Salerno

Invasão da Itália

 

 

Não havia absolutamente ninguém nas ruas quando os generais Clark e Ridgway entraram, de jipe, em Nápoles. Mas Clark logo se apercebeu de que muitos olhos os espreitavam por detrás das venezianas. "Eu sentia que era observado por milhões de pessoas, embora não vislumbrasse um único civil durante todo o percurso. Era uma sensação arrepiante. Sentia-me como se estivesse atravessando ruas mal-assombradas de uma cidade fantasma".

 

Retorno à Europa

 

Na noite de 8 de setembro de 1943, uma esquadra de invasão aliada navegava pelas águas calmas do Mar Tirreno, aproximan­do-se das praias que orlam o Golfo de Saler­no, na Itália continental. Os navios que a integravam provinham de diferentes e dis­tantes portos, como Orã, Bizerta, Tripoli e Palermo, na Sicília. A bordo, os soldados estavam animados, pois às 18h30 tinham ouvido o comandante-chefe anunciar pelos alto-falantes dos navios a rendição da Itália.

 

Se o General Eisenhower pudesse adivi­nhar a reação dos homens do 5º Exército, de Mark Clark, à momentosa notícia, teria esperado por oportunidade mais propícia para transmiti-la, pois a tensão, que vinha aumentando à medida que os navios se aproximavam da costa inimiga, se evapora­ra rapidamente. Desfeita a carga emocional de que estava possuída, a tropa entrou em completa descontração, rindo, pilheriando, arriando inteiramente a guarda, para usar linguagem da crônica do boxe. Aquele esta­do de espírito estava, entretanto, em desa­cordo com o que se iria verificar. Os soldados americanos e britânicos que compu­nham o 5º Exército em breve descobririam que o aguerrimento da tropa alemã nada sofrera com a perda dos italianos como aliados.

 

Todo o planejamento da operação de de­sembarque (de codinome Avalancha) perto de Nápoles fora entregue ao 5º Exército dos Estados Unidos. Dois pontos de desembar­que foram considerados, um na planície costeira do Volturno, situada no Golfo de Gaeta, ao norte de Nápoles (preferido por Mark Clark e pelos chefes da Força Aérea Americana), e o outro ao sul de Nápoles, em Salerno, que dispunha de praias muito favo­ráveis à aproximação das barcaças de de­sembarque, mas com as saídas para Nápo­les passando pelo alto e rochoso Monte Pi­centi, pois as praias eram cercadas de mon­tanhas. Os britânicos achavam que a área do Golfo de Gaeta ficava fora do alcance de apoio aéreo eficaz e que mesmo as praias de Salerno seriam de difícil cobertura, porque o tempo de vôo de um Spitfire baseado na Sicília só lhe permitiria uns 20 minutos so­bre a cabeça-de-praia. Nas discussões reali­zadas, prevaleceu o ponto de vista dos britâ­nicos, que alimentavam a esperança de po­der conquistar o aeródromo de Montecorvi­no, situado na área de desembarque, para dar constante cobertura aérea aos navios que deveriam descarregar suprimentos ao largo da costa.

 

O 5º Exército consistia de dois corpos, o X Corpo britânico, comandado pelo Tenen­te-General McCreery, e o VI Corpo ameri­cano, pelo Major-General Dawley; o X Corpo foi encarregado da parte norte da zona de desembarque e o VI Corpo ficou com o setor sul; o Rio Sele, desaguando no mar, separava os dois corpos.

 

Os primeiros desembarques ocorreram muito bem; as tropas de assalto americanas avançaram rapidamente para o interior e capturaram os altos picos de ambos os lados do Passo Chiunzi, enquanto os commandos britânicos desembarcavam à sua direita, em Vietri sul Mare, e avançaram, contra forte oposição, para a própria cidade de Salerno.

 

Mas os desembarques principais, ao norte e sul do Rio Sele, fizeram-se de forma bem diferente um do outro; ao norte, os navios, antes de se iniciar o assalto, despejaram for­te barragem de fogo, para debilitar a oposi­ção, mas ao sul, as barcaças de, desembar­que aproximaram-se da praia, em silêncio e na escuridão, e a tropa desceu sem proble­mas, sendo então repentinamente ilumina­dos por foguetes alemães e violentamente alvejados. Estabeleceu-se certo pânico, mas na manhã seguinte a disciplina e o treina­mento predominaram e os americanos orga­nizaram-se. A razão para que a Força de Ataque Sul abordasse a praia em silêncio deveu-se à ordem de Mark Clark para que não houvesse barragem pré-desembarque no setor americano, para ganhar o elemento surpresa, o que, infelizmente, não aconteceu. O ardil fracassou.

 

Durante os meses imediatamente anterio­res às operações aliadas na Itália meridio­nal, os alemães haviam decidido sobre as providências que tomariam se e quando seu aliado na formação do Eixo resolvesse fazer um acordo de paz em separado com os Alia­dos. Há muito tempo os alemães vinham desconfiando das intenções dos italianos, e embora Kesseiring - Comandante-Chefe, Sul - trabalhasse em estreita cooperação com os italianos no preparo de planos para repelir qualquer tentativa de invasão por parte das forças aliadas, já em agosto Hitler decidira ocupar a Itália e deslocara forças adicionais para aquele país, aparentemente para aumentar as defesas contra uma possí­vel invasão aliada. Seu plano era estabelecer uma linha fortificada no setor norte dos Apeninos e, se os italianos capitulassem, mandar Rommel para a Itália setentrional, ordenando a Kesselring que se deslocasse do sul para juntar-se a Rommel, que assumiria o comando-geral. Caso os Aliados invadis­sem a Itália antes da capitulação desta, o Coronel-General von Vietinghoff - do 10º Exército alemão - deveria repelir os de­sembarques, com apoio dos italianos, para manter abertas as rotas de retirada para Roma.

 

Feito o anúncio da rendição da Itália so­mente na véspera dos desembarques em Sa­lerno, Vietinghoff teve de decidir o que fa­zer. Não podendo entrar em contato com Kesselring, mas tranqüilizado pela atitude de muitos soldados italianos, que se deixaram pacificamente desarmar, ou simples­mente abandonaram uniformes e armas e desapareceram no interior da Itália, ele pre­feriu tentar repelir a força invasora para o mar, concentrando, para tanto, suas forças em Salerno. Kesselring aprovou a medida.

 

Ao ter início a batalha, o grosso da tropa alemã que dela iria participar foi lançado contra o setor britânico. Por volta do dia 13 de setembro, Vietinghoff, dando com a bre­cha existente entre os dois corpos, no Rio Sele, admitiu que os britânicos e americanos se haviam afastado um do outro para facili­tar uma retirada das praias. Farejando a vitória, ele cabografou a Kesselring, decla­rando que a resistência dos Aliados a seu 10° Exército estava desmoronando e anotou em seu diário de guerra que a batalha de Salerno terminara.

 

O Estado-Maior de Mark Clark organiza­ra planos para, se se fizesse preciso, evacuar a cabeça-de-praia; dois planos foram prepa­rados, um para cada corpo, embora mais tarde se afirmasse que eles haviam sido fei­tos para que um corpo pudesse, numa emer­gência, ser despachado para reforçar o outro. Seja qual for a verdade, não há dúvida de que a situação das tropas aliadas em Salerno, no dia 13 de setembro, era crítica. Entretanto, os homens da 82ª Divisão Aero­terrestre americana saltaram na cabeça-de­praia, o bombardeio aéreo e naval foi inten­sificado até que se verificasse o envio de reforços ao 5° Exército, que se encontrava em dificuldade. Por volta de 18 de setembro era evidente que os alemães estavam recuan­do; seus ataques haviam sido contidos pelo bombardeio aéreo e pelo fogo preciso dos canhões navais, e o 8° Exército britânico, que vinha da Calábria, passou a constituir-­se para eles, também, uma ameaça.

 

Durante muitos dias, a batalha de Salerno esteve na balança, e se os alemães houves­sem lançado na luta mais soldados, é possí­vel que tivessem feito voltar ao mar o 5° Exército. Mesmo assim, eles impediram que os Aliados fizessem lucratividade militar real com a rendição da Itália, e a violência da luta pressagiava as batalhas ainda a se­rem travadas, enquanto britânicos e ameri­canos subiam lenta e dificultosamente a pe­ninsula italiana.

 

 

 

 

Estratégia

 

Às 18h30 de 8 de setembro de 1943, o General Dwight D. Eisenhower, Comandan­te-Chefe das Forças Aliadas no Mediterrâ­neo, anunciou pelo rádio que as hostilidades entre as Nações Unidas e a Itália haviam cessado, por força do armistício assinado.

 

Na verdade, o documento de rendição ha­via sido assinado, na recém-conquistada ilha da Sicília, a 3 de setembro, mas Eisen­hower, para dar à tropa aliada o máximo de vantagem com a retirada da Itália, deci­diu silenciar sobre o fato, que afinal pratica­mente não enfraquecera nada a resistência por ela encontrada.

 

No momento, porém, em que Eisenhower resolveu fazer a comunicação, alguns desses soldados estavam em alto-mar, a caminho da planejada área de desembarque, na Baía de Salerno, situada a uns 30 km ao sul do porto de Nápoles.

 

O comunicado, retransmitido pelo rádio dos navios, disparou, inevitavelmente, enor­me confusão entre os homens. Alguns puse­ram-se a imaginar se havia mesmo necessi­dade da invasão; outros, naturalmente, achavam que o desembarque não passaria de mera formalidade, pois a oposição seria insignificante. Em alguns navios, os oficiais mais prudentes falavam a seus comandados sobre os perigos da complacência, tentando preveni-los para o fato de que o armistício não faria muita diferença, pois só os italia­nos estavam fora da guerra, não os alemães, e que a batalha seria igualmente dura, se não pior, levando-se em conta que o inimigo seriam soldados alemães bem treinados e livres de ser contagiados pelo desânimo de que eram portadores os italianos.

 

Os soldados que deram atenção a esta mensagem e se desfizeram das ilusões foram sensatos e afortunados, pois, chegado o mo­mento da luta, não seriam desmoralizados pelo choque da sua brutalidade.

 

A adoção da estratégia que levou à inva­são de Salerno ficou estabelecida nos pri­meiros meses de 1943. Na Conferência de Casablanca, realizada em janeiro de 1943, em plena campanha tunisina, os Aliados concordaram que à campanha da África de­veria seguir-se a invasão da Sicília, visando a principalmente garantir as rotas marítimas no Mediterrâneo, para eliminar a necessidade da longa viagem pelo Cabo da Boa Espe­rança. Após essas duas operações, que, em termos estratégicos, poderiam ser considera­das basicamente defensivas, começaram a aumentar as perspectivas de uma campanha verdadeiramente ofensiva na frente euro­péia, o que, para os britânicos, significava, logicamente, um ataque à Itália continental. Para discutir a questão italiana, entre outras medidas, os britânicos convocaram uma conferência das potências aliadas, que teve início, em Washington, a 12 de maio de 1943, à qual compareceram o Primeiro-Mi­nistro britânico, Winston Churchill, e o Pre­sidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, com seus vários chefes de Esta­do-Maior e consultores, no "Salão Oval" da Casa Branca. Roosevelt recebeu os partici­pantes da reunião com um discurso em que salientou a intenção que tinha de empregar contra o inimigo todos os recursos, em ho­mens, material e munição, que possuíam os Aliados. No seu entender, nada que pudesse contribuir para levar à lona o inimigo deve­ria ser poupado. Todos concordaram com a sugestão do supremo magistrado da grande nação americana.

 

Em seguida, Winston Churchill iniciou os debates propriamente ditos, focalizando al­gumas diferenças de opinião que havia entre os dois Estados-Maiores, ao mesmo tempo que se revelava otimista quanto à resolução tranqüila de tais diferenças, pois se assenta­vam em problemas de ênfase e de priorida­de. Ele apresentou vários objetivos, come­çando com o Mediterrâneo, onde a grande meta seria levar a Itália a retirar-se da guer­ra que, na frase pitoresca de Churchill, pro­vocaria um "calafrio de solidão" no povo alemão e talvez lhe marcasse o começo do fim. E mesmo que a queda da Itália não fosse necessariamente fatal para a Alema­nha, ela teria vários outros efeitos: exerceria favorável influência sobre o governo turco, que talvez fornecesse bases de bombardeiros para limpar o Mar Egeu; teria repercussões nos Balcãs, pois a retirada de grande núme­ro de soldados italianos faria com que a Alemanha os abandonasse totalmente ou re­tirasse tropas da frente russa, aliviando, as­sim, a pressão sobre a União Soviética; eli­minaria a esquadra italiana da guerra e libe­raria os porta-aviões e couraçados britâni­cos para serviço contra o Japão, na frente do Pacífico ou na Baía de Bengala.

 

O segundo objetivo, depois do Mediterrâ­neo, era tirar peso de cima da Rússia, que estava enfrentando 185 divisões alemãs na Frente Oriental. Ainda neste caso, seria van­tajosíssimo tentar a rápida eliminação da Itália como pais beligerante, para obrigar a Alemanha a enviar grande número de soldados para defender os Balcãs.

 

O terceiro objetivo seria, como disse o Presidente, lançar contra o grande inimigo todo o poder de ataque dos Aliados, para levá-lo a tontear e cair. O que fariam os soldados entre o fim da operação na Sicília, que possivelmente se realizaria em agosto, e a provável invasão da França pelo Canal da Mancha, marcada para sete ou oito meses mais tarde? Eles certamente não poderiam ficar ociosos, pois isso teria efeito muito sério sobre a Rússia.

 

O Presidente, respondendo a Churchill, disse ser essencial manter o grande exército e as forças navais aliadas ativamente ocupa­dos, salientando também que era urgente examinar a seguinte questão: "Aonde ire­mos depois da Sicilia?" Porém, depois disso, seus pontos de vista divergiram. O Presi­dente temia que a ocupação da Sicília des­gastasse muito os recursos dos Aliados ali empregados, prejudicando as futuras opera­ções no Mediterrâneo, e achava que a ocu­pação da Itália talvez liberasse soldados ale­mães para lutar alhures. Ele achava que tal­vez fosse melhor levar diretamente a luta à Alemanha, através de operação pelo Canal da Mancha.

 

Assim, com Churchill vigorosamente fa­vorável à operação contra a Itália, e os ame­ricanos, com Roosevelt, nada convencidos, seus Estados-Maiores entregaram-se a fre­qüentes discussões destinadas a eliminar as diferenças e estabelecer a estratégia a ser adotada. Mas, a despeito dos seus esforços, quando o Presidente e o Primeiro-Ministro aprovaram o relatório dos Chefes de Esta­do-Maior Combinados, a 25 de maio, o do­cumento não fazia qualquer referência a uma possível ação na Itália, após a conquis­ta da Sicília.

 

O mais que fizeram, no sentido de aparar as arestas, foi a aprovação de um documen­to declarando que o Comandante-Chefe Aliado na África do Norte (General Eisen­hower) receberia instruções para "planejar medidas destinadas a fazer da "Husky" (a invasão da Sicília) uma operação que redun­dasse na retirada da Itália da guerra e reti­vesse o máximo de forças alemãs". Aos Chefes de Estado-Maior Combinados reser­vava-se o direito de decidir quanto à opera­ção a ser montada.

 

Churchill ficou profundamente perturba­do por não ter conseguido estabelecer o que pretendia, isto é, atacar a Itália após a Sicí­lia, pois sentia que o Estado-Maior america­no preferia uma operação contra a Sarde­nha. Ele devia ir a Argel depois dessa visita aos Estados Unidos, para uma consulta com o General Eisenhower, e, para ir mais além, ele conseguiu do Presidente a permissão de levar consigo o General Marshall, para que dos debates participasse um representante dos Estados Unidos do mais alto nível, para que não viesse a ser acusado de haver exer­cido indevida influência pessoal com o obje­tivo de modificar a decisão do Estado-­Maior americano.

 

Churchill e Marshall fizeram uma viagem cordial a Argel, embora não chegassem a abordar a questão italiana, que Churchill considerava crítica. Decidido a obter a deci­são de invadir a Itália antes de partir da África, ele não encontrou dificuldade algu­ma em convencer seus colegas britânicos a concordar consigo. O General Alexander, o Almirante Cunningham, o Marechal-do-Ar Todder e o General Montgomery encaravam a conquista da Itália como conseqüência na­tural das operações realizadas na África, desde El Alamein. O General Marshall, contudo, permaneceu calado e enigmático.

 

Quando da sua primeira reunião oficial, na tarde de 29 de maio, o General Eisenho­wer também começou a mostrar-se favorá­rl à operação contra a Itália. Após discutir vários outros assuntos, ele chegou à questão da Itália e declarou que, para retirarem aquele país da guerra, eles deveriam faze-lo imediatamente após a Sicília, com todas as forças que tivessem à disposição. Se a Sicíl­ia fosse uma operação fácil, eles deveriam ir diretamente para o território continental da Itália que, na sua opinião, daria maiores resultados do que qualquer ataque às ilhas. Eisenhower já então estava claramente convertido aos planos de Churchill. O mesmo não acontecia com Marshall, e quando Eisen­hower pediu informações sobre o momento em que deveria apresentar seus planos para levar a Itália à capitulação, Marshall disse-lhe que não se poderia tomar qualquer me­dida nesse sentido enquanto os resultados do ataque à Sicília e a situação na Rússia não fossem conhecidos. Marshall sugeriu a formação de duas equipes de planejamento, uma para preparar o ataque à Córsega e à Sardenha, e uma para traçar a operação no continente. A escolha só seria feita quando se aclarasse toda a situação. Então, o equipamento necessário seria despachado para a força encarregada da execução do plano esc­olhido. Eisenhower aceitara sem reservas os méritos do plano de ataque à Itália e delarou que se a Sicília caísse com facilidade, iria diretamente para o continente.

 

Na reunião seguinte, a 31 de maio, Chur­chill tornou a frisar que seu grande desejo era invadir a Itália Meridional, campanha muito mais gloriosa, como ele a descreveu, que uma "mera medida de conveniência" que seria a operação contra a Sardenha. Mas o General Marshall ainda exercia influência

moderadora. Embora compreendesse os sentimentos de Churchill sobre a operação, ele ainda achava que a escolha da ação que deveria suceder o ataque à Sicília teria que ser feita com bastante critério, por isso que era pelo adiamento da decisão para depois de iniciado o ataque à ilha.

 

Durante todo o período dessas discus­sões, e no decorrer da operação siciliana propriamente dita, os acontecimentos na Itália continental desenvolviam-se de tal ma­neira que também exerceram influência so­bre a questão que se encontrava em debate: a invasão da Itália continental.

 

Pelos arquivos das discussões realizadas em Washington e Argel, é evidente que, em­bora os Aliados estivessem ansiosos por for­çar a saída da Itália da guerra, e confiantes em que poderiam faze-lo, achavam que tal objetivo só seria alcançado através de suces­sos militares positivos, como a invasão da própria Sicília, provavelmente a invasão do continente e possivelmente também a captu­ra de Roma.

 

Porém, durante os primeiros meses de 1943, os acontecimentos que se verificavam na Itália rumavam para esse fim. O povo italiano, certo de que a guerra estava perdi­da, confrontando a perspectiva de uma in­vasão aliada e sofrendo crítica escassez de alimentos, à medida que as incursões de bombardeiros destruíam as comunicações ferroviárias, estavam cada vez mais desiludi­dos com Mussolini e a liderança fascista. Houve distúrbios no norte; as greves torna­ram-se comuns e palavras duras de dissidên­cia eram ouvidas em público. Ao povo ita­liano já não importava, absolutamente, a derrota na guerra, desde que isso os livrasse do fascismo. Uma figura importante nessa crescente onda de descontentamento era o Marechal Pietro Badoglio, ex-Chefe do Es­tado-Maior-Geral italiano, embora na época estivesse reformado. Badoglio solicitou uma audiência ao Rei Vitório Emanuel e fez-lhe longo relato das condições do país e do esta­do de espírito do povo, depois do que suge­riu providências radicais para dar solução a problemas tão graves. O Rei ouviu-o com atenção, mas não deu qualquer resposta po­sitiva. Contudo, no devido tempo, com o encorajamento do Príncipe Herdeiro, Bado­glio tomou as providências adequadas para um golpe de estado, consultando discreta­mente o Chefe do Estado-Maior-Geral, Ge­neral Ambrósio, e os líderes dos três princi­pais partidos políticos do país, buscando apoio para promover a deposição de Musso­lini. Pelo final de junho, todo o trabalho de preparação do golpe estava bem adiantado, tendo inicio então a busca dos meios para se livrarem dos alemães e declarar um armistí­cio. À medida que se ligavam os diversos segmentos do complô, a pressão aumentava, com a aproximação do avanço aliado para suas costas. A invasão da Sicília começou a 10 de julho, e em poucos dias o 8º Exército Britânico e o 7º Exército americano já ha­viam penetrado bastante na metade sul da ilha. A 18 de julho, o General Eisenhower pediu permissão dos Chefes de Estad-­Maior Conjuntos para invadir o continente.

 

Uns cinco dias após iniciado o ataque à Sicília, o General Ambrósio implorou a Mussolini que transmitisse a Hitler o desejo dos italianos de não mais continuar na guer­ra. A 18 de julho, Mussolini e Hitler reuni­am-se num "parque fresco e umbroso", em Feltre, perto de Rimini, mas Mussolini, sem dúvida por falta de coragem, não conseguiu deixar claro a Hitler que os italianos não podiam e não queriam continuar lutando. Ao retornar a Roma a 20 de julho, Mussoli­ni prometeu escrever uma carta a Hitler ex­pondo seu ponto de vista, mas não chegou a fazê-lo; e à medida que os bombardeiros aliados realizavam ataques intensos contra os centros ferroviários e aeródromos das proximidades de Roma, o povo italiano co­meçou a pedir abertamente ao governo que capitulasse.

 

Diante de tanta oposição, o governo fas­zista estava claramente condenado e vários dos membros importantes do partido fascis­ta estavam sendo privados dos seus cargos ou tentando demitir-se. Nos dias 24 e 25 de julho, o Grande Conselho Fascista realizou uma reunião de fim de semana, na qual a hostilidade geral a Mussolini era clara. Ao término dessa reunião, o Conselho apresen­tou uma resolução, apoiada por 16 dos seus 25 membros, declarando, após longo preâm­bulo, que "é essencial a imediata restaura­ção de todos os órgãos do Estado, de modo que a Coroa, o Grande Conselho, o Gover­no, o Parlamento e as empresas possam cumprir as tarefas e responsabilidades a eles atribuídas pela Constituição e leis do país" e resolvendo que o Conselho "convida o Go­verno a solicitar ao Rei, para quem toda a nação se volta com lealdade e confiança, que, pela honra e segurança do país, assuma o comando efetivo do exército, da marinha e da força aérea..." Mussolini encerrou a sessão com as seguintes palavras: "Os se­nhores provocaram uma crise no regime". No domingo, 26 de julho, o descontenta­mento chegara às ruas. Houve arruaças en­tre adversários políticos e os romanos que usavam o distintivo fascista eram surrados pelos seus oponentes, já mais confiantes. Na tarde daquele dia, Mussolini avistou-se com o Rei e o informou de que o Grande Conse­lho aprovara um voto de censura contra ele, Mussolini. Este tentou afirmar que a resolu­ção era ilegal, mas o Rei, tomando a inicia­tiva, e mostrando a força da sua decisão, observou que o Grande Conselho era um órgão de Estado que o próprio Mussolini criara; que a sua criação fora ratificada pela Câmara e Senado, e que toda a resolução por ele tomada era, portanto, válida. A res­posta de Mussolini a esta inesperada atitude de oposição foi violenta e ele vituperou: "Então, na opinião de Vossa Majestade, eu deveria demitir-me?" O Rei, com clareza igualmente inesperada, respondeu, calmo: "Sim" e disse-lhe que aceitava a sua demis­são. Mussolini totalmente abatido só pôde murmurar: "Então minha desgraça está completa".

 

Este é, pelo menos, o relato que Badoglio fez dos acontecimentos.

 

Segundo o próprio Mussolini, o Rei foi muito mais cordial, e quando entravam na sala de recepção, disse: "Meu caro Duce, não dá mais certo. A Itália está em ruínas... Neste momento, você é o homem mais odiado da Itália. Não pode contar com mais de um amigo. Só lhe resta um, que sou eu. Eis por que lhe digo, você não precisa temer por sua segurança pessoal, para a qual assegurarei proteção. Estou certo de que o homem que deve ocupar seu cargo, agora, é o Marechal Badoglio".

 

Mussolini discutiu, mas afinal, curvando-se à ­decisão do soberano, disse-lhe, final­mente: "Desejo felicidades ao homem designado para enfrentar esta situação".

 

Daí em diante, as duas narrativas voltam a concordar em todos os pontos essenciais. O Rei levou Mussolini até a porta, e este desceu os poucos degraus da casa até o carro, que estava à sua espera. Ali deparou com um capitão dos Carabinieri, que lhe disse: "Sua Majestade encarregou-me da proteção da sua pessoa". Um pequeno grupo de Ca­rabinieri e da policia secreta levou-o a uma ambulância, que o aguardava, e os homens, prometendo conduzi-lo a lugar seguro, leva­ram-no para um quartel dos Carabinieri. Era o fim do governo de Mussolini. Hitler continuou apoiando o ditador, chegando mesmo a diligenciar no sentido de retirá-lo do local em que se encontrava preso, num audacioso episódio da guerra. Nada, entretanto pôde restaurar o poder de Mussolini. Era o fim do fascismo na Itália.

 

O Feldmarechal Badoglio foi chamado pelo Rei, que lhe entregou a chefia do gover­no. Daí por diante, não se viu mais um único distintivo fascista em Roma. A sede do partido foi atacada, saqueada e multidões percorriam, jubilosos, as ruas da cida­de, solicitando a imediata retirada da Itália da guerra.

 

Havia, no entanto, problemas que impe­diam ao governo retirar de pronto o país do conflito, e o que mais preocupação causava era a provável reação dos alemães. Se os italianos abandonassem imediata e unilate­ralmente a guerra, era quase certo que os alemães ocupassem toda a península itálica e, derrubassem o novo governo, para criar um regime-títere inteiramente novo, segundo diretrizes nazi-fascistas.

 

O povo italiano ver-se-ia então envolvido no regime nazista e voltaria à condição de inimigo, ainda que relutante, dos Aliados, que se aproximavam. Os italianos tampouco teriam meios de impedir que os alemães ocupassem todo o seu país. Eles possuíam apenas 12 divisões, dispersadas por toda a Itália e virtualmente sem equipamentos, após as perdas na Líbia, para enfrentar oito divisões alemãs muito bem equipadas.

 

Não obstante, o povo não conseguia compreender, ou, mais corretamente, não percebia a existência de tais dificuldades, e bombardeava Badoglio com mensagens, partidas de indivíduos e organizações, implorando-lhe que declarasse a paz. Quando ele e o Rei, em transmissões radiofônicas, declararam que a guerra continuaria, o povo sentiu morrer dentro de si toda a ânsia de paz e, desiludido, assistia aflito à atividade da aviação dos Aliados cercando Roma de escombros. O resultado imediato foi uma sucessão de greves que causaram sérios da­nos à economia italiana.

 

Ao mesmo tempo que afirmava pelo rá­dio que prosseguiriam as hostilidades contra os Aliados, Badoglio iniciou negociações para fazer uma paz em separado, e com o prosseguimento destas, o General Eisenho­wer e seus planejadores começaram a exa­minar, com renovado entusiasmo, as várias possibilidades de invasão do continente.

 

Nos primeiros dias da "Operação Hus­ky" na Sicília, quando o 8° Exército se des­locava quase que livremente pela costa leste da ilha, Montgomery achava que talvez fos­se possível alcançar, praticamente sem obs­táculos, a outra margem do Estreito de Mes­sina, penetrando na Calábria, na ponta da "bota" italiana. Porém, a idéia abruptamen­te se esfumou, ao chegarem reforços ale­mães que mantiveram o 8° Exército fora de Catânia, deixando claro que a Sicília teria de ser conquistada antes que se realizassem desembarques na Calábria.

 

Pelo dia 17 de julho, embora o 8° Exérci­to, de Montgomery, ainda estivesse detido pelos alemães na planície diante de Catânia, o 7º Exército, de Patton, fazia progressos suficientes para permitir a ressurreição da idéia e até para autorizar o planejamento de outras operações. Eisenhower, Alexander, Cunningham e Tedder concordaram em que a ação principal se fixaria num desembarque em Taranto, no salto da bota, que daria aos exércitos que subissem a Itália, vindos do sul, uma excelente base naval para abasteci­mento. Ainda melhor que Taranto era o porto de Nápoles, e se a operação na Sicília viesse a demonstrar que a resistência italia­na estava enfraquecendo e, esta a grande esperança, que italianos e alemães recuavam para o norte, acreditava-se que o porto po­deria ser atacado numa operação terrestre de Calábria para o norte. Essa ordem de ênfase manteve-se ativa até 25 de julho, quando os Aliados receberam a notícia da queda de Mussolini. No dia seguinte, os Comandantes Supremos reuniram-se em Car­tago e concordaram em que seria sensato planejar numa base mais otimista. Nessa conformidade, o General Mark Clark, cujo 5º Exército fora formado no mês de janeiro anterior, foi encarregado do planejamento de uma operação inteiramente nova, um de­sembarque anfíbio na região de Nápoles, de codinome "Avalancha".

 

O General Clark entregou-se ao trabalho com grande entusiasmo, recebendo instru­ções para apresentar seus planos para o de­sembarque a 7 de agosto, ficando estabeleci­do que a operação se realizaria a 7 de se­tembro. Aparentemente, seis semanas era muito tempo para planejar uma invasão que, feita mais cedo, para aproveitar a con­fusa situação reinante na Itália, seria muito mais facilmente realizada, mas o atraso foi imposto pela crítica escassez de homens e barcaças de desembarque. Todos os homens disponíveis estavam seriamente ocupados na Sicília, e embora houvesse todas as possibi­lidades de um bom resultado a longo prazo, ainda se estava em meados de julho e com muitas lutas violentas pela frente. Além dis­so, as operações anfíbias em grande escala ainda eram uma técnica nova e todas as barcaças de desembarque estavam empenha­das no apoio às tropas que lutavam na Sicí­lia. Foram feitas estimativas sobre o tempo necessário à limpeza integral da ilha, e ao Estado-Maior da marinha dirigiram-se reco­mendações para que estabelecesse a data mais próxima, depois da conquista da Sicília, para se fazer o desembarque. Segundo as fases da lua, ele deveria ocorrer entre 7 e 10 de setembro.

 

Havia também o problema da localização exata do desembarque. Duas alternativas principais se ofereciam. Algumas fontes, mal-informadas, sugeriam a própria Baía de Nápoles, mas os táticos anfíbios, mais sérios e previdentes, achavam que os acessos forte­mente minados, os empecilhos à navegação e as redes, além de número superior a qua­renta posições de canhões pesados, eram de­mais para uma força atacante de três divi­sões; por isso, a sugestão foi logo posta de lado.

 

A área mais promissora era a planície costeira do Volturno, ao norte de Nápoles: a única área da região não cercada de monta­nhas; o terreno, plano, era ideal para blinda­dos e não havia obstáculos a um avanço veloz para Nápoles, no sul. Ademais, o de­sembarque no Golfo de Gaeta lançaria po­derosas forças aliadas atrás das linhas ale­mãs e bloquearia quaisquer reforços que eles tentassem trazer do norte. O próprio Clark era favorável a este plano e por duas vezes foi a Argel para discuti-lo com as equipes de planejamento. As autoridades da marinha não se mostravam muito entusias­madas com o plano, por não serem as águas da região tão bem protegidas quanto as que, no outro plano, atuariam as unidades na­vais, mas os chefes da força aérea america­na estavam plenamente satisfeitos, pois consideravam a área bem dentro do alcance efetivo da cobertura aérea, com o que não concordavam os britânicos, que alegavam situar-se ela fora do alcance da cobertura aérea eficaz. Clark abordou a questão com o Comandante-Chefe da Força Aérea no Mediterrâneo, o Marechal-do-Ar Sir Arthur Tedder, que declarou, obstinadamente, que não se poderia dar apoio aéreo ao norte de Nápoles. Portanto, Clark concordou em abandonar esse plano e todos os seus esforços passaram a concentrar-se no plano de­fendido pelo representante de Eisenhower, General Alexander, para desembarque ao sul de Nápoles, no Golfo de Salerno. Esta era, em certos aspectos, uma escolha desa­conselhável como local de desembarque. É certo que possuía várias vantagens: as praias dispunham de 30 quilômetros de boa costa com acesso direto às áreas do interior e o gradiente submarino era ideal para as barcaças de desembarque irem direto para as praias, sem quaisquer obstruções natu­rais. Mas havia uma deficiência séria: o gol­fo era todo cercado de montanhas que for­mavam uma barreira quase impenetrável e de fácil defesa contra uma saída imediata da praia para a planície de Nápoles. O mais importante é que as saídas rodoviárias da planície costeira para Nápoles passavam pe­lo Monte Picenti, rochoso e particularmente dificil. A situação ali era ideal para a defesa. Quaisquer forças que desembarcassem teriam não só de enfrentar um formidável bombardeio de artilharia, como também o pouco espaço para as manobras necessárias a atravessar as montanhas e dominar os desfiladeiros. Era evidente que um desem­barque de surpresa talvez conseguisse um ponto de apoio na costa, mas que a batalha dali para Nápoles provavelmente seria de excepcional dificuldade. Nas circunstâncias, pode parecer estranho que Salerno chegasse a ser considerada área de desembarque. A chave do plano, porém, era a necessidade de cobertura aérea e Alexander se recusava a aceitar qualquer plano que não satisfizesse essa exigência. Mas, mesmo neste aspecto, havia problemas: partindo das bases aéreas mais próximas, situadas na Sicília, um caça Spitfire, com um tanque suplementar, pode­ria patrulhar o Golfo de Salerno somente durante uns 20 minutos; além disso, se hou­vesse chuvas fortes na Sicilia, as pistas de pouso improvisadas tornar-se-iam inutilizá­veis. A única parte do problema da cobertu­ra de caças que deixava alguma esperança era a existência de uma excelente pista de pouso, o aeródromo de Montecorvine, qua­se adjacente às praias da Baía de Salerno. Assim, planejou-se utilizá-la logo no começo da operação.

 

Resolvida a questão do local do ataque, o General Clark passou ao detalhamento do plano e apresentou seu trabalho aos Chefes de Estado-Maior, em Cartago, na reunião de 17 de agosto.

 

O 5º Exército, de Clark, consistiria de dois corpos, o VI Corpo americano e o X Corpo britânico. O VI Corpo, sob o coman­do do General-de-Divisão Ernest J. Dawley, compreenderia a 34ª e a 36ª Divisões de Infantaria, a 1ª Divisão Blindada e a 82ª Divisão Aeroterrestre. O X Corpo, coman­dado pelo Tenente-General Sir Richard McCreery, teria como base a 46ª e a 56ª Divisões de Infantaria, a 7ª Divisão Blinda­da e a 1ª Divisão Aeroterrestre.

 

As forças navais, sob o controle-geral do almirante britânico Sir Andrew Cunning­ham, seriam comandadas pelo Almirante H. Kent Hewitt, zarpando com o 5º Exérci­to em sua nave-capitânia, o USS Ancon, que também seria o Q-G do próprio Clark até os desembarques. Para o desembarque em Sa­lerno, iam sob o comando de Hewitt uma Força de Ataque Norte, formada sobretudo de navios britânicos, comandada pelo Comodoro G.N. Oliver. e uma Força de Ataque Sul, principalmente de navios americanos, comandada pelo Contra-Almirante John L. Hall. Uma pequena força anfíbia foi colocada no flanco esquerdo (norte) do ata­que, sob o comando do Contra-Almirante Richard L. Connolly, que, embora fosse su­perior a Oliver, ofereceu-se para servir sob o seu comando, a fim de participar da ope­ração.

 

Dentre os muitos problemas que desafia­vam os planejadores da "Operação Avalan­cha", havia a perene confusão sobre o nú­mero de barcaças de desembarque que esta­riam à disposição. A Sicília fora invadida sem perdas significativas e aproximadamen­te dois terços das barcaças de desembarque utilizadas naquela operação seriam usadas nos desembarques em Salerno. Além disso, o comandante-chefe conseguiu permissão para incluir na força de ataque 48 torpedeiras cujo retorno à Grã-Bretanha já havia sido ordenado. Como resultado destas e de outras incertezas, os planejadores, com o comboio já a caminho das praias, no Dia-"D" menos 1, ainda não sabiam o nú­mero exato de navios com que contariam para reforços e abastecimento.

 

Desde as questões estratégicas aos pro­blemas logísticos, a operação parecia intei­ramente envolvida nas malhas da conveniência, da incerteza e da improvisação. Po­rém, a característica mais curiosa do ataque surgiu em sua fase mais crítica, quando o General Clark, considerando a importância do elemento surpresa, ordenara que não se fizesse nenhum bombardeio preliminar no setor dos corpos americanos. O Almirante Levitt tentou dissuadi-lo, apresentando ra­zões para bater previamente o alvo com artilharia, pois, afirmava, os alemães não dei­xariam de ver o que estava acontecendo, o que eliminava toda e qualquer possibilidade de os surpreender. Já a 17 e 18 de agosto eles haviam montado duas incursões, de 80 Ju-88 cada uma, sobre as concentrações de barcaaças de desembarque em Bizerta; além disso, com um mínimo de informações, eles poderam perceber claramente que o Golfo e Salerno era o mais provável local para onde se encaminharia a frota reunida em Bizerta, sendo mais que evidente que os comboios não completariam a viagem até as praias de Salerno sem serem perseguidos pe­los aviões de reconhecimento alemães.

 

Com o desenrolar dos acontecimentos, tornou-se cada vez mais óbvio que poderoso apoio de fogo de artilharia naval teria sido imensamente valioso no lançamento do ata­que, mas Clark, a despeito dos apelos de vários comandantes, manteve-se fiel a seu plano e não houve, de fato, bombardeio preliminar.

 

Quando se chegou a este ponto da opera­ção, os acontecimentos na Itália também haviam alcançado um estágio critico, à me­dida que as complexas negociações da ren­dição da Itália se desenrolavam.

 

A primeira indicação que os Aliados tive­ram de que os italianos ansiavam por dar por encerrada a sua participação na guerra, pelo menos do lado do Eixo, ocorrera a 16 de agosto, quando um emissário italiano, General Castellano, procurou o embaixador britânico em Madri e, afirmando estar auto­rizado a falar em nome do novo governo italiano, pediu que representantes dos Alia­dos se encontrassem com ele em Lisboa. O general parecia sincero, embora não pos­ssuísse credenciais escritas. Como sua informação coincidisse com as notícias provin­das do Vaticano e da Suíça, Eisenhower mandou seu Chefe de Estado-Maior, Gene­ral Bedell Smith, e o Chefe do Serviço de Inteligência, Brigadeiro Kenneth Strong, a Lisboa a fim de debater com o oficial italia­no o problema e talvez providenciar a rendi­ção das forças italianas.

 

Como o próprio Eisenhower registrou, mais tarde, este foi o começo de uma série de missões secretas e reuniões clandestinas, de subterfúgios e planos fracassados, que o próprio mundo da ficção teria ignorado.

 

Castellano não se atreveu a retornar a Ro­ma senão depois de nove dias após a primei­ra reunião, temeroso de que os alemães des­cobrissem que se cogitava de armistício, e passou o tempo oculto à espera de um trem especial. Nessa primeira reunião, Strong e Bedell Smith disseram a Castellano que os únicos termos que os Aliados aceitariam eram de rendição incondicional. Castellano achava que isto era demasiado rigoroso e observou que se deslocara para Lisboa a fim de estudar com as autoridades aliadas a for­ma de pôr a Itália ao lado das Nações Uni­das, contra a Alemanha.

 

Na verdade, os Aliados estavam perfeita­mente dispostos a abrir mão do rigor da exigência da rendição incondicional e só a haviam apresentado como base para discus­são. Mesmo assim, havia muitas arestas a aparar, pois cada lado procurava obter para si o melhor possível. Castellano tinha sem­pre em mente as conseqüências da medida para a Itália, o tratamento que receberia dos alemães se se rendesse sem proteção ade­quada dos Aliados. Para evitar a tragédia, no seu entender, inevitável, que se abateria sobre a Itália, ele propôs aguardar que se desse o desembarque aliado para anunciar a rendição e declarar guerra aos alemães imediatamente. Aos Aliados, a idéia agradava, pois também não queriam dar aos alemães tempo para reformular o seu sistema defensivo, uma vez fora da guer­ra os italianos. O problema era que, para tomar essas providências, Castellano queria saber detalhes dos planos aliados. Estes, na­turalmente, não estavam absolutamente dis­postos a prejudicar a segurança, revelando seus planos a quem quer que fosse, muito menos ao representante do governo de um país com o qual ainda estavam tecnicamente em guerra.

 

Castellano tinha inclusive recomendações a fazer sobre a força necessária para os de­sembarques. Ele sugeriu um desembarque na área de Livorno, com pelo menos 15 divisões, e um segundo desembarque, com igual massa de forças, no lado oposto da Itália, em Ancona, formando as duas hastes de uma pinça que cortaria a Itália em dois, a uns 300 km ao norte de Roma. Para os oficiais do Estado-Maior aliado envolvidos nessas discussões, que estavam planejando desembarcar com três divisões, e que não podiam proporcionar cobertura de caça nem mesmo até Nápoles, deve ter sido difícil conservarem-se sérios ante tais sugestões, muito mais ainda manter a ilusão de que promoveriam o desembarque com forças muito grandes.

 

Os pontos em que mais insistiram os re­presentantes dos Aliados, em todo o trans­curso das discussões, foram que a rendição recebesse a assinatura de alguém autorizado diretamente por Badoglio, e que esses ter­mos permanecessem secretos. Badoglio re­ceberia então dos Aliados instruções sobre o momento de anunciar a rendição, o que seria feito um dia antes da invasão. Castella­no objetou que seu país estava sendo obri­gado a aceitar termos impossíveis, a traba­lhar de olhos vendados, lutando insistente­mente para que o anúncio do armistício fos­se feito depois que os Aliados tivessem inva­dido a Itália continental e estivessem firme­mente estabelecidos em terra. Os negociado­res aliados desconfiavam de que os italianos atavam tentando jogar dos dois lados, para ficar com quem de fato viesse a levar a melhor. Diante disso, negavam-se a concor­dar com qualquer sugestão que implicasse a permanência dos italianos na guerra, matan­do soldados aliados, após iniciada a inva­são, uma vez aceitos os termos de rendição.

 

Depois de discutidos todos esses arranjos, e depois de passar o tempo necessário ocul­to, Castellano voltou a Roma, no dia 28 de Agosto, e apresentou os termos do armistício a Badoglio. Este os estudou durante um dia, discutiu-os com o Rei e ordenou a Castella­lo que fosse à Sicília, como se concordara, levar aos Aliados a reação italiana. Ele de­veria dizer-lhes que os italianos não estavam em condições de cumprir os termos de ar­mistício conforme apresentados, porque suas forças armadas eram fracas demais, em comparação com as dos alemães, e seriam logo eliminadas. O governo italiano celebra­ria o armistício quando os Aliados tivessem desembarcado pelo menos 15 divisões na Itália, num local adequado.

 

Bedell Smith disse-lhe em resposta que os termos oferecidos aos italianos não estavam abertos a novas discussões, e que o governo italiano podia aceitá-los ou recusá-los. Con­tudo, para estimular o moral italiano, ele se prontificou a enviar uma divisão aeroterres­tre, a 82ª americana, para tomar os aeródromos de Roma e defendê-los contra os alemães até que as forças do desembarque anfíbio pudessem juntar-se a ela. Desneces­sário dizer que quando Eisenhower comuni­cou a Clark a intenção de lhe retirar a única divisão aeroterrestre que possuía, este teve um acesso de fúria, alegando que a remoção da divisão, a qual pretendia fazer saltar ao longo do rio Volturno, para impedir que as divisões Panzer corressem para o sul e blo­queassem as gargantas entre Salerno e Ná­poles, seria o mesmo que lhe cortar o braço esquerdo. Quando Eisenhower lhe garantiu que a divisão retornaria ao seu controle após o salto, só lhe ocorreu observar, com pitoresco sarcasmo, que a divisão estaria então a 300 km de distância, o que equiva­leria a conceder a alguém o direito à meta­de, apenas, da esposa.

 

Contudo, não tendo sido tocado neste as­pecto do plano, reforçou-se o moral dos ita­lianos, esgotando, por outro lado, os argu­mentos que apresentavam com o intuito de assinar o armistício depois do desembarque aliado. Bedell Smith também contribuiu pa­ra que os italianos se decidissem, ameaçan­do, a menos que os termos fossem aceitos, impor-lhes condições muito mais rigorosas, arrasar as principais cidades da Itália, inclu­sive Roma, e destruir a indústria do país.

 

A 1º de setembro, de volta a Roma, Cas­tellano transmitiu a Badoglio e a dois cole­gas graduados tudo quanto foi dito e prome­tido na reunião com as autoridades aliadas e Badoglio comunicou-os ao Rei. Decidiu-se então que os termos do armisticio eram aceitáveis e Castellano tornou a ir à Sicília. Neste ponto, nova complicação surgiu. Castellano, meio incerto quanto aos poderes que tinha, afirmou que não estava autorizado a assinar pessoalmente o armistício. Aí o General Alexander interveio. Envergou seu melhor uniforme de gala, para causar a máxima impressão, e passou uma reprimenda muito desagradável em Castellano. Este comunicou-se imediatamente com Roma, pedindo que lhe dissessem se tinha ou não autoridade para assinar, e Badoglio respondeu: "A resposta afirmativa dada em nosso telegrama n° 5 contém implicitamente aceitação das condições do armistício". Esse palavreado oco não ajudou a ninguém, só aumentou a confusão. Três horas depois entretanto, chegou outro comunicado cancelando a versão ambígua anterior e declarando claramente que o General Castellano es­tava "autorizado pelo governo italiano a as­sinar a aceitação das condições do armistí­cio".

 

Às 17h15 de 3 de setembro, ele assinou, e a nação italiana ficou oficialmente fora da guerra.

 

Naquele mesmo dia, exatamente quatro anos depois que a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha, as forças aliadas fize­ram sua primeira invasão do continente eu­ropeu, quando o 8° Exército, de Montgo­mery, apoiado por maciço bombardeio de arti­lharia, naval e aéreo, cruzou o Estreito de Messina e desembarcou sem oposição na ponta da bota italiana.

 

Estava especificado nos documentos che­gados a Roma no dia 5 de setembro que o armistício entraria em vigor entre 10 e 15 de setembro. O General Bedell Smith disse a governo italiano que talvez isso viesse a ocorrer a 12 de setembro. Entrementes, a atividade de capa-e-espada continuava, às vezes com conseqüências hilariantes e ridículas. Em determinado momento, Castellno afirmou que precisava de um Estado-Maior. Um grupo de oficiais foi então reunido e levado de Roma, a bordo de uma lancha-torpedeira italiana, para uma ilha ao norte da Sicília, de onde foram transferidos para outra lancha que os levaria à extremidade oeste da ilha e, dali, num avião Dakota, para a África do Norte, onde o Q-G de Alexander estava sendo estabelecido para a "Operação Avalancha". Quando eles chegaram a Túnis, ninguém ali se encontrava para recebê-los. O oficial de Estado-Maior britânico encarregado de cuidar deles viu-se ­então obrigado a um esforço, dando vàrios telefonemas do aeródromo, para localizar a comissão de boas-vindas. Entrementes, a tarefa se complicava, e a segurança corria sérios riscos, porque todo o grupo decidira viajar em uniforme de gala, inclusive dois Alpini e dois Bersaglieri, com seus capace­tes magnificamente emplumados, os primei­ros com penas de águia, os segundos com rabos de galo. A medida que subia a tempe­ratura, enquanto o sol ganhava altura, os infelizes italianos já não agüentavam de tan­to suar, dentro do Dakota, com ordem ex­pressa para que não se aproximassem das janelas, até que o oficial britânico recebeu ordens do Q-G da Força Aliada para levá-l­os a Bizerta. Ali, o Chefe do Serviço de Inteligência de Eisenhower, Brigadeiro Strong, os aguardava, juntamente com o próprio Castellano, submeteu seu novo Es­tado-Maior a uma violenta invectiva, que durou cinco longos minutos, pela indiscri­ção que cometeram, viajando uniformi­zados.

 

Uma jornada igualmente fascinante, inf­initamente mais perigosa e de muito maior conseqüência, foi feita no dia anterior ao Dia-"D" pelo Brigadeiro-General Maxwell Taylor. Devido aos perigos excepcionais que envolviam o plano de desembarque de uma divisão aeroterrestre em Roma, como prelúdio do ataque, julgou-se essencial en­viar um oficial graduado à cidade, para uma avaliação dos problemas e enviar um relatório ao Q-G. Taylor, Subcomandante da 82ª Divisão Aeroterrestre, foi o escolhido. Ele viajou de torpedeira, subindo o rio Tibre, chegando à casa de Badoglio às 02 h de 8 de setembro, acompanhado de um oficial ame­ricano, o Coronel William Tudor Gardiner, do Serviço de Inteligência da Força Aérea, e de um oficial italiano, o General Carboni, que comandava todas as tropas italianas em Roma. Por coincidência, este não era o pri­meiro encontro entre Taylor e Badoglio, pois Taylor era cadete da Academia de West Point quando, em 1921, Badoglio fez uma visita àquela escola de formação de oficiais. Conforme Eisenhower veio a regis­trar, a missão de Taylor acrescentou mais um capítulo a essa história cheia de aventu­ras emocionantes. Os riscos que Taylor cor­reu, observou Eisenhower, foram superiores a todos os enfrentados por qualquer dos emissários seus durante a guerra. Indiferente ao risco de a qualquer momento ser desco­lberto, e morto, ele cumpriu à perfeição as tarefas todas que lhe foram confiadas.

 

Toda essa tensa missão teve curso dentro das melhores tradições da ficção de espionagem. Taylor levava consigo uma palavra-có­digo (segundo um observador, era a palavra "certamente"), que deveria incluir em qual­quer mensagem por ele enviada, recomen­dando o cancelamento do desembarque aeroterrestre. Mesmo que ele fosse capturado e obrigado a enviar uma mensagem, a não-inclusão da palavra "certamente" a can­celaria e impediria que a 82ª Divisão Aero­terrestre caísse numa armadilha.

 

Tão logo chegou à casa de Badoglio, Taylor deixou claro que a divulgação do armistício era iminente e poderia até ser fei­ta naquele mesmo dia. Compreensivelmente, Badoglio ficou irritado ao descobrir que fo­ra levado a crer que isso só ocorreria dali a alguns dias: evidentemente, a divisão aero­terrestre agora não poderia desembarcar an­tes do armistício. Ele implorou por um adia­mento nos saltos e na divulgação do armistí­cio, a fim de se preparar para aquele desem­barque. Do contrário, afirmaram ele e Car­boni, com 48.000 soldados alemães nas vizi­nhanças, não poderiam cooperar. Badoglio fez o rascunho de um telegrama que iria enviar ao General Eisenhower insistindo no adiamento do armisticio até 12 de setembro. Se a examinarmos do ponto de vista de Ba­doglio e dos italianos, a insistência no adia­mento era perfeitamente compreensível, em­bora seja difícil admitir que as suas razões pudessem influenciar os Aliados, que, evi­dentemente, trabalhavam em obediência a um plano meticuloso e de longo alcance, e que já fora acionado. Seu telegrama, de fato, chegou ao Q-G aliado, em Bizerta, quase que ao mesmo tempo que a mensagem cifra­da de Taylor que, devido à incerteza da cooperação italiana e aos efetivos, pelo me­nos aparentes, das forças alemãs, recomen­dava o cancelamento da operação aeroter­restre. Aliás, o cancelamento do ataque ae­roterrestre foi, provavelmente, um erro dos Aliados. Eles estavam erroneamente infor­mados sobre os efetivos de que dispunham os alemães nos arredores de Roma, enquan­to que um ataque de pára-quedistas era o que mais temia o Feldmarechal Kesselring, Comandante alemão na Itália Meridional, alertado sobre a iminência do ataque aliado. Tendo apenas dois batalhões defendendo os aeródromos, ele passou a maior parte da­quele dia atento a qualquer salto de pára­quedistas aliados. Com a 82ª, a guarnição italiana de Bersaglieri, de cinco divisões ao todo, poderia ter defendido a cidade e blo­queado eficazmente as comunicações ale­mãs, tornando incomparavelmente mais fá­cil a eventual saída de Salerno para o Norte.

 

Os apelos de Badoglio, longe de levar os Aliados ao adiamento da "Operação Ava­lancha", só conseguiram provocar um vio­lento acesso de fúria em Eisenhower, coisa bastante incomum. Ele e os demais coman­dantes reuniram-se numa pequena sala de aula; na sua opinião, o telegrama de Bado­glio significava que os italianos pretendiam mudar de lado somente quando o pulo per­desse qualquer significação de risco, ou seja, quando os Aliados houvessem desembarca­do quantidade de tropa capaz de garantir o sucesso; quando vissem as pequenas forças que os Aliados iriam desembarcar em Salerno, eles poderiam muito bem não mudar de lado!

 

Os Aliados eram, entretanto, suficiente­mente realistas para não confiar em qual­quer ajuda efetiva dos italianos no combate aos alemães, mas consideravam que sua re­pentina ausência da batalha ajudaria a anu­lar, durante breve período, os dispositivos defensivos dos alemães.

 

Eisenhower, normalmente tranqüilo e de atitudes educadas, perdeu por completo a calma e passou violenta descompostura em Castellano, que se fazia presente à reunião. Após breve discussão, e ainda com o rosto afogueado, ele exigiu que o levassem a um telefone através do qual ditou, "aos berros", egundo o oficial cujo telefone ele usou, o seguinte telegrama dirigido a Badoglio: "Pretendo divulgar a existência do armistí­cio na hora aprazada. Se você, ou qualquer parcela das suas forças armadas, não coope­rar, como ficou acordado, publicarei para o mundo inteiro toda a história deste caso. Hoje é seu Dia-"X" e espero que cumpra a sua parte".

 

Depois, Eisenhower acalmou-se e passou a aguardar o efeito do seu telegrama, decidi­do a fazer a prometida transmissão, inde­pendente de qualquer providência que viesse a tomar o governo italiano. Este não enviou qualquer notícia até às 18h30. Eisenhower entrou então no ar e anunciou a rendição.

 

Na verdade, seu telegrama fora recebido em Roma uma hora antes da transmissão e provocara um rebuliço entre os italianos. Badoglio reuniu o Ministro da Casa Real, os Ministros das Relações Exteriores, Exército, Marinha e da Força Aérea, o Chefe do Esta­do-Maior-Geral, o Subchefe do Estado-­Maior-Geral do Exército, General Carboni, e o Major Marchesi, que fora com Castella­no à Sicília para as primeiras negociações. Toda esta comitiva foi ter com o Rei, ocor­rendo uma breve discussão sobre se deve­riam ir em frente com o armistício, arriscan­do, possivelmente, uma violenta reação ale­mã, ou repudiar o acordo de 3 de setembro. As opiniões estavam muito divididas, e foi o próprio Rei, reconhecendo a impossibilida­de, naquele momento, de uma política dife­rente, quem resolveu a questão.

 

A esse tempo, a transmissão de Eisenho­wer fora ouvida e, com o apoio do Rei, Badoglio saiu apressadamente da reunião, indo para a Rádio de Roma e transmitiu sua proclamação.

 

"Reconhecendo a impossibilidade de con­tinuar a guerra, diante da força esmagadora do inimigo, e a fim de salvar a nação de outros desastres ainda maiores, o governo italiano pediu ao General Eisenhower, Co­mandante-Chefe das Forças Aliadas, um ar­mistício. O pedido foi aceito. Em conseqüência, todas as hostilidades pelas forças armadas italianas contra as forças britâni­cas e americanas têm, agora, de cessar. Elas, contudo, repelirão ataques, venham de onde vierem."

 

"Aproxime-se a renda-se"

 

No momento em que Eisenhower fazia a transmissão radiofônica, a maior parte dos soldados envolvidos nos desembarques de Salerno estava em seus comboios e já a ca­minho das posições de desembarque no Golfo de Salerno.

 

O efeito da transmissão não foi o preten­dido por Eisenhower. A tropa, de um modo geral, desarmou o espírito, começou a rela­xar. A tensão que normalmente precede as grandes ações desapareceu, assim como per­deram quase todos a determinação de lutar. Eles acreditavam que, como se dirigiam em direção à Itália, e como aquele país estava agora fora da guerra, não haveria contra quem combater. Confrontados com essa ló­gica. aparentemente incontestável, os ofi­ciais ainda tentaram conscientizar a tropa de que ainda teriam de combater os ale­mães, mas não conseguiram muita coisa. Como o Almirante Cunningham observou, muitos ignoraram as advertências. A atmos­fera também não desencorajava a atitude dos soldados. Aquela noite foi bela, límpida e calma. Quando os navios se aproximaram do Golfo de Salerno, do outro lado do Mar Tirreno, para muitos observadores viajados, uma das mais belas vistas do mundo, os soldados podiam ver luzes em terra, os lam­piões dos pescadores ao largo de Amalfi, e a linha do horizonte, acima da sua área de desembarque, destacando-se contra o azul do mar e o céu que escurecia. A noite era bem mais de poesia e romance que de luta e morte.

 

Quase 600 navios formavam os comboios de invasão e suas escoltas. Eles haviam zar­pado dos respectivos portos em diferentes momentos, a partir das 06h de 3 de setem­bro; vinham de Trípoli, Palermo, Bizerta, Termini, Orã e Argel, todos com ordens de chegar ao largo de Salerno em determinado horário, seguindo, porém, um padrão de procedimento, intricado e minucioso, típico dos desembarques anfíbios.

 

Ao largo de Salerno, o submarino britâni­co HMS Shakespeare, que vinha operando naquelas águas há dez dias, emergiu, e a tripulação instalou uma luz verde na sua torre de comando, para ser vista da direção do mar, como um farol para orientar os navios que se aproximavam. Pouco depois da meia-noite de 9 de setembro, os primei­ros transportes começaram a aproximar-se dos seus pontos de lançamento, e com um ruído metálico as barcaças de assalto foram retiradas dos seus turcos e baixadas nas águas calmas. Repletas de soldados, na maioria com as faces enegrecidas e curvados ao peso do equipamento e das armas, as barcaças de assalto soltaram amarras e par­tiram rumo às praias.

 

Um grupo de soldados altamente especia­lizados tinha a tarefa crítica de tomar, ao norte, o porto de Salerno propriamente dito, garantir a posse das elevações que dominam o porto e cortar as comunicações rodoviá­rias e ferroviárias entre Salerno e Nápoles, nos pontos em que elas passam pelas monta­nhas. Três batalhões de tropas de assalto americanos deviam desembarcar em Maiori, e dois de commandos britânicos em Vietri. As tropas de assalto, sob o comando do Tenente-Coronel William O. Darby, foram transportadas em duas LSI (Navio de Desembarque para Infantaria) e cinco LCL (Barcaça de Desembarque para Infantaria), e começaram a desembarcar às 03h20. Co­mo não encontrassem oposição, e à medida que as levas de suprimentos as seguiam até a praia, as tropas de assalto avançaram e, em três horas, haviam ocupado as elevações que dominam a passagem de Chiunzi a Ná­poles e as comunicações rodoviárias e ferro­viárias entre Salerno e Nápoles, incluindo a importante rede ferroviária de Nocera. A operação parecia incomumente fácil.

 

À direita, os commandos britânicos, diri­gidos pelo Brigadeiro Robert Laycock, de­viam desembarcar em Vietri, tomar as defe­sas costeiras e as elevações que dominam o desfiladeiro de Molina, outro caminho que leva a Nápoles. Mas eles não desfrutariam do desembarque tranqüilo com que foram presenteados seus colegas americanos. As­sim que se aproximaram da costa, exata­mente na hora marcada para seu ataque, às 03h30, uma bateria de canhões alemã abriu fogo e os do HMS Blackmore revidaram, para silenciá-la. A primeira leva da força de assalto os homens do Commando n° 2 do Exército, dirigidos pelo Tenente-Coronel. Jack Churchill, desembarcou e correu pelas dunas antes que os defensores alemães to­massem consciência da sua presença. Quan­do as metralhadoras alemãs foram acionadas, já os commandos estavam no meio de­las e, depois de corpo-a-corpo, seus primei­ros prisioneiros estavam sendo levados para a praia. Atrás deles, meia hora depois, veio o 41º Commando dos Royal Marines, dirigido pelo Tenente-Coronel Bruce Lumsden. Seus homens logo foram alvejados por fogo de metralhadora e vários deles foram feri­dos, mas a maior parte dos commandos desembarcou a salvo e avançou rapidamente. No caminho, encontraram um tanque Tigre, destruindo-o com uma granada que lhe con­seguiram enfiar pela torreta, e partiram céle­res para capturar Vietri, o primeiro objetivo. Ao chegarem ao passo de Molina, onde se entrincheiraram, repeliram um contra-ataque da infantaria alemã, apoiada por tan­ques, e ficaram ali aguardando a força prin­cipal. Durante essa luta, as baterias de 88 mm continuaram trocando tiros com os destróieres e cruzadores e, embora os navios pulverizassem os alvos que conseguiam identificar, várias posições não atingidas por muito bem ocultas, assim que os navios de abastecimento começaram a tentar a aproximação das praias, por volta das 06h30, dispararam tão intenso fogo de mor­teiro e metralhadora, que eles e as barcaças de desembarque foram repelidos. Na confu­são da luta, uma mensagem inteiramente er­rada chegou ao Q-G dos commandos, dizen­do que os alemães haviam retomado a praia e, assim, eles tinham de passar alguns dias sem receber suprimentos.

 

Apesar das dificuldades, os britânicos dominaram o desfiladeiro e, portanto, as co­municações rodoviárias e ferroviárias; as tropas de assalto americanas também con­trolavam as passagens na sua área. Vietri e Maiori foram tomadas e os objetivos situa­dos ao norte, pelo menos, haviam sido alcançados.

 

Essas duas operações de commando, em­bora de imenso valor, foram subsidiárias aos desembarques principais, realizados mais ao sul. O plano do General Clark divi­dia o ataque principal em duas partes, as Forças de Assalto Norte e Sul. A cerca de 10 km ao sul de Salerno estavam as praias a serem atacadas pela Força de Assalto Norte, integrada pela 46ª e pela 56ª Divi­sões que, juntamente com os commandos e as tropas de assalto, formavam o X Corpo britânico. A área de desembarque da 46ª Divisão foi designada Uncle (Tio) e dividida em duas praias, a Vermelha e a Verde. A divisão, sob o comando do Major-General Hawkesworth, deveria dirigir-se para o nor­te, após o desembarque, tomar as elevações situadas atrás de Salerno e dividir-se em duas colunas, uma para tentar a tomada de Salerno e a outra, deslocando-se pelo Vale de Picentino, para tomar Mercato, situada ao norte de Salerno. O oficial da marinha encarregado dos desembarques nas praias Uncle, Almirante Conolly, aproximou-se do seu objetivo no USS Biscayne e, por volta de 01h50, de 9 de setembro, seus navios haviam aberto um canal através do campo minado e ele levara seus três destróieres da classe Hunt para suas posições, a apenas 1.500 m das praias, prontos para dar combate a quaisquer instalações terrestres. Os capitães desses navios tinham recebido ordens do Almirante Hewitt, na noite ante­rior, para não abrirem fogo contra quais­quer defesas costeiras, a menos que estas atirassem primeiro, pois as baterias talvez fossem guarnecidas por soldados italianos que, em vista do armistício, não eram mais inimigos. Mas as baterias de terra abriram fogo, o que levou Conolly a ordenar que seus destróieres respondessem. Às 02h25, os disparos de terra começaram a rarear e Conolly mandou que se iniciasse o ataque. Quando a primeira leva de barcaças de as­salto se dirigiu para as duas praias Uncle, canhoneiras se aproximaram da terra, para funcionarem no apoio de fogo, função antes cumprida pelos destróieres. Na Praia Ver­melha, uma barcaça de desembarque, equi­pada com foguetes, disparou 790 deles con­tra a praia, para anular qualquer campo mi­nado, e os primeiros soldados desembarca­ram na hora certa, às 03h30. O efeito cau­sado pelos foguetes da barcaça de desem­barque, apelidada "cerca viva", foi tremen­do. As explosões lançavam para o alto mon­tes de areia e escombros, por entre os quais se viam soldados alemães vagando aparente­mente atordoados; houve também um pe­queno vagalhão formado pelos foguetes. Es­se ataque, contudo, não conseguiu eliminar to­da a oposição e, quando os soldados desembarcaram no Setor Vermelho das praias Uncle, encontraram vigorosa resistência. Todavia, após intensa luta, eles abriram caminho, as levas sucessivas trouxeram artilharia e munição e, às 06h45, o brigadeiro e seu Estado-Maior estavam em terra. Sua parte, na operação, saíra perfeitamente de acordo com o plano.

 

À sua direita, no Setor Verde das praias Uncle, as forças atacantes encontraram pro­blemas muito piores. As dificuldades come­çaram guando as barcaças de desembarque dispararam seus foguetes, errando o alvo em 800m, abrindo um caminho pela praia à direita da sua, a praia designada Sugar Amber (Açúcar Ambasr). De acordo com o pla­no, as tropas de assalto, se os foguetes er­rassem o alvo, iriam para onde caíssem os foguetes, pois se considerava mais impor­tante percorrer o caminho aberto do que obedecer ao plano teórico e arriscar-se a gandes perdas nos campos minados. A primeira leva de soldados destinada à Uncle Verde, obedeceu corretamente à ordem e de­sembarcou na Sugar Amber, sendo seguida, a intervalos de 15 minutos, por três outras levas. O resultado foi uma confusão que até hoje não ficou bem esclarecida. Alguns sol­dados da 46ª Divisão se misturaram aos da 56ª, que foram parcialmente empurrados para fora da sua própria praia. Ao que pare­ce, dois batalhões de assalto do Regimento Royal Hampshire desembarcaram no lado errado do Rio Asa e, ao tentarem retornar, uma companhia subiu por um caminho es­treito, enfrentando diretamente um con­tra-ataque alemão. Dispondo apenas de ar­mas portáteis para enfrentar os tanques ale­mães, seus integrantes quase foram elimi­nados.

 

Não tendo sido inteiramente perfeito o ataque dos foguetes, um ponto forte ficou intato na Praia Uncle Verde e os disparos feitos desse ponto forte foram de tal ordem incômodos, que levou Conolly a suspender a descarga de suprimentos na Uncle Verde pouco antes das 09h e a desviá-los para a Uncle Vermelha. Durante todo aquele pri­meiro dia, a Uncle Verde permaneceu inuti­lizável, numa demonstração dos terríveis problemas que podem surgir quando ocorre um único erro no complexo plano de um grande desembarque anfíbio. E, enquanto se desenrolavam esses sangrentos encontros, os navios que manobravam ao largo, sobretudo os que apoiavam os desembarques na Uncle, duelavam com posições de canhões alemães, chegando às vezes a disparar contra tanques e grupos de soldados de infantaria que avis­tavam; além disso, tiveram também de se pegar com a Luftwaffe. Os aviões alemães montaram seu ataque principal entre as 04h17 e 05h37, acertando em cheio o USS Nauset, e algumas outras bombas caíram nas proximidades. Quando a tripulação ten­tava encalhar o navio, com a ajuda de um rebocador, houve tremenda explosão, que fez em dois o navio e matou ou feriu 59 homens da sua tripulação, de 113 homens.

 

Todas as LST foram vítimas do fogo das baterias defensivas. Uma delas, ao dirigir-se para a praia Uncle Verde, sob pesado fogo de artilharia, bateu numa mina, sofrendo 43 baixas. Outra foi atingida por cinco vezes, mas ainda assim conseguiu desembarcar a tripulação na Uncle Vermelha. Outra, a LST 375, foi atingida por duas vezes, du­rante a descarga, e só conseguiu retirar os veículos do seu convés principal depois que se afastou para reparos. À tarde, já em con­dições de operar, fez descer os veículos, de­pois do que, acertando-a em cheio, uma bomba fê-la explodir.

 

Em contraste com o que se passava no setor Uncle, a batalha foi relativamente cal­ma, durante o Dia-"D" nos setores Sugar e Roger, ao sul. A 56ª Divisão, sob o coman­do do Major-General D. A. Graham, deve­ria desembarcar nessas praias e capturar o valioso aeródromo de Montecorvino, o que melhoraria muito o trabalho dos caças, em sua atividade de cobertura. Em seguida, ela deveria rumar para a Ponte Sele, a 16 km mais para o interior. A preparação dos de­sembarques obedecia à direção do Comodo­ro Oliver, que, depois que os caça-minas retiraram do caminho cerca de doze minas, mandou que os transportes se aproximassem da praia. À 01h15, eles começaram a lançar ao mar suas barcaças de assalto e de apoio. No setor Sugar, dividido em Amber, ao nor­te, e Green, ao sul, as primeiras levas desembarcaram, com atraso de uns 10 minu­tos e, quando a segunda leva chegou, a praia em que deveria descer, a Amber, esta­va inteiramente tomada pelos soldados da Uncle, que se haviam desviado do rumo em virtude da imprecisão dos disparos dos fo­guetes, amontoando-se na praia Verde, contribuindo ainda mais para a confusão geral. Felizmente, o inimigo não reagira e houve tempo para ajeitar as coisas. Depois do amanhecer, os defensores abriram fogo de poderosas baterias nas praias Sugar, mas os destróieres Laforey e Lookout aproxima­ram-se para dar-lhes combate e continua­ram dando valioso apoio durante todo o dia.

 

O Setor Roger, à direita do Sugar, foi igualmente dividido em duas praias, Ambar e Verde. Também ali houve um engano na orientação e a primeira leva para a praia Verde desembarcou a uns 1.500 m fora do rumo, mas, como a praia à qual se destinava realmente estava bem protegida por poderosa bateria alemã, esse erro foi afortunado. As levas subseqüentes foram vítimas de al­guns disparos, mas os desembarques prosse­guiram sem grandes baixas. Além disso, nessas praias, dotadas de alguns dos gra­dientes mais favoráveis, as primeiras levas logo foram apoiadas por unidades LST, que desembarcaram suas cargas durante todo o dia e, antes do anoitecer, já estavam a caminho, em comboio, para uma área segura.

 

Durante todo o Dia-"D", uma caracte­cística sem dúvida importante da batalha foi a atividade dos navios, cuja eficiência per­mitiu que a artilharia das tropas de desem­barque pudesse ser levada para terra. Os commandos e as tropas de assalto desfruta­ram, cada qual, da cobertura de um des­tróier e de uma barcaça de desembarque armada de canhões de 4,7 pol., chamados LCG (Launching Craft-Guns, Barcaças de Desembarque para Canhões). Na Uncle, a 46ª Divisão dispunha de três destróieres e três LCG a dar-lhe apoio, e nos setores Ro­ger e Sugar a 56ª Divisão tinha três des­tróieres e quatro LCG. Além disso, todo o X Corpo tinha à sua disposição, sob o co­mando direto do Comodoro Oliver, um es­quadrão de cruzadores, com os HMS Mau­ritius, Uganda, Orion, o monitor Roberts e dois destróieres, mas, devido a dificuldades de comunicação, não se fez com eficiência o apoio dos cruzadores no Dia-"D", correndo por conta dos destróieres a maior parte do trabalho. Dos navios de porte, o que atuou de modo realmente proveitoso foi a capitânia do Almirante Conolly, o USS Biscayne, do qual o próprio Conolly viu uma bateria disparar de uma colina ao sul de Salerno e mandou que seu navio se aproximasse da costa para atacá-la. Doze salvas dos seus canhões de 5 pol. fizeram o serviço, depois do que o navio voltou a afastar-se.

 

Dos destróieres, vários foram atingidos, alguns por granadas de 88 mm, outros por fogo mais fraco, mas a ajuda que prestaram foi inestimável. Os que se encontravam em terra informaram que seus disparos haviam reduzido muitos dos canhões alemães a su­cata, produzindo também numerosas baixas entre os alemães, não havendo dúvidas de que, sem o castigo imposto pelos navios, sobretudo pelos destróieres, a atividade dos defensores poderia muito bem ter impedido que as tropas do X Corpo conseguissem um ponto de apoio.

 

As praias de desembarque do VI Corpo foram divididas em quatro, designadas pelos nomes Vermelha, Verde, Amarela e Azul, a partir do norte para o sul. A Praia Vermelha estava, de fato, a 12 km de distância da area de desembarque mais meridional do X Corpo britânico, o que dava às duas forças muito pouca esperança de sé apoiarem mu­tuamente no flanco, mas esta disposição era considerada necessária devido aos bancos de areia encontrados perto da foz do rio Sele, que dividia em duas partes a cabeça­de-praia. As quatro praias estavam diante dos Templos de Pesto, dois templos gregos perfeitos, e das colunas em ruínas de um terceiro, quase tudo o que restava da cidade grega de Poseidonia, fundada no século VI a.C. e dedicada ao deus Netuno. Embora um prazer visual para qualquer entusiasta do clássico, a área era impraticável para a guerra moderna que em pouco troaria ao seu redor. Situava-se ela a uns 5 km das praias. Mais próximo destas erguiam-se vá­rias torres de vigia, construídas em tempos mais modernos (cerca de mil anos mais tar­de), para dar aos habitantes aviso imediato de incursões sarracenas. Estas seriam nova­mente úteis, por se constituírem em excelen­tes pontos de referência para os navegado­res das barcaças de desembarque. Atrás de Pesto, duas montanhas dominavam o cam­po de batalha, o Monte Soprano com 1.174 m, e o Monte Sottane, com 686 m; entre eles aninhava-se a pequena cidade de Capaccio. De modo geral, o objetivo do ata­que do VI Corpo era dar proteção ao flanco direito dos Aliados em seu avanço na dire­ção de Nápoles e travar contato com as unidades avançadas do 8° Exército, de Montgomery, que vinha do sul.

 

Para o desembarque, o VI Corpo foi divi­dido em dois grupos regimentais de comba­te, o 142º GRC, que desembarcaria nas duas praias mais setentrionais, e o 141º GRC, que desceria nas outras duas; ambos os grupos pertenciam à 36ª Divisão de In­fantaria, sob o comando do Major-General Fred L. Walker. Eles deviam desembarcar em seis levas de barcos, tomar a ferrovia situada atrás dos templos, deslocar-se para o sopé dos montes e assenhorear-se da área. A 45ª Divisão de Infantaria, também dividida em dois grupos regimentais de combate, fi­caria como reserva, a bordo, desembarcan­do no dia seguinte.

 

Exatamente uma hora antes da Ho­ra-"H", às 02h30, quatro velozes lanchas-­canhoneiras, com os motores equipados com silenciadores, aproximaram-se lenta­mente no mar calmo e tomaram posição ao largo das suas respectivas praias. O Segun­do-Tenente G. Anderson parou a uns 400 m ao largo da Praia Vermelha e ligou sua luz vermelha na direção do mar. Ao largo da Praia Verde, depois de orientar-se pela Torre de Pesto, construída na Idade Média, o Tenente R. Galloway aproximou­-se a 100 m da praia e às 03h10 ligou sua luz verde. O Segundo-Tenente J.G. Donnell também se orientou pela torre para encon­trar sua posição ao largo da Praia Amarela, e o Segundo-Tenente R.E. Schumann acomodou-se, à espera das levas de assalto, na Praia Azul, depois de orientar-se pelo Monte Sottane.

 

Atrás deles, os caça-minas trabalhavam na abertura de um canal através de um cam­po minado cuja existência havia sido pouco antes comunicada embora a tarefa fosse ex­cessiva para ser realizada no tempo disponí­vel. Uma barcaça de desembarque veio a bater numa dessas minas, explodindo.

 

A seguir, vieram os barcos de assalto e, à parte o ruído surdo dos seus motores, não havia muito barulho e a estranha calma pro­vocada pela ausência de bombardeio de apoio tornou a suscitar dúvidas quanto à sensatez de se tentar obter surpresa tática, dúvidas estas intensificadas pelas explosões, ouvidas a distância, do bombardeio de apoio às tropas britânicas, ao norte.

 

A decisão de tentar o assalto sem apoio de fogo de artilharia foi uma das mais infeli­zes da guerra, pois os defensores estavam vendo tudo, dedo no gatilho.

 

Há informes de que, embora se discuta a, sua veracidade, quando o primeiro soldado desceu à praia, ouviu através de um sistema de alto-falantes dizerem num inglês carrega­do: "Aproxime-se e renda-se. Você está sob nossa mira".

 

O indiscutível é que, quando os barcos de assalto pararam e os soldados começaram a adear as águas, as defesas começaram a atirar com 88 mm, morteiros, metralhado­-as e armas portáteis, enquanto a Luftwafe realizava bombardeios repetidos e corridas de metralhamento pelas praias.

 

Os barcos estavam ligeiramente atrasa­dos. Os desembarques se realizavam entre cinco e sete minutos após a Hora-"H". Nas Praias Vermelha e Verde, o 142º GRC ficou retido por algum tempo pelo fogo disparado da Torre di Pesto, mas pequenos grupos de soldados, muitas vezes sem oficiais ou suboficiais, conseguiram avançar, e às 05h30 re­ceberam satisfeitos o apoio de artilharia de­sembarcada de três LST. Uma vez mais o congestionamento se constituiu em proble­ma, e quando a reserva do 143º GRC che­gou e começou a desembarcar na Praia Ver­melha, às 06h30, os que a integravam acotovelaram-se com os que se encontravam já nas praias, incapazes de avançar por dema­siadamente forte a barragem de fogo do ini­migo. Estava difícil desmanchar a confusão formada, até que os próprios soldados começaram a compreender o problema; assim, por volta das 07h56, quando seu comandan­te, o General Walker, desembarcou na Praia Vermelha, eles já haviam capturado Pesto e se dirigiam para o objetivo que lhes fora designado, o Monte Soprano.

 

Na Praia Verde, o 2º Batalhão do 142º Grupo Regimental de Combate enredou-se em alambrados e campos minados da defesa e também encontrou dificuldade em sair da praia. Sua segunda leva de barcaças de de­sembarque, batendo, algumas, em minas, atrasou-se, mas, por volta das 05h30, cerca de 30 DUKW haviam desembarcado com obuseiros de 105 mm e munição, o que aju­dou os homens a alcançar a área de reunião usada pelas tropas da Praia Vermelha. Um fator crítico era a captura da torre, pelo 531º de Engenharia de Costa, com a conse­qüente destruição não só das metralhadoras localizadas no alto da torre, mas também dos tanques posicionados entre as casas existentes em torno dela. Essa unidade de sapadores trabalhou com eficiência excep­cional, abrindo estradas pelas praias e as­sentando grades de metal, sendo objeto de ataque provindo das torres durante todo o tempo de trabalho.

 

As duas outras praias, a Amarela e a Azul, mostraram-se ainda mais difíceis. Os defensores se haviam entrincheirado muito bem e ambas as praias estavam sob o fogo constante das baterias costeiras de Agropoli. Na Praia Amarela, o 3º Batalhão do 142º GRC foi retido a uns 400 m da orla maríti­ma, e na Praia Azul as primeiras levas do 1º Batalhão foram retidas durante 20 horas, em virtude do atraso de suas levas de apoio, determinado pelo choque de barcaças de de­sembarque contra minas ou pelas dificulda­des de desembarque impostas pelo pesado fogo da artilharia defensiva. Finalmente, uma barcaça conseguiu desembarcar suas armas pesadas e um oficial entrou de pronto em ação, com um canhão de 75 mm, des­truindo um tanque e um ninho de metralha­doras. Mas isto não bastava para virar a sorte, e durante a tarde a Praia Azul perma­neceu inteiramente impedida.

 

Como acontecera no setor britânico, os soldados, dentro das limitações impostas pe­la falta de experiência, haviam lutado bem e corajosamente, mas não teriam, por certo, podido defender suas posições nas praias, e muito menos fazer qualquer progresso, sem o apoio da artilharia naval.

 

Durante a primeira parte do Dia-"D", o HMS Abercrombie, operando a mais de 25 km da costa, realizou inestimável bom­bardeio das baterias de canhões, das con­centrações de tanques inimigos e da cidade de Capaccio, até que, à tarde, bateu numa mina e adernou, sendo obrigado a retornar a Palermo.

O cruzador USS Savannah atendeu a 11 pedidos de apoio de fogo durante o Dia-"D", disparando 645 granadas de 6 pol. contra formações de infantaria, concentra­ções de tanques, baterias de artilharia e novamente contra a cidade de Capaccio. A nave-capitânia Philadelphia entrou em ação durante a manhã, primeiro contra uma bate­ria inimiga e, depois, tendo lançado um avião de observação, contra uma ponte da qual se aproximavam unidades de reforço dos grupamentos panzers. Pouco depois do meio-dia, o Philadelphia aproximou-se mais da costa, tendo à frente um caça-minas, e atirou contra outra bateria alemã. Mais tar­de, tendo-se colocado a distância menos vul­nerável, ele disparou granadas de 6 pol. con­tra um grupo de mais de 30 tanques alemães ocultos num bosque e, juntamente com o Savannah, destruiu sete deles, antes que o restante recuasse para distância mais segu­ra. O Philadelphia também contribuiu para orientar o fogo dos destróieres contra alvos proveitosos. O Bristol e o Edison operavam eficazmente, à distância de 5.000 a 6.000 m da costa, contra posições de artilharia e tan­ques, sendo, por sua vez, alvejados por ca­nhões posicionados em lugares bem dissi­mulados, mas não foram atingidos. O des­tróier Ludlow acompanhou um caça-minas até 1.500 m da costa do flanco direito do VI Corpo, na Praia Azul, e calou uma das baterias que disparava contra os soldados retidos naquele setor. No transcurso do Dia-"D", o Ludlow disparou 465 cartuchos em apoio da força terrestre.

 

Esta enérgica ação dos navios, sobretudo dos destróieres, que penetravam as áreas mi­nadas para disparar de pequena distância, foi muito apreciada pelo exército. O coman­dante da artilharia divisional da 36ª Divisão enviou a seguinte mensagem de agradeci­mento aos tripulantes dos navios que se encarregaram do apoio de fogo: "Às unidades da Marinha, sem cujo apoio não teríamos saído das praias Azul e Amarela, o nosso eterno reconhecimento. Formulo a Deus vo­tos de felicidade a esses valorosos batalha­dores".

 

A contagem, no final do Dia-"D", graças sobretudo ao eficiente apoio de fogo dos navios, registrou vantagem, ainda que mo­desta, para os Aliados, embora não conse­guissem alcançar o que deles esperavam os planejadores, que pretendiam que a linha da cabeça-de-praia abrangesse Salerno, Battipaglia, Eboli e a Ponte Sele, onde o X Corpo se teria juntado ao VI Corpo e, então, atra­vessado as montanhas, indo para bem dis­tante de Altavilla e Albanella, ultrapassando a cidade de Capaccio e os picos gêmeos do Monte Soprano e do Monte Sottane. Este plano, ambicioso, sem dúvida, mas não inal­cançável, teria dado à força invasora espaço suficiente para manobrar nas praias e, tam­bém, posições dominantes sobre toda a ca­beça-de-praia, bem como uma posição firme para avançar para o norte, na direção de Nápoles. Mas, por vários motivos, inclusive o resoluto comportamento dos defensores, os acontecimentos não se harmonizaram com os planos, e a linha, naquela noite, ia de uns 5 km a sudeste de Salerno, cerca de 3 km para o interior, e retornava à costa, a 6 km da foz do rio Sele. O VI Corpo deslo­cara-se da cabeça-de-praia para o interior e tomara a cidade de Cappacio, e uma com­panhia da 36ª Divisão estava a caminho para tomar o Monte Sottane, embora o flan­co direito da Praia Azul ainda estivesse sob fogo intenso, permanecendo rétido ali. As­sim, havia uma brecha de 11 km entre os corpos britânico e americano, por onde pai­rava a agourenta ameaça de um contra-ata­que alemão. O pior de tudo é que os três mais almejados objetivos do Dia-"D", o ae­ródromo de Montecorvino, o porto de Saler­no e Battipaglia, não tinham sido tomados.

 

Não obstante, o General Clark mais tarde registraria que, embora o ataque não alcan­çasse a velocidade ideal, fora feito o que, no seu entender, seria possível esperar, no pri­meiro dia de combate.

 

Batalha pela cabeça-de-praia

 

Nos dias seguintes ao Dia-"D" registra­ram-se lutas confusas, ataques e contra-ata­ques esporádicos, homens aprisionados, ho­mens mortos, pontos fortes tomados e aban­donados e, às vezes, até retomados.

 

O único fato evidente era que o grosso dos efetivos alemães estava reunido no flan­co esquerdo dos Aliados, contra o X Corpo britânico.

 

Respondendo ao desembarque, Kessel­ring, o comandante alemão no teatro de guerra italiano, logo pedira reforços. A Di­visão Hermann Göring e parte da 15ª Divi­são Panzergrenadier deslocaram-se para Sa­lerno e a 3ª Divisão Panzergrenadier foi de Orvieto para o sul, liberada da tarefa de defender Roma. Ao mesmo tempo, todo o LXXVI Corpo, tendo rompido contato com o 8º Exército de Montgomery, dirigia-se apressadamente para o norte, sob o coman­do do General Herr.

 

Vietinghoff, Comandante do 10º Exérci­to, também deslocara, durante a noite, a 16ª Divisão Panzer do setor americano, para concentrar-se contra os britânicos, acredi­tando que a 29ª Divisão Panzergrenadier estava para chegar e poderia encarregar-se da defesa contra o VI Corpo.

 

Contra esta defesa formidável, os britâni­cos começaram a fazer sondagens no dia 10 de setembro bem cedo, embora soubessem todos, sem qualquer sombra de dúvida, que a crista da montanha que tinham pela frente, com 660 m de altura e repleta de artilharia alemã bem embasada, dificultaria demais o avanço. Na verdade, o progresso foi insigni­ficante, pois os alemães contra-atacavam sempre com muito vigor.

 

A 56ª Divisão de Infantaria, diante de Battipaglia, foi a mais castigada. Os Royal Fusiliers, o tradicional regimento de infanta­ria de Londres, enviaram patrulhas ao inte­rior da cidade durante a noite, mas, por penetrarem sem apoio de tanques, a incur­são deixara seus flancos desprotegidos. A 16ª de Panzers, depois de bombardear vio­lentamente, com canhões de 88 mm, a linha avançada dos britânicos, usando também no bombardeio fogo de metralhadoras Span­dau, avançou com tanques Tigre e Mark IV. Os Royal Marines assestaram seus ca­nhões antitanques contra eles, mas sem resultado, não demorando muito para que se reduzissem seus efetivos, por baixas e apri­sionamento, ante a fúria dos alemães, deci­didos e mais bem equipados. Os fuzileiros tiveram então que recuar seu perímetro de­fensivo e, depois, dividirem-se em pequenos grupos, ocultando-se nas casas de Battipaglia, sendo capturados ou mortos no prosse­guimento da luta. Ao lado dos Fusiliers, a 201ª Brigada de Guardas britânica estava enfrentando oposição igualmente forte, na luta pela posse do aeródromo de Montecor­vino e das áreas adjacentes.

 

Entre Battipaglia e o aeródromo de Montecorvino erguia-se uma fábrica de fumo, local que sobressairia na luta que era iminente. Os alemães ocupavam fortes posições defensivas ali, e duas unidades da Guarda Real britânica, os Grenadiers e os Scots Guards montaram um ataque, apoiando-se entre si. Infelizmente para a imaculada repu­tação dos Guardas, os tanques e carros blin­dados alemães contra-atacaram, com apoio da infantaria, dobraram pelo menos um pe­lotão e obrigaram a recuar grupos dos de­mais pelotões. A retirada transformou-se em pânico e em breve as estradas estavam repletas de soldados a correr para as praias. Com a propagação do pânico, alguns Fusi­liers juntaram-se a eles, até que oficiais, fazendo valer seu poder de decisão, os reorga­nizaram em unidades de combate. Deve-se salientar, com toda a justiça, que duas com­panhias dos Grenadier Guards permanece­ram firmes e, com a ajuda dos Royal Scots Greys (o 2º regimento de dragões, mecaniza­dos) e de tanques Sherman, detiveram o ataque alemão.

 

Mais tarde, naquela manhã, os Scots Guards receberam ordens de avançar e ten­tar a tomada da fábrica. Os alemães, inteli­gentemente, esperaram que se iniciasse o ataque dos escoceses para então atirar, e depois abriram fogo, de posições bem ocul­tas, com Spandaus, morteiros e canhões de 88 mm. Os Guardas, sem se deixarem aba­ter, e por não verem nenhuma vantagem no recuo, continuaram avançando contra o for­te fogo inimigo e transpuseram a cerca da fábrica. Daí por diante, eles travaram uma batalha cerrada por entre os prédios do esta­belecimento. Porém, com os recursos limita­dos de que dispunham não conseguiram manter um ponto de apoio, sendo, por isso, obrigados a recuar, sempre sob fogo intenso e constante.

 

O ataque britânico fora de novo detido pelo imediato contra-ataque alemão, coisa típica das lutas travadas nos primeiros dias em terra. Os invasores conquistaram faixa de terreno pequena, e pagaram caro, em baixas, por ela. O General Clark escreveu, mais tarde: " ... era difícil, mesmo depois do relatório complexo da batalha, a qualquer um, exceto aos que estavam nela envolvidos, saber a gravidade do desastre que ameaçava o primeiro ataque aliado ao solo europeu. Mesmo no decorrer da batalha, não tínha­mos conhecimento pleno da grande vanta­gem dos alemães que defendiam as altas colinas que rodeavam nossa cabeça-de-­praia, de onde nos miravam continuamente. Só meses mais tarde, quando tive ocasião de sobrevoar as posições alemãs de Salerno, é que percebi que o inimigo, de onde se en­contrava, via todos os nossos movimentos, deslocando assim homens e máquinas para tranqüilamente anular nossos ataques. Neste aspecto, a vantagem alemã era espantosa".

 

Por isso é que se debita ao General Clark o erro de não ter procurado senão depois de três meses obter informações a respeito de tão importante acontecimento. Na verdade, ele desembarcara na manhã seguinte ao Dia-"D", e provavelmente vira o anel de montanhas que dominava a área. Talvez o ponto crítico é que, naquele estágio, ele ape­nas vira as montanhas da praia, e não a praia das montanhas, e a imensa vantagem que representavam para quem as contro­lasse.

 

A principal razão de Clark para descer à praia era encontrar um local de desembar­que para a reserva flutuante do 157º Grupo Regimental de Combate. Ele reconhecia o problema da brecha existente entre os dois corpos e, após consultar o comandante da 36ª Divisão, General Walker, e o coman­dante do X Corpo, General McCreery, deci­diu desembarcar o 157º GRC na extrema direita da cabeça-de-praia britânica para ini­ciar o fechamento da brecha. Na verdade, devido à terrível escassez de barcos, a ordem de Clark vinha tarde demais. O Almi­rante Hewitt fora pressionado pelos seus su­periores em Argel para liberar as barcaças de desembarque para outros usos e fora obrigado a mandar os homens desembarcar. Eles haviam desembarcado no setor ameri­cano ao sul do rio Sele e perdeu-se algum tempo enquanto eram deslocados para o norte, em obediência às intenções de Clark.

 

Por estranho que pareça, Clark com­preendera tão mal a situação, que enviou uma mensagem ao General Alexander di­zendo que em breve estariam prontos para atacar na direção norte, através do Passo Vietri. visando a acossar Nápoles. Como declarou mais tarde, houve otimismo ex­cessivo.

 

Ele talvez fosse levado a tirar essa conclu­são pelo relatório de Walker sobre o que se passava no flanco direito. Ali, o VI Corpo americano desfrutara de relativa calma no Dia-"D", pois a defesa alemã se concentrara no bloqueio dos acessos a Nápoles. As maiores baixas foram causadas pelos ata­ques aéreos. Até o amanhecer, quando des­ceu uma neblina que impediu os desembar­ques e os ataques aéreos, bombardeiros e caças da Luftwafe estiveram ocupados, usando pára-quedas com foguetes luminosos para iluminar os alvos durante as horas de escuridão.

 

No flanco esquerdo do VI Corpo, a 45ª Divisão sofreu o impacto da luta, quando seu 179º GRC recebeu ordens pessoais do General Dawley, quando este fez uma visita de inspeção ao campo de batalha, para avançar para Eboli. O 2º Batalhão da unidade devia avançar ao sul do rio Calore, e o 3º Batalhão devia cruzar o rio, atravessar Persano e tomar a ponte chamada Ponte Sele.

 

Quando a noite se aproximava, as duas colunas puseram-se a caminho. O 2º Batalhão percorreu cerca de 6 km até chegar também a uma posição de onde podia atravessar o rio Calore. Quando ele o cruzava, a 16ª Divisão Panzer lançou seu 29º Batalhão de Sapadores ao ataque, prejudicando seriamente a sondagem dos americanos, que se viram forçados a recuar em desordem, para se reorganizarem bem aquém do rio.

 

Mais feliz foi a tentativa do 3º Batalhão de chegar à Ponte Sele. Ele também foi obri­gado a ter de cruzar o Calore, porque a ponte principal que o transpunha fora quei­mada pelos alemães. Quando o batalhão se dirigiu para a Ponte Sele, foi submetido a intenso fogo disparado pelos alemães que ocupavam as elevações que rodeiam Persa­no. Contudo, o batalhão chegou à ponte (também destruída) e preparou posições de­fensivas nas elevações circundantes, en­quanto unidades de sapadores eram chama­das a realizar reparos na ponte, a qual con­seguiram restaurar na manhã do dia 11, de­pois de serem sistematicamente hostilizadas pelos canhões instalados nas colinas.

 

No flanco da extrema direita da cabeça-­de-praia americana, a 36ª Divisão tentava avançar na área de Pesto. À sua esquerda, um batalhão do 142° GRC deslocou-se para uma elevação, a Cota 424, e para a cidade de Altavilla, nas proximidades. Ao alcançar as elevações próximas da cidade, não demo­rou para ser atacado por um grupo de cerca de 25 tanques alemães que só foram recha­çados quando a artilharia os submeteu a forte bombardeio. Outro batalhão do 142° GRC, à direita, ocupou boas posições no Monte Soprano e arredores e, assim, conse­guiu estender a cabeça-de-praia.

 

A alguns quilômetros ao norte, as duas unidades estabelecidas independentemente, os commandos e as tropas de assalto, estavam defendendo suas posições, mas a resis­tência que enfrentavam engrossava à medi­da que reforços alemães chegavam. A ativi­dade das duas unidades ficou limitada a conter os ataques alemães, exaurindo seus parcos suprimentos, que só lhes podiam che­gar em lombo de muares que, para que pu­dessem galgar as elevações, era preciso que a artilharia naval permanecesse batendo com fogo as estradas e os postos ocupados pelos alemães, abaixo dos soldados aliados.

 

E, uma vez mais, a marinha desempe­nhou papel da maior importância na bata­lha, dando apoio sistemático e preciso du­rante todo o dia. Só no setor britânico, 37 pedidos de fogo foram feitos e atendidos no dia 10 de setembro. Um navio, o HMS Nu­bian, disparou 341 salvas dos seus canhões de 4,7 pol., o mesmo sucedendo com os demais navios que por ali se encontravam. Os alvos eram sobretudo uma concentração de tanques, uma bateria de canhões, um pré­dio que parecia estar funcionando como ponto forte, um depósito de munição e uma concentração de veículos, todos batidos pela artilharia naval com elogiável precisão.

 

No todo, o Dia-"D" + 1 terminou com o saldo mantido precariamente. Os Aliados haviam obtido pequenos ganhos em deter­minados lugares, notadamente no setor americano, mas a concentração de reforços alemães prosseguia, embora também eles estivessem encontrando dificuldades. Um ge­neral alemão, da Divisão Panzer "Hermann Göring", registrou: "Os tanques eram inca­pazes de operar com eficiência no vale estreito e tinham um campo de observação restrito. Houve luta violenta em ambas as encostas do monte, cuja ocupação era im­portante para o trabalho de observação de nossa artilharia. No terreno montanhoso, com sulcos profundos, as companhias se dispersaram, abrindo-se, na frente, brechas através das quais o inimigo se infiltrava. À custa do sacrificio de pequenos grupos de assalto, estabeleceu-se uma linha de frente consecutiva, mas tornou-se extremamente difícil manter o controle da situação. A arti­lharia naval continua causando grandes bai­xas".

 

No dia seguinte, 11 de setembro, o estado de coisas era o mesmo: a mesma confusão, as mesmas trocas de território, com ganhos e perdas, o mesmo enrijecimento da resistên­ca alemã. O setor americano continuava sendo atingido com menos rigor que o britânico exceto no norte, onde o 179º GRC enfrentava, na área dos rios Sele e Calore, forte contra-ataque dos alemães. Após intensa luta, com suas posições avançadas sofrendo escassez de munição, o 3º Batalhão do regimento foi obrigado a recuar e conso­lidar-se em torno da Ponte Sele. Os sapado­res haviam conseguido fazer os devidos re­paros na ponte a fim de que a artilharia pudes­se atravessar com seus canhões, mas duran­te o dia somente três canhões da 160ª Bate­ria de Campanha conseguiram terminar a viagem e, pelo anoitecer, a posição estava mais perigosa ainda: uma coluna do 179º foi cercada e quase isolada. A uns quatro quilômetros à sua direita, o 2º Batalhão do 179º GRC cruzara o rio Calore, onde também sofreram todo o impacto do ataque blindado alemão, que o levou a ceder o ter­reno ganho no dia anterior. Também à sua direita, nas colinas existentes em torno de Altavilla, no dia 11 de setembro os alemães saíram para violento contra-ataque, impe­dindo que o 142º avançasse mais.

 

No setor do X Corpo, onde se fez mais intensa a luta foi pela posse de Battipaglia. Como acontecera no dia anterior, a Brigada de Guardas, que se encontrava no centro da ação, montou naquela manhã, bem cedo, um ataque para tentar recuperar a cidade que havia perdido no dia 10. A cidade esta­va defendida pelos pára-quedistas e pelos tanques da 16ª Divisão Panzer e, no come­ço da manhã, os Grenadier Guards desloca­ram-se pelas estradas e por entre as casas dos arredores. Foi bom o progresso inicial­mente feito, mas por volta das 11h os tan­ques contra-atacaram e repeliram os Guar­das da cidade para o sul. Mais tarde, os Scots Guards, à sua esquerda, enviaram, uma companhia para tentar tomar a fábrica de fumo, alvo importantíssimo porque ali os alemães tinham excelentes campos de tiro que dominavam as travessias dos rios Sele e Calore, e onde desfrutavam de certa prote­ção. Os Panzers mantiveram-se silenciosos até que os Guardas transpuseram o alam­brado que cercava os prédios da fábrica, quando desencadearam todo o seu poder de fogo para esmagar os atacantes. Vários sol­dados britânicos foram mortos, e o restante, aprisionado.

 

O número de prisioneiros feitos no dia 11 de setembro, mais de 1.500, britânicos na maioria, dá bem a medida do sucesso dos defensores.

 

Como resultado dos êxitos colhidos pelos alemães, foi-se deteriorando o moral do sol­dado aliado. No começo daquela noite, os alemães montaram um ataque combinado de tanque e infantaria contra os Royal Fusi­liers ao sul de Battipaglia, que repeliu as tropas britânicas, quebrou sua formação de combate e os forçou a uma retirada, áspera e desorganizada, para o mar. Quando os tanques e meias-lagartas irromperam no meio deles, ao anoitecer, as comunicações entraram em colapso e os soldados senti­ram-se individualmente isolados. Muitos fo­ram feridos, muitos viram tombar mortos numerosos companheiros e, na confusão que se estabeleceu, o melhor, consideravam todos, era bater em direção às áreas da reta­guarda.

 

Os oficiais mais decididos, sempre que os encontravam, mandavam-nos voltar para a linha de frente, em alguns casos sob ameaça de morte, se continuassem em retirada. Para reforçar a linha, soldados do setor burocráti­co, comandados por suboficiais que nunca haviam sequer admitido a possibilidade de participar da luta, receberam ordens de se entrincheirarem. Pelo menos numa ocasião, um suboficial britânico, ao ordenar a um grupo de sapadores que se dirigissem para a linha de frente, chegou a ameaçá-los de fuzi­lamento, se se negassem a participar da luta. Igualmente extraordinário foi um incidente no qual um grupo de soldados britânicos se rendeu, na escuridão, a soldados que avan­çavam, verificando, depois, que os supostos inimigos eram americanos. O moral estava realmente baixo, e tão baixo que não reco­nhecia fronteiras.

 

Ao norte da cabeça-de-praia, os commandos e tropas de assalto passaram o dia sob pressão cada vez mais forte, pois Kesselring, com os reforços que recebia, redobrava as defesas nos passos que conduziam a Nápo­les, embora o 4º Batalhão das Tropas de Assalto capturasse e defendesse o importan­te Monte Pendolo. Reconhecendo a impor­tância da defesa do terreno que dominava as rotas situadas entre a cabeça-de-praia e Nápoles, o General Clark mandou que se retirasse um batalhão do 143º de Infantaria do setor do VI Corpo, no sul, para que fosse, em barcaças de desembarque, levado para reforçar a cabeça-de-praia em Maiori.

 

No todo, o quadro, do ponto de vista dos Aliados, deixava entrever que se estabelece­ra ligeira melhoria sobre o dia anterior. O perímetro da cabeça-de-praia fora reforçado e Salerno estava oficialmente ocupada, em­bora o porto estivesse tão avariado que era impossível descarregar suprimentos ali. Os soldados nem sequer se haviam aproximado das suas projetadas linhas (Nápoles fora in­cluída nas projeções dos planejadores como captura para aquele dia) e, embora os ameri­canos tivessem, no sul, avançado cerca de 15 km para o interior, os britânicos, no se­tor norte, haviam estabelecido um ponto de apoio de apenas 1.500 m de profundidade. Entretanto, o General Hawkesworth, no co­mando da 46ª Divisão, conseguiu encontrar otimismo suficiente para informar que seus soldados estavam em condições de impedir qualquer penetração inimiga.

 

O dia era sem dúvida de otimismo. Clark tinha a impressão de que a cabeça-de-praia estava tão firme, que após uma visita ao X Corpo, naquela noite, informou ao General Alexander que em pouco estaria pronto para lançar um ataque, através de Vietri, para o norte.

 

Provavelmente, os acontecimentos mais emocionantes e importantes do dia 11 ocor­reram no mar. Por volta das 09h30, estando o General Clark a bordo do Ancon, ouviu-se um ruído forte, estridente, e ele logo supôs tratar-se de um novo tipo de bomba alemã. Quando o ruído aumentou, Clark já espera­va que o navio Q-G fosse o alvo e, um tanto filosoficamente, preparou-se para o impacto.

 

O cruzador Savannah passava por perto no momento e, de repente, houve um enor­me choque logo à frente da ponte de coman­do do Savannah, seguido de uma explosão sob seus conveses. Na verdade, aquele era o primeiro ataque que a Luftwafe fazia com sua nova bomba-planadora, controlada pelo rádio, a FX 1400, uma das mais eficientes armas secretas de Hitler. A bomba pesava 1.400 kg, alcançando, pela força da gravidade, a velocidade, nos momentos finais da queda uns 260 m por segundo, desde que lançada de altura previamente determinada, e era dirigida pelo rádio, através de um sis­tema de aletas. Ela prometia ser uma bomba formidável e, embora os Aliados soubessem da sua existência e esperassem seu emprego em Salerno, não tinham defesa certa contra ela e nem podiam sair para a evasão, pois, ao :ergo da cabeça-de-praia, a área estava atravancada.

 

A bomba que atingiu o Savannah fora lançada por um bombardeiro Dornier 217, de uma altura de 6.000 m. Ela atingira a torre n° 3 e detonara na sala de manobras, logo abaixo, abrindo um rombo no fundo do navio e rompendo uma junta nos seus costa­dos. Caldeiras se apagaram, o navio perdeu força e em pouco estava afundando pela proa com o castelo de proa inundado. Mas os grupos de controle de incêndio logo minimizaram os efeitos da explosão e o navio foi reequilibrado, ajustando-se a distribuição do seu óleo combustível. Somente às 18h é que foi possível colocá-lo em condições de poder novamente navegar, chegando ele a Malta com uma poderosa escolta de quatro destróieres.

 

Contudo, nem mesmo a queda da bomba­-planadora sobre o navio que se encontrava próximo do Ancon, onde estava Clark, poderia ser para ele mais surpreendente que a informação que recebeu ao retornar ao Ancon, após breve visita a terra, naquele mesmo dia. Chegara uma mensagem de Alexan­der dizendo que a 82ª Divisão Aeroterres­ter, que Clark fora obrigado a destacar ant­es dos desembarques de Salerno, não havia saltado nos aeródromos de Roma e estava concentrada nos aeródromos sicilianos, à sua disposição para usá-la como melhor lhe aprouvesse.

 

Pela primeira vez Clark ouvia falar do cancelamento do salto. Taylor, em sua con­ferência com o Marechal Badoglio, dera parecer contrário ao salto, sob a alegação de que, uma vez que não haveria ajuda dos soldados italianos, a 82ª Divisão Aeroterrestre poderia ficar isolada numa operação nos arredores de Roma. Clark ficou muito satisfeito em ter a 82ª à disposição, para lançá-la em Salerno, em vista do fortaleci­mento da resistência alemã, e deu ordens para que ela saltasse, na noite de 13 de setembro, perto da cidade de Avellino, a fim de operar atrás das linhas alemãs. O salto se daria, portanto, dois dias depois do momen­to em que ele o ordenara, mas a situação na cabeça-de-praia mudara tão drasticamente, que a 82ª não chegou a saltar em Avellino.

 

A 12 de setembro, unidades alemãs mon­taram poderosos contra-ataques ao longo de toda a frente. Os reforços para Kesselring estavam chegando, e ele logo os lançava na linha, com bons resultados. Na extremidade sul da cabeça-de-praia, ele ordenou que se fizessem ataques com elementos da 26ª Divisão Panzer, 29ª Divisão Panzergrenadier e 16ª Panzer contra o flanco esquerdo do VI Corpo. Na área de Montecorvino, os ata­ques foram montados pela 15ª e pela 3ª Divisões Panzergrenadier e pela Divisão Hermann Göring, contra o X Corpo bri­tânico.

 

Em todas as regiões, os Aliados só com extrema dificuldade resistiam a esses decidi­dos ataques e, em muitos casos, eram obri­gados a recuar. A 45ª Divisão, que partira em duas colunas para a Ponte Sele, corria o perigo de ser isolada. Clark mandou que o 157º Grupo Regimental de Combate a fosse reforçar. O Coronel Charles Ankcorn era o comandante desta unidade, que fora transfe­rida para o flanco britânico depois de de­sembarcar no setor errado; ela avançaria ao longo do rio Sele e protegeria o flanco do ataque norte da 45ª Divisão Os homens de Ankcorn logo sentiram o vigor da resistên­cia alemã, quando disparos das armas dos tanques e de metralhadoras foram feitos contra eles, das elevações em torno de Per­sano e da fábrica de fumo, situada nas pro­ximidades. Os alemães haviam cruzado o rio Sele e ocupado estas importantíssimas posições. Imediatamente puseram eles fora de combate cinco dos sete tanques de Ank­corn e o 157º GRC foi retido pelo fogo devastador, incapaz de progredir. O terreno ocupado pelo inimigo formava uma cunha perigosa na área mal defendida entre as ca­beças-de-praia do VI e do X Corpos. A luta era, naquela região ora favorável a um lado, ora ao outro, até que mais tarde, naquele mesmo dia, o General Dawley montou um ataque com elementos da 45ª Divisão, que, com a ajuda de fogo de artilharia solicitado do Philadelphia, expulsaram os alemães da fábrica de fumo e de Persano.

 

No começo do dia, a situação em torno de Altavilla era séria e, como os Aliados não conseguiam encontrar solução para o problema, no fim do dia ela piorara ainda mais. De manhã cedo, o 1º Batalhão do 142º de Infantaria, sob o comando do Coronel ­Barron, ocupara a Cota 424, atrás da cidade, mas não lhe foi possível consolidar a posição antes de os soldados alemães do 2º Batalhão do 15° Regimento Panzergrenadier envolverem toda a elevação e despeja­rem uma barragem de fogo contínua contra os americanos. Com o correr do dia, a situação foi-se tornando mais e mais confusa, com linhas de comunicações cortadas e rádios ­postos fora de ação, por dano ou falta de energia. Finalmente, no fim da tarde, a infantaria foi obrigada a iniciar uma retira­da, que logo se transformou em debandada, por se haver tornado mais forte a carga da artilharia alemã contra os que tentavam re­tornar às suas linhas. Altavilla foi aban­donada.

 

Em Battipaglia, no norte, a luta do dia trouxe resultado parecido. Os homens da 56ª Divisão começaram o dia quase sem sinal de presença inimiga, mas pouco depois do nascer do sol, iniciou-se o ataque, precedido de violento fogo de morteiro e artilha­ria, e os britânicos foram obrigados a uma retirada em combate. Em determinado mo­mento, os oficiais foram a um Posto de Aju­da Regimental pedir a todos os soldados que, embora feridos, pudessem empunhar uma arma que retornassem à luta. A situação era extremamente dificil, mas o exército bri­tânico, por seus regulamentos, não impunha aos feridos a obrigação de lutar. Por isso, só cabia aos oficiais pedir, e os que não esta­vam de todo arriados atenderam ao apelo. Não seria, porém, lícito esperar desses hom­ens desempenho muito destacado, sobre­do porque para os britânicos era muito desfavorável a situação, mas, não obstante, pequenos atos de bravura tiveram por personagens homens saídos de leitos de hospital. No fim do dia, a 56ª Divisão fora expulsa de Battipaglia e o General Graham, seu co­mandante, estava tentando reorganizar uma linha firme a uns 3.000 metros a sudoeste da cidade.

 

O dia 12 de setembro foi muito desagra­dável para o General Clark. Ele descera a terra, para estabelecer seu Q-G bem cedo, naquela manhã. Seu Estado-Maior escolhera uma grande mansão localizada na região de Pesto, mas, na opinião de Clark, ela sobres­saía muito, constituindo-se num convite ao desastre, de modo que decidiu ficar em seu trailer, instalando-o nos bosques logo ao sul de Pesto. Ele passou o resto do dia visitando o campo de batalha, em seu jipe, quase sem­pre por ele mesmo dirigido, com uma escol­ta de polícias militares. Naquela paisagem quente, poeirenta, o chão esburacado por bombas e granadas, e sulcado pelas lagartas dos tanques e pneus dos pesados caminhões, eles eram obrigados, para aliviar as vias res­piratórias, a amarrar lenços no rosto. Mais tarde, Clark disse que todo aquele descon­forto não era nada, comparado ao que o inimigo estava causando. Um soldado viu Clark parado à margem da estrada com uma expressão preocupada, vendo os solda­dos sair de Persano. Nesse momento, quan­do, segundo Clark, os apuros eram realmen­te sérios, começou ele a considerar a possibilidade de serem repelidos de volta para o mar. Fiel ao procedimento militar ortodoxo, ou seja, sair para um plano alternativo, pre­parado previamente, Clark começou a ad­mitir que teria de retirar parte dos soldados do setor americano e colocá-los em luta no setor britânico. Mas o plano tinha conseqüências que Clark não podia suportar. Se houvesse retirada, seria preciso fazer planos e ordenar a destruição de suprimentos e equipamentos já descarregados e empilha­dos nas praias. Esta era, em última análise, a teoria militar ortodoxa. Mas Clark, após ponderar o acerto de tais planos, chegou a uma conclusão: "Ao diabo a teoria", e re­solveu enfrentar o que quer que viesse a acontecer. Se os alemães saíssem para ex­pulsá-los da praia, teriam de faze-lo passo a passo, pagando o preço justo da façanha. Clark registra que no dia seguinte parecia que os alemães iriam tentar exatamente isso, a expulsão.

 

Revide

 

Vários fatores pareciam conspirar para fazer crer a Vietinghoff que valia a pena contra-atacar. Vendo abrir-se a brecha entre os dois flancos aliados, concluiu que estes se haviam separado deliberadamente em duas seções, preparando-se para evacuar a cabe­ça-de-praia.

 

Tendo chegado a essa conclusão, procu­rou outra prova, que pudesse robustecer a sua convicção. Verificando que ao golfo ha­viam chegado mais navios, interpretou mal o fato, achando que seriam usados para reti­rar os homens; os navios estavam lançando cortinas de fumaça em torno de Battipaglia e os alemães interceptaram mensagens ra­diofônicas confusas. Todos os indícios fa­ziam supor que era iminente a retirada. Vie­tinghoff decidiu então lançar um grande contra-ataque para acelerá-la.

 

O ataque mais vigoroso teve lugar pouco depois do meio-dia de 13 de setembro, quando a 29ª Divisão Panzer, recém-chega­da da Calábria, apoiada por parte da 16ª Panzergrenadier, desceu pela estreita brecha entre os rios Sele e Calore, uma área defen­dida por unidades da 45ª Divisão, do Gene­ral Middleton. Os tanques e a infantaria alemães forçaram uma travessia do Sele e, com seus flancos fortemente defendidos, para im­pedir que os americanos lhes cortassem o abastecimento, empurraram as defesas na direção da confluência dos dois rios. Eles estavam a 8 km da costa e, ao que parecia, tinham todas as possibilidades de chegar até lá e abrir a cabeça-de-praia em duas partes.

 

Às 17h15, Vietinghoff mandou a maior parte da sua força de tanques avançar para a confluência dos dois rios, evidentemente pretendendo atravessar a ponte e penetrar o setor do VI Corpo até as praias, provavel­mente perto de Pesto. Os tanques desceram pela estrada, com a artilharia avançando pa­ra posições na recém-capturada Persano, enquanto a infantaria atacava fortemente de ambos os lados da brecha, para mantê-la escancarada.

 

Por volta das 18h30, 15 dos tanques esta­vam no denso matagal existente na margem norte do rio Calore, mas a ponte que preten­diam usar fora queimada e a eles não seria fácil sair da estrada de terra batida, devido aos profundos fossos de drenagem que la­deavam a trilha. Havia um vau perto da ponte incendiada e um ataque decidido, com todos os efetivos disponíveis, talvez desse a vitória a Vietinghoff. Mas ele já havia divi­dido suas forças, enviando parte dela de Persano para o nordeste, não conseguindo, por isso, lançar todo o seu poderio contra aquele ponto fraco. Os americanos que enfrentavam a ponta-de-lança alemã reconhe­ceram entretanto, o perigo e se haviam preparado para o ataque. Na margem sul do Calore, onde espesso matagal se estendia até a ponte queimada, dois oficiais de artilharia haiam desenvolvido seus batalhões com energia e previdência. Eram o Tenente-Coronel Hal L. Muldoon, comandante do 189º Batalhão de Artilharia de Campanha, e o Tenente-Coronel Russell T. Funk, do 158° Batalhão de Artilharia de Campanha. Eles reduziram suas guarnições de canhões ao mínimo essencial e mandaram todos os homens disponíveis para as encostas, onde se deviam entrincheirar com fuzis e metralha­doras. Em seguida, os oficiais foram para as áreas de retaguarda e, fazendo parar os veí­culos que passavam, armavam de fuzis os soldados de tais veículos conduzissem, des­pachando-os para a linha. Seis canhões de 37 mm foram deslocados em apoio desses homens. Reuniram-se mecânicos, motoristas e pessoal administrativo para formar uma reserva a ser despachada para qualquer área que precisasse de reforços. O próprio Gene­ral Clark examinou a situação e viu uma elevação que poderia oferecer vantagens aos alemães, se conseguissem tomá-la. Assim, ele mandou que uma banda do regimento trocasse seus instrumentos musicais por ar­mas e assumisse posições defensivas. Como não possuísse a elevação um nome que a identificasse, Clark batizou-a com o nome de Pico do Pícolo, em homenagem aos mú­sicos.

 

Estando os músicos já em suas posições, os tanques alemães iniciaram a arremetida para o vau e a artilharia abriu fogo contra eles. A estrada de terra batida e o vau foram obliterados pelo fogo da artilharia, e o mata­gal e os bosques ao norte do Calore foram martelados até não restar mais nenhuma proteção para tanques. As guarnições dos canhões suavam para manter sua cadência de tiro, chegando, em determinado período, a imprimir-lhe um ritmo de 8 granadas por minuto; os soldados de infantaria, perma­nentes e temporários, puseram em ação des­de armas portáteis às mais pesadas metra­lhadoras que puderam reunir. Os tanques tentaram abrir caminho até o outro lado do rio, mas, diante dessa recepção, recuaram. Os canhões dos dois batalhões, ajudados por outros sete do 27º de Artilharia Blinda­da de Campanha, despejaram 3.950 grana­das sobre os alemães, cujos tanques, ao anoitecer, bateram em retirada. Clark voltou ao seu Q-G, achando que haviam escapado por pouco, embora ainda não tivessem saído por completo das dificuldades. Aliás, os re­latórios davam conta de que, ao longo da frente, em vários pontos os alemães por pouco não infligiram pesados desastres aos Aliados.

 

Na região da fábrica de fumo de Battipa­glia, unidades da 26ª Divisão Panzergrena­dier lançaram ataques contra a 56ª Divisão britânica, mas depois de retiradas limitadas, os britânicos, sabendo que não tinham espa­ço suficiente para onde recuar, e com alguns sentindo no ar o cheiro de outra Dunquerque, resolveram não ceder nem mais um centímetro. Montaram ataques de tanques contra as sondas alemãs e evitaram uma debandada geral. No começo da noite, dois batalhões dos Coldstream Guards e dos Grenadier Guards, ajudados pela Real Arti­lharia, surpreenderam uma coluna de tan­ques alemães que saía dos bosques diante das suas posições. Os britânicos estavam bem estrincheirados e os disparos dos tan­ques lhes causaram danos insignificantes, ao passo que os artilheiros e guardas britânicos, que dispararam mais de 54.000 cartu­chos de armas portáteis, destruíram os tan­ques e a infantaria que os acompanhava.

 

Como nos dias anteriores, os navios lhes continuaram dando inestimável apoio, em­bora sofressem baixas. O HMS Roberts foi particularmente ativo ao largo do setor britânico, e com três cruzadores e seis destróie­res mantiveram intermitente bombardeio de alvos, indicados pelos oficiais observadores de tiro, durante todo o dia. Por estranho que pareça, o Philadelphia e vários destróieres não foram chamados a dar apoio de fogo, mesmo no auge da batalha que tinha lugar na confluência dos rios, onde seus canhões poderiam ter sido bem aproveitados. A ra­zão disso, ao que parece, foi a falta de gru­pos de controle de tiro entre os que, em meio a terrível atribulação, se defendiam do forte ataque dos tanques. Mas o USS Boise disparou 36 salvas de 6 pol., que destruíram uma incômoda bateria de retaguarda alemã.

 

No cômputo geral, a marinha e as forças de terra levaram a pior no dia 13. A Luft­waffe retornara à atividade com suas novas bombas teleguiadas, lançadas de aviões que sequer eram vistos. O Philadelphia livrou-se de duas delas, que caíram a 100 m e a 30 m do navio. Mas às 14h40, o cruzador HMS Uganda foi atingido por uma bomba que lhe atravessou sete conveses e explodiu abaixo do navio, que foi de imediato inundado por toneladas de agua, mas os grupos de controle de danos conseguiram escorar as anteparas e impedir que o navio afundasse. Ele foi rebocado pelo USS Narragansett, deixando a área de combate, com uma es­colta de três destróieres, na manhã seguinte, bem cedo. Às 15h30, a Luftwaffe tornou a atacar e os navios HMS Nubian e HMS Loyal por pouco não foram atingidos. Para substituir os navios danificados e os que, por falta de munição, tiveram que se afastar, o HMS Aurora e o HMS Penelope foram chamados de Malta e antes do amanhecer do dia 14 de setembro já estavam em po­sição.

 

Uma das coisas mais estimulantes para os Aliados, num dia de sérios reveses e de remédios desesperados, teve lugar não em Salerno, mas na Sicília, referente não à luta em si, mas à organização de reforços.

 

Sentindo, a 13 de setembro, a possibilida­de de ocorrências adversas, Clark decidiu solicitar com urgência o concurso de unida­des aeroterrestres, para que fizessem um sal­to em Salerno, a fim de fortalecer a cabeça-­de-praia. Ele dispunha da 82ª Divisão Aero­terrestre, que, liberada do salto previsto pa­ra Roma, havia sido designada para saltar em Avellino, naquela noite. Clark tinha de agir rápido para cancelar o salto sobre Avel­lino e preparar um desembarque aeroterres­tre imediato sobre a cabeça-de-praia. Já en­tão, vários caças vinham utilizando uma pista de pouso, construída às pressas logo ao sul do rio Sele, e Clark mandou que um membro do seu Estado-Maior saísse à cata de um voluntário, entre os pilotos, para le­var seu pedido ao General-de-Divisão Ridg­way, comandante da 82ª Divisão Aeroterrestre. Quem se apresentou foi o Capitão Jacob R. Hamilton, que se pôs logo a cami­nho, levando a mensagem e mapas que mos­travam o local onde Clark queria o salto.

 

Ao chegar a Lioata, na Sicília, Hamilton soube que Ridgway acabara de decolar num C47, mas ele correu à torre de controle e conseguiu, num autêntico milagre de persua­são, convencer o pessoal de terra da impor­tância da sua missão, fazendo-o chamar o chamar o avião de Ridgway de volta. A mensagem de Clark explicava que a luta em Salerno piorara e estava à beira da catástrofe. Clark frisa­va que somente no dia anterior é que soube que o salto em Roma não se realizaria e que a 82ª estava agora à sua disposição. E pros­seguia: "Quero que aceite o conteúdo da carta como uma ordem. Sei que há normal­mente um tempo de preparação do salto, mas tendo em vista que a situação é de tal modo grave que roça o desastre, desejo que abra uma exceção e realize esta noite o salto que lhe solicito. É imperioso faze-lo.

 

Ridgway estudou a mensagem com aten­ção durante umas duas horas e depois mandou Hamilton para Salerno, com a resposta que Clark desejava ouvir: "Posso faze-lo. Entretanto, o dia, para Hamilton, estava carregado de problemas. Quando ia, de jipe, do aeródromo improvisado em Salerno para o Q-G do General Clark, oito aviões ale­mães sobrevoaram a estrada, metralhan­do-a, e Hamilton teve de mergulhar no fos­so, deslocando um ombro. Mesmo assim, ele, mais tarde, levou seu avião de volta à Sicília.

 

Durante o dia, chegaram outras mensa­gens de Ridgway e Alexander dizendo que os pára-quedistas da 82ª Aeroterrestre não só saltariam na cabeça-de-praia naquela noi­te, como também se encontrava em preparo um salto em Avellino, a ser feito na noite seguinte, destinado a hostilizar a retaguarda inimiga. Ridgway fazia uma ressalva, para que não se registrassem acidentes desneces­sários: "É vitalmente importante que todas as forças de terra e navais na sua zona e no Golfo de Salerno, recebam ordens para não abrirem fogo esta noite. O controle rígido do fogo antiaéreo é absolutamente essencial pa­ra o sucesso".

 

A possibilidade de uma tragédia não pas­sara despercebida a Clark, pois ele sabia que alguns dos homens de Ridgway haviam sido mortos por artilharia aliada durante o salto na Sicília; antes mesmo de tomar co­nhecimento da advertência de Ridgway, ele havia ordenado a suspensão do fogo antes da hora do salto, marcado para meia-noite. Os membros de seu Estado-Maior transmiti­ram pessoalmente a ordem de Clark aos comandantes de bateria e, cinco minutos an­tes da meia-noite, toda a cabeça-de-praia silenciou.

 

Então, pouco antes da hora marcada, fez-­se ouvir o esperado ronco dos motores dos aviões. Entretanto, ouvidos apurados teriam notado que o ruído vinha de direção errada. É que os alemães haviam escolhido a meia-­noite para atacar a cabeça-de-praia, e du­rante cinco minutos percorreram as praias de um lado para o outro, metralhando e bombardeando, sem dúvida atônitos com a total impunidade com que agiam. Nenhum canhão disparava contra eles, enquanto os soldados se espremiam, indefesos, nas trin­cheiras, sem chance de revidar.

 

Após mais cinco minutos de silenciosa expectativa, ouviu-se novamente o ronco de mais aviões, desta vez, os certos: 82 C47 e C53 haviam decolado aquela noite dos aeró­dromos da Sicília e agora os primeiros dos 600 soldados do 504º Regimento de Pára­quedistas, sob o comando do Coronel Ruben Tucker, desciam num salto preciso so­bre as praias. Eles estavam atrasados ape­nas cinco minutos, tendo gasto um só dia no planejamento de uma operação que em circunstâncias normais envolveria semanas de preparativos. Já na manhã seguinte, esta­vam em ação perto de Altavilla, onde foram recebidos pelos integrantes do VI Corpo co­mo reforços providenciais. Na noite seguin­te, mais 1.900 pára-quedistas saltaram na mesma área.

 

Todavia, ao anoitecer do dia 13, a situa­ção piorara tanto, que levara Clark a tempe­rar sua decisão anterior com boa dose de cautela; às 20h30 convocou ele uma confe­rência em seu Q-G de exército, em Pesto, à qual compareceram o General Dawley e o General Walker, e todos reconheceram que os Aliados se encontravam em condições piores que no dia anterior. Como Clark ob­servou, por pouco escaparam ao desastre naquele dia, e ainda estavam em dificulda­des ao longo de toda a frente. Na confluên­cia dos dois rios, estavam há algum tempo à mercê de Vietinghoff, que vinha reunindo seus efetivos blindados e os lançando contra os Aliados implacavelmente. Agora, tendo sobrevivido àquela ameaça específica, a ca­beça-de-praia ainda era estreita demais e, na verdade, continuava diminuindo, o porto de Salerno ainda lhes era negado e tampouco podiam usar o aeródromo de Montecorvino.

 

Clark verificou que os alemães forceja­vam por dividir em duas partes a cabeça-de­-praia e que não havia planejado para prever esta eventualidade. Ele voltou atrás quanto à decisão tomada no dia anterior e mandou uma mensagem urgente ao Almirante He­witt instando-o a fazer planos para a eventualidade de ter de evacuar o VI Corpo e desembarca-lo no setor do X Corpo da ca­beça-de-praia, e vice-versa, visando a usar o plano que se mostrasse melhor no momento azado. E por mandar preparar tais planos, Clark seria criticado severamente, mais tarde.

 

Durante a noite de 13 para 14 de setem­bro, os exércitos recuaram as defesas para, reagrupando-as, reforçar suas linhas, visan­do, em especial, a fechar a brecha entre os dois corpos. Em alguns lugares, as retiradas foram drásticas e, ao amanhecer, a linha ia da encruzilhada a oeste da fábrica de fumo, passava pelas encostas onde a artilharia de­tivera os tanques, e ao longo da linha mon­tada nos sopés de tais encostas, diante do VI Corpo americano. Mas a tática deu exce­lentes resultados.

 

Como se esperava, os ataques alemães reiniciaram-se na manhã seguinte, bem ce­do, 14 de setembro, com poderosas arremetidas dos tanques e da infantaria. No setor americano, a 45ª Divisão enfrentou outros choques, no local onde as providências to­madas à noite tinham ajudado a fechar a brecha que havia na linha, o que parecia indicar que o comandante alemão sentira, dia anterior, o ponto vulnerável, embora fosse incapaz de lançar os efetivos necessá­rios, em blindados, contra ele para abrir ca­minho até o mar. A 36ª Divisão também sofreu bastante, mas a unidade, embora can­sada, resistiu em suas posições durante todo o dia. O próprio General Clark contribuiu para rechaçar um dos ataques. Após uma conferência, realizada às 07h, com o General ­Dawley, Comandante do VI Corpo, Clark partiu para inspecionar as posições na linha de frente, com seu ajudante, Capitão Warren Thrasher. Em determinado local, ele desceu do jipe em que viajava e galgou uma colina próxima da área avançada, esperan­çoso de encontrar os soldados americanos bem entrincheirados e resistindo. Mas não havia nenhum dos esperados indícios, ape­nas a visão de uns 18 tanques entrando nas linhas americanas. Clark a principio julgou tratar-se de tanques americanos, porém um exame mais acurado, com o auxílio de binó­culos, revelou que eram alemães. Ao que parecia, o inimigo havia descoberto um pon­to fraco nas linhas aliadas, e era provável que os 18 tanques fossem apenas a ponta-­de-lança de um ataque blindado mais pode­roso. Na verdade, Clark achava inconcebí­vel que Kesselring não lançasse poderosa formação blindada contra esse setor e pene­trasse até o mar. Diante de tão alarmante possibilidade, Clark retornou rapidamente às linhas americanas, onde convocou uma unidade antitanques e uma de sapadores. Estas, logo tomaram posição e dispararam pesado fogo de artilharia contra os tanques, obrigando-os a recuar. Clark, mais tarde, expressaria espanto diante do fato de Kes­selring não haver lançado ao ataque força muito maior, optando por, repetidamente, jogar ao ataque os blindados aos bocados, quando, nesta batalha, um golpe vibrado com o grosso dos 600 tanques que tinha em Salerno teria imposto verdadeiro desastre aos Aliados.

 

Com ataques de tanques como este ocor­rendo ao longo da linha, as tropas de terra passaram o dia pedindo o auxílio dos na­vios. O Philadelphia e o Boise dividiram a responsabilidade no setor americano. O pri­meiro deles iniciou o dia atacando vários alvos indicados pelos grupos de controle de terra: tanques, entroncamentos rodoviários, concentrações de tropas e posições de arti­lharia. Por volta de 09 h de 14 de setembro, de já havia disparado 921 salvas de grana­das de 6 pol. Daquele momento até o come­ço da tarde, ele foi substituído pelo Boise, que disparou mais 600 salvas contra 18 al­vos diferentes, sem pausa, inclusive uma concentração de tanques, que sucumbiu ao peso de cerca de 85 salvas de granadas. O Philadelphia retornou à tarde, atirando até as 21h30, quando o Boise tornou a substi­tui-lo, continuando a trabalhar durante toda aquela noite. Quando se localizava movi­mento de tropas do inimigo, os pedidos de fogo eram transmitidos aos navios, e o aten­dimento era inevitável e preciso, o que moti­vava sempre mensagens de agradecimentos e congratulações, transmitidas de terra aos navios. O efeito devastador do esforço da marinha também foi reconhecido pelos sol­dados que sofreram com ele. Após o bom­bardeio de 14 de setembro, Vietinghoff es­creveu: "Nosso ataque esta manhã enfren­tou resistência muito maior; os soldados, no avanço que empreenderam, tiveram de suportar o fogo mais severo que até então haviam experimentado; o grupamento naval que nos atacava se compunha de pelo me­nos 16 a 18 couraçados, cruzadores e gran­des destróieres ancorados no anteporto. Com espantosa precisão e liberdade de ma­nobra, esses navios atiraram contra todos os alvos identificáveis com efeito esmagador"

 

E um historiador alemão, compilando a história da 16ª Divisão Panzer, escreveu, mais tarde: "Sempre que unidades alemãs atacavam, no dia 14 de setembro, era tão intenso o fogo naval e aéreo contra elas dirigido, que não conseguiam mais que su­cessos locais". Outro apoio muito bem rece­bido, embora de efeito menos importante, foi dado pela Força Aérea Tática. A 13 de setembro, Eisenhower mandou que o Mare­chal-do-Ar Tedder apoiasse com o ataque aéreo mais forte possível as atribuladas for­ças que se encontravam em Salerno. Duran­te todo o dia 14 de setembro, levas de "For­talezas", Bostons e Mitchells sobrevoaram a região. Porém, devido à falta de controle de terra, parte do esforço resultou inútil, mas os pontos sensíveis foram determinados com precisão e as tripulações dos aviões os destruíram por completo. Ao todo, os aviões fizeram mais de 700 surtidas, prejudicando seriamente as comunicações dos germâni­cos, permitindo, finalmente, que as tropas de terra aliadas tomassem a iniciativa.

 

Para os comandantes, o dia 14 de setem­bro foi de certa confusão e discordância. Os planos feitos para evacuar metade dos que se encontravam na cabeça-de-praia, transfe­rindo-os para outro setor, tinham sido assen­tados no dia anterior, mas, de modo geral, foram recebidos com desagrado. Hewitt esti­vera diligenciando no sentido de cumprir a ordem e, durante a tarde, pediu ao Comodo­ro Oliver que fosse ao Biscayne. Ali, Oliver lhe falou sobre o plano de retirada. Hewitt, protestando que a medida talvez fosse im­praticável, ou mesmo suicida, disse-lhe que ela custaria aos Aliados todos os suprimen­tos, armas e munição descarregados desde o Dia-"D". Além disso, observou, depois de inteiramente recarregados, os navios mergu­lhariam mais na água, tornando-se impossí­vel retirá-los das praias, chegando mesmo a prever a possibilidade de outra Dunquerque. Oliver, raciocinando também realisticamen­te sobre os problemas do exército, admitiu que, se fosse bipartida a força ocupante da cabeça-de-praia e evacuada uma de suas partes, os tanques e artilharia alemães pode­riam aproximar-se e bombardeá-los de am­bos os flancos. Suas objeções, contudo, não sensibilizaram Hewitt, que o mandou pros­seguir com o planejamento segundo o pedi­do de Clark. Oliver retornou obedientemente ao seu navio Q-G e esboçou o pedido ao seu Estado-Maior, mas o órgão, por não ver com muito bons olhos a idéia, não fez abso­lutamente nada a respeito. Oliver também entrou em contato com o Comandante do X Corpo, General McCreery, que ficou furio­so não só por não ter sido consultado sobre a idéia da evacuação, como também por considerá-lo um plano ruim e deixou clara a intenção de não executá-lo.

 

O Almirante Hewitt adotou uma opinião muito mais positiva sobre a proposta e en­trou em contato com Cunningham, Almi­rante da Esquadra, transmitindo-lhe a se­guinte mensagem: "Os alemães criaram um saliente perigosamente próximo da praia. A situação continua insatisfatória. Estou pla­nejando usar todos os barcos disponíveis para transferir tropas das praias sul para as norte, ou o inverso, se necessário.

 

A descarga de navios mercantes na seção sul foi suspensa. Precisamos seja feito vio­lento bombardeio aéreo e naval atrás das posições inimigas, usando couraçados ou outros grandes navios da marinha. Esses na­vios estão disponíveis?"

 

Cunningham atendeu imediatamente ao apelo, enviando três cruzadores leves de Bi­zerta para Trípoli, a fim de embarcar mais tropas e levá-las para Salerno. Os couraça­dos Valiant e Warspite foram despachados de Malta, naquela noite, com uma escolta de seis destróieres, e Cunningham comunicou que enviara os couraçados Nelson e Rodney para Augusta, e que eles estariam disponí­veis para uso em Salerno, se necessário; uma resposta boa e imediata a um apelo sensato.

 

Porém, infelizmente o General Eisenho­wer recebeu uma cópia truncada do despa­cho de Hewitt a Cunningham, concluindo que Clark e Hewitt planejavam realizar uma evacuação completa da cabeça-de-praia. O que começara com um planejamento de con­tingência, sensato e cauteloso, do General Clark estava-se transformando em algo des­controlado, havendo mesmo consternação sobre o plano no Q-G aliado.

 

Era evidente que Clark ignorava o apare­cimento de tais problemas, o mesmo aconte­cendo com Eisenhower, que, até se inteirar do confuso texto da mensagem, estava satis­feito com a maneira como a batalha se de­senrolava. A 14 de setembro ele enviara  uma mensagem encorajadora a Clark, rece­bida no Q-G do 5° Exército na noite daque­le mesmo dia. "Sabemos que está passando por sérios apertos, mas esteja certo de que todos estão trabalhando com a máxima ra­pidez para lhe mandar os reforços de que necessita... Entrementes, não se esqueça que temos uma Força Aérea por demais an­siosa por participar plenamente em seu apoio. Espero que sua linha de bombardeio seja traçada com a máxima precisão ao lon­go da sua frente, de modo que nossa Força Aérea possa continuar destruindo as forças que tentam concentrar-se contra você. Tem sido magnífico o trabalho que vêm realizan­do você e sua gente. Estamos todos muito orgulhosos e, como o sucesso de toda a ope­ração depende de você e de suas forças, podem ficar tranqüilos de que nada será esquecido para lhe dar toda a assistência possível".

 

Clark lembra em suas "Memórias": "É difícil, hoje, descrever como foi importante, naquele momento, receber tal mensagem e saber que podíamos contar com o apoio de tudo quanto Ike pudesse lançar na batalha. Estávamos em aperturas, mas, nessas condi­ções, as forças aliadas não podiam permitir que diferenças de opinião prejudicassem a mais completa cooperação de todos".

 

Pelo anoitecer de 14 de setembro, as pres­sões das últimas 48 horas pareciam haver diminuído. A artilharia, o fogo naval e os ataques aéreos haviam neutralizado o esfor­ço alemão, destruindo as comunicações e o equipamento da tropa germânica. As tropas invasoras haviam, em geral, resistido. Casos isolados de quebra de moral eram inevitá­veis, na confusão que se estabeleceu, mas, no conjunto, todos se portaram bem. O pro­prio General Clark, em sua visita de inspe­ção à cabeça-de-praia, encontrou uma filei­ra de caminhões recuando de frente, com todos os motoristas usando máscaras contra gases. Quando ele perguntou a razão para o fato, um motorista resmungou "Gás", e apontou com o polegar na direção da linha de frente. Clark perguntou-lhe quem lhe fa­lara sobre gás, mas o motorista não soube responder. Descobriu-se que não havia gás; tudo não passava de alarma falso e Clark ordenou aos motoristas que retirassem as máscaras. Em geral, quando o moral parecia abater-se, sempre havia um oficial ou solda­do que, pelo exemplo ou pela persuasão, restaurava a ordem. No fim do dia, Clark começou "a sentir que sairíamos do buraco onde caíramos."

 

A situação melhorou ainda mais durante a noite de 14 para 15 de setembro, quando os reforços começaram a chegar, por mar e pelo ar. Os soldados aeroterrestres perten­ciam ao 509º Batalhão de Pára-Quedistas, sob o comando do Tenente-Coronel Doyle R. Yardley, que desembarcou a 30 km atrás das linhas alemãs, perto de Avellino. Sua missão seria atacar as comunicações ale­mãs, mas infelizmente eles sofreram pesadas baixas nos primeiros estágios. Ademais, as forças invasoras estavam impossibilitadas de avançar para se juntarem a eles, e Clark foi criticado por ter ordenado o desembar­que em tais circunstâncias. Ao contrário do salto realizado na cabeça-de-praia propria­mente dita, este salto em Avellino não fora nada preciso, e quando os defensores ale­mães souberam que as tropas haviam de­sembarcado, aproximaram-se rapidamente para atacar os americanos. Alguns pára­quedistas foram ceifados com fogo de me­tralhadora antes mesmo de tocarem o solo. Outros foram aprisionados, muitas vezes de­pois de furioso corpo-a-corpo. Os que so­breviveram, reuniram-se em pequenos gru­pos, ocultaram-se nas colinas e realizaram operações hostilizadoras contra as linhas alemãs. No todo, a operação fracassou, por causa da dispersão do batalhão e por não ter ele podido juntar-se às tropas de terra; apesar disso, depois de uns dois meses de atividade guerrilheira, cerca de 80 por cento do pessoal que o integrava conseguiram jun­tar-se às forças americanas.

 

Na manhã de 15 de setembro, o General Alexander chegou de Bizerta, num destróier, acompanhado do Vice-Marechal-do-Ar, Sir Arthur Coningham. Depois de rápida refei­ção feita no Q-G de Clark, saíram em inspe­ção à cabeça-de-praia, transferindo-se de um setor para outro numa torpedeira. Tendo consultado os comandantes naval e do exér­cito, Alexander chegou à conclusão de que a drástica medida que se encontrava em estu­dos, ou seja, a retirada das tropas de um setor da cabeça-de-praia para o outro era inviável, e vetou a idéia. Outra questão im­portante que discutiram foi a preocupação de Clark sobre a liderança do VI Corpo. Clark há algum tempo estava preocupado com o desempenho do General Dawley, e trouxera Ridgway para colocá-lo como seu assistente, a fim de, como o próprio Clark disse, "dar-lhe a máxima ajuda possível".

 

Alexander concordou em que uma mu­dança seria do maior interesse de todos os envolvidos na campanha, e concordou em indicar o General-de-Divisão John P. Lucas para substituir Dawley. Eisenhower aprovou a proposta, depois de visitar a cabeça-de-­praia, a 17 de setembro, e a mudança foi feita alguns dias depois.

 

Fora o problema de liderança, o moral do 10º Exército demonstrava estar melho­rando. Naquela noite, Alexander enviou um comunicado a Eisenhower, dizendo que, em­bora não estivesse inteiramente satisfeito, a situação era melhor do que 24 horas antes, e que, embora estivessem cansados, os solda­dos estavam animados. Ele também pediu que ficasse registrada a gratidão do exército para com a marinha e força aérea pela ajuda por elas prestada.

 

Entre as muitas mensagens que cruzaram a Itália naquele dia, houve uma de Montgo­mery a Clark, na qual ele sugeria: "... talvez você pudesse fazer um reconhecimen­to ao longo da estrada de Agropoli, para se encontrar com o pessoal que despachei para aí e que já partiu de Sapri... Parece-me que você não está passando por bons mo­mentos. Espero, entretanto, que tudo corra bem. Estamos indo em sua ajuda e será um grande dia quando realmente nos reunir­mos".

 

A mensagem não poderia dar muita satis­fação a Clark, cujas tropas quase tinham sido repelidas para o mar enquanto aguar­davam que o 8º Exército subisse a Itália para travar contato com eles, mas Clark estava suficientemente feliz com a melhoria da situação para limitar sua resposta, um tanto sarcastica, a duas frases apenas: "Será um prazer revê-lo breve. A situação aqui está sob controle".

 

Em terra, foi sobre a 46ª Divisão que se abateu com violência o peso da batalha de 15 de setembro. Embora não tivesse a inten­sidade dos verificados dois dias antes, os ataques alemães continuavam a sondar pon­tos fracos nas linhas aliadas. Para Vieting­hoff, o dia foi de muita ponderação e an­siedade. Ele modificou o posicionamento de algumas tropas, notadamente o grupamento de tanques da Divisão Hermann Göring, que deslocou de Cava para o sul, para as montanhas de onde os alemães dominavam todo o setor britânico da cabeça-de-praia. A 3ª Divisão Panzergrenadier recebeu ordens de manter contato cerrado, enquanto que a 16ª Divisão Panzer deveria preparar-se para novo contra-ataque, na noite de 15 para 16 de setembro. Contudo, a 16ª Divisão Pan­zer, como acontecia com outras unidades que se encontravam na linha, vinha sendo alvo do bombardeio aliado. As belonaves Valiant e Warspite já haviam chegado e, ao entardecer de 15 de setembro, o Warspite acrescentara o peso das suas granadas de 15 pol. ao bombardeio. Vinte e nove salvas dis­paradas contra alvos em torno de Altavilla, antes que ele e o Valiant se retirassem até o dia seguinte, somadas ao bombardeio feito pelo Boise e o Philadelphia contra a cidade de Altavilla propriamente dita, levaram o comando naval alemão a registrar o seguinte em seu diário de guerra: "o ataque teve de parar, para reorganização, devido ao pesado bombardeio naval inimigo e aos continuos ataques aéreos", e "o efeito do bombardeio dos grandes navios e o domínio quase com­pleto do ar... pela força aérea inimiga, causaram-nos terríveis baixas"

 

Quando a 16ª Divisão Panzer conseguiu reorganizar-se e reiniciar o ataque, na ma­nhã seguinte (16 de setembro), a luta foi tão violenta quanto as verificadas nas demais batalhas, dando a impressão de que os de­fensores realizavam um último e desespera­do gesto de resistência. O 9º Regimento Panzergrenadier e a 16ª Divisão Panzer lançaram seu ataque na região de Battipa­glia, contra unidades da 56ª Divisão, mas foram rechaçados pelo poderio do fogo dos Aliados. Segundo seus próprios registros, os britânicos, vez por outra, usavam artilharia contra soldados, e quando qualquer veículo era avistado, os caças, avisados, corriam-lhe ao encontro, para eliminá-lo. Os alemães conseguiram, no entanto, varar a espessa cortina de fogo que tinham pela frente e, ao faze-lo, pegaram-se num violento corpo-a­-corpo com os britânicos, que acabaram ex­pulsos em várias posições. Tudo indicava, entretanto, que a linha dos Aliados resisti­ria. Eles estavam muito bem entrincheirados para serem repelidos de volta ao mar, e quanto mais violentamente os alemães tenta­vam contra-atacar, mais forte era a respos­ta: dos navios, dos aviões em patrulha e da artilharia em terra.

 

Foi nesse dia, 16 de setembro, que Vieting­hoff cedeu e pediu permissão para recuar, informando: "Os ataques (que haviam sido com tanto entusiasmo preparados, sobretu­do pelo XIV Corpo) não conseguiram al­cançar os objetivos visados, devido ao fogo dos canhões navais, à atividade dos aviões inimigos e aos problemas criados com a len­ta mas ininterrupta aproximação do 8º Exército Britânico". Segundo ele, impunha­-se a necessidade de se deslocarem para boas posições defensivas. Kesselring concordou, e mais tarde registrou. "...a fim de escapar ao bombardeio eficiente das belonaves, autorizei a interrupção do combate na frente costeira."

 

Foi sem dúvida devido ao reconhecimen­to da importantíssima influência das unida­des da marinha sobre o curso da batalha que a Luftwaffe concentrou seus ataques contra elas. No começo da tarde de 16 de setembro, cinco FW 190 lançaram-se contra os barcos aliados, com as temíveis bombas­planadoras, que tantos danos já haviam causado. Duas erraram o alvo por pouco, mas uma delas acertou em cheio o Warspite, enetrando nele até a sala das caldeiras e explodindo. O navio tremeu de ponta a ponta e começou a fazer água, deixando em todos que o tripulavam a certeza de que, por si mesmo, não teria o barco força para ir muito longe, tendo de ser rebocado pelos dois rebocadores americanos, Hopi e More­no. Com uma escolta de cinco destróieres e três cruzadores, foi ele arrastado lentamente para Malta, aonde chegou no dia 19. Depois de reparado, o Warspite voltou ao serviço ativo, mas não na operação de Salerno.

 

Também nesse dia, Clark reconheceu que fora superado o risco de ser expulso da ca­beça-de-praia. O relatório que radiografica­mente enviou a Eisenhower, expondo a si­tuação, exsudava confiança: "Já estamos em boas, condições. Esta manhã recupera­mos o saliente entre o rio Sele e o Calore. Estou reforçando as tropas de Darby. Como de hábito, Darby fez excelente trabalho e estou pronto para atacar Nápoles. Comete­mos erros e aprendemos através do método mais dificil, mas melhoraremos cada dia mais e, estou certo, não o desapontaremos".

 

Sua opinião foi confirmada, por volta das 14h, por um acontecimento importantíssimo verificado no flanco direito da cabeça-de-­praia. Naquele dia, os soldados das forças aliadas haviam percebido indícios de que os alemães estavam em retirada. Patrulhas de pára-quedistas americanos puderam avançar até Roccadaspide, 13 km a leste de Pesto. Outras patrulhas, abrindo para sudeste, al­cançaram uma pequena aldeia, chamada Vallo, situada a cerca de 24 km de Agropo­li, entrando em contato com os elementos avançados do 8º Exército, de Montgomery, que rumava para o norte. O fato, grandemente ansiado pelos Aliados, eliminava de uma vez por todas a possibilidade de ser a força de invasão jogada de volta para o mar.

 

Outra indicação de que as perspectivas sugeriam apenas confiança é que Clark, pela primeira vez durante toda a invasão, iria divulgar a lista de baixas. Em oito dias de luta, o X Corpo britânico tivera 531 mortos, 1.915 feridos e 1.561 desaparecidos. O VI Corpo americano, que tinha aproximada­mente a metade do contingente britânico en­volvido na batalha, sofrera 1.649 baixas: 225 mortos, 835 feridos e 589 desapareci­dos. Clark, mais tarde, declarou que a maio­ria dos que foram relacionados como desaparecidos, naquele momento da guerra, pos­teriormente reapareceram sãos e salvos.

 

O avanço para o Volturno

 

"Kesselring era um mestre da tática de retardamento", comentou Clark ao escrever sobre a retirada alemã e o avanço aliado que a ela se seguiu. A ordem para que os ale­mães se deslocassem das posições defensi­vas em torno da cabeça-de-praia de Salerno havia chegado à tarde e, durante a noite, eles começaram a cumpri-la, deixando ele­mentos de retaguarda para cobrir a retirada. O plano previa um recuo organizado, com a linha alemã pivoteando para a direita. A tropa recuaria para a linha do Volturno, que não deveria ser abandonada antes de 15 de outubro, por ordem expressa de Kesseiring.

 

Ao mesmo tempo, o plano aliado estabe­lecia que seu flanco esquerdo girasse, para endireitar a linha, pois o avanço Itália aci­ma dos americanos deveria ser feito parale­lamente com o 8° Exército. Mas, logo no começo ficou claro que o avanço exigiria muito tempo e provavelmente haveria mui­tas baixas. Ainda havia muita região monta­nhosa entre o Golfo de Salerno e Nápoles, e nesse terreno, ideal para os alemães se de­fenderem, eles colocaram de maneira tal a artilharia, que um só canhão de 88 mm podia cobrir todo um vale e deter o avanço aliado durante horas, até que o liquidassem. As retaguardas alemãs, muitas vezes forma­das de soldados montados em motocicletas, instalavam postos de metralhadoras nas co­linas e colocavam fuzileiros em terreno mais alto, acima deles, tática que obrigou ameri­canos e britânicos a fazer manobras milita­res demoradas e dispendiosas antes de reali­zar qualquer avanço significativo. A con­quista de cada trecho da encosta, toda ela muito bem defendida, era um teste rigoroso para os Aliados. Os soldados alemães utili­zavam com habilidade as minas e destruíam sistematicamente as pontes durante a retira­da. Até mesmo o tempo ajudou os alemães: fortes chuvas caíam sobre o campo de batalha, transformando-o num atoleiro que deti­nha os caminhões e obrigava os soldados aliados a levar nas costas ou em lombo de muar os suprimentos.

 

Devido à ação decidida das tropas de re­taguarda, os Aliados demoraram muito a perceber que o grosso das forças alemãs es­tava recuando, sobretudo no setor britânico. Ao sul de Battipaglia, um regimento da 16ª Divisão Panzer na realidade continuava ata­cando e, com apoio de artilharia, impôs sé­rias baixas a uma companhia dos Scots Guards. Então, no dia seguinte, 18 de se­tembro, a mesma companhia de Guardas enviou uma patrulha, recomendando-lhe cautela, à fábrica de fumo de Battipaglia, mas a patrulha, percebendo o estranho silên­cio que a envolvia, informou que ela parecia abandonada. Durante a tarde, a patrulha continuou progredindo, avançando com crescente confiança à medida que descobria que o procedimento dos alemães durante os nove últimos dias, retrucando forte diante dos ataques e contra-ataques dos Aliados, havia sido substituído pelo silêncio. Tudo era desolação, característica do terreno por onde a guerra acabara de passar; veículos queimados, armas abandonadas e corpos de ambos os contendores jaziam imóveis, às vezes muito queimados.

 

No dia seguinte, a confiança dos britâni­cos cresceu, a ponto de McCreery pensar em planos para se deslocar rumo a Nápoles. Reforços importantes estavam chegando: mal chegou a 3ª Divisão, do General Lucian R. Truscott, partiu diretamente para a linha de frente. A Brigada de Guardas era retirada da região agora calma de Battipaglia, indo para o norte, para a área de Salerno, onde a luta ainda era violenta. Ela logo foi atacada por um grupo de uns 30 soldados alemães e teve de ceder terreno, retomando horas depois as posições que havia abando­nado, numa colina que dominava o Golfo de Salerno.

 

No dia 20 de setembro, 11 dias após o Dia-"D", é que a batalha de Salerno foi considerada vencida e perdida. Winston Churchill enviou mensagens de congratula­ções a várias pessoas. Para Mark Clark, ele disse: "Queira aceitar meus sinceros cum­primentos pela batalha difícil mas brilhante­mente conduzida por V.Sa. nas praias de Sa­lerno, na qual soldados britânicos e ameri­canos derramaram juntos muito sangue. De­sejo-lhe sucessos". O General Eisenhower também recebeu uma carta: "Como o Du­que de Wellington disse sobre a Batalha de Waterloo, escapamos por um triz, mas sua política de correr riscos foi bem justificada".

 

Na euforia que se generalizou, o General McCreery também tomou da pena e divul­gou uma ordem do dia a seu X Corpo: "Após 10 dias de luta intensa, o X Corpo obrigou o inimigo a cair na defensiva e, à nossa direita, ele está em franca retirada. O objetivo do inimigo era jogar-nos de volta às praias. Para este fim, concentrou contra nós a 16ª Divisão Panzer e elementos de quatro outras divisões. Ele fracassou, graças à co­ragem, à resistência e ao espírito de luta de todos vocês, que lhe infligiram enormes bai­xas e o obrigaram a perder muito equipa­mento. Passaremos agora à ofensiva, junta­mente com as tropas de assalto americanas, à nossa esquerda, que têm hostilizado o ini­migo continuamente em toda a região mon­tanhosa. Uma vez que o inimigo bate em retirada, continuaremos a mantê-lo assim. Desejo expressar minha agradecida admira­ção a todos os oficiais e soldados do X Corpo, pela coragem e eficiência com que se bateram durante toda essa operação, em ter­reno muito variável e difícil".

 

Ainda assim, o grande objetivo da "Ope­ração Avalancha", o porto de Nápoles, con­tinuava em mãos inimigas. Era intenção de Kesselring fortificar uma linha através de Mignano, cerca de 80 km ao norte de Ná­poles, para uma defesa vigorosa, enquanto Vietinghoff atrasava o avanço dos Aliados com sua retirada em combate. A linha atra­vés de Cassino, a uns 20 km ao norte da linha de Mignano, oferecia possibilidades ainda melhores de defesa e Kesseiring estava convencido de que, com a concordância de Hitler, e usando essas linhas defensivas al­ternadamente, poderia muito bem deter os Aliados ao sul de Roma.

 

Para reter os Aliados enquanto preparava o sistema defensivo que tinha em mira, Vie­tinghoff desenvolveu seu XIV Corpo Panzer na costa oeste e o LXXVI Corpo Panzer na costa leste, visando a isolar toda a península com uma frente contínua.

 

Nos últimos dias de setembro, Clark ini­ciou seu avanço para Nápoles, com o objeti­vo de tomar, de passagem, o porto da cida­de e fazer uma varredura até a linha do rio Volturno, para dotar a zona portuária de proteção contra possíveis reações alemãs. A 20 de setembro, o VI Corpo, agora comandado pelo General Lucas, saiu do flanco direito da cabeça-de-praia com a intenção de, metendo um gancho pela direita, fazer o flanqueio de Nápoles e atingir o Volturno acima de Cápua. Contudo, no terreno incri­velmente acidentado, com a retaguarda ale­mã em grande atividade e a chuva de outo­no caindo torrencialmente, o que tornava difícil o deslocamento da tropa, ele avançou muito lentamente na direção do rio, ao en­contro do alvo que pretendia atingir. Três dias após a saída do VI Corpo, o X Corpo também se pôs em marcha, para tomar as duas gargantas que varavam as colinas além de Salerno. O progresso feito por este grupa­mento foi também reduzido, obrigando Clark a reforçar as tropas de assalto ameri­canas em Chiunzi, colocando a 82ª Divisão Aeroterrestre sob o comando de McCreery. Com esses reforços, as tropas de assalto ata­caram novamente a 28 de setembro e, desta vez, conseguiram passar pelas gargantas e entrar na planície de Nápoles, enquanto o resto do X Corpo se deslocava para o norte, paralelamente com a 7ª Divisão Blindada, que rodeava o Vesúvio, tendo a 56ª Divisão em seu flanco direito.

 

Às 09h30 de 1º de outubro, os primeiros elementos britânicos, homens dos Dragões-­Guardas do Rei (King's Dragoon Guards), penetraram nos arredores da cidade de Ná­poles. Nesse dia, o próprio Clark aproxi­mou-se da frente e, ao constatar que seus soldados haviam entrado na cidade, embar­cou num carro blindado, com o General Ridgway, e, com uma escolta da 82ª Divi­são Aeroterrestre, entrou também na cidade. A jornada não teve nada de triunfal. Como Clark escreveu: "Eu tinha a impressão de estar percorrendo as ruas fantasmagóricas de uma cidade de fantasmas".

 

Não havia nas ruas absolutamente nin­guém, isto é, nenhum civil, apenas uns pou­cos carabinieri. Os homens da 82ª Divisão Aeroterrestre estavam entregues a trabalhos típicos de policiais, embora não houvesse sobre quem exercer a autoridade policial. Clark é Ridgway foram até a Praça Garibal­di. Tudo continuava deserto, mas Clark lo­go percebeu que olhos os espreitavam por trás dos postigos de quase todos os prédios: "Eu tinha a impressão de que era visto por milhões de pessoas, embora não houvesse encontrado nenhum civil durante toda a via­gem. Era uma sensação estranha".

 

Não é de espantar que os civis se manti­vessem afastados. A cidade se encontrava em ruínas, pois os alemães haviam realizado com a habitual minúcia o trabalho de des­truição das instalações portuárias e de gran­de parte das edificações da cidade. Numero­síssimos prédios foram consumidos pelas chamas, que tiveram a alimentá-las o mobi­liário das casas e até mesmo os arquivos da cidade. O pandemônio, na zona portuária, era total, pois além da pulverização, pelo fogo, dos prédios e armazéns nela existentes, os alemães haviam bloqueado os acessos aos cais, afundado navios na baía, derruba­do guindastes e jogado caminhões nágua e até mesmo descarrilado locomotivas nas do­cas. Poluíram a água fornecida à cidade, o abastecimento de eletricidade entrou em co­lapso, a rede de esgotos foi arrebentada, o que exigiu do pessoal de reparo dos Aliados exaustivo esforço no sentido de repará-la com a rapidez possível, para evitar epide­mias. Numa demonstração do ânimo dos alemães contra a população italiana, eles fi­zeram questão de destruir as fábricas de espaguete, por saberem da importância de tais fábricas para a população. As comuni­cações eram extremamente ruins: o sistema ferroviário fora quase que totalmente des­truído e as estradas e linhas férreas que con­duziam à cidade tinham sido bloqueadas por explosivos colocados nos túneis abertos nas colinas circundantes. O aeroporto, como era de esperar, estava intensamente minado e até que fossem retiradas as minas, perma­neceu fechado, o que obrigou Clark, em suas freqüentes visitas à cidade, a fazer pou­so no Boulevard Carragiola, situado à beira da Baía de Nápoles.

 

Armadilhas e espoletas de retardamento complicavam os trabalhos de recuperação. No Parker's Hotel, um dos poucos prédios que não foram incendiados, a marinha ame­ricana instalara um Q-G; oculto nas paredes da adega do hotel, os engenheiros descobri­ram, a tempo de serem salvas muitas vidas, um dispositivo preparado para fazer explo­dir o prédio. Então, no primeiro domingo que os Aliados passavam em Nápoles, no momento em que Clark, McCreery, seus Es­tados-Maiores e centenas de soldados esta­vam saindo da catedral da cidade, após uma missa de ação de graças pelo êxito da campanha, uma bomba-relógio explodiu no quartel da artilharia, ocupado pelo Batalhão de Sapadores da 82ª Divisão Aeroterrestre. A explosão destruiu uma extremidade do prédio, que ficava no coração da cidade, ferindo ou matando numerosos combatentes que ali se encontravam. O próprio Clark e vários dos seus oficiais correram para o lo­cal e ajudaram a remover corpos de sob os escombros. Mais tarde, no dia 7 de outubro, uma bomba explodiu na agência central dos correios, quando o prédio estava repleto de civis. Este e muitos outros incidentes seme­lhantes causaram muitas mortes.

 

Contudo, apesar da gravidade do pro­blema, a equipe de salvamento, integrada sobretudo por sapadores, começou a pôr sob controle a situação. A operação era diri­gida pelo Comodoro William A. Sullivan, da marinha americana, auxiliado pelo co­mando do porto naval britânico, sob o Con­tra-Almirante John A. V. Morse, juntamente com alguns engenheiros britânicos e equipes americanas de bombeiros. Os incêndios fo­ram dominados, água foi bombeada de fon­tes não poluídas e os escombros, removidos do caminho. Os grupos de recuperação nem sequer se incomodaram em retirar os navios maiores afundados da baía: simplesmente os cobriram, transformando-os em trapiches. A 3 de outubro as saídas das docas já estavam desimpedidas e no dia seguinte o primeiro atracadouro para um Liberty ship (navio de construção rápida, de placas de cimento) já estava pronto. Atracadouros novos eram inaugurados todos os dias e, à medida que se restaurava a funcionalidade do porto e que se normalizavam as áreas de retaguar­da, o 5° Exército foi superando os seus obs­táculos e compensando o atraso que os ale­mães pretendiam impor-lhe. Em poucos dias, 20.000 toneladas de suprimentos começaram a passar diariamente pelo porto de Nápoles, para os depósitos. Pelo final de outubro, 155.000 toneladas de suprimentos e 37.000 veículos haviam sido desembar­cados.

 

Enquanto se recuperava o porto, os dois Corpos do exército de Clark continuavam avançando para o Volturno, com a partici­pação de 100.000 homens. Infelizmente,        com o passar do outono, as condições do tempo pioraram, fazendo que se evaporasse todo o regozijo oriundo do êxito alcançado na dificil invasão de Salerno. Ventos frios e tempestuosos submetiam a tropa a duro cas­tigo. Estabelecendo-se tão grandes dificulda­des nas comunicações, não chegaram aos soldados as mochilas com as roupas de frio, de modo que, com roupas de verão, em meio a tanto frio, o suplício era enorme. Formou-se um lamaçal em que mergulha­vam homens e máquinas. Uma divisão in­formou que tinha somente oito jipes ainda em condições de se moverem, porque todos os demais veículos a ela pertencentes ha­viam atolado até os eixos. E os alemães, embora em retirada, não davam trégua aos que pretendiam mantê-los sob pressão, atacando-os sempre com artilharia. Naqueles primeiros dias de outubro, estando os exér­citos alemães tomando as mais estratégicas posições no terreno montanhoso ao norte do Volturno, e com os Aliados tendo que per­correr, para alcançar o rio, uma planura praticamente sem qualquer proteção, as perspectivas eram realmente sombrias.

 

Apesar disso, os Aliados podiam agora lembrar a invasão de Salerno com satisfa­ção. O primeiro grande ataque anfibio con­tra a Europa dominada pelo Eixo fora reali­zado com êxito, apesar da desesperada pressão exercida pelos defensores. Conside­rando-se os riscos da operação, não foi, afi­nal, muito alto o preço cobrado pela vitória conquistada. O número total de mortes, en­tre britânicos e americanos do exército e da marinha. foi de 2.349 homens. Outros 7.366 ficaram feridos, e os desaparecidos chega­ram a 4.099, muitos dos quais foram mais tarde encontrados em campos de prisionei­ros de guerra.

 

Os alemães, por outro lado, tinham por consolo o fato de se haverem batido com muita determinação. Embora não conseguis­sem impedir a invasão (o que poderiam ter feito, se Hitler tivesse mandado as tropas de Rommel para o sul, a fim de se juntarem às de Kesselring), eles, ainda assim, não permi­tiram ao 5° Exército a captura rápida de Nápoles, tinham recuado em boa ordem da Itália Meridional e não consentiram que os Aliados se beneficiassem da rendição da Itá­lia. Como o General Alexander roconheceu: "Os alemães podem afirmar, com certa jus­tiça, que conquistaram, se não uma viitória, pelo menos um sucesso importante sobre os Aliados".

 

Mas o valor real da "Operação Avalancha" não seria medido em termos de baixas, terreno conquistado ou realizações táticas. De importância muito mais ampla foi, como disse o Almirante Hewitt em seu relatório, o fato de haver ela "assinalado o começo do fim do poderio militar alemão".

 

 

 

 

 

 

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