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"Esperávamos sofrer perdas, porém jamais esquecerei aqueles enormes Liberators caindo como moscas". "Grupos de três e quatro aviões, ou alguns isolados, voavam em diversas direções, deixando rastros de chamas, chocando-se contra o solo, espalhando fragmentos de asas, caudas e fuselagens...". "O que estava contemplando era um espetáculo medonho, digno do Inferno de Dante". A "Operação Macaréu" foi um sucesso caríssimo Ataque de baixo
nível
Os instrumentos que a
Alemanha nazista usava na tentativa de conquistar o domínio do mundo só
podiam operar com eficiência enquanto pudessem contar com o necessário
suprimento de óleo combustível. No mar, ele era empregado para movimentar as
turbinas dos seus vasos de superficie e os motores diesel dos submarinos - em
terra, uma Wehrmacht altamente mecanizada tendo como ponta-de-lança os
velozes Panzers, que despendiam óleo e gasolina em copiosas quantidades,
enquanto que, no ar, os aviões da Luftwafe abriam caminho para as forças de
terra no clássico padrão da Blitzkrieg, ou arrasavam as cidades daquelas
nações ludibriadas e sem condição de tentar frustrar a ambição alemã e, para
isso, os aparelhos tinham de ser abastecidos com gasolina de aviação. Quase toda a quantidade de
petróleo necessário para acionar a máquina de guerra alemã provinha da
Romênia. Transportado por vagões-tanques ferroviários ou bombeado por
oleodutos, o petróleo bruto fluía para o centro de refinação de Ploesti,
situado num tributário do Danúbio e bem servido de estradas e ferrovias. Ali,
após um processamento convertia-se em gasolina, lubrificante e os outros
derivados essenciais à indústria moderna; mas também ali ele se tornava mais
vulnerável a ataques. Em grande parte, a Romênia
tinha seus recursos naturais financiados por capital estrangeiro, sendo que a
Alemanha se tornara grande investidor no seu crescimento industrial, na
condição de maior comprador do seu petróleo entre as duas guerras. Estes dois
países aproximaram-se mais um do outro nos anos que precederam 1939, embora,
no tocante aos romenos, o interesse maior visava a situação econômica e não
os objetivos políticos da outra nação. O mês de setembro de 1940 viu as
tropas alemães ocupar quase toda a Romênia, com o fito ostensivo de proteger
seus campos petrolíferos, e, pouco depois, talvez para minimizar o drama de
ter sido virtualmente invadida, aquele país aliou-se às potências do Eixo,
compartilhando da sua sorte. Os britânicos já haviam
decidido que os depósitos que supriam de óleo à Alemanha eram um alvo
relativamente fácil e compensador para um ataque aéreo; portanto, o que
visavam eram aquelas instalações que produziam óleo sintético e estavam
situadas dentro da própria Alemanha. As refinarias de Ploesti já em novembro
de 1940 estavam sendo visadas como objetivos e houve propostas no sentido de
instalar bases na Grécia para uso da RAF, mas foram obstadas pelas
considerações diplomáticas dominantes na época, que superavam a conveniência
tática, e quando estas deixaram de ser obstáculo ao empreendimento, a
Wehrmacht já atravessara a Iugoslávia e a Grécia; a RAF ficou então sem
aeródromos situados em locais com distância suficiente do alvo para o raio
de ação dos aparelhos de que dispunha no momento. O bombardeiro americano
B-24 (conhecido como Liberator quando em serviço na RAF) tinha o raio de
ação operacional necessário para realizar um ataque às bases do Oriente Médio.
Infeizhiente, a RAF não podia contar com o número suficiente desse tipo de
bombardeiro no teatro de guerra do Mediterrâneo para desfechar ataque eficaz
contra Ploesti. Assim, o plano ficou temporariamente suspenso, aguardando a
chegada ao Egito dos B-24 com tripulações americanas, desviados da China. A
12 de junho de 1942, 13 desses aviões levantaram vôo do aeródromo de
Habbaniyeh, no Iraque, e atacaram as refinarias, causando poucos danos
concretos, mas mostrando - para ambos os adversários - que os Aliados agora
possuíam um bombardeiro capaz de fazer a viagem de ida e volta. Supõe-se que
os alemães, como resultado desse ataque, providenciaram, de imediato, o
reforço das suas defesas naquela área. Portanto, embora os
estrategistas aliados pensassem constantemente em desfechar ataque decisivo a
Ploesti, somente a 19 de agosto de 1943 é que uma grande força de
bombardeiros B-24, reunida das 8ª e 9ª Forças Aéreas do Exército dos Estados
Unidos, decolou de bases da África do Norte para o longo vôo até a Romênia.
Nesse estádio da guerra, os alemães já haviam sido expulsos da Cirenaica para
oeste pelos britânicos e os aviões destinados ao ataque a Ploesti foram
concentrados nos cinco aeródromos situados nos arredores de Bengási. O
codinome para a operação foi mudado três vezes. Primeiramente, era
"Statesman" (Estadista), mais tarde passou a ser
"Soapsuds" (Espuma de Sabão), e finalmente, talvez na esperança
de um ataque de resultados esmagadores, "Tidaiwave" (Macaréu). O "Tidalwave"
devia ser um ataque de precisão, teoricamente do mesmo tipo do desfechado
pela RAF contra três represas do Ruhr, em maio de 1943, e que alcançara boa
dose de êxito. Mas aquela operação fora realizada por um esquadrão formado e
treinado para lançar as minas especiais desenhadas por Barne Wallis segundo
exigências precisas, ao passo que o ataque a Ploesti deveria ser feito por
grupos de combate normais da Força Aérea Americana, sendo que um deles
acabara de chegar dos Estados Unidos. Não obstante, quando da
realização do ataque, já se alcançara elevado grau de treinamento
especializado. As tripulações receberam uma avaliação feita pelo Serviço de
Inteligência sobre as defesas que encontrariam no alvo e que, em conclusão,
revelarase incorreta, mas seu amplo treinamento pré-ataque foi extremamente
minucioso e cada tripulação conhecia seu alvo e havia praticado manobras para
o ataque até que elas ações se tornassem automáticas. À medida que as
tripulações se apresentavam mais práticas e eficientes, aumentava, também, sua
autoconfiança; foram treinadas ao máximo e estavam ansiosas por aplicar as
técnicas de baixo nível aprendidas até então. O fato de as operações não
saírem segundo a expectativa é fato corriqueiro em tempo de guerra. Aquele
grande imponderável, o tempo, e um erro infeliz de navegação, bem como a
ferocidade das defesas, combinaram-se para prejudicar o cuidadoso planejamento
do ataque. Só não foi afetada pelas circunstâncias adversas, a determinação
das tripulações aéreas em realizar o ataque, e as fotografias tiradas
durante a incursão comprovam o vôo bem baixo dos pilotos, com os aviões
sobre o alvo, a despeito do fogo intenso vindo de terra; e é preciso muita
coragem para pilotar um bombardeiro obsoleto, relativamente lento a apenas
100 m de altura, sobre uma área bem defendida, em plena luz do dia. As
perdas sofridas mostram que os riscos a que estiveram expostos não foram
assim tão insignificantes. Após o ataque, vieram as ponderações - as análises detalhadas dos registros feitos pelas tripulações, das fotografias e dos relatórios enviados por fontes diplomáticas e de Inteligência. Foi o ataque um sucesso? O autor examinou cuidadosamente toda a evidência e apresenta-a para considerações no último capítulo - basta dizer que ele escreveu uma narrativa que desperta curiosidade sobre um ataque aéreo de precisão desde que foi concebido até sua realização final, e se o resultado não satisfez as esperanças dos que o planejaram - a história, mesmo assim, merece ser contada. |
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Ouro Negro O porto líbio de Bengási,
aninhado no Golfo de Sidra, na costa sul do Mediterrâneo e situado a uns
1.000 km a leste de, Trípoli e a 400 km a oeste de Tobruk, mostrava as
marcas de muitos choques violentos ocorridos durante a luta pela conquista
da África do Norte, que abrangera a Cirenaica e o Egito, de ponta a ponta,
em 1940 até 1942. Tropas alemães, italianas, britânicas e da Comunidade das
Nações tinham todas desfrutado de breves períodos de ocupação naquele
processo de avanço e retirada rápidos conhecido localmente como "O
Handicap de Bengási". Porém, desde novembro de
1942, após a vitória do General Montgomery em El Alamein, as forças aliadas
fixaram-se ali; a maré da batalha fluía agora mais para oeste, e os B-24
Liberators quadrimotores da 9ª Força Aérea do exército americano foram
descansar nos aeródromos do deserto do sul da cidade. Então, no domingo, dia
14 de agosto de 1942, a calma do amanhecer foi ali rompida quando 178 desses
bombardeiros pesados começaram a aquecer seus motores a fim de decolar para
uma tarefa que incluía um vôo de ida e volta de 4.300 km e atacar seu
objetivo de uma altitude inferior a 100 m. Jamais fora tentada uma missão de
tal magnitude e dificuldade. Poeira densa agitava-se em
nuvens sufocantes nos cinco aeródromos quando, a intervalos de dois
minutos, os aviões levantavam vôo para se reunirem na linha Bengási-Tocra.
Cada um levava 3.100 galões de gasolina e, com seu suprimento de munição e
bombas, pesava aproximadamente três toneladas. Vários dos aparelhos haviam-se
esforçado laboriosamente para levantar vôo; num deles, o esforço imposto aos
seus motores foi tão grande que teve de voltar logo a seguir, mas devido ao
excesso de poeira existente no ar, o piloto não pôde ver a pista de pouso
para aterrissar novamente e o avião caiu, sobrevivendo no acidente apenas
dois tripulantes. Os 177 bombardeiros B-24 que restaram dirigiram-se,
sobrevoando o mar, para Corfu e, bem mais além, para a cidade petrolífera
romena de Ploesti, deixando para trás a pira fúnebre dos que ali pereceram. As tripulações haviam sido
informadas com detalhes quanto à natureza do objetivo e às defesas inimigas
conhecidas, mas durante o vôo para o norte, muitos ponderavam sobre os
problemas específicos inerentes ao ataque de baixo nível: cabos de balões,
chaminés industriais, o perigo maior de colisões no ar durante as passagens
de bombardeiros devido à esteira provocada pelas hélices, e inclusive no
perigo do fogo das armas portáteis da infantaria. (Felizmente para sua paz de
espírito, eles ignoravam a existência de um exercício que envolvia
bombardeiros em vôo baixo e tropas britânicas que guarneciam as defesas da
baía de Bengási, sugerindo que este último temor era fundado.) Nas instruções
finais, o Major-General Lewis H. Brereton, Comandante da 9ª Força Aérea,
dissera: "As Forças Aéreas Americanas não preçisam de pontas-de-lança
em seus embates com o inimigo, seja na face da terra ou nos céus ... Esta é
uma operação cem por cento da Força Aérea Americana". Mas alguns
membros das tripulações também ouviram uma exortação mais séria do seu
comandante: "Esperamos que nossas perdas não atinjam 50 por cento dos
nossos efetivos, porém mesmo que percamos tudo o que enviarmos conseguindo
destruir o objetivo, terá valido a pena". Naquela armada aérea
apenas cinco homens conheciam alguma coisa da Romênia, para onde todos se
dirigiam. O oficial da Real Força Aérea, que trabalhara com as tripulações
durante o período final do treinamento na África do Norte, comentou: "O
país era desconhecido e, tanto quanto se sabia, podia até ser habitado por
canibais". É de duvidar que o pessoal da RAF estivesse mais
familiarizado com essa terra distante, parte daquela região vaga chamada nos
livros escolares de "Os Balcãs" e, na mente dos britânicos,
parecida com aquele reino de ópera-cômica, a Ruritânia. Em 1938, o Primeiro-Ministro
britânico se referia a um estado europeu mais central, Tchecoslováquia,
como "aquela terra remota da qual sabemos tão pouco". Menos de um
século antes, quando chamado a governar a Romênia, diz-se que o Príncipe
Carol pediu um atlas para verificar se ela realmente existia. Entretanto,
embora encarada ultimamente como obscura, humorística ou até mesmo
assustadora, a Romênia muitas vezes ocupara o palco da política européia no
passado e sua importância no conceito de outras nações aumentou ainda mais
após a descoberta de seu petróleo. O desenvolvimento desses ricos depósitos
explica a razão por que os aviadores de outro continente aproximavam-se dos
seus céus, em agosto de 1943. O petróleo romeno começara
a ser explorado no século XIX, antes que o país alcançasse, sua plena
independência política. Contudo muito antes da sua descoberta, a planicie da
Valáquia, situada ao norte do Danúbio e a oeste do mar Negro, fora objeto da
atenção de vizinhos mais poderosos. Durante a longa batalha pela
independência, muitos preconceitos e ódios internacionais tornaram-se
enraizados e sobreviveram para determinar políticas nas duas guerras mundiais.
Portanto, de certo modo, a ação aliada contra a indústria petrolífera nos
dois conflitos foi determinada por fatores históricos antigos. A Romênia faz parte
daquele vasto tronco terrestre da Europa sudeste que, cercado pelos mares
Adriático, Egeu e Negro, no mapa situa-se abaixo da Hungria. Com uma mistura
de povos (gregos, albaneses, turcos, romenos e eslavos - estes últimos
subdivididos ainda em sérvios, búlgaros e croatas) ela jamais teve harmonia
racial real e não é por acaso que mereceu a expressão francesa la macédoine
com o significado miscelânea ou mistura. Já havia uma aparência de estado
romeno desde o século V a.C., quando membros da tribo Dácia atravessaram o
Danúbio, vindos do sul, e ocuparam Oltenia e Banat. Ameaçada por Roma, a
princípio a Dácia teve poder suficiente para resistir à pressão imperial, mas
acabou por sucumbir ante o poderio dos exércitos de Trajano. As forças de
ocupação construíram uma ponte de pedra sobre o Danúbio e, no Dobruja
ergueram uma muralha desde o Danúbio até o mar Negro - cujos restos ainda são
visíveis. Finalmente, as legiões foram embora, mas os Hunos e os Godos
chegaram e entregaram-se à pilhagem. Os sobreviventes da Dácia Felix, a
província romana, fugiram para as colinas situadas ao norte, onde conservaram
uma espécie de autonomia. Com o recuo da arremetida bárbara, os remanescentes
se dividiram e fundaram duas províncias, Moldávia e Valáquia, que formavam
um ângulo praticamente reto, apoiado na margem norte do Danúbio, com seu
braço (Moldávia) estendendo-se para o norte, desde a extremidade leste da
base (Valáquia). Em breve, porém, os turcos otomanos no Sul tornaram-se
agressivamente hostis, derrotaram os exércitos provincianos e durante três
séculos Moldávia e Valáquia pagaram onerosos tributos ao Sultão. Mesmo não
tendo sido totalmente absorvidas no seu Império, e embora fossem mais tarde
reunidas pelo Príncipe Miguel o Bravo, ainda assim as duas províncias
permaneceram sob a suserania turca. Os morenos descendentes dos
povos da Dácia, famosos pela sua música cigana e pelos coloridos trajes
nativos, enfrentavam, não obstante, vários problemas. Outro vizinho
inamistoso, a Rússia; começou a ameaçar as fronteiras setentrionais e a
Áustria passou a olhar cobiçosa sobre as montanhas. Pelo final do século
XVIII, Catarina a Grande estabeleceu o direito de interferir nas províncias
quando a Turquia (como estado muçulmano) reconheceu a Rússia como protetora
dos cristãos na Moldávia e na Valáquia; quase que simultaneamente, a Áustria
apoderou-se da Bucovina. Então, em 1812, a Rússia apossou-se de 4.400 km2 da
Bessarábia e da Moldávia, o que enfureceu os romenos, criando ressentimento
permanente. Durante todo o seculo XIX,
as grandes potências européias negociaram com os povos balcânicos que,
dominados pela Turquia, esforçavam-se para conseguir sua liberdade, como
num jogo de futebol político. Deram-se alguns passos para a independência
romena no Tratado de Paris, mas Turquia e Austria opuseram-se com veemência
àquele status de soberania total. Em 1861, enquanto a Áustria procurava
resolver o problema dos seus territórios italianos, foi proclamado um estado
da Romênia com sua capital em Bucareste. Dezesseis anos depois, outra guerra
russo-turca deu ao novo estado a oportunidade de que fosse reconhecida sua
independência total e de praticar aquela delicada mistura de blefe e
diplomacia que caracterizou sua política nos setenta anos posteriores.
Afirmando que a vitória dos russos garantiria a independência romena e que outras
potências jamais permitiriam que o Czar dominasse o país, o Príncipe Carol (a
hohenzollern sob cujo governo aumentaram as influências francesas e
germânicas na Romênia) ofereceu à Rússia passagem livre e ajuda militar
contra a Turquia. Ele próprio dirigiu um ataque à fortaleza turca de Plevna e
então a cobiçada independência tornou-se quase uma realidade. O quase
referia-se ao preço que ainda se devia pagar. A Rússia exigiu da Turquia a
posse de um território que a Romênia considerava seu, e diante dos protestos
surgidos, veio à resposta em termos de franca ameaça de guerra: "O Czar
ordenará que a Romênia seja ocupada e seu exército, desarmado". Com dignidade,
Carol respondeu: "O exército que lutou em Plevna pode ser destruído,
porém jamais entregará as armas", e o Lorde Salisbury, estadista
britânico, chegou a expressar simpatia favorável à Romênia, embora, em
particular, porém, tenha declarado que a Grã-Bretanha "não entraria em
guerra por causa desse país". As exigências russas acabaram sendo satisfeitas
e finalmente, em 1880, um reino independente da Romênia tornou-se
internacionalmente reconhecido. Estas últimas maquinações políticas vieram
contribuir para estimular o medo e o ódio pela Rússia e demonstraram uma vez
mais que o novo país não podia esperar grande consideração da parte das
grandes potências, a menos que os próprios interesses estivessem
diretamente envolvidos. Otto von Bismarck, o arquiteto da Alemanha unificada,
sintetizou, então, com muita clareza seu ponto de vista: "Toda a região
dos Balcãs não vale os ossos de um só granadeiro da Pomerânia". Entrementes, ao sul do
Danúbio, os búlgaros também buscavam a independência, contando com o apoio
da Rússia. E a Romênia, temendo a expansão da influência czarista nas suas
fronteiras meridionais como também nas setentrionais e confrontada com as
exigências búlgaras pelas suas províncias da Dobruja, assinou uma aliança secreta,
pró-defesa, com a Áustria. Finalmente, em 1908, a Bulgária conquistou sua independência,
mas pouco depois envolveu-se em duas guerras com outros países balcânicos e
desde então cresceu a hostilidade com a Romênia, por ter este país
conquistado a Dobruja do sul. Em meio à derrota, o rei búlgaro declarou:
"Esgotados, mas imbatidos, tivemos de enrolar nossos gloriosos estandartes
à espera de melhores dias". Diante disso, nas vésperas da Primeira
Guerra Mundial, a Rússia continuava sendo o vizinho hostil da Romênia, ao
norte, com a Bulgária substituindo a Turquia no mesmo papel, ao sul. A população da Romênia em
1914 era de cerca de 1.500.000 habitantes, muito embora, como conseqüência
da perda de território - como a Bucovina e Bessarábia - e da preponderância
de romenos na Transilvânia húngara, se pudesse contar mais seis milhões fora
de suas fronteiras. Tendo como limites a Bulgária, a Sérvia, a Hungria, a
Rússia e o mar Negro, este país montanhoso de florestas e planícies férteis
tinha 560 km de leste a oeste e 480 km de norte a sul. Sua fronteira
meridional era o rio Danúbio, artéria comercial do sudeste europeu, que
cortava sete países e servia mais outros doze, fazendo uma curva fechada
para o norte a 80 km do mar Negro e outra curva para leste em Galatz. Daí por
diante, ele se abre num grande delta, isolando a província da Dobruja entre
seu braço norte e o mar Negro. A planície da Valáquia, no sul, contém boa
terra para o plantio de trigo e centeio. Arroz é cultivado perto do Danúbio,
e mais para o interior, quando na sua estação, o perfume das flores do tabaco
enche o ar. A planície sobe gradualmente, chegando aos sopés das montanhas e,
por fim, até os Alpes da Transilvânia, que correm mais ou menos paralelos ao
Danúbio a uns 1.000 km ao norte deste. Esta região montanhosa setentrional,
muito apreciada pelos caçadores, é densamente arborizada e, na verdade, em
1914, um quarto do território romeno era coberto de uma variedade de
coníferas, faias, carvalhos e choupos. Cortando profundamente as montanhas
existem gargantas íngremes pelas quais cursos de água fluem para agradáveis
vales relvados e finalmente deságuam no Danúbio. Encarapitados no alto das
colinas vêem-se alguns castelos e mosteiros medievais que lembram contos de
fada, reminiscências de tempos idos, e de grande utilidade para orientação
dos aviadores da Segunda Guerra Mundial. Ns encostas, os pastores,
tocando as tradicionais e compridas trompas, apascentam os rebanhos. A
província da Dobruja contém uma planície fértil, ainda que pantanoas,
riscada de vias navegáveis e dominada pelos três grandes braços do delta do
Danúbio. Alí pode-se fazer excelentes pescas de lúcio, carpa e esturjão, e
vêem-se grandes bandos de coloridos pelicanos, cisnes, flamingos e
garças-reais. No nordeste do país fica a Moldávia, entre os montes Cárpatos,
situados ao longo da sua fronteira ocidental, e o rio Pruth. Formada de altos
picos e vales protegidos a oeste e de uma planície estreita a leste, ela
contém a capital de Jassy, com suas pomposas igrejas ortodoxas, decoradas de
vários afrescos admiráveis. Diferentes características
geográficas, bem como os caprichos da História, dificultaram a tarefa de
unificação da Romênia. Também o clima é instável, às vezes rigoroso, e os
freqüentes temporais que assolam a região tornam as condições climáticas
incertas e passíveis de mudanças rápidas até mesmo no auge do verão, como as
tripulações incumbidas do ataque a Ploesti em 1943 iriam notar. Em meados do século XIX,
quando se descobriu petróleo (devido ao seu valor, logo se tornou conhecido
como o "ouro negro") na Romênia, a grande maioria do povo vivia
da agricultura: os inconvenientes provocados pela Revolução Industrial ainda
não haviam atingido o campo. Nessa época, mesmo com a exportação de produtos
agrícolas, as reservas de capital nacionais eram pequenas, de modo que o
desenvolvimento industrial ocorrido na segunda metade do século dependeu em
grande parte de investidores estrangeiros: em 1916 somente um sexto do
dinheiro investido na indústria romena se originava de fontes internas. A simples descoberta do
petróleo não foi um acontecimento sensacional; o problema estava em extrair
depósitos em grandes quantidades e refina-los com êxito, mas a extração do
óleo bruto em escala comercial viável começou na Romênia em 1854. Três anos
depois 8.000 litros de óleo bruto foram trazidos à superfície de poços cavados
a mão, em baldes e sacos. Mas o monopólio mundial romeno da produção
petrolífera demorou pouco, pois em 1857 o Canadá abriu seu primeiro poço,
com ótimas perspectivas, em Ontario, e no mesmo ano pôs em funcionamento uma
refinaria de petróleo. Dois anos depois, um poço foi perfurado em Titusville,
na Pensilvânia. Entrementes, a insistente
exploração revelara a presença de mais fontes minerais na Romênia, embora
somente o petróleo existisse em grandes quantidades. Este se concentrava
sobretudo nos sopés dos Alpes da Transilvânia, e os vales de Prahova e Dimbovita,
em particular, tornaram-se importantes áreas produtoras. O petróleo (do latim
petra - pedra, e oleum - óleo: a substância era originariamente encontrada
nas infiltrações das pedras), para ter valor deve ser refinado em gasolina,
lubrificantes, parafina etc.; a obtenção do petróleo é apenas o início de
vários processamentos complexos. Os romenos logo substituíram suas ferramentas
manuais de escavação por perfuratrizes, e torres maciças feitas de madeira,
com 12 m de altura para sustentá-las, logo começaram a pontilhar a terra ao
lado de árvores e chalés. À medida que as locações de poços cresciam em
número e tamanho, agrupamentos de torres se espalhavam num mosaico irregular. A tarefa de localizar
refinarias para servir os campos petrolíferos é uma empresa da máxima
importância. Elas têm de estar próximas dos suprimentos de petróleo bruto,
ao alcance dos mercados e dos centros de, distribuição, e perto de água. Na
Romênia, Ploesti, situada na entrada do vale de Prahova, ao lado de um
tributário do Danúbio e no entroncamento de várias rodovias, era uma escolha
ideal, e ali se estabeleceu, portanto, o grosso da indústria de refinação. O petróleo sofre milhares
de diferentes combinações de hidrogênio e carbono (conhecidos como
hidrocarbodos), que dão características especiais ás suas partes (ou
"frações"). Algumas frações, como a gasolina e o querosene,
possuem seu próprio valor, mas outras passam por várias fases de
industrialização e em seguida são transformadas em produtos também de grande
utilidade. Assim, a separação e conversão de frações constituem as tarefas
principais de uma refinaria. A destilação (ou fracionamento) constitui a
primeira etapa no processo de reinação, quando se separam as várias
frações. Como os hidrocarbonetos se vaporizam a temperaturas diferentes, é
possível destilar óleo bruto passando-o num cano por uma fornalha, após o
que a mistura de vapores e líquido quentes passa para uma torre de
fracionamento onde, à medida que as diferentes frações esfriam, são retiradas
separadamente. Este processo, usado já por mais de meio século na Romênia,
era um tanto rudimentar e ineficiente em comparação com o craqueamento
térmico inventado às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Por este método,
tornou-se viável produzir combustível de octanagem mais alta, e do
craqueamento catalítico, aperfeiçoado em 1936, par sua vez originava-se a
gasolina de octanagem ainda mais elevada. Portanto, as instalações de
destilação e craqueamento são de importância vital e é por isso que
constituem os alvos principais dos que pretendem destruí-las. Em sua relativa pobreza a
Romênia tinha o petróleo e outros ramos da indústria muito dependentes do
capital estrangeiro. À Alemanha, por exemplo, ela devia o financiamento de
suas linhas férreas como também quantias consideráveis investidas em açúcar,
papel, tecido e cimento, além de ajuda na exploração das florestas e apoio
aos bancos. Portanto, não seria de admirar que a Alemanha demonstrasse
interesse também na produção petrolífera. Além de manter investimentos
estrangeiros, a Romênia levantou vários empréstimos estatais e com isso em
1907 suas dividas para com outros países totalizavam £ 57.200.000
(1.430.000.000 de leis), dos quais £30.776.880 eram com a Alemanha e
£18.500.000 com a França. O pagamento anual de juros, somente para a
Alemanha, totalizava dois milhões de libras esterlinas, e em 1912 a divida
nacional atingia a elevada soma de £63.040.000. Ademais, 40 por cento das importações
romenas eram financiados por bancos alemães, que exigiam pagamento em
dinheiro, porque a própria Alemanha só importava 6,62 por cento das
exportações anuais romenas. Especificamente, a
Alemanha tinha considerável interesse na indústria petrolífera. Em 1903, a
Steaua Romana, companhia petrolífera estatal romena, viu-se em dificuldades
financeiras e em conseqüência disso passou para o controle da
Diskonto-Gesellschaft, que a entregou nas mãos da Deutsche Petroleum, cujas
ações eram de propriedade dos principais bancos alemães. Durante os nove anos
seguintes, fundaram-se com dinheiro alemão outras companhias interessadas
na produção de petróleo, e por volta de 1914, 37 por cento do óleo romeno
eram dos alemães, à exceção das empresas romenas financiadas por bancos
germânicos. Isto em comparação com o investimento geral de 30 por cento feito
na indústria pela Grã-Bretanha. No começo da Primeira
Guerra Mundial, pertenciam à Romênia os mais ricos campos petrolíferos e a
maior capacidade de produção de óleo na Europa, menos a Rússia, que,
contudo, enfrentava sérias dificuldades no transporte do produto até os
clientes potenciais. O petróleo romeno, financiado principalmente pela
Alemanha, Grã-Bretanha (Royal Dutch/Shell e Anglo-Persian Oil, então
subsidiária da Burmah Oil, hoje British Petroleum) e pelos Estados Unidos
(Standard Oil), permanecia oficialmente sob total controle da Romênia, cujo
governo recebia uma percentagem dos lucros das companhias petrolíferas.
Embora ainda recente, aquela indústria mantinha uma produção anual superior a
um milhão de toneladas de óleo bruto, principalmente da região de Campina,
situada ao norte de Ploesti. As refinarias de maior capacidade estavam agora
produzindo gasolina, parafina, óleos finos e espessos e vaselina, e um
oleoduto percorria cerca de 240 km desde Ploesti até Constanta (Constância),
no mar Negro. O valor anual do comércio petrolífero (metade do qual era
exportado) atingia dois milhões de libras. A Romênia dependia, sem dúvida
alguma, do investimento financeiro alemão para manter sua indústria
petrolífera, mas a Alemanha também dependia dela para o fornecimento de
alguns produtos que lhe eram necessários em tempos de guerra. E nisso entrava
particularmente o petróleo. As tentativas de produzir na própria Alemanha
bemol e óleo de baixa temperatura não conseguiram compensar sua grande
necessidade de petróleo bruto. Antes da guerra, 93 por cento dos seus
suprimentos de óleo mineral provinham de outros países - cerca de metade dos
Estados Unidos e apenas um décimo da Romênia. Uma vez iniciadas as hostilidades,
embora os Estados Unidos permanecessem neutros, a incerteza quanto ao
abastecimento contínuo por aquele país levou a Alemanha a olhar cobiçosa
para a fonte mais acessível, a Romênia, que talvez não tivesse a capacidade
de resistir a forte pressão. Pelo simples acidente de localizar petróleo
dentro das suas fronteiras, a Romênia viu, mais uma vez, a observá-la com
atitudes de ave de rapina, uma poderosa nação européia. Em fins de 1914, ainda
desconfiada quanto às intenções da Bulgária e da Rússia, a Romênia também
encarava com dúvidas os avanços austro-húngaros na direção do seu vizinho
ocidental, a Sérvia, e observou um tanto receosa o envolvimento do seu velho
dominador, a Turquia, no conflito internacional. Os laços financeiros talvez
sugerissem sua aliança com a Alemanha, mas a Romênia também mantinha
ligações culturais e comerciais com a Grã-Bretanha e a França; e, além
disso, a Hungria e a Rússia, com as quais disputava a Transilvânia e a
Bessarábia, respectivamente, encontravam-se em lados diferentes. Portanto,
restava à Romênia decidir-se pela neutralidade, e, para dar ênfase à sua
escolha, proibiu a exportação de gasolina e óleos espessos para os países
beligerantes. A princípio as companhias alemães e austríacas praticaram
algum contrabando, por preço exorbitante, mas passado um ano, e a guerra
prolongando-se, a Romênia tinha armazenado tão grandes estoques de produtos
refinados, que foi obrigada a permitir algumas exportações, imparcialmente,
para ambos os lados. Desse modo, as instalações de refinação podiam ser
usadas para o processamento de óleo mais bruto. A Alemanha e a Áustria ofereceram
produtos para troca, mas a Romênia insistiu no pagamento em dinheiro e a Alemanha
se viu obrigada a pagar 40 libras por tonelada da gasolina que recebia. No decorrer do segundo ano
da guerra, em parte contrariada com esse tratamento, a Alemanha esteve a
ponto de atacar a Romênia. A Áustria já recuperara seus campos petrolíferos
galicianos da Rússia, mas eles forneciam apenas 50.000 toneladas mensais, o
que não podia satisfazer as urgentes necessidades das Potências da Europa
Central. Só a área de Ploesti refinou 1 ½ milhão de toneladas de petróleo
bruto em 1915, com um quarto dessa quantidade sendo produzido na forma de
gasolina. Contudo, enquanto a Romênia continuasse fornecendo os óleos e
cereais de vital necessidade para a Alemanha, a despeito do preço alto
estabelecido para essas compras, a invasão não seria necessária e, de
qualquer modo, em termos militares, até seria insensata antes que se
cuidasse da Sérvia. Enfrentando toda espécie
de pressão diplomática, a Romênia conseguiu permanecer neutra ainda por
dois anos. Mas em meados de 1916, enquanto a ofensiva do general russo
Brusilow desfrutava de sucesso momentâneo, os britânicos também haviam, por
instantes, conseguido avançar um pouco no Somme e os italianos (agora afiados
às Potências da Entente) faziam o mesmo no Tirol. A Romênia então concluiu
que já era tempo de intervir e informou ao ministro francês em Bucareste que
se uniria aos Aliados se pudesse contar com a assistência das tropas russas
ou de forças anglofrancesas que estavam em Salônica, contra a Bulgária (já
envolvida no lado alemão). Diante destas condições, houve enorme descontentamento
no meio diplomático e somente a 17 de agosto de 1916 é que se assinou uma
convenção, em que a Romênia prometia declarar guerra contra a Áustria-Hungria
e desfechar uma ofensiva para o norte, pela Transilvânia; a Rússia engajavase
a enviar três divisões para a Dobruja, e a Grã-Bretanha e a França montariam
uma expedição, partindo de Salônica. Politicamente, a Romênia tinha
garantidos o Banato, a Transilvânia, a Planície Húngara até o rio Tiza e a
Bucovina até o rio Pruth - uma recompensa maravilhosa que refletia o alto
valor que seu petróleo representava. Dez dias após a assinatura do tratado, a
Romênia, segundo o prometido, declarou guerra à Áustria-Hungria, e recebeu,
em troca, uma avalancha de contradeclarações da Alemanha, Turquia e
Bulgária. Infelizmente para a
Romênia e seus novos aliados, os sucessos em pleno verão das tropas russas
logo foram interrompidos: Brusilov deu início a uma retirada inglória, outros
ataques russos no norte fracassaram e os italianos foram repelidos. Os
alemães também previram a estratégia romena: o General Falkenhayn recuou com
seus exércitos, do norte, à medida que o Feldmarechal von Mackensen cruzava
o Danúbio ao sul. Embora os romenos se mantivessem firmes nos passos
montanheses ao sul de Brasov, a 8 de outubro já haviam sido expulsos das
suas primeiras conquistas na Transilvânia e 15 dias depois Mackensen
apoderou-se de Constanta e seus tanques cheios de óleo. Bucareste, a capital,
caiu a 6 de dezembro e em pouco os remanescentes dos destroçados exércitos
romenos evacuaram a Dobruja e recuaram para a pequenina ilha fluvial no
nordeste da Moldávia, entre os rios Siret e Pruth. O breve namoro da Romênia
com a guerra estava praticamente terminado. A Alemanha já nomeara um
Governador-Geral Militar da Romênia para prover as necessidades das
Potências Centrais "ilegalmente isoladas" do alto-mar pela Marinha
Britânica. E o petróleo ocupava um lugar preponderante na sua lista de
requisições. Uma vez evidenciado que a
poderio militar romeno era algo ilusório e que a Alemanha estava com as
mãos nos suprimentos de petróleo que poderiam afetar drasticamente o curso de
toda a guerra, o governo britânico tomou providências para impedir o acesso
de produtos petrolíferos aos seus inimigos. A natureza elementar do
desenvolvimento dos aviões na época não facilitava quaisquer planos de
bombardeio para neutralizar os poços e as refinarias: a sabotagem
apresentava-se como única escolha. Os romenos, entretanto, haviam decidido
destruir as instalações, se a derrota parecesse iminente, e organizaram uma
comissão para cumprir essa tarefa. Mas chegado o momento, a comissão
recusou-se a agir e o Tenente-Coronel C. B. Thompson, Adido Militar
Britânico em Bucareste, informou a Londres que, com os alemães aproximando-se
de Ploesti, os poços e as refinarias permaneciam intatos. Na terceira semana de
outubro, quando as forças alemães e búlgaras entraram em Constanta, era
impossível enviar um corpo de tropas britânicas para concretizar a destruição.
Talvez somente a Grã-Bretanha, com sua propensão a herói romântico de
história em quadrinhos, poderia ter produzido um John Griffths, cuja
biografia já se assemelhava muito às páginas de ficção. Aos 17 anos de idade,
tendo já servido como marinheiro, chegou à Austrália onde ganhou a vida
trabalhando em minas naquelas áreas remotas. Depois mudou-se para a África do
Sul e ali, após alguns anos, estabeleceu-se como engenheiro, comandou um
corpo de exploradores na Guerra de Matabele, serviu como
comandante-de-esquadrão na Força de Campanha Sul-Africana e mais tarde no
estado-maior do Lorde Roberts na Guerra dos Boers. Freqüentemente em ação,
Griffiths foi mencionado três vezes em despachos e recebeu a Medalha e
passadeira da Rainha. Depois da guerra, em 1902, ele reiniciou seu trabalho
como empreiteiro de engenharia. Aí, para a maioria dos homens, a história
teria terminado, com o resto dos seus dias vividos em tranqüila vida
familiar. Mas a inatividade não
agradava a Griffiths, então com trinta anos. Três anos depois ele construiu
o primeiro trecho da ferrovia de Benguela, na África Ocidental Portuguesa,
após o que participou em projetos nos Estados Unidos e diretorias de firmas
britânicas. Em 1910, ingressou na Câmara dos Comuns como Membro do Parlamento
por Wednesbury, onde, devido à atenção que dedicava a assuntos imperiais,
tornou-se conhecido como "Empire Jack". No começo da guerra,
organizou, equipou e pagou a formação de um regimento de cavalaria e pouco
depois propôs que os mineiros de carvão e outros trabalhadores em minas
fossem recrutados para serviços de escavação de minas na frente das
trincheiras. Uma quinzena após a aprovação desse plano pelo War Office, ele
já tinha quatro companhias básicas trabalhando na frente. Em junho de 1916,
como major anexado ao estado-maior do Q-G-Geral, Grifiths tinha 25.000 homens
empregados em atividades de mineração sob seu controle e foi o maior
responsável pelo planejamento das operações de abertura de túneis sob a Cota
60 e na Crista de Messines. Três vezes mencionado em despachos, ele foi
agraciado com a Ordem do Serviço Distinguido e a promoção a tenente-coronel.
John Griffiths parecia ser uma dádiva dos céus para os que enfrentavam a
necessidade urgente de paralisar a indústria petrolífera romena. Por ordem do Diretor do
Serviço de Inteligência Militar e levando consigo a promessa do Tesouro de
que a Grã-Bretanha compensaria os danos causados à maquinaria e instalações,
Griffiths partiu para Bucareste. De modo incrível, ele viajou numa belonave
britânica até a Noruega, e depois por terra e mar até Moscou passando pela
Suécia e Finlândia. De Moscou, ele e seu ordenança (a única pessoa que o
acompanhou na viagem) foram de trem até a fronteira. Não encontrando transporte
oficial ali, ele requisitou, à força de um revólver, um carro e dirigiu-o
até a capital, onde chegou após uma exaustiva viagem de 6.400 km em 19 dias.
As tropas alemães encontravam-se a menos de 160 km dali e os inúmeros refugiados
apavorados enchiam as ruas de Bucareste. Griffiths verificou que o governo
se impressionara pelas garantias de compensação, mas que os interesses
comerciais, que eram a Royal Dutch/Shell e a Standard Oil, por exemplo,
estavam preparados para obstruí-o. Não vendo qualquer futuro
nas negociações em Bucareste, com os alemães convergindo de quase todos os
lados, Griffiths viajou cerca de 60 km até Ploesti e dali para noroeste,
para Targoviste, situada no sopé das montanhas. Ali, ele juntou-se à Comissão
de Petróleo Romena, que se recusou rudemente a destruir as instalações
petrolíferas, mesmo que os Aliados sofressem com isso. Em particular, porém,
Griffiths teve garantido o apoio da família real. Ele agora preparava os
planos para a destruição sistemática da indústria petrolífera romena,
baseado em conselhos de Londres que sugeriam o uso de pessoal inglês no
momento trabalhando nos campos petrolíferos. Na fábrica controlada pelos
britânicos perto de Targoviste, ele assinou um termo de garantia de
compensação em nome do governo britânico e conseguiu o número de homens
necessários para ajudá-lo na tarefa. Famílias foram evacuadas, canais
profundos foram cavados até a refinaria e inundados de gasolina, à qual então
se ateou fogo. Grupos foram despachados para outros campos petrolíferos e
refinarias para derrubar torres, lançar blocos de metal e lixo dentro dos
poços e mandar oleodutos pelos ares, enquanto Griffiths ia novamente para o
sul. A refinaria de Seaua Romana, em Campina, e a de Astra Romana, em
Ploesti, foram inundadas de gasolina e incendiadas: ambas seriam os
objetivos principais de 14 de agosto de 1943. Griffiths mal conseguia
manter-se à frente da perseguição da cavalaria alemã ao seu carro
requisitado, mas numa ocasião ele foi preso pela Comissão de Petróleo Romena,
tão ansiosa quanto os alemães por detê-lo em seu trabalho de devastação pelos
seus vales. Uma vez mais, seu revólver mostrou-se eficiente e ele escapou. Assim, no dia em que
Mackensen entrou em Bucareste, nuvens de fumaça negra e densa escureciam o
céu setentrional. Duzentas milhas quadradas de terra foram incendiadas e
enquanto Griffths se afastava, ele sabia que os suprimentos imediatos de óleo
haviam sido negados aos alemães. Um homem destruíra a capacidade de produção
romena e causara prejuízos no valor de 56 milhões de libras. Em meados de
1918, 18 meses mais tarde, os alemães afirmavam ter recuperado dois terços da
produção, porém um número mais realista seria de 15 por cento. O General
Falkenhayn calculou que estes suprimentos perdidos equivaliam a uma grande
derrota militar em campanha. Por seus feitos, Griffiths
(em 1918 ele tomou o nome de Norton-Griffths) foi agraciado com o título de
Cavaleiro Companheiro da Ordem do Banho e oficial da Legião de Honra,
recebendo também a Estrela da Romênia e a Ordem de São Vladimir da Rússia
(Terceira Classe). Tentando repetir suas façanhas na Segunda Guerra Mundial,
os Aliados precisaram utilizar quase 2.000 aviadores. Planos frustrados Embora o Rei Ferdinando conservasse
o controle político dos pequeninos remanescentes do seu reino depois que seu
derrotado exército recuou para a outra margem do rio Siret, ele só o
conseguiu por cortesia da Rússia, pela qual os romenos alimentavam um ódio
muito antigo. Quando o Czar Nicolau II abdicou, em março de 1917, porém,
Ferdinando procurou amenizar a hostilidade do seu povo pelos seus protetores,
na esperança de que o novo governo russo ajudasse ativamente na recuperação
de território romeno. Ele também prometeu a reforma agrária na Romênia para
despertar o entusiasmo nacional na tarefa de reconquista. Mas nem os
exércitos russos nem os romenos mostravam-se ansiosos por reiniciar a
batalha e, em outubro, Lenine e os bolcheviques, empenhados na conquista da
paz, tomaram o controle de Petrogrado. Pouco depois, a Rússia assinou o
armisticio com as Potências Centrais, ao qual a Romênia, inevitavelmente,
aderiu. Qualquer tênue esperança
de que o reinício de hostilidades pudesse ocorrer e permitir a Ferdinando a
recuperação de todo o seu reino logo foi destruída. Em março de 1918, Lenine
celebrou o Tratado de Brest-Litovsk, que excluiu a Rússia da guerra. Indefesa, a Romênia foi
então obrigada a assinar o humilhante Tratado de Bucareste, que desarmou a
maior parte do seu exército e entregou o grosso do seu equipamento às
Potências Centrais. Nominalmente, a família real romena governaria a
Moldávia de Jassy. Isto deixava a indústria petrolífera da Valáquia em mãos
inimigas. Portanto, ironicamente, o
trabalho de Griffiths mostrou-se benéfico para os alemães, que puderam
substituir a maquinaria destruída pelas suas, havendo então da parte deles
controle mais completo da indústria petrolifera. A Romênia foi obrigada a
assinar um Acordo do Petróleo, suplementar às cláusulas políticas do Tratado
de Bucareste. Como resultado disso, praticamente todas as ferrovias, as ricas
terras agrícolas e instalações petrolíferas (campos e refinarias) passaram
para as mãos da Alemanha e Áustria-Hungria. Uma nova Companhia de Arrendamento
de Campos Petrolíferos conseguiu os direitos amplos e exclusivos por trinta
anos, com opção para renovação por mais dois períodos da mesma duração. O
máximo de um quarto das ações da companhia seria oferecido ao governo
romeno, que poderia transferi-las para companhias particulares se assim o
desejasse. Contudo, a Alemanha e a Áustria-Hungria asseguraram-se de uma
influência controladora dando ações preferenciais com valor de voação
cinqüenta vezes maior e que ficariam exclusivamente à sua disposição. Uma
série de cláusulas complicadas deu à Companhia de Arrendamento de Campos
Petrolíferos a posse de todo o equipamento, o poder de determinar os preços e
isenção praticamente absoluta de impostos: o governo romeno recebia apenas
quatro leis por tonelada de produtos petrolíferos exportada e 3,40 leis por
óleo bruto exportado. Portanto, os
acontecimentos de 1916-18 tiveram um efeito considerável sobre a indústria
petrolífera romena, cujo desenvolvimento teria tomado rumo bem diferente se
as Potências Centrais não tivessem sido finalmente derrotadas na Europa
Ocidental. Somente após seu colapso é que o governo romeno saiu dos limites
de Jassy. A 14 de dezembro de 1918, o rei finalmente retornou a capital de
onde fugira dois anos antes, descobrindo que a restauração e reabilitação
seriam ajudadas por um fato importante, A despeito da sua falta de distinção
militar e do aparecimento fugaz nas listas, a Romênia apoiara o lado
vencedor. Assim, dos acordos de paz, ela saiu grandemente ampliada. Com a
aquisição da Transilvânia, Bucovina e Bessarábia, a Romênia dobrara seu
território e sua população. Não obstante, mesmo com a posse das empresas
industriais na Transilvânia e na Bucovina, apenas 10 por cento da população
da "Grande Romênia", como se tornou conhecida, estavam empregados
na indústria; e a pressão pela reforma agrária continuava sendo fator primordial
nos assuntos romenos, pois 75 por cento das propriedades rurais do pais ainda
eram inferiores a cinco hectares e muitas consistiam de faixas esparsas onde
se adotavam métodos agrícolas incipientes. Com a Hungria, Rússia e Bulgária
abertamente hostis e comprometidas na recuperação das suas províncias
perdidas, a Romênia dependia seriamente do apoio político aliado após a
Primeira Guerra Mundial; ademais, como a maioria dos países europeus
devastados pela guerra, ela precisava fazer grandes empréstimos a terceiros. Os ajustes do pós-guerra
deixaram a Romênia com um problema interno muito sério. Ela herdara vários
grupos raciais minoritários; a Transilvânia tinha mais de dois milhões de
magiares e alemães, a Bessarábia, meio milhão de ucranianos e a Dobruja,
250 mil búlgaros. Assim, um quarto da sua população vinha de origem
não-romena. Em comum com outros estados que haviam adquirido minorias
semelhantes, como a Polônia, a Tchecoslováquia e a Iugoslávia, a Romênia
garantia "total e completa proteção da vida, raça e liberdade de todos
os habitantes, sem discriminação de nascimento, nacionalidade, língua, raça
ou religião". Mas a concentração em empreendimentos comerciais na velha
Romênia e o desenvolvimento de um sistema de comunicações destinado mais a
servir Bucareste do que às regiões circunjacentes, não lograram convencer as
minorias da Romênia do cumprimento desta promessa. Em 1921, Romênia,
Tchecoslováquia e Iugoslávia assinaram a chamada Pequena Entente em prol da
defesa mútua contra nações que pudessem tentar aproveitar-se da
insatisfação das minorias para rever os acordos de paz, celebrando também
uma aliança com a França. Ainda havia outras
preocupações internas. Os pequenos camponeses foram bastante castigados nos
anos de depressão econômica do pós-guerra e a crescente mutabilidade
industrial causava particular preocupação. O Partido Comunista Romeno foi
oficialmente fundado durante esse período de crise em Ploesti, em 1922.
Embora a princípio exercesse pouca influência política, soube aproveitar-se
da implacável repressão governamental das greves e demonstrações, sobretudo
depois que vários trabalhadores foram mortos num incidente em Lupin, em 1929.
Tampouco as atividades da família real contribuíam para haver estabilidade política
nessa época. O dissoluto herdeiro do trono, Carol, renunciou a todos os seus
direitos de herança, deixou a pátria e foi divertir-se no exterior. Assim,
três anos depois da ascensão de seu filho mais novo - Miguel - ao trono (que
mais tarde visitaria os prisioneiros de guerra americanos após o ataque a
Ploesti), organizou um golpe no país, depôs Miguel e reocupou o trono em
1930. Passados cinco anos depois
desses acontecimentos, a atitude de Hitler na Alemanha e sua arrogância
perante a Liga das Nações eram motivo de inquietação na península balcânica,
embora os ódios e ciúmes mútuos que minavam suas nações impedissem quaisquer
medidas importantes de autoproteção. O acordo estabelecido entre Turquia,
Iugoslávia, Grécia e Romênia, em 1934, estava tão cheio de cláusulas e
seriamente enfraquecido pela não-concordância da Bulgária, que a
possibilidade de nova intervenção política e militar alemã nos Balcãs parecia
inevitável. Por conseguinte, a Romênia restabeleceu relações diplomáticas com
a Rússia (agora URSS). Entrementes, uma organização pró-fascista, a Guarda
de Ferro, que prometera aliar-se à Alemanha e Itália assim que conseguisse o
poder, estava conquistando influência dentro da Romênia e tornava-se rival
dos comunistas. Mas, por meio de uma série de hábeis manobras, Carol II
conquistara poderes virtualmente ditatoriais em 1938, quando partiu em
viagem pela Europa. Convencido de que Grã-Bretanha e França seriam
finalmente as vencedoras em caso de guerra, ele, não obstante, estava
decidido a fortalecer seus laços com Hitler para maior segurança. Assim,
informou-se o seguinte sobre o encontro de Carol com Hitler: "O Rei da
Romênia... particularmente desejava manter e consolidar boas relações com o
atual Reich Alemão". Esta bem-aventurada
coexistência não durou muito. Pouco depois que Carol retornou à Rmênia, os
prisioneiros, líderes da Guarda de Ferro, foram fuzilados, ostensivamente, ao
tentarem fugir. A fúria do Führer só amainou quando a Romênia se dispôs a
fazer-lhe concessões econômicas, uma das quais referia-se à expansão da
fábrica de aviões Junker em Brasov. Este não era exemplo isolado de interesse
econômico, pois no começo da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha tinha
investidas consideráveis somas na economia da Romênia, através de várias
empresas, desde as dedicadas à soja até minas de prata. As exportações de
trigo da Romênia para a Alemanha aumentaram de maneira considerável nos anos
30 e a Alemanha procurou tornar aquele país ainda mais dependente dela,
quanto à obtenção de alguns produtos manufaturados, recusando-lhe, no
entanto, permissão de produzi-los mesmo sob licença. Em março de 1939, um
tratado comercial bilateral favoreceu a criação de novas empresas mistas destinadas
a explorar os recursos naturais da Romênia, ao qual a França foi contrária e
assinou também um tratado com esse país e com a Grã-Bretanha, enviando
apressadamente uma missão a Bucareste. Contudo, a despeito de todos os
esforços empregados pela França e pela Grã-Bretanha, em 1939, 39,3 por cento
das aquisições feitas pela Romênia vinham da Alemanha, que, por sua vez,
recebia 32,3 por cento do que aquela exportava. Uma causa especial de preocupação
constante era a dependência romena da Alemanha para o fornecimento de armas.
Na verdade, a Romênia não tinha como escolher, pois a Alemanha decretara que
o pagamento de certos produtos e materiais recebidos de outros países seria
feito em armas, não em dinheiro. A indústria petrolífera
atraía particular atenção da Alemanha. Em 1935, ela adquiriu 600.000
toneladas desse produto, da Romênia, e, assim, tornou-se seu maior cliente.
Reagindo logo após, a França concordou em comprar 750.000 toneladas
anualmente e, dessa forma, superar a Alemanha na transação. Este jogo de
carniça econômica foi realizado contra um fundo de perene controle
estrangeiro do petróleo romeno: pois dos 14,5 milhões de libras de capital
por ações das 150 companhias envolvidas, somente 9,7 por cento representavam
investimento interno. Além disso, embora no começo da guerra a Alemanha
estivesse recebendo apenas um terço das suas importações de petróleo da
Romênia, era significativo o fato de que as exportações petrolíferas daquela
fonte excediam as necessidades alemães em tempos de paz. Mas era pouco
provável que a Romênia, sozinha, pudesse suprir os alemães na guerra: sua
produção anual aumentara de cerca de cinco milhões de toneladas em 1929 para
pouco menos de oito milhões em 1936, mas a tonelagem total para 1938 foi de
apenas 6,5 milhões: isto sugeria que a produção talvez tivesse ultrapassado
seu ponto culminante. Em 1937, a Alemanha importou pouco mais de 3,5 milhões
de toneladas de derivados do petróleo. Portanto, no começo da
Segunda Guerra Mundial, como em 1914, a Romênia estava em termos comerciais e
financeiros comprometida em alto grau com a Alemanha, mas sentimentalmente
ligada à Grã-Bretanha e França. Isto era bem válido quanto à segunda, cujo
sistema de comunas servia de modelo para o governo local romeno e cuja
influência podia ser vista no Arco do Triunfo de Bucareste e nos hábitos
sociais das classes altas romenas. A derrota da França e a provável queda da
Grã-Bretanha, em meados de 1940, despojaram a Romênia de forte apoio político
na arena internacional, embora se mantivessem firmes as relações oficiais com
a Grã-Bretanha e a França de Vichy. A URSS logo aproveitou a oportunitiode
para exigir a secessão da Bessarábia e da Bucovina: o que não era de surpreender,
considerando-se a então amizade vigente de Hitler com Stalin, e um apelo da
Romênia, de ajuda, a Berlim fracassou. As duas províncias foram entregues
sem luta, a Romênia renunciou à garantia anglo-francesa de 1938, um gabinete
pró-alemão foi empossado e os membros da Guarda de Ferro puderam desfilar
abertamente pelas ruas. Logo após as exigências russas, vieram as
reivindicações da Bulgária e Hungria, que, após a "mediação"
ítalo-germânica em Viena, receberam a Dobruja meridional e 17.000 milhas
quadradas da Transilvânia, respectivamente. No período de dois meses, a Romênia
abrira mão de um terço do seu território, três milhões de romenos e dois
milhões de não-romenos. Não era confortador saber que a Alemanha e a Itália
garantiam o que restava. Embora Carol II fosse então obrigado a abdicar em
favor de seu filho Miguel, nem assim a tão abalada e perigosa política da
Romênia melhorou, pois o verdadeiro poder estava nas mãos do primeiro-ministro
pró-fascista, General Ion Antonescu. Os poucos engenheiros britânicos que
ainda ali estavam foram expulsos dos campos petrolíferos, às vezes após maus
tratos físicos. O interessante, porém, é que Hitler recusou o pedido da
Itália concernente à intervenção em grande escala nos Balcãs, receando que a
Grã-Bretanha viesse a estabelecer bases na península de onde poderia
bombardear as instalações petrolíferas. Em setembro de 1940 tropas
alemães entraram na Romênia, oficialmente como uma missão militar a pedido
de Antonescu com o fim de proteger as instalações industriais. Hitler já
estava alarmado com a deterioração das relações alemães com a URSS e bastante
cônscio de que, após a ocupação da Bessarábia, os aeródromos russos estavam a
apenas 160 km de Ploesti. Significativamente, ao conceder livre trânsito
pelo seu território às tropas alemães, a Hungria percebeu que a razão disso
era proteger os campos petrolíferos romenos. A despeito dos esforços
despendidos para disfarçar o fato, a Romênia fora efetivamente ocupada; e,
pouco depois, juntamente com a Hungria, aderiu ao Pacto Tríplice de
cooperação entre Alemanha, Itália e Japão. A indústria petrolífera
romena logo ficou sob rigoroso controle alemão. A Companhia Kontinentale,
empresa alemã cujas ações pertenciam a industriais e ao governo alemães, foi
criada para administrar as companhias estrangeiras expropriadas e a Alemanha
apressou-se em responsabilizar-se pelas ferrovias romenas e pelo tráfego no
Danúbio. Os distúrbios em Bucareste em janeiro de 1941, esmagados por
tanques alemães, contribuíram para um aumento franco da presença de elementos
do Eixo; e, havendo então agora cerca de 500.000 soldados alemães no país, a
posição diplomática britânica tornou-se insustentável. A 14 de fevereiro de
1941, as relações entre Grã-Bretanha e Romênia foram cortadas, criando um
temor generalizado, mas errôneo, de que ataques aéreos aos campos
petrolíferos eram iminentes. Mas só a 7 de dezembro é que a Grã-Bretanha
realmente declarou guerra e três dias depois a Romênia fez o mesmo com os
Estados Unidos. Entrementes, em junho de 1941, a Romênia juntara-se à
Alemanha numa "guerra santa" contra seu velho antagonista, a
Rússia, e durante as primeiras fases da "Operação Barbarossa"
recuperara a Bucovina e a Bessarábia. Foi sua rejeição e um virtual ultimato
por parte da Grã-Bretanha para que recuasse para oeste do Dniester,
seguindo-se outros avanços, que levou à declaração de guerra e fez a
Grã-Bretanha pensar novamente num modo de impedir que o petróleo romeno
chegasse à Alemanha. Era inevitável que, em conexão
com esse objetivo, Ploesti fosse atração especial. Situada a 256 km a oeste
do mar Negro e a 112 km ao norte do Danúbio, a cidade fica na entrada do vale
de Prahova, 56 km a noroeste de Bucareste e 80 km a sudeste de Brasov, onde a
planície da Valáquia eleva-se até os Alpes da Transilvânia. Restos arqueológicos
sugerem ter havido ali ocupação humana na Idade do Bronze, mas só em 1503 é
que Ploesti aparece nos mapas como aldeia, derivando tradicionalmente o seu
nome de um pai e sete filhos que fugiram da Transilvânia. Quase cem anos se
passariam até que ela adquirisse o status de cidade, sob o reinado de Miguel
o Bravo. Encontrada nas coordenadas 44º 56' N, 26º 02' E, Ploesti
apresenta-se oficialmente situada a 165 m acima do nível do mar, mas sua
altitude, na verdade, varia de 184 a 158 m de norte para sul e de 197 a 157
de oeste para leste - variações importantes quando se considera um ataque
aéreo desfechado de altitude mínima. A população em 1941 era de 100.000
habitantes, embora os alemães logo evacuassem o pessoal considerado
dispensável. Seus distritos industriais abrangiam cerca de 15 milhas
quadradas. Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, a cidade consistia
de fileiras arrumadas de ruas e amplas avenidas (como a Avenida da Independência,
que ia desde o centro até a estação Sul de Ploesti), orladas de árvores e
casas baixas pintadas de branco, e com o horizonte pontilhado de torres de
igreja, chaminés de fábricas e torres de petróleo. Da praça central, dominada
por duas igrejas ortodoxas e uma estátua que recorda a fundação da Romênia,
12 estradas principais seguiam para cidades como Pitesti, Buzau, Bucareste e
Constanta. Vista do ar, a planta de Ploesti lembrava uma roda de 6,4 quilômetros
de diâmetro com os raios formados pelas estradas, e as linhas férreas, que
cercavam toda a cidade, representando o aro. A cidade era dominada por
refinarias de petróleo que, por sua vez, a orlavam do lado de fora das linhas
férreas. Afastados das refinarias ficavam os campos, onde se cultivavam
milho e tubérculos. A uns três quilômetros para noroeste da cidade passava o
rio Teleajen, com 800 m de largura, um tributário do Ialomita, que desemboca
no Danúbio no seu curso norte para Galatz. Descendo no sentido noroeste para
sudeste, e atravessando o interior de Ploesti, havia o rio Dambul, que era
menor. Além das várias estradas, seis ferrovias partiam do círculo de trilhos
que ligavam as refinarias da orla da cidade aos campos petrolíferos e outras
áreas da Romênia. A 29 km a noroeste de
Ploesti, na linha férrea que segue para Brasov, ficava Campina, onde se
erguia a refinaria de Steaua Romana. Cinco quilômetros para o sul, a oeste da
linha para Bucareste, e tendo a forma de uma ponta de flecha com 1.200 m por
800 m, estava a refinaria do Credituel Minier, so subúrbio de Brazi. Na orla
norte da propria cidade de Ploesti via-se a refinaria de Concordia Vega, com
240 acres, bem a leste da ferrovia que vai para Valenii de Munte. A 800 m a
sudeste desta, também do lado externo do círculo ferroviário, havia duas
pequenas refinarias, Cometa e Redeventa, dentro de um complexo de 40 acres;
e a 1.200 m mais a sudeste delas ficava a pequena instalação de Dacia Romana.
A oeste da cidade, a meio caminho entre as ferrovias que levam a Campina e
Valenii de Munte, encontrava-se a isolada refinaria de Xenia, com cerca de 80
acres, perto da estação Noroeste de Ploesti. No lado sul da cidade havia um
grupo de refinarias: Columbia Aquila, com 160 acres, dentro do círculo dos
trilhos - a única situada desse lado das linhas férreas - perto da estação
Oeste de Ploesti, separada por um espaço de 800 m e pela ferrovia que vai
para Brazi e Bucareste, e um complexo vasto e de forma irregular situado a
leste, contendo as refinarias de Astra Romana, Unirea, Orion e Lumina. Por
sua vez, a 800 m mais para leste, ficava outro complexo espalhado por uma
área de 160 acres, contendo o Standard Petrol Block e a Unirea Sperantza -
entre estes dois últimos complexos ficava a estação Sul de Ploesti, com seus
extensos pátios de manobra formando um alvo tentador. Situadas entre as
refinarias que estão em torno de Ploesti encontravam-se várias estações de
recalque e de bombeamento. Uma refinaria ficava totalmente isolada: a Romana
Americana, cobrindo 400 acres, situava-se a 1.200 m a nordeste da estação
Teleajen que, por sua vez, ficava a cinco quilômetros do centro de Ploesti e
a 1.600 m além dos trilhos circunjacentes. Em ordem de importância,
sete dessas refinarias podiam ser consideradas alvos de valor. A Astra
Romana, originariamente controlada pela Royal Dutch/Shell, tinha uma unidade
de craqueamento moderna, capaz de produzir gasolina de aviação de 87
octanas. Dentro dos seus limites havia importante estação de bombeamento para
o oleoduto de Giurgiu; e perto dali ficava o entroncamento das ferrovias para
Campina, Bucareste e Buzau e a estação Sul de Ploesto, com seus grandes
pátios de manobra. A seguir vinha a Concordia Vega, antes sob controle de
interesses franceses e belgas e a única refinaria romena com equipamento de craqueamento
capaz de produzir óleo lubrificante de boa qualidade; além disso, e de
importância vital, dentro dos seus limites ficavam instalações de bombeamento
que distribuíam todo o óleo bruto vindo dos campos petrolíferos para as
outras refinarias de Ploesti. A Romana Americana, anteriormente sob controle
dos Estados Unidos, continha equipamento dos mais modernos, unidades de
craqueamento e usina de força para a estação de bombas que serviam os
oleodutos de Constanta; e a ex-britânica Unirea Orion, embora relativamente
pequena, tinha instalações de craqueamento modernas e era responsável pela
maior parte (embora não o melhor) do óleo lubrificante produzido na área. A
seguir em importância vinha Unirea Sperantza, também ex-britânica, junto da
Standard Petrol Block, ex-americana, ambas contendo instalações de
craqueamento e de óleo lubrificante. Finalmente, na própria Ploesti, ficava
a Columbia Aquila, construída por um consórcio anglo-americano, mas
controlada por franceses; produzia grande quantidade da produção de benzina
da Romênia, e com suas unidades de craqueamento e importante casa de
caldeiras, era um alvo compacto. Em Campina ficava a Steaua Romana, uma das
maiores e mais modernas refinarias da Romênia, anteriormente financiada pela
Companhia Petrolífera Anglo-Iraniana, com eficiente unidade de craqueamento
considerada a única fábrica importante de parafina do país. Em seguida vinha
a Credituel Minier, no subúrbio sul de Brazi. Dotada de aparelhagem moderna
de craqueamento, era a única refinaria capaz de produzir gasolina de aviação
de 100 octanas. Como todas essas refinarias já tinham sido de propriedade de
Aliados e dirigidas ou servidas por especialistas também aliados, era fácil
obter-se informações precisas sobre sua disposição e as posições das unidades
vitais de craqueamento, caldeiras e destilação. É de surpreender, em vista
do comércio romeno de antes da guerra com a Europa, em 1938, que 85 por cento
das exportações petrolíferas romenas passassem por Constanta, 10 por cento
pelo Danúbio acima e 5 por cento, pelas três ferrovias principais, para a
Europa Central. Em tempo de guerra, porém, a passagem dos Dardanelos para o
Mediterrâneo podia ser bloqueada por ação naval; por conseguinte, Constanta
deixou de ser tão importante assim e Giurgiu (situada no Danúbio a 130 km a
sudoeste de Ploesti) tornou-se o principal centro de distribuição para a
Europa. Um mínimo de quatro oleodutos levava óleo de Ploesti para Giurgiu,
mas esta rota era responsável por apenas um quarto da quantidade despachada
por ferrovia; isto porque todas as grandes refinarias de Ploesti possuíam
seus próprios ramais ferroviários e uma linha de trilhos duplos ia desde a
cidade até Giurgiu. Assim, as pontes ferroviárias e as barcaças do Danúbio
também constituiriam importantes alvos secundários. Independente das
dificuldades que já existiam, havia também argumentos poderosos em favor da
interrupção do envio de suprimentos das refinarias de Ploesti para a Alemanha.
Antes do começo da guerra as fontes de suprimento de óleo deste país já haviam
despertado considerável atenção. Em agosto de 1938 uma estimativa oficial
britânica situava suas importações de petróleo de todas as fontes em 4,5
milhões de toneladas, e talvez fosse preciso dobrá-las em tempo de guerra.
Seus suprimentos totais iam pouco além de sete milhões de toneladas, embora
houvesse apenas 552.000 toneladas de óleo bruto, vindos principalmente da
província da Vestfália, e 1.600.000 de derivados sintéticos da produção
interna. Esperava-se que, uma vez deflagrada a guerra, um bloqueio naval
viesse cortar da Alemanha todos os suprimentos externos, excetuando-se os da
Romênia e da URSS (cerca de 180.000 toneladas mensais ao todo). Na verdade,
a Romênia constituía uma presa muito mais importante do que as perspectivas
de 1938 indicavam, pois sua produção total chegava a 9,7 milhões de
toneladas. A captura desta indústria petrolífera, portanto, muito contribuiria
para satisfazer as necessidades calculadas da Alemanha de tempo de guerra que
chegavam a 11.700.000 toneladas anuais - embora esta previsão fosse em parte
invalidada pela aquisição de 1,5 milhão de toneladas de petróleo durante as
campanhas européias de 1940 e pela descoberta do campo petrolífero de
Prinzendorf, na Bacia de Viena, que ajudou a elevar a produção das provincias
austríacas para mais de um milhão de toneladas em fins de 1942. Poucos dias após o início
da guerra, em setembro de 1939, o governo britânico decidiu-se pela compra
imediata de excedentes dos estoques de petróleo da Romênia para preempção da
Alemanha, na suposição de que "a restrição dos suprimentos destinados à
Alemanha... talvez reduza a duração da guerra não em semanas, mas em
meses". Este plano, porém, encontrou dificuldades, pois os romenos
exigiram pagamento em dólares e os britânicos a princípio não concordaram
com isso; e logo ficou provado que a influência alemã em Bucareste pesava
muito mais do que se desconfiara. Por fim, concordou-se no pagamento em
fibras inconversíveis e as companhias britânicas foram autorizadas a
oferecer 50 por cento acima dos preços estabelecidos pela Gulf. Em fins de
1939 adquiriu-se certa quantidade e assinaram-se vários contratos a longo
prazo. Infelizmente para a Grã-Bretanha, quando tudo parecia correr muito
bem, a Romênia de repente racionou as exportações de petróleo, provando com
essa determinação, que chegara a um acordo firme com a Alemanha sobre o
fornecimento de petróleo e, a despeito do interesse francobritânico direto
na indústria petrolífera, não conseguira resistir à pressão alemã concernente
às exportações para outros países. Assim, diante do fracasso
da preempção, a Grã-Bretanha recorreu à diplomacia. Pediu à Romênia detalhes
completos de todas as suas transações comerciais com a Alemanha, e à luz da
resposta, revisaria o grau do seu próprio comércio com aquela nação.
Entrementes, como a Alemanha dependia muito do uso das barcaças do Danúbio
para o transporte da maior parte dos seus suprimentos de petróleo da
Romênia, arquitetaram-se planos para adquiri-las na maior quantidade
possível e com esse objetivo criou-se a Companhia Goeland. Pelo final de
1939, dos 382 rebocadores, 2.039 barcaças e 304 navios-tanques pertencentes
aos países que usavam o rio, 148 vasos haviam sido arrendados. Esta relativa
falta de sucesso, conseguida por meios pacíficos, em deter o tráfego do
petróleo pelo Danúbio levou ao exame de medidas mais extremas, como, por
exemplo, o uso de explosivos, que iriam bloquear o rio, ou despachar uma
força expedicionária para a Romênia, ambas as idéias sendo rejeitadas como
ineficazes em termos militares. O governo romeno, sem dúvida instigado pela
Alemanha, logo adotou atitude hostil para com a Companhia Goeland e para com
as empresas comerciais aliadas dentro do pais. A Grã-Bretanha, por sua vez reagiu
confiscando certos bens romenos do Reino Unido e retendo o envio de produtos
destinados à Romênia. Estava agora bem claro que as tentativas comerciais e
diplomáticas no sentido de impedir a remessa de óleo para a Alemanha
redundariam em permanente fracasso, dai os pensamentos voltarem-se para
medidas mais concretas e drásticas. Mesmo antes de se dar o
ataque alemão à Europa Ocidental, em maio de 1940, o primeiro-ministro
francês sugerira o bombardeio dos campos petrolíferos russos no Cáucaso para
cortar o abastecimento da Alemanha; e pouco depois que os Panzers penetraram
nos Países Baixos, o ministro britânico da Guerra Econômica concordou quanto
à conveniência de uma ofensiva aérea contra as fontes petrolíferas romenas.
A RAF bombardeou as instalações de óleo sintético da Alemanha que, mediante
os processos de Bergius de hidrogenação e de Fischer-Troppau, e do uso de
carvão, produziam 90 por cento de toda a gasolina de aviação de alta
octanagem usada pela Alemanha. Um ataque aéreo a essas fábricas, situadas, a
maioria delas, dentro do raio de ação dos bombardeiros britânicos das suas
bases da Inglaterra, mesmo após a queda da França, só podia dar ótimos
resultados. Em punho de 1940, o Estado-Maior da Força Aérea britânica achou
que uma redução das reservas de óleo da Alemanha para 500.000 toneladas
durante os três meses seguintes tornariam sua posição "extremamente
crítica" e, um mês depois, salientou que "os alvos petrolíferos
são muito vulneráveis". Por conseguinte, declarou-se oficialmente em
julho que " ... o petróleo é o elo mais frágil da economia de guerra da
Alemanha ... (e) a destruição dos recursos petrolíferos daquele país
continua sendo a base da principal estratégia ofensiva para a redução e o
deslocamento do seu potencial de guerra", com a esperança adicional de
que os alvos petrolíferos poderiam ser "seriamente avariados por um
ataque em escala relativamente pequena". O favorável ponto de vista
de que o bombardeio da RAF contra as fábricas de óleo sintético poderia ser
preciso e decisivo viria quando uma comissão presidida pelo Sr. Geoffrey
Lloyd concluiu em dezembro de 1940 que apenas 539 toneladas de bombas (6,7
por cento do esforço total do Comando de Bombardeiros da RAF) haviam reduzido
a produção de óleo sintético alemão em 15 por cento. Isto levou Sir Charles
Portal, Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, a concluir que a destruição das
17 principais fábricas de óleo sintético no período de seis meses privaria a
Alemanha de 1,5 milhão de toneladas de óleo. Esta perda tornaria desnecessária
a ação contra a Romênia, embora, como escreveu Lloyd: "A única maneira
de se desfechar um golpe rápido e mortal contra a posição petrolífera do
inimigo está em destruir suas fábricas de óleo sintético e interceptar os
suprimentos romenos". Mais tarde um pouco, Lloyd sugeriu que se iniciassem
sabotagens na Romênia porque sua indústria petrolífera estava além do raio de
ação do tipo de aviões que os britânicos possuíam. Em princípios do ano novo,
o Comando de Bombardeiros da RAF foi informado de que "o único objetivo
primário da sua ofensiva aérea, até novo aviso, deveria concentrar-se na
destruição das fábricas de sintéticos alemães", e segundo a confiante
expressão de Sir Richard Peirse, Chefe do Comando de Bombardeiros da RAF,
"temos condições de fazer o que for necessário". Infelizmente, e
por várias razões, sua confiança mostrou-se por demais otimista. Logo se
tornou evidente o exagero dos cálculos apresentados por Lloyd sobre os danos.
O reconhecimento feito na véspera de Natal de 1940, depois que duas fábricas
de Gelsenkirchen foram atacadas por 296 bombardeiros que despejaram 262
toneladas de bombas (sem contar as incendiárias), não revelou nenhum dano
vital, e durante toda uma noite, em fevereiro de 1941, somente seis dos 22
Hampdens e sete dos 44 Wellingtons afirmaram ter bombardeado seus respectivos
alvos petrolíferos. Problemas de navegação, poderio das defesas inimigas,
além de falhas mecânicas, foram em parte os elementos responsáveis por esses
resultados decepcionantes, e a decisão britânica de se concentrar em
ataques noturnos a fim de reduzir a perda de aviões não ajudou na precisão
do bombardeio. Em abril de 1941, o Estado-Maior da Força Aérea Britânica
concordou que houve um erro médio de bombardeio de 1.000 m à noite e de 300 m
durante o dia, e quatro meses depois um relatório oficial concluiu que,
segundo os prognósticos da RAF, apenas um terço dos aviões haviam chegado aos
seus objetivos (não exclusivamente as instalações petrolíferas) embora
realmente a uma distância de 8 km deles, e que sobre o Ruhr o total fora de
um décimo. Além disso, as más condições do tempo reduziam drasticamente o
número de missões de bombardeio. Sir Charles Portal calculara haver
necessidade de 3.400 incursões para incapacitar as 17 principais fábricas de
óleo sintético, no prazo de quatro meses: mas, no período de seis meses, que
abrangia o último trimestre de 1940 e o primeiro de 1941, só se realizaram
646 investidas. Portanto, ao que tudo
indicava, era óbvio que, no momento, infelizmente, não se poderia obter
resultados decisivos no ataque às fábricas de óleo sintético alemães, e em
abril de 1942, o Coronel Oliver Stanley, Secretário de Estado britânico para
as Colônias, concluiu que as possibilidades então existentes não garantiam
um fim satisfatório para esse programa. Assim, ratificou recente avaliação
feita pelo Ministro da Guerra Econômica de que reduzir a produção de óleo do
Eixo em menos de 100.000 toneladas mensais não solucionaria o problema. No
início de 1942, concedeu-se novo auxílio para navegação de aviões, o Gee, e
com isso reavivou-se a esperança de êxito, mas em breve anulada por Sir
Charles Portal. Segundo seus cálculos, mesmo que todas as dez instalações
localizadas dentro do raio de ação do Gee fossem destruídas, ainda assim somente
7,6 por cento da produção alemã seriam afetados e diante das dificuldades que
teriam de enfrentar, isto não iria além de mero um por cento. Estando já provado que as
fábricas de óleo sintético não poderiam ser neutralizadas, a idéia de ação
direta contra a área de Ploesti entrou em franca discussão. Antes do fim de
1940, os britânicos haviam-se dedicado ao exame da possibilidade de incursões
aéreas. A 27 de novembro, Winston Churchill, o Primeiro-Ministro, dirigiu uma
minuta pessoal ao Chefe do Estado-Maior da Força Aérea admitindo que era
incerta a futura situação militar e política do sudeste europeu e sugeria que
"deveríamos começar imediatamente a estabelecer na Grécia uma equipe de
terra e depósitos-núcleos (sic), que facilitassem a pelo menos dois
esquadrões de Wellingtons bombardear os campos petrolíferos romenos",
acrescentando: "Já estamos em grande atraso nesses preparativos e não
convém novos adiamentos". No dia seguinte, Sir Charles Portal entrou em
contato com as autoridades da RAF no Cairo e na Grécia, observando que se a
neutralidade búlgara fosse violada, os campos petrolíferos romenos talvez
tivessem de ser bombardeados a curto prazo: e instruiu para que se tomassem
as providências necessárias no sentido de dois esquadrões de Wellingtons
executarem a tarefa, sugerindo o uso de aeródromos das ilhas gregas de
Lemnos e Mitilene no mar Egeu. No mesmo dia, em Londres, Portal concordou
com a inutilidade de anular os campos petrolíferos, o mesmo não acontecendo
em relação às refinarias situadas em torno de Ploesti, que seriam, elas sim,
"alvos muito bons". Por isso chamou a atenção do Diretor de Planos
para os mapas da área já disponíveis "há algum tempo" e instruiu
para que se fizesse um estudo de viabilidade com a ajuda de especialistas em
petróleo, a fim de decidir quanto ao tamanho das bombas, tipos de espoletas,
etc., necessários para empreender com êxito uma missão de bombardeio. No começo de janeiro de
1941, Anthony Eden, o Secretário de Estado das Relações Exteriores britânico
fez apreciações abordando o assunto. Ele observou que bombardeio ou
sabotagem eram meios possíveis de se lidar com a indústria petrolífera
romena. Se fosse escolhido
bombardeio, seria necessária a retirada do ministro britânico de Bucareste,
e qualquer ataque feito da Grécia iria violar o espaço aéreo iugoslavo ou búlgaro,
para constrangimento dos representantes diplomáticos desses países. Por
outro lado, um ataque aéreo para ter êxito precisava do elemento surpresa, e
a retirada de um ministro de qualquer um desses países poderia alertar as
defesas para a iminência de ação inimiga. Eden prosseguiu dizendo que
"se o bombardeio não for praticável imediatamente, a sabotagem, os
meios complementares, têm de ser a alternativa e explorados ao máximo",
insinuando também que este método evitaria reação internacional desagradável
a um ataque aéreo de preempção. "Os fatores tempo e surpresa são
igualmente vitais e não devem ser prejudicados por intervenção diplomática
não-relacionada com as duras realidades da guerra", continuou. Ele
esperava que, se capturados, os sabotadores não apontassem seus mandantes, e
sendo usada a sabotagem, o ministro britânico não teria de sair da Romênia.
Infelizmente, John Griffiths não estava presente com seus conselhos quanto
aos detalhes técnicos da tentativa dessa natureza. Sua morte fora tão
bizarra quanto sua vida. Em 1930, ele se suicidara num bote ao largo de Alexandria,
no mesmo ano em que o ex-adido militar que o apoiara em Bucareste pereceu no
desastre do dirigível R101. A 28 de janeiro de 1941,
estava pronta uma apreciação detalhada da capacidade da RAF de atacar
Ploesti. Três esquadrões de Wellingtons e dois de Blenheims estavam disponíveis
e poderiam ser acomodados em Larisa e Atenas (Menidi e Eleusis), tendo
Salônica (Sedes) para reabastecimento avançado, se necessário. Ploesti,
Bucareste e Giurgiu estavam ao alcance desses aeródromos, mas para fazer
incursões noturnas sobre as montanhas era preciso bom tempo, esperado apenas
para 10 a 12 noites nos meses de fevereiro e março. Usando bombas de 227
quilos, deveria haver uma carga mensal aproximada de 258 toneladas, mas
tendo-se em mente problemas de navegação e bombardeio, já experimentados na
Europa e que podiam reduzir a tonelagem realmente lançada sobre um alvo,
quatro meses seriam necessários para se atingir o objetivo planejado. Esta
previsão bastante sombria em nada melhorou com a informação
enviada pelo ministro britânico em Bucareste de que a Romênia possuía
capacidade de refinaria duas a três vezes mais do que realmente estava usando
então. Anexa a esta apreciação
operacional estava uma lista de alvos na ordem de importância, baseada na
quantidade de óleo bruto que cada uma processara durante 1939. Em primeiro
lugar vinha o complexo de Astra Romana, de Ploesti (1.844.000 toneladas),
servindo de atrativo os principais pátios de manobra da cidade localizados
ali perto; depois vinha a Concordia Vega (996.000 t), a Romana Americana
(797.000 t), a Steaua Romana, em Campina (600.000 t), o cais de embarque no
Danúbio, em Giurgiu, considerado altamente inflamável, e a refinaria de
Prahova, em Bucareste (186.000 t), também junto de importantes pátios de
manobra. O Lorde Hankey, chanceler do Ducado de Lancaster e presidente de
uma comissão oficial britânica interessada nos suprimentos de óleo alemães,
levantou junto a Sir Charles Portal a possibilidade de se atacar Ploesti em
fevereiro; ressalvando sua proposição com o comentário de que os alvos
petrolíferos romenos, por estarem localizados distantes entre si, não
permitiam ação efetiva por parte das pequenas forças da RAF ora na Grécia e
que a neutralidade das nações balcânicas criava um obstáculo importante. Um
documento do Ministério das Relações Exteriores, datado de 12 de fevereiro,
anunciava a retirada iminente do ministro britânico de Bucareste
(realizada, de fato, dois dias depois) e observava que o Gabinete estava
pensando seriamente em desfechar um ataque aéreo às fontes petrolíferas
romenas. O Ministério ponderava que tais considerações eram
"abstratas", pois nem os gregos nem os turcos permitiriam que a RAF
usasse seus aeródromos para bombardear um país com o qual não estavam em
guerra e o uso da Arma Aérea da Esquadra estava fora de cogitações. Além
disso, qualquer bombardeio da Romênia poderia levar Hitler a ocupar a
Bulgária, pondo em risco toda a área dos Balcãs: "Até que estejamos em
condições de bombardear os poços de petróleo e as refinarias a ponto de
transtornar efetivamente o suprimento de petróleo da Alemanha por longo
período de tempo, não parece de boa política empenharmo-nos em incursões
prematuras e inconcludentes". Não obstante, o projeto
ainda estava muito latente. Em, resposta ao Ministério das Relações
Exteriores, o Estado-Maior da Força Aérea argumentou que "a necessidade
estratégica e não a conveniência política" deveria ditar a ação contra o
petróleo romeno, numa clara inferência de que a violação da neutralidade
deveria ocorrer se fosse, em termos militares, necessária. Pouco antes de
partir para Bucareste, o ministro britânico, Sir Reginald Hoare, advertiu que
as refinarias de Ploesti ainda se achavam "relativamente
vulneráveis", com reduzida proteção cercando as unidades componentes.
Ademais, devido às mínimas quantidades de exportações de inverno, havia
grandes estoques (cerca de 1.650.000 toneladas de produtos refinados)
concentrados em uns poucos lugares; e que "ataques a pontos como
Campina, Ploesti, Giurgiu e Constanta poderiam ser simultaneamente dirigidos
contra intalações, material e construções ferroviárias". A 20 de
fevereiro a pressão para agir partiu de outro setor. A Executiva de Operações
Especiais, sediada no Cairo, estava prestes a iniciar uma campanha de
sabotagem contra o petróleo romeno e queria que a RAF desfechasse um
"ataque simulado", em apoio. Anthony Eden, com o ministro britânico
então fora da Romênia, também deu ênfase à importância de se atacar
Constanta, Giurgiu e a refinaria de Astra Romana, em Ploesti. O Estado-Maior da Força
Aérea, contudo, estava preocupado não com o início da operação desse plano,
mas com a operação em si. Rejeitando o pedido da Executiva de Operações
Especiais, ele explicou que somente nove Wellingtons e um esquadrão de
Blenheim IV estavam disponíveis na Grécia e que, se a Alemanha revidasse na
mesma moeda, não haveria caças em número suficiente para proteger a
população grega. Sir Charles Portal já dissera ao Lorde Hankeg: "Não
creio que haja uma chance em 100 de que os gregos nos permitam usar seu país
como base de operações contra a Alemanha (sic) enquanto não estejam também em
guerra com ela", e a 25 de fevereiro calculou que os alemães tinham de
30 a 40 bombardeiros capazes de chegar à Grécia, partindo da Romênia, e de
100 a 120 bombardeiros de mergulho na Bulgária prontos para investir contra
Salônica. Ademais, ele agora temia que a ação aérea também pudesse provocar
uma invasão da Grécia por terra. Portal sentia-se, pois, muito pouco
entusiasmado com a proposta; e a necessidade de cooperação grega, cuja
obtenção era problemática, também esfriou o entusiasmo do primeiro-ministro.
A 27 de fevereiro, Churchill informou Eden que, independente da opinião militar
do Reino Unido, "os gregos estavam de posse, claramente, da última
palavra". Devido às óbvias
dificuldades no terreno militar e político, o conceito não foi ativamente
adotado nesse estágio. A invasão alemã da Grécia e da Iugoslávia realizada
em abril renovou o interesse. No dia 15, esperava-se oficialmente que o bombardeio
da Romênia se iniciasse o mais breve possível, mas o colapso da resistência
grega e a retirada das forças britânicas do continente logo tornaram
impossível um ataque aéreo. Por conseguinte, em vista dos desenvolvimentos
de pós-guerra, deve-se destacar uma nota do Ministério das Relações
Exteriores, datada de 25 de abril: "Recentemente vimos tentando
interessar os russos na possibilidade de iniciar algum tipo de movimento
revolucionário na Romênia, com o objetivo de conseguir sua retirada da guerra".
Nessa época, a URSS e a Grã-Bretanha ainda não tinham cortado relações com
aquele país. Halpro: fracasso de uma missão Quando a "Operação
Barbarossa" levou a URSS à guerra, em junho de 1941, a Força Aérea
Vermelha realizou alguns ataques esporádicos à Romênia. Num destes, feito
durante a primeira semana de julho, não só dois petroleiros sofreram avarias
no porto de Constante como também foram atingidas Bucareste e Ploesti. A 14
de julho, seis aviões russos atacaram a Unirea Orion de uma altitude de 600 a
1.000 m ao anoitecer, e segundo opinião geral, destruíram 18 tanques,
puseram a refinaria fora de,ação por quatro meses e causaram danos avaliados
em mais de um milhão de dólares. As notícias veiculadas sobre os ataques
russos levaram imediatamente o Lorde Hankey a dirigir "um apelo
final" aos Chefes de Estado-Maior britânicos no sentido de uma ação
vigorosa contra as fábricas de sintético da Alemanha, mas estando as
principais bases britânicas agora na África do Norte, não se podia planejar uma
operação realista pela RAF contra a Romênia. Porém, a 14 de janeiro de
1942, os britânicos tornaram a revisar a situação. Ploesti ficava a 600 km
de Sebastopol e a 1.000 km de Yekaterinodar, na Rússia. Da Cirenaica até
Yekaterinodar, passando por Ploesti, a distância era de 2.400 km, de modo
que, contando com a cooperação russa, talvez se pudesse realizar um ataque
aéreo. Durante o inverno romeno, de 0° a 5º C era normal e até 15º C era
possível, de modo que os danos causados a casas como a refinarias poderiam
ser muito lucrativos. Eram necesários, no mínimo, dois meses para reconstituir
uma fábrica totalmente bombardeada, e as unidades de destilação necessitavam
de seis semanas a três meses; as unidades de craqueamento, de três a quatro
meses, e as casas de caldeiras, de um a dois meses. Com Liberators
quadrimotores agora à disposição (adquiridos para fins comerciais antes que
os Estados Unidos entrassem na guerra), os britânicos talvez pudessem
reduzir a produção romena de óleo de nove milhões para um milhão de toneladas
anuais. Fazendo uso de bombas de 227 kg e realizando 90 incursões por mês,
um esquadrão desses bombardeiros pesados levaria 17 meses para conseguir seu
objetivo, mas dois esquadrões poderiam faze-lo em pouco mais de cinco meses. Contudo, sabia-se que
Ploesti achava-se bem fortificada em sua volta. Oito aeródromos aptos para
entrar em ação estavam situados a 145 km da cidade; um cinturão interno de
defesas estendia-se até 8 km e um cinturão externo, até 45 km do seu centro.
O calibre das armas aumentava a começar pelas metralhadoras instaladas perto
das refinarias até os canhões antiaéreos pesados, no círculo externo, estes
últimos guarnecidos por alemães a partir de novembro de 1941. Paredes duplas
de tijolos reforçadas com cimento haviam sido erguidas em redor das unidades
mais expostas: na Astra Romana, estas tinham 7 m de altura com base de 1,30
m de largura, diminuindo para 30 cm no topo; as da Unirea Orion eram de 70 cm
na base e 14 cm no topo, com pilares de reforço feitos de tijolos erguidos a
cada 5 m ao longo da parede. Muitas instalações também foram camufladas (a
torre de fracionamento da Dacia Romana foi pintada de "verde
sujo") e corria a versão de que havia duas Ploestis falsas. Uma delas
ficava a 13 km a noroeste e a outra, em Albesti, a 12 km a leste da Ploesti
propriamente dita, com refinarias instaladas num contorno de luzes, a cerca
de um metro acima do solo e contendo pequena quantidade de óleo que se
incendiaria durante um ataque, tudo não passava de simples imitação.
Destinada principalmente aos bombardeios noturnos, esta cidade, apenas uma
farsa, conseguiu certa vez enganar os russos. Em fevereiro de 1942,
segundo observação da RAF, a distância de Chipre a Ploesti era de apenas
1.100 km, caso o espaço aéreo turco fosse volado. Se, contudo, isto fosse
politicamente inaceitável e tivesse de ser usada a Cirenaica (El Adem ficava
a 1.440 km de Ploesti), os Stirlings, os Manchesters e os Halifaxes não
teriam raio de ação suficiente para agir, a menos que conseguissem pousar e
reabastecer na URSS. O Liberator era o único avião capaz de voar até Ploesti
e regressar, mas só havia dois esquadrões de Liberators da RAF no Oriente
Médio, número insuficiente para se lançar a um ataque eficaz. Dois meses depois o
projeto voltou a ser examinado. O Ministério da Guerra Econômica estimou que
seis das refinarias de Ploesti alcançavam quatro milhões de toneladas de
produção por ano e que, em vista do envolvimento dos alemães na campanha
russa, poder-se-ia obter resultados contundentes se elas fossem postas fora
de ação por três meses. O QG da RAF no Oriente Médio (HQ RAF ME), foi
consultado pelo Ministério da Aeronáutica: "Que mais seria necessário
para se alcançar o objetivo mediante um, repetimos, um ataque diurno de
surpresa e de baixo nível, efetuado por bombardeiros pesados transportando
bombas SAP a ser lançadas contra as casas de força das refinarias?" O
Ministério da Aeronáutica acrescentou que estava em cogitação o uso de
Beaufighters munidos de granadas de canhão incendiárias AP contra as instalações
de destilação e craqueamento. E solicitou ao HQ RAF ME que calculasse o
possível êxito de um ataque noturno de grande altitude "tendo em mente
as dificuldades de localização do alvo e as defesas antiaéreas", que
comentasse sobre a possibilidade de cooperação russa e examinasse a
viabilidade de um ataque a ser desfechado por 500 pára-quedistas. A resposta, dada a 26 de
abril, não foi satisfatória. Dizia ser impossível neutralizar por três meses
as instalações de Ploesti de bases do Oriente Médio e era mínima a chance de
êxito num ataque de baixo nível através de proteção antiaérea e balões. O QG
da RAF no Oriente Médio salientou que 15 ou 16 casas de força deviam ser
"destruídas, e não danificadas" e que o excedente de energia
disponível provavelmente é de 50 por cento acima das necessidades
normais". Um ataque diurno vindo pelo mar Egeu, sobrevoando a Turquia,
era considerado "perigoso" devido à cobertura RDF inimiga e
precisava de pelo menos oito esquadrões de bombardeiros pesados munidos de
bombas de 113 e 227 kg GP e incendiárias, e não bombas SAP: em vez disso,
seria preferível um ataque noturno contra a Astra Romana, mesmo correndo o
risco de bombas erradamente caírem em quatro outras refinarias. "O
ataque direto por 500 pára-quedistas era extremamente perigoso e exigiria
grande número de aviões-transportes, provavelmente à custa do esforço de
bombardeio: a infiltração por grupos pequenos de sabotadores provavelmente
seria mais eficaz", prosseguia a resposta. O HQ RAF ME achava que as
negociações com a URSS poderiam ser melhores se realizadas por Londres e que
os aviões russos provavelmente seriam incapazes de realizar uma ação eficaz
das bases que tinham então. Uma avaliação feita dois dias depois observava
que doze aeródromos em Chipre tinham pistas longas (cinco delas macadamizadas),
que a distância de Nicósia a Ploesti (sobre a Turquia) era de 1.360 km, de
Krasnova a Ploesti 1.080 km, e de Fuka (Egito) a Ploesti 1.660 km
(evitando-se território neutro). Ela acrescentava que o Liberator II tinha
raio de ação operacional de 2.900 km e velocidade de cruzeiro de 288 km/h a
5.000 m nas condições do Oriente Médio. Na terceira semana de
maio, o Ministério da Aeronáutica tornou a levantar a possibilidade de ação
pára-quedista. Citando o Sr. Berthould, perito em petróleo, o Ministério
dizia que 30 a 40 pára-quedistas poderiam incendiar três ou quatro poços de
pressão no campo de Tintea e o fogo não seria extinto antes de seis meses:
durante aquele período, o inimigo perderia 10.000 toneladas de óleo bruto em
cada poço. A viabilidade de se combinar um bombardeio contra as refinarias
de Ploesti com ação pára-quedista nos campos petrolíferos de Tintea deveria,
portanto, ser examinada. O HQ RAF ME respondeu prontamente e criticando. O
ataque de pára-quedistas talvez se mostrasse proveitoso, mas um engenheiro,
o Sr. Glyn-Jones, consultara técnicos no Iraque e concluíram que, com os
métodos modernos, os alemães poderiam apagar o incêndio de um poço de pressão
num único dia, no máximo, embora talvez fossem precisos até cinco dias para
se cuidar de quatro ou cinco simultaneamente. Além disso, visando segurança,
era provável estar em uso número bem reduzido de poços - dos 50 existentes
em Kirkuk, somente cinco estavam operando. A resposta igualmente incisiva do
Ministério da Aeronáutica era a de que o Major Boaden e o Sr. Forster, ambos
de grande experiência administrativa em refinarias, seriam logo consultados
e pediu-se ao Capitão Fitzroy Maclean que opinasse quanto ao emprego de
pára-quedistas. O HQ RAF ME acabou concordando que "tecnicamente havia
uma chance de se alcançar o objetivo", mas alegou falta de pessoal
suficiente para um salto de pára-quedas no momento. Esta ausência de
entusiasmo do Cairo por uma operação aeroterrestre veio logo atrás de uma
avaliação anterior de que a RAF não tinha condições de bombardear Ploesti partindo
de bases do Oriente Médio. Na verdade, a RAF não podia
fazer qualquer exame de uma ação contra Ploesti em 1942 sem levar em conta
os Estados Unidos, que haviam demonstrado interesse na indústria petrolífera
romena tão logo entraram na guerra. Um mês após ter-se dado o ataque a Pearl
Harbor, os americanos estudaram a viabilidade de uma investida contra
Ploesti. Mesmo antes da Lei de Empréstimos por Arrendamento, de março de
1941, os primeiros modelos de caças P-40 haviam sido adquiridos pela RAF no
Oriente Médio e um grupo de homens da Força Aérea Americana foi parar no
delta do Nilo investidos da função de consultores e especialistas em
manutenção. Esses homens e respectiva aparelhagem voaram de Takoradi, na
África Ocidental, passando por uma série de pontos de parada temporária com
nomes romanticamente inverossímeis como Maiduguri. Fort Lamy, Ati, El
Geneina e El Obeid, e instalados em toda sorte de lugares improváveis, sobre
colinas, desertos e pântanos, por toda a extensão do continente até
Khartoum, e dali para bases no delta do Nilo. Usada pela primeira vez em
setembro de 1940, esta rota, denominada oficialmente Rota de Reforço da
África Ocidental, atingiu seu ponto máximo de entrega com 1.455 novos aviões
entre maio e dezembro de 1942. Durante junho de 1941, a
rota de Takoradi esteve ligada aos Estados Unidos por aviões das fábricas
americanas até a Flórida, dali pelas Antilhas até Natal, na costa atlântica
do Brasil, sobre o atlântico até Gâmbia e Serra Leoa ou Libéria e, por fim,
até Takoradi, no território da Costa do Ouro. Em setembro de 1941, criou-se
a Missão Militar Americano-Norte-Africana e, um mês depois, o
Brigadeiro-General Russel L. Maxwell recebeu ordens de organizar e operar
instalações de suprimento, manutenção e treinamento para os britânicos e
outras forças aliadas na área. Entrementes, os americanos estavam pilotando
os aviões, adquiridos nos termos da Lei de Empréstimos por Arrendamento, até
o Egito e conseguindo assim valiosa experiência nas condições dominantes do
Oriente Médio. Uma vez os Estados Unidos em guerra contra as potências do
Eixo, Maxwell deixou de ser consultor e passou a dar assistência na
distribuição dos recursos americanos. Examinaram-se planos para
a possibilidade de bombardeiros americanos (inclusive as superfortalezas
B-29, que ainda não estavam em serviço ativo) operarem do Egito contra o sul
da Europa a fim de suplementar a ação realizada da Grã-Bretanha. Mas na
Conferência Arcadia, realizada em dezembro de 1941 entre representantes
britânicos e americanos, não se previa o uso imediato de grande número de
americanos naquela área. Contudo, com a perda das ilhas Guam e Wake no mesmo
mês, decidiu-se reforçar as Filipinas pelo Oriente Médio, Irã, Índia e
Birmânia, porque a rota pelo Havai e Austrália ainda não estava plenamente
em função. Isto exigia o reforço de pessoal e instalações americanas no
Oriente Médio, que se tornou mais importante ainda como ponto de referência
estacionário, depois que a 10ª Força Aérea do Major-General Lewis H. Brereton
foi criada na Índia, em março de 1942. Com grande número de
militares americanos agora sediados no Oriente Médio, a Grã-Bretanha estava
ansiosa por envolver a Força Aérea Americana com mais intensidade nas
operações. Em janeiro de 1942 criou-se, teoricamente, a Força-Tarefa Cairo,
que pretendia conseguir dois grupos de caças num período de seis meses,
embora os Estados Unidos fossem contrários ao destacamento de um grupo de
bombardeiros com esses efetivos, alegando serem eles integrantes dos aviões
destinados à campanha contra a Alemanha vindos de bases do Reino Unido.
Porém, em março concordou-se que se a Grã-Bretanha deslocasse aviões americanos
do seu próprio esquadrão do teatro da guerra, a Força Aérea Americana os tripularia.
Assim sendo, previu-se um efetivo de cinco grupos num futuro próximo. Embora,
na primavera de 1942, ainda não houvesse compromisso operacional americano
com um ataque a Ploesti, demonstrara-se interesse no planejamento e o
envolvimento da Força Aérea Americana no Oriente Médio parecia indicar
possível ação mais tarde. Sem dúvida, o ataque a
objetivos industriais sintetizava muito bem a política de bombardeios da
Força Aérea Americana. Durante os anos entre a Primeira e Segunda Guerras
Mundiais, teóricos da guerra, como Guilio Douhet, e aviadores experientes, como
Sir Hugh (mais tarde Lorde) Trenchard, na Grã-Bretanha, e William Mitchell,
nos Estado Unidos, haviam salientado a necessidade de se desenvolver
bombardeiros pesados. Especificamente, a doutrina do bombardeio estratégico
- atacar a fonte do poderio inimigo em sua pátria - se desenvolvera a partir
da experiência, limitada, adquirida na Primeira Guerra Mundial e dos argumentos
de protagonistas do poderio aéreo. Os alvos precisos de uma campanha de
bombardeio estratégico - cidades, instalações militares ou fábricas - não
conseguiam apoio universal. Mas a posição americana era clara. Os Estados
Unidos continuavam firmes na opinião de que somente os alvos industriais
ligados ao esforço de guerra deviam ser atacados. Por isso, a 14 de setembro
de 1939, dia em que a guerra estourou na Europa, o Presidente Roosevelt
apelou a todos os beligerantes para que não se entregassem à guerra aérea
irrestrita, que poderia envolver alvos e pessoal não-militares. Esta
política foi sintetizada no começo da guerra pelo General H. H. Arnold, Chefe
das Forças Aéreas do Exército Americano: "A função principal do
bombardeio é destruir instalações inimigas vitais, fábricas etc."
Portanto, o objetivo dos bombardeiros pesados americanos era atacar com
precisão alvos industriais dentro da pátria do inimigo. A indústria petrolífera
romena, sobretudo as refinarias em Ploesti, com o passar do tempo atrairiam a
atenção da Força Aérea Americana. Os britânicos já haviam observado que
somente o Liberator (o nome britânico para o B-24) podia fazer uma viagem de
ida e volta entre as bases norte-africanas e Ploesti. Esse avião fora
aperfeiçoado há pouco tempo. O contrato para um protótipo, com
especificações de 480 km/h, raio de ação de 4.800 km e teto de 11.500 m, fora
concedido à Consolidated Aircraft Corporation, em março de 1939, mas o XB-24
só voou a 29 de dezembro do mesmo ano. Caracterizado por asa alta com os
aerofólios Davis de grande elevação, o aparelho tinha menos arrasto do que
os de desenho mais convencional. Estabilizadores verticais duplos na seção da
cauda visavam dar maior controle ao bombardeio de precisão, embora, em muitos
aspectos, este avião de aparência de bloco fosse difícil de manejar. O
compartimento de bombas central, dividido em compartimentos dianteiro e
traseiro, era projetado para transportar 3.632 kg de bombas, mas o XB-24,
mesmo com os quatro motores Pratt & Whitney de 1.200 hp, só podia
alcançar 437 km/h e seu armamento consistia apenas de três metralhadoras
calibre .3, portáteis, na dianteira e metralhadoras de .3 duplas na cauda.
Era tal à pressão exercida em favor de bombardeiros pesados, além da B-17 (as
Fortalezas-Voadoras) já em serviço, que o Corpo Aéreo do Exército fez um
pedido de 36 B-24, mesmo depois de provadas as deficiências do aparelho.
Além disso, a Grã-Bretanha encomendou 164 e a França, 120, com o pedido
desta última sendo anexado ao britânico quando a França caiu. O primeiro modelo
britânico (o LB-30A, que a RAF batizou de Liberator) voou a 17 de janeiro de
1941. Seis meses mais tarde, a Força Aérea Americana recebeu seu primeiro
B-24A operacional, que tinha seis metralhadoras de .50 e mais metralhadoras
duplas de .3 na cauda. O Liberator II apareceu no Oriente Médio em novembro
de 1941, mas era um tipo especial da RAF, que não chegou a entrar em serviço
na Força Aérea Americana: 139 deles, armados de 10 metralhadoras de .303,
foram adquiridos pela Grã-Bretanha. Entrementes, nos Estados Unidos, seu
desenho sofrera muitas modificações e o primeiro modelo Liberator a chegar
às unidades da Força Aérea Americana para bombardeio, em contraposição aos
usados para reconhecimento, foi o B-24D. Possuía 10 metralhadoras de .50, uma
carga maxima de bombas de 3.632 kg e capacidade de combustível aumentada por
tanques auxiliares autovedadores nas asas externas para 3.009 galões
imperiais (3.614 galões americanos ou 13.680 litros), com espaço ainda para
outros tanques no compartimento de bombas. Versões posteriores do B-24
tinham uma torreta semi-esférica Briggs-Sperry, eletricamente acionada e colocada
atrás do compartimento de bombas, embora isto criasse mais arrasto e
reduzisse a velocidade máxima para aquém dos teóricos 485 km/h a 8.200 m. No
todo, o B-24D padronizado, com envergadura de 36,30 m, tinha 21,88 m de
comprimento e 6 m de altura; a velocidade de cruzeiro era de 320 km/h, tinha
teto de 9.200 m e raio de ação máximo de 3.680 km. O armamento das
diferentes versões do B-24D variava de seis a 11 metralhadoras de .50 e a
tripulação era de nove ou dez homens. A imponente aparência da fuselagem do
B-24 fê-lo merecedor do apelido de "Vaca Prenha", dado pelos homens
das Fortalezas-Voadoras, e devido à sua instabilidade em certas
circunstâncias, o de "Banana Boat", dado pelos próprios
tripulantes. Como avião de finalidades
gerais, o B-24 desempenhava diversos papéis (reconhecimento, transporte,
bombardeio) e Lewis H. Brereton, que comandaria a 9ª Força Aérea empenhada no
ataque de 1943 a Ploesti, considerava-o "um bombardeiro magnífico".
Porém, curiosaqiente, Jacob E. Smart, que ajudou a planejar aquele ataque de
baixo nível, achava-o medíocre para esse tipo de missão: "De todos os
aviões do mundo não há, sem dúvida alguma, outro menos adequado ao
metralhamento de terra do que o B-24. Ele é relativamente lento... e para o homem
em terra dá a impressão de que pode ser derrubado com uma pedrada". Essa
conclusão revelar-se-ia terrivelmente precisa a 14 de agosto de 1943. Nesse meio tempo, o acaso
pusera vários B-24 da Força Aérea Americana à disposição para atacar Ploesti
em meados de 1942. No começo de janeiro, a Divisão de Planos da FAA, em
Washington, examinou uma explanação do Coronel Bonner F. Fellers, Adido
Militar Americano no Cairo, segundo a qual Ploesti era vulnerável a ataques
de bombardeiros pesados e, pelo final daquele mês, Harry L. Hopkins,
conselheiro do Presidente Roosevelt, perguntou ao General Arnold se tal
ataque aéreo seria possível. Arnold respondeu que, embora as perdas pudessem
ser elevadas, os B-24 da Grã-Bretanha chegariam, sem dúvida, a Budapeste, na
Hungria. Ploesti estava além do seu raio de ação e nenhum bombardeiro pesado
americano podia desviar-se para o Oriente Médio e atacar dali. Dois meses
depois, Fellers voltou ao assunto salientando que a indústria petrolífera
romena estava "bem ao alcance" dos bombardeiros americanos sediados
no Egito e que o Marechal-do-Ar Sir Arthur Tedder, Comandante-Chefe da RAF no
Oriente Médio, dispunha-se a fornecer combustível, bombas, munição e
instalações de manutenção. Fellers achava que o petróleo romeno constituía
"em muito o objetivo mais decisivo... o alvo de grande valor estratégico
da guerra" e insistiu para que uma força-tarefa americana fosse enviada
para o Oriente Médio, a fim de dar uma contribuição positiva àquele teatro da
guerra. Nessa época, após o ataque
desfechado a Tóquio pelos aviões do Tenente-Coronel James H. Doolittle que
decolaram dos porta-aviões Enterprise e Hornet, em abril, planejou-se
enviar 24 B-24 num vôo até a China, comandado pelo Coronel A. Halverson,
para realizar ataques ao Japão pelo oeste, por aviões baseados em terra. Em
meados de maio este projeto começou a suscitar dúvidas, já que as forças
japonesas em seu avanço para o oeste ameaçavam engolfar os aeródromos de
Chenkiang, dos quais os aviões do Projeto Halverson (Halpro) pretendiam sair
para o ataque. A 15 de maio de 1942, uma avaliação da Divisão de Planos
concluiu que uma missão contra Ploesti era o melhor meio de ajudar a URSS,
que agora enfrentava o reinicio do avanço alemão, anteriormente impedido
pelas condições invernais. Naquele dia, na Divisão de Planos, o Subchefe do
Estado-Maior da Força Aérea recomendou que se usasse a força Halpro contra
Ploesti devido à posição militar incerta existente na China. No dia seguinte, a
delegação da RAF (RAFDEL) em Washington comunicou que o General George C.
Marshall, Chefe do Estado-Maior do Exército Americano, anunciara sua intenção
de sugerir ao Presidente Roosevelt para que os B-24 destinados à China e
prontos para deixar os Estados Unidos, deveriam "agora ser empregados
em operações de surpresa no Oriente Médio contra as refinarias de petróleo de
Ploesti". Marshall queria atacar o mais depressa possível e estava
ansioso por usar Alepo, na Síria, como base. A RAFDEL, observando que a RAF
possuía dados consideráveis obtidos num estudo anterior sobre tal projeto,
acreditava que dois grupos de bombardeiros pesados americanos, podiam ser
acomodados no Oriente Médio, e favorecia operações no delta do Nilo ou no
Deserto Ocidental a fim de evitar a violação do espaço aéreo turco. O
Ministério da Aeronáutica de Londres respondeu imediatamente instruindo a
delegação em Washington a apoiar o plano de Marshall, acrescentando que era
"muito conveniente fazer com que as Forças Aéreas Americanas se
estabelecessem no Oriente Médio e este pretexto era excelente". O
Ministério da Aeronáutica também registrou uma estimativa do HQ RAF ME de que
um mínimo de oito esquadrões (128 aviões) seria necessário para um ataque
diurno de surpresa e em seguida reacendeu outro conceito favorito: "Há
possibilidades de um ataque de surpresa com pára-quedistas e para o qual se
poderia usar esses aviões". O Presidente Roosevelt
aprovou a sugestão de Marshall e as necessidades logísticas foram logo
encaminhadas a Londres. Os B-24 do Halpro eram capazes de um "raio de
ação em ar calmo" de 5.800 km e com um peso bruto antecipado de 26.332
kg seriam necessários 3.000 galões de combustível por avião. Além disso,
3.000 cartuchos de munição de .50 e uma carga de bombas de 2.724 kg por
aparelho por incursão tinham de ser providenciados. A 17..de maio, a RAFDELL
informou Londres que podiam esperar a chegada de 23 B-24 em Khartoum, no
Sudão, pela Rota América Central-Brasil-Takoradi por volta de 28 de maio. O
Coronel Halverson pretendia comandar pessoalmente a formação, que consistiria
de três escalões de sete, oito e oito aparelhos e partiria dos Estados Unidos
a 22 de maio, no mesmo dia em que um grupo avançado do Coronel Craw, Major
Zuckerman e Major Williams chegou ao Cairo. Os aviões ficariam em Khartoum
por questões de segurança, embora se planejasse o movimento final para Alepo
ou Mosul (no Iraque). Dois dias depois a RAFDEL comunicou: "Autoridades
americanas solicitam censura rigorosa quanto aos preparativos para operações
e nenhuma publicidade subseqüente". A iminente chegada dos
aviões do Halpro em Wadi Seidna, Khartoum, provocou da parte dos britânicos o
pedido para que fossem usados na proteção dos comboios vitais que estavam
zarpando a fim de levar ajuda à sitiada ilha de Malta. No começo de junho, o
Marechal Sir John Dill, Chefe da Missão de Estado-Maior Conjunto em Washington,
informou que Marshall acreditava que o uso dos B-24 como proteção a um
comboio que se dirigia a Malta revelaria sua presença no Oriente Médio - o
que mostrava comovente fé na segurança egípcia. Dill advertiu que maior
pressão no sentido de usar os bombardeiros para esse fim poderia provocar
ressentimentos, mas comentou que "os americanos dão valor muito exagerado
à operação Halpro que, aliás, julgo ter sido sugestão do Presidente".
Segundo Dill, o General Marshall pensava que "se esta missão fosse
completada com êxito, e havia grandes chances de o ser, desde que se conseguisse
o elemento surpresa, teria grande efeito sobre toda a guerra". Winston Churchill, sem se
deixar dissuadir por Dill, redigiu um apelo ao Presidente Roosevelt no
sentido de usar os aviões do Halpro para impedir a rendição de Malta e de
seus 30.000 homens, salientando que o inimigo já devia estar a par da chegada
de Halverson em Khartoum. Na verdade, Churchill não chegou a enviar a
mensagem, embora outros pedidos fossem dirigidos a Marshall, que, com
relutância, concordou com a petição do uso dos aviões, mas somente se a
esquadra italiana se aventurasse pelo Mediterrâneo, e o primeiro-ministro
britânico teve de aceitar a condição. A 7 de junho, três aviões do Halpro já
estavam no aeródromo Fayid, na margem norte do grande lago Amargo, no Egito,
e outros 16 viriam de Khartoum no dia seguinte, completando assim um vôo de
quase 6.400 km desde os Estados Unidos. No caminho, os aviões haviam
sobrevivido a um ciclone e um dos B-24 teve de pousar no distante ponto de
parada de El Fasher para reabastecer. Pouco depois, o HQ RAF ME acabou de
vez com qualquer esperança de um salto de pára-quedistas imediato, revelando
que o único pessoal adequado para faze-lo achava-se empenhado em outra
missão, até 22 de junho. Depois disso, a data lunar favorável seria 7 de
julho. Como não haveria tempo para treinar os homens em saltos dos B-24
sobre território desconhecido, agosto foi considerado a época melhor indicada
para tal operação. O Coronel Halverson estava disposto a cooperar e,
portanto, achou-se preferível esperar até esta última data, para evitar
possível confusão devido a treinamento insuficiente. O HQ RAF ME acreditava
que um bombardeio prévio de Ploesti não prejudicaria este projeto
aeroterrestre, mas, ao contrário, até o ajudaria, pois os romenos não
poderiam imaginar que seus campos petrolíferos estivessem em perigo. Por conseguinte,
providenciou-se para que a força do Coronel Halverson bombardeasse a
refinaria Astra Romana, de Ploesti, ao amanhecer de 12 de junho de 1942, com
a possibilidade de que, em agosto, os B-24 voltassem lá com pára-quedistas
para trabalhos de sabotagem nos poços petrolíferos de Tintea. O
Comandante-Chefe da RAF no Oriente Médio, Marechal-do-Ar Tedder, queixou-se,
após a missão, que a "força não operou sob minhas ordens e desde que chegou,
o Coronel Halverson não teve boa vontade em aceitar qualquer conselho ou
instrução operacional". Não há dúvida de que Halverson conseguiu
aborrecer os oficiais da RAF no Egito, mas ele se compenetrara de que essa
missão devia caber exclusivamente aos americanos, como questão de orgulho
nacional. Isto porque, com exceção do esforço de Doolttle no Extremo Oriente,
não houvera nenhuma missão de bombardeio independente pela Força Aérea Americana
em território inimigo. A fim de realizar um
ataque ao amanhecer, os aviões do Halpro decolaram de Fayid entre 22h30 e
23h, a 11 de junho. Oficialmente, os 13 aparelhos que levantaram vôo (o
número máximo disponível devido a problemas de manutenção), obedecendo um
plano da RAF, preparado pelo 205º Grupo, deviam tomar cada um o rumo norte
sobre o Mediterrâneo Oriental e reunir-se pouco depois do amanhecer perto de
Constanta, na costa oeste do mar Negro, para um bombardeio combinado. O vôo
de ida seria feito a 10.000 m, descendo, após o encontro, para uma altura de
bombardeio entre 3.300 m e 4.000 m. De Constanta, os aviões deviam acompanhar
o oleoduto até o Danúbio no seu curso norte para Galatz, tomar seu
tributário, o Ialomita e depois o rio Teleajen até chegar a Ploesti. Os B-24
voltariam para Fayid e nos dois percursos do seu vôo de 4.100 km, costeando a
Turquia a oeste para evitar violação do seu espaço aéreo neutro. Isto foi aceito e a
necessidade de contornar a Turquia foi salientada numa reunião para
instruções gerais a 11 de junho. Mas logo depois, Halverson convocou outra
reunião, sem a presença do pessoal da RAF. Soube-se então que Halverson
propunha dirigir-se para o aeródromo de Habbaniyeh, no Iraque, após o ataque
e não foi possível dissuadi-lo disso. Tedder comentou amargamente:
"Desconfio que ele não tinha intenções de respeitar a neutralidade turca
a despeito das minhas recomendações em contrário", pois os britânicos
também acreditavam que naquela reunião particular Halverson decidiu ir direto
para Constanta na viagem de ida, sobrevoando a Turquia em vez de contorná-la.
Parecia ainda que, embora os aviões levantassem vôo separadamente, conforme
planejado, não se providenciara nenhum encontro e nem se prepararam planos
para identificação adequada do alvo. Oficialmente, todos os 13
aviões "chegaram ao objetivo" com "a maioria dos aparelhos
bombardeando abaixo das nuvens", "cerca de 10" atingindo a
Astra Romana, um atacando Constanta e os dois restantes, "alvos
não-identificados". Durante o ataque, "encontraram-se alguns
caças, artilharia antiaérea bastante intensa e uma barragem de balões, e
pelo menos um Me-109 foi destruído". Mas segundo a avaliação da RAF
datada de 14 de junho, "A impressão geral é que a maioria dos aviões
deitou fora suas bombas fosse na HCC (hora calculada de chegada ao alvo; em
inglês, ETA) acima das nuvens (cerca de 5.200 m) ou através delas. É bem
improvável que eles tivessem causado algum dano". Na verdade, um avião
soltou bombas no porto de Constanta e voltou para a base com problemas de
mecânica; os outros 12 não se juntaram, mas se dirigiram, cada um por sua
vez, para onde julgavam estar o alvo. Ali, despejaram 4.000 lb. de bombas,
alguns em plenas nuvens na altitude mínima de 3.000 m, sem mesmo avistar o
alvo. A Força Aérea Americana citou um "relato não confirmado" de
que "um depósito de óleo (não-especificado) de Ploesti foi destruído,
uma bomba caiu nos bosques, outra atingiu a estação ferroviária, enquanto que
algumas caíram sobre Constanta mas causando poucos danos"; as fontes
romenas e alemães preferiram ignorar a intrusão. Uma semana depois, The Times
de Londres publicou um relato do seu correspondente em Ancara dizendo que
"tanto quanto se pode averiguar, o ataque foi bem sucedido. Todos os
depósitos, refinarias e outras instalações de Ploesti foram atingidos e
incendiados". É quase certo que este conto de fadas se baseou em
informações dadas por aviadores americanos que foram internados após pousarem
na Turquia. Pois somente quatro aviões (incluindo o de Halverson) chegaram a
Habbaniyeh depois de 12 horas de vôo, três deles pousaram noutras partes do
Iraque (em Ramadi, Mosul e Deir ez Zor); dois em Alepo, na Síria, e quatro
na Turquia (um deles com dois motores, perto de Ada Bazaar e três no
aeroporto civil de Ancara). O adido naval britânico em Ancara informou que os
três últimos estavam todos virtualmente sem combustível e "ao saírem
dos aviões, os pilotos traziam um livrinho que continha o número dos
telefones dos adidos britânicos e americanos", e, segundo ele, isso
"parecia muito estranho". Ele acrescentou que aparentemente
Ploesti estava cercada por poderosas defesas antiaéreas; que os caças
alemães haviam perseguido os B-24 até que os canhões turcos estacionados no
lado europeu do Estreito de Bósforo abriram fogo e os obrigaram a voltar e
penetrar na Bulgária. Os quatro aviões e 37 tripulantes foram internados na
Turquia. Antes que todos os homens fossem finalmente repatriados, toda uma
tripulação fugiu para Chipre em seu avião e que, após protestos oficiais de
Ancara, foi devolvido à Turquia sem os tripulantes. Em determinado momento
planejou-se trocar um B-24 por dois Baltimores, mas este plano foi
rejeitado. Assim, os aviões foram adquiridos pela Força Aérea Turca e a
missão Halpro para Ploesti acabou perdendo quatro dos 13 Liberators. Todo esse desalentador
episódio, mas na realidade a refinaria Astra Romana ficara incólume, fez
Tedder chegar a uma conclusão apressada, geral e injusta: "Este fracasso
confirma nossa primeira impressão de que o padrão de treinamento das
tripulações dessa força é tal que as torna praticamente inúteis em qualquer
empreendimento". Após o relatório e os comentários de Tedder, o
Ministério da Aeronáutica Britânico chamou expressivamente a atenção para o
pedido feito anteriormente pelos americanos para que não houvesse
publicidade, e acrescentou: "Propomos atender a este pedido, sobretudo
em vista dos patéticos resultados obtidos". Os aviões e tripulações
restantes de Halverson ficaram no Egito e realizaram valioso trabalho no
Mediterrâneo, juntando-se ao 9º Esquadrão de Bombardeio como um "Grupo
Provisório de Bombardeio". Mais tarde ele se tornou o 376º Grupo de Bombardeio
e voltou a visitar Ploesti após quase 14 meses. O Coronel Halverson logo
retornou aos Estados Unidos, provavelmente sob pressão britânica. É certo
que Tedder continuou agitado por causa do seu afastamento do plano de ataque
preparado pela RAF. Três dias após a missão ele tornou a escrever ao
Ministério da Aeronáutica: "Reuni-me com o Coronel Halverson e outros
membros do grupo e o instruí para que em hipótese alguma sobrevoasse a Turquia".
No começo de 1943, porém, um sumário dos acontecimentos do ano anterior no
Oriente Médio, feito pela RAF, justificou indiretamente a decisão de
Halverson e até criticou, da mesma forma, o plano da RAF que lhe fora
entregue. O sumário observava que a viagem de ida e volta direta de Fayid até
Ploesti era de 3.200 km. Um desvio contornando a fronteira ocidental da
Turquia européia na ida e na volta teria colocado os B-24 em grande perigo
nos limites do seu raio de ação operacional máximo, deixando muito pouca
margem de erro ou menor desempenho devido a defeitos mecânicos ou danos
causados por ação inimiga. Além disso, a dispersão total dos B-24 não era
possível em Fayid, que poderia sofrer ataque aéreo de retaliação inimigo
após seu retorno. Considerando esses fatores, tomou-se a decisão de voar
para Habbaniyeh, concluía o sumário. Qualquer que seja a
verdade sobre este assunto, e não há dúvidas de que o choque de
personalidades entre Halverson e Tedder, além da insistência americana em
guardar segredo não ajudou a esclarecer as coisas, é evidente que pouco ou
nenhum dano importante foi causado à área de Ploesti. O General Eisenhower
comentou que o ataque "fez algo para acabar com a ilusão de que uns
poucos aviões grandes podiam ganhar uma guerra"; mas neste ataque do
Halpro provou-se a capacidade de longo alcance do B-24. O fracasso da missão
determinou que, no futuro, qualquer empreendimento da Força Aérea Americana
de natureza semelhante deveria ser realizado por uma força muito maior e à
luz do dia. Acontece que, infelizmente para os americanos, o inimigo também
se beneficiara com a experiência. Foi alertado para um eventual ataque aéreo
à Romênia, de bases africanas, até então considerado inconcebível e, então,
reforçou suas defesas. Deste modo, os dois
adversários tiraram conclusões dos eventos de 11-12 de junho de 1942, que
asseguraram um assalto mais dramático e destrutivo nessa competição, no ano
seguinte. Ploesti: alvo prioritário Após o fracasso de
Halverson, o petróleo romeno continuou sendo objeto de importância capital
para os envolvidos na guerra. Em novembro de 1942, com o 6° Exército, do
General von Paulus, já em perigo em Stalingrado, o Coronel-General Jodl,
Chefe do Estado-Maior da Wehrmacht, comentou que "nenhum sucesso obtido
pelo inimigo lá (na frente oriental) poderá causar-nos perdas irreparáveis,
a menos que percamos os campos petrolíferos romenos. Um mês depois, numa
reunião do Zentrung Planung informou-se que todas as reservas de gasolina da
Wehrmacht estavam esgotadas. Portanto, a situação apresentava-se crítica,
mesmo contando com o aumento na produção mensal de sintéticos em 60.000
toneladas, para um total de 260.000 t durante 1942, e uma nova fábrica já
estivesse em funcionamento em Breux, na Tchecoslováquia. Tão premente era a
necessidade de mais óleo, que, antes mesmo que as forças alemães cruzassem o
rio Don, no verão de 1942, para penetrar na Caucásia, homens especialmente
treinados haviam sido reunidos para reparar os danos que os russos certamente
causariam às suas refinarias durante a retirada. Setenta e cinco perfuratrizes
também foram reunidas para explorar as 250.000 toneladas de petróleo que se
esperava extrair de Maikop durante o primeiro ano de ocupação alemã. Porém,
ao mesmo tempo, devido à sua dependência de países neutros no fornecimento de
matérias-primas e de certos produtos manufaturados (como rolamentos
antiatrito), a Alemanha concordou em permitir que a Suécia importasse 2.000
toneladas de petróleo romeno por mês; e em outra ocasião, ela própria encarregou-se
de fornecer petróleo à Suíça. Na verdade, em 1942 a
Romênia já estava satisfazendo a contento as necessidades alemães. Das
exportações totais de petróleo romenas, de 4.494.764 toneladas em 1938, a
Alemanha recebeu 999.240 t; em 1941 estes números foram, respectivamente,
4.072.306 e 2.919.580 e, um ano depois, 3.373.542 e 2.191.659. Um fator que
contribuiu para este declínio foi o aumento do consumo interno romeno, de
1.811.000 para 2.098.000 toneladas, no período de 1941 e 1942. Outra razão
foi que, embora a produção de óleo bruto aumentasse nessa ocasião de
5.577.999 para 5.665.000 toneladas, a produção das refinarias caiu de
5.255.000 para 5.237.000 toneladas. Nenhum movimento aliado foi responsável
por isso. Não obstante, essas
variações não diminuíram a vital importância dos suprimentos de óleo romeno,
para a Alemanha. Em fins de 1942, a RAF salientou que a Romênia produzia
5.200.000 toneladas de óleo bruto por ano (total este ligeiramente subestimado),
80 por cento dos quais eram processados por seis refinarias da área de
Ploesti: estas incluíam a única refinaria de cera de parafina e muitas de
óleo lubrificante existentes no país. Também nessa época, fontes americanas
chamaram atenção para a localização de 20 campos petrolíferos romenos numa
área de 960 km de comprimento e 16 km de largura, logo ao norte de Ploesti.
Nesta região, a média de poços era de um para cada 10 acres, embora existisse
uma densidade de oito ou 10 poços por acre em alguns lugares. A maior parte
do óleo bruto extraído era armazenado em tanques no campo e depois levados
por oleoduto ou vagão-tanque para as refinarias, mas "nem os poços de
petróleo nem os tanques de armazenamento eram considerados alvos lucrativos
para bombardeio aéreo". Mais importante eram as refinarias, além de
fáceis de localizar; as situadas perto de Ploesti produziam 85 por cento do
petróleo refinado da Romênia e possuíam quase 95 por cento da sua capacidade
de craqueamento. Na primavera de 1943, já
quase esquecidos os acontecimentos de junho do ano anterior, e talvez por
influência do entusiasmo provocado pelos primeiros sucessos dos bombardeios
americanos sobre a Europa, começou a aumentar a pressão para que se
desfechasse novo ataque a Ploesti. Em resposta a uma instrução dos Chefes de
Estado-Maior Combinados (CCS), a 8 de março de 1943 os Analistas da Comissão
de Operações de Washington situaram o petróleo como o terceiro alvo inimigo
mais importante na lista, isto é, logo depois da indústria de aviões de caça
e da de rolamentos de esfera. Sua subcomissão encarregada da Indústria
Petrolífera do Eixo informou que dois terços dos suprimentos de óleo do Eixo
eram obtidos do óleo bruto (60 por cento do qual saíam da área de Ploesti), e
a terça parte restante, das fábricas de sintéticos da Alemanha. Portanto,
havendo ação eficaz contra as 13 fábricas de sintéticos mais importantes
eliminaria um quarto dos recursos de gasolina disponíveis da Alemanha, incluindo
dois terços da sua produção vigente de combustível de aviação. Os estoques
disponiveis só seriam suficientes para compensar, por mais de quatro meses,
as faltas provocadas por um ataque. Se, além disso, algumas das 26
refinarias pudessem ser destruídas, os suprimentos totais de petróleo
sofreriam uma redução de 90 por cento. Passado um mês, na Grã-Bretanha, o Subchefe
do Estado-Maior da Força Aérea declarou: "Recentemente, tem-se visto
uma tendência para aumento nos estoques de óleo do Eixo" e procurou
influenciar seus superiores para uma ação positiva, acrescentando que "a
situação, portanto, talvez não seja tão crítica quanto esperávamos". Em parte como resultado de
argumentos em termos econômicos, o óleo foi colocado em quarto lugar na lista
dos objetivos principais visados no Plano "Pointblank" (Queima-Roupa)
que incluía ação de bombardeiros contra alvos do Eixo, aprovado pelo CCS a
14 de maio de 1943. Os planejadores comentaram que a quantidade de produtos
de refinaria e de óleo sintético resumia-se agora "apenas ao suficiente
para o abastecimento vital da máquina de guerra alemã" e que a posição
inimiga tornou-se "mais crítica" por ter fracassado na tentativa
de conquistar os suprimentos russos do Cáucaso. Eles achavam que: "Se
as refinarias de Ploesti, que processam 35 por cento da atual produção de
óleo refinado que o Eixo utiliza, forem destruídas, e se o mesmo acontecer
com as fábricas de óleo sintético da Alemanha, que processam um adicional de
13 por cento, a interrupção resultante terá efeito desastroso no
fornecimento de produtos de óleos acabados à disposição do Eixo". A 1º
de julho, o Sr. Berthould, do Ministério Britânico de Combustível e Energia,
calculou que a produção anual de óleo de todos os tipos, do Eixo, atingiram
17.000.000 de toneladas, 30 por cento dos quais saíam da área de Ploesti.
Pouco depois, a comissão americana que investigava o óleo do Eixo achou que
os estoques totais alemães no começo do ano chegaram a 5.000.000 de toneladas,
embora os britânicos os situassem em apenas 3.000.000 de toneladas;
informações posteriores revelaram aue as duas estimativas eram exageradas. O
início da maciça operação Panzer em Kursk realizada na primeira semana de
julho, e que conseguiu desfalcar os estoques inimigos, pôs em evidência a
extensão dos danos que um ataque bem sucedido poderia causar a Ploesti. Fator importante a ser
enfrentado era o poderio das defesas inimigas localizadas em torno da cidade,
que aumentou consideravelmente após meados de 1942. Durante a Segunda Guerra
Mundial, os alemães não conseguiram desenvolver um canhão antiaéreo de
calibre médio (50 a 70 mm) de grande eficiência, mas produziram excelentes
armas leves (20 a 40 mm) e pesadas. Das armas leves pretendia-se obter o
máximo volume de fogo, a fim de obrigar os aviões a voar bem alto e daí
bombardear, portanto, com menor precisão. O Flak 30 de 20 mm, já estando em
uso desde 1935, com cadência de tiro eficaz de 120 cartuchos por minuto e
teto de 2.200 m, foi a base de onde se originaram todos os modelos de 20 mm
do começo da guerra. O Flak 38 de 20 mm, que apareceu em 1940, disparava os
mesmos tipos de granadas AP ou HE de 3,6 a 5,2 onças, tendo alça de mira
aperfeiçoada e mecanismo de culatra redesenhado, com capacidade de disparo
de 480 cartuchos por minuto. Tanto o Flak 30 como o Flak 38 permaneceram em
uso, só que, numa tentativa de simplificar-lhes o mecanismo, o anel aberto
substituiu a alça de mira de computador, em 1941. No mesmo ano,
introduziu-se uma versão quádrupla do Flak 38 (o Flakvierling 38 de 20 mm),
com os quatro canos disparando 800 cartuchos por minuto. O Flak 18 de 37 mm,
arma antiaérea leve, também apareceu ativamente em 1935, de teto máximo de
5.200 m e capacidade de disparo de 80 cartuchos por minuto. Depois apareceu o
Flak 36 de 37 mm, que se tornou a arma-padrão deste calibre durante a
guerra; entretanto, uma versão de cano duplo, o Flakzwilling 43 de 37 mm,
não teve êxito. Em 1939, no começo da
guerra, a artilharia antiaérea alemã compunha-se de canhões de 88 mm e de
195 mm, com o de 128 mm já em vias de produção; o de 150 mm, também proposto,
não chegou a ser desenvolvido. O Flak 18 de 88 mm surgiu em 1932, e mais
tarde a versão do Flak 36 de 88 mm, com um cano de três seções, teve sua
produção em massa. Em 1938 apareceu o Flak 37 de 88 mm com o sistema de transmissão
modificado e que permaneceu como arma antiaérea básica de 88 mm até 1943.
Capaz de disparar de 15 a 20 cartuchos por minuto e com teto efetivo de 8.660
m (teoricamente, 11.500 m), ele podia alcançar a altitude em que qualquer
bombardeiro aliado voava, com granadas HE ou AP de 20 lb. e 1 onça a 21 lb. e
1/2 onça. As armas de 105 mm foram
confeccionadas em 1933, para cuidar de aviões que, no futuro, pudessem voar
acima do teto efetivo das armas de 88 mm, e o Flak 38 de 105 mm foi
desenvolvido três anos depois. Com o sistema de transmissão modificada, ele
tornou-se o Flak 39 de 150 mm, em 1939: ambos os modelos foram planejados
para disparar granadas de 34 lb. e 5 onças, com cadência de tiro de 10 a 15
granadas por minuto, até a altura de 13.860 m. O Flak 140 de 128 mm disparava
granadas de 62 lb. e onças a 12 granadas por minuto até a altura de 16.000 m,
e sua versão dupla, o Flakzwilling 40 de 128 mm, tinha boas perspectivas
para 20 a 25 cartuchos por minuto. Mas os canhões de 128 mm estiveram em uso
quase que exclusivamente para defender as áreas vitais da Alemanha, muitas
vezes montados em torres antiaéreas feitas de concreto. Não havia canhões de
105 mm ou de 128 mm em Ploesti, em 1943, a despeito das afirmações em contrário
das tripulações aéreas americanas, o mesmo não se podendo dizer quanto às versões
padronizadas de 20 mm, 37 mm e 88 mm, além de alguns Flakvierling 38 de 20
mm. A presença de muitos canhões de 28 mm, de tão grande eficiência quando
acima de 6.600 m, era fator preponderante na realização de um ataque de baixo
nível contra Ploesti. esperando-se que as armas mais leves fossem menos
destrutivas. Também os caças integravam
o poderio das defesas aéreas alemães. Nos primeiros estádios da guerra, o
Messerschmitt Me-110 bimotor prestara serviços inestimáveis. Tendo, porém,
velocidade de 460 km/h, cerca de 100 km mais lento que o Spitfire, foi
gradualmente transferido para o papel de caça noturno juntamente com outros
aviões bimotores, como o Ju-88. Os principais caças diurnos em atividade a
partir de 1941 foram o Messerschmitt Bf-109 e o Focke-Wulf FW-190,
monomotores. O protótipo do Bf-109, desenhado nas fábricas Messerschmitt
perto de Augsburg, voara pela primeira vez em 1935, com motor Rolls Royce
Kestrel importado. O Me-109 (como era mais conhecido) foi posto em ação na
Guerra Civil Espanhola. e 18 meses após o início da Segunda Guerra Mundial, a
Luftwaffe estava usando a versão Me-109E, cujo armamento variava: quatro
metralhadoras MG17 montadas nas asas, ou duas MG17 adaptadas na fuselagem e
dois canhões nas asas, ou então quatro metralhadoras MG 17 nas asas e um só
canhão de 20 mm montado na fuselagem. Com velocidade de 568 km/h a 4.000 m e
teto de 11.900 m. seu desempenho geral equivalia aproximadamente ao do
Hurricane. Um modelo posterior, o Me-109F, com motor de melhor desempenho,
dando velocidade de 600 km/h. apareceu em grande quantidade nos meados de
1941, na Europa Ocidental (mas não nos Balcãs). Pelo final de 1942, foi posto
em serviço o Me-109G, com armamento mais pesado e velocidade aproximada de
640 km/h. O FW-190, com motor radial refrigerado a ar, era dos mais temíveis
adversários que os bombardeiros pesados tinham de enfrentar. Montados nas
suas asas, havia quatro canhões de 20 mm, e sobre o motor, duas metralhadoras
de 7,9 mm. Sua velocidade equivalia à do Me-109 e também podia operar, com
reduzido desempenho, a altitudes superiores a 6.600 m. As versões do Me-109E,
Me-109F e FW-190A, em serviço nos Balcãs em 1943, tinham autonomia de vôo de
90 minutos. Os alemães desenvolveram
cobertura de radar, mas no começo da guerra quase não foi aproveitada -
devido, talvez, à insistência de Hitler em considerar a Luftwafe uma força
puramente atacante. Os primeiros aparelhos Freya não podiam dar leitura de
altitude e o raio de ação abrangia apenas 58 km; este aumentou, porém, em
1942, para 120 km, mas já no ano anterior o sistema de defesa aérea se
tornara mais eficiente ao se pôr em uso os aparelhos Würzburg móveis, que
eram capazes de localizações precisas, numa distância de até 40 km e, pouco
depois, os chamados Wiirzburgs-Gigantes (assim chamados devido aos seus
enormes refletores de 7,60 m), com raio de ação efetivo de 72 km. Além disso,
mantinham-se equipamentos de radiogoniômetro prontos para sintonizar
quaisquer transmissões radiofônicas. Para a invasão da Romênia
e da Bulgária, os alemães levaram suas armas antiaéreas, aviões e radares.
Embora os Balcãs não ocupassem lugar de destaque na lista de prioridades para
equipamento antes de 1943, mesmo assim logo se criaram defesas respeitáveis
em torno de Ploesti e não se podia ignorar por completo as forças aéreas
búlgaras e romenas nesse movimento. A primeira dessas defesas, a Luftwaffe,
renascera das cinzas de 1918. À Bulgária, que apoiara as Potências Centrais
na Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Neuilly vetou o direito de possuir
uma força aérea. Embora o tratado só fosse relaxado abertamente em 1937, já
nos nove anos anteriores uma força aérea vinha-se desenvolvendo sub-repticiamente.
As fábricas estatais de aviões situadas perto de Sofia produziram o avião de
treinamento DAR-6A, que, juntamente com 24 caças de um só lugar, PZL P-24G,
adquiridos à Polônia, deram inicio ao 1º Regimento de Caças Búlgaro
(Orlek). Em fins da década de 1930, houve um programa de rápida expansão,
incluindo aparelhos fabricados no país e importados (a entrega de 54 P-43
estava para ser realizada quando os alemães invadiram a Polônia). No começo
da guerra, a Força Aérea Búlgara, parte integrante do exército e comandada
pelo General Ajranof, contava com oito regimentos. Quando a Bulgária aderiu
ao Pacto Tríplice do Eixo, a 14 de março de 1941, teve seus efetivos
aumentados com 19 Me-109 e bom número de Ju-86D, Ju-87B e Do-17M, bimotores.
Contudo, até o outono de 1943, a Força Aérea Búlgara na realidade ainda era
fraca. Requisitara alguns consultores e instrutores da Luftwaffe, mas o
interesse da Alemanha pelo país logo se desfez, quando suas bases foram
usadas com sucesso para dominar a Grécia, em 1941. A falta de aviões de linha
de frente na Bulgária foi salientada pela contínua utilização em serviço dos
biplanos Letov S-328 e Avia B-534, já quase impossibilitados de voar e,
portanto, com pouquíssimas perspectivas para combater. O Avia B-534,
equipado com quatro metralhadoras de 7,7 mm e teto provável de 3.068 m,
levava cinco minutos para atingir a altitude de 5.400 m e mal conseguia
alcançar a velocidade de 368 km/h. Não obstante, os búlgaros dispunham de
seis Me-109 que, para fins operacionais, estavam anexados à Luftflotte 4
alemã. O poderio da Força Aérea
Romena era bem maior. Tendo-se declarado a favor dos vencedores, a Romênia
não perdera sua arma aérea na Primeira Guerra Mundial. No período decorrido
entre os dois conflitos, reorganizou-a, criou escolas de treinamento em
Tecuciu e Bucareste, comprou aviões britânicos e franceses para suplementar
os que confiscara na derrota dos alemães e desenvolvera sua fábrica de
aviões da Regina Autonoma Industria Aeronautica Romana (IAR), em Brasov. Em
1939, essa Força Aérea, mantendo cerca de 500 aviões e seis comandos (um
deles sendo de artilharia antiaérea), podia-se dizer que era a mais poderosa
dos Balcãs, embora muitos dos seus aparelhos fossem obsoletos. E a invasão da
Polônia, pelos alemães, ainda lhe trouxe alguma vantagem, pois noventa e
três aviões poloneses, entre eles 38 caças de um só lugar P-7 e P-11,
chegaram ao aeródromo de Tcherniovce e foram prontamente adquiridos para uso
local. A Grã-Bretanha e a França procuraram dar apoio á resistência romena á
pressão alemã no começo de 1940 contribuindo com aviões Blenheim e o
Hurricane IV, embora em pequena quantidade. Mas quando a Romênia assinou o
Pacto Tríplice, em novembro de 1940, uma missão da Luftwaffe desceu sobre
Bucareste com um esquadrão de He-112B, vários caças de um só lugar
(anteriormente rejeitados para serviço na Europa Ocidental), 40 Me-109E e um
esquadrão de bombardeiros He-11H-3. Nos preparativos para a ofensiva contra a
URSS, a Força Aérea Romena teve sua administração organizada de acordo com o
sistema adotado pela Luftwaffe, embora oficialmente permanecesse autônoma,
sob a direção do seu próprio Subsecretário de Estado para a Aeronáutica e do
General-Comandante responsável perante o Chefe do Estado-Maior-Geral. Em
1943, ela consistia de uns 13.000 homens (incluindo duas brigadas de
artilharia antiaérea) e cerca de 700 aviões, cuja metade era formada de caças.
Já então, a fábrica da IAR estava produzindo a versão do SM-79B italiano
acionada por motores Junkers Jumo 21 IF, caças romenos IAR 80 e
caças-bombardeiros L4 R 81. Mas, embora capaz de produzir o Me-109G, ele só
começou a ser fabricado em novembro de 1943. Portanto, unidades das
forças aéreas búlgara e romena podiam participar da defesa dos seus países,
mas, na verdade, as disposições da Luftwaffe na Europa Meridional
consideravam acima de tudo seu interesse pelos supostos atacantes. No todo, a
Luftwaffe consistia de várias Luftflotten (frotas aéreas), cada qual
destacada para uma área específica e subdividida em Fliegerkorps, para fins
administrativos mais eficientes. Dentro do Fliegerkorps havia elementos de
bombardeiros e caças, dos quais o Geschwader era a maior unidade
operacional. O elemento de caça Jagdgeschwader (JG) consistia de
aproximadamente 120 aviões distribuídos entre três Gruppen que, por sua ver
continham três Staffeln cada (com 12 aviões cada um, dos quais apenas nove
operavam simultaneamente): estes equivaliam mais ou menos ao Grupo, Ala e
Esquadrão da RAF, respectivamente. Para fins táticos, cada Staffel operava em
formações de Schwarm (4 a 5 aviões), Kette (3) ou Rotte (2). As unidades eram
numeradas de acordo com seu Gruppe: assim, II/JG27 representava o segundo
Gruppe do Jagdgeschwader 27 e os Staffeln eram numerados consecutivamente
dentro de cada Geschwader. Assim, o Gruppe I sempre tinha os 1º, 2º e 3º
Staffeln; o Gruppe II, os 4º, 5º e 6º. Para evitar longas descrições
numéricas, o número do Gruppe era freqüentemente eliminado e usava-se 4/JG27
para representar 4/II/JG27. Além do Jagdgeschwader havia, dentro do Fliegerkorps,
unidades como a Zerstoergeschwader (ZG) de caças diurnos bimotores, ou as
Nacht Jagdgeschwader (NJG) de caças noturnos, estes últimos muitas vezes também
usados em operações diurnas. As unidades ZG e NJG também ostentavam a numeração
de Staffel e de Gruppe. Algumas destas últimas estavam estacionadas na Romênia
e foram postas em ação contra os atacantes de Ploesti, em agosto de 1943. Em 1943, a Lutfwaffe
estava dividida em cinco Luftflotten, das quais a Luftflotte 4 estava baseada
em Viena. Responsável pela Áustria, Tchecoslováquia e pelos Balcãs
(excetuando-se a Grécia), foi comandada pelo Coronel-General Lohr, até junho
de 1943, e depois pelo General Holle. No começo de 1943 criou-se um Comando
Sudeste especial da Luftwaffe sob a Luftflotte 2, do Feldmarechal
Kesselring, cuja responsabilidade incluía a Itália e o Mediterrâneo
Ocidental. Porém, três meses depois, este comando conseguiu uma posição
semi-autônoma. Na área imediata de Ploesti, as unidades do I/JG4 (Capitão
Hans Hahn) e do IV/JG27 (Primeiro-Tenente Burk), com Me-109, estavam
estacionadas em Mizil, 32 km a leste da cidade, além dos Me-110 do IV/NJG6
(Capitão Lutje) em Zilistea, mais a leste. Outras unidades da Grécia, de
Creta e da Itália Meridional estavam geograficamente em posição de atacar os
bombardeiros em vôos de ida e volta para a Romênia, e foi o que as
tripulações descobriram dolorosamente em 1943. Além disso, as forças
aéreas búlgara e romena podiam intervir. O 6º Regimento de Caças Búlgaro
(Coronel Vasil Vulkov) estava estacionado perto de Sofia, com os esquadrões,
em sua maior parte, equipados com biplanos Avia B-534, mas tendo alguns
Me-109 em Karlovo. Os romenos, todavia, eram muito mais fortes. Em Perira,
nos arredores de Bucareste, o Major Illiescu tinha três esquadrões de IAR 80
e IAR 81; perto dali havia um esquadrão de Ju-88 e dois de Ju-87 tripulados
por romenos. Estes últimos poderiam ser usados, segundo a tática favorita
dos alemães, para prender os atacantes em sua própria armadilha lançando
bombas de fragmentação de uma posição acima da deles e os Ju-88 eram
particularmente eficazes em lidar com aviões mais lentos e avariados. Na
costa do mar Negro, perto de Constanta, podiam-se ver outros IAR 80 e Me-109
estacionados. Característica notável dos
estádios de planejamento para a missão de Ploesti consistia na falta de
conhecimento preciso da parte dos Aliados sobre as defesas inimigas situadas
em torno da cidade. Os Serviços de Inteligência britânico e americano faziam
relatórios que, com freqüência, se baseavam em material ultrapassado e
raramente chegavam à mesma conclusão quanto aos efetivos. disposições ou
capacidade do inimigo. E assim continuou até a partida dos aviões. Uma
apreciação feita pela RAF a 6 de maio admitiu indiretamente a falta de
informações recentes e declarava que o conhecimento mais atualizado (de
junho de 1941) de cidades falsas "acreditava-se estar a 11 km a leste e
12 km a noroeste de Ploesti. Onze dias depois a RAF considerou que
artilharias antiaéreas leve e pesada e grande quantidade de balões e
holofotes estavam instalados perto de Ploesti e podiam ser apoiados por 30
Me-109G (nenhum deles estava então nos Balcãs) e vários FW-190 se houvesse,
de fato, um ataque muito sério. Pelo final de junho, os britânicos calcularam
haver entre 80 e 100 caças, 60 a 100 balões (capazes de atingir 4.300 m),
"poderosos" canhões antiaéreos e provavelmente fumaça nas defesas
de Ploesti. No último dia do mês, o HQ RAF ME preparou um sumário de informações
mais detalhado. Este observava que, não se dispondo de nenhuma fotografia
de reconhecimento, seria impossível garantir precisão absoluta: na verdade,
até mesmo um exame superficial revela que parte desta informação fora
colhida mais de dois anos antes. A estimativa mais baixa do número de balões
existentes em Ploesti era de 50; em fevereiro de 1943, uma fonte calculou-os
em "cerca de 60"; outra, um mês depois, sugeriu "bem mais de
100". Segundo um relatório de dezembro de 1941, acreditava-se que cada
balão, preso a um guincho por dois cabos, tinha cerca de cinco metros de
comprimento, com dez hastes de aço de quase dois metros de comprimento
penduradas no nariz, e um dispositivo, que poderia ser um detector de som,
sob a cauda. Uma "fonte", em fevereiro de 1943, achava que os
balões podiam voar a uma altitude de 2.500 m, e outra, em dezembro de 1942,
calculou que 50 deles eram capazes de atingir 4.000 m. Na área de Ploesti-Brazi
havia cerca de 100 canhões antiaéreos leves e pesados, sendo que o de maior calibre
tinha 88 mm. Sobre Campina, "não dispomos de informação mais
recente", além da de abril de 1941. Naquela época, localizaram-se dois
canhões pesados numa ponte sobre o rio a 1.600 m a oeste das refinarias, oito
na estrada Campina-Baicoi, que corria no sentido su-sudeste da cidade, e 25
distribuídos ao longo das estradas que iam para Targoviste e Pitesti, a
sudoeste da cidade. Quanto aos balões, nada se informou, embora fosse
esperada a presença de uma barragem. Durante a terceira semana
de julho, o HQ RAF ME fez duas outras apreciações. A primeira calculava entre
80 e 100 canhões pesados, principalmente de 88 mm, e, "era bem provável,
alguns de 105 mm", e de 160 a 200 canhões antiaéreos leves
"geralmente" de 20 mm e 37 mm, em sua maioria reunidos em grupos e
sob controle alemão. Acreditava-se haver cerca de 100 holofotes, de 80 a 100
balões e mais o aparelho de fumaça na área de Ploesti (os testes britânicos
mostraram que 52 km² podiam ser
cobertos contra ataque de alto e baixo níveis em 20 minutos). Acreditava-se
haver equipes alemães especializadas a postos para ajudar no combate a
incêndios. Quase 100 Me-109, metade deles ainda em boas condições, estavam
"provavelmente" nos aeródromos de Stresnicul e Targsorul. em
Ploesti, e tripulados "sobretudo" por pilotos alemães. "Provavelmente"...
também havia caças romenos "obsoletos" nas proximidades. Calculava-se
que se podia dispor ainda de 30 caças noturnos Me-110. mas informou-se da presença
de alguns também em Buzau (a 64 km a lés-nordeste): o equipamento de radar
estava, ao que parecia, concentrado nos acessos leste e sul da cidade. O
segundo destes relatórios dizia haver balões a diferentes altitudes e
situados a cada 504 metros, paredes de tijolos camufladas e construídas em
torno dos poços de petróleo com a metade superior tendo a forma cônica a fim
de impedir a propagação de incêndios, e um canhão antiaéreo leve estava
instalado a espaços de uns 100 m em torno da cidade e dos campos
petrolíferos. A oeste de Ploesti erguia-se uma cidade falsa, inacabada, feita
de madeira e papelão. Menos de uma semana após o
envio desses relatórios e seis dias antes de se realizar a missão, o Serviço
de Inteligência da RAF tornou a admitir ignorância do que se passava
declarando que havia necessidade "urgente" de informações sobre as
refinarias de Ploesti, aeródromos, caças e balões inimigos (sua localização e
quantidade, se eles estavam no ar 24 horas por dia e se tinham cabos comuns
ou mortíferos). Além disso, neste apelo de ajuda também vinha a pergunta se
houvera alarmas recentes e ficava imaginando se "os homens já ganharam
prática, isto é, nos Flaks e nos ARP". Nas vésperas do ataque,
parecia ter havido um extraordinário golpe de sorte quando, motrando irritação
diante da arrogância dos companheiros de armas alemães, um piloto romeno,
Nikolai Feodor, rendeu-se com seu Ju-88, em Limasol, Chipre. Quando interrogado,
fez várias declarações: as defesas de Ploesti eram "muito,
cerradas"; cerca de 500 novos embasamentos de canhões haviam sido
construidos nos campos petrolíferos, na primavera de 1943. Ao norte de
Ploesti havia uma cidade falsa dotada de iluminação. O aviador
prestimosamente sugeriu que os fugitivos poderiam esconder-se nas colinas
situadas ao norte de Pitesti, onde os bandidos antigermânicos andavam à
vontade e revelou que as senhas só eram exigidas em certas áreas, como
Ploesti e Bucareste. Os poucos soldados alemães que estavam na Romênia
ocupavam-se da defesa das instalações importantes. Feodor revelou a
existência de dois aeródromos. Tighina e Tiraspol. que não apareciam nos
mapas aliados. Antes de abril de 1943, afirmou ele, não havia nenhum caça
moderno na Romênia, apenas algumas centenas de aviões poloneses obsoletos -
o que na certa não era verdade quanto à Luftwaffe e provavelmente nem mesmo
quanto às unidades romenas, estando aí uma indicação do valor do testemunho
de Feodor. Na verdade, este desertor não tinha muitas informações úteis a
oferecer, muito embora sugerisse haver cargas explosivas presas aos cabos
dos balões, notícia esta bem deprimente, sem dúvida. No dia 28 de julho
preparou-se a avaliação final do Serviço de Inteligência americano, baseada
nas informações já conseguidas antes do que declarou Feodor. Seus detalhes
tidos como esparsos e ultrapassados deviam-se, em parte, à proibição de
reconhecimento aéreo, porque se temia que isso alertasse os defensores.
Cerca de 100 canhões antiaéreos "médios e pesados", guarnecidos
respectivamente por romenos e alemães, encontravam-se na área de Ploesti.
Acreditava-se que o cinturão externo era mais fraco no sul, mas as defesas
internas, até uma profundidade de oito quilômetros ao redor da cidade, eram
"extremamente poderosas". Os campos petrolíferos estavam
pontilhados de torres antiaéreas (não eram aquelas maciças estruturas de
concreto da Europa Ocidental, mas obras mais simples, erguidas para
sustentar apenas canhões de pequeno calibre) e as refinarias eram cercadas
por numerosas baterias. A relativa inconsistência da artilharia pesada do
sul era compensada por uma barragem de quase 100 balões - o "cem"
aparecia como um número mágico em todos os relatórios aliados sobre Ploesti -
que, segundo se acreditava, estavam presos por cabos a caminhões, eram
descidos durante o dia e lançados à noite em altitudes entre 2.000 e 3.300 m.
De acordo com a observação do Comando da 9ª Força Aérea os balões alemães
eram menores que os americanos e os britânicos e seus cabos eram mais fracos
e sem qualquer dispositivo letal. Ao ser confrontado com um cabo, o piloto
deveria atacar a favor do vento e o mais baixo possível, pois os britânicos
haviam descoberto que os cabos de balão eram inofensivos contra aviões em
vôo baixo. O Serviço de Inteligência
americano preferiu ignorar os informes sobre cidades falsas ao norte de
Ploesti, mas concluiu ser provável existirem duas, aparentemente construídas
de papier maché e talvez passíveis de transferência rápida de local. Uma
delas ficava na ferrovia Ploesti-Constanta. a leste da refinaria Romana
Americana e a 11 km da cidade de Ploesti; a outra, na ferrovia
Ploesti-Bucareste, ao sul da refinaria do Credituel Minier, em Brazi, e a 20
km de Ploesti. Caso se usasse uma cortina de fumaça ela iria à altura máxima
de 110 m. Sabia-se que as defesas de caça eram controladas pela Luftwaffe,
com aviões baseados em seis aeródromos perto de Ploesti, e alguns em
Bucareste. Não se localizou nenhuma base de caça conhecida entre Bengási e o
Danúbio através do Adriático, Albânia e Iugoslávia. Informações recentes
sugeriam que as instalações de radar inimigas estavam concentradas ao sul e
leste de Ploesti, em parte porque as colinas situadas a noroeste influíam
seriamente na redução de sua eficiência. Os americanos que voaram
na missão de agosto descobriram que o Serviço de Inteligência aliado não
tinha a mínima idéia do grau de perfeição da camuflagem realizada pelo
inimigo. Os tetos dos tanques da estação de bombas de Giurgiu, na orla sul
de Ploesti, eram pintados para dar a impressão de um grupo de casas quando
vistos do alto, e a estação sul de Ploesti teve estradas falsas pintadas de
branco pelas linhas férreas e pátios de manobra como um prolongamento de
avenidas, e os telhados dos prédios da estação também camuflados parecendo
uma fileira de casas. Os canhões pesados não se localizavam apenas no
cinturão de defesas externas. As fotografias tiradas durante o ataque
mostraram mais tarde 58 canhões de 88 mm em 10 posições ao redor da cidade e
vários centros de controle Würzburg RDF com um grupo de quatro canhões de 88
mm, dois canhões antiaéreos leves e um holofote cercando-os. As fotos também
identificaram 125 canhões leves, muitos dos Flakvierling 38, de 20 mm, com
quatro canos, instalados perto das refinarias ou montados em torres
antiaéreas em grupos de três, 23 balões ao norte e leste de Ploesti (e não ao
sul e leste, como se esperava) e considerável número de aparelhos de fumaça.
A Diretiva Oficial da Missão, Ordem de Campanha 58, dada pelo
Brigadeiro-General Ent e que previa menos de 100 canhões antiaéreos, estava,
portanto, seriamente errada: o número de 250 e mais as metralhadoras, teria
sido bem mais realista, ainda que bem menos tranqüilizador. Além disso, a
situação de Ploesti na entrada do vale de Prahova significava que os
canhões montados nas colinas que orlavam o vale encontravam-se
estrategicamente bem posicionados para hostilizar os aviões que se
aproximassem pelo noroeste. Foi contra este fundo de
conhecimentos muito vagos sobre o atual estado das defesas inimigas, mas de
crescente pressão para que se agisse, que os planos para outro ataque às
refinarias de petróleo de Ploesti tiveram de ser discutidos. Dando-se a
retirada para oeste do Feldmarechal Rommel e seu Afrika Korps, parecia não
haver dúvidas de que a incursão poderia ser lançada dos aeródromos do
Deserto Ocidental, agora capacitados para cuidar da grande força de bombardeiros
pesados que a Força Aérea Americana podia enviar. Poucos dias depois do
ataque desfechado por Halverson, providenciou-se a rápida expansão de
pessoal e instalações da Força Aérea Americana no Oriente Médio. A 28 de
junho de 1942, o Major-General Brereton chegou da Índia com nove B-17 do 9º
Esquadrão de Bombardeio para juntar-se aos B-24 do Destacamento Halverson.
Daí por diante todos esses bombardeiros pesados integraram o comando de
Brereton e logo receberam a denominação de 1º Grupo Provisório. Os reforços
de B-24 agora começavam a chegar ao Oriente Médio em bom número e
realizavam-se operações de apoio ao 8° Exército Britânico. A 12 de novembro
de 1942, a 9ª Força Aérea foi estabelecida oficialmente estando Brereton como
seu General-Comandante e 15 dias depois criou-se o Comando de Bombardeiros
da 9ª Força Aérea (consistindo do 1º Grupo Provisório e do 98° Grupo de
Bombardeiros). Após a vitória terrestre em El Alamein, os dois grupos de
bombardeiros pesados da 9ª Força Aérea transferiram-se para os aeródromos
egípcios de Abu Sueir, Fayid e El Kabrit, deixando Lydda, na Palestina, onde
haviam sido estacionados fora do alcance de aviões inimigos. Eles também
começaram a usar o LG-139 em Gambut (Gambut Main), 50 km a oeste de Tobruk,
como base avançada para reabastecimento. Ali, os italianos tinham dois
aeródromos adjacentes de modo que o 9º Comando de Bombardeiros podia dispor
de 660 m de pista de pouso. Agora o 1º Grupo Provisório já se tornara o 376°
Grupo de Bombardeiros sob o comando do Tenente-Coronel George F. McGuire,
substituto de Halverson, e o Coronel John R. Kane assumira o comando do 98º. Em fins de janeiro de
1943, as bases egípcias foram desocupadas e as seções restantes do 9º
Comando de Bombardeiros mudaram-se para a Cirenaica. Seu QG estava
localizado em Berka Main, com dois esquadrões do 98º, ficando um no
aeródromo de Lete e o outro no de Benina, a leste de Bengási, sendo o de Lete
uma pista capaz de enfrentar quaisquer condições climáticas, e derivava seu
nome da proximidade de um rio que, no passado, havia quem acreditasse ser ele
caminho fluvial que levava ao Inferno (o rio "Lethe", de Hades, dos
gregos, cujas águas induziam ao esquecimento). O 376º Grupo estacionou no
acidentado campo de Soluch, 50 km ao sul de Bengási. Em meados de março todo
o 9º Comando de Bombardeiros já se havia instalado na área de Bengási, sob
as ordens do Coronel (mais tarde Brigadeiro-General) Ent. Realizavam-se
operações regulares sobre o Mediterrâneo contra alvos da Italia, mas a chuva
na Cirenaica muitas vezes criava problemas aos aeródromos que, à exceção de
Lete, não eram macadamizados. Assim, prepararam-se mais duas pistas de pouso a
prova de intempéries, com a ajuda de engenheiros britânicos e mão-de-obra
local e, a 6 de abril, o 376° Grupo, agradecido, desocupou Soluch, mudando-se
para Berka 2. Nas missões realizadas contra alvos do Eixo na Europa Meridional,
os grupos mostraram-se relutantes em aceitar as formações de caixa de
combate, que a 8ª Força Aérea havia desenvolvido para autoproteção sobre a
Alemanha. Pugnou-se pela necessidade de manter formações mais soltas, em
lugar das mais rígidas, e os argumentos tornaram-se ainda mais vigorosos
quando o inimigo começou a usar bombardeio de ar-para-ar, lançando mísseis
com espoleta de tempo sobre os aviões que voavam abaixo dele. Portanto, a 9ª
Força Aérea não adotou o sistema de caixa de combate antes de ser desfechado
o segundo ataque a Ploesti: assim, os 8º e 9º Grupos de Força Aérea que
participaram daquela missão voaram em formações táticas diferentes. A esse tempo, dois outros
grupos de B-24 (o 44º e o 93º) haviam chegado à Grã-Bretanha para reforçar a
8ª Força Aérea. Aliás, três esquadrões do 93º já tinham tido sua prova de
fogo no deserto, quando destacados primeiro para a 12ª Força Aérea, na
Argélia, e depois para a 9ª, na Líbia, entre dezembro de 1942 e fevereiro de
1943. Durante esses 81 dias os esquadrões voaram 22 missões, saindo de bases
do deserto, numa média de duração de nove horas e meia cada, e com uma delas
levando 11 horas e meia. Quando retornaram à Grã-Bretanha, eles deixaram o
Tenente-Coronel K. K. Compton à frente do 376º Grupo da 9ª Força Aérea. Compton
comandaria aquele grupo no ataque a Ploesti e, por isso, conquistaria a
"Cruz por Serviços Distinguidos". Entrementes, no vôo para o Reino
Unido, o 44º Grupo de B-24 sofrera muitas baixas ao passar sobre a Alemanha.
Em maio de 1943, só restava um aparelho, o Suzy Q, dos aparelhos originais do
67º Esquadrão e o grupo tinha tal deficiência em potencial humano, que as
turmas que atuavam em terra foram transformadas em artilheiros, para tripular
os aviões de reposição recém-chegados. Não obstante, com mais aparelhos e
novos elementos convocados para completar seus efetivos durante a primavera
de 1943, os dois grupos de B-24 conseguiram fazer missões bem sucedidas;
haja vista o esforço combinado contra as docas de La Pallice a 29 de maio de
1943, quando não se perdeu um só avião. Assim, no Reino Unido, dois grupos
adicionais de B-24 com experiência operacional, parte destes adquirida no
deserto, estavam à disposição dos estrategistas responsáveis pelo ataque a
Ploesti. Em janeiro de 1943, o
Tenente-Coronel C. V. Whitney, Oficial Assistente do Serviço de Inteligência
da 9ª Força Aérea, apresentou um plano, mais tarde conhecido como o Projeto
"R", ao Major-General Brereton para um ataque que seria desfechado
por 48 bombardeiros pesados contra seis importantes refinarias e os
principais pátios de manobras de Ploesti. O ataque, porém, a ser executado à
luz do dia, partindo de bases das proximidades de Alepo, na Siria, implicaria
na violação do espaço aéreo turco. Este plano específico praticamente morreu
ao nascer, por causa da falta de recursos do Oriente Médio e dos compromissos
assumidos pelos americanos de apoiar o 8º Exército em seu avanço pela
África do Norte. Durante esse mês, em que
os líderes britânicos e americanos reunidos em Casablanca discutiram a
direção de toda a ofensiva combinada de bombardeiros, os Chefes de
Estado-Maior Britânicos voltaram sua atenção para um ataque total às
instalações petrolíferas inimigas. Sir Charles Portal não estava de acordo
com isso; ele achava que o golpe devia ser adiado até que a luta da África do
Norte tivesse cessado "e todos os recursos anglo-americanos em
bombardeiros pesados estivessem disponíveis para empreender a ofensiva em
grande escala às refinarias de Ploesti". Embora de acordo, Sir Alan Brook
comentou que o colapso do Eixo na África poderia ocorrer de uma hora para
outra e que era "conveniente que todos os arranjos e planos para o
ataque aéreo àquelas refinarias estivessem prontos o mais breve
possível". Quinze dias mais tarde, Portal comentou com os Chefes de
Estado-Maior que "os planos para o ataque, que seria desfechado por uma
força de 12 esquadrões, já existiam e continuavam de pé no Oriente Médio. Os
britânicos, portanto, não mostraram ter urgência, talvez porque eles próprios
não tivessem os meios necessários para realizar o ataque. O próprio Winston
Churchill reabriu a questão um mês depois, e no último dia de fevereiro disse
ele a Portal: "O Presidente falou-me a respeito casualmente em Casablanca,
lembrando que Stalin dissera não fazer objeções a que aeroplanos americanos
(sic) pousassem e se reabastecessem em seu território. Ele perguntou por que
abandonáramos tudo", e Churchill acrescentou: "Fala-se também da
chegada dos russos a certas posições no continente de onde seria possível
atacar Ploesti, e ainda há os meus planos no sentido de convencer os turcos a
permitir o reabastecimento em suas bases ainda neste verão". Portal
respondeu que os Chefes de Estado-Maior haviam discutido um ataque a Ploesti
em janeiro, mas acabaram concordando em adiar qualquer decisão até abril de
1943. Enquanto as forças aéreas aliadas se preocupassem em apoiar a forças
terrestres da África do Norte, um ataque vigoroso a Ploesti era impossível, e
uma ofensiva ineficaz iria apenas alertar o inimigo. Uma vez terminada a luta
na África do Norte, "então, sim, estaremos em posição de bombardear
Ploesti seja por ataques sistemáticos noturnos ou diurnos, em grande escala,
sempre contando com a surpresa, para ter êxito". Portal achava que
bases na África do Norte, Chipre e Síria estavam a tão grande distância da
Romênia, que mesmo os ataques sistemáticos "provavelmente bem poucos
danos causariam", embora o uso de bases turcas para reabastecimento
permitisse o transporte de maior número de bombas. Porém, até que se dispusesse
de bases na Criméia ou mais perto no continente, não havia grandes motivos
para fazer reabastecimento na URSS. Concluindo, Portal declarou:
"Acreditamos que nossa melhor atitude será desfechar um ataque único,
esmagador e de surpresa em plena luz do dia", o que é muito mais
interessante, em vista do fracasso da última missão realizada e da
subseqüente critica britânica feita ao mesmo. Portal achava que esse ataque
poderia ser feito sem violação do espaço aéreo turco "se fosse
essencial", caso em que se poderia extrair "alguma vantagem"
em reabastecer na URSS. Mas para "se obter a máxima vantagem da
surpresa" os aviões atacantes deveriam sobrevoar a Turquia e o mar
Negro, que era a rota mais curta até o alvo e livre de interferência inimiga
na maior parte do caminho. Ele salientou que um plano de ataque, sempre
atualizado, encontrava-se no HQ RAF ME: na ocasião, ele esperava contar com
o emprego de 18 esquadrões - seis mais do que Portal mencionara aos Chefes de
Estado-Maior há dois meses e meio. Na verdade, esta escalada dos esquadrões
parecia ter ocorrido pouco a pouco: a 13 de fevereiro, o Subchefe do
Estado-Maior da Força Aérea, ao pôr em dúvida a capacidade administrativa
russa para cuidar do reabastecimento aliado, citou 10 esquadrões pesados com
referência ao ataque a Ploesti. No mês de março, houve
considerável atividade de planejamento em ambos os lados do Atlântico. No
Reino Unido, as opiniões dos Analistas da Comissão de Operações Americana
sobre a importância do petróleo como alvo foram estudadas por autoridades
britânicas e americanas e, em Washington, o Coronel Jacob E. Smart, membro do
Conselho Consultivo das Forças Aéreas do Exército do General Arnold, estava
trabalhando no plano referente a um ataque de baixo nível a Ploesti, vindo
da África do Norte, pelo qual 200 aviões investiriam contra nove refinarias
assim que a campanha da África do Norte terminasse e antes do começo da
invasão da Sicília. Smart argumentou que seriam necessárias cerca de 2.400 incursões
de grande altitude para a destruição, mesmo parcial, de cada refinaria.
Neste empreendimento se gastariam dois meses, e durante os ataques sucessivos
o inimigo teria tempo de reforçar suas defesas. Além disso, se se adotasse
esse plano, os bombardeiros pesados aliados, em sua maior parte, estariam em
ação exclusivamente nos ataques a Ploesti durante esse longo período. Smart
alegou que, apesar de o bombardeio de baixo nível fosse novidade para
bombardeiros pesados, outros aviões já o haviam feito e com sucesso. O
General Arnold ficou impressionado com a explicação e estimulou Smart a
elaborar um plano de ataque nos mínimos detalhes. Em meados do mês houve um
pequeno susto no setor de segurança, provocado por uma mensagem interceptada
no caminho de Berlim para Roma que dizia: "Sabe-se através dos círculos
diplomáticos ingleses em Ancara a 9/3 (sic) que se decidiu desfechar um
ataque aéreo aos campos petrolíferos de Ploesti". De certa maneira
impassível, Whitehall observou que o inimigo devia estar ciente da vulnerabilidade
de Ploesti e, seja como for, não se cogitava fazer planos decisivos, muito menos
em relação aos "campos petrolíferos". Durante todo o mês de
abril, o Coronel Smart e o Tenente-Coronel Whitney, agora em Washington,
trabalharam, cada um por sua vez, em planos que deveriam ser executados
contra Ploesti. A 11 de abril, o HQ RAF ME, em resposta a um comunicado do
Ministério da Aeronáutica. declarou: "Ainda não se elaboraram planos
concretos visando um ataque diurno em grande escala contra Ploesti, mas
dispomos de informações recentes sobre o alvo e os planos podem ser
elaborados logo". O espantoso é que esta mensagem sugeria, então, que 50
Liberators, carregando cada um 2 toneladas de bombas, poderiam atacar vindo
do aeródromo de Gambut, através de Creta (ilha ocupada pelos alemães e fora
da proteção de caças amigos) e, dali pelo Egeu, presumivelmente passando a
oeste da Turquia e virtualmente sobrevoando toda a extensão da Bulgária. Não
é de surpreender que, levando em conta o método acima fosse problemático
obter êxito com um único ataque. Além disso, "considera-se que 100 por
cento de capacidade extra da refinaria estão disponiveis" e, portanto,
talvez fosse necessária uma ofensiva de bombardeios sistemáticos, para se alcançar
o sucesso. Dois dias depois, o HQ RAF ME declarou que o B-17E tinha raio de
ação de 1.000 km com carga de 2.500 kg de bombas e que o do B-24D era de
1.120 km com 2.500 kg de bombas. Pouco depois, o Ministério da Aeronáutica
declarou a Winston Churchill que, após reconsiderar o assunto, concluiu-se
que seriam necessários de 12 a 15 esquadrões para realizar um ataque diurno
a Ploesti, além de usar os aeródromos turcos, pois sem eles não se poderia
garantir o êxito da missão. Apenas B-24 ou Halifaxes estariam em condições
de cumprir a tarefa, já que o B-17 carecia do raio de ação exigido. Pelo final do mês, a
Divisão de Planos da Força Aérea do Exército, em Washington, recomendou um
ataque desfechado de bases sírias contra as refinarias de Ploesti, com quatro
grupos pesados em ataques diversivos contra Giurgiu e o tráfego fluvial do
Baixo Danúbio. A 5 de maio, o Tenenfe-Coronel Whitney apresentou seu plano de
ataque, e este não passava de uma variação do Projeto "R" já
preparado uns quatro meses antes. Whitney, assim como a Divisão de Planos,
era favorável a ter o norte da Síria como base, com um mínimo de 100 aviões
bombardeando a grande altitude as refinarias escolhidas como alvos.
Portanto, o General Arnold tinha duas alternativas à disposição: um ataque
de baixo nível partindo da Líbia ou um a grande altitude vindo da Síria. A 6 de maio um minucioso
estudo de viabilidade foi submetido à apreciação do Coronel Smart pelo Coronel
Charles G. Wlliamson, Oficial de Projetos Especiais do Corpo Aéreo, Subchefe
de Inteligência do Estado-Maior da Força Aérea, que relacionou as refinarias
na ordem de importância com base num ataque que seria realizado por 200
bombardeiros: Astra Romana (incluindo Unirea Orion), Romana Americana,
Concordia Veja, Unirea Sperantza (incluindo o Standard Petrol Block),
Credituel Minier (em Brazi), Steaua Romana (em Campina) e Colombia Aquila.
Porém. não se deveria correr o risco do ataque, se não houvesse pelo menos
19 esquadrões, cada um com nove aparelhos, disponíveis para os seis primeiros
objetivos, e para a "destruição completa" eram necessários, no
mínimo, 28 esquadrões de nove aparelhos cada um (totalizando 252), para
evitar novas missões. Um ataque de altitude minima asseguraria absoluta
precisão, embora o Coronel Williamson sugerisse o vôo a grande altitude até
o alvo a fim de economizar combustível. Após voltarem para suas bases da
África do Norte, os aviões deveriam então seguir ate cerca de 240 km a oeste
de Creta para indicar a Itália como objetivo de ataque e evitar a
interceptação de caças, daquela ilha. A força então voaria a grande altitude
para Slatina, na Romênia, a 34 km a nordeste de Craiova, descendo então para
a altitude mínima antes de rumar para o Ponto Inicial, em Targoviste. Ali, os
aviões destinados a Campina acompanhariam a ferrovia e o rio para o norte até
Pucioasa, dobrariam para a direita, dirigindo-se para Campina: os destacados
para Brazi se desviariam em Targoviste rumando direto para seu objetivo. O
ataque se realizaria melhor se feito pelo oeste no final do dia, pois
esperava-se que o sol poente confundisse os defensores e iluminasse o alvo.
Além disso, o retorno às bases à noite dificultaria a interceptação, ao passo
que uma retirada diurna "sem dúvida encontraria cerrada oposição".
As bombas GP americanas de 120 kg eram satisfatórias, mas como oito bombas
de 220 kg e seis de 45 kg, além das incendiárias, poderiam ser transportadas
por um B-24, dava-se preferência à segunda carga. Cada aparelho, para sua
proteção, teria três (de preferência seis) metralhadoras de .50 apontadas
para a frente. Nenhum avião deveria exceder a altitude de 100 m; seria ideal
30 m na fase de altitude mínima do ataque, porque acima de 30 m tornava-se
mais fácil para as armas automáticas em terra rastrear os aviões. Para evitar
ricochetes, os aviões da frente num esquadrão voariam perto do solo com os
outros ligeiramente escalonados na retaguarda. Williamson concluiu: "A melhor
maneira de anular as posições antiaéreas é voar diretamente para e sobre
elas, disparando as armas dianteiras e ficar próximo do solo o máximo que
for possível". O Conselho Consultivo do
General Arnold, em Washington, acreditava que este plano era "viável",
embora com modificações, mas a RAF expressou ceticismo, a menos que se
pudesse obter o uso dos aeródromos turcos. De qualquer modo, o Ministério da
Aeronáutica concordava em que houvesse um ataque de "nível médio",
em vista do poderio das defesas de Ploesti e do sucesso alcançado pelos
americanos nos ataques de alto nível na Europa. Também é possível que
estivesse em pauta outro documento, o do Capitão de Grupo Vintras, que dizia
estar o petróleo romeno exposto a sabotagem. O fantasma de John Griffiths
ainda vagava pelos corredores do poder. Vintras não era nada ambicioso:
sabotagem dos poços poderia ser substituída por "uma operação combinada
contra Constanta, seguida de um ataque terrestre a Ploesti, preparado o mais
rápido possível após "a declaração de guerra da Turquia". Entrementes, o
Major-General Ira C. Eaker, General-Comandante da 8ª Força Aérea da
Grã-Bretanha, em visita a Washington, em fins de abril, dissera aos Chefes
de Estado-Maior Conjuntos americanos que qualquer iniciativa para atacar o
petróleo do Eixo dependia em grande parte dos planos de ataque às refinarias
de Ploesti oriundo das bases do Mediterrâneo". Somente se este fosse
bem sucedido é que se deveria investir contra o óleo sintético e explorar a
vantagem conquistada. Ploesti deveria ser o objetivo principal de qualquer
campanha antipetróleo. Uma quinzena depois, os Chefes de Estado-Maior
Combinados instruíram sua equipe de planejamento a cuidar do ataque a
Ploesti "como assunto de emergência". A RAF tornou a argumentar
que um ataque de baixo nível seria insuficiente, sobretudo porque as
refinarias estavam "espalhadas e sabemos que há disponibilidade de 1%
por cento de sua capacidade extra"; ademais, somente os Liberators
teriam condições para ir da Cirenaica até Ploesti. A 17 de maio, o Conselho
Consultivo do General Arnold apresentou um relatório que considerava
exequível um ataque em junho ou começo de julho. Este documento, muito vago,
aliás, aconselhava deixar os detalhes do plano a cargo do
"General-Comandante das Forças Aéreas da África do Norte". Contudo,
sugeriram-se algumas bases operacionais, incluindo Alepo e Tobruk, e a recomendação
de que, em suspeitando-se da presença de uma concentração de balões,
"talvez fosse aconselhável o ataque em altitude maior". Um dia após o recebimento
deste relatório pelos chefes de Estado-Maior Conjuntos, numa reunião dos
Chefes de Estado-Maior Combinados em Washington examinou-se o assunto
Ploesti. O Tenente-General Joseph T. McNarney (representante do General Arnold,
que se achava indisposto) declarou que, em vista do envolvimento da Alemanha
na ação contra a URSS, um ataque bem sucedido a Ploesti seria a maior
contribuição isolada que os Aliados poderiam fazer na guerra nesse momento.
Os raios de ação até Ploesti, de Tobruk, Alepo, Alexandria, Chipre e Tripoli,
eram respectivamente, 1.400 km, 1.336 km, 1.540 km, 1.208 km e 1.728 km, e,
destas bases, B-24D com 2.700 kg de bombas, B-24C com 1.300 kg e talvez B-17F
teriam possibilidade de atacar. McNarney acreditava que seriam precisos 155
aviões; somente uns poucos caças inimigos achavam-se na área de Ploesti
"e a defesa principal [é] dotada de uma barragem de balões,
principalmente ao sul". Operando de Tobruk, os aviões poderiam passar
fora do alcance do radar de Creta e um ataque ao entardecer permitiria um
retorno à base sob a proteção das sombras da noite. O ataque, sob o comando
do Major-General Doolittle, provavelmente se efetuaria a baixo nível:
"as perdas talvez fossem elevadas, mas os resultados as compensariam de
sobejo". Os Chefes de Estado-Maior Combinados concordaram que Arnold
devia enviar essas sugestões ao General Dwight D. Eisenhower,
Comandante-Chefe do teatro de operações da África do Norte, e aguardar seus
comentários. Os planos agora se cristalizavam
com rapidez. Dois dias depois, o ataque a Ploesti recebeu o codinome de
"Estadista" (Statesman) e no dia seguinte a Conferência Tridente
realizada pelos Aliados concordou que dois grupos de B-24 do Reino Unido (o
93º e o 44º) deveriam ser destacados para o projeto durante o período de umas
quatro semanas, e um terceiro grupo (o 389º), destinado à 8ª Força Aérea na
Inglaterra, deveria ser acrescentado à força encarregada da missão desde seu
primeiro treinamento nos Estados Unidos. Sir Charles Portal observou que a
execução da tarefa agora ocasionaria desvio dos aviões em preparativos para
a "Operação Husky" (a invasão da Sicília) e que uma incursão
apenas em parte vitoriosa tornaria por demais difíceis as operações futuras.
O Chefe do Estado-Maior do Exército americano, General Marshall, argumentou
que "mesmo com relativo sucesso", o inimigo estaria sujeito a rude
golpe; e a 24 de maio o Coronel Smart chegou à África do Norte para explicar
o projeto ao General Eisenhower. Em conseqüência, Eisenhower comunicou no
dia seguinte: "O prêmio é bem grande. Não só Tedder [o Comandante-Chefe
da Força Aérea no Mediterrâneo] como eu estamos ansiosos por realizar essa
tarefa", mas expressou certa preocupação por interromper as incursões de
bombardeiros nos preparativos para a "Husky". Portanto, a missão
era agora mais um fato e não uma especulação. No mesmo dia em que Eisenhower
comunicou seu apoio restrito, o codinome foi mudado para "Bolhas de
Sabão" (Soapsuds) e o dia 23 de junho foi marcado como data provisória
para a missão, por estar ainda em fase de planejamento. No período de 18 a
25 de maio, a decisão definitiva de atacar Ploesti novamente fora tomada após
enfrentar meses de incertezas e dúvidas; faltava, porém, remover muitos
obstáculos que envolviam o planejamento. Pelo final de maio, o
General Marshall avisou formalmente o Major-General Eaker que seus dois
grupos de B-24 estariam enwabidos na "Operação Estadista" (como
era então conhecida). Mas a RAF ainda considerava insensato um ataque a
Ploesti, até que estivesse assegurado em definitivo o uso de aeródromos
turcos, e a 2 de junho, o Ministério da Aeronáutica comentou: "... em
vista do mau equipamento americano e da falta de treinamento básico na
leitura de mapas, talvez esteja na navegação a principal dificuldade".
Ele sugeria que três Lancaslers da RAF poderiam assumir a liderança do
ataque. O Comandante-Chefe do Comando de Bombardeiros da RAF, Marechal-do-Ar
Sir Arthur Harris, concordou com a idéia e a propôs a Eaker, embora o HQ RAF
ME achasse (com razão) que os americanos não iriam gostar das inferências
nela contidas. Entrementes, Eisenhower
acabara pondo de lado as dúvidas e concordou que a "Bolhas de
Sabão" era "uma operação viável e importante", e que seria
realizada por cinco grupos de bombardeiros pesados em fins de julho, não em
junho. Os Chefes de Estado Maior Combinados perceberam os temores não só dos
britânicos como dos americanos sobre a "Husky" e declararam que seu
sucesso não seria prejudicado pela "Bolhas de Sabão". O Marechal
Dill comunicou a Washington que os dois grupos da 8ª Força Aérea e o 389º
deviam partir para o Oriente Médio; a 15 de junho, Eaker disse a Marshall
que 80 aviões dos 93º e 44º Grupos estavam prontos para partir. Uma semana
antes, Marshall informara os Chefes de Estado-Maior Conjuntos americanos dos
receios de Winston Churchill de que outras refinarias controladas por
americanos pudessem compensar as deficiências de petróleo da Romênia e que,
de qualquer modo, a URSS não sentisse os beneficios de qualquer ataque
durante o período de um a três meses. No mesmo dia, porém, os Chefes de
Estado-Maior Combinados mandaram Eisenhower executar a "Bolhas de
Sabão" "dentro do prazo mais curto possível, contanto que em nada
prejudicasse a 'Husky' ou que corresse o risco de fracasso, por ter havido
tão pouco tempo gasto na sua preparação". Dez dias depois, o Coronel
Smart recebeu seu plano mais recente (embora não o definitivo) durante uma
conferência no HQ RAF ME no Cairo. Ele propôs um ataque coordenado de nada
menos 150 aviões. Os B-24 e uma força de B-17 decolariam de Bengási e
seguiriam para Corfu, no Adriático, e dai os B-17 se desviariam para oeste,
a fim de atacar a Itália, enquanto os B-24 prosseguiriam para bombardear sete
refinarias escolhidas de Ploesti, à tardinha e em baixo nível. Para isso
deveriam ser usadas bombas HE de 450 kg. grupos de incendiárias e bombas de
30 kg cheias de óleo. A 1º de julho o codinome tornou a ser mudado, agora
pela última vez, para "Macaréu" (Tidalwave). Quatro dias depois,
Brereton reclamou quanto a haver ainda no Reino Unido alguns aviões do 44°
Grupo, e estes foram posteriormente despachados. Em certa fase, chegou a
haver mais aviões do que tripulações completas na Cirenaica, mas chegaram
mais homens dos Estados Unidos e a deficiência foi sanada. Nem todas as
autoridades se sentiam plenamente convencidas de que a missão era
compensadora. A 10 de julho, o Comandante-Chefe da Força Aérea do Oriente
Médio, Marechal-do-Ar Sir Sholto Douglas, tendo-se aprofundado nos detalhes
da "Macaréu", comunicou ao QG do Comando da Força Aérea do Mediterrâneo:
"Acho e opino com toda a convicção, que é muito improvável - repito, improvável
- que se consiga absoluto sucesso apenas com um único ataque de baixo nivel".
Ele calculou que seriam necessárias pelo menos cinco incursões subseqüentes
e de grande altitude. Dez dias depois, e apenas 12 dias antes de se realizar
a missão, o Major-General Eaker, desejando que todos os aviões da 8ª Força
Aérea fossem concentrados no Reino Unido para ação contra a Alemanha,
sugeriu que a missão fosse abandonada. Eisenhower insistiu junto ao General
Marshall para que tal não acontecesse, mas pediu cautela: "Tedder e
Spaatz IComandante da 12ª Força Aérea da Argélia] estão convencidos de que
temos de realizar mais de um ataque na "Macaréu" e que, se pudermos
conseguir "êxito razoável" no primeiro, os demais terão de obter
de 60 a 70 por cento de destruição. Tanto Marshall como Arnold, em
Washington, concordavam que a missão devia ir até o fim. Mas pouco depois o
Major-General Brereton comentou que um ataque de baixo nível não bastaria,
calculando que seriam necessários mais oito ataques de grande altitude, com
um efetivo médio de 136 bombardeiros. Enquanto os debates prosseguiam
entre a as altas patentes militares e os políticos, faziam-se várias
tentativas específicas no sentido de aumentar as possibilidades de êxito da
missão. Quando Eaker foi informado da "Estadista", disseram-lhe
também para equipar com alças de mira de bombardeio de baixo nível todos os
aviões da 8ª Força Aérea que estariam em serviço. Assim, ao chegarem à África
do Norte, receberam a alça de mira N7: esta era de tipo usado em canhão,
modificada, e substituía o equipamento Norden que fora aperfeiçoado para
bombardeio de alto nível. Em fins de maio, o Ministério da Aeronáutica de
Londres concordou em instalar bússolas DR britânicas e indicadores de
velocidade do ar no maior número possível dos aviões que participariam da
"Estadista", mas somente 18 aparelhos receberam esse equipamento.
Para ajudar as posições antiaéreas e de armas portáteis, instalaram-se outras
metralhadoras no nariz dos B-24 das esquadrilhas avançadas de cada força (a
maioria tinha metralhadoras duplas de .50) e as torretas dorsais (superiores)
foram modificadas para permitir que disparassem para a frente; também se
acrescentou mais blindagem ao convés de vôo. Os membros da tripulação que
não estariam operando durante as corridas de bombardeio (como o
radiotelegrafista e o engenheiro de vôo) receberiam Fuzis-metralhadoras com
que atirariam através das janelas da fuselagem. Tanques de combustível
extras foram adaptados às asas bem como no compartimento de bombas e
providenciaram-se 150 novos motores para substituir os prematuramente
desgastados pela areia do deserto, que às vezes reduzia a vida de um motor
Pratt & Whitney de 300 horas para apenas 60. Cerca de 300 novos motores
chegaram a Bengási no transatlântico Mauretania dois dias antes do ataque a
Ploesti. Desenvolveram-se também
ajudas de treinamento de grande valor estratégico na forma de reproduções
da área de Ploesti e das refinarias isoladas uma da outra, construídas na
base dos detalhes que os Aliados possuíam em registros feitos antes da guerra
e por observações pessoais de ex-empregados das refinarias de petróleo.
Cinco modelos foram construidos: de Ploesti, Brazi e Campina (cada um na
escala de 1/50.000), e das áreas gerais de Floresti-Ploesti (1/100.000) e de
Campina (1/500.000). Nos modelos incluíam-se todos os acidentes naturais,
ondulações do terreno, árvores etc., e com grande perfeição. Fizeram-se
quinze fotografias ampliadas, enormes, e alguns esboços em perspectiva dos
alvos em separado. Por fim, cada tripulação recebeu esboços, mapas e
fotografias para cobrir o avanço até seu Setor de Pontaria e a localização
exata do alvo que lhe fora destinado. Além disso, cópias de 11 mapas em
pequena escala da área geral (1/1.000.000 ou 1/500.000) foram impressas e em
grande quantidade. Estes modelos foram
construídos sob as mais rígidas precauções de segurança na RAF em Medmenham,
Buckinghamshire, onde também foram aproveitados num filme especial de 16 mm e
de 40 minutos de duração. Este filme, destinado a dar às tripulações uma
idéia de que estavam atacando realmente o alvo, incluía um comentário explicativo,
que continha informações gerais para todos os membros da tripulação, além de
seções especiais para pilotos, navegadores e bombardeadores, com o objetivo
de padronizar a instrução para todos os envolvidos na tarefa. Filmes mudos
de 8 mm também foram produzidos para mostrar a aproximação para cada alvo
individual, baseados em outros modelos das refinarias, que haviam sido
construidos após terminados os cinco primeiros modelos originais. A própria
existência desta coleção elaborada de filmes, modelos e mapas demonstrava bem
a profundidade do planejamento organizado para esta operação. A 17 de junho o Coronel
Smart comunicou ao General Eisenhower: "Os modelos são considerados
muito bons. Pastas do alvo estão sendo preparadas aqui no Reino Unidol.
Rodam-se películas de instrução dos modelos, dos mapas, das fotografias e dos
desenhos de perspectiva, que deverão estar prontas até 25 de junho". O
homem responsável por todo esse material era o Comandante-de-Ala A. P. H.
Forbes, cujos esforços não mereceram na ocasião os devidos cumprimentos de
Whitehall. O Ministério da Aeronáutica observou, a 8 de julho, que Forbes
"fizera um trabalho extraordinário, considerando-se o reduzido espaço
de tempo disponível e os materiais que usou ... (mas os flmes de 16 mm)
apresentavam grande número de defeitos, porém, em termos de escala dos mapas,
orientação de exposição, falta de definição de detalhes importantes e de
perspectiva durante a aproximação de baixo nível". O Marechal-do-Ar
Tedder concordou que o filme era "decepcionante" por não ter sido
possível simular uma aproximação realmente baixa e o Tenente-Coronel W. L.
Forster, do QG do 9º Comando de Bombardeiros, também foi da mesma opinião. O
comentário do filme, sem dúvida baseado em informes dados pelo Serviço de
Inteligência disponível em fins de junho, à luz das experiências do ataque
real, certamente podia ser atrapalhado: "As defesas de caça de Ploesti
não são fortes e a maioria dos caças será pilotada por aviadores romenos, que
estão completamente entediados com a guerra", era um exemplo de sumo
disparate. Mas grande parte das acerbas críticas, feitas antes do ataque,
aos esforços de Forbes pelos oficiais da RAF foi injusta. Após a missão,
pilotos e navegadores sentiram grande entusiasmo diante da precisão dos
filmes mudos e falados. Para ajudar os
navegadores, um mapa de 70 cm foi colado e dobrado de forma tal, que se
tornaram desnecessários outros mapas separados, e uma tira impressa, medindo
16 x 82 cm, fora fixada à sua margem esquerda com clipes de papel. Nesta tira
havia 11 desenhos ou fotografias de pontos de verificação importantes ao
longo do caminho que ia de Corfu até o Danúbio, lembrando uma versão
ampliada daqueles cartões-postais em forma de gaita, que apresentam várias
fotos do mesmo local. Além dos mapas, foram preparados e distribuídos desenhos
em perspectiva dos alvos a cada tripulação, destinados a mostrar-lhe seu
Ponto de Pontaria individual. Também se desenvolveram meios elaborados para
ajudar os fugitivos de tripulações derrubadas: além de pequenas bússolas e um
mapa impresso em seda, cada homem receberia uma bolsa contendo seis dólares,
3.000 dracmas e 1.500 liras. Discutiram-se intricados detalhes sobre tipos e
posição das câmaras fotográfcas a serem levadas nos aviões para registrar os
detalhes do ataque, e também discutiu-se um reconhecimento de acompaphamento
a ser feito por Mosquitos da RAF. A 3 de julho, a maior
parte dos três grupos de reforço já chegara para juntar-se ao Comando de
Bombardeiros da 9ª Força Aérea. O 93° Grupo partiu do Reino Unido ao
anoitecer de 25 de junho; o 44º, dois dias depois, e o mais novo grupo dos
Estados Unidos, o 389º, a 2 de julho; viajando de Portreath, na Cornualha, e
passando por Oran, na Argélia, chegaram a Bengási em um dia de vôo. Contudo,
como as tripulações de reposição demoraram a chegar ao Reino Unido, o último
dos 123 B-24 só deixou Portreath a 9 de julho: um avião já caíra antes de
chegar àquela base e outro foi obrigado a descer, por avarias no motor, em
Portugal, quando a caminho de Bengási. Assim, chegaram 122 aviões. Os dois
Grupos da 8ª Força Aérea já haviam voado várias missões de treinamento de
baixo nível sobre East Anglia, passando rente às copas das árvores em formação
cerrada. A 11 de junho, o 389º pousou em Hethel, Norfolk, e também fez
idênticas missões de treinamento. Embora tivessem praticado recentemente o
vôo em baixo nível nos Estados Unidos, dois B-24 chocaram-se no ar, matando
18 tripulantes. Os dois sobreviventes iriam para Ploesti. Uma vez na África
do Norte, o 389º teria seu batismo de fogo em Creta, e todos os cinco grupos
destinados a atacar Ploesti realizaram 1.183 incursões contra 17 alvos
italianos e outros alvos no sul da Europa, durante as três primeiras semanas
de julho. À parte a perda de certo número de aviões e tripulações destacados
para a "Operação Macaréu", houve outro perigo específico nessas
missões: a 19 de julho, uma das tripulações derrubadas incluía dois oficiais
já instruídos sobre o ataque a Ploesti. Todos os grupos
recém-chegados encontravam-se a menos de 32 km de Bengási: o 93º ocupava o
Sítio 7 (Terria), a 29 km ao sul da cidade e a oeste da rodovia principal, que
corria no sentido norte-sul; o 44º estava no aeródromo de Benina, a 19 km a
leste de Bengási e ao norte da rodovia Bengási-Barse, e o 389º, numa base
perto de Caste, a 11 km ao sul de Bengási, cinco quilômetros ao sul de Berka
2 e a oeste da rodovia principal norte-sul. Enquanto os grupos se acomodavam
em meio à poeira do ambiente, saboreavam as delícias da carne enlatada e
procuravam acostumar-se com a ação do teatro da luta do Mediterrâneo, os
estrategistas dedicavam-se aos arremates dos detalhes da operação. Na
última semana de junho, o Major-General Brereton criou uma Comissão de
Planejamento formada de oficiais para examinar o projeto, que incluía o
valor relativo de ataques de alto e baixo níveis. No dia seguinte à chegada
do Coronel Smart a Bengási, 25 de junho, oito oficiais (entre eles o
Brigadeiro-General Ent e o Coronel Edward J. Timberlake, ex-Comandante do
93º Grupo e agora à testa da 201ª Ala de Combate Provisória da 8ª Força
Aérea) compareceram à sessão inaugural. Calculou-se, então, que um ataque de
baixo nível custaria 16 aviões por grupo, contra 12 para um total de 10
missões de grande altitude. Mas, neste estádio, acreditava-se não haver
dados suficientes para uma recomendação firme e se exortaram os oficiais da
meteorologia e do Serviço de Inteligência a obterem mais informações. Não
obstante, o Coronel Timberlake foi induzido a preparar um programa de
treinamento e o Coronel Snow, a fazer um plano de operações baseado num
ataque de baixo nível. Já se decidira começar a ofensiva partindo de Bengási,
não de Alepo. Embora esta última estivesse mais perto do alvo, a partida dali
forçaria a violação da neutralidade turca e os problemas logísticos no trato
de cinco grupos na Síria eram enormes. Contudo, a necessidade de surpresa era
o fator decisivo, 200 aviões partindo de Alepo só poderiam ter um objetivo,
ao passo que os aviões de Bengási poderiam estar atacando vários alvos no
sul da Europa. O Brigadeiro-General Ent
pediu a oito especialistas civis da Seção de Análise de Operações do 9º
Comando de Bombardeiros que examinassem mais atentamente o assunto.
Baseando-se nos resultados a que chegaram aqueles homens, tirou suas próprias
conclusões e apresentou-as a Brereton, a 30 de junho. Em caso de se optar por
uma aproximação de grande altitude, Ent achava que "decididamente"
50 por cento do alvo seriam destruidos em quatro missões; e havia chances
ainda maiores de se causar mais danos em menor número de missões. Se os
motores de reposição necessários chegassem e contribuíssem eles com 80 por
cento da eficiência de manutenção, seria possível realizar quatro missões em
nove dias, com um déficit total de 22 aviões. Ademais, num ataque a grande
altitude, o moral das tripulações seria melhor e um programa de treinamento
demorado estaria fora de cogitação. Ent concordava que o ataque de baixo
nível oferecia melhores perspectivas de destruição completa, mas disse:
"Não posso deixar de pensar que uma destruição parcial, de uns 60 por
cento, mais ou menos, é o melhor que podemos esperar". Seria necessária
uma quinzena de treinamento especial e, calculou ele, um ataque de baixo
nível custaria 75 aviões. Portanto, exortou ele: "Atacar a Alto Nível
até que o alvo seja inteiramente destruido ou, pelo menos,
incapacitado". Brereton também recebeu
uma avaliação do Serviço de Inteligência quanto aos efeitos de ataque de alto
e baixo nível sobre Ploesti e, durante uma conferência no Cairo, a 14 de
julho, sintetizou a questão. O método de grande altitude exigiria duas bombas
certeiras de 220 kg atingindo nove pontos de pontaria (uma em cada
refinaria). Para que isso fosse possível, seriam necessárias 1.761 incursões
sobre o alvo, e levando-se em conta uma proporção de perdas de 0 a 5 por
cento, isto representaria 20 missões, cada uma de 120 aparelhos, durante mais
de três meses, com uma perda provável de 170 aviões. Um ataque de baixo nível
precisava atingir 27 pontos de pontaria com um total de 141 bombas de 450 kg
(baseado em 20 por cento de precisão). Para isso eram necessários 160 aviões
sobre o alvo. Levando em conta as perdas, era preciso usar 200 aparelhos
nessa missão, que tinha ótimas chances de êxito completo em troca da perda
de 71 aviões. Havia, contudo, a possibilidade de que um ataque de baixo
nível conseguisse poucos resultados e sofresse tais baixas, que não restaria
número suficiente de aviões para outras investidas mais tarde. Compreendendo
plenamente que um ataque de baixo nível poderia envolver "derrota
completa de toda a força", assim mesmo, por ser o alvo de grande importância,
Brereton favorecia esse método, seguido por quantas missões (em alto ou
baixo nível) fossem necessárias. Esta decisão pode ter sido influenciada
pelos informes que diziam estarem situados perto de Ploesti canhões
antiaéreos pesados que afetariam em particular os aviões a grande altitude.
O Comandante-Chefe da RAF no Oriente Médio, Marechal-do-Ar Douglas,
concordou que deveria ser realizado um ataque de baixo nível seguido por
incursões de grande altitude, mas ele e Brereton continuaram insistindo que
apenas um ataque de baixo nível não seria suficiente. Esta opinião foi
reiterada uma semana depois pelo HQ RAF ME ao Ministério da Aeronáutica em
Londres. Entrementes, o Coronel
Smart preparara seu plano final para a missão. Ele visava pôr nove importantes
refinarias de Ploesti fora de ação durante pelo menos quatro meses e para
consegui-lo atacaria 17 unidades de destilação e nove de craqueamento: a
carga de bombas suficiente para isto poderia ser transportada por 75 aviões,
mas descontando-se eventuais perdas, falhas e fracassos, um mínimo de 150
aviões teria de ser requisitado. Se as missões encarregadas do apoio à
"Operação Husky" fossem suspensas por pelo menos uma semana antes
do ataque, poder-se-ia esperar 80 por cento de utilização e, portanto,
assegurar-se de que 150 a 188 aviões seriam destacados para os cinco grupos
no dia da missão. A equipe de planejamento
de Brereton em Bengási estava agora recebendo assistência técnica de vários
peritos, como o Capitão de Grupo D. G. Lewis, da RAF, que se juntou aos
Coronéis Smart, Stroh e Timberlake no pequeno grupo de planejamento em
Bengási e que era principal responsável pela "Operação Macaréu".
Tudo que se relacionava com a missão foi posto sob guarda numa barraca verde,
portátil, montada no recinto do comando em Berka Main: poucas pessoas tinham
acesso aos seus segredos. Ali discutiam-se os méritos concernentes às instalações
de destilação, às unidades de craqueamento e às casas de caldeiras (estas
últimas eram de vital importância não só no processo de refinação, mas porque
o vapor é arma eficaz no combate a incêndios). Por fim escolheram-se quarenta
alvos que por sua vez foram agrupados em sete grandes, cinco dos quais
ficavam em Ploesti, o sexto em Campina e o último deles em Brazi. Após consideráveis
ponderações sobre os méritos técnicos das bombas e das espoletas disponíveis,
achou-se por bem usar bombas de 450 kg e 220 kg, com as primeiras dotadas de
espoletas na cauda, ajustadas para explodir de uma a seis horas após o lançamento,
e as últimas, munidas de espoletas com um mínimo de 45 segundos. Para maior
eficiência, as espoletas M-106 e M- 124 foram trazidas, em especial dos Estados
Unidos. Além disso, devido ao risco de fogo nos alvos, todos os aviões
deveriam transportar bombas incendiárias de 2 kg britânicas ou de 45 kg
americanas. Dez dias antes da ofensiva, um avião de cada grupo foi carregado
sem munição, bombas e gasolina que seriam transportadas até Ploesti e
recebeu um plano de vôo semelhante ao indicado para a "Macaréu". Verificou-se
então que o tempo médio de vôo era de 11 horas e 12 minutos e o consumo
médio de combustível, de 10.350 litros, ou pouco mais de 917 litros por hora. Uma vez ajustados os
detalhes dos sete alvos e suspensas as operações de apoio à
"Husky", os cinco grupos iniciaram um rigoroso programa de
treinamento. Ao sul de Bengási, na orla de uma escarpa, erguia-se um castelo
arruinado, de onde saía uma estrada em linha reta, passava pelo deserto e ia
até Soluch, situada a uns 30 km a oeste. Os estrategistas usaram esta estrada
para representar a ferrovia, que se originava no Ponto Inicial escolhido
(Floresti) e seguia até Ploesti. Eles prepararam uma arca de alvo falsa,
baseada no conhecimento topográfico que tinham dos locais da Romênia; a
capacidade de curva do B-24 era de um grau por segundo a uma velocidade de
290 km/h. Sob a direção do Comandantede-Ala J. S. Streater e do
Tenente-Coronel S. L. Brown, do 835° de Engenheiros, ergueram-se vigas de aço
para representar os alvos das refinarias e, para facilitar do alto a
identificação, colocaram-se colchões no topo. Infelizmente, os nômades
locais abominavelmente roubaram-nos, bem como os pedaços de pano que os
substituíram. Por fim, eles não lograram achar nenhuma utilidade para os
tambores de óleo de cinco galões usados em lugar daqueles no topo das vigas.
Suas atividades, porém, já haviam desmentido as afirmações oficiais de
segurança: "A área do alvo falso era cuidadosamente guardada e somente
o pessoal credenciado tinha acesso a ela". Durante o período de
treinamento, iniciado a 20 de julho sob a direção do Coronel Timberlake, o
vôo começava a 160 m, e daí se reduzia progressivamente; os comandantes de
elementos e de esquadrilhas aprenderam uma posição de liderança e comandantes-de-esquadrilha
voavam alternados como co-pilotos. As tripulações tinham de lançar suas
bombas numa altura máxima de 100 m e com uma tolerância de erro circular
máximo de 33 m: eles tinham de navegar até o alvo numa altitude mínima e não
fazer mais de uma curva corretiva de cinco graus entre o Ponto Inicial e o
alvo. Esquadrilhas de seis aviões foram treinadas para decolar em 10 minutos,
transferir-se das formações de rota para as de ataque durante a curva do
Ponto Inicial até o eixo de ataque, bombardear na altitude de 100 m e logo em
seguida retomar a formação de altitude mínima. O programa levava em conta
bombardeios efetuados por um só avião, por elementos de três e levas de
seis e 12 aparelhos. No período entre 22 e 29 de julho houve um programa
assaz intensivo, que incluía cada aparelho atacando sua própria seção do
alvo com bombas de festim, e o espaço de tempo que todas as unidades gastavam
sobre o alvo foi reduzido para um minuto. Houve doze missões práticas sobre
alvos simulados no deserto, que deram bons resultados; um aviador disse, mais
tarde: "quando finalmente chegamos à verdadeira Ploesti, nossos
movimentos eram quase automáticos". Realizaram-se duas missões simuladas
em grande escala a 28 e 29 de julho, e na última, usaram-se bombas autênticas
de 45 kg e espoletas de ação retardada, com o alvo sendo teoricamente
destruido em dois minutos. Estando numa B-24 que sobrevoava o local,
Brereton pôde ver toda a cena e informou: "Eles chegaram ao alvo
justamente na hora marcada e bombardearam-no com precisão mortífera". No final do treinamento a
confiança aumentava à medida que crescia a precisão em navegação e
bombardeio, e as tripulações tornaram-se mais familiarizadas com seu alvo. O
Tenente-Coronel W. L. Forster, o consultor britânico que se mostrou crítico
acerbo, observou que as missões práticas "alcançavam extraordinário grau
de proficiência sem acidentes" - por conveniência, ignorou a morte de
um camelo e o arrasamento de várias tendas nativas. Forster comentou ainda:
"Os homens começaram a enfrentar com mais coragem o desconhecido e nos
últimos cinco dias, mais ou menos, o moral melhorou a tal ponto, que os
homens em sua maioria, estavam realmente ansiosos por cumprir a tarefa".
O Coronel Leon W. Johnson, que receberia a "Medalha de Honra" do
Congresso em Ploesti, disse: "Precisão não era problema... éramos
capazes de atingir um alvo pouco maior que a porta de uma casa... portanto,
sabíamos, se nos fosse possível chegar ao alvo, sem dúvida o
atingiríamos". Os membros das tripulações
tiveram orientação sobre os planos em várias oportunidades. A 20 de julho,
os comandantesde-grupos, os comandantes e subcomandantes-de-esquadrilhas
compareceram a uma reunião em que foram advertidos: "Destruam as
refinarias romenas não parceladamente, mas de uma só vez, integral e definitiva...
Vocês têm apenas um dia para fazer o trabalho". A seguir eles ouviram o
Brigadeiro-General Ent tecer considerações sobre as defesas de Ploesti e o
Major G. K. Geerlings, Oficial de Inteligência da 8ª Força Aérea, forneceu
detalhes da missão por intermédio do filme de 16 mm e dos modelos de
Medmenham. Depois disso, os mesmos oficiais dirigiram-se a uma grande sala
onde poderiam encontrar informações gerais, e também havia outros
compartimentos, separados, contendo detalhes especiais para cada força
quanto ao seu próprio alvo. Somente quatro dias mais tarde é que os oficiais
restantes receberam suas devidas instruções e, a 29 de julho, os soldados foram
oficialmente informados do seu destino. De inicio, as tripulações
não se sentiam, em absoluto, entusiasmadas. O Tenente-Coronel Forster, que
compareceu à instrução dos comandantes-de-grupo e ficou em Bengási até
depois da missão, informou: "A atmosfera estava péssima e o moral não podia
estar mais arrasado: elas nunca haviam feito trabalho de baixo nível, nem
viagem tão longa; sabiam que o alvo era dos mais bem defendidos da Europa...
estavam terrivelmente assustadas ao pensar na existência da suposta
barragem de balões; só esperavam que as instalações explodissem debaixo
delas assim que as bombas caíssem". Mas aos poucos foram adquirindo
confiança, à medida que oficiais americanos e britânicos respondiam às suas
perguntas, esclarecendo algumas dúvidas concernentes a ataques de baixo
nível, barragens de balões etc. Forster confessou que esses oficiais "foram
produtivos e eficientes" e que, também com as missões de exercício no
deserto, ajudaram bastante para levantar o moral dos homens. No sábado, 31 de julho, o
Major-General Brereton, o Marechal-do-Ar Tedder e o Brigadeiro-General Ent
fizeram sua última visita aos campos. A um grupo, Tedder disse:
"Sinto-me orgulhoso por estar aqui com vocês antes do trabalho. Quero
desejar-lhes boa sorte. Trata-se de desempenhar missão difícil e perigosa.
Ela exigirá toda a sua coragem e engenhosidade já reconhecidas pelos
americanos". A cada grupo, Brereton salientou que esta missão poderia
realizar num dia o que forças terrestres talvez necessitassem um ano para
cumprir. Na segunda semana de
julho, os meteorologistas da 9ª Força Aérea informaram que, dentro do
período 15 de julho/10 de agosto, os dias de 1º a 4 de agosto seriam os mais
favoráveis para o ataque. Esta conclusão foi ratificada por peritos que
haviam decifrado o código usado pelos meteorologistas inimigos. O código era
mudado no primeiro dia do mês, por isso, no caso de haver dificuldades com o
novo código, era preferível realizar o ataque no fim de julho ou bem no
começo de agosto. A 22 de julho Brereton marcou a data para 31, sábado. Seis
dias depois, esta foi transferida para 1° de agosto, em parte porque, no
domingo, o adversário talvez estivesse menos alerta e as refinarias teriam
menor número de civis romenos. Quando os últimos raios de sol desceram sobre
os aeródromos de Bengási, a 31 de julho, as tripulações mostravam no semblante
aquela mistura de medo, animação e o ar resignado que invariavelmente
antecede uma tarefa perigosa. Brereton já comunicara ao General Arnold, em
Washington: "Estou plenamente satisfeito com a atitude demonstrada por
todos os comandantes... e o planejamento foi excelente... Penso que todas as
eventualidades possíveis foram examinadas; sinto-me bem confiante". Todavia, naquela noite,
poucos dormiram em Berka Main ou nos campos circunjacentes: no máximo, um
cochilo algumas vezes interrompido. No dia seguinte, grandes façanhas seriam
realizadas, surgiriam heróis e homens encontrariam a morte; para os que
incapazes de dormir, buscavam a solidão sob o céu noturno, ou conversavam
sobre assuntos fúteis para amenizar a angústia das horas de espera, a
enormidade da tarefa que tinham à frente era uma constante. A pobilidade de
"missão fácil" era de todo remota. Mas, tal é a natureza humana,
que muitos se sentiam animados pela esperança de que seu aparelho sairia
afinal ileso. Para a maioria deles isso talvez viesse a ser apenas uma
ilusão. "Operação Macaréu": 1º de agosto de 1943 Antes do amanhecer, por
volta das 04h (todas as horas de ataque estão no horário da Europa Oriental, duas
horas mais que em Greenwich, conforme usada na Romênia: as bases de Bengási
obedeciam à hora de verão egípcia, que estava três horas adiantada, de modo
que a hora local era 05h) no domingo, 1° de agosto, os jipes começaram a movimentar-se
nos cinco aeródromos da missão: Lete (98º Grupo), Berka 2 (376º), Berka 4
(389º), Benina Main (44º) e Terria ou Sítio 7 (93º). Pouco depois, sirenes
tonitruantes e luzes intensas despertaram as bases para uma atividade de
formigueiro - os homens começaram a se dirigir para os ranchos, conversando,
pilheriando ou calados sob a tensão da ação iminente. A hora da decolagem
ainda demoraria um pouco. Desjejum, arrumação do equipamento de vôo,
pára-quedas e equipamento de fuga, instruções de último minuto e o percurso
em jipe até os aviões que os aguardavam. Para as tripulações da
"Operação Macaréu" este processo, que às vezes demorava três horas,
seria reduzido: pois normalmente o destino do alvo só era revelado depois
desse período préincursão. Eles, todavia, não podiam fugir à espera monótona
junto dos seus aviões que, após a verificação inicial dos equipamentos à
chegada, eram obrigados a suportar antes que os mandassem embarcar e instalar
as espoletas nas bombas. Mesmo então, era preciso esperar o sinal da pistola
Verey a fim de se juntar à fila de aparelhos que se dirigiam lentamente para
a cabeça da pista para decolar. Hoje tudo isso demoraria apenas duas horas,
das quais os 45 minutos finais, quando os homens estariam sentados em suas
posições de vôo nos aviões aguardando o foguete vermelho, seriam os piores
de agüentar. Quando os pilotos deixaram
as tendas, muitos deles estariam fazendo isso pela última vez, dava para
ouvir na ocasião o ronco dos motores enquanto os mecânicos faziam os ajustes
finais nos aparelhos em seus pontos de dispersão. Várias equipes de terra
haviam trabalhado noite adentro, com seus esforços bem intencionados, é
claro, perturbando ainda mais os campos inquietos. Um mínimo de 12 a 13
horas de vôo, numa viagem de ida e volta de 4.300 km, metade da qual
diretamente sobre território inimigo, aguardava as tripulações aéreas. Esta
missão levaria os B-24 quase aos limites do seu raio de ação operacional de
5.600 km, que permitia uma tolerância relativamente pequena para erro, dano
ou manobras táticas. Os céticos observaram que
os raios de ação operacionais eram calculados com base em vôos calmos a 250
km/h por aviões que não haviam sido remendados, sujeitos a ação inimiga ou
prejudicados pela areia do deserto. Muitos membros da missão não se
tranqüilizaram de todo com as afirmações confiantes de que os tanques de
combustível extras seriam suficientes para o extenso plano de vôo e mais o
peso provocado pela blindagem da fuselagem, munição e uma carga de 2.200 kg
de bombas. A rota da "Macaréu" era claramente baseada nos conceitos
originais do Coronel Smart sem o plano para um ataque diversivo de B-17
contra a Itália, nem a rota da RAF sobre Creta e nem a do Tenente-Coronel
Whitney, de Alepo. Sem desvios para fins táticos ou para evitar obstáculos
ocasionais, a rota media 1.700 km, de Bengási até Ploesti, e 1.620 km na
viagem de volta. Os cinco grupos deveriam decolar individualmente e reunir-se
em seus respectivos aeródromos, para depois rumarem para a linha de reunião
da missão de Bengási-Driana-Tocra, na costa do Mediterrâneo Meridional, onde
a formação de rota seria tomada às 07h30. Da costa da África do Norte, os
aviões tomariam rumo nor-noroeste, para Corfu, a 800 km de distância,
passando a 320 km a oeste de Creta e 160 km a oeste de Morea, esperando,
assim, ficar fora do alcance de caças e do radar inimigos. A força então
penetraria o mar Jônico entre a Itália e a Grécia a um ponto 38° 20' N, 20º
08' E, a 120 km a oeste de Corfu. Embora se ignorasse a existência de
instalações de radar em Corfu, o perigo de detectação e informações visuais
impôs uma subida a 3.000 m para atravessar a ilha. Um plano para se passar a
oeste também foi abandonado por se temer detectação e interceptação do
calcanhar da Itália. Uma vez fora do alcance de Corfu, os aviões chegariam à
área da pequena ilha de Erikousa, no Estreito de Otranto, onde tomariam um
rumo norte-leste para um ponto (43° 50' N, 23° 43' E) perto da cidade búlgara
de Lom, no Danúbio, a 670 km de distância. As tiras presas aos mapas dos
navegadores seriam particularmente úteis durante este trecho do caminho, a
maior parte do qual estava localizada numa região muito montanhosa. Tendo cruzado a costa
albana, a força quase logo teria de transpor montanhas de até 2.500 m. A rota
planejada a levava a apenas 32 km a leste de Vlone (Valona) e 120 km a leste
de Tirana, cruzando a fronteira com a Iugoslávia logo ao norte do lago
Ohridska. Dai por diante, as montanhas da Iugoslávia macedônia subiam para
2.800 m, sendo atenuadas apenas pelo rio Morava. que desaguava no Danúbio,
perto de Belgrado, e tinha vários tributários na Iugoslávia. Sobre esta, os
aviões passariam logo a oeste de Skopje e quase sobre Vranje até Pios, no rio
Nisava, que desaguava no Morava, em Nis, a 60 km a noroeste. Durante essa
parte da viagem, os aviões iriam a 100 km a oeste de Sofia. De Pirot, a 100
km a sudoeste de Lom, a força deveria reduzir a altitude ao sobrevoar 64 km
da ponte noroeste da Bulgária, para cruzar o Danúbio a uma altitude entre
1.000 e 1.650 m. Esta altitude mais baixa era necessária para colocar os
aviões sob o nível das colinas circundantes onde poderia haver estações de
radar. Uma vez atravessado o
Danúbio, a força da missão tomaria um rumo lés-nordeste voando a leste de
Craiova e a oeste de Slatina. na direção do centro rodoviário romeno de
Pitesti, no rio Arges, a 176 km de distância, que era o Primeiro Ponto
Inicial. Ali, um grupo (o 389º) voaria para Campina, distante 77 km, e os
outros quatro rumariam para seu Segundo Ponto Inicial, em Floresti, 20 km a
noroeste de Ploesti, para desfechar seus ataques. A formação de rota a ser
adotada na linha de reunião Bengási-Driana-Tocra se baseava na distribuição
de forças para atacar os alvos da "Macaréu", na Romênia. As sete
refinarias que seriam os alvos receberam codinomes: Branca 1 (Romana
Americana), Branca 2 (Concordia Vega), Branca 3 (Standard Petrol Block e
Unirea Sperantza), Branca 4 (Astra Romana e Unirea Orion) e Branca 5
(Colombia Aquila), todas em Ploesti; Azul (Credituel Minier), em Brazi, e
Vermelha (Steaua Romana), em Campina. Vinte e quatro aviões do 376° Grupo
atacariam seis instalações importantes na Branca 1 em quatro levas de seis
com o Coronel Keith K. Compton como comandante da força de alvo.
Originariamente, o avião de Compton fora destacado para dirigir este grupo,
mas no último minuto o Tenente Brian W. Flavelle tomou a posição dianteira.
Atrás do 376° vinha o 93º Grupo com o Tenente-Coronel Addison E. Baker no comando
das Forças de Alvo Branca 2 e 3. Vinte e um dos aparelhos do 93º em três
levas de seis e uma de três, dirigidos pelo Major George S. Brown, deveriam
atacar seis instalações na Branca 2, e na rota de formação eles eram seguidos
por 12 outros aparelhos do 93°, destinados a três intalações na Branca 3, em
quatro levas de três aparelhos, dirigidos pelo Major Ramsey D. Potts. Logo
atrás do 93º vinha o 98º Grupo do Coronel John R. Cane, cujos 40 aviões,
dirigidos pelo Tenente John S. Young (que então voava como co-piloto de
Kane), atacariam 10 instalações importantes na Branca 4, em quatro levas de
10 aparelhos; à sua retaguarda vinha o 44º Grupo, e quinze dos seus aviões,
em cinco levas de três, tendo o Coronel Leon W. Johnson como comandante da
força de alvo e o Major William H. Brandon na liderança (Johnson atuou como
seu co-piloto) deveriam atacar seis instalações na Branca 5 e outros 18 sob o
comando do Tenente-Coronel James T. Posey e dirigidos pelo Capitão John H.
Diehl (com Posey, como co-piloto) atacariam três instalações no Alvo Azul,
em três levas de seis aparelhos. O 389°, ocupando o último lugar na força de
missão sob o comando do Coronel Jack W. Wood e dirigido pelo Capitão Kenneth
M. Caldwell, devia levar seus 24 aviões em oito levas de três contra o Alvo
Vermelho. Embora as forças de alvo devessem voar nesta ordem, as refinarias
estavam relacionadas numa ordem de importância variada: Astra Romana
(incluindo Unirea Orion), Concordia Vega, Romana Americana, Steaua Romana,
Unirea Sperantza (incluindo Standard Petrol Block), Credituel Minier e Colombia
Aquila. Além dos 154 aviões destinados para atacá-las, 23 aviões extras
decolaram bem e foram destacados da seguinte maneira para compensar
decolagens fracassadas ou perdas antes da chegada ao alvo: Branca 1 (4),
Branca 2 (4), Branca 4 (6), Branca 5 (2), Azul (2), Vermelha (5) e Branca 3
não recebendo qualquer avião extra. As formações usadas dentro
dos grupos durante a aproximação do Segundo Ponto Inicial variavam,
permitindo máxima liberdade de ação com o mínimo de dispersão horizontal, e
levava em conta as táticas de grupo normais. O 376° e dois esquadrões de
vanguarda do 93º deviam dispor-se numa formação escalonada de espaço simples,
com os dois outros esquadrões do 93º e três do 98° numa formação em
"V"; o 98° Esquadrão na traseira e todos os quatro do 44º
adotariam um escalão com o 389° na retaguarda, usando uma formação em
"V". De modo otimista, toda a força da missão adotaria uma
velocidade de rota de 300/336 km/h, embora, na prática, a média fosse de 250
km/h. Em Pitesti, Primeiro Ponto
Inicial, todos os cinco grupos desceriam para uma altitude mínima (150 m),
descendo mais ainda para o nível de bombardeio (30/90 m) no Segundo Ponto
Inicial - ao norte de Campina e Floresti, respectivamente. Os quatro grupos
que iam em direção a Floresti sobrevoariam montes e ravinas florestados que
dificilmente ocultariam canhões antiaéreos, e também Targoviste, velha
cidade, com várias igrejas e guardando as ruínas do antigo palácio dos
Príncipes da Valáquia. Tal qual Floresti, situava-se na extremidade de um
vale, com uma ferrovia percorrendo-o no sentido sudeste. Esta semelhança
conduziria a uma errônea e trágica identificação durante a
"Macaréu", pois essa ferrovia levava a Bucareste, não a Ploesti! Sobrevoando Floresti
(representada no treinamento pelo castelo arruinado da escarpa do deserto),
a força principal tomaria a formação de ataque de seis forças de alvo. Em
cada uma, os elementos individuais receberam lugares específicos de modo que
aquele aparelho poderia localizar com exatidão seus próprios Pontos de Mira:
tudo isto fora ensaiado meticulosamente sobre a Cirenaica durante os doze
últimos dias. Assim que as forças de alvo se reunissem em coluna durante a
curva, a formação seriam, da esquerda para a direita, as Forças de Alvo
Brancas 1 a 5, com espaçamentos de 2.000, 2.100, 600 e 310 m, respectivamente,
e todos à esquerda da ferrovia Floresti-Ploesti, a qual fora representada
pela estrada do castelo até Soluch, na África do Norte: a dispersão dessas
cinco forças de alvo seria de aproximadamente 6,8 km. À direita da ferrovia
estaria a Força de Alvo Azul, prosseguindo cada unidade para Brazi. Dos seus
Segundos Pontos Iniciais, uma vez em formação de ataque, as Forças de Alvo
Brancas voariam num rumo de 127 graus, as que atacariam os Alvos Azul e
Vermelho, 132 e 150 graus. respectivamente. Cada força de alvo devia voar sob
um único líder até avistar os alvos individuais, quando então os sublideres
assumiriam o controle: todos os aviões atacantes deveriam colocar-se em
formações cerradas de uma ponta de asa a outra. Para evitar danos provocados
pelas explosões das bombas aos aviões da retaguarda, cada força de alvo
seria escalonada da frente para trás. Uma vez completado o
bombardeio, as Forças de Alvo Brancas prosseguiriam em seu rumo de ataque no
mais baixo nível possível de maneira a não ir de encontro às chaminés e
outros obstáculos durante diferentes períodos de tempo após cruzarem a
ferrovia que rumava no sentido oés-leste contornando o sul de Ploesti: as
Forças de Alvo Brancas 1, 2 e 3 durante dois minutos e 15 segundos; Branca
4, dois minutos, e Branca 5, um minuto e 45 segundos. Depois disso, todas
deveriam dobrar à direita para um rumo de 233 graus e prosseguir numa
altitude de 1.000 a 1.500 m para o lago Balta Potelel, na margem romena do
Danúbio, a uns 190 km a sudoeste de Ploesti e 48 km a noroeste de Plevna, um
lugar de considerável importância nas histórias romena e européia. Também
as Forças de Alvo Azul e Vermelha deveriam dobrar à direita o mais breve
possível, após atacarem seus objetivos, a fim de seguir seus próprios cursos,
respectivamente de 233 e 220 graus, bem rente ao solo, e depois subirem,
quando em segurança, para 1.000-1.500 m e dirigirem-se para o ponto de
reunião geral no lago Balta Potelei. Ali, as sete forças de alvo retomariam
a formação de rota adotada no percurso de ida e subiriam para 3.000 m. Porém,
a força da missão não voltaria às suas bases pelo mesmo caminho. Na volta,
partindo do ponto de reunião, ela tomaria o rumo da extremidade sul de Corfu
dirigindo-se inicialmente no sentido sul-oeste do lago Balta Potelel para
Berkovista, a 110 km de distância. Esta rota levaria os aviões a 64 km a
leste de Pirot e apenas 32 km a oeste de Sofia, atravessando a fronteira
iugoslava perto do monte Kom - o que demonstrava sua reduzida consideração
pela força aérea búlgara. Passando a 64 km a leste de Skopie e 16 a leste de
Bitola, as B-24 não sobrevoariam a Albania, mas acompanhariam mais ou menos a
sua fronteira com a Grécia do lado grego, dirigindo-se então logo ao sul de
Ioannina até o cabo Asprokavos, localizado na extremidade sul de Corfu. Dali,
já não era obrigatória a formação de rota e os aviões poderiam tomar seu
próprio rumo na altitude mais econômica até as bases da África, a uns 800 km
de distância, até Malta ou Sicília, esta já ocupada pelos Aliados, que
ficavam bem mais perto. A carga de bombas
realmente transportada por toda a força da missão era de 310.000 kg. A Força
de Alvo Branca 1 levava 24 bombas de 450 kg (com espoleta de retardamento de
1 a 6 horas instalada na cauda), 36 de 220 kg (com espoleta de 1 a 6 horas) e
72 de 220 kg (com espoleta de 45 segundos), perfazendo 132 contra o total
calculado de 84, o necessário para destruir esse alvo. Além disso, cada avião
transportava 42 caixas de bombas incendiárias britânicas. As da Força de
Alvo Branca 2 teoricamente também exigiam 84 bombas, mas tinham 48 de 450 kg
(espoleta de 1 hora) e 54 de 220 kg (espoleta de 45 segundos) para um total
de 102 mais 42 caixas de incendiárias britânicas. A Força de Alvo Branca 3
precisava de 48 bombas e levava 24 de 450 kg (espoleta de 1 hora) e 36 de 220
kg (espoleta de 45 segundos) totalizando 60, mais 24 caixas de incendiárias
britânicas. A Força de Alvo Branca 4 levava a carga maior contra um alvo:
precisando de 180 bombas, ela levava 120 bombas de 450 kg (espoleta de 1
hora) e 60 de 220 kg (espoleta de 45 segundos) com 80 caixas de incendiárias
britânicas. A Força de Alvo Azul precisava de 72 bombas, mas levava 84,
consistindo de 48 de 450 kg (espoleta de 1 hora) e 36 de 220 kg (espoleta de
45 segundos) e 36 caixas de incendiárias britânicas. Finalmente, a Força de
Alvo Vermelha tinha 96 bombas compostas de 48 de 450 kg (espoleta de 1 hora)
e 48 de 220 kg (também com espoleta de 1 hora), quatro a menos que o número
calculado para destruir seu alvo, além de 48 grupos (dois em cada avião) de
incendiárias americanas. Os 23 aviões extras transportavam um total de 92
bombas de 220 kg (espoleta de 45 segundos) e 92 grupos de incendiárias
americanas. Os 177 aviões que levantaram vôo sem dificuldades, precisando do
número estimado de 648 bombas para destruir seus alvos, na verdade
transportavam 810, compostas de 348 de 450 kg (espoleta de 1 a 6 horas)
totalizando 158.000 kg, 174 de 220 kg (espoleta de 1 a 6 horas) totalizando
39.500 kg, 296 de 220 kg (espoleta de 45 seg.) totalizando 67.200 kg em
"bombas de demolição" e mais 284 caixas de incendiárias britânicas
e 142 grupos de incendiárias americanas. Às 05h, os jipes e os
caminhões já haviam levado a maioria das tripulações para os pontos de
saída. Finalmente, a intervalos de dois minutos, entre 06h e 07h, os bombarderos
carregados levantaram vôo pesadamente e deram voltas sobre os aeródromos a
fim de tomar as formações de esquadrões e grupos antes de partir rumo à
linha onde se reuniriam para a missão. Em Terria, a poeira excessiva
provocada pelos movimentos de saída do primeiro avião atrasou a decolagem
para os outros ainda enfileirados na cabeceira da pista. Esse atraso foi até
providencial, porque um avião que integrava o 98º voltou com problemas de
motor logo após a decolagem, não conseguiu divisar bem a pista em meio àquela
poeira e caiu; salvaram-se apenas dois tripulantes. Dos escombros do
acidente saía uma coluna de fumaça escura que subia aos céus provocando
inquietação até aos menos supersticiosos. A seguir, os dois grupos
da 9ª Força Aérea, camuflados na cor marrom-rosado, e os três reforços da 8ª
Força Aérea com seus aparelhos pintados de verde-fosco juntaram 177 aparelhos
na linha de reunião. Os aviões, em sua maioria, transportavam nove ou 10
homens, embora em alguns houvesse 11 e um deles levasse um passageiro que não
se esperava - Rusty, um cão de estimação; seguiram nesse reide 1.725 homens
da Força Aérea Americana, um oficial da RAF, Capitão-Aviador (mais tarde
Comandante-de-Esquadrão) George C. Barwell, como principal artilheiro, e o
Major Norman C. Appold, do 376° Grupo. Por motivo de doença houve diversas
substituições de última hora na tripulação e nove dos aviões de Kane na
verdade eram manejados por homens do 389° Grupo. O Major John J. Jerstad,
porém, não tinha necessidade de voar. Sendo um dos que planejaram os detalhes
da "Operação Macaréu", estava terminado o seu trabalho e ele pediu
permissão ao Brigadeiro-General Ent para ser o co-piloto no vôo com o
Tenente-Coronel Baker. Ent, que era comandante da missão, tomara o assento
atrás dos dois pilotos, no aparelho do Capitão Ralph P. Thomson, que tinha no
Coronel Compton o seu co-piloto. Naquela carlinga, duas decisões importantes
seriam tomadas nas horas seguintes. Pouco depois das 07h30
daquele dia decisivo, com uma névoa tênue ainda cobrindo a costa africana, a
força "Macaréu" penetrou no Mediterrâneo. Cada grupo era conhecido
mais por um apelido do que pela sua designação oficialmente numerada, e cada
avião também tinha nome, freqüentemente ilustrado com figuras espaventosas
desenhadas na fuselagem, logo abaixo da carlinga. Junto com as bombas
pintadas à sua volta como símbolo de missões completadas e também suásticas
representando aviões inimigos derrubados, ele dava certa personalidade à
massa inanimada de metal do B-24. Tudo isso ajudava a criar uma sensação de
solidariedade nos homens, que os confortava enquanto a poderosa armada aérea
tomava o rumo de Corfu, a 800 km de distância. O 376° Grupo (Os
Liberandos) ia liderando e voava a 600 m de altitude; logo atrás,
escalonados conforme os planos, e a 1.200 m, seguiam o 93º (O Circo
Itinerante - assim batizado quando o Coronel Timberlake era o comandante), o
96º (Os Piramideiros), o 44º (Os Bola Oito Voadores) e finalmente o 389º (Os
Escorpiões do Céu). A Ordem de Campanha n° 58 do Brigadeiro-General Ent,
emitida do QG do 9° Comando de Bombardeiros, a 28 de julho, dizia que informações
seguras acreditavam haver "menos de 100" canhões antiaéreos na
"área total de refinarias", e somente a metade era guarnecida por
alemães; especificamente uma posição de dois canhões fora identificada no
telhado da estação ferroviária (Ploesti Sul) adjacente à refinaria Astra
Romana. Provavelmente "menos de 100 balões... em toda a área" do
tipo comum alemão ancorados por cabos de 2,7 mm e 3 mm; o radar estava
alinhado para cobrir os acessos leste. Os atentos talvez tivessem notado que
entre esses detalhes Ent admitia que "não havia informes recentes"
sobre AAe e, muito menos, detalhes sobre balões. Havia uma lista citando a
existência de 28 bases desde o Levante, passando pelo Egito, até a Líbia,
para uso em caso de emergência, além de nove aeródromos turcos neutros, com
estes últimos variando de altitude, como Adana (19 m) e Afyon (1.110 m).
Forneciam-se detalhes completos sobre comprimento e direção da pista de
pouso, coordenadas exatas, orientação para pouso noturno e instalações
médicas disponíveis nesses locais. Sete dos aeródromos aliados estariam sempe
alerta, e outros, à disposição, necessário. Ao que tudo indicava, nada se
deixara ao acaso, justificando-se a afirmativa de que: "A execução do
projeto 'Macaréu' é um exemplo notável da utilização máxima da Inteligência
no seu planejamento. A Ordem de Campanha de
Ent, a diretiva da missão, estipulava: "A 9ª Força Aérea Americana
atacará e destruirá as sete principais refinarias de petróleo da área de
Ploesti, a 19 de agosto de 1943, e para isso deverá empregar sete forças de
alvo num ataque de altitude mínima a fim de negar ao inimigo o uso do
petróleo processado naquela área". A mensagem do Coronel Kane ao seu
Grupo foi mais direta ainda: "Vamos destruir Ploesti ou morrer
tentando". Uma vez sobre o
Mediterrâneo, toda a névoa se dispersara e o sol brilhava intensamente, para
desespero dos homens de muitas tripulações, que suavam em bicas no
desconforto das cabinas não-pressurizadas. A boa visibilidade, contudo,
permitia ao grupo manter contato visual num afastamento de 500 m. Não
obstante, esta parte da missão teve seus incidentes: deitando fora as bombas
e o combustível extra no mar, 10 aviões (sete do 98º) apresentando defeitos
tiveram de voltar às respectivas bases. Houve também um incidente que deixou
todos muito perturbados. Contrariando a intenção original do
Brigadeiro-General Ent, pouco antes de decolar o Wingo-Wango do Tenente
Flavelle fora indicado para dirigir o 376º e toda a força da missão, no lugar
do Coronel Compton; que voaria na formação mais atrás. Aproximadamente às
10h30, já no ponto designado ao sul de Corfu, após três horas de angústia e
incontáveis quilômetros de monotonia sobre o oceano, foi dado o sinal para
subir a 3.000 m. Não conseguindo responder, o avião de Flavelle, em vez
disso, desviou-se para o lado, caiu no mar e explodiu, matando todos os tripulantes.
Outro piloto, incrédulo, afirmou ter visto o Wingo-Wango "tremer,
mergulhar e depois subir num movimento sempre creseme, até que seu nariz
ergueu-se cada vez mais alto no ar". Depois ele ficou quase que sobre a
própria cauda e então "deslizou para trás e, em progressiva
velocidade... mergulhou com violência no mar". Este episódio, em que
saiu destruído um segundo aparelho da missão, sem interferência do inimigo,
encerrou-se em questão de segundos. O avião que levava o Brigadeiro-General
Ent e o Coronel Compton estava fora do campo de visão do elemento avançado, e
como o silêncio radiofônico estava em vigor, e Flavelle foi logo substituído
na posição de liderança, esses dois oficiais continuaram ignorando aquela
tragédia. É interessante notar que a Força Aérea Americana tenha registrado
oficialmente mais tarde que a perda de Flavelle não teve "nenhuma
importância especial" concernente aos acontecimentos posteriores. Depois de se ultrapassar
Corfu sem problemas e de se fazer a curva sobre Erikousa, logo após
atravessar a costa albana "grandes nuvens cúmulos" de 3.000 a 5.000
m e, em certos lugares, mais baixas, "começaram a aparecer sobre as
montanhas". Os picos dos montes Pindus, que se erguem no sentido
sul-leste desde a Albânia até a Grécia e com cerca de 2.400 m de altura,
davam, portanto, uma sensação bem desagradável por estarem tão próximos da
base das nuvens. O Coronel Compton e o Tenente-Coronel Baker decidiram subir
acima delas, mas o Coronel Kane conduziu seu grupo e os dois que o seguiam
através das nuvens. Esta manobra envolvia um complicado procedimento tático
a fim de evitar colisões, que, inevitavelmente, provocariam demora. Já ocorrera
considerável desorientação de formação até mesmo dentro das esquadrilhas,
mas o resultado mais sério dessa ação foi que os dois grupos dianteiros
separaram-se dos três traseiros, além de também estarem voando um pouco
acima deles. O Coronel Kane recuperou por instantes a visibilidade do 93º,
mas nesse estágio calculou que os dois grupos dianteiros estavam a 50 km à
esquerda do rumo certo e também numa altura demasiada. A 320 km do Danúbio, sobre
a Iugoslávia, toda aquela aparência de unidade da missão desaparecera. Os
freqüentes aguaceiros que assolavam a região reduziam a visibilidade.
Depois apareceu outro banco de nuvens; parecia impossível penetrá-lo com
segurança e, ao que tudo indicava, não era boa medida contorna-lo. Portanto,
a decisão a tomar era simplesmente voar acima ou abaixo dele. A brecha que se
formara entre os grupos dianteiros e traseiros, acrescentando-se o silêncio
radiofônico obrigatório, impediam qualquer tomada de decisão racional. Os
grupos dianteiros (376º e 93º), na verdade, transpuseram a nuvem a 5.200 m, e
os três que vinham atrás (94º, 44º e 389º) passaram por baixo, a 3.000 m.
Infelizmente, outra extravagância da natureza contribuiu para apressar a
desintegração da formação de rota, pois os que voavam a grande altura foram
atingidos por fortes ventos de ré que os impeliram ainda mais para a frente
dos outros. Quando a nuvem foi deixada para trás, após fazer a travessia dos
montes Osogvoska situados perto da fronteira da Iugoslávia com a Bulgária,
os dois grupos do alto estavam virtualmente sozinhos. Mas o
Brigadeiro-General não tinha condições de saber disso e nem que, neste ponto,
o 98º estava com 20 minutos de atraso e uns 100 km na retaguarda. Somente os
aviões que vinham atrás do 93º Grupo estavam cientes da grave situação do
momento. Cruzando o Danúbio às
12h30, os grupos dianteiros dirigiram-se para o Primeiro Ponto Inicial e em
pouco tempo a separação dos grupos seria mais acentuada, por causa de outro
golpe do destino. Quando o Coronel Kane começou a descer, depois de passar
Pirot, identificou o Danúbio e não viu qualquer aparelho à sua frente, pensou
haver tomado a posição de vanguarda de toda a força da missão. Portanto, ele
voou para oeste por algum tempo a fim de permitir que o grupo voando atrás de
si (segundo acreditava, era o 376º do Coronel Compton seguido do 93º)
passasse à frente. Quando o grupo traseiro foi identificado como o 44º, ele
retomou seu curso normal, compreendendo agora a divisão que ocorrera. Na
verdade, a "Macaréu" seria realizada não simultaneamente por cinco
grupos, mas por duas forças-tarefas e em momentos diferentes, a saber: os
376º e 93º Grupos seguidos mais tarde pelos 98º, 44º e 389º. Por volta das
13h, os três últimos grupos partiram de Lom para Pitesti, já quase meia hora
atrasado em relação aos outros. Além disso, os
acontecimentos que se deram no caminho desde o Adriático haviam apenas
enfatizado a incapacidade de uma força tão grande passar despercebida e a
futilidade de se manter um silêncio radiofônico que poderia ter impedido a
confusão na formação de rota, a realização de um ataque descoordenado a
Ploesti e muita perda de vidas. Assim que eles invadiram os céus da Albânia,
alguns dos aviões foram alvejados por canhões antiaéreos localizados perto de
Vlone e, por entre a neblina nas montanhas da Albânia e Iugoslávia, as tripulações
avistaram espelhos e lanternas que transmitiram a letra "V" em
código morse. Além disso, alguns aviadores da missão, nos relatórios feitos
ao voltarem, noticiaram atividade aérea sobre a Bulgária que, conforme se
evidenciou posteriormente, eram velhos biplanos que haviam levantado vôo, por
temerem um ataque a Sofia, poréns tarde demais para alcançar os
bombardeiros que rumavam para o norte. O esforço empregado em minuciosos
preparativos e treinamento, nos meses gastos em discussões e planejamento,
perdera-se de todo nas montanhas da Macedônia. A presença da força da missão
fora percebida muito antes que ela chegasse aos trigais da Valáquia e agora,
estando por demais fragmentada, mesmo usando o radar não seria viável um
ataque eficiente e bem sucedido. Quando o Danúbio, decepcionante em sua cor
escura e em nada lembrando o tão lendário azul romântico, fora cruzado, dois
outros aviões já haviam fracassado e outro B-24 também voltaria, reduzindo-se
a força para 164 aparelhos mesmo antes de chegar a Ploesti. Às 13h30, os dois grupos
dianteiros chegaram a Pitesti, descrita oficialmente como "uma pequena
cidade quase desconhecida, situada na confluência de dois vales", e
dali, descendo para a altitude mínima, tomaram o rumo de Floresti. O
contraste que se podia ver entre as agradáveis terras agrícolas romenas, o
árido deserto africano e os agrestes e nevoentos montes da Iugoslávia era
marcante. O campo todo verde, com seus cursos de água serpenteantes, aldeias
de aspecto aprazível e estradas arborizadas pareciam, a muitos dos
incursores aéreos, uma reprodução do centro-oeste americano. Podia-se ver os
habitantes lá embaixo e até assistir a vários de seus dramas. Uma camponesa,
tomada de pavor à aproximação dos "monstros", meteu-se debaixo da
carroça de feno que conduzia. Os cavalos, porém, não demonstrando mais
coragem, fugiram imediatamente, expondo sua dona deitada de bruços na terra.
Noutro local, um homem que conduzia dois cavalos abandonou sua carga e
mergulhou num riacho com roupa e tudo. Os regatos tiveram
influência extraordinária nos relatórios apresentados descrevendo as
reações dos habitantes. Várias tripulações referiram-se a pessoas de ambos
os sexos que se banhavam juntas num deles. A quantidade de nudistas aumentou
na proporção que as tripulações se afastavam do solo romeno, embora 10 entre
elas insistissem que somente um nu fora visto. Para corroborar há a
declaração de que, sobre este local idílico um tripulante anunciou: "É
aqui que eu salto!" Mas a impressão de que a dama em questão se ergueu
para acenar originava-se apenas de uma ilusão dos sentidos. Outra jovem
adotou uma atitude menos agradável: aterrorizada, cobriu a cabeça com o
avental colorido. Em outros lugares, os agricultores parecem ter atirado
pedras e forcados contra os aviões; um casal idoso, porém, preferiu reagir
sem hostilidade, ajoelhando-se para rezar. Estes incidentes, alguns
apócrifos, e outros fantasiosos, não conseguiram, entretanto, perturbar o
quadro geral de tranqüilidade; provocaram, isso sim, a sensação do irreal e
mesmo de euforia: "igualzinho ao cinema" ... "é a região mais
linda que já vi desde que deixei os Estados Unidos" eram os comentários
que faziam instintivamente. Para muitos, tudo parecia irreal: nenhuma
oposição, nenhuma tropa hostil, gente acenando, garotas lindas. Alguns
tripulantes assimilavam toda essa atmosfera em silêncio, outros falavam
excitados e alguns chegaram a cantar. Os extremos de sensibilidade foram
ilustrados quando um deles começou a cantar "Don't Sit Under de Apple
Tree" (Não se sente sob a macieira) e outro, uma invocação aos deuses. Tão logo os aviões
sobrevoaram as encostas arborizadas em direção a Floresti, as piadas
começaram a ser substituídas pela tensão. Ainda não se notava qualquer atividade
inimiga, o que dava a esperança de que a missão realmente não fora percebida.
Sobre Targoviste, tão semelhante a Floresti, mas 32 km aquém desta, tomou-se
a primeira decisão importante - talvez a mais critica - no avião do Coronel
Compton. Acreditando que o elemento dianteiro tivesse ultrapassado o Segundo
Ponto Inicial e que esta era realmente Floresti, Teggie Ann decidiu romper o
silêncio radiofônico, mandou os pilotos descer para o vale e adotarem a
formação de ataque a 127 graus ao lado da ferrovia. A responsabilidade dessa
ordem cabia ao comandante da missão, Brigadeiro-General Ent, mas não se sabe
ao certo quem pensou que a cidade lá embaixo era Floresci - se Ent, Compton,
se o Capitão Thompson ou o navegador. O que mais tarde se soube, e com
certeza, é que o navegador que assumira a liderança no lugar do Wingo-Wango,
que caiu ao mar, sabia precisamente onde estava naquele momento. A despeito da semelhança
de alguns vales que podiam ser vistos entre os Primeiro e Segundo Pontos
Iniciais e das variações na visibilidade causadas por aguaceiros repentinos,
em breve se percebeu que outras tripulações também sabiam sua posição exata.
Os Majores Appold e Potts foram dois pilotos que logo romperam o silêncio
radiofônico para mostrar o erro e outros em pouco entraram no ar
vigorosamente. Mas com a visibilidade reduzida a 10 km, pela névoa, Ent, uma
vez fazendo a curva, foi virtualmente obrigado a continuar voando em busca
de um ponto positivo de reconhecimento. Nove dias após o ataque, o
tenente-coronel escreveu com certo azedume que Ent "desviou-se
estupidamente para a direita, em Targoviste, seguiu a ferrovia para
Bucareste, ignorou todas as minhas instruções escritas e verbais para
atravessar essa linha férrea e prosseguir ao longo da linha de campos petrolíferos
até Floresti, sempre atento aos diversos marcos existentes no caminho".
Era fácil fazer tais observações estando já na África. Segundo o plano, os dois
grupos agora se desmembravam em três forças-tarefas que deveriam dirigir-se
para as Brancas 1, 2 e 3. Como eles tomaram o rumo sul-leste, a artilharia
antiaérea começou a abrir fogo e as metralhadoras dianteiras extras dos
aviões da frente entraram em ação. Um piloto informou: "Vi as balas de
calibre .50 levantar poeira e arrancar faíscas dos canos dos canhões e
soldados correndo freneticamente". Nenhum caça apareceu e nenhum avião
fora derrubado mesmo quando as forças de alvo dirigiram-se a 320 km/h (cerca
de 80 km/h mais do que a velocidade média de rota) ostensivamente para seus
respectivos objetivos. Estando à vista, bem à
frente, as torres de Bucareste, Ent ordenou que os aviões se desviassem para
o norte. Ele há muito devia saber que fizera a curva errada, pois a corrida
de ataque de Floresti até Ploesti não levaria mais de quatro minutos. De
Targoviste até Bucareste gastavam-se quase 15 minutos, e, portanto, é
provável que, diante de tão pouca visibilidade, Ent estivesse esperando um
marco de navegação definido antes de se decidir por outra mudança de rumo.
Este novo rumo faria os aviões aproximar-se de Ploesti pelo sul e não por
noroeste, como feito antes. Mas havia a dúvida sobre o que Ent estava
pensando, embora alguns pilotos acreditassem estar voltando para localizar
Ploesti. Quando os aviões fizeram a curva extra, apareceram IAR-80 romenos
que atacaram os que estavam na retaguarda. No Jersey Bounce, o artilheiro da
ré, Sargento Leycester D. Havens, foi morto - talvez o primeiro aviador da
"Macaréu" vitimado em ação pelo inimigo. Os dois grupos dianteiros
estavam agora aproximando-se de Ploesti de um ângulo ainda não explorado, e
no vôo de 14 minutos desde Bucareste tiveram de enfrentar toda sorte de
oposição antiaérea. Palheiros e vagões parados em desvios ferroviários
abriam-se mostrando canhões de 88 mm a disparar violentamente, armas de menor
calibre atiravam de posições de concreto e torres antiaéreas, e até mesmo a
infantaria usou armas portáteis. Em meio a toda aquela fumaça e confusão,
três aviões caíram, enquanto o comandante da missão procurava desesperadamente
identificar marcos. Tão intenso era o fogo inimigo, que ao sul da cidade Compton
desviou-se para leste, talvez para chegar ao Ponto Inicial ou ao seu alvo
isolado, a refinaria Romana Americana, situada fora do anel AAe interno.
"Vários quilômetros adiante", segundo ele, o 376º desviou-se para
o norte e depois para oeste, mas "nas proximidades" do seu alvo, o
Brigadeiro-General Ent decidiu que as defesas estavam agora tão alertadas,
que o plano da "Operação Macaréu" que mandava atacar a Branca 1
não podia ser executado: os relatórios do grupo mais tarde mencionaram
"intenso fogo de artilharia antiaérea leve e metralhadoras... quando
sobrevoavam o alvo", que causou cerca de 200 buracos num avião. Eram
quase 14h e Ent tomou a segunda decisão importante: que o 376º atacasse
quaisquer alvos que encontrasse; entretanto, por incrível que pareça,
praticamente no mesmo instante em que dava essa ordem mesmo não tendo o 376º
bombardeado qualquer alvo, e sem noticia dos demais quatro grupos, ele
também enviou duas letras em morse para Bengási - "MS" (Mission
Successful - Missão bem sucedia). Muitos aviões do 376º lançaram suas bombas
sobre carros-tanques em pátios de manobra próximos; outros, sobre poços de
petróleo e respectivos tanques de armazenamento, próximos, a nordeste da
cidade; mas alguns simplesmente largaram as suas sobre campos e bosques. Na verdade, o 376º sobrevoara
a refinaria Credituel Minier, em Brazi, quando se dirigira de Bucareste para
o norte e passara ao sul das refinarias de Ploesti, após a curva para leste.
Suas manobras posteriores levaram-no às redondezas do seu próprio objetivo
(presumivelmente, difícil de identificar no auge da batalha), a leste, e a
ordem de Ent para abandonar o plano da missão foi dada quando ele ainda se
achava a nordeste de Ploesti, após um desvio de 32 km da cidade. Depois de
receber esta ordem e despejar suas bombas "a maior parte" do 376º
oficialmente voou para o norte, "para além de Campina", a fim de
escapar à violência do fogo antiaéreo, passando perto da refinaria ali
situada "apenas alguns minutos" antes da chegada do 389º. Só então,
ele tomou o rumo sul na direção das suas bases. Um grupo dirigido pelo Major
Appold (o Coronel Smart mais tarde insistiu que Appold conduzira seis
aviões, e não três, nesse empreendimento) não chegou a despejar suas bombas
nem voou para Campina, mas aproximou-se de Ploesti, pelo nordeste. Cinco
minutos após a ordem de Ent, os três aviões de Appold, evitando chaminés e
fogo antiaéreo e voando a uma altura de 40 a 80 m, atacou a Branca 2. Como a
força de alvo do 93º não alcançaria este objetivo, Concordia Vega teria
escapado ilesa, se Appold não a tivesse atacado. Sobre isso, Appold
informou: "Foi a coisa mais esquisita que já vi. Enquanto o povo nas
ruas nos acenava, os artilheiros em cima dos telhados atiravam contra
nós". Um dos seus artilheiros, o oficial da RAF Barweli, disse mais tarde
que quando se deu a explosão em terra e deslocou o avião para o lado, ele
teve "a experiência muito singular para um artilheiro superior, que é
ver nossas próprias bombas passar ao lado, caindo, e despencarem numa grande
instalação de craqueamento". De repente tudo era confusão; um momento de
pânico enregelou os tripulantes quando viram a fumaça sufocante encher o
avião. Felizmente logo se verificou que esta fumaça viera das chaminés das
refinarias e tinha entrado pelos furos existentes na fuselagem, mas logo se
dissipou. À parte os esforços de Appold, os 26 aviões do 376º, que chegaram
a Ploesti, não atacaram nenhum alvo planejado: o grupo perdeu um aparelho em
ação, foi atacado por 8 a 10 caças inimigos "sem muito entusiasmo"
e afirmou ter destruído um Me-109. Ele também registrou a existência de
instalações petrolíferas falsas a sudeste e noroeste de Ploesti. As reivindicações feitas
pelo grupo logo após o ataque foram por demais exageradas. Na "má
visibilidade" provocada pela névoa e pelas chuvas, foi informado que
bombas certeiras caíram sobre as instalações de destilação e sobre a torre
de fracionamento da Astra Romana. Isto é muito improvável. Para chegar a
este alvo, do ponto onde o Brigadeiro-General Ent deu licença para atacar os
alvos que fossem encontrando, seria preciso tomar um curso de aproximação sudoeste
de uns 8 km, sobrevoando toda a extensão de Ploesti e num rumo que provocaria
colisão com o 93º - que naquele instante atacava a Astra Romana. A notificação
dos danos causados à torre de fracionamento da Concordia Vega pelos elementos
de Appold foi plenamente confirmada mais tarde. Quando o Grupo se afastou,
foi observado que "toda a área de Ploesti parecia estar em
chamas". Se assim era, isto se devia em parte aos seus esforços. Entrementes, o 93º Grupo
do Tenente-Coronel Baker, indicado para agir nas Brancas 2 e 3, acompanhara
o 376º após o engano da curva em Targoviste e também alterou o rumo ao norte
antes de chegar a Bucareste, para se aproximar de Ploesti pela direção
errada. Durante o vôo para o norte, rumo a Ploesti, membros das tripulações
informaram ter notado numerosas posições antiaéreas, e artilheiros tentando
desesperadamente encontrar um abrigo ou guarnecer suas armas quando os B-24
se aproximavam; os balões, anteriormente recolhidos, estavam sendo lançados
já um pouco tarde. Quando o 376º se desviou para leste, costeando a parte sul
de Ploesti, Baker "preferiu" atacar as refinarias que estavam à sua
frente, agora bem visíveis. Estas eram a Branca 4 (Astra Romana) e a Branca 5
(Colombia Aquila), na zona sul de Ploesti, e que tinham sido deixadas a cargo
dos 98º e 44º Grupos. Nesse momento, cerca de 13h45, a névoa e as chuvas
intermitentes reduziam a visibilidade (sete décimos de cúmulos a 1.500 m e
trovoadas), que 15 minutos depois melhorara bastante quando os alvos foram
efetivamente atacados pelas forças despachadas contra eles. Embora algumas
tripulações afirmassem ter atingido a Branca 2 (Concordia Vega) e a Branca 3
(Standard Petrol Block e Unirea Sperantza), esta última, entretanto, não
sofreu qualquer dano. Depois que cinco aviões
tiveram de voltar, os 32 restantes do 93º Grupo conseguiram chegar à área
do alvo, mas um deles foi vitimado pôr fogo antiaéreo pouco antes de alcançar
Ploesti. Entre 13h50 e 14h, realizaram-se os ataques a altitudes de 30 a 150
m contra os Alvos Brancas 4 e 5. Ao serem alvejados por considerável fogo
antiaéreo, puderam notar a presença de vários caças inimigos; segundo
afirmações, um Me-109 e um FW-190 foram destruidos. Apareceram ao sul de
Ploesti entre seis e 10 balões a 1.500 m, e considerou-se o fogo AAe pesado
"muito impreciso"; o AAe leve, "de intensidade moderada",
e algumas metralhadoras instaladas perto dos alvos, pouco perigosas.
Contudo, era evidente a boa camuflagem das baterias de canhões. O 93º
informou que as máquinas de fumaça começaram a funcionar muito tarde, mas o
problema principal era causado pelo óleo que subia dos tanques a explodir. A
despeito de a atividade antiaérea ser, segundo os relatos, tão retraída, 11
B-24 foram derrubados na área do alvo, quase todos por artilheiros
antiaéreos. Ao aproximar-se de
Ploesti, um avião deve ter atingido o cabo de um balão e explodiu, mas um
outro conseguiu cortar um cabo e não perdeu altura nem impulso. Diversos
aviões foram atingidos por artilheiros instalados nos telhados. Um avião
parecia com aqueles que faziam acrobacias no cinema, voando por um lado de
um grande prédio e saindo pelo outro, em chamas e sem as asas, antes de
explodir em pleno ar. Pôde-se ver alguns pára-quedas sair de aparelhos
atingidos e de outros, como o Pudgy e o Honky-Tonk Gal, os homens conseguiram
escapar depois que os aviões caíram. A aproximação não-ensaiada do alvo e
mais a divisão dentre os 376º e 93º Grupos foram sem dúvida responsável por
grande parte do tumulto aéreo resultante. Como disse um dos pilotos:
"Esquadrilhas de três ou quatro aparelhos, ou unidades isoladas, voavam
em diferentes direções, soltando fumaça e chamas, chocando-se contra o solo e
com asas, caudas e fuselagens rompendo-se, grandes novelos de fumaça subiam
dos destroços antes mesmo que eles parassem de se mover". A situação
era tão confusa que jamais se poderia concatenar uma única seqüência, de todo
correta, dos acontecimentos. O Duque de Wellington certa vez comparou uma batalha
a um baile: mais tarde você podia lembrar-se da identidade dos seus pares, porém
nunca na ordem em que dançou com eles. Num outro século e em outra dimensão
da guerra, a batalha de Ploesti confirmou aquelas palavras. Alguns dos aviões
integrantes da Força de Alvo Branca 3 atingiram, segundo seus tripulantes, os
Pontos de Pontaria a eles designados, mas isso é pouco provável. O certo,
porém, é que o Tenente-Coronel Baker pereceu e outro avião demoliu o presídio
de mulheres num feito espetacular. Cinco quilômetros ao sul de Ploesti, o
Hell's Wench (com Baker e o Major Jerstad nos controles) foi atingido por
fogo antiaéreo no nariz, iniciando-se daí violento incêndio. Baker poderia
ter feito um pouso de barriga nesse ponto, mas persistiu em conduzir o 93º na
direção do alvo que ele próprio escolhera. O Tenente Walter T. Stewart,
subcomandante do grupo do Utah Man, o único avião sobrevivente da Força de
Alvo Branca 2, conduziu a esquadrilha, viu o Hell's Wench continuar voando
direto para a área do alvo, com as chamas engolfando-lhe cada vez mais a
superestrutura, à medida que mais granadas antiaéreas atingiam-lhe a
fuselagem já se desintegrando. Somente após conduzir os B-24 pela refinaria
e lançar suas próprias bombas (quase todas caindo no Alvo Branca 5) é que o
avião inteiro, já então uma verdadeira pira funerária, ergueu o nariz com o
intuito de ganhar altura e permitir que a tripulação saltasse de
pára-quedas, mas a tentativa fracassou: o avião subiu com dificuldade para
100 m, apenas três ou quatro pára-quedas apareceram, e ninguém da tripulação
sobreviveu. Stewart acredita que, levando em conta o estado do Hell's Wench,
seria necessária a força combinada dos dois pilotos para erguer o nariz do
aparelho e tentar a fuga. Baker e Jerstad receberam postumamente a
"Medalha de Honra do Congresso" "por demonstração de bravura e
intrepidez e além do dever". Entrementes, por volta das
13h, tendo percebido, sobre o Danúbio, que os dois grupos dianteiros deviam
estar bem mais à frente, o Coronel Kane pôs-se a caminho de Pitesti onde, 45
minutos depois, o 389º alterou o rumo e foi para Campina. Os 98º e 44º então
dirigiram-se para Floresti e ali chegaram sem dificuldades, talvez porque a
visibilidade na área de Targoviste tivesse agora melhorado consideravelmente.
Nesse estágio, devido à curva errada feita pelos dois grupos dianteiros, eles
tinham diminuído em 15 minutos a diferença que havia entre as duas partes da
força da missão. Mas como os Coronéis Kane e Johnson estavam obedecendo o
plano "Macaréu", os quatro grupos destinados a Ploesti e Brazi
aproximavam-se um do outro num curso que poderia dar em colisão. Felizmente,
jamais haveria esse desastre, pois os 98º e 44º Grupos chegaram a Floresti
pouco depois que o 93º terminou sua corrida de bombardeio. Em Floresti, os dois
grupos tomaram a formação de ataque com a Força de Alvo de Kane Branca 4
(Astra Romana e Unirea Orion) à esquerda, no centro o Coronel Johnson
dirigindo-se para a Branca 5 (Columbia Aquila) e, na extrema direita, num
curso individual e separado dos outros dois pela ferrovia, estavam os aviões
do Tenente-Coronel Posey dirigindo-se para a refinaria Credituel Minier em
Brazi (Alvo Azul). Alguns informes sugerem que somente Kane estava à
esquerda da ferrovia e que Johnson e Posey, à sua direita. Isto parece muito
improvável, em vista do rumo diferente tomado pela força de Posey e dos
detalhes do plano "Macaréu", que Kane e Johnson cumpriam fielmente. Enquanto percorriam os 20
km de Fioresti e Ploesti, as Forças de Alvo Branca 4 foram recebidas por
fogo antiaéreo alertado pelos acontecimentos anteriores ao sul da cidade:
este mostrou-se particularmente eficaz quando os canhões de 88 mm localizados
nas encostas do vale abriram fogo cruzado. As metralhadoras de .50 adicionais
foram apenas parcialmente eficazes na varredura do terreno de 1.600 m à
frente dos bombardeiros. Num aspecto, estas duas forças de alvo foram de
todo infelizes. Na linha entre Ploesti e Floresti havia um trem blindado
especialmente equipado para ação antiaérea, que por certo causou enormes
danos aos aviões em vôo baixo e já na sua formação de ataque. Mais tarde
soube-se que esse trem aparecera ali porque o inimigo soubera da aproximação
dos bombardeiros através de seus próprios sistemas de detectação. Mas na
época houve muitos boatos de traição da missão. À parte o trem, as baterias
antiaéreas baseadas em terra e o inevitável fogo das armas portáteis, os B-24
ainda tiveram de enfrentar os Ju-87 Stukas, que os bombardeavam de cima, e a
perseguição intermitente dos caças alemães e romenos, cujas atividades eram
felizmente restringidas pela energia dos seus próprios artilheiros antiaéreos. Durante essa aproximação
do alvo, Kane notou "vários" B-24 de cor, do deserto, passar abaixo
dele na direção sudoeste. A hora em que ele os avistou e outros informes
similares sugerem que Kane se referia ao elemento do Major Appold do 376º,
que estava deixando Concordia Vega quando Kane se aproximava dali vindo de
Floresti. Porém, ao que tudo indicava eram mais de três aviões, o que talvez
corrobore a afirmação do Coronel Smart de que foi maior o número de aviões
que atacaram Branca 2. Um outro ponto se relaciona com este incidente. Para
todos os efeitos, "a maior parte" do 376º voou para o norte, para a
área de Campina, depois da ordem de Ent para que bombardeassem
independentemente; porém, mais tarde, o 389º comunicou a presença de
"um esquadrão" do 376º aproximando-se enquanto ele estava bombardeando.
Não há dúvida de que alguns aviões do 376º já haviam deixado a área de
Campina, mas resta uma desconfiança de que os outros pilotos além de Appold
bombardearam Ploesti ou então tomaram um caminho mais curto para casa. Trinta e nove dos 46
aviões do 98º Grupo que haviam partido, conduzidos pelo Coronel Kane no
Hail Columbia, rumavam agora para a Branca 4. Um deles atingiu um balão e
detonou sua carga explosiva, advindo conseqüências fatais. Outro, tendo sido
avariado pelos canhões do trem blindado, foi derrubado por um Me-109 que o
espreitava. Vários praticamente desintegraram-se no ar, com poucos
pára-quedistas salvando-se. Um piloto informou: "O fogo antiaéreo
acertara em cheio o meu avião seis vezes... [que destruiu] meu sistema
hidráulico, o oxigênio, a eletricidade e o rádio", convencendo-o,
assim, que "o mais seguro era ficar bem junto ao solo". Ele
efetivamente voltou para a África, mas dos seis aviões da quinta leva que
atacaram este alvo, somente um escapou. Tão violento era o fogo antiaéreo,
que um aviador afirmou: "Eles só não nos atingiam com tijolos".
Mais tarde, o Tenente Royden L. Lebrecht considerou os ataques anteriores
contra o alvo pelo 93º; "lamentáveis... [e], os principais responsáveis
pelas perdas sofridas pelo 98º Grupo de Bombardeiros". O próprio Kane ficou estarrecido
ao ver os destroços espalhados em Ploesti, onde 21 dos seus aviões foram
perdidos: "Esperávamos sofrer perdas, é claro, mas jamais me esquecerei
daquele espetáculo em que enormes Liberators caiam como moscas". Certo
oficial informou: "Olhei pela janela lateral e vi outros voando por
entre fumaça e chamas"; e o Coronel Kane teve as braços chamuscados
pelo calor sobre o alvo. Com certeza, dois aviões explodiram acima da refinaria
e um terceiro pousou de barriga ali perto, atingido por fogo antiaéreo. Outro
B-24 também foi perdido nesse momento em que seis Me-109 e três aviões
bimotores atacaram o grupo que se afastava do alvo. Como Kane, a Força de Alvo
Branca 5 do Coronel Johnson teve de atacar uma refinaria, já alerta e com
danos causados pelo 93º Grupo uns 15 minutos antes. As Forças de Alvo Brancas
4 e 5 atacaram das 14h05 até as 14h15 de uma altitude variando de 40 a 80 m,
mas enfrentaram as explosões das bombas lançadas nos ataques anteriores e as
nuvens negras do óleo em chamas que obscureciam perigosamente as chaminés e
os cabos de balões - houve a perda de dois aviões nesse ataque. Pouco antes
de o Suzy Q de Johnson fazer seu bombardeio, uma instalação da refinaria explodiu:
o veterano avião de Johnson sobreviveu, mas dois, ou talvez três outros, não
resistiram a explosões idênticas. Mais tarde o Coronel disse: "Foi a
coisa mais parecida com o Inferno de Dante que já vi". O avião K for
King saiu daquela tragédia, com enorme rombo na fuselagem, faltando uma
parte de um estabilizador e um motor embandeirado, mas sobreviveu e
conseguiu chegar à sua base africana. As tripulações que vieram depois
presenciaram dois aviões de uma esquadrilha desintegrarem-se, ao mesmo tempo
e outro chocar-se contra o solo, aparentemente descontrolado pela temível
esteira provocada pela hélice. Um aparelho continuou voando com dificuldade
e com dois motores embandeirados; outro, avariado, foi perseguido por um
Me-109 que precisou baixar os flapes para não ultrapassar sua presa. Deste
B-24 condenado, um artilheiro comentou: "Do avião só restou, mesmo, a
luz do dia". Da força de alvo de Johnson, cinco aviões foram destruidos
em Ploesti e o comentário do próprio Coronel sobre a experiência parece
oportuno: "É inacreditável para qualquer um que não esteve lá". Os aviadores que caíram e
sobreviveram passaram por muitas experiências diferentes em terra. Alguns
mais tarde informaram ter sido vítimas de roubo por camponeses, quando ainda
desorientados ou feridos; outros se referiram a civis romenos que lograram
impedir a aproximação de soldados alemães até a chegada de suas próprias
tropas. Uma tripulação foi tratada por mulheres romenas que cuidaram de seus
ferimentos com um bálsamo caseiro, e outro aviador lembra-se de ter recebido
um copo de leite refrescante à sombra de uma árvore dado por uma granjeira
debruçada numa cerca. A Força de Alvo Azul, os
outros aviões do 44º Grupo dirigidos pelo Tenente-Coronel Posey, teve de
enfrentar consideráveis dificuldades perante os caças inimigos, mas não
perdeu um único avião sobre o alvo. Seguindo seu próprio rumo desde Floresti,
ela estava muito para oeste, fora do alcance dos canhões antiaéreos
localizados no trem. A 120 km ao sul de Ploesti, um dos B-24 de Posey afirmou
ter derrubado um Me-110, metralhando-o por baixo com suas armas dianteiras
extras e, na verdade, quando os aviões de Posey deixaram a área do alvo,
foram perseguidos e violentamente atacados. Um avião caiu e todos os
tripulantes morreram, não sendo muito consolador o fato de que, nas vascas
da agonia, ele tenha derrubado o Me-109 que o atormentara. A precisão da
força de Posey, porém, conseguiu os melhores resultados de toda a missão
"Macaréu". Atacando entre as 10h10 e 14h15, a uma altitude de 40 a
80 m, ela despejou suas bombas sem ser prejudicada pela tênue cortina de
fumaça e pelas nuvens estrato-cúmulos. Dos 18 a 20 aviões inimigos que
atacaram, principalmente depois que a força deixou o alvo, declarou-se que 13
foram destruídos e um avariado. De acordo com o plano, e
virtualmente simultâneo com o ataque do 98º e do 44º, o 389º Grupo do Coronel
Jack Wood bombardeou a Steaua Romana (Alvo Vermelho), em Campina, entre
14h10 e 14h20 a uma altitude de 60 a 210 m. A aproximação do alvo, porém,
não foi muito fácil. Deixando os Coronéis Kane e Johnson em Pitesti, o 389º
tomou rumo nordeste a 1.200 m sobre os montes. O Alvo Vermelho situava-se num
vale de 5 km de largura, que se inclinava para sudeste, e, segundo o plano,
devia-se atacar na direção noroeste. Mais ao sul, na região de Targoviste,
existiam inúmeros vales semelhantes nos sopés dos Alpes da Transilvânia.
Wood (no avião do Capitão Caldwell e o Brigadeiro-General Ent num banco atrás
dos dois pilotos) deveria voar subindo o vale até onde se encontrava
Campina, transpor rapidamente a serra intermediária num ponto entre Sinaia e
Campina e descer pelo vale para atacar o alvo. Tal qual Ent, o Coronel Wood
descobriu que, a despeito dos intermináveis exercícios, a semelhança dos
vales causava confusão; além disso, a névoa que pairava sobre os topos dos
montes vizinhos obscurecia os marcos de orientação - que, neste caso crítico,
era um mosteiro. Portanto, ele desviou-se para o norte, subindo o que
julgava ser o penúltimo vale, transpôs a serra e verificou que ainda faltava
um. Toda a força fez uma curva de 180 graus dentro do estreito espaço desse
vale, sem uma perda, tornou a voar para o norte, transpôs mais uma serra e
desta vez pôde atacar pelo vale certo. Esta manobra foi um tributo dedicado à
eficiência e disciplina, pois alguns pilotos compreenderam que a primeira
curva de Wood fora um erro, mas ninguém quebrou o silêncio radiofônico nem
tomou a iniciativa de continuar para leste. Assim, todos os aparelhos
puderam retomar o rumo, manter a planejada ordem de ataque e chegar ao alvo sem
perdas. Campina era um agrupamento compacto de casas de um só pavimento, alinhadas
e entremeadas de ruas arborizadas. A refinaria de petróleo ficava na orla da
cidade, que era cercada de campos não-cultivados que subiam na direção das
colinas ondulantes a distância. Nessa bela tarde de agosto ela parecia
preguiçosamente tranqüila quando os aviões se aproximaram. A cena à frente
se harmonizava com famílias passeando, grupos de cavaleiros e gente fazendo
piquenique que já haviam sido avistados lá embaixo. Os relatórios
pós-incursão registraram que "as pessoas dos campos e das ruas acenavam
e agitavam pás etc." "Numerosas bombas
certeiras caíam em todas as quatro divisões do alvo em forma de diamante (com
apenas 120 m de largura num ponto), e eram lançadas pelo rápido método
articulado, a intervalos de três a seis metros em tempo viável. Registrou-se
além disso a presença de fogo antiaéreo leve e também de metralhadoras (dois
aviões foram atingidos por metralhadoras e dois tiveram os motores avariados
por fogo antiaéreo), e mais três a seis aviões inimigos atacando (dos quais
afirma-se terem sido destruídos um Me-109 e um Me-110): o Tenente-Coronel
Forster mais tarde descreveu o ataque do 389º como "um sucesso estrondoso". Para neutralizar qualquer
interferência de caças e evitar os canhões antiaéreos pesados que talvez
fossem incapazes de abaixar, o 389º na realidade desceu ainda mais, depois de
passar o alvo, durante 40 minutos. Um oficial disse mais tarde: "O
bombardeio a grande altitude é muito melhor. A trinta metros a gente vê
coisas demais que mexem com os nervos... a gente quase morre de medo".
Este Grupo voou muito mais horas que os demais; outro oficial queixou-se:
"Ficamos tanto tempo em território inimigo que quase nos
naturalizamos". Um dos aviões de Wood foi
atingido pelos estilhaços da explosão de uma casa de caldeiras atacada por
outro avião e o B-24 do Segundo-Tenente Lloyd H. Hughes teve seus tanques de
combustível perfurados por fogo de metralhadora durante a aproximação vale
abaixo. Sobre o alvo, o combustível que escorria pelos buracos dos tanques incendiou-se
e a massa candente foi conduzida pelo piloto até um leito seco de rio, onde
ele fez uma espécie de aterrissagem em meio a uma chuva de fuselagem a
desintegrar-se e tanques em chamas. A citação para a concessão póstuma da
"Medalha de Honra do Congresso" a Hughes chamou atenção para o fato
de que ele poderia ter feito um pouso forçado em qualquer dos vários
milharais antes de entrar "na área do alvo, repleta de tanques de óleo
em chamas e de instalações de infantaria destruídas, cujas labaredas ultrapassavam
a altura do nível de bombardeio da formação". Embora consciente do
perigo que corria ao entrar nessa conflagração com vazamento de combustível,
mesmo assim ele sobrevoou o alvo, despejou suas bombas e a seguir tentou
pousar seu avião incandescente. As ações de Hughes foram "bravas e
valorosas" e ele arriscou sua vida "indo muito além do dever".
Somente três homens saíram dos destroços e um deles morreu mais tarde. Além desta perda e do
avião queimado na explosão da casa de caldeiras, quatro outros aviões do 389º
caíram na área do alvo. De um deles apenas o artilheiro superior escapou.
Alguns viram o aparelho caindo em chamas; o artilheiro continuou disparando
mais algumas rajadas; então, já em terra, um vulto saiu pela cúpula de
"plexiglass" e correu em busca de segurança em meio à fumaça. Ao
todo, três B-24 caíram ao sul de Campina. Dez minutos após transpor o alvo,
dois pára-quedas saltaram de outro aparelho que na realidade continuou voando
e 20 minutos mais tarde um B-24 desviou-se para leste, na direção da Turquia,
com um motor fumegando. De maneira incrível, um avião, o Shoot Fritz You're
Faded, desceu na propriedade de uma princesa romena, em Nedelea, 16 km a
noroeste de Ploesti, morrendo ali apenas o engenheiro de vôo. Três dos
sobreviventes foram então nababescamente recebidos na imponente vivenda. Os
membros dessa tripulação testemunharam de perto a antipatia existente entre
os romenos e seus aliados alemães, quando se deu verdadeira disputa pela
posse das suas pessoas. Este incidente também sugeriu outro fator
interessante. Um dos servidores da princesa informou que um avião russo
caíra, apontando para a estrela branca desenhada num circulo azul e vermelho
(mais tarde o vermelho foi retirado da insígnia oficial dos aviões
americanos). Portanto é possível que, lembrando-se do seu ódio tradicional
pela Rússia, os romenos tivessem atirado pedras e tudo que pudessem pegar
contra os B-24, na crença de que estavam expulsando emissários de Moscou. Os ataques esporádicos
feitos contra Ploesti, Campina e Brazi entre 13h50 e 14h20 determinaram que
os planos para uma reunião geral sobre o lago Balta Potelel e para uma
retirada organizada pelo Adriático não seriam realizados. Por volta das 14h45
os aviões estavam espalhados por toda a planície da Valáquia, voando a
diferentes velocidades e altitudes e de certo modo avariados. À parte a
escassez de combustível, a perseguição obstinada dos caças (sobretudo
Me-109 e LAR-80; além de Me-110, FW-190, Ju-88, Ju-87, Do-217, He-112. He-113
e Mc-202 italianos, pôde-se ver também vários tipos de biplanos) desanimaram
os que sobreviveram e vinham na frente a esperar pelos que ficaram na
retaguarda. Todos os aviões, alguns voando a 6 m de altura, permaneceram
junto ao solo para evitar os caças após passarem a área do alvo; alguns deles
retornaram à base com capim agarrado à fuselagem, e ouviu-se dizer que umas
portas de compartimentos de bombas de um avião foram arrancadas por um muro.
A baixa altitude adotada fez que pelo menos um avião inimigo embicasse contra
o solo, sem poder sair do seu mergulho. Lembrando, e com prazer, este fenômeno,
um observador comentou: "Aqueles caças usavam táticas que não eram
comuns". O Coronel Johnson, no Susy Q, do Major Brandon, um aparelho
veterano que enfrentara muitas adversidades, sendo que numa delas tivera
seus quatro motores substituídos por novos, chegaria de volta a Benina,
acompanhado apenas do avião do Capitão William R. Cameron, o Buzzing Bear, depois
de permanecer no ar 13 horas e 40 minutos. Estes foram os dois únicos aviões
dos 66º e 67º Esquadrões de Bombardeio do 44º Grupo que chegaram à base
naquele dia. O Utah Man, do Tenente Stewart, do 93º Grupo, chegou a Terria 14
horas após a partida, ostentando cerca de 365 furos na fuselagem; e o último
B-24 a chegar à base, apôs um vôo de 16 horas, foi o Liberty Lad, do Tenente
Kenton D. McFarland, que chegou com dois motores parados, sem força
hidráulica e com as luzes do painel de instrumentos completamente apagadas.
É compreensível que os dois pilotos levassem alguns dias para se
recuperarem. Os aviões avariados eram
particularmente vulneráveis, pois os outros raramente podiam dar-se ao luxo
de reduzir a velocidade para protege-los, por temerem que lhes faltasse
combustível mais tarde. Daí, na opinião de um oficial da 8ª Força Aérea, embandeirar
um motor "era o mesmo que escrever o nome dos rapazes na lista da funerária".
Os B-24 em vôo mais lento, alguns desenvolvendo apenas 200 km/h, eram os que
atraíam maior atenção dos Ju-88 bimotores, que se sentiam incapazes de
enfrentar aviões mais velozes. Ao saírem da área do alvo, os pilotos tiveram
de escolher entre a rota planejada passando pela Bulgária, Iugoslávia e
Grécia até Corfu, Corlu, na Turquia européia, bases turcas no outro lado do
Bósforo ou Chipre. Os três últimos cursos forçariam uma permanência muito
longa sobre a Bulgária, e o de Chipre, uma violação de 800 km do espaço
aéreo turco. Dois aviões avariados que conseguiram chegar a Chipre tiveram de
recusar persistentes convites de P-40 Warhawks turcos, de construção
americana, para pousarem na Turquia. Vários outros pilotos também conseguiram
pousar na Turquia e em Chipre, incluindo o Coronel Kape. Ele conseguiu
sobreviver a uma viagem apavorante na qual o Hail Columbia, com um motor
parado e outro avariado, passou raspando pelos picos das montanhas
balcânicas, que se erguem a mais de 1.800 m de altura, chegando à Nicósia e
jantando, naquela noite, numa boate cipriota. O 376º e o 389º foram os
grupos menos atingidos e a maioria dos seus aviões restantes conseguiram
fazer uma espécie de barreira protetora para a planejada viagem de volta
passando por Corfu; mas os dois grupos voaram com uma diferença de 30 minutos
e em formações isoladas. A maior parte do que restava dos 98º e 44º Grupos
também tomou a rota de acordo com o plano, embora os dois grupos se
reunissem num só. O caminho de volta era mais próximo de Sofia do que o de
ida e deu aos búlgaros a oportunidade de intervir. Em seus relatos, uma
tripulação do 98º comentou bem-humoradamente que ataques feitos por biplanos
búlgaros "proporcionaram muita diversão e precisávamos disso", mas
embora eles fossem demasiado lentos para fazer mais de uma passagem, os Avias
por certo causaram consideráveis dificuldades para algumas tripulações já
esgotadas. A noroeste de Plevna vários deles atacaram, danificando dois motores
de um B-24 e fazendo alguns furos superficiais em outro. A oeste de Sofia, os
Me-109 de Karlovo também apareceram e derrubaram dois B-24. De um destes, somente
um artilheiro sobreviveu, abrindo caminho a pontapés da sua posição na cauda
enquanto o avião caía em parafuso e envolto em chamas; do outro, quatro
escaparam, penetrando na Iugoslávia após uma aterrissagem placada perto da
fronteira, e juntaram-se aos guerrilheiros. Vários dos aviões
utilizaram habilmente as nuvens para escapar aos caças inimigos, mas para
dois deles isso foi uma tragédia. Voando por entre elas, o Let' Er Rip e o
Exterminator chocaram-se e das duas tripulações somente três homens
escaparam com vida. Entretanto, ainda houve uma parte cômica nesse vôo. Em
determinado momento, uma figura vestindo volumosa e colorida roupa íntima
saiu correndo de casa para disparar sua velha espingarda de caça contra os
bombardeiros e um avião do 389º atravessou um monte de feno, saindo do outro
lado todo salpicado mas intato. Sobre as montanhas da Iugoslávia e da Grécia
as nuvens haviam aumentado, com cúmulos até 9.000 a 12.000 m, mas foi
possível penetrá-las a 5.000 m. Pouco antes das 17h30, já sobre o mar
Jônico, a oeste da ilha de Cefalônia, quando os temores de interferência
inimiga tinham diminuído, se não desaparecido, e muitos artilheiros estavam
sem munição; Me-109 e FW-190 da Grécia continental atacaram os remanescentes
do 98º e do 44º na direção do sol, no que foi oficialmente classificado de
"uma interceptação muito infeliz". Durante cerca de meia hora o
inimigo atacou em levas e isoladamente, de muitas direções diferentes, até
ser obrigado a parar por falta de combustível. Quatro B-24 se perderam nesse
episódio. A tripulação de um deles foi salva dos botes salva-vidas por
italianos, sete homens de outro caíram a oeste de Creta e sobreviveram 30
horas nas águas do Mediterrâneo antes de serem recolhidos por uma lancha da
RAF, de Chipre. Após essa refrega final com o inimigo, alguns aviões foram
obrigados a rumar para Malta ou Sicília. Nas bases da África do
Norte, onde poucos tinham conhecimento oficial dos detalhes da
"Operação Macaréu", fora um dia muito longo. Todos os dias de
missão eram uma agonia para a ansiosa turma de terra, que não podia fazer
outra coisa senão esperar, mas os exercícios especiais no deserto, os novos
reforços da 8ª Força Aérea e as várias modificações eram uma prova concreta
da importância do ataque. Com o passar das horas, já muito além do tempo de
uma missão normal, as especulações começaram a aumentar. Às 14h (15h hora
local), quando os aviões estavam sobrevoando seus alvos, os comandantes de
seção no QG do 9º Comando de Bombardeiros foram informados dos detalhes da
missão e foi durante essa reunião que chegou a mensagem do General Ent,
"MS" (Missão Bem Sucedida). Por volta das 19h (20 na
hora local), a tensão começou a aumentar e 20 minutos depois o primeiro B-24
surgiu, quando o sol se punha no horizonte. Pelas 19h45 quinze aparelhos
(todos avariados) haviam chegado a Terria; 15 minutos depois, somente 18 dos
aviões do 98º Grupo estavam de volta, assim como 23 dos 37 do 44º Grupo.
Quando a noite caiu, isto às 20h10, muitos não tinham voltado e embora
alguns, como o Liberty Lad, ainda estavam por voltar a salvo, cerca de 70
aviões continuavam desaparecidos. Alguns destes, sem que Bengási o soubesse,
tinham chegado a bases remotas e amigas ou pousado na Turquia neutra. Mas,
alguns, como aqueles que foram atingidos sobre o mar Jônico, haviam
fracassado quando estavam prestes a chegar à segurança da base. Um deles foi
o Hadley's Harem. Este avião avariado voou com o Coronel Kane através da
Bulgária na tentativa de chegar a Chipre. Ao sobrevoar o golfo de Antalia
seus dois motores restantes falharam e o piloto teve de voltar para fazer um
pouso forçado na costa turca, mas o avião caiu na água a uns 800 m da terra e
afundou quase que imediatamente. As escotilhas de saída estavam enguiçadas,
e por isso sete membros da tripulação abriram buracos nas paredes da
fuselagem já toda perfurada por granadas, enquanto se aprofundavam nas águas.
Os dois pilotos morreram. Os sobreviventes conseguiram afinal chegar à
praia, exaustos, e foram cuidados durante a noite por pescadores bondosos.
Mais tarde, após prolongadas confabulações em que afirmavam serem eles
marinheiros naufragados, e não beligerantes passíveis de internação, uma lancha
do Salvamento Aeronaval levou-os para Chipre. Durante a noite de 19 para
2 de agosto, as fotografias do ataque tiradas pelas câmaras dos B-24 foram
reveladas, os feridos receberam os devidos cuidados e todos os que se sentiam
exaustos puderam enfim descansar. No dia seguinte teve início um sério
interrogatório onde seriam examinadas minuciosamente as ações do
Brigadeiro-General Ent. Anteriormente, depois do pouso em Berka 2, o
Capitão-Aviador Barwell pudera notar que eram depressivas e tensas as discussões
entre Ent, o Coronel Compton e o Major-General Brereton. Até chegou a comentar
com seu piloto: "Tenho realmente muita pena do General Ent. Ele é um dos
melhores sujeitos que já conheci". Talvez devido às suas decisões
tomadas sobre a Romênia naquele dia é que muitos homens morreram e o sucesso
da missão correra perigo. Nas entrevistas feitas após o ataque, pediram a um
oficial do 44º Grupo, de olhos fundos e exausto, que desse suas impressões
sobre a missão. Como resposta ele sintetizou a "Operação Macaréu"
para a maioria dos participantes: "Fomos arrastados para a boca do
Inferno". Calculando custos Os sobreviventes mais
tarde lembraram com entusiasmo suas impressões sobre a "Macaréu":
"A missão de Ploesti foi a maior façanha de que já participei";
"Acabo de voltar de um dos ataques mais arrojados já feitos nesta
guerra"; "Foi o ataque mais emocionante de que participei até
agora". Em perdas, porém, ele foi decididamente bem caro. Na manhã de 2 de agosto,
um sumário vindo da 9ª Força Aérea informava que 96 aviões haviam retornado à
área de Bengási. Sabia-se que 10 deles haviam chegado a Chipre, quatro na
Sicília, quatro em Malta e um na Turquia. Foram confirmadas vinte perdas em
ação; um dos aparelhos se perdera no caminho (o Wingo-Wango) e 13 haviam
voltado à base no começo da missão, registrando-se, assim, 29 desaparecidos.
Durante o dia, informes extra-oficiais provenientes da Turquia diziam que
quatro B-24 haviam pousado na área de Izweim e outros quatro, na Trácia.
Naquela noite. o Adido da Aeronáutica britânico em Ancara enviou informações
mais seguras. O governo turco havia confirmado que quatro aviões tinham feito
pousos em Corlu e um em Gazbairmir, sem quaisquer danos para as tripulações;
um pousou em Cardak e sobre ele só havia informações muito vagas; um outro
desceu perto de Torbali, ao sul de Izmir, por demais avariado; o piloto
estava morto e dois membros da tripulação, bastante feridos. Outro (o
Hadler's Harem) caíra ao mar, ao largo de Manavgat, ali morrendo três dos
tripulantes. Pouco a pouco foram
chegando notícias mais recentes ao QG do 9º Comando de Bombardeiros e também
mais aviões chegavam às suas bases após terem feito pousos de emergência a
1° de agosto e pernoites em outros aeródromos. Mas o cômputo geral de perdas
e danos foi deprimente; no fim de tudo só voltaram 111 aparelhos, e destes,
mais de 50 por cento estavam avariados. Dos 178 aviões que decolaram. 41
foram perdidos em ação - 376° (1), 93º (11), 98º (18), 44° (7), 389° (4).
Mais oito, incluindo o Hadler's Harem, estavam na Turquia e, portanto,
efetivamente perdidos; cinco haviam caído por "várias causas
diferentes"- um no caminho, um ao decolar, um em Chipre e dois no mar
quando voltavam. Cinqüenta e quatro B-24, portanto, se perderam, e outros 58
foram classificados como "avariados", não incluindo, porém, os que
apresentavam defeitos superficiais. As perdas, de fato, aproximaram-se
notavelmente às declaradas pela Luftwaffe, que calculou em 48 abatidos e 57
"seriamente avariados". Estes cálculos eram bem mais realistas
que a contagem americana, que dizia: 51 aviões inimigos derrubados. Posteriormente,
as autoridades do Serviço de Inteligência americano admitiram ter recebido o
relatório de um agente "normalmente fidedigno", da Romênia,
dizendo que quatro caças alemães e oito romenos foram derrubados e 20,
avariados. Dados posteriores determinaram com segurança que dois Me-109 de
Zilistea e dois Me-109 de Mizil coram abatidos, além de dois Me-109 de
unidades da Luftwaffe na batalha sobre o mar Jônico. Mas não há números
disponíveis sobre as perdas romenas e búlgaras. Dos grupos que
participaram na "Operação Macaréu", o 98º perdeu 21 aviões (18 em
combate); o 44º, 11 (sete em combate); os três grupos da 8ª Força Aérea
perderam 30 dos seus 98 aviões atacantes, embora seis destes chegassem à
Turquia. Em potencial humano, as perdas americanas foram assustadoras.
Incluindo o avião que caiu ao decolar, os 54 B-24 levavam 542 homens. Dois
sobreviveram ao primeiro desastre, sete foram salvos do Hadley's Harem e
posteriormente levados para Chipre. Mais 10 foram salvos do avião que caiu
em Chipre ao regressar. Portanto, a bem da verdade, perderam-se 523
aviadores, mas a estes é preciso acrescentar os 50 e poucos feridos que acabaram
morrendo ou ficaram incapacitados devido aos seus ferimentos recebidos após
chegarem à África do Norte. Ao todo, 75 homens foram internados na Turquia,
mas após a libertação dos sete sobreviventes do Hadley's Harem, os turcos não
conseguiram manter a vigilância sobre os restantes. Convenientemente, eles
"escaparam" para a costa, onde lanchas da RAF chegaram sub-repticiamente
à noite para levá-los a Chipre. Como os internados do Halpro, estes homens
acabaram retornando ao serviço ativo, mas tiveram de deixar seus aparelhos no
cativeiro. Cerca de 150 homens
ficaram como prisioneiros de guerra na Romênia e na Bulgária. Alguns
conseguiram chegar aos Alpes da Transilvânia como lhes fora ensinado, mas não
tiveram êxito, porque não sabiam a lingua nativa ou por má sorte, apenas.
Muitos foram bem tratados, não há dúvida, especialmente os que ficaram em
mãos romenas: na época, um ex-ministro britânico em Bucareste calculou que
80 por cento dos romenos eram pró-britânicos. As razões para a recepção mais
ou menos amistosa feita aos presos americanos eram, o que é mais provável,
produto do cansaço da guerra (após perderem os romenos cerca de meio milhão
de homens em ação), acentuado pela arrogância americana e por chegarem à conclusão
que, após sua derrota em Stalingrado, os alemães provavelmente sairiam da
Romênia, e isso em futuro bem próximo. Em vista da tradicional antipatia
romena para com a URSS, as demonstrações de amizade pró-americanas podem,
portanto, ter sido apenas manobra política meio camuflada. O Tenente John D. Palm,
que ficara com a perna seriamente ferida quando o Brewery Wagon caiu, teve-a
habilmente amputada e mais tarde recebeu a visita simpática do Rei da Romênia
e da Rainha-Mãe. Outros feridos foram principescamente tratados em Bucareste
e Sinaia, e os que nada sofreram, de início ficaram na cadeia romena. Finalmente,
exceto os poucos que estavam internados em hospital, os prisioneiros americanos
foram levados para o vale de Campina até a estação de esqui de Timisul, de
Jos. Ali, eles foram acomodados num campo onde a princípio as condições não
eram tão desagradáveis, excetuando-se as instalações hidráulicas, muito
primitivas, que eram um testemunho da influência francesa de antes da guerra,
e permitia-se a entrega regular de pacotes da Cruz Vermelha. Alguns encheram-se
de esperanças e tentaram fugir; de fato conseguiram alguns dias de liberdade.
Mas as condições no campo pioraram quando a ação aérea aliada se reiniciou
com mais ferocidade e maior sucesso em abril de 1944. Finalmente, a maioria
dos prisioneiros de guerra americanos foram levados dali por uma bizarra
operação de salvamento realizada por aviões da 15ª Força Aérea que partiram
da Itália em setembro de 1944. Depois que os romenos decidiram primeiro
celebrar um armistício com a URSS e em seguida romper relações com a
Alemanha, esta mandou bombardear e atacar Bucareste. Enquanto os romenos, em
combate aos seu ex-aliados, faziam um anel de defesa em torno da capital,
várias tripulações de B-17 chegavam ao aeródromo de Popesti, mal parando na
pista, para embarcar seus conterrâneos. Entrementes, logo depois
do início do ataque, as agências de propaganda inimiga estiveram em grande
atividade. A 3 de agosto, a Rádio Bucareste transmitiu detalhes de um ataque
realizado por 125 bombardeiros americanos, "do tipo
Fortaleza-Voadora", contra a região petrolífera romena, dois dias antes.
Ela declarou que o intenso fogo antiaéreo impedira que quase todos, exceto
alguns, alcançassem o alvo. Em terra, haviam ficado 147 feridos e 116
morreram; e no presídio de mulheres demolido por um bombardeiro houve, entre
mortas e feridas, 60 e 63, respectivamente. Esta notícia também dizia que 36
aviões foram destruídos e 66 aviadores, capturados, e acrescentou que oito bombardeiros
"foram forçados a descer" na Turquia - três perto de Ciorli (sic) e
cinco na área de Smirna. Então, sem referência à participação ou presença
alemã, os ouvintes foram informados: "Caças romenos entraram em ação
quando soou o alerta e atacaram os bombardeiros, que foram dispersados e,
assim, impedidos de fazer um ataque concentrado contra elas [as refinarias].
Os americanos tentaram atingir seus objetivos a pouca altitude, mas foram
impedidos pelo fogo das defesas antiaéreas, que derrubou vários dos
atacantes, em chamas. Para concluir, a transmissão noticiou que o Rei e a
Rainha-Mãe visitaram os que saíram feridos no ataque, assim como o Marechal
Antonescu e membros do governo, acrescentando ainda: "Toda a população
expressou seu carinho pelo Marechal". Talvez a necessidade de informar
sobre essa demonstração de afeto já fosse em si uma indicação, na época, da
impopularidade dos germanófilos. A declaração romena de que
os artilheiros antiaéreos foram responsáveis pela queda da maioria dos B-24
em Ploesti não foi contestada pelos Aliados. O Coronel Kane opinou que os
elementos da retaguarda voaram alto demais e se expuseram além do
necessário. O relatório oficial americano, que admitiu que "o fogo de
artilharia antiaereo foi a principal causa das perdas", também achava
que os tanques de combustível instalados no compartimento de bombas foram
"o calcanhar-de-aquiles dos Liberators... [e] um fator que contribuiu
[sic] para aquele triste resultado. Se eles tivessem sido esvaziados ou descartados
antes de chegar ao alvo, "as perdas, sem dúvida alguma, teriam sido bem
menores". Acredita-se, mesmo, que alguns B-24 foram destruídos devido
aos seus vulneráveis tanques do compartimento de bombas - o avião do Segundo-Tenente
Hughes em Campina é um exemplo -, mas este foi apenas um de vários fatores
que resultaram naquele desfecho. Na realidade, até que ele não foi muito
importante. O Major-General Brereton e
outros oficiais, como o Coronel Kane, compreenderam, mesmo antes do ataque,
ser bem possível que viessem a sofrer grandes baixas, mas afirmavam que
estas seriam compensadas pelos grandes danos que eles poderiam causar.
Demorou algum tempo para se fazer uma avaliação ponderável dos resultados,
pois os elementos necessários de comprovação só chegavam aos poucos e de
muitas fontes diferentes. Os informes transmitidos pelas tripulações após o
ataque ficaram logo à disposição das autoridades, bem como o material
filmado, durante a incursão, pelas câmaras instaladas nos B-24. À noite, esses
filmes foram revelados e após examiná-los o Marechal-do-Ar Tedder comunicou a
Brereton: "Um grande trabalho e realizado de maneira espetacular".
As fotos tiradas da Columbia Aquila (Branca 5) mostravam quantidades de B-24
aproximando-se muito baixo, em formação e passando entre altas torres.
Podia-se ver muitos incêndios, em particular nos tanques de depósito camuflados;
as instalações de destilação pareciam estar seriamente danificadas e, numa
foto, viam-se bombas caindo sob um aparelho que voava a 30 m de altura.
Bombas certeiras sobre Steaua Romana (Vermelha) eram vistas atingindo as
usinas de força e as casas de caldeiras, com nuvens de vapor jorrando destas
últimas, e resultados semelhantes eram vistos nas fotos da Credituel Miner
(Azul) e da Astra Romana (Branca 5). À parte os danos, estas fotos eram uma
prova que de fato os aparelhos voaram muito baixo: em especial, os da Branca
5 deram uma imagem clara das formações escalonadas aproximando-se pelo
noroeste, de acordo com o plano. Na emoção que se seguiu ao ataque, e com
todas estas provas, justificava-se muito bem o entusiasmo de Tedder, e uma
avaliação preliminar britânica datada de 3 de agosto confirmava: "As
fotografias tiradas durante o ataque são um testemunho irrefutável de que as
refinarias Azul, Vermelha e Brancas 4 e 5 foram bem e verdadeiramente
atingidas, e a Branca 2, muito provavelmente atingida". No mesmo dia um Mosquito
da RAF fez um reconhecimento fotográfico da área de Ploesti, mas devido à
falta de combustível, não cobriu as áreas de Campina e Brazi. A 4 de agosto,
o Tenente-Coronel Forster apresentou um relatório baseado neste fato.
Argumentando que de 150 a 200 bombas (220 e 450 kg) haviam sido lançadas
sobre a Astra Romana e a Unirea Orion (Branca 4), ele achava difícil acreditar
que mais de meia dúzia delas tivesse explodido, "pois são poucos os
indícios de haver instalações danificadas por bombas e menor ainda o número
de crateras causadas por bombas caindo erradas, no local ou nas redondezas".
O mesmo podia-se dizer também quanto à Concordia Vega (Branca 2). Ele
reconhecia, porém, que as espoletas de ação retardada poderiam ter dado às
turmas de remoção de bombas do inimigo o tempo suficiente para desmontar
muitas delas. A 4 de agosto, relatos de testemunhas oculares sobre os efeitos
do ataque transmitidos por canais diplomáticos e do Serviço de Inteligência,
começaram a chegar, lançando dúvidas quanto à veracidade das apreciações feitas
até então. De Istambul veio uma mensagem diplomática: "Segundo várias
testemunhas ocasionais, todas as instalações de refinaria importantes de
Ploesti foram destruídas ou danificadas, exceto a Romana Americana".
Três dias depois, Istambul afirmou que os Alvos Azul (Brazi) e Vermelha
(Campina) haviam sido "destruidos"; Branca 4 (Astra Romana) e
Branca 5 (Columbia Aquila) "seriamente avariados". Uma estimativa
preliminar dos danos totais acusou 20 bilhões de leis. A sensatez da
avaliação cautelosa dos relatórios individuais foi ressaltada no dia
seguinte, porém, quando a mesma fonte afirmou que a Branca 4, que se sabia
ter sido seriamente avariada, e a Branca 2 (Concordia Vega), por certo
atingida pelos aviões do Major Appold, estavam "intatas". Este relatório
achava que "provavelmente" apenas a Branca 5 (Columbia Aquila),
Vermelha e Azul estavam seriamente danificadas e afirmava que as comunicações
ferroviárias feitas pelo entroncamento de Ploesti haviam sido restabelecidas
em apenas seis horas. Outra dessas informações, notadamente a que se referia
a um "comerciante de óleos e produtos químicos judeu-húngaro" que
estava num trem detido em Campina durante o ataque e mais tarde passou por
Ploesti, parece merecedor de tratamento igualmente cauteloso. É claro que alguns relatos
eram mais fidedignos que outros. A 7 de agosto, Sir H. Knatchbull-Hugessen
transmitiu um comunicado de Istambul para o Foreign Office de Londres da
parte do embaixador turco em Bucareste. Este dizia que a 3 de agosto ainda
grassavam incêndios em Campina, Brazi e Ploesti, em parte porque os serviços
de bombeiros alemães eram "deficientes". Falava-se de ter ocorrido
"emigração em massa" de um setor devastado de Campina, e isso
revelava que nem todas as bombas tinham caído dentro dos limites da Steaua
Romana. Mas ninguém esclarecia se a "emigração" resultara de evacuação
organizada ou de pânico descontrolado. O embaixador turco informou que as
bombas de ação retardada haviam provocado consideráveis contratempos às
turmas de reparo e em Brazi aumentaram os quatro incêndios iniciais para 24. Nove dias após a missão, o
HQ RAF ME publicou "a seguinte nota sobre o ataque a Ploesti [que] fora
enviada por uma fonte fidedigna da Romênia". A Refinaria Astra Romana
(Branca 4) ficou "parcialmente sem poder funcionar", com a
instalação de craqueamento Dubbs seriamente danificada, sete depósitos
destruidos, a fábrica de gasolina de aviação arrasada e uma perda estimada
de produção de 40 por cento. A Romana Americana (Branca 1) ficou intata,
mas a Concordia Vega (Branca 2) também teve grandes prejuízos na instalação
de craqueamento Dubbs, seis depósitos destruídos e reduzida de 30 por cento
a produção. A Steaua Romana (Vermelha) sofrera "destruição
completa", a Credituel Minier (Azul) tivera "seções vitais arrasadas"
e a Columbia (Branca 5), uma redução de 80 por cento na produção. A Branca 3
(Unirea Sperantza e Standard Petrol Block) não sofrera avarias, mas a Unirea
Orion (que se encontrava dentro dos limites da Branca 4) teve seus
"depósitos completamente destruidos" e metade da sua instalação de
produção de óleo mineral "inutilizada". Tendo em vista as
informações de que pôde dispor até aquele momento, no mesmo dia (10 de
agosto) o HQ RAF ME concluiu que um total de 70 por cento da produção fora
perdido, grande parte resultante da ativação de bombas de ação retardada.
Esta avaliação prosseguia dizendo: "Não houve danos sérios causados à
cidade de Ploesti... A precisão da pontaria espantara os romenos, que
declararam que cada bomba era lançada direta contra o objetivo visado".
E concluía: "Informa-se que o óleo bruto será no futuro enviado às
refinarias da Alemanha e da Tchecoslováquia". Também a 10 de agosto,
numa carta enviada ao Sr. Berthould, do Ministério de Combustível e Energia
britânico, em Londres, o Tenente-Coronel Forster afirmou que as fotografias
tiradas pelo Mosquito de reconhecimento davam a entender que pelo menos 70
por cento das bombas de ação retardada não explodiram "possivelmente
devido à pronta remoção das bombas, ou, talvez, o que seria mais provável,
devido a bombas defeituosas". Ele culpava a Força Aérea Americana por
essa eventualidade. Afirmou que oficiais da RAF haviam advertido as
autoridades americanas sobre o fato de que as espoletas-padrão, que se
projetavam da traseira das bombas, provavelmente seriam prejudicadas num
ataque de baixo nível, porque as bombas cairiam na horizontal - fato este
corroborado pelas fotografias tiradas do ataque de Ploesti. A apresentação
de duas avaliações com algumas conclusões opostas feitas por fontes britânicas no
mesmo dia salientou a dificuldade que se pode ter para chegar a uma
avaliação equilibrada sobre os efeitos da "Operação Macaréu". A 13 de agosto, o
Tenente-Coronel apresentou um relatório oficial, baseado nas fotografias tiradas
do ataque de 1° de agosto e do reconhecimento de 3 de agosto, bem como nas
informações de "uma fonte aparentemente bem informada". Forster
concluiu que os aviões bombardearam com eficácia e que embora nem todas as
bombas tivessem explodido, "elevado grau" de danos a curto prazo e
"um grau promissor" a longo prazo foram alcançados. Portanto, no
todo o ataque fora "muito bem sucedido", a despeito da ausência de
provas cabais sobre Campina e Brazi, até o momento. Mesmo que o inimigo
tivesse exagerado o efeito causado sobre sua produção para desorientar as fontes
de informação, Forster sugeria que uma diminuição de 60 a 70 por cento
"por um período de até quatro semanas é uma possibilidade
aceitável". Ele falou na existência de várias refinarias em outras
partes da Romênia - por exemplo, quatro pequenas na área de Ploesti. uma em
Bucareste e outra em Brasov - e que não haviam sido atacadas. Mas a
capacidade de produção combinada destas chegava apenas a 3.500 toneladas
diárias, e o sistema de transporte (exceto o de Ploesti e Bucareste) para os
pontos de distribuição era muito precário. Na melhor das hipóteses, as
pequenas refinarias, em conjunto, poderiam satisfazer apenas de 50 a 60 por
cento das necessidades internas da Romênia e ele considerava que a
"Operação Macaréu" causava de 40 a 45 por cento de danos a longo
prazo às grandes refinarias. Quando despachou este relatório do Cairo, o HQ
RAF ME lembrou os destinatários de que Forster "é um perito nos detalhes
técnicos da produção petrolífera [e] fora para o Oriente Médio para
aconselhar na escolha de alvos específicos das diferentes refinarias e
avaliar os resultados obtidos". A 19 de agosto outro
reconhecimento, desta vez com dois Mosquitos voando entre 9.000 e 10.000 m,
tiraram "estereofotos, de alto nível", de Ploesti, Brazi e Campina.
Baseando-se nelas, o Sr. L. Eisinger, Diretor Assistente de Produção
Industrial do Centro de Abastecimento do Ministério do Estado do Oriente
Médio, três dias depois apresentou uma segunda avaliação, mais ampla, feita
no Cairo. A apreciação de Forster sobre os danos aos alvos Branca foi
confirmada, mas agora também era possível uma estimativa dos danos nos alvos
Vermelha e Azul. A Steaua Romana, em Campina (Vermelha), tivera seu grupo de
destilação de óleo bruto Stratford "seriamente danificado", e sem
funcionar por seis meses provavelmente; a casa de caldeiras e a usina de
força estavam "muitíssimo avariadas" e deveriam ficar fora de ação
por idêntico período. A usina de asfalto estava "muito danificada"
e seus reparos provavelmente demorariam quatro meses; a usina de cera
parafina fora "muito atingida", precisando de seis meses para os
devidos reparos, "se fosse possível realizá-los", e a "usina
de tratamento de óleo lubrificante" estava tão "seriamente
danificada, que dificilmente se pensará em consertos". Houve
"alguns danos à usina de absorção de gasolina e ao equipamento de
fracionamento da Instalação Destiladora de óleo Lubrificante McKee, cuja
torre de refrigeração, de madeira, fora "destruída", e "houve
danos parciais" causados também à Instalação de Destilação de óleo
Lubrificante de Vácuo Bruenn-Koenigsfeider. Todas essas unidades, porém,
provavelmente estariam funcionando dentro de dois a três meses.
"Imensos prejuízos" foram dados à fábrica de oxigênio. às oficinas
e almoxarifados principais, mas devido à neblina existente no local quando as
fotos foram tiradas, não se pôde ter certeza da extensão dos danos causados à
instalação Dubbs. Foram "muito poucos os danos" nos tanques, e
quanto a estes, houve apenas um grande e alguns "pequenos"
incendiados. Na Credituel Minier (Azul)
a principal coluna de fracionamento da destilaria de óleo bruto
"ruíra" e, provavelmente, em conseqüência disso, a instalação de
recepção e outro equipamento de fracionamento auxiliar foram danificados.
Era "improvável" que esta parte da refinaria voltasse a operar
antes de quatro a seis meses. Além do mais, o setor de tanques fora
"seriamente avariado" do que resultaram quatro tanques grandes e 17
pequenos destruídos. Podia-se notar vestígios de que foram afetados a casa de
caldeiras, a torre principal de refrigeração e os escritórios, e a fornalha
Dubbs de óleo leve também sofreu "pequenos danos". Eisinger considerou que as
observações finais da primeira avaliação de Forster eram "bastante
corretas". Da capacidade original da refinaria, 24.750 toneladas diárias
nos sete alvos, 10.360 (42 por cento) haviam sido destruídas. Para apoiar
esta afirmação Eisinger calculou uma destruição total na Vermelha (3.400
toneladas), na Branca 5 (1.480), e na Azul (1.480) e uma destruição parcial
na Branca 2 (660/4.030) e na Branca 4 (3.400/6.760). Ele salientou, em
especial, a imobilização das instalações de craqueamento na Azul, na
Vermelha e na Branca 5, que, no seu modo de ver, representava a destruição
de 40 por cento da capacidade total de craqueamento da Romênia. e que a
única instalação de cera parafina da Vermelha fora "posta fora de
funcionamento por longo período". Eisinger, contudo, pediu cautela
quanto ao óleo lubrificante. Aceitando que a instalação da Vermelha fora
virtualmente aniquilada e que a da Branca 4 estava "aparentemente muito
danificada", ele acreditava que "algumas repercussões na posição do
abastecimento de óleos lubrificantes parecem não estar excluídas". Não
obstante, a produção de óleo lubrificante dependia basicamente da
disponibilidade de "resíduo asfáltico"; sendo assim, a deficiência
de produção talvez fosse apenas temporária. Levando em conta todas as
evidências; portanto, Eisinger tirou certas conclusões dos danos causados e
da importância que isso representava. Mais de 40 por cento da capacidade de
refinação de óleo bruto e possivelmente 40 por cento (pelo menos 30 por
cento) da capacidade de craqueamento da Romênia haviam sido inutilizados
"por pelo menos seis meses". Contudo, não se devia esperar
"nenhuma conseqüência direta" desta perda de capacidade de
refinação de óleo bruto, já que o saldo restante parecia "mais que
suficiente para cuidar da atual produção de óleo bruto da Romênia". A
perda da instalação de cera parafina e a redução da capacidade de produção de
óleo lubrificante "podem causar algumas modificações nos arranjos
atuais". Na Vermelha e na Branca 5 não havia qualquer sinal de
atividade. Em seu relatório, Forster sugerira que os alemães talvez tivessem
sacrificado a Branca 5 e agora concentrara as turmas de remoção de bombas na
Branca 4 e rápidos trabalhos de reparo pareciam em andamento ali.
Aparentemente, estava-se usando equipamento antiquado, já encostado antes do
ataque, e o "número normal de vagões-tanques estacionados no pátio"
sugeria que as operações de embarque "prosseguiam como de
hábito". Na Unirea Orion (parte da
Branca 4) a atividade também parecia normal de modo que os danos à casa de
caldeiras não devem ter sido tão graves. A Azul estava parada; mas como toda
a refinaria dependesse da serpentina (pipestill), agora danificada, era de
esperar trabalhos de reparo. De acordo com as fotografias de reconhecimento,
não havia qualquer atividade na Branca 2. Eisinger acreditava que não existia
razão aceitável para fechar essa refinaria e sugeriu que os escapamentos de
vapor deviam ter sido desligados, a fim de iludir os Mosquitos, cuja
presença fora detectada. Se Eisinger estava certo neste veredicto, então
parte do material fotográfico obtido em 19 de agosto e a validade do seu
próprio relatório devem continuar passíveis de dúvida. Uma reunião do Setor de
Informação de Alvos, Divisão Operacional, AC/AS, Inteligência, de
Washington, realizada a 6 de setembro, foi realmente cautelosa em seus debates.
Ao calcular os danos a longo prazo causados à capacidade de refinaria romena
em 42,5 por cento e uma queda na produção anual de refinaria de 9.235.000
para 5.300.000 toneladas, concordou-se que a futura capacidade de refinaria
"será apenas suficiente, ou ligeiramente inadequada, para tratar da
produção de óleo bruto... Portanto, do ponto de vista geral, o ataque de 1°
de agosto de 1943 destruiu a maior parte da diferença formada pelo excesso de
capacidade de refinaria eficientemente utilizada sobre a produção de óleo
bruto". Ela concluiu que a "reabilitação" só seria possível
dentro de seis meses. No decorrer dos meses de
setembro e outubro as informações continuaram chegando pelos vários canais
do Serviço de Inteligência não só no que se referia aos efeitos do próprio
ataque como da recuperação da capacidade de produção. A 19 de setembro, o HQ
RAF ME divulgou um resumo das informações vindas "de fontes normalmente
fidedignas". Este confirmava que a Astra Romana (Branca 4) sofrera
alguns danos em sua usina de força e nos três dos quatro fornos da principal
instalação de destilação, e que 2.500 toneladas de óleo haviam sido perdidas
através dos rombos feitos nos tanques. Mas uma antiga instalação de destilação
permanecera intata e esperava-se que a partir de meados de setembro ela
tratasse umas 3.000 toneladas mensais; e a eletricidade poderia ser
fornecida por uma fonte externa até que a sua própria fosse recuperada. A
Romana Americana (Branca 1), que não fora afetada pelo ataque, estava
recebendo temporariamente 1.500 toneladas por dia de óleo bruto da Astra
Romana; mas para evitar congestionamento entre os poços e as refinarias,
10.000 toneladas diárias (em 1.000 carros-tanques) estavam sendo remetidas
a refinarias húngaras. Na Concordia Vega (Branca 2) os prejuízos não
alcançaram grandes proporções, embora no fim da tarde de 1° de agosto uma
bomba tivesse explodido e incendiado seis ou sete tanques de óleo bruto,
destruindo cerca de 6.000 toneladas deste. Os grandes reparos que a refinaria
precisava e que seriam feitos iriam, sem dúvida, interromper a produção
durante duas ou três semanas. Confirmou-se a total
destruição da Steaua Romana (Vermelha) e com ela perderam-se duas mil
toneladas de óleo lubrificante, como também foi destruída a fábrica de cera
parafina, privando a Alemanha de considerável fornecimento anual. Era
impossível dizer com certeza quando a produção seria reiniciada. A
destruição de três ou quatro tanques de armazenamento e sérios danos
causados à estação de bombeamento não tiveram muita importância, pois a
refinaria não estava funcionando. A Standard Petrol Block e a Unirea
Sperantza (Branca 3) não tiveram prejuízos. Entretanto, as instalações da
primeira estavam "inativas... há algum tempo" e demoraria
"alguns meses" para recomeçar a funcionar. Mas a destruição da
Credituel Minier (Azul) foi "tremenda". Cinqüenta e duas bombas
haviam atingido a refinaria e foram lançadas justamente contra instalações vitais,
"como se tivessem sido atiradas a mão". Calcula-se que 16.000
toneladas de óleo bruto haviam sido destruídas e, o que é mais interessante,
20 dos 60 tanques de armazenamento haviam sido atingidos por fogo das
metralhadoras de .50 dos B-24. A maior parte do equipamento da refinaria era
de fabricação americana e, portanto, impossível de ser reposto durante a
guerra. As informações recebidas
sobre a Columbia Aquila (Branca 5) revelaram que no dia do ataque a
refinaria fora fechada para limpeza geral, o que explicava a ausência de
tanques em chamas nas várias fotografias. Mas grande número de bombas caíra
sobre as colunas de destilação e na instalação de craqueamento, que fora
praticamente arrasada. A falta de equipamento de reposição ali, como em
Brazi, poderia muito bem pôr a Columbia Aquila fora de ação pelo resto da
guerra. Durante o ataque, o oleoduto que levava o liquido bruto dos campos de
petróleo para Ploesti romperam-se perto da Branca 2, mas logo se
providenciou para que não houvesse incêndios. Segundo este relatório o
governo romeno acreditava que as refinarias restantes de Ploesti poderiam
lidar imediatamente com 9.000 toneladas de óleo bruto diários, em comparação
com as 15.000 toneladas normais (e as teóricas 30.000 t) de antes do ataque.
Esperava-se que após 19 de setembro fosse possível processar 13.000 toneladas
diárias. Contudo, admitia-se a perda de 13 por cento da capacidade de
destilação e 50 por cento da de craqueamento; com isto, somente a gasolina
seria exportada por enquanto e todos os outros produtos refinados seriam
reservados para consumo interno. Até que as refinarias tivessem toda a sua
capacidade recuperada, certa quantidade de óleo bruto seria enviada para a
Hungria e Alemanha onde seria refinada. Esta apreciação da RAF concluiu que
outros ataques contra a Romana Americana (Branca 1) que não fora atingida, e
a Unirea Sperantza (Branca 3), como também contra a Astra Romana (Branca 4)
no futuro próximo, seriam "desastrosos" para o inimigo. Outra avaliação cautelosa
da situação foi feita a 22 de setembro depois que o Major O. A. Bell, do Real
Corpo de Serviços do Exército Britânico, que, antes da guerra, fora
administrador assistente de refinaria na Unirea Orion e na Unirea Sperantza,
estudou os relatórios oficiais e as fotografias tiradas do ataque. Ele
advertiu que as estimativas dos danos tinham de ser feitas de acordo com a
máxima produção possível, e não com o total de antes do ataque. Assim o Sr.
Eisinger deveria ter relacionado a capacidade da Unires Orion como 3.000
toneladas diárias e não como 1.280 t. Ele acreditava que assim que a
instalação ociosa fosse ativada em Ploesti, ocorreriam somente duas a três
semanas de deslocamento de produção. Especificamente, ele observou a
existência de 18 caldeiras na casa de caldeiras principal da Unirea Orion e
a facilidade com que caldeiras de campanha poderiam substituir
temporariamente as avariadas. A 15 de setembro de 1939 houve um incêndio
violento que durou dez horas e causou "danos consideráveis" nessa
refinaria, mas ela ficara fechada por apenas 10 dias. A estimativa de
Eisinger de que uma perda diária de 1.280 toneladas ocorreria na Unirea Orion
durante seis meses era otimista demais. Portanto, decorridos menos
de dois meses após a "Macaréu", parecia que as primeiras declarações
de êxito haviam sido consideravelmente exageradas. O HQ RAF ME, citando
outra "fonte segura", declarou a 19 de outubro: "As
refinarias, exceto a Steaua Romana (Vermelha), a Credituel Minier (Azul) e a
Columbia Aquila (Branca 5), foram reparadas e a capacidade de refinação é
agora de 1.850 vagões diários. Entretanto, as refinarias mencionadas acima
estavam fechadas e assim deverão permanecer até o fim da guerra".
Aparentemente, esta declaração parece animadora. Mas como cada vagão
transporta 1.000 toneladas, em menos de três meses após a "Macaréu"
a produção inimiga já alcançava 75 por cento do total anterior ao ataque.
Além disso, parte do óleo bruto estava sendo tratada na Hungria e na
Alemanha, embora a perda de produtos especializados na Vermelha e na Azul
representasse desvantagem para o inimigo. Na verdade, a Luftwaffe
declarou que "embora Ploesti tivesse sido seriamente atingida, sua
produção logo retornou ao normal", e uma apreciação feita na primavera
de 1944 pela Força Aérea Americana veio corroborar indiretamente essa
opinião. Comentando a reativação de instalações, ela concluía que a
"Operação Macaréu" causara danos muito grandes... [mas] não chegaram
a ser fatais". O problema era que Ploesti sempre tivera cerca de 40 por
cento de capacidade de refinaria ociosa, o que significava, na realidade,
que seria preciso causar 41 por cento de danos antes de provocar qualquer
impressão. E, para ajudar o processo de reativação, os alemães puderam levar
10.000 trabalhadores escravos dos países ocupados. Os sumários da produção
romena extraídos após o ataque são deprimentes: 410.000 toneladas de óleo
bruto foram processadas pelas refinarias romenas em julho de 1943. Em agosto,
o mês do ataque, este número caiu para 260.000, mas em setembro ele subira
para 430.000 e em outubro foi mais longe ainda: 440.000 t. As exportações totais
de gasolina foram um pouco menos impressionantes - as destinadas à Alemanha
aparecem entre parênteses: em julho, 122.000 toneladas (100.000); agosto,
70.000 (60.000); setembro, 105.000 (100.000) e outubro, 115.000 (105.000); e
o número para dezembro superou o de julho. A produção das refinarias
individuais também era desanimadora do ponto de vista aliado. A Astra Romana
processou 120.000 toneladas em julho, 54.000 em agosto, 144.000 em setembro
e 165.000 em outubro. A Romana Americana, que nada sofrera, processou 60.000
em julho e 108.000 em agosto, e depois 75.000 e 70.000 nos dois meses seguintes,
respectivamente. A Concordia Vega processou 60.000 em julho, somente 20.000
em agosto, mas durante setembro e outubro, 75.000 e 80.000, respectivamente.
Embora insatisfatória para os Aliados, a recuperação da capacidade de
produção destas refinarias era esperada para qualquer momento. A rapidez da
recuperação é que foi motivo de surpresa, em especial para a Steaua Romana
(Vermelha). A maioria das avaliações do Serviço de Inteligência achava que
esta ficaria fora de ação por um período prolongado, se não mesmo por toda a
guerra, mas foram processadas 45.000 toneladas em julho, e somente 10.000 em
agosto. Durante os três meses seguintes não houve produção; em dezembro,
porém, ela processou 10.000 toneladas e em janeiro de 1944, 20.000. Embora
daí por diante a produção não ultrapassasse as 30.000 toneladas por mês, essa
tonelagem representava mais ou menos 70 por cento do total de antes do
ataque. No começo de 1944 já era
evidente que o otimismo original quanto aos efeitos da "Operação
Macaréu" fora realmente injustificado. Mas inúmeras têm sido as
advertências sobre a existência de capacidade de refinaria inativa em
Ploesti, e isso ainda em 1941, quando havia um ministro britânico em
Bucareste. Nenhum dos planejadores nem os consultores responsáveis da RAF e
da Força Aérea Americana haviam afirmado que um ataque poderia neutralizar
as refinarias de Ploesti. Várias vezes o Major-General Brereton, o Coronel
Smart, os Marechais-do-Ar Sir Sholto Douglas e Sir Arthur Tedder haviam
salientado em especial a necessidade de executar missões subseqüentes a fim
de se conseguir resultado satisfatório. O Brigadeiro-General Ent previra
apenas 50 por cento de destruição com a perda de 75 aviões e segundo uma
estimativa do Serviço de Inteligência, os mesmos danos seriam causados com a
perda de 71 aviões de um total de 200 aparelhos. Acontece que, a despeito
das dificuldades táticas da época, a perda de aviões foi menor e os danos
totais conseguidos estiveram próximos do que foi calculado. Ademais, danos
muito maiores foram causados à Azul, à Vermelha e à Branca 5 do que os
esperados nas previsões feitas antes do ataque. Se, de acordo com o plano, a
Branca 1 e a Branca 2 tivessem sido atacadas, o ataque poderia ter tido
melhor resultado do que os seus planejadores esperavam. Portanto, os
acontecimentos do dia foram de vital importância. Mais tarde, autoridades
culparam a navegação falha pela perda de muitos aviões. Nove dias após o
ataque, o Tenente-Coronel Forster teceu críticas violentas a sua execução. Ele
queixou-se: "É quase impossível poder ensinar alguma coisa aos
americanos - eles sempre sabem mais que qualquer um de grande experiência";
os melhores aspectos da missão resultaram da atenção dada ao que ele e os
oficiais da RAF disseram. Ele exclamou amargamente: "Foi uma pena, por
causa de todos aqueles homens que perderam a vida sem necessidade. Estou
plenamente convencido de que se a RAF tivesse feito o serviço, todas as sete
refinarias teriam ficado fora de ação durante pelo menos seis meses ou talvez
por muito mais tempo". Ao enviar esta carta ao Ministério da Aeronáutica
"com algum constrangimento", o Ministério de Combustível e Energia
chamou atenção para "seu estilo muito livre". As inferências e
afirmações nela registradas eram, na verdade, flagrantemente injustas. Não
se pode garantir que a RAF, mesmo que dispusesse dos meios indispensáveis,
poderia ter feito melhor trabalho. Talvez fosse preferível que essas cartas,
revestidas de nuanças de arrogância chauvinista, nunca fossem escritas. Não obstante, por mais
injustos que possam ser esses comentários causticantes, o trabalho dos
homens que participaram da missão merece ser examinado. Não se deve pôr em
dúvida a coragem dos que voaram até Ploesti, incluindo a Força de Alvo Branca
1, que também enfrentou o considerável fogo defensivo até o final do ataque.
Mesmo que se faça um exame embora superficial das fotos tiradas do ataque, já
é o suficiente para fazer calar de uma vez os céticos, que vêm relutando em
acreditar que aqueles ataques tivessem sido realizados a tão pouca altitude.
Cinco "Medalhas de Honra do Congresso" (Coronéis Johnson e Kane,
Tenente-Coronel Baker, Major Jerstad e Segundo-Tenente Hughes), 56
"Cruzes por Serviços Distinguidos" (incluindo o Brigadeiro-General
Ent, Coronéis Compton e Wood, Tenente-Coronel Posey e Major Appold), 41
"Estrelas de Prata", um "Ramo de Folhas de Carvalho" de
bronze para a "Estrela de Prata", 136 "Ramos de Folhas de
Carvalho" de bronze para a "Cruz do Mérito" aeronáutico,
1.320 "Cruzes do Mérito" aeronáutico e uma "Medalha de
Soldado" foram concedidas aos participantes da "Operação
Macaréu". Além disso, o Coronel Smart recebeu a "Medalha por
Serviços Distinguidos", o Tenente-Coronel Forster, Major Goerlings,
Capitão de Grupo Lewis e Capitão-de-Ala Streater, a "Legião do Mérito"
e todos os grupos de bombardeio envolvidos receberam citações. Não se pode
duvidar que os planejadores e as tripulações bem mereceram ser condecorados,
pela dedicação e esforços no seu desempenho. O fato de que a 15ª Força
Aérea teve de realizar 20 ataques diurnos e o 205º Grupo (RAF), quatro
noturnos contra Ploesti entre 5 de abril e 19 de agosto de 1944 não justifica
o fracasso da incursão realizada a 14 de agosto de 1943. É claro que não se
esperava sucesso imediato com apenas um ataque. Entretanto, os reveses
sofridos pela "Macaréu" alertaram no sentido de que uma campanha
sistemática de bombardeio não podia ser desfechada contra alvos romenos, a menos
que se estabelecessem bases mais próximas. A 17 de outubro, o Coronel Smart
declarou que "são necessários ataques subseqüentes às refinarias de
Ploesti", mas observou que, antes disso, porém, os agentes britânicos e
americanos sediados na Roméênia têm de obter informações precisas sobre os
danos causados até então. Além disso, em se baseando naqueles danos, era
preciso realizar operações que pudessem evitar a transferência de óleo bruto
e produtos refinados para a Alemanha e Tchecoslováquia, talvez minando o
Danúbio, rompendo a represa de Passau (usando-se o mesmo tipo de missão que
neutralizou as represas Moehne e Eder) ou destruindo os reboques que puxavam
as barcaças pelas Comportas de Ferro do Baixo Danúbio. Os Chefes de
Estado-Maior Combinados, porém, não se sentiam nada entusiasmados, por causa dos
poucos recursos disponíveis e dos tristes resultados obtidos a 14 de agosto.
Por isso, fizeram uma recomendação nesse sentido ao Presidente Roosevelt e a
Winston Churchill, que concordaram "mais tarde" falar com Stalin
sobre a possibilidade de uma ação russa. Num contexto mais amplo,
todo o objetivo do bombardeio estratégico da Força Aérea Americana foi
novamente posto em debate. O Marechal-do-Ar Harris, sempre contrário a
bombardeio de precisão seletivo, afirmou que os acontecimentos de Ploesti
provaram ser este impraticável. Era impossível subjugar o inimigo
concentrando todas as atenções em uma ou mais das suas indústrias, como, por
exemplo, petróleo e rolamentos de esfera. Aqueles que defendiam este ponto
de vista estavam "buscando panacéias" e não eram versados nas
duras realidades da guerra. Mas tudo que a "Macaréu" provou foi
que apenas um ataque de baixo nível realizado desse modo não era suficiente
para neutralizar as refinarias de Ploesti. Brereton mais tarde
afirmou que o mau tempo e erros de apreciação naquele dia, em especial a
decisão de Ent de atacar do sul (que ele considerava "insensata"),
arruinaram o plano. Se "executado conforme se planejara, ter-se-ia
obtido pelo menos 90 por cento de êxito e as perdas em combate teriam sido
mínimas". Não há dúvida de que vários incidentes imprevistos afetaram
flagrantemente a missão "Macaréu". A divisão da força da missão em
duas sessões, sobre a Albânia e Iugoslávia, foi a primeira ocorrência
importante, seguida do atraso após a apreciação errada do Coronel Kane da situação
ao chegar ao Danúbio. E o Brigadeiro-General Ent não podia ser culpado de
nenhum desses eventos, mesmo que os dois grupos dianteiros estivessem à
esquerda do curso correto sobre a Iugoslávia, como Kane afirmou. O próprio
Coronel Kane devia assumir a culpa disso. Por duas vezes ele falhou quando
seguia o 93º Grupo, por causa das nuvens: numa das vezes ele as atravessou
com seu grupo e com os que lhe vinham atrás; da outra vez, passou por baixo
delas. Assim, deu-se a brecha fatal sem que o comandante da missão soubesse
disso. O fato de se ter enganado
na identificação de Targoviste foi, sem dúvida, uma grande falha do
Brigadeiro-General Ent, mas, justiça seja feita, a visibilidade era ruim e,
vista do ar, era espantosa a semelhança de Targoviste com Floresti. Tanto
isso era verdade, que o Coronel Williamson a recomendara ao Coronel Smart
como Ponto Inicial da primeira fase do planejamento. Ent deve ter percebido
o erro que cometera, mas, para seu crédito, não entrou em pânico, que poderia
resultar numa contra-ordem precipitada, provocando, talvez, certa confusão e
choques fatais em pleno ar. Em vez disso, procurou remediar o melhor que pôde
aquele engano, reunindo seus dois grupos numa aproximação ordenada para Ploesti,
embora sua curva para leste tenha de continuar envolta em mistério. Não havia
razão para não entrar em contato com o Tenente-Coronel Baker, que dirigia o
93º Grupo, se estava tentando encontrar Floresti passando junto de Ploesti.
O silêncio radiofônico não fazia sentido com granadas de 88 mm subindo na
sua direção e balas de metralhadoras dos caças varrendo os bombardeiros. Mas
sua rota seguinte com o 376º Grupo mostra que ele estava tentando encontrar a
Branca 1 e talvez esperançoso de que Baker o acompanhasse para localizar as
Brancas 2 e 3 que eram seus objetivos. Talvez essa ausência de comunicação
entre Bucareste e Ploesti fosse ainda mais importante do que a curva anterior
feita errada. Para o comunicado "MS" (Missão Bem Sucedida) de Em,
porém, não parece haver uma explicação convincente. A disciplina dos dois
grupos, que acompanharam Ent desde Targoviste, e do 389º, que permitiu ao
Coronel Wood corrigir seu próprio erro de navegação pouco antes de chegar a
Campina, sugere que uma força menor poderia ter sido mais fácil de controlar
e relativamente mais bem sucedida. E isso pode ser provado com os feitos dos
Coronéis Kane e Johnson e do Tenente Posey. Na verdade, a
"Macaréu" exigiu demais, nada menos de cinco grupos conservados
reunidos num vôo tão prolongado. Nem o erro de Ent nem o tempo desfavorivel
foram os principais responsáveis pela destruição de um plano que, desde o
começo, continha sérios perigos intrínsecos. Em especial, é dificil de
justificar a imposição de silêncio radiofônico. Tanto Brereton quanto Smart
declararam que a natureza de vôo de baixo nível e a direção noroeste do
ataque criariam o elemento surpresa. Mas além disso, o silêncio radiofônico,
que poderia ter feito Ent cônscio dos problemas sobre a Iugoslávia e impedido
Kane de permanecer sobre o Danúbio, foi decretado para evitar detectação.
Isto pressupunha uma falta de observação e de comunicações nos países
ocupados pelo inimigo. Os B-24 foram avistados cruzando a costa da Albânia e
segundo se revelou mais tarde, o inimigo estava ciente da sua presença desde
então. Esperar o contrário era entregar-se a esperanças fantasiosas. Os
planejadores, visando a aproximação secreta e surpresa no ataque, pareciam
ignorar a capacidade do inimigo fora da área do alvo imediata. Em seus esboços e nos
exercícios feitos no deserto da Cirenaica, a "Operação Macaréu"
parecia indubitavelmente viável. Mas as missões de bombardeio são realizadas
sob perigosas situações de combate e muitas vezes em condições climáticas
adiversas. A impressão de que um campo de batalha em terra ou no ar
assemelha-se a um tabuleiro de xadrez é reservada aos historiadores românticos.
Ela jamais teve muita base concreta. No começo do século XIX, o teórico
militar prussiano Karl von Clausewitz salientou essa tese levando em conta o
"atrito" na guerra. Os planejadores da
"Operação Macaréu" deixaram-se seduzir pelo tamanho da presa
aparentemente ao seu alcance. Em termos de economia, a missão talvez
parecesse atraente, mas era militarmente impraticável. O Marechal-do-Ar
Tedder estava certo ao declarar sua "profunda admiração... [pela]
bravura e determinação com que os ataques foram realizados", e o
General Arnold comunicou a Brereton: "Estamos todos imensamente
orgulhosos da sua atuação". Mas Arnold continuou, mais judiciosamente:
"Prevalece a impressão de que a 'Macaréu' desfechou um golpe que
contribuirá materialmente para a derrota do Eixo". Infelizmente, tal
não aconteceu. Planejada com
meticulosidade e cumprida com bravura, a "Macaréu" foi um fracasso
dispendioso. Na verdade, seus defensores não previram êxito sem missões
subseqüentes e não foi culpa sua que estas sofressem um atraso de nove
meses. O Marechaldo-Ar Tedder exagerou ao afirmar que "o êxito da
operação compensou amplamente o desapontamento do primeiro ataque [Halpro]
às refinarias de Ploesti". O General Eisenhower comentou mais
expressivamente: "Como de hábito, os cálculos matemáticos não puderam
superar condições inesperadas". Examinando a
"Operação Macaréu", o Major-General Brereton concluiu: "Não se
pode culpar o comandante ou líder que participou da missão por decisões
tomadas no local e sob tensão do combate". O Coronel Smart declarou:
"É fácil para os torcedores de futebol na segunda-feira de manhã criticarem
o seu time", afirmando que "erros humanos sempre acontecerão em
quaisquer manobras". Infelizmente, a falibilidade humana sob tensão não
se revelou repentinamente a 1° de agosto de 1943: ela é sempre evidente na
guerra. A capacidade de tomar decisões em situações de combate que envolvem a
vida de outros e o sucesso de uma missão é o principal requisito de um
oficial superior. Mas os limites em que de tem de operar também são
pertinentes e os planejadores têm de estar cientes dos fatores humanos,
naturais e militares quando formulam suas idéias. O Brigadeiro-General Ent
temia pelo custo de uma missão de baixo nível, o mesmo acontecendo com muitos
outros, incluindo Brereton e Smart; e a decisão de Brereton de usar essa
tática só foi tomada após um exame cuidadoso das alternativas. Mas ninguém
pareceu considerar plenamente os perigos inerentes à ida de uma força tão
grande sobre território inimigo para atacar uma posição tão distante. Deu-se
atenção em demasia aos detalhes táticos desde os Pontos Iniciais até os
alvos, e quase não se pensou nos possíveis problemas da rota de aproximação.
Culpar indivíduos como o Major-General Brereton ou o Coronel Smart por isto
seria odioso. Os defeitos inerentes ao
plano da "Macaréu" podem ser atribuídos à falta de experiência do
pessoal da Força Aérea Americana nesse tipo de operação nesse estágio da
guerra. Eles podem ser explicados pela obstinada crença americana no
bombardeio autodefensivo que, a despeito de amplas provas em contrário,
persistiu até o segundo desastroso ataque a Schweinfurt, na Baviera, em
outubro de 1943. Mas o destemor daqueles que voaram até Ploesti a 19 de
agosto de 1943 não deve ser posto em dúvida. A batalha aérea ocorrida nos
céus da Romênia naquele domingo de verão foi realmente épica. Um cumprimento
involuntário e espontâneo foi feito por um jornal búlgaro quando, pouco
depois da missão, declarou que o Governo dos Estados Unidos oferecera 10.000
dólares de prêmio, medalhas e licenças extras como incentivo para as tripulações
voarem naquele dia. |