona ocupada, através dos Apeninos. A cidade de Bolonha, situada na desembocadura dos vales
recortados pelas mais importantes vias de comunicação, constitui um
importante objetivo para garantir qualquer operação que, do sul ou do
sudeste, tente avançar rumo à zona paduana. Considerado em conjunto, o
terreno apresenta características muito variadas. Admite amplas
possibilidades de manobras para o atacante, porém permite ao defensor, mesmo
em inferioridade de condições, enfrenta-las eficazmente. |
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Forças e pontos de partida O sistema defensivo alemão, que se estendia ao longo de quase
320 km, constava de uma zona de segurança, limitada, na frente, pelos rios Arno
e o Metauro, e um campo principal de combate, que se alongava sobre a linha
Viareggio, Chiesa, Lucca, Pescia, norte de Pistóia, Monte Favello, rio Sieve,
até Dicomano, Consumma, norte de Bibbiena, Passo Frassirieto, Passo de
Viamaggio; depois, pela esquerda do Foglia, até Pesaro. O limite posterior
seguia a linha Massa, Altissimo, Pania della Choce, Borgo Mozzano, Abetone,
Piastre, Collina, Vernio, La Futa, Giogo, Casaglia, San Godenzo, Monte
Falterana, Passó Maridrioli, Verghereto e, por fim, atingia o Adriático em
Rimini. Nessa posição de resistência, a defesa era baseada em pontos
fortificados. As obras tinham caráter de semipermanentes, com posições de
artilharia e ninhos de metralhadoras, refúgios, depósitos de munição,
abastecimentos, etc. Havia também numerosos campos minados e fossas
antitanques. Nos extremos do sistema defensivo, na costa, existiam obras de
cimento armado, núcleos blindados de artilharia, casamatas de concreto armado
e postos de armas automáticas. Foram preparados também zonas inundadas. Em linhas gerais, as defesas eram construídas de terra. Eram
poucas, na verdade, as de cimento armado. Nos primeiros dias de agosto,
muitas das obras defensivas não haviam ainda sido completadas, dada a grande
extensão por defender e o escasso tempo disponível. E, na mesma data, a
retirada dos 10o e 14o Exércitos foi considerada
encerrada. Os alemães dividiram a frente a ser defendida em duas zonas, com
limite interno a leste da linha Florença-Bolonha. Os dois exércitos (10o
e 14o) se dividiram da seguinte maneira: 14o Exército, do Tirreno até Pontassieve: 14o Corpo de Exército (do Tirreno até Empoli): 16a
Divisão SS Panzergrenadier; 65a Divisão de Infantaria, 26a
Divisão Blindada. 1o Corpo de Exército Pára-quedista (de Empoli até
Pontassieve): 362a Divisão de Infantaria; 4a Divisão de
Pára-quedistas; 365a Divisão de Infantaria. Reserva: 20a
Divisão de Campanha “Luftwaffe” (zona de Viareggio); 29a Divisão
Panzergrenadier (ao norte de Florença). 10o Exército, de Pontassieve até o Adriático: 51o Corpo de Exército de Montanha (de Pontassieve até
Sansepolero): 715a Divisão de Infantaria; 44a Divisão
de Infantaria; 114a Divisão de Infantaria Alpina. 76o Corpo de Exército Panzergrenadier (de Sansepolero
até o Adriático): 5a Divisão de Montanha; 71a Divisão
de Infantaria; 278a Divisão de Infantaria; 1a Divisão
de Pára-quedistas; 162a Divisão de Infantaria (turca). Reserva: 98a Divisão de Infantaria (zona de Bolonha). Ao todo, os alemães dispunham de 19 divisões (14 na primeira
linha, 2 de defesa de litoral, nos flancos, e 3 em segunda linha, de
reserva). Os efetivos de cada divisão estavam reduzidos a dois terços da
força original, o que significava que os alemães dispunham, na realidade, de
umas 12 divisões normais. Os Aliados, por sua vez, nos primeiros dias de agosto, tinham
distribuído o seguinte dispositivo: 5o Exército, do Tirreno até à planície de Florença: 4o Corpo de Exército (setor litorâneo a oeste de
Pisa): 6a Divisão Blindada Sul-africana; 85a Divisão de
Infantaria; 1° e 2° Grupamentos Blindados. Numa segunda linha: 1a
Divisão Blindada Americana; 370° Grupamento de Combate (92a Divisão de Infantaria de soldados de cor). 2o Corpo de Exército (a oeste de Florença): na
primeira linha, 442° Grupamento de Combate e três batalhões de tanques. Numa
segunda linha, 34a Divisão de Infantaria; 91a Divisão
de Infantaria; 88a Divisão de Infantaria. 13o Corpo de Exército: 8a Divisão Hindu; 1a
Divisão de Infantaria Britânica; 6a Divisão Blindada Britânica e 1a
Brigada Blindada Canadense. Reserva: Comando da Força Expedicionária Brasileira; 6o
Regimento de Infantaria Brasileiro. 8o Exército, de Val Sieve até ao Adriático: 10o Corpo de Exército (zona central dos Apeninos): 10a
Divisão de Infantaria Hindu; 9a Brigada Blindada Britânica; vários
destacamentos de exploração; 4a Divisão Hindu; 65a
Divisão de Infantaria; 46a Divisão de Infantaria; 4a
Divisão de Infantaria Britânica; 1a Divisão Blindada Britânica; 7a
Brigada Blindada e 25a Brigada de Tanques. 1o Corpo de Exército Canadense (planície litorânea
adriática): 1a Divisão de Infantaria Canadense; 5a
Divisão Blindada Canadense; 21a Brigada de Tanques; um regimento
de cavalaria de exploração. 2o Corpo de Exército Polonês (costa adriática): 3a
Divisão Carpática; 5a Divisão Kresowa; 2a Brigada
Blindada e 7o de Hussardos. Reserva: 2a Divisão Neozelandesa; uma brigada de
montanha, grega, e Corpo Italiano de Libertação. Ao todo, os Aliados dispunham dos seguintes efetivos: 5o
Exército: seis divisões de infantaria, três divisões blindadas e unidades
independentes equivalentes a duas divisões de infantaria e duas divisões
blindadas; 8o Exército: dez divisões de infantaria, duas divisões
blindadas e unidades independentes equivalentes a uma divisão de infantaria e
três divisões blindadas. Portanto, os Aliados contavam com forças que totalizavam cerca
de 19 divisões de infantaria e 10 divisões blindadas. A desproporção numérica
entre os efetivos aliados e alemães era ainda agravada pela total supremacia
aérea aliada. A batalha, em linhas gerais, se apresentava totalmente
desfavorável para os efetivos alemães. Os planos alemães O comando alemão tratou, em primeiro lugar, de interceptar as
principais vias de acesso à planície de Pádua. A obstrução apresentava
condições muito favoráveis no oeste, dada a direção dos cordões montanhosos.
No leste, ao contrário, a situação era desfavorável, pelo possibilidade que
tinham os Aliados de poder rodear a ala esquerda do dispositivo alemão e
penetrar assim, facilmente, na planície. O comando alemão, conseqüentemente,
depois de haver ocupado a posição em que pretendia levar a cabo a defesa, e
após proteger os flancos contra possíveis desembarques, localizou a maior
parte de suas reservas perto do litoral adriático. Para fazer frente à ameaça
Florença-Bolonha, também destacou, como reserva, uma divisão para os
arredores de Vergoto. Em linhas gerais, o comando alemão baseou seus planos numa luta
destinada a desgastar e retardar o avanço dos Aliados. Sabia, sem dúvida, que
não estava em condições de fazer fracssar por completo o iminente ataque.
Tratava-se de ganhar tempo e, com esse objetivo, foram planificadas as
operações. Os planos aliados Ao chegar à linha Arno-Metauro, os Aliados compreenderam imediatamente
que a retirada alemã ia se deter. Isso era indicado pela situação dos
divisões alemães, distribuídas numa primeira linha correspondendo à zona
montanhosa. Numerosos informes, além disso, chegavam ao comando aliado,
mencionando os trabalhos de fortificação, que, indiscutivelmente,
significavam o fim do recuo alemão. Para o comando aliado, a tomada de contato com a primeira linha
de resistência não oferecia dificuldades insolúveis. Não se poderia dizer o
mesmo com relação ao enfrentamento da principal linha de resistência, atrás
da qual se estendia a planície. Em linhas gerais, excluindo o desembarque no litoral adriático
e, conseqüentemente, o eventual rodeio da ala esquerda alemã, pode-se
considerar que, por falta de tropas de montanha, os Aliados tinham poucas
possibilidades de escolher a forma de operar. O plano, denominado Olive, foi comunicado aos comandos a 13 de
agosto de 1944, e tinha como idéia fundamental pressionar fortemente ao longo
do litoral adriático, com o fim de comprometer e destruir a maior quantidade
possível de efetivos inimigos, para favorecer o rompimento previsto no zona
central; a variante consistia em desencadear uma forte pressão no centro,
para quebrar a organização inimiga ao longo do citado litoral. O ataque preliminar Os primeiros movimentos aliados tiveram por objetivo o rechaço
dos elementos adiantados alemães para a linha Arno-Metauro e o obtenção de
contatos com as posições de resistência nos cumes dos Apeninos. Durante todo
o mês de agosto, a 92a Divisão Americana atacou as posições alemãs
na cidade de Pisa, defendida pelos efetivos das 16a Divisão
Panzergrenadier e 26a Blindada. Nos primeiros dias de setembro,
finalmente, a resistência cedeu e os Aliados ocuparam Pisa e Lucca e tomaram
contato com o campo principal de combate na zona de Vioreggio, um pouco ao
norte de Lucca, e na zona de Pistóia. O setor de Florença, situado ao norte do rio Arno, caiu nas mãos
aliadas no dia 8 de agosto, porém os alemães se retiraram para as colinas
situadas mais ao norte, e ali continuaram a resistência durante mais duas
semanas. À esquerda da frente de combate do 8o Exército, entre
Val Sieve e Val Tiberina. as operações se desenrolaram em ritmo lento, por
causa da resistência inimiga e pelas características montanhosas do terreno.
A 30 de agosto, depois de um mês de combates, foram ocupadas pelos Aliados
Pontossieve, Bibbiena, Sansepolero e Urbino, e a 3 de setembro estabeleceu-se
contato com as vanguardas alemãs na linha divisória da vertente apenina entre
Monte Falterona e Monte Fumoiolo. Na vertente adriática, os alemães foram atacados pelos Aliados a
25 de agosto. O rompimento foi efetuado por três corpos de exército: o 2o
Corpo de Exército Polonês, à direita; o 50o Corpo de Exército
Canadense no centro e o 5o Corpo de Exército Britânico à esquerda.
O objetivo do ataque era destruir as defesas do rio Metauro e travar contato
com o campo principal de combate no rio Foglia. No setor do 2o
Corpo de Exército Polonês, a 5a Divisão, após duros combates,
alcançou o rio Foglia a 29 de agosto, Suas unidades avançadas chegaram até
aos subúrbios de Pesaro. O 50o Corpo de Exército Canadense, por
sua vez, superou a resistência alemã entre o Metauro e o Foglia, e irrompeu
no campo principal da posição de resistência que os alemães ainda não haviam
ocupado; em seguida, lançaram a 5a Divisão Blindada Canadense rumo
ao norte. O 5o Corpo de Exército Britânico, além disso, cooperou
no ataque, protegendo o flanco esquerdo. Entre 1 e 2 de setembro, o luta
continuou com violência e permitiu aos Aliados a conquista do Passo de
Cottolica. A esta altura dos acontecimentos, a resistência alemã foi
aumentando progressivamente. Por essa razão, o ataque aliado perdeu eficácia
gradualmente, até converter-se numa ação de desgaste. Por volta do segunda semana de setembro, os exércitos aliados
haviam superado apenas as posições adiantadas alemães; entrementes, os
alemães haviam ganho um tempo precioso para completar os preparativos
defensivos na linha Gótica. E, embora esses trabalhos não alcançassem a
eficiência e a importância planejadas, bastaram para dar à organização
defensiva uma amplitude que a converteu em obstáculo de primeiríssima ordem. As operações preliminares praticamente haviam terminado.
Acercava-se a batalha decisiva e a distribuição das forças era a seguinte: Aliados: 5o Exército (do Tirreno às proximidades de Florença): 4o Corpo de Exército: 6a Divisão Blindada
Sul-africana e grupamento de combate de soldados de cor. 2o Corpo de Exército: 35a Divisão de
Infantaria; 88a Divisão de Infantaria; 91a Divisão de
Infantaria; Task Force 45 (efetivos aproximados de uma divisão; 5 grupos de
artilharia antiaérea, americanos, 1 regimento antiaéreo leve, britânico, 1
batalhão de tanques, americano, parte de dois grupos antitanque, parte de um
destacamento de exploração e algumas unidades de serviço); e 1 batalhão de
tanques. 13o Corpo de Exército: 1a Divisão de
Infantaria Britânica; 8a Divisão de Infantaria Hindu; 6a
Divisão Blindada Britânica, e 1a Divisão Blindada Canadense. Reserva: 1a Divisão Blindada Americana e Comando das
Forças Expedicionárias Brasileiras (6° Regimento de Infantaria e várias
unidades). 8o Exército (de Consumma ao Adriático): 10o Corpo de Exército: 10a Divisão de
Infantaria Hindu; 9a Brigada de Tanques; e unidades de exploração. 5o Corpo de Exército: 4a Divisão de
Infantaria Inglesa; 4a Divisão de Infantaria Hindu; 46a
Divisão de Infantaria; 56a Divisão de infantaria (menos uma
brigada), 7a e 25a Brigadas de Tanques. 1o Corpo de Exército Canadense: 1a Divisão
de Infantaria Canadense; 2a Divisão de Infantaria Neozelandesa; 6a
Divisão Blindada Canadense; 3a Brigada Grega de Montanha; 21a
Brigada. de Tanques. Reserva: 2o Corpo de Exército Polonês. Alemães: 14o Exército (do Tirreno ao vale do Sauterno): 14o Corpo de Exército: 16a Divisão
Panzergrenadier SS; 65a Divisão de Infantaria e 362a
Divisão de Infantaria. 21o Corpo de Exército: 334a Divisão de
Infantaria e 4a Divisão
Pára-quedista. Reserva: 356a
Divisão de Infantaria. 10o Exército (da linha Castel GuercioMonte Grande,
até ao Adriático): 51o Corpo de Exército de Montanha: 715a
Divisão de Infantaria; 44a Divisão de Infantaria; 305a
Divisão e 114a Divisão de Montanha. 75o Corpo de Exército: 71a, 98a
e 278a Divisões de Infantaria; 26a Divisão Blindada; 29a
Divisão Panzergrenadier e 1a Divisão Pára-quedista; 162a
Divisão de Infantaria. Reserva: 3a Divisão Panzergrenadier e unidades
menores. Começa a batalha A 10 de setembro se desencadeou a ofensiva geral. Foi, na
realidade, a continuação dos combates que estavam sendo travados. Na frente do 5o Exército, o 4o Corpo tomou
a seu cargo uma ação secundária, a fim de desgastar mais o inimigo. O esforço
principal, paralelamente, na direção Florença-Bolonha, foi confiado ao 2o
Corpo de Exército. No setor de ataque do 4o Corpo, após dois dias de
luta, a 16a Divisão Panzergrenadier foi rechaçada para além de
Vioreggio. Na faixa de ataque do 2o Corpo, na zona de Pistóia,
os combates foram menos favoráveis para os Aliados. Apesar de haver ocupado a
cidade de Pistóia, o avanço dos Aliados foi detido pela tenaz resistência
alemã. No centro, e à direita, as operações se desenvolveram de forma
favorável para os exércitos aliados. O ataque teve êxito na direção do Passo de
Futa, cuja queda duas semanas depois do início da ofensiva, foi facilitada
pela ocupação de Firenzuelo, através do Passo do Giogo. O ataque posterior ao
Passo da Radicosa permitiu, em fins de setembro, a ocupação de Monghidoro. Em fins de setembro, a posição do sistema defensivo alemão havia
sido rompida e as vitoriosas tropas do 5o Exército se encontravam
em condições de conquistar Bolonha. O 13o Corpo de Exército, em
posição à esquerda do 5o Exército, protegia o flanco, atacando
pelo Vole do Sieve, em direção ao Passo Marradi. No setor esquerdo do 8o Exército, durante todo o mês
de setembro, a atuação visou entrosar esforços com o 5o Exército,
mediante ataque à posição inimiga de Passo Mandrioli. No centro, a defesa
alemã, a cargo da 114° Divisão Alpina, resistiu tenazmente. Os britânicos,
contudo, conseguiram superar a resistência. À direita, na faixa
correspondente ao 1o Corpo de Exército Canadense e 2o
Corpo de Exército Polonês, as forças atacantes iniciaram a ofensiva geral
decididas a abrir caminho. Para conter o ataque, os alemães tiveram que
apoiar suas divisões de primeira linha com a 26a Divisão Blindada
e outras unidades operativas. O poderoso ataque aliado começou, embora lentamente, a penetrar
no sistema defensivo do inimigo, rachando-o em vários pontos. Paulatinamente,
a luta foi-se centralizando na zona montanhosa próxima ao litoral,
tornando-se cada vez mais sangrenta. A 15 de setembro, a posição alemã no Monte Marano foi
conquistada. A brecha conseguida, no entanto, não pôde ser aproveitada pelos
Aliados, pela sua estreiteza. A 21 de setembro, depois de árduos combates,
Rimini caiu nas mãos dos Aliados. Em seguida, o ataque aliado foi perdendo impulso, gradualmente,
em virtude de ter sido detido o avanço pela ala esquerda, na zona pré-apenina.
Nos últimos dias de setembro, a mais avançada linha britânica formava uma
cunha ao longo do litoral, a noroeste de Rimini, enquanto que, pelo lado
esquerdo, a penetração se atrasara, encravando-se nas montanhas. Nos primeiros dias de outubro de 1944, em resumo, os Aliados
haviam penetrado profundamente no dispositivo inimigo de defesa ao longo das
duas principais direções do ataque. Durante o mês de outubro, a batalha prosseguiu com a mesma
intensidade. Na faixa do 5o Exército, depois de ataques e
contra-ataques, as duas forças ficaram, aproximadamente, nas mesmas posições.
No setor do 8o Exército, porém, os Aliados realizaram notáveis
progressos. A chegada do 2o Corpo de Exército Polonês à sua zona
de atuação se iniciou a 11 de outubro. Empenhou-se na frente a 5a
Divisão Polonesa, ajudada pela falta de estradas e povoados, e pela natureza
do terreno. O ataque começou a 19 de outubro e surpreendeu os alemães. A 22 de outubro, foi, ocupado Monte Grosso e ficou formada uma
cabeça-de-ponte no rio Robbi; depois da conquista de Strado, tomaram-se as
colinas de Mirobelli e de Colombo, através de um terreno muito difícil. Ameaçados pelos poloneses, os alemães desistiram da defesa no
Savio, e a 24 de outubro bateram em retirada pelo Ronco. A 27 de outubro, o 2o Corpo de Exército Polonês
recebeu ordem de efetuar um grande movimento de envolvimento para facilitar a
operação a cargo do 5o Corpo de Exército Britânico, cujo avanço
foi detido na zona de Meldola. A 1o de novembro os poloneses ocuparam as elevações
de Canicota, a 8 de novembro, Dovadola, e a 12 de novembro, Bagnolo. No dia 31 de outubro, o 5o Corpo de Exército
conseguira cruzar o rio perto de Forli, porém teve que paralisar o seu avanço
ao ser violentamente contra-atacado pelos alemães. No dia 9 de novembro, por
fim, os britânicos ocuparam Forli. Durante os primeiros dias de novembro, os
Aliados tiveram que admitir que o plano concebido para derrotar as forças
inimigas havia sido desbaratado. Efetivamente, a tenaz resistência alemã,
unida às péssimas condições climáticas, havia paralisado o avanço. A batalha, contudo, não diminuiu de intensidade. Pelo contrário,
tornou-se ainda mais encarniçada. Antes do fim do ano, o Alto-Comando Aliado ainda
tentou persistir no esforço sobre Bolonha, porém uma contra-ofensivo alemã o
obrigou a mudar de planos, tendo que retirar forças de outro setor da frente
para deter a ameaça inimiga diante da principal linha de comunicações aliada. Posteriormente, o esforço na Romagna teve que ser efetuado
inteiramente pelas unidades do 8o Exército. O ataque foi dirigido
contra a linha Faenza-Ravenna. O 2o Corpo Polonês, por seu turno,
tinha a missão de atacar na direção Castrocarro-Cornerello-Santa Lucia. O
avanço dos poloneses, iniciado a 13 de novembro, foi muito difícil; no
entanto, a 23 de novembro ocuparam San Biaggio, perdendo depois contato com
os alemães, que haviam batido em retirada. Os britânicos do 5o Corpo, de seu lado, foram
detidos, retomando o avanço quando os poloneses ocuparam Monte Fortino. No litoral, o 1o Corpo de Exército Canadense
conseguia, paralelamente, acercar-se de Ravenna. Em fins de novembro, o 8o Exército Britânico
alcançava as vertentes meridionais do Monte della Siepe, o 2o Corpo
Polonês, a zona de Monte Fortino, e o 5o Corpo Britânico, o Lamone
e Faenza. O 1o Corpo de Exército Canadense, por sua vez, chegava à
cidade de Ravenna. Nos primeiros dias de dezembro de 1944, os britânicos
continuaram as operações, tratando de impulsionar a ala esquerda na zona
montanhosa, com a finalidade de realizar um movimento envolvente pelo
nordeste, a fim de facilitar o avanço na planície romanhola. Simultaneamente,
a resistência alemã tornava-se cada vez mais forte. Poloneses, britânicos e canadenses
foram violentamente contra-atacados. Em meados de dezembro, os combates recomeçaram. Os poloneses da
3a Divisão conseguiram ocupar várias localidades, enquanto na
faixa do 5o Corpo, a 10a Divisão Hindu ocupava as
colinas de Pergola e de Varnelli, e a Divisão Neozelondesa a cidade de
Faenza. Em fins de 1944, ao chegar o inverno, e pelo esgotamento das
forças que se defrontavam, as operações se detiveram em toda a frente. A reorganização das unidades Após a estabilização da frente, em ambos os setores iniciou-se a
reorganização das respectivas forças, empenhadas na batalha já há três meses. Os alemães, conscientes de que a batalha. se resolveria na
Romagna, deslocaram forças da sua ala direita, levando-as para o litoral
adriático. A diminuição das forças no setor tirrênico para incrementar as do
adriático, tornou necessário reforçar o dispositivo, recorrendo a uma divisão
de exército da chamada República Social Italiana. Tratava-se da Divisão
Motorizada Itália. Outras unidades operativas constituídas foram a Divisão
Alpina “Monte Rosa”, a Divisão de Infantaria Littorio, a Divisão de
Infantaria de Marinha San Marco, e sua similar, a X MAS. Essas divisões
haviam completado sua instrução na Alemanha, e seu regresso à Itália se dera
em julho de 1944. Seus efetivos oscilavam entre 13 e 15 mil homens, com uns
450 oficiais. No setor americano, por sua vez, o 5o Exército foi
reforçado no mês de janeiro pela 10a Divisão de Montanha
americana. Além disso, o Corpo Expedicionário Brasileiro foi completado. A partir de janeiro de 1945, grupamentos de combate italianos
começaram a chegar à zona de operações. Tais grupamentos procediam das
divisões do exército italiano Cremona e Friuli, trazidas da Sardenha, e
Legnano, Mantova e Piceno, que se haviam salvo na Itália meridional, no
momento do armistício. O 4o
Grupamento Folgore procedia do Núcleo da Divisão Pára-quedista Nembo e
já pertencia ao Corpo Italiano de Libertação. A primeira unidade italiana que interveio nas ações foi o
grupamento Cremona, que substituiu, entre 10 e 12 de janeiro, a 1a
Divisão Canadense na zona de Ravenna. Posteriormente, a Friuli entrou em
combate, a 13 de fevereiro. A Folgore, por sua vez, entrou em posição a 3 de
março. Por fim, a 23 de março, o grupamento Legnano foi distribuído na ala
direita do 5o Exército. O grupamento Mantova foi mantido como
reserva. O Piceno foi destinado ao Centro de Instrução. Esses grupamentos de combate italianos substituíram as cinco
divisões britânicas e canadenses que, por ordem do Alto-Comando Aliado,
deviam ser transferidas a outro teatro de operações. Em meados de janeiro, a 10a Divisão de Montanha e a
Força Expedicionária Brasileira foram dirigidas para a zona de Porretta.
Estas unidades entraram em ações operativas contra os efetivos alemães no Monte
Belvedere. O ataque, iniciado a 19 de fevereiro, eliminou toda possível
reação alemã desde o alto vale do Reno até o Monte de Vergato. Entrementes, o comando do 15o Grupo de Exércitos
elaborara um plano destinado a uma nova fase operativa. A 12 de fevereiro
foram estabelecidos os delineamentos gerais. Tratava-se de alcançar o zona de
Bolonha, cuja possessão teria resolvido a batalha. Além disso, com a intenção
de aproveitar essa vantagem, a primitiva concepção foi estendida em
profundidade. Efetivamente, em seguida à conquista de Bolonha, os exércitos
aliados poderiam prever a travessia do Pó e, logo depois, a ocupação de
Verona. No dia 24 de março, o Comando do Grupo de Exércitos emitiu as
diretivas para os dois exércitos. O ataque principal ficaria a cargo do 5o
Exército que operaria depois de um ataque preliminar do 8o
Exército, na Romagna, em direção noroeste, rumo à frente
Bolonha-Portomaggiore. A operação teria três fases: 1o O 8o Exército deveria atacar e
desbaratar as posições alemãs no Sauterno. Entrementes, o 5o
Exército desceria pelos vales que conduzem a Bolonha, para cercar e ocupar
esse objetivo, essencial para o posterior desenvolvimento dos planos. 2o O ataque prosseguiria com os efetivos de um, ou
dos dois exércitos, para flanquear ou cercar as forças inimigas ao sul do Pó. 3o Cruzar-se-ia o Pó e os dois exércitos avançariam
rumo à linha do Adige, tendo como objetivo geral a zona de Verona. O 8o Exército atacaria as unidades operativas do 10o
Exército alemão distribuídas nas colinas e planícies da Romagna. O 5o Exército efetuaria o esforço principal no limite
interno dos dois exércitos alemães, 14o e 10o. Em síntese, frente a quase 18 divisões alemães (mais uma divisão
italiana) distribuídas entre os litorais tirrênico e adriático, havia, no
princípio da nova fase ofensiva, 17 divisões aliadas, mais 4 grupamentos de
combate italianos, 2 brigadas de infantaria, 5 brigadas blindadas, 1 brigada
de pára-quedistas, 1 brigada de “comandos” e 2 regimentos americanos. Eram,
ao todo, 24 divisões, das quais cinco blindadas. Ao comparar as forças é necessário levar em conta, a respeito
das unidades alemãs: a) Eficácia combativa reduzida à metade, por falta de pessoal,
carros e combustível. b) Moral muito desgastado, pelo situação geral que piorava a
cada momento. c) Falta de apoio por parte da aviação. d) Desconfiança com relação às unidades italianas. A respeito das unidades aliadas: a) Unidades em plena potencialidade combativa pela chegada de
reforços consideráveis. b) Maior quantidade de efetivos que as unidades similares
alemães. c) Moral muito elevado pelo desenvolvimento favorável dos
acontecimentos. d) Superioridade aérea total. A ação decisiva As operações aliadas determinavam, como primeira medida, e para
ambos os exércitos, um ataque sobre as extremidades do dispositivo alemão. O
5o Exército atacaria ao longo do litoral tirrênico, e o 8o,
no adriático. A missão do 8o Exército consistiria num grande
movimento envolvente, enquanto a do 5o deveria limitar-se a atrair
o adversário para uma zona a mais distanciada possível do lugar onde seria
realizado o ataque principal. O avanço do 5o Exército se iniciou a 5 de abril e foi
executado, primeiro, pelos Regimentos de Infantaria 473° e 442° e depois pela
92a Divisão. O ataque deparou com uma feroz resistência e logo foi
detido. A resistência foi mantida, principalmente, pelas unidades de
artilharia de costa alemães. Ao piorar, posteriormente, a situação, o comando do 14o
Exército alemão, depois de solicitar, sem êxito, a retirada da ala direita do
51o Corpo de Exército, viu-se diante da necessidade de transportar
com carros para Lumigiana, partindo da zona de Bolonha, um grupamento de
combate da 90a Divisão Panzergrenadier, sua única reserva
disponível. Entrementes, o ataque ao longo do litoral tirrênico alcançou seu
objetivo, apesar de ter tardado dez dias para atingir o povoado de Apuania. A ofensiva do 8o Exército se iniciou a 9 de abril,
concentrando seu esforço principal em direção a Argenta-Ferrara. O ataque inicial rumo ao baixo Salterno, realizado pelo
Grupamento de Combate italiano Cremona e pela 8a Divisão Hindu,
apesar de deparar com uma encarniçada resistência alemã, desenvolveu-se de
forma muito favorável. A 10 de abril, o Grupamento Cremona ocupou Alfonsine e o combate
se estendeu para o sudoeste, até à via Emilia. Depois de cinco dias de dura luta, na qual participaram os
Grupamentos de Combate italianos Friuli e Folgore, o Sauterno foi superado
numa ampla frente, e em maior profundidade na faixa de ataque da 6a
Divisão Blindada Inglesa. Os poloneses, paralelamente, convergiam sobre
Imola. O grosso das forças alemãs do 10o Exército podia já
se considerar dominado, e foi obrigado a ceder lentamente ante a pressão,
cada vez mais intensa, do 8o Exército Britânico. As tropas alemães, em conjunto, resistiram bravamente, e apesar
da falta de apoio aéreo, da deficiência de meios blindados e da escassez de
munição. Enquanto esses dramáticos acontecimentos se sucediam na frente
de batalha, na retaguarda começavam os primeiros intentos para deter a luta.
Em Milão; no Instituto Religioso de Porlezza, o reitor e o vice-reitor haviam
sido presos por ordem do comando da X MAS. Eram acusados de estar em
conivência com os guerrilheiros locais que, durante a noite, ao encontrar
aberta a porta de entrada do edifício, haviam conseguido entrar e desarmar a
guarda estabelecida naquele instituto religioso. Os dois sacerdotes
defendiam-se, alegando que haviam procedido de acordo com ordens recebidas do
próprio arcebispo. O Tribunal Militar que tinha o caso nas mãos declarava,
paralelamente, que não se deteria nem diante da pessoa do cardeal, se ele
fosse culpado. O arcebispo, imediatamente, pôs-se em contato com o Marechal Graziani,
solicitando-lhe que intervissse para conseguir a libertação dos dois
religiosos. Prometia, para castiga-los, designá-los para longe dali. Graziani
mandou suspender o processo e enviou-o ao próprio comandante da X MAS,
Borghese, para o esclarecimento dos fatos. Posteriormente, os dois sacerdotes
foram libertados, e o processo arquivado. Anexo “Aquele que deve
morrer...” Durante a Segunda
Guerra Mundial, o soldado de infantaria foi um homem indispensável. Referimo-nos
ao homem que, a pé, com o fuzil no braço, tem que correr para pôr-se a salvo
em buracos imundos, ou atravessar pantanais espessos, iniciar a luta depois
de 48 horas de marcha, e passar dias e noites sem comer, beber nem dormir.
Nos Estados Unidos era chamado popularmente “José soldado” ou “Chico
omelete”. Ouçamos o que um desses heróicos e sofridos protagonistas “ianques”
opinava de sua condição. nos tremendos dias da campanha do norte da Itália: “A guerra quer dizer
noites de frio e de cuidados. A barba fica hirsuta, a cara e os pés cheios de
bolhas. A roupa fica dura e o corpo se cobre de crostas de sujeira. Durante o
dia se faz escavações, transpira-se, arrastamo-nos por terra e avançamos
lentamente sobre rochas e lodaçais, vadeando rios e escalando, com
dificuldade, montanhas rochosas. De noite, o frio nos penetra até os ossos.
As ensurdecedoras descargas da artilharia inimiga parecem fazer explodir os
nossos tímpanos. Em qualquer ação estamos, quase sempre, bem apoiados pelo
bombardeio naval e aéreo, porém nós temos que acabar com os
franco-atiradores, os ninhos de metralhadoras, as colocações de canhões
habilmente escondidos, e com os soldados armados que andam dispersos, antes
que o território inimigo possa ser capturado. As balas das metralhadoras
alemãs passam zumbindo em nosso redor, quando não acertam no alvo, enquanto
avançamos, algumas vezes com água até a cintura, a fim de nos abrigar atrás
de um débil amontoado de pedras, árvores ou de terra. Os morteiros inimigos,
calibrados para explodir no lugar onde nós, os invasores, estamos acocorados,
explodem numa chuva de fogo à nossa volta. “Atualmente não
podemos fazer um buraco e esperar. Em Salerno essa prática nos custou grandes
perdas e morreram muitos dos meus companheiros. Assim, agora, a ordem é
‘forçar a posição, aproximar-se mais’. Se há cercas de arame farpado no
caminho, não nos resta senão estraçalha-las com granadas ou escalá-las sob o
nutrido fogo das metralhadoras e morteiros. Em geral, há campos semeados de
minas terrestres; e os, sapadores de minas e a engenharia não têm tempo de
explorar toda a zona buscando explosivos ocultos. Os alemães são
especialmente astutos para disseminar minas. Tropeçar num arame fino, quase
imperceptível, pode causar a explosão de uma dúzia de granadas de efeito
mortal. A artilharia, as metralhadoras e até os tanques, arrojam uma chuva
contínua de chumbo que atinge centenas de soldados inimigos. Porém nós também
recebemos a metralha do inimigo. A destruição das fortificações de ferro e
concreto que servem de base aos canhões pesados, também é parte de nossa
tarefa. Terra e lama protegem de tal maneira essas casamatas, que somente uma
descarga direta as destrói. Então, temos que enfrentar as bombas e as
metralhadoras para conseguir colocá-las fora de combate. Se a luta dura
quatro dias, quer dizer que durante quatro dias teremos comido pouco e
dormido menos. Uma vez, um correspondente de guerra, creio que se chamava
Ernie Pyle, nos disse que ele podia distinguir perfeitamente um veterano de
um infante novo, porque o olhar de um soldado que esteve na linha de combate
por muito tempo é opaco, os olhos parecem nada ver, como se não
experimentassem nenhuma reação. Às vezes, creio que ele tem um pouco de
razão”. O soldado negro No dia 23 de dezembro
de 1944, as tropas alemãs atacaram duramente a zona do vale do Serchio. Nessa
área operava a 92a Divisão, o único grupo de infantaria de homens
de cor, que interveio na Segunda Guerra Mundial. A vanguarda da 92a
cedeu terreno e, em seguida, algumas unidades se desintegraram, recuando
desorganizadamente. Este fato deixou aberta uma larga brecha em direção ao
rio, e forçou uma retirada mais geral. Os alemães reavivaram o ataque no dia
27, voltando a ganhar terreno, desalojando a 92a da sua segunda
linha defensiva e aprofundando seu avanço numa distância total de oito
quilômetros. A investida alemã, que começou com um movimento de
reconhecimento das posições americanas, aproveitou rápida e eficazmente seu
êxito inicial, e teria posto em perigo Livorno se não houvesse o
contra-ataque das tropas hindus que conseguiram reconquistar o terreno e
anular a penetração inimiga. Analisando o problema dos combatentes de cor,
diz o General Clark em suas memórias: “Esta atuação da 92a Divisão
- sem dúvida, prejudicial - constitui um argumento freqüentemente levantado
para provar que não se pode confiar em que tropas de cor se desempenhem bem
numa emergência. Tendo comandado a única divisão de infantaria de soldados
negros que participou da Segunda Guerra Mundial, combatendo ininterruptamente
durante seis meses, creio ser de meu dever esclarecer as circunstâncias de
sua atuação nesse período. Das dez divisões de infantaria americanas que
combateram na Itália como parte integrante do 5o Exército, o
desempenho da 92a Divisão foi menos eficiente do que o de qualquer
das outras divisões de brancos (Em geral. as unidades de serviço [QGl,
engenharia, armamentos, etc.] e as unidades negras de apoio de combate
[tanques, artilharia de campanha, antiaérea, etc.] demonstravam um alto grau
de eficiência). Também, foi menor o número de casos de heroísmo individual, e
de ações vitoriosas de unidades menores, tais como uma companhia ou batalhão.
Pouco depois da guerra, quando fui interrogado acerca da eficácia das tropas
de infantaria negras no combate, respondi que a 92a Divisão
desempenhara um valioso papel, e que sua presença na costa ocidental da
Itália fôra de grande ajuda material na investida final contra o vale do Pó. “Ao mesmo tempo seria
desonesto e injusto para com os soldados negros do futuro não levar em conta
as seríssimas desvantagens que tiveram que vencer. O comando foi um dos
maiores problemas: entre as tropas de cor havia muitos analfabetos; esses
levavam mais tempo para serem treinados e, em geral; revelavam um certo
relaxamento em aceitar a disciplina dura, rotineira, que é essencial em época
de guerra. Considero esse fracasso, não como imanente do soldado ou oficial
negro em si, mas do tratamento que dávamos, em nossa Pátria, aos problemas
das minorias. O negro não tivera nenhuma oportunidade de desenvolver suas
condições de liderança. Além disso, talvez o mais importante, o saldado negro
necessita maior incentivo; tem que ter a sensação de estar lutando pelo seu
lar e pelo seu país, e de que luta como igual. Somente um clima adequado em
seu próprio país pode dar-lhe esse incentivo. “Contudo, seria um
erro crasso supor que não se possam encontrar oficiais convenientes para as
tropas de negros; de fato, nós os encontramos, na Itália. Quando nas semanas
seguintes tivemos que reorganizar a 92a, pudemos selecionar
oficiais e pessoal subalterno, experimentados no combate, especialmente
treinados, e integrar regimentos reforçados, que intervieram na luta com
muito mais eficiência que antes. Eu mesmo condecorei oficiais, e pessoal
subalterno, negros, da 92a Divisão, pelo arrojo demonstrado na
ação, e sei de muitos outros que tombaram no campo de batalha em ações
extremamente corajosas. “É meu desejo deixar
perfeitamente claro que sou contrário a qualquer discriminação. Creio que
existe uma forma para encontrar a solução dos problemas que oprimem o soldado
negro, embora eu creia que, a esta altura da situação, não deva ainda existir
uma mistura indiscriminada de soldados negros e brancos em nosso exército. “Com base na
experiência da guerra passada, creio que essa mistura não produziria as
melhores equipes combatentes e que não seria justo para ninguém. No entanto,
creio que pode haver um boa integração de tropas brancas e de cor em nível de
batalhão ou de unidades menores; que os regimentos podem incluir um batalhão
negro eficiente em qualquer ramo da corporação, e que se pode prover esse
contingente de comando adequado e responsável. Quando terminou a guerra, a
General Eisenhower me contou que, na França, num momento crítico, tivera
ocasião de pedir voluntários de infantaria entre suas centenas de milhares de
tropas negras. Grande número de combatentes ofereceu seus serviços e foram
então integrados, em seções especiais de combate, às divisões de infantaria
veteranas, de comprovado valor nas batalhas, e portaram-se perfeitamente à
altura delas. “Não creio que se deva
adotar este sistema em unidades maiores que o batalhão. A experiência que
adquirimos na Itália não indica que uma divisão de cor possa se desempenhar
com tanta eficácia quanto uma unidade menor, sob a dura prova da guerra
moderna. A 92a Divisão recebeu uma preparação e treinamento
completos para a ação, assim como qualquer das nossas divisões. Foi levada à
frente, gradativamente, num setor relativamente tranqüilo e sob a competente
direção do General-de-Divisão Ned Almond. Apesar dessas vantagens, não passou
na prova quando teve que atacar, nem quando os alemães investiram no vale do
Serchio. Os comandantes de regimento não puderam controlar suficientemente,
na emergência, as suas tropas, principalmente pela ausência da disciplina
rígida requerida na batalha, e porque os oficiais subalternos,
freqüentemente, esqueciam responsabilidades de rotina e careciam de condições
essenciais para o comando. Essas faltas podem ser corrigidas - e nosso atual
programa de adestramento dedica a elas especial atenção -, porém necessita-se
tempo, e repito que acredito um erro crasso fazer com que o exército, agora,
procurasse misturar soldados brancos e negros de forma indiscriminada”. Os novos profetas A medida que a guerra
avançava e, paulatinamente, grandes regiões eram reconquistadas pelos
Aliados, o panorama da política internacional também mudava. Porém, na
maioria dos casos, as mudanças verificadas desde o começo da Grande Guerra
não eram registradas nas mesas de trabalho das Chancelarias da Inglaterra e
dos Estados Unidos. Na realidade, haviam surgido na Europa novos chefes
políticos. Uma emaranhada rede de tendências políticas estava em evolução e
nem os governos exilados em Londres e no Cairo, nem o Departamento de
Assuntos Estrangeiros, nem o de Estado, tinham real conhecimento das coisas.
Dir-se-ia que havia em Londres “uma república monárquica”. Todos eram reis:
Zogú, da Albânia; Victor Manuel, da Itália; Pedro, da Iugoslávia; Jorge, da
Grécia. Todos faziam malabarismos para demonstrar sua liderança e conseguiam
alguns crentes, num mundo irreal, que não tinha nenhum contato com os
desamparados seres humanos que habitavam a Europa de Hitler. No verão de
1943, a maioria dos soberanos de pré-guerra e suas cortes estavam já
tristemente ultrapassados. De fato, não tinham súditos, seus reinos não
passavam de fantasia e mitos que a realidade superara. Não que seus povos se
opusessem a eles, pessoalmente, porém a idéia de “monarquia’ ficara, de certo
modo, associada, na Europa, à de evidente instabilidade. Também nas
democracias ocupadas, como a França e a Polônia, é evidente que as forças
subterrâneas atuantes adquiriram voz própria. É natural supor que os chefes
dessas forças exigiriam cargos no governo de pós-guerra. Esse fato, porém,
salvo no caso da França, parecia ser totalmente ignorado em Londres e
Washington. Muito depois, e sob esmagadora pressão de golpes militares - e
também de motins, combates de rua e comícios -, a Inglaterra e a América tiveram
que abandonar, um após outro, tais reis sem reinado... Assim como no fim da
Primeira Guerra Mundial, ao fim desta, a velha Europa mudaria totalmente de
feição... Destruição Alan Moorehead,
escritor e jornalista britânico, analisa assim os resultados da Campanha da
Itália: “Antes do inverno de
1944 já era sabido que a Itália seria um dos países da Europa que mais
sofreriam, superando-a somente a Holanda e a Alemanha. Não foi a guerra, mas
a conseqüência da guerra, o que destruiu a Itália. A fome e a falta de
habitação causaram maior dano que as bombas. “Muitos, como eu, que
presenciamos a Campanha da Itália, ainda pensamos que ela foi inútil, e o
insensato martelamento da linha Gótica, no norte, nos pareceu totalmente
estéril. Foi uma campanha que jamais teve um objetivo militar definido e
racional. Só podia terminar nos Alpes, o lugar menos acessível da Europa. Na
verdade, não se pode dizer que a batalha tenha sido, de modo algum, um
fracasso. Mas, além de vidas humanas e cidades italianas, o que também se
perdeu ali foi muito tempo”. Explosivos O jardineiro da casa
onde estavam hospedados os oficiais britânicos parecia preocupado: - Não sei o que está
acontecendo, senhor, mas desde que os alemães se foram, ouço, de vez em. quando,
um tique-taque, ao pé da colina... Perto da estrada, na costa... O oficial inglês subiu
em um carro e foi comunicar a novidade à repartição de recuperação de bombas.
O tenente responsável, um ruivo escocês, fez um trejeito de impotência: - Bom, vamos anotar na
lista dos ruídos suspeitos. Já temos nas mãos cento e cinqüenta casos de
ruídos suspeitos... O oficial o
interrompeu, impaciente: - Não lhe ocorreu
pensar que esse tique-taque poderá ser uma bomba, que se explodir de um
momento para outro a casa em que meus companheiros e eu estamos hospedados
voará em pedaços?... - Pode ser... -
murmurou o tenente ruivo - em todo caso, ainda não tenho notícia de nenhuma
explosão... Os italianos são muito fantasiosos, senhor... Os olhos do oficial
relampejaram de raiva: - Está bem, está bem,
você ganhou; mandarei um grupo investigar os arredores da colina. Ao inspecionar o
local, o grupo detectou e retirou de sob uma ponte duas grandes cargas
explosivas. Este foi o primeiro
indício de que os alemães haviam inventado algo novo. As bombas alemãs de
explosão retardada horrorizavam as retaguardas. Estes artefatos eram
espalhados por todo o lado. Em geral, explodiam
sem muitos indícios prévios, e havia poucas possibilidades de tomar
precauções, porque a maioria dessas minas eram semeadas secretamente, durante
a noite, pelos últimos soldados a abandonar as cidades. Aquelas explosões
assemelhavam-se às das V-2 que caíam sobre Londres e no norte da Europa.
Logo, a lista dos cento e cinqüenta ruídos suspeitos do tenente escocês
aumentaria, de forma alarmante, já não só pelo “ruído suspeito”, mas sim,
pelos tremendos efeitos das explosões. “Sangue, rubra medalha
de coragem” Os padioleiros, em
formação de oito para cada padiola, desciam a encosta. Apoiavam as alças
sobre os ombros e progrediam com cuidado. As vezes, seus pés desprendiam
pedregulhos e todo o grupo vacilava. Os feridos, cujo sangue se misturava à
água que caía nas valetas, eram mantidos num ângulo estritamente justo, para
não caírem. Foi assim, dias e dias, na interminável campanha da Itália. Tanto
os chefes ingleses, como os americanos, apressavam seus homens; queriam
chegar ao vale do Pó antes do inverno, porém as chuvas e o frio do outono
retardavam a penetração, tornando-a cada vez mais penosa e sangrenta. Cada dois ou três
minutos explodia uma granada. Caíam por toda parte, quase sempre no centro,
ou ao lado do caminho. Sempre que uma granada explodia, abria-se uma brecha
no cortejo. Quando a fumaça se dissipava, viam-se homens caídos, mulas
fugindo apavoradas, caixões espalhados pelo solo. Rapidamente, a brecha se
fechava até que explodisse a próxima granada; então, em algum outro lugar,
aquela serpente de suprimentos para o exército britânico, tornava a abrir-se
sobre si mesma, e a fechar-se rapidamente. Os combatentes se refugiavam em
trincheiras que eram poças de água. Não importava quem as houvesse cavado, se
os alemães, a chuva, ou os próprios ingleses. Os soldados passavam as noites
com água até a cintura, dormitando, quase sem reação ante o frio e o perigo.
Só existia uma sensação de dor, de uma dor constante, que povoava os sonhos,
e aumentava quando o sonho virava realidade. Aqueles homens, que já eram
indiferentes aos riscos da guerra, não o eram às suas misérias e
desconfortos. O medo não era o pior. Com o medo já estavam acostumados, mas
com a dor, não. Os Altos-Comandos exigiam que os soldados expusessem suas
vidas, demasiado freqüentemente, em momentos inesperados, e, geralmente, sem
dar-lhes nenhuma razão compreensível. Era um milagre ver combatentes ainda
normais depois de deparar com o perigo tantas vezes. O que, realmente,
acabava por exauri-los, era a ininterrupta sucessão de frio, fadiga, fome,
falta de sono e falta de informação. Entretanto, apesar de tudo, os homens
continuavam avançando, a “passo de tartaruga”, como diziam certos críticos e
a propaganda alemã, mas sempre para a frente... “Pane, biscotto,
sigaretta...” Transcrevemos o relato
patético das conseqüências da guerra numa cidade do sul da Itália: Nápoles. O
correspondente inglês, Alan Moorehead, conta o que viu nas ruas, pouco depois
da entrada das tropas aliadas. “Nos arrabaldes de
Nápoles amontoavam-se turbas ululantes, barulhentas e histéricas, e sua
presença foi constante durante todo o trajeto até ao centro da cidade. “Aquela gente fôra
cruelmente bombardeada e assistira depois, durante uma semana, a uma
espantosa batalha travada nas ruas. E agora se apinhava nas calçadas, ou se
debruçava das janelas, gritando vivas, à passagem dos soldados e dos
caminhões aliados. Eram berros de alívio e, também, de pura histeria.
Milhares de crianças sujas e esfarrapadas pediam biscoitos e balas. Onde quer
que nos detivéssemos, éramos imediatamente rodeados e assaltados. As mãos se
agarravam às nossas roupas: “Pane, biscotto, sigaretta!...” Em todas as
direções aquela muralha de rostos desfigurados, sujos, famintos. “Eu esperava que o
povo fosse se mostrar hostil, ressentido, reservado. Aguardava que, de uma ou
de outra forma, surgissem os ressentimentos que, como inimigos, alimentaram
durante três longos anos. “Mas ali não havia mais guerra nem hostilidade. A
fome governava tudo. Alguns, impelidos pela necessidade, adulavam e se
aviltavam. Exibiam os filhos para despertar nossa piedade. Se um soldado
jogava um punhado de caramelos, provocava uma louca correria, e homens,
mulheres e crianças os disputavam, a tapas. “Diariamente se
multiplicavam ao longo da via Roma camelôs de mercado negro. “- Procura uma
moça bonita? Bife e espaguete baratinhos! Boa aguardente, só quinhentas
liras... Cada dez passos um homenzinho moreno se aproximava e nos agarrava
pela manga. Em garrafas sujas, com etiquetas falsificadas, se vendia álcool
comum, misturado com uma essência qualquer. Nas calçadas, vendia-se toda
espécie de jóias de imitação... “Os cigarros e chocolates
do exército eram roubados, em grandes quantidades, e revendidos a preços
fantásticos. Roubavam-se veículos numa média de 60 a 70, todas as noites. E
nem sempre os ladrões eram italianos... A pilhagem de certos objetos
valiosos, como acessórios de automóveis, converteu-se em próspero negócio. As
brigas noturnas a facadas, nas ruas de pouco movimento, eram coisa de todos
os dias. Imperava uma luta animalesca pela existência. A única coisa
importante era a comida. Comida para os filhos. Comida para si mesmo. Comida
a qualquer custo. E depois da comida, um abrigo, e um pouco de calor. Ao lado
dessa corrupção e desordem, o comércio de luxo prosperara no país durante a
guerra. Era surpreendente ver as lojas de Nápoles abarrotadas de luvas,
jóias, e todo tipo de coisas supérfluas. Podia-se comprar rádios, artigos de
eletricidade e toda sorte de aparelhos construídos com materiais que, como a
borracha e outros, são essenciais durante a guerra. Meias de seda custavam
uma libra e eram vendidas livremente, assim como os cosméticos e os perfumes.
O sistema de racionamento estava inteiramente caótico. Podiam obter-se cupons
de racionamento sem dificuldade, mas comprar com eles era uma coisa muito
diferente. Para se viver tinha-se que recorrer ao mercado negro... “Todo apaixonado pela
Itália experimentava uma decepção amarga ao visitar Nápoles. As
características tradicionais daquele povo, sua alegria e sua generosidade,
pareciam dissipadas na selvagem e abjeta luta pela existência”. O inimigo A sentinela britânica
observava atentamente os prisioneiros alemães que comiam, sentados ao lado do
caminho. Alguns pareciam bastante com ele: magros, altos. Lembrou que seus
antepassados chegaram a combater juntos em várias guerras, e em mais de uma
oportunidade chegaram a se considerar primos-irmãos. Muitos eram um pouco
emproados e rígidos, mas eram gente, evidentemente. Por não existirem jornais
e rádios, o soldado comum conhecia o inimigo de maneira direta e, ao mesmo
tempo, muito limitada. A guerra, para o combatente, não se baseava numa série
de imagens terrificantes, mas numa coisa mecânica e simples. O inimigo era um
ser concreto e definido, que devia ser enfrentado através de determinadas
maneiras e meios físicos. Não falamos do que o soldado sentia na luta, essa mistura
de desespero, medo, terror, ira, ódio, que todos experimentam concretamente
na linha de fogo, mas na reação produzida ao ver de perto os alemães, presos
e desarmados. Normalmente, perdia tempo o oficial que insuflava seus homens
com palavras como: “Os assassinos nazistas”. Obtinha melhores resultados
referindo-se ao inimigo como um mal abstrato que era necessário exterminar.
Depois da luta, o soldado comum, vendo os prisioneiros, raciocinava: “Os
coitados entraram bem”, e lhes oferecia cigarros. Porque, de uma certa
maneira, apesar dos sentimentos de pátria, medo, etc., os soldados de todos
os exércitos sentem-se intimamente solidários, embarcados na mesma “desgraça
comum”. Para alguns existia
até um certo prazer em ter lutado contra os alemães, tê-los vencido e estar
vivo para poder gozar e contar. Naturalmente, o ressentimento nas cidades
inglesas bombardeadas, onde raras vezes os soldados inimigos eram vistos, mas
que, em compensação, sentiam na própria carne os efeitos das vigílias
noturnas, dos entes queridos mortos, dos lares destruídos, criava uma imagem
do combatente alemão revestida de uma monstruosidade desumana. Além disso, as
pessoas viviam sob um constante dilúvio de propaganda que cristalizava suas
angústias. Por outro lado, era
muito diferente ser bombardeado numa batalha e numa cidade. “Na frente -
relata um correspondente britânico - ninguém se preocupa demais com esse
fato, nem se passa a detestar mais o inimigo porque uma de suas bombas
destruiu um povoado estrangeiro. O essencial é não ser ferido, nem nossos
companheiros de pelotão. Na pátria, todas as bombas têm importância. Aumenta
consideravelmente o ódio do país atingido”. À medida que a guerra
avançava, alguns fatos fizeram com que estes dois pontos de vista sobre o
inimigo fossem paulatinamente igualando-se, pelo menos na Inglaterra. Os atos
da Gestapo ou de alguns grupos de SS nos campos de concentração, e as
represálias contra civis inocentes, contribuíram enormemente para eliminar a
diferença entre esses conceitos. Badoglio e os Aliados Reproduzimos a opinião
do Marechal Pietro Badoglio, chefe do governo depois do golpe de Estado
contra Mussolini, a respeito do avanço aliado na campanha da Itália: “Dois elementos
contribuíram para tornar lento o avanço aliado. Em primeiro lugar uma
preocupação excessiva de limitar as perdas de vidas, preocupação justíssima e
que sempre experimentei durante a campanha na África Oriental; no entanto,
essa preocupação não pode exceder determinados limites, porque, do contrário,
não será possível dirigir uma guerra. Todos os americanos repetiam a mesma
frase: “Para fazer um homem, são necessários vinte anos; uma máquina se
fabrica em poucas horas. Portanto, as máquinas devem ir na frente”. “O menor obstáculo
interrompia a passagem das tropas e, no mesmo instante, começava a funcionar
uma numerosa artilharia, com uma quantidade fantástica de munições; e assim,
hora após hora, continuavam martelando com fogo ininterrupto, nem sempre com
precisão, os centros habitados e os acidentes do terreno, e não interrompiam
o fogo nem sequer quando os nossos camponeses, procedentes da zona batida
pela artilharia, lhes garantiam que já não havia nem sombra do inimigo e se
ofereciam para acompanhar o avanço das tropas. “Os alemães, que são
mestres da arte da guerra, não tardaram em compreender o sistema inimigo e
adaptaram a ele a sua tática. Nunca se apresentavam em massas numerosas, mas
em pequenos núcleos, com um ou outro canhão e várias metralhadoras. E depois
de chamar a atenção dos anglo-americanos e de atrair o seu fogo, se
transladavam rapidamente para outra localidade. “O segundo elemento a
contribuir para a lentidão era a própria constituição orgânica das forças,
que dispunham de uma motorização abundante. Uma simples olhada em um mapa da
Itália deveria ter sido suficiente para convencê-los de que a motorização
completa, apta e utilíssima num deserto como a Líbia, não era adequada a um
território montanhoso como o sul da Itália. “Tivemos que suprir
essa deficiência formando numerosas colunas de transporte, que prestaram
grandes serviços aos Aliados. E, por fim, depois da conquista de Monte
Marrone, que a todos encheu de admiração, foi fundada uma espécie de escola
para o adestramento na guerra de montanha, dirigida por nossos oficiais
alpinos”. |