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A luta pelo domínio das rotas oceânicas vitais travou-se entre a terrível "Arma Invisível" e os aviões e navios de superfície. Isoladamente como solitários tigres assassinos, ou formando verdadeiras alcatéias de lobos esfaimados, os submarinos alemães semearam o terror e a destruição por todo o Atlântico, e, como na Grande Guerra anterior, quase arrebataram a vitória. A guerra sob o
mar
Na parede de um escritório situado no Arco do Almirantado, em Londres,
durante anos esteve exposto um gráfico chamado "Diagrama Cronológico dos
Acontecimentos Principais, 1939-1945". Esse documento, por todos os
títulos impressionante, mostra, lado a lado, em azul, as perdas trimestrais
de navios mercantes Aliados, em milhares de toneladas, e, em vermelho, as
perdas de submarinos alemães. Durante a primeira metade da guerra, as colunas
azuis esticavam-se cada vez mais, com dolorosa e trágica regularidade,
enquanto que, ao seu lado, as pequenas colunas vermelhas apenas muito
vacilantemente se alteravam. De repente, porém, entre março e junho de 1943, dá-se uma
mudança extraordinária, uma inversão completa de um trimestre para outro. Daí
em diante, a coluna em vermelho se avoluma e desliza rapidamente para a
extremidade do gráfico, enquanto que a coluna em azul se encolhe cada vez
mais, até que, por fim, desaparece de todo. Neste livro, David Mason revestiu, com uma prosa de grande
lucidez, o esqueleto daquele gráfico, narrando uma história intricada e
fascinante que vai do momento em que, em 1935, o então Capitão Karl Doenitz
foi chamado pelo Almirante Erich Raeder para assumir a direção dos trabalhos
de reforma por que passaria a arma submarina alemã, até o seu amargo final,
reduzida a destroços nos abrigos de submarino dos ancoradouros, de
Schleswig-Holstein a Bordeaux. E que história! Apesar de tudo quanto se fez, desde 1945, filmes, livros e
reportagens, para retratar nossos marinheiros mercantes como homens rudes e
valentes, e seus inimigos, os tripulantes dos submarinos, como frios
criminosos, todos nós, mesmo os mais impressionáveis, nunca deixamos de
reconhecer que os submarinos, "nossos" ou "deles", são
tripulados por homens valentes, de um moral elevadíssimo e um domínio técnico
que se impõem à nossa admiração. Isto é válido para a arma submarina de então, assim como o é,
hoje em dia, para os americanos e britânicos que tripulam os submarinos
nucleares - como os leitores desta excelente narrativa terão oportunidade de
constatar. Mesmo no fim, já com seu raio de ação desesperadamente limitado
pela falta de combustível e com a pátria em franco processo de
desmoronamento, as tripulações dos submarinos germânicos ansiavam por ação.
Aí por volta de 1945 as técnicas da guerra submarina eram já muito diferentes
das usadas no primeiro inverno da guerra, quando o Tenente Gunther Prien
levara seu pequenino U-47 até Scapa Flow e afundara o Royal Oak. Sofisticando-se a técnica da guerra submarina, o emprego do
submersível começou a exigir a presença, atrás de um periscópio, de homens de
elevado nível de conhecimento, engenheiro, cientista etc., como agora. Uma
virtude do livro de David Mason é que ele inclui no texto a maior parte do
conhecimento necessário para que o leitor compreenda a história. A guerra submarina foi um aspecto vitalmente importante do
gigantesco conflito conhecido como a Segunda Guerra Mundial, pois, mais do
que qualquer outra arma do vasto arsenal nazista, ela esteve muito perto de
dar a vitória a Hitler. Este livro faz plena justiça ao seu tema e aos homens
que combateram sob as ondas. |
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Constrói-se a frota No dia 4 de outubro de 1918, de manhã bem cedo, durante ataque a
um comboio de navios mercantes que cruzava, poderosamente protegido, o
Mediterrâneo, um submarino desgovernou-se, aproou, e começou a mergulhar
verticalmente. Ele desceu ao nível perigoso de 60 m, depois passou dos 90 m
e, sob a imensa e crescente pressão, dois dos seus tanques de reserva de ar
explodiram. Para salvar a tripulação de morte certa e desnecessária, o
comandante abandonou toda e qualquer idéia de fugir ao inimigo, deu ordens
para que enchessem todos os tanques de ar restantes e pôs os motores a
funcionar á ré a toda a força para corrigir o mergulho. O submarino inverteu imediatamente o curso e, com os tanques
cheios de ar comprimido, subiu das profundezas como uma rolha e rompeu a
superfície bem na frente de um cruzador britânico e dos destróieres que o
acompanhavam. Atingido por uma barragem de artilharia, começou a fazer água,
mas, com o suprimento de ar comprimido esgotado, era impossível fazer outro
mergulho, não deixando ao comandante qualquer alternativa senão mandar
abandoná-lo. O engenheiro-chefe e seis outros tripulantes afundaram com ele
quando o puseram a pique, enquanto o restante da tripulação foi salvo por um destróier
e levado para a Ilha de Malta. Para o comandante, iniciaram-se os muitos meses de confinamento
em campos de prisioneiros britânicos e durante os quais ele teve oportunidade
de ponderar demoradamente sobre o futuro do submarino na guerra. E aplicou de
maneira excelente tudo o que pensou. Ao ser libertado, recebendo dos seus
superiores a certeza de que o submarino continuaria a ser parte integrante da
Marinha Alemã, ele tornou a ingressar nessa arma. Embora a garantia recebida
não fosse cumprida imediatamente, ele foi subindo de posto pelos 17 anos
seguintes, vindo a comandar o cruzador de batalha Emden. Então, no verão de
1935, o Grande Almirante Raeder o destituiu do comando desse barco e o
encarregou de uma tarefa que ele a princípio considerava um prêmio de
consolação, mas que se transformou na realização da grande ambição da sua
vida - comandar a nova arma submarina da reconstruída Marinha Alemã. Karl Doenitz era o nome desse oficial. Nos anos intermediários,
Doenitz se esquecera por completo do seu velho amor pelo submarino. Segundo
os termos do "Tratado de Versalhes", a Alemanha estava proibida de
construí-los e Doenitz estabelecera totalmente a sua vida como marinheiro de
superfície. Mas, a 16 de março de 1935, o "Tratado de Versalhes"
foi repudiado, sendo, um mês depois, substituído pelo "Acordo Naval
Anglo-Germânico". Nos termos deste, a Alemanha se comprometia
espontaneamente a limitar os efetivos da sua Marinha em 35% dos da Marinha
Britânica, excetuando-se a arma submarina, que teria permissão de atingir ate
45% da capacidade britânica de submarinos e, em circunstâncias especiais,
depois de dar o devido aviso, em 100%, com restrições correspondentes nos
efetivos dos outros departamentos. O acordo sobre o tamanho potencial da arma submarina não se
baseava em qualquer motivo altruísta por parte dos britânicos, nem envolvia
grande sacrifício deles. Eles próprios não viam muito futuro para o submarino
nas marinhas do mundo, sobretudo na sua. A tarefa principal da marinha
britânica, desenvolvida durante séculos de tradição, era a proteção das rotas
comerciais britânicas e a futura estratégia se baseava neste conceito. Este,
contudo, era um papel defensivo, para o qual o submarino, essencialmente arma
ofensiva, era de todo inadequado. Por conseguinte, os britânicos mantiveram
restrito o número de submarinos, contando, mesmo em 1939, com apenas 57
deles. A 18 de junho, o Acordo Naval Anglo-Germânico, assinado e
sacramentado, entrou em vigor. Dez dias depois, houve uma cerimônia nos estaleiros
de Kiel que mostrou que os engenheiros alemães não haviam perdido tempo desde
o término da Primeira Guerra Mundial. Era a entrada em serviço ativo do U-1.
Naqueles anos críticos, o núcleo da futura arma submarina fora formado de
maneira cuidadosa e sub-reptícia. Por exemplo, dois submarinos haviam sido
construídos para as marinhas finlandesa e turca, mas só lhes foram entregues
depois de "testes" minuciosos feitos por uma porção de jovens
oficialmente pertencentes à "Escola Anti-submarina". Depois desse
treinamento secreto, esses jovens tornaram-se a espinha dorsal da
recém-autorizada arma submarina. Durante o ano de 1934, vários galpões,
fortemente vigiados, foram construídos nos estaleiros de Kiel e foi de um
destes que, em junho do ano seguinte, saiu o primeiro dos submarinos já do
novo tipo. Seguiram-se outros, em rápida sucessão. Por volta de fins de
setembro já havia uma flotilha de nove submarinos. Doenitz, podendo começar do nada, atacou a sua nova tarefa com
prazer e entusiasmo. Nos 15 anos anteriores não existira nenhum submarino
alemão e os jovens que participaram do treinamento secreto eram crianças
quando a Primeira Guerra Mundial terminou. Pouquíssimos submarinistas haviam
permanecido na marinha após o término do primeiro grande conflito,
notadamente o Capitão Thedsen, que havia assumido o posto de Engenheiro de
Flotilha, de modo que Doenitz estava em condições de moldar suas tripulações
às suas táticas e diretrizes, pois a limitada experiência de operações que a
Primeira Guerra Mundial permitiu não estabelecera orientações específicas que
a recém-constituída arma submarina pudesse seguir, nem dela surgira qualquer
"manual de instrução" que Doenitz e seus homens pudessem obedecer.
Era por assim dizer total a liberdade de que dispunha para fixar idéias e
princípios em que se assentaria toda a estratégia da arma. Por exemplo, ele considerava que os submarinos teriam um efeito
mínimo se não pudessem operar em grupos. Esta foi uma das principais lições
que Doenitz recolhera da experiência vivida no fim da Primeira Guerra
Mundial. Naquela época, quando o esforço submarino alemão estava no apogeu,
em três meses da primavera de 1917 nada menos de 800 navios haviam sido
afundados, totalizando quase dois milhões de toneladas. Confrontado com esses
números verdadeiramente desastrosos, o Primeiro-Ministro Britânico, Lloyd
George, coagira o Almirantado a introduzir o sistema de comboio em
substituição à política então vigente, que permitia que os navios mercantes
zarpassem sozinhos. Lembrava-se Doenitz de que essa providência e o total
fracasso dos submarinos no tocante às comunicações e cooperação haviam
provocado drástica redução no número de navios afundados. Caso o inimigo
tornasse a recorrer ao sistema de comboio, Doenitz planejava dispor grupos de
submarinos numa ampla curva côncava, na qual o inimigo penetraria, como o
melhor método possível de operação. O primeiro submarino a avistar um inimigo
recuaria, manteria contato e comunicaria a posição do navio aos outros
submarinos da formação, que fechariam sobre o navio, pelos flancos e pela
retaguarda, como as mandíbulas de um gigantesco predador. À medida que seu
programa de treinamento se desenvolvia, Doenitz organizou, em 1937 e 1939,
amplos "jogos de guerra" no Mar do Norte, nos quais seu conceito de
tática submarina foi plenamente comprovado. Doenitz também ponderou muito sobre o tamanho do submarino que
queria e examinou o problema à luz das suas concepções sobre o papel que ao
submarino seria confiado na futura guerra, como unidade de uma "alcatéia"
especializada no ataque a navios mercantes viajando em comboio escoltado.
Reconhecidamente, um submarino grande tinha a vantagem da velocidade, maior
capacidade de torpedos, armamentos mais pesados para defesa própria, maior
alcance e mais conforto para a tripulação. Por outro lado, em favor dos
submarinos pequenos, Doenitz alinhava razões como maior maneabilidade,
rapidez de mergulho diante de uma emergência e melhor ocultamento na
superfície. Além disso, ele tinha também de levar em conta os termos do
"Acordo Naval Anglo-Germânico", que fixava a tonelagem total
permitida à arma submarina, mas não o número de unidades. Doenitz esposava a
opinião de que quatro submarinos pequenos eram uma força muito mais poderosa
que um só submarino quatro vezes maior, porque, em conjunto, poderiam cobrir
área bem maior do oceano e desfrutar de possibilidades melhores de encontrar
motivos para o ataque. Tendo levado em conta todos os fatores pertinentes,
Doenitz concluiu que o tamanho ótimo para a maioria dos componentes de sua
esquadra era de umas 500 toneladas, opinião inteiramente confirmada, em
extensos testes, pelo desempenho do seu submarino Tipo VII. Esse tipo de submarino, do qual Doenitz contava com 10, numa
flotilha de 24, em fins de 1935, tinha na proa quatro tubos lança-torpedos e
um na popa, e transportava 14 torpedos. Muito manobrável debaixo da água,
desenvolvia 16 nós na superfície e submergia totalmente 20 segundos após a
ordem de mergulhar. Pequenas modificações, introduzidas pelo Engenheiro-Chefe
Thedsen, aumentaram-lhe o tamanho original para 517 toneladas e a capacidade
de combustível, de modo que seu alcance passou dos restritos 900 km para a
respeitável distância de 1.400 km. Contudo, Doenitz não levara em conta, em seu avançado
raciocínio, o Alto-Comando Naval, que, não tendo a mesma percepção de como,
na prática, se desenvolveria a tática de grupo, continuava visualizando para
os submarinos o mesmo papel que haviam desempenhado no fim da Primeira Guerra
Mundial - o de incursores solitários, operando independentes e distantes das
bases por longos períodos. O Alto-Comando insistia em que os submarinos
deveriam ser fortemente armados no convés, para serem capazes de trocar tiro
de canhão com o inimigo, em batalhas de superfície; ter grande capacidade de
transporte de torpedos e um raio de ação extremamente amplo. Disso resultou a
opção pelo submarino maior e, apesar dos protestos de Doenitz, a prioridade
foi para a construção de "Cruzadores Submarinos" de 2.000
toneladas. Este foi o primeiro dos muitos desacordos que ocorreriam entre
Doenitz e o Alto-Comando pelos anos que se seguiriam. Outro motivo de
discussão foi o número de submarinos necessários para a conduta da futura
guerra e sua prioridade no plano de construção naval. À medida que o programa
de treinamento avançava, Doenitz se convencia cada vez mais da probabilidade
de uma guerra prematura e de que a Grã-Bretanha, certamente, ficaria do outro
lado da fronteira. Lutou então por uma esquadra de pelo menos 300 submarinos,
número que considerava suficiente para uma atuação efetiva contra os
comboios. O programa de construção naval alemão foi consubstanciado no
"Plano-Z", que previa a construção de quatro porta-aviões, vários
cruzadores leves e 233 submarinos - mas, com data de conclusão planejada para
1948! Com seus 300 submarinos, construídos rapidamente, Doenitz
afirmava que poderia desfechar um golpe antecipado e decisivo contra o
inimigo. A qualquer momento, ele poderia contar com 100 belonaves operando
contra os comboios, 100 em trânsito para a área de operações e 100
reequipando em portos alemães. Com uma força de 100 submarinos estacionada
permanentemente na linha de frente, a Alemanha poderia inutilizar as rotas
comerciais das maiores potências marítimas do mundo, rotas de há muito consideradas
vitais para a existência da nação britânica. Por elas, num fluxo constante de
navios cargueiros, vinham não só considerável proporção do alimento para a
ilha densamente populada, como também quase todos os suprimentos de minérios
e combustível, além dos veículos e armas de que a Grã-Bretanha necessitaria
para a realização de uma grande guerra. Doenitz não tinha dúvida de que as rotas comerciais eram o ponto
através do qual poderia ser estrangulada a economia britânica, o que jogaria
no chão o moral do povo e do governo. Mas poucos dos superiores de Doenitz -
aliás, poucos dos seus contemporâneos, de ambos os lados, excetuando-se
Winston Churchill, é claro - compartilhavam a opinião de que o submarino era
a única arma que poderia isolar o país das fontes de recursos externos. Mais tarde, Churchill viria a escrever: "A única coisa que
realmente me assustou durante a guerra foi o perigo do submarino... nossa
linha vital, mesmo através dos vastos oceanos, mas especialmente nas entradas
da ilha, estava ameaçada. Este aspecto da guerra me deixava muito mais
ansioso do que a gloriosa luta aérea chamada a Batalha da Grã-Bretanha".
Posteriormente, ele acrescentou: "O ataque dos submarinos foi o pior dos
nossos males. Os alemães teriam lucrado muito se tivessem arriscado tudo
nele". Doenitz queria arriscar "tudo nele". Só que, dos 300
submarinos pedidos, recebera apenas 56 quando a guerra começou. A arma e o inimigo
Antes da Segunda Guerra Mundial, e mesmo nos primeiros anos daquele
grande conflito, até que os acontecimentos impuseram um aspecto diferente ao
seu papel, o submarino era basicamente um vaso de superfície. O próprio
Doenitz, focalizando o equívoco fundamental do leigo, que julgava que o
submarino funcionava perpetuamente submerso, descreveu-o como um "vaso
de mergulho", projetado para navegar a maior parte do tempo na
superfície e mergulhar somente para fugir a um destróier ou avião atacante ou
para desfechar um ataque de torpedos à luz do dia. O submarino tinha dois meios de propulsão distintos. Dois
poderosos motores diesel o impulsionavam na superfície a grande velocidade,
mas, ao submergir a belonave, era preciso desligá-los, por causa do oxigênio.
Quando as entradas de ar ficavam abaixo da superfície, a única fonte de
oxigênio era o suprimento contido no próprio submarino, suprimento que os
poderosos motores diesel consumiriam num instante. O submarino então pararia,
com a tripulação asfixiada. Em lugar deles, no momento da submersão, os
engenheiros ligavam dois motores elétricos acionados a baterias. Estas,
pesando várias toneladas, deslocavam os submarinos à velocidade de, no
máximo, uns 8 nós, pelo menos nos primeiros projetos. A velocidades mais
econômicas, as baterias manteriam o submarino em movimento por umas 24 horas
e poderiam levá-lo a uma distância de 96 km submerso. Depois disso, as
baterias descarregavam, sendo preciso voltar à superfície, onde os motores
diesel tornavam a ser usados, não para impulsionar o barco, mas para
funcionar como geradores no processo de recarregamento das baterias -
representando uma tarefa de duas ou três horas a renovação total do
suprimento de energia. O núcleo da construção do submarino era o casco de pressão, um
longo cilindro de aço dividido em compartimentos. A pressão interna era
mantida em nível idêntico ao da atmosfera exterior. Contudo, quando a
belonave submergia, a pressão externa, aumentando rapidamente, impunha
limites máximos de profundidade ao comandante do barco. Sob pressões
extremas, 150 toneladas por metro quadrado, a 150 m de profundidade, por
exemplo, as chapas começavam a apresentar fendas nas juntas, a água se
infiltrava e não demorava muito para o barco ir ao fundo do mar. Presos à parte externa do casco de pressão ficavam os tanques de
lastro, equipados com uma válvula de água, na parte inferior, e uma de ar, na
parte superior. Quando cheios de ar, eles davam ao barco flutuabilidade
suficiente para se manter na superfície. Abertas, porém, as duas válvulas, a
de ar e a da água, o mar penetrava os tanques, expelia o ar e reduzia a
flutuabilidade da belonave, de modo que ela começava a afundar. O controle de
seus movimentos, ascendente e descendente, poderia ser feito através de dois
expedientes: bombeando mecanicamente a água do mar para fora, ou fechando a
válvula de ar nos tanques de lastro e enchendo-os com ar comprimido, para
expelir a água do mar pela válvula da água. Para os ajustes de profundidade e
equilíbrio aplicavam-se os métodos utilizados pelo avião, isto é,
ajustavam-se os lemes de profundidade de ré para cima ou para baixo, conforme
a necessidade. No submarino, a resistência da água ao seu deslocamento
dava-lhe a posição buscada. Os tanques de lastro, presos à parte externa do barco, não
precisavam ter a robustez do casco de pressão, porque, quando submersos,
continham água do mar, de modo que não se sujeitavam a grandes variações de
pressão, risco sério para o casco principal, a grandes profundidades. Pela
mesma razão, os tanques de combustível, também situados do lado de fora do
casco de pressão, eram de construção incomum. Sua parte inferior era aberta à
água do mar e a válvula de entrada de combustível para os motores diesel
ficava na parte de cima do tanque. À medida que se consumia o combustível,
deixava-se entrar água do mar, por baixo, para manter cheios os tanques.
Assim, como o óleo combustível, menos denso, flutuava sobre a água, não havia
possibilidade de a água do mar entrar nos motores. Com esse sistema, o
consumo de óleo combustível não gerava presença de ar dentro do tanque, dando
origem a flutuabilidade indesejada quando o submarino precisava submergir, ou
favorecendo a presença do risco de rompimento do tanque a grandes
profundidades. O poder de ataque do submarino reside sobretudo nos seus
torpedos - recipientes autopropulsores de alto explosivo que não passavam de
submarinos em miniatura e que sofreram vários estágios de desenvolvimento. A
princípio, eram impulsionados por ar comprimido, que deixava um rastro muito
visível de bolhas brancas, dando ao inimigo tempo bastante para sair da
frente. Modelos posteriores incorporaram um motor elétrico acionado por um
acumulador, o que os tornava quase invisíveis. Seu método de ignição também
foi desenvolvido à luz da experiência. Os primeiros torpedos eram inflamados
por percussão, só explodindo quando em contato com o navio. Muitos deles
mostraram-se defeituosos, não explodindo ao bater contra o alvo, ou não
percorrendo na profundidade para que foram armados, passando inofensivamente
por baixo do casco do navio, funcionando até que seus motores parassem. Com a
ignição magnética incorporada aos modelos posteriores, eles passaram a ser
projetados para explodir ao entrar em contato com o campo magnético provocado
pela presença do navio, tornando assim menos crítico o problema da marcação
da profundidade. Mesmo que explodissem abaixo do casco do navio, as fortes
ondas de choque provocadas sob as águas resultavam quase que invariavelmente
no rompimento da quilha do navio. Os torpedos tinham no "nariz" um "dispositivo
armador", em forma de pequena hélice. Quando armazenado ou sendo
transportado no barco, a cápsula de detonação ficava em posição segura,
distante do percussor que a disparava. Somente depois que o submarino lançava
o torpedo é que essa hélice, acionada pelo movimento do torpedo na água,
fazia girar um parafuso que alinhava o percussor e o detonador. Para os tripulantes de um submarino a vida tem encantos e
dificuldades peculiaríssimos. Uma guarnição completa - 44 oficiais e
marinheiros, no caso de um submarino Tipo VIIC - vivia no mar em condições
acanhadas semanas a fio. Quando partiam em patrulha, cada metro cúbico de
espaço disponível se enchia de alimentos para a jornada. Os alimentos frescos
eram guardados nos lugares mais acessíveis, muitas vezes nos aposentos
normais da tripulação. Quando estes acabavam, os cozinheiros passavam a usar
os alimentos enlatados ou desidratados, e, como tinham de ser consumidos
precisamente na ordem inversa do seu armazenamento, a saúde da tripulação
dependia até certo ponto da inteligência e previsão com que os alimentos eram
guardados. Este é apenas um pequeno exemplo do cuidado com que se devia
planejar os preparativos para uma patrulha na arma submarina. Está claro que exercícios físicos eram virtualmente impossíveis;
não havia como dar uma caminhada, nem espaço para mais que um repertório
limitado de "sacudidelas". Durante a patrulha, mesmo não estando de
serviço, a parcela de ar fresco a que cada homem tinha direito correspondia
ao limitado tempo de permanência no convés que lhe era permitido. Limitado
porque, sendo feito o acesso ao interior do submarino por intermédio de uma
escotilha que só permite a passagem de um homem de cada vez, e como o
submarino não pode mergulhar até que todos estejam dentro dele, seria
impossível um mergulho de emergência com uma fila esperando para entrar. Por
isso a permanência de homens no convés obedece a uma escala de tal sorte
rigorosa, que o retorno de cada marinheiro ao banho de sol e de ar livre era
freqüentemente muito demorado. E também havia a tensão, a espera, durante a ação, para ver se
os destróieres de escolta de um comboio inimigo localizariam o submarino e o
atacariam. Um ruído terrível informava à tripulação que o submarino fora
localizado - o "ping", contra o casco, emitido pelo mais antigo dispositivo
antisubmarino dos Aliados, o "asdic". Seu nome era formado com as
iniciais da "Allied Submarine Detection Investigation Committee"
(Comissão Aliada de Investigação e Detecção de Submarino), que o desenvolvera
em 1917. Os americanos o chamam "sonar" (sound navigation ranging).
Desse dispositivo tinham conhecimento os alemães, graças à vasta publicidade
feita entre as duas guerras. O "asdic" consistia de um
transmissor-receptor colocado, dentro de uma cúpula, no fundo de um destróier.
No seu núcleo ficava um cristal de quartzo que, quando se lhe aplicava uma
corrente elétrica alternada, oscilava e emitia ondas sonoras pela água que, ao
atingirem qualquer objeto, eram refletidas e captadas pelo receptor,
denunciando a presença desses tigres do mar. Movendo lentamente e traçando os
ângulos de direção do "ping" repetido, o operador podia precisar
com segurança a direção e a distância do objeto, dando ao destróier condições
de desfechar o ataque. Duas desvantagens davam sos submarinos possibilidade
de escapar. Primeira desvantagem: o contato, por meio do "asdic",
com o submarino só era possível dentro de certa distância. Quando o destróier
se aproximava o suficiente para lançar cargas de profundidade, perdia-se o
"ping", e só por adivinhação o destróier chegava à posição exata do
submarino. Isto queria dizer que, se se movesse com rapidez suficiente, o
submarino poderia escapar ao peso principal do ataque. Segunda desvantagem:
os primeiros "asdics" não davam indicação da profundidade do
obstáculo, em torno da qual eram feitas estimativas. Para os submarinistas, como, conseqüência do seu próprio ataque,
registrava-se com freqüência um terrível dueto das máquinas do destróier e do
seu "asdic", primeiro o ruído das máquinas, quando o destróier
passava acima deles, depois o "ping" do "asdic", quando
este travava contato com o submarino, e novamente as máquinas, quando o
destróier se locomovia para fazer outra sondagem mais precisa. Finalmente, a
explosão. Se a carga de profundidade fosse lançada com precisão, a tremenda
força dos explosivos, aumentada pela concentração das ondas de choque sob as
águas, fazia o submarino arfar e guinar como se estivesse em meio a forte
tempestade. Era quase certo, então, que ele estivesse a caminho do fundo: Só
muito raramente conseguiam os submarinistas fazer subir o barco, depois de
atingido, e se jogar ao mar. Quase sempre o túmulo do submarinista é o
submarino. Atirar-se ao mar, nadar até uma balsa e ser recolhido pelo inimigo
e levado para um campo de prisioneiros em terra firme, poucos, pegados firmes
debaixo do oceano, viveram para contar tal acontecimento. Só haveria água
inundando o submarino, enquanto este era esmagado à medida que atingia
profundidades que seu casco de pressão jamais poderia resistir, ou então
ficava no fundo até acabar o oxigênio. Mas nunca houve escassez de voluntários para essa arma. O
trabalho, o companheirismo, a sensação da vivência numa pequena comunidade de
amigos eram os fatores de atração e de manutenção do moral elevado, até o
fim, dos homens da Arma submarina. Problemas de guerra: Setembro de 1939 a maio de 1940 Quando a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha, no dia 3 de
setembro de 1939, dos 56 submarinos de Doenitz, 46 se encontravam prontos para
entrar em ação, mas somente 22 estavam aptos para operar no Atlântico. Os
outros 24 eram submarinos pequenos, Tipo II, de 250 toneladas de
deslocamento, com alcance operacional adequado apenas para atuar no Mar do
Norte. Essa força era, como se vê, muito escassa para a tarefa que
tinha pela frente, pois, dos 22 submarinos, pelo revezamento a que estavam
obrigados, para reabastecimento etc., no máximo 7 estariam empenhados em
operações contra navios mercantes no Atlântico, a qualquer momento. Longe de interromper
as comunicações inimigas e obrigar os britânicos a entrar cedo num acordo,
Doenitz sabia que seus submarinos não infligiriam mais que algumas
alfinetadas. Além disso, a eficiência dessas alfinetadas foi reduzida pelas
regras impostas às operações dos submarinos. As condições articuladas no
Regulamento de Presas estipulavam que o submarino tinha primeiro que emergir,
para depois, então, deter e examinar qualquer navio mercante. Provado o
direito, de afundá-lo, por se encontrar o mercante contrabandeando carga para
o inimigo, por exemplo, o submarino tinha que, antes de mais nada, garantir a
segurança da tripulação do navio, levando-a para bordo - uma impossibilidade
palpável, no caso de um submarino já apinhado. Somente diante de navios
mercantes navegando sob escolta, ou que resistissem quando chamados a parar,
ou em transportes de tropas é que o submarino podia agir sem a necessidade de
inspeção prévia. É claro que tais obrigações deixavam o submarino vulnerável
a ataque de qualquer navio que estivesse realmente armado. Apenas
ligeiramente armados no convés, os submarinos pequenos e médios eram
extremamente vulneráveis. Outra complicação surgiu quando a França se declarou em guerra
com a Alemanha. Hitler, ansioso por evitar um choque direto com aquele pais,
apesar da declaração nominal de guerra, proibiu sos seus submarinos qualquer
ação contra navios franceses, exceto em defesa própria. A situação tornou-se ainda mais confusa pelas circunstâncias que
cercaram o disparo do primeiro torpedo "com raiva". No dia em que a
guerra foi declarada, o Tenente-Comandante Lemp, no comando do U-30, avistou
um navio de passageiros que, segundo afirmou, navegava em ziguezague,
completamente às escuras, fora das rotas normais. Lemp concluiu tratar-se de navio
de tropas; estabeleceu a sua identidade como sendo britânico e agiu
imediatamente, baseado no direito de atacar. Seus torpedos atingiram em cheio
o navio, que afundou, com a perda de 128 vidas. Ficou, no entanto, provado
que não se tratava de transporte de tropas, e sim do navio de passageiros
Athenia, que viajava da Grã-Bretanha para os Estados Unidos, e a maioria das
vítimas do U-30 era civil. O governo britânico imediatamente acusou os alemães de travarem
guerra ilimitada, em contravenção ao direito internacional. O governo alemão
negou a acusação. Porque Lemp não mencionara a ação em seus relatórios
transmitidos pelo telégrafo, só em setembro, quando o U-30 chegou à sua base
e seu comandante se apresentou a Doenitz, é que a verdade veio a lume. A ação
de Lemp, ainda que tivesse sido perpetrada de boa-fé, infringia diretamente a
rígida instrução de Hitler de travar guerra de acordo com o regulamento de
presa e o governo alemão continuou afirmando que nenhum submarino seu fora
responsável pelo afundamento do Athenia. O Alto-Comando Naval recebeu ordem
no sentido de manter a questão em segredo e o Kommodore Doenitz foi obrigado
a mandar Lemp eliminar o registro do acontecimento de seu diário de guerra e
substituí-lo por outra página, omitindo qualquer referência ao incidente. Numa outra tentativa de negar o envolvimento de qualquer
submarino na tragédia, o Ministério da Propaganda Alemão fez transmitir pelo
rádio a declaração de que o Athenia fora sabotado por ordens de Winston
Churchill, então Primeiro-Lorde do Almirantado, para desacreditar a nação
alemã como sendo a primeira a infringir as regras da guerra naval, mas
praticamente ninguém acreditou nisso. O efeito imediato da perda do Athenia foi fazer com que Hitler,
ainda ansioso por evitar hostilidades francas com a Grã-Bretanha e a França,
emitisse outra ordem limitando as atividades dos submarinos, instruindo-os
para que não afundassem navios de passageiros, de qualquer nação, a serviço
do inimigo ou não, navegando em comboio ou não. Para o Alto-Comando Naval, parecia que o governo estava impondo
restrições impossíveis às atividades do já reduzido grupo de submarinos, mas
essas limitações foram sendo gradativamente relaxadas. A 23 de setembro, por
insistência do Almirante Raeder, Hitler aprovou o afundamento de todos os
navios mercantes que fizessem uso do rádio quando detidos. A 24 de setembro,
também por recomendação de Raeder, foi cancelada a ordem que excepcionalizava
os navios franceses, e então, por estágios, eliminou-se a necessidade de
cumprir os regulamentos de presa em áreas declaradas: a 30 de setembro, no
Mar do Norte; a 2 de outubro, ao largo das costas britânica e francesa, com
respeito a navios de luzes apagadas; em águas até 15 graus a oeste e, depois,
a 19 de outubro, em águas até 20 graus a oeste. A 17 de outubro, os
submarinos já haviam recebido permissão para atacar todos os navios
identificados como hostis, exceto os de passageiros e, por volta de 17 de
novembro, até mesmo esta última restrição fora cancelada. Preparava-se, aos
poucos, o palco para a batalha total que Doenitz e o Alto-Comando Naval
alemão esperavam. Entrementes, os submarinos prosseguiam em suas operações contra
alvos inegavelmente legítimos, como e onde os encontrassem. A 14 de setembro,
o porta-aviões britânico Ark Royal navegava a oeste das Hébridas,
participando de um grupo de caça a submarinos. O U-39, comandado pelo
Tenente-Comandante Glattes, encontrou o porta-aviões e disparou uma salva de
torpedos, do tipo dotado de ignição magnética, mas, infelizmente para Glattes,
não funcionaram como deviam: detonaram prematuramente e mal arranharam a
pintura do Ark Royal. Seus destróieres imediatamente atacaram o U-39,
afundaram-no e capturaram sua tripulação. Mas o porta-aviões escapara por
pouco. Num ataque desferido três dias depois, o U-29 teve mais sorte. O
Tenente-Comandante Schuhardt estava à espreita, nas rotas de navegação a
oeste do Canal da Mancha, quando avistou através do periscópio um navio de
passageiros de umas 10.000 toneladas. Mas então uma escolta aérea entrou em seu campo de visão e, por isso, ele passou a considerar o navio
como um alvo legítimo. Porém, antes que pudesse disparar seus torpedos, o
navio desviou-se e tomou um rumo diferente e, como estivesse navegando rápido
demais para que o submarino pudesse segui-lo por baixo da água, quando perdia
velocidade, Schuhardt resolveu esperar até que o navio desaparecesse de
vista, para então emergir e deslocar-se a toda velocidade para uma posição de
onde pudesse desfechar o ataque. Pouco antes de emergir, ele fez outro exame
de precaução, pelo periscópio, e desta vez avistou um ponto preto no
horizonte, a bombordo. Ele tornou a olhar, mais atentamente, e quando
percebeu que o ponto preto era na realidade um porta-aviões, naturalmente
esqueceu-se por completo do plano de caçar o navio de passageiros.
Passaram-se duas horas para que o porta-aviões chegasse ao seu alcance, mas,
quando isto aconteceu, a sorte estava firme do lado de Schuhardt, pois ele
imediatamente mudou de posição e ofereceu ao submarino o belo alvo do seu
vasto flanco. Schuhardt aproveitou a oportunidade sem hesitar e, quase que de
olho, disparou uma salva de três torpedos, mergulhando rapidamente para
escapar a um destróier que se aproximava. Durante o mergulho Schuhardt ouviu
duas explosões violentas, seguidas de outra e de várias explosões menores.
Ele não podia ver nada, mas sabia que o porta-aviões fora afundado. Na
verdade tratava-se do Courageous, e com ele foram-se o seu comandante e 518
tripulantes. Os destróieres começaram a lançar bombas de profundidade e,
quando Schuhard desceu a 75 m, quatro violentas explosões sacudiram a torre
de comando do submarino e o agitaram todo, mas ele manteve-se intacto e pôde
escapar. Já de volta à base Schuhardt soube que a sua façanha se transformara
no assunto mais importante em toda a marinha e nação alemães. Foi o primeiro
sucesso divulgado da arma submarina ns guerra e serviu para reafirmar, nos
círculo, profissionais e públicos, as verdadeiras capacidades do submarino. Se o primeiro ataque bem sucedido de um submarino revestiu um
erro trágico e se o segundo foi altamente satisfatório, o terceiro, ocorrido
pouco depois, constituiu nada menos que um feito heróico, uma façanha que
dois submarinos haviam tentado duas vezes, no fim da Primeira Guerra Mundial,
e que culminou com a destruição de ambos. Doenitz achava haver chegado o
momento de outra tentativa. O plano previa a entrada de um submarino e, Scapa Flow para
atacar a esquadra britânica em seu ancoradouro, nas ilhas Orkney. Era um projeto que se vinha
formando na mente de Doenitz desde os primeiros dias da guerra, e o Serviço
de Inteligência do Alto-Comando Naval e as fotos aéreas dos obstáculos
existentes nas várias entradas de Scapa Flow confirmavam que o caminho mais
viável para a penetração no ancoradouro seria pela estreita passagem de Kirk
Sound. Doenitz foi extremamente cauteloso na escolha do homem certo
para a tentativa, recaindo a sua preferência na pessoa do Tenente-Comandante
Gunther Prien, capitão do U-47. Ele convocou Prien para uma entrevista,
perguntou se ele estava disposto a empreender a missão, advertiu-o dos riscos
e deu-lhe 48 horas para pensar na resposta. Depois de examinar demoradamente
os mapas e dados, Prien compareceu à presença de Doentiz para dizer-lhe que
aceitava a tarefa. Para preservar o máximo segredo, sem que a empresa poderia
fracassar, Doenitz tomou o cuidado de informar o Comandante-Chefe
pessoalmente, comunicando-lhe verbalmente, e não por escrito, que a tentativa
seria feita. A noite escolhida foi a de 13 de outubro, quando os dois
períodos de maré baixa ocorreriam durante a noite e quando a lua nova não
entraria com qualquer iluminação que pudesse revelar a presença do U-47. Como
Doenitz, Prien zelara tanto pela preservação do segredo que somente na manhã
daquele dia, parados em pleno oceano e já avistando as Orkney, é que ele
informou sua tripulação quanto à tarefa que os aguardava. Para alívio seu, os
homens pareceram deleitados com a perspectiva da audaciosa mas perigosa investida.
O moral da turma não podia ser mais elevado. Ao anoitecer, Prien emergiu e
rumou para Kirk Sound. O planejamento fora realmente perfeito. Não havia
luar, mas, por uma dessas eventualidades que nem mesmo o planejamento mais
detalhado e preciso pode prever, a noite foi de atividade incomum por parte
da aurora boreal, que iluminava o céu quase como se fosse dia claro. Mesmo
assim, apesar dessa desvantagem, Prien decidiu prosseguir, porque a
expectativa de condições de maré e de lua favoráveis era para daí a semanas,
quando então ele talvez já tivesse perdido a vantagem em termos de segredo e
moral. Enquanto navegava rumo aos navios afundados que bloqueavam Kirk
Sound, o U-47 foi presa das traiçoeiras marés que rodeiam aquelas ilhas e
somente a máxima habilidade náutica é que lhe permitiu contornar o problema.
Mesmo assim, o submarino encalhou e enredou o cabo num dos navios-obstáculos,
mas a 00:27h ele conseguiu desvencilhar-se. Ao sul, Prien não via nada, mas
ao norte, no ancoradouro principal, abria-se claramente o seu alvo. Dois
encouraçados e vários destróieres estavam ancorados. Um dos couraçados
parecia pertencer à classe Royal Oak, talvez fosse o próprio Royal Oak; o
outro se parecia muito com o Repulse. Prien aproximou-se mais e disparou três
torpedos dos seus tubos de proa, a 3.600 m de distância. O quarto não
detonou; um deles atingiu o navio, que, na realidade, era o próprio Royal
Oak, mas o dano foi insignificante. Extremamente desapontado, Prien
afastou-se, esperando ser avassalado com cargas de profundidade lançadas por
destróieres. Nada aconteceu. Espantado com a sorte que estava tendo, Prien
permaneceu na superfície, enquanto, dentro do submarino, seus homens
trabalhavam febrilmente para recarregar os tubos lança-torpedos da proa. À
01:16 h ele tornou a rumar para o Royal Oak e disparou uma segunda salva.
Desta vez o efeito foi espetacular. Uma gigantesca explosão lançou colunas de
água e nuvens de fumaça para o ar e destroços do couraçado começaram a cair
sobre o submarino. Treze minutos depois o Royal Oak emborcou e afundou, com a
perda de 24 oficiais e - 809 homens. Já então, toda a baía parecia fervilhar de barcos à procura do
invasor. Prien ordenou a seus engenheiros que fizessem os motores trabalhar
com a máxima potência possível e, a toda velocidade, rumou para Kirk Sound,
deixando atrás de si um rasto de espuma branca que Prien tinha certeza não
deixaria de ser observado. Com efeito, um destróier rumou veloz na sua
direção, varrendo as águas com seus holofotes; Prien estava certo de que
chegara o fim. Então, inexplicavelmente, o destróier afastou-se e lançou
cargas de profundidade muito atrás do submarino, que continuou afastando-se,
mantendo-se bem junto da costa, onde a visão de sua superestrutura se perdia
contra o fundo escuro da terra. Pela estrada costeira, um veículo
movimentou-se a grande velocidade, parou, piscou seus faróis como que fazendo
um sinal e depois fez a curva, partindo na direção contrária. Ainda avançando o mais rápido que podiam, com os motores
elétricos funcionando juntamente com os diesel, para obter a mais alta
velocidade possível, eles lutaram contra a forte maré e tornaram a alcançar o
Kirk Sound. Desta vez, também com infinito cuidado e muita habilidade, Prien
manobrou por entre um navio-obstáculo e o molhe de madeira que havia no lado
sul da passagem e, finalmente, desapareceu. Como se veio a saber, Prien fizera bem em executar a missão
naquela noite, pois no dia seguinte outro velho navio, também destinado a ser
afundado ao lado dos que já se encontravam em Kirk Sound, chegou a Scapa
Flow. Se ele tivesse tomado posição um dia antes, é de duvidar que Prien
pudesse ter conseguido entrar e sair por aquele canal. Entrementes, a
esquadra britânica foi apressadamente transferida para ancoradouros
alternativos, ao mesmo tempo que se reforçavam as defesas contra futuras
incursões de submarinos. O Grande Almirante Raeder aguardava a chegada do submarino à sua
base. Agradecido, ele conferiu a Prien a Cruz de Ferro de Primeira Classe e
todos os demais membros da tripulação receberam a mesma condecoração, de
Segunda Classe. Também Doenitz recebeu seus lauréis. O almirante
transmitiu-lhe a notícia de sua promoção de Kommodore para Contra-Almirante e
da sua nomeação oficial para o posto de Comandante da Arma de Submarinos (Befehlshaber
der U Boote ou BdU). Naquele mesmo dia, toda a tripulação foi conduzida, de
avião, a Berlim, para uma audiência com Hitler. Eram heróis nacionais; haviam
penetrado em Scapa Flow, afundado uma unidade importante da Marinha Real e
escapado. Naquele mesmo local, lembravam-se os alemães, a esquadra germânica
fora posta a pique no fim da Primeira Guerra Mundial. Ataque aos comboios
Os sucessos contra as belonaves da Marinha Real, por certo,
foram espetaculares. De importância pelo menos igual, no contexto geral da
guerra, foram as operações contra os navios mercantes Aliados, durante as
quais os comandantes dos submarinos trabalharam sem a publicidade que as
façanhas de Prien, Schuhardt e Lemp ganharam. Em vez do elogio e dos
aplausos, a recompensa era a certeza de que cada navio que afundavam era uma
contribuição para a demorada e lenta tarefa de subjugar os inimigos da
Alemanha. Após a relativa paz e segurança do período de treinamento, as
tripulações de submarinos começavam a sentir o que significava estar em
guerra, o que era ser alvo dos ataques de cargas de profundidade lançadas por
um destróier de escolta. O Tenente-Comandante Schultze, que, no U-48, foi agraciado com a
Cruz de Ferro de Cavaleiro, como o primeiro comandante a afundar 100.000
toneladas de navios inimigos, esteve entre aqueles que mais cedo serviram de
alvo para o peso de um ataque. Numa operação contra dois cargueiros que
navegavam sob escolta, ele torpedeou e afundou um deles e fez um mergulho de
emergência, para escapar ao destróier que vinha veloz á sua procura. Depois
de ficar silencioso por meia hora, evadindo-se ao destróier, subiu até a
altura de usar o periscópio e, depois, à superfície, quando então avistou o
alvo perfeito - um comboio inteiro. Em poucos minutos ele traçou seu rumo e
estava pronto para submergir para o ataque quando um aerobote Sunderland
apareceu, voando na sua direção. Schultze, que, como comandante, era sempre o último homem á deixar
a ponte, saltou para dentro da escotilha e deu a ordem de mergulhar. Quando a
água do mar foi penetrando os tanques de lastro, expelindo o ar, o submarino
começou a descer. A proa inclinou-se, e, para ajudar o barco, todos os homens
disponíveis correram pela estreita passagem central e se amontoaram na proa,
bem contra os tubos lança-torpedos. A concentração do peso aumentou a
inclinação descendente do submarino. Quando as ondas se fecharam sobre a
parte superior da superestrutura, as primeiras quatro explosões soaram. A
proa afundou ainda mais e a tripulação amontoada ali não tinha. como saber se
as bombas do Sunderland o haviam desgovernado. Tudo indicava, entretanto, a
um exame rapidamente feito, que o submarino escapara também a este ataque. Aí
então outro som foi captado, o ronco das máquinas do destróier que passava
próximo, seguido do som que injetava o medo até mesmo no coração da mais
valente tripulação de submarino - o "ping" contra o casco, que
significava que o destróier o descobrira com seu "asdic". A primeira carga de profundidade não demorou a cair e o
submarino agitou-se ao impacto do estrondo. Veio outra, mais perto que a
primeira, e uma vez mais a belonave rangeu sob as ondas. Schultze fez descer
um pouco mais o submarino, alterou ligeiramente seu rumo e avançou devagar,
usando os motores elétricos com moderação, para manter o máximo silêncio.
Durante 20 minutos nada aconteceu e eles ficaram imaginando se teriam ou não
escapado. Não demorou a ouvir-se nova e fortíssima trovoada: três cargas de
profundidade explodiram ainda mais perto deles, destruindo o medidor de
profundidade e o equipamento de telegrafia. Mas o casco de pressão resistiu. Schultze decidiu mergulhar
ainda mais, até o leito do mar, onde o submarino bateu e ficou parado, com os
motores e praticamente todo o equipamento auxiliar desligados, para reduzir
ao mínimo qualquer ruído que pudesse revelar a sua presença. Os caçadores não
haviam, porém, perdido contato. A tripulação do submarino ouvia as máquinas
do destróier que o tentava localizar com precisão, passando por eles de
quando em quando, até que outro grupo de carga de profundidade mergulhou na
sua direção. As pias de porcelana e os pedestais dos lavatórios
despedaçaram-se, lâmpadas estouraram com o choque e, na torre de comando, o
indicador de revoluções foi destruído. Uma vez mais, o silêncio. Schultze esperou, no fundo do mar, até que a chegada da noite
pusesse na superfície um escuro fechado. Trouxe então seu barco à
profundidade de 60 metros e avançou 3 km, na esperança quase irrealizável de
emergir num trecho livre de perigo. Mas aconteceu que o "trecho
livre" estava repleto de vasos de escolta, 24 ao todo, e ele emergiu bem
no meio da fogueira. Ainda à sua procura, os navios de superfície avançavam
lentamente, parando para sondar com seus "asdics" e prosseguindo.
Ele rumou para a brecha maior que podia ver, com menos de mil metros de
largura, e, ainda usando os motores elétricos, em lugar dos barulhentos
motores diesel de superfície e controlando manualmente o leme, Schultze tirou
o U-48, imperceptivelmente, da confusão em que se encontrava. "Contato rompido na superfície", anotou ele,
reservadamente, em seu diário de guerra, para acrescentar, a seguir,
triunfante: "Escapei!" Façanhas como a do U-48, embora algumas não encontrassem final
tão feliz, eram comuns durante os primeiros meses da guerra, mas o tributo
por eles cobrado, em termos de navios mercantes inimigos, compensava todos os
temores e todos os danos, e até mesmo todas as perdas em submarinos. Em setembro
de 1939 eles afundaram 41 navios, num total de 153.000 toneladas; em outubro,
27 navios, com 135.000 toneladas. Em novembro os índices conseguidos pelos
submarinos caíram abruptamente para 21 navios e 52.000 toneladas e, em
dezembro, permaneceram relativamente baixos, com 25 navios e 81.000
toneladas. A razão do decréscimo, depois do primeiro mês, estava na
previsão de Doenitz, que não esperava ter mais de um terço da frota de
submersível permanentemente em ação. Tendo, no início das operações, 23 submarinos
em ação, natural que se viesse a esgotar, depois de atividade tão intensa, o
estoque de torpedos e de suprimentos imprescindíveis à manutenção da frota em
alto-mar, obrigando a um processo de reabastecimento que inevitavelmente
retirou da área de operações a quantidade prevista de submarinos. Daí a queda
dos índices de afundamentos inicialmente conseguidos. Em janeiro os afundamentos recrudesceram, perdendo-se 40 navios,
111.000 toneladas, naquele mês e 45 navios, 170.000 toneladas, em fevereiro. Então, a 4 de março, quando a atividade dos submarinos tomava
impulso novamente, emitiu-se uma ordem, de todo inexplicável, impedindo que
outros submarinos zarpassem e restringindo as atividades dos que já estavam
nas vizinhanças da costa norueguesa. Somente no dia seguinte é que Doenitz
foi informado da razão dessa ordem. Haveria desembarques simultâneos na
Noruega e Dinamarca e aos submarinos caberia a proteção desses desembarques
contra possíveis contramedidas aliadas. Recorrendo a submarinos da sua escola de treinamento e reduzindo
o prazo de experiência de duas novas unidades, Doenitz pôde reunir uma força
de 31 submersíveis para começar a operação. Com isso, as atividades dos
submarinos, durante toda a campanha norueguesa, limitaram-se quase que exclusivamente
à tarefa de reconhecimento e transporte - que afinal pouco tinha que ver com
a finalidade para a qual haviam sido projetados! Mas a campanha pelo menos teve seu valor para a arma submarina,
mostrando, por um custo reduzido, uma deficiência que em outras
circunstâncias - contra comboios fortemente escoltados, por exemplo - poderia
ter custado muito caro. Os submarinos haviam desfechado 36 ataques,
principalmente contra transportes britânicos, mas seus torpedos os traíram,
sendo total o fracasso. O próprio Prien, no U-47, avistou seis transportes de
até 30.000 toneladas cada um, e que estavam desembarcando soldados
britânicos, na noite de 15 de abril, nas águas limitadas de Bygdenfiord.
Entre 22:00 e 23:00 h ele disparou quatro torpedos, a distâncias entre 1.300
m e 650 m, contra uma linha de transportes e destróieres que, da posição em
que se encontrava, formavam uma sólida muralha de alvos à sua frente. Parecia
impossível errar, mas nenhum dos torpedos explodiu e os britânicos sequer
foram alertados quanto à sua presença. Prien recarregou e desfechou outro
ataque, pouco depois da meia-noite. Prien e seu primeiro-tenente fizeram um
exame minucioso dos ajustes de todos os torpedos, armando-os, como no
primeiro ataque, para profundidades de 3,60 m a 4,50 m. Desta vez um torpedo
explodiu, mas foi contra um rochedo, após ter-se desviado do rumo.
Evidentemente ele não causou o menor dano ao inimigo, mas alertou-os quanto à
presença de submarino e, daí por diante, Prien passou por grandes aperturas.
Primeiro, ao se afastar, ele encalhou e só com extrema dificuldade é que pôde
fazê-lo flutuar novamente. Então os destróieres o atacaram, submetendo-o a um
assalto de cargas de profundidade. Suas máquinas foram danificadas, mas ele
conseguiu esgueirar-se dali. Tendo escapado daquele aperto, três dias depois Prien encontrou
o couraçado Warspite e o atacou com dois torpedos, à distância de apenas 800
m. Uma vez mais eles erraram o alvo. Um dos torpedos só explodiu depois de
desviar-se do rumo, no fim da sua corrida. Com isso, os destróieres foram
alertados, avançando contra o U-47 de todas as direções, colocando Prien numa
situação que ele descreveu, discretamente, como "muito
desagradável", mas tornou a escapar. A 20 de abril, Prien entrou em
contato com um terceiro alvo, desta vez um comboio que rumava para o norte,
e, embora pudesse tê-lo atacado facilmente, ele não o fez, por haver perdido
a confiança nos seus torpedos, o que não era de espantar. Ao retornar à base,
ele queixou-se, justificadamente, de que não podia combater com um fuzil de
brinquedo. Os fracassos de Prien eram sintomáticos de uma grave deficiência
geral no desempenho dos torpedos durante os primeiros meses da guerra. Logo
no começo do conflito, o Tenente-Comandante Zahn, do U-56, encontrara os couraçados
Rodney, Nelson e Hood e mais 10 destróieres. A operação realizada, com grande
arrojo, contra essas belonaves fortemente escoltadas, que poderia ter sido um
tremendo sucesso, foi um fracasso total. Zahn disparou três torpedos, num
ataque submerso, e chegou a ouvir as três batidas quando eles atingiram o
Nelson, mas nenhum deles explodiu. O desapontamento de tal forma abalou Zahn,
que ele teve de ser retirado do serviço ativo durante algum tempo,
tornando-se instrutor na escola de submarinos. Pelo final da campanha norueguesa o índice de falhas atingira
tais proporções, que chegou a ser instaurado inquérito para investigar suas
causas. Sabia-se que alguns falhavam porque sua ignição magnética enguiçava
misteriosamente nas águas setentrionais ao largo da Escandinávia, talvez
devido à grande quantidade de minério de ferro existente na região. Mas Prien
ataura com torpedos dotados de disparador de contato, e não era de supor que
tivessem ido fundo demais. Tudo indicava que os submarinos não tinham uma
arma eficaz. A 20 de abril, a Comissão de Torpedos iniciou a investigação do
problema. Testes exaustivamente feitos revelaram várias falhas, além das já
conhecidas. Em alguns casos, o percussor não disparara a carga. Em outros, à
carga inicial explodira direito mas não conseguira detonar a carga principal.
Em outros, ainda, parecia que o torpedo atingira o alvo num ângulo muito
agudo, por isso não detonando, o que pode muito bem ter acontecido no caso do
malogrado assalto de Zahn ao Nelson. Como resultado da investigação, a partir
de junho de 1940 só eram distribuídos torpedos com percussão de contato,
abandonando-se temporariamente os torpedos magnéticos. Mas, como não houvesse
disponibilidade imediata de torpedos de contato de modelo melhorado, os comandantes
de submarino ficaram muito limitados na tarefa de afundamento. Em vários
ataques, desfechados nos meses seguintes, eles se viram obrigados a disparar
mais de um torpedo contra um só barco, quando normalmente apenas um era
despachado. Análise subseqüente dos tiros certeiros dos submarinos mostrou
que apenas 40% dos navios tinham sido afundados com um só torpedo.
Percentagem quase igual exigira dois torpedos para afundar e mais de um
quinto teve de ser alvejado com até quatro torpedos. Assim, no caminho de
volta à base os submarinos vinham encontrando navios mercantes contra os
quais nada podiam fazer, por estarem sem munição. Começa a Batalha do Atlântico Após a campanha norueguesa, a maioria dos submarinos precisava
de reparos e reaparelhamento. Vários tiveram de ser retirados do serviço
ativo, para funcionar na escola de submarinos como vasos de treinamento para
os recrutas da arma submarina, pois esta não parava de crescer. Somente em
junho de 1940 é que entrou em disponibilidade bom número de submarinos para
operações contra os navios mercantes inimigos. A princípio suas atividades limitaram-se às águas costeiras em
torno das Ilhas Britânicas, sobretudo na extremidade ocidental do Canal da
Mancha, mas a ocupação da França, em junho, deu aos alemães várias bases na
costa atlântica, no Golfo de Biscaia: Lorient, St: Nazaire, Brest, La Pallice
e Bordéus. Os oficiais da arma submarina compreenderam perfeitamente a enorme
importância desses portos. Seus submarinos não desperdiçariam tempo e combustível
no cruzamento de grandes áreas desertas para atingir as rotas de navegação,
como também, com a redução, em 700 km, da distância das bases alemães às
áreas de operação, poderiam penetrar mais profundamente no Atlântico, indo
além dos limites cobertos pelas escoltas anti-submarinas. Nessa época, os
destróieres só iam até 15 graus a oeste com um comboio que tomasse aquela
direção, voltando desse ponto, com outro comboio, ao leste, cobrindo-lhe os
últimos estágios da jornada. Mais tarde os Aliados ampliaram esta cobertura,
avançando o ponto de encontro dos dois comboios mais para dentro do oceano,
para 17 graus a oeste em julho de 1940 e 19 graus a oeste em outubro do mesmo
ano. Assim, o conflito afastou-se das águas costeiras, mudando-se para as
solitárias vastidões oceânicas. Com o correr do tempo, esse conflito
tornou-se conhecido como a Batalha do Atlântico. Naquele verão de 1940, os submarinos, tendo de enfrentar apenas
escoltas fracas ou nenhuma escolta, puderam aplicar a tática que Doenitz há
muito defendia, de ataques noturnos desfechados na superfície. Desse modo, os
"asdics" eram quase impotentes para encontrá-los e a grande
velocidade de superfície que deslocavam, usando os motores diesel, tornavam
os submarinos superiores a muitos dos inadequados vasos de escolta à
disposição dos Aliados na época. Além disso, à noite, nas vastidões do
Atlântico, sua superestrutura, muito baixa, como que se fundia completamente
com a escuridão do oceano, sem interromper o horizonte. Somente num golpe de
sorte o vigia do destróier, com um holofote, descobria a sua posição. Por
outro lado, para os comandantes dos submarinos, a elevada estrutura de um
petroleiro ou cargueiro silhuetava-se nitidamente contra o fundo do céu
noturno, proporcionando-lhes um alvo perfeito. Quando os comandantes de
submarino, percebendo a capacidade das escoltas, sentiram que as
circunstâncias lhes eram totalmente favoráveis, passaram a agir com audácia
sem precedentes. Penetravam freqüentemente as fileiras centrais do próprio
comboio e atiravam contra o alvo escolhido quase à queima-roupa. Com o número de afundamentos crescendo, este foi o verão em que
os famosos "ases" dos submarinos granjearam enorme reputação -
Endrass no U-46, Kretschmer no U-99, Schepke no U-100, Frauenheim no U-101 e,
naturalmente, Prien no U-47, que estava sempre no local da luta. Em junho, Prien foi particularmente ativo, operando sobretudo
sozinho. O que conseguiu registrar numa única viagem mostra como os
submarinos levavam decisiva vantagem. A 14 daquele mês ele avistou, pelo
periscópio, um comboio de 42 navios, em sete colunas de seis vasos, cada uma
com apenas cinco destróieres de escolta. Mas, velozes demais para que pudesse
alcançá-los, Prien perdeu contato. Foi então que um navio desgarrado apareceu
- e só foi preciso um torpedo para afundar o Balmoral Wood, com sua carga de
asas e fuselagens de avião. Um dia inteiro se passou sem que ele avistasse
coisa alguma; então, na manhã seguinte, apareceu um comboio de 20 navios,
fortemente escoltado e com um aerobote Sunderland sobrevoando atentamente as
águas das imediações. Prien atacou ao anoitecer. Mandou disparar um torpedo e, antes
que este atingisse o alvo, disparou outro contra o segundo alvo escolhido.
Então, seu oficial encarregado dos torpedos perdeu o equilíbrio e se agarrou
na alavanca de disparo para segurar-se e um terceiro torpedo partiu
acidentalmente do tubo. O resultado foram três navios afundados. Alguns dias
depois ele meteu a pique um petroleiro e, depois, outro, até ficar sem
torpedos e ser obrigado a retornar à base, para reequipar o submarino e dar
um descanso à tripulação antes de zarpar novamente. A 17 de agosto, antes da viagem seguinte, Hitler facilitou as
coisas, ordenando o bloqueio total das Ilhas Britânicas e dando aos
submarinos a liberdade de afundar quaisquer navios mercantes, ainda que
neutros. Isto representou o fim da luta realizada segundo os
"regulamentos de presa". Na manhã de 19 de outubro, Prien entrou em
contato com outro comboio, o HX79, a caminho da Grã-Bretanha, e chamou mais
quatro submarinos para o ataque - U-38, U-46, U-48 e o U-100. Naquela noite
eles puseram a pique nada menos de 14 navios e não demoraram a encontrar
outro comboio, afundando mais 7 barcos. Com 17 navios afundados por outra
"alcatéia" de seis submarinos; na noite anterior, 38 navios,
totalizando cerca de 325.000 toneladas, foram afundados em dois dias. Já
então Prien se tornara o mais bem sucedido dos comandantes de submarino, e,
como o primeiro a atingir a marca das 100.000 toneladas afundadas, recebeu a
mais alta condecoração possível, recém-instituída, as "Folhas de
Carvalho" da Cruz de Ferro de Cavaleiro. A quantidade de navios mercantes perdidos durante aquele verão
triunfal atingiu proporções espantosas: em junho, 58 navios, 284.000
toneladas; em julho, 38 navios, 196.000 toneladas; em agosto, 56 navios,
268.000 toneladas; em setembro, 59, com 295.000 toneladas e, em outubro, à
medida que as façanhas dos submarinos alemães atingiam extensão
impressionante, 68 navios, com 352.000 toneladas, tudo isto com a perda de
apenas 6 submarinos. Não é de estranhar que os meses de junho a outubro de
1940 fossem chamados pelos comandantes de submarinos como os seus
"tempos felizes". Excetuando as enormes quantidades de navios mercantes afundados,
este período se notabilizou pela consagração dos princípios que Doenitz
desenvolvera com base na experiência que recolheu na Primeira Guerra Mundial:
de que os submarinos obteriam o maior sucesso atuando em grupos. E durante
todo o conflito a atuação dos submarinos se concentrou nesse método,
suficientemente ampliado e desenvolvido, transformando-se na tática
extremamente eficaz da "alcatéia". Entrando em contato com um
comboio, e o vigiando enquanto resistia à tentação de atacá-lo sozinho, um
submarino convocava os que estivessem nas vizinhanças para o ataque em massa
e, juntos, eles infligiam perdas desproporcionais à sua força numérica.
Vários submarinos, atacando juntos, faziam os vasos de escolta irem além dos
seus limitados recursos, porque, enquanto os escoltas procuravam furiosamente
um submarino, os outros podiam frustrar seus esforços atacando do outro lado
do comboio, ou mesmo de dentro das colunas deste. Além disso, os comandantes
de submarinos não demoraram a compreender que tão logo um barco era afundado,
pelo menos um escolta era obrigado e ficar para trás, para recolher os
sobreviventes, facilitando ainda mais a tarefa dos submarinos. Ou,
alternativamente, um dos navios mercantes se incumbia do socorro aos
náufragos, transformando-se em outra vítima dos submarinos à espreita. Para manter o fluxo constante de informações e comunicações
entre os submarinos e a base, essencial para conservar a arma em sua máxima
eficiência, Doenitz instalou uma "sala de situações" em seu Q-G na
França. Ali, todas as informações possíveis sobre os movimentos de navios
inimigos eram traduzidas na forma de mapas murais. Outros mapas mostravam os
dados pertinentes à navegação, como o estado das marés, condições
atmosféricas e detalhes dos diferentes fusos horários. Com este quadro completo
da situação no mar, Doenitz podia mudar suas "alcatéias" para a
melhor posição possível em que poderiam interceptar os comboios. "Tempo feliz" era a denominação adequada para aquele
verão, que se fez tão profícuo com apenas 57 submarinos permanentemente em
serviço. O que não teria acontecido se Doenitz tivesse recebido os 300
submarinos que havia solicitado! Crescem os problemas: Inverno de 1941 Inevitavelmente, os tempos felizes chegaram ao fim. Nos meses decorridos desde novembro de 1940, tornou-se
necessário muito trabalho de reequipamento. Reduzindo-se drasticamente o
número de barcos disponíveis para operações, diminuiu também o volume dos
afundamentos, que em novembro, por exemplo, caiu para 32 navios, com 147.000
toneladas. Além disso, vários outros fatores combinaram-se para esvaziar a
eficiência dos poucos submarinos que ainda estavam operando. Um desses
fatores foi a mudança do tempo. Naquele ano, a chegada do outono fez do
Atlântico um mar excepcionalmente tempestuoso, e, à medida que o tempo
piorava, os pequenos submarinos eram jogados para lá e para cá, pela agitação
das ondas, como se fossem barris. As águas, erguendo-se acima das torres de
comando, faziam que oficiais e marinheiros de vigia na ponte se amarrassem ao
barco para não ser por elas arrastados. A conjugação desses fatores viria
inevitavelmente a influir na visão dos vigias, dificultando ainda mais a sua
tarefa. Também por isso, foi-se tornando cada vez mais raro avistar um comboio. Em fins de 1940, diminuindo a ameaça de invasão das Ilhas
Britânicas, muitos dos navios por ela retidos foram liberados para
desempenhar um papel cada vez mais importante na proteção dos comboios no
Atlântico, o que obrigou os submarinos a avançar ainda mais para as vastidões
oceânicas, onde os comboios eram bem menos protegidos. Assim, com áreas
maiores para vasculhar, a incidência de comboios avistados diminuiu ainda
mais. Durante todo o mês de dezembro, só um comboio foi encontrado, e, num
ataque noturno de superfície, Schultze, Kretschmer e dois outros torpedearam
e afundaram 10 navios mercantes e mais o cruzador armado Forfar. Porém, por
mais impressionantes que sejam os resultados desse ataque, apenas um comboio
avistado estava longe de ser o que se esperava. Unicamente os encontros fortuitos de navios viajando
desacompanhados mantiveram o desempenho dos submarinos, no mês de dezembro,
no nível de 37 navios, com 213.000 toneladas. As forças de escolta também foram aumentadas pela aquisição, aos
Estados Unidos, de 50 velhos destróieres, em troca do uso de bases nos
territórios britânicos das Índias Ocidentais e Guianas por aquele país. Além
disso, os britânicos estabeleceram uma melhor cooperação entre a marinha e a
força aérea, com o objetivo de dar aos comboios proteção dos aviões,
sobretudo dos aerobotes Sunderland do Comando Costeiro. Com suas cargas de
profundidade aerotransportadas, eles podiam obrigar um submarino em contato
com um comboio a submergir, o que não só reduzia a sua velocidade como também
o "cegava". Se o avião conservasse o submarino submerso por tempo
suficiente, seria possível alterar o rumo do comboio para que se perdesse o
contato. A 4 de dezembro, o Almirantado recebeu ordens de assumir o
controle operacional do Comando Costeiro da RAF e, embora este continuasse
vinculado à Real Força Aérea, o Almirantado pelo menos ganhou o poder de
influir no estabelecimento do número de aviões a ser usados e, com isso, a
proteção aérea dos comboios melhorou muito nos primeiros dias de 1941. O Almirante Doenitz, ao contrário, estava tendo sérias
dificuldades em obter qualquer cooperação da Luftwaffe. Antes da guerra, o
Grande Almirante Raeder tivera demoradas e amargas discussões com Goering
sobre a necessidade da marinha de possuir uma arma aeronaval integrada e
independente da Força Aérea alemã e perdera. Agora que a guerra era uma
realidade, Doenitz via com toda a clareza a desvantagem de seus submarinos
não contarem com um bom elemento de reconhecimento. Projetados
especificamente para ficar achaparrados na água, ao submarino não se abre um
campo de visão muito amplo, mesmo com a colocação de um vigia, armado de
binóculo, no mais alto ponto da torre de comando. E sem reconhecimento aéreo
capaz de vasculhar grandes áreas e dirigir as "alcatéias" para um
comboio avistado, os submarinos estavam inevitavelmente condenados a esperar,
às vezes semanas a fio, até que um comboio passasse fortuitamente pelo seu
caminho. Em dezembro de 1940, Doenitz enviou um memorando ao Alto-Comando
Naval justificando pormenorizadamente a necessidade de reconhecimento aéreo
organizado e sob o controle específico da arma submarina. A 2 de janeiro de
1941, Doenitz avistou-se com Raeder em Berlim e entrou em detalhes sobre o
memorando. Raeder, que sobre o assunto tinha a mesma opinião, arranjou uma
entrevista para Doenitz com o Chefe do Estado-Maior do Q-G Supremo, General
Jodl. Este também ficou profundamente impressionado com a força dos
argumentos de Doenitz e passou a mensagem para Hitler, o que deixou Doenitz
muito satisfeito. A 7 de janeiro, Hitler ordenou pessoalmente que um grupo de
aviões Focke-Wu Kondor de longo alcance, estacionados em Bordéus, fosse
retirado da força aérea de Goering e entregue à arma submarina. Todas essas negociações ocorreram sem o conhecimento de Goering,
que na época estava numa caçada, mas ele soube da medida tão logo retornou. O
choque parecia inevitável. A 7 de fevereiro Goering convidou Doenitz a
visitá-lo em seu trem Q-G, no qual estava viajando perto do posto de comando
francês de Doenitz, e onde este se recusou a cumpliciar-se com Goering para
rescindir a ordem, não aceitou um convite para jantar e partiu no mais gélido
dos ambientes. Os aviões que Doenitz esperava que entrassem em ação
imediatamente, dirigindo os submarinos para os comboios, mostraram-se muito
inferiores às exigências da tarefa. De alcance inadequado e número
insuficiente para cobrir grandes áreas numa busca organizada, sua habilidade
de navegação era tão errada que os submarinos não conseguiam encontrar um comboio
mesmo quando grandes números deles convergiam e saturavam a área onde,
segundo os aviões, o comboio se encontrava. Ironicamente, o primeiro exemplo
de cooperação entre os aviões e os submarinos ocorreu quando o U-37 encontrou
um comboio que rumava para a Grã-Bretanha, vindo de Gibraltar, e, com sinais
de rádio de ondas longas, dirigiu os aviões a 240 km de distância do local em
que se encontrava o comboio, para que eles desfechassem bem sucedido
bombardeio. Era a inversão exata da maneira como se deveria verificar a
cooperação entre as duas armas. Passaram-se muitos meses para que a
experiência e o treinamento pusessem as tripulações dos aviões em ponto de
bala para o desempenho de um papel completo e realmente útil nas operações da
arma submarina. Os desenvolvimentos conseguidos no campo da técnica também
serviram para reduzir a vantagem dos submarinos sobre os escoltas. Em
primeiro lugar, os britânicos desenvolveram um radiogoniômetro preciso que se
opunha à eficiência da tática da "alcatéia". Receptores situados em
terra e em navios, em alto-mar, podiam captar e localizar com precisão os
sinais enviados por um submarino chamando outros ao local e os escoltas
partiam a atacá-los muito antes que eles chegassem ao local, obrigando-os a
mergulhar e a, pelo menos, interromper o contato; quando não os afundavam. Ao fazer pleno uso dos sinais assim captados, e de quaisquer
outras informações, os britânicos opunham à "sala de situações" de
Doenitz a "sala de rastreamento de submarinos" do Almirantado, em Londres.
Ali, toda e qualquer informação era incorporada aos gráficos e mapas, todos
continuamente atualizados, para que se tivesse sempre um quadro completo das
posições das "alcatéias" e dos prováveis movimentos de submarinos
isolados. Então, se um comboio estivesse rumando para local perigoso,
alterava-se rapidamente a sua rota para frustrar o esforço alemão. No importantíssimo campo do radar, uma comparação entre as
experiências britânica e alemã também mostra como eram diferentes em seu espírito
de iniciativa. Quando as manifestações desse fato sé acumularam, devem ter-se
constituído num fator crítico do resultado eventual da guerra. Em janeiro de
1941 o primeiro de um novo tipo de aparelho de radar, menor e menos
complicado que seus predecessores, foi instalado nos aviões do Comando
Costeiro e em alguns dos vasos de escolta. Assim os aviões podiam colaborar
na caça aos submarinos à noite, quando se fazia a maior parte dos ataques,
bem como durante o dia. Os vasos de escolta foram beneficiados porque
passaram a contar com um meio de localizar um submarino na superfície, quando
ficava imune aos sinais do "asdic", podendo então abalroá-lo ou
obrigá-lo a submergir, quando então podia ser novamente captado pelo
"asdic" e ser atacado com cargas de profundidade. Assim, enquanto os britânicos exploravam os desenvolvimentos
técnicos aplicados à guerra, os alemães iam ficando para trás. Desde 1935 a
Alemanha possuía aparelhos de radar no comprimento de onda de meio metro, mas
os cientistas alemães eram excessivamente céticos quanto às vantagens do seu
aperfeiçoamento e não conseguiram explorar as possibilidades de um aparelho
de radar de ondas curtas. Então, em 1940 e 1941, o próprio Hitler agravara o
efeito desse erro suspendendo todos os desenvolvimentos no campo do radar e,
quando o progresso britânico se tornou evidente, já os alemães haviam sido
completamente surpreendidos e lhes seria difícil alcançá-lo. No começo de 1941 já os britânicos faziam o melhor uso possível do radar, quando iniciaram as patrulhas aéreas de bases localizadas na Islândia, que havia sido ocupada no ano anterior. Este foi o primeiro estágio do processo que os Aliados consideravam um dos objetivos mais importantes, o fechamento do "espaço aéreo vazio" - a área situada entre os limites alcançados pelos aviões de bases terrestres, em ambos os lados do Atlântico, e onde os submarinos levavam vantagem. Idêntico "espaço aéreo vazio" existia na região dos Açores e das Canárias, onde os comboios que rumavam para o norte, vindos de Serra Leoa e Gibraltar, ficavam além dos limites da cobertura aérea. Passo a passo, à medida que entrava em serviço maior quantidade de aviões de longo alcance, os Aliados foram reduzindo esses espaços vazios e, com isso, tornando as operações dos submarinos correspondentement |