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A luta pelo domínio das rotas oceânicas vitais travou-se entre a terrível "Arma Invisível" e os aviões e navios de superfície. Isoladamente como solitários tigres assassinos, ou formando verdadeiras alcatéias de lobos esfaimados, os submarinos alemães semearam o terror e a destruição por todo o Atlântico, e, como na Grande Guerra anterior, quase arrebataram a vitória. A guerra sob o
mar
Na parede de um escritório situado no Arco do Almirantado, em Londres,
durante anos esteve exposto um gráfico chamado "Diagrama Cronológico dos
Acontecimentos Principais, 1939-1945". Esse documento, por todos os
títulos impressionante, mostra, lado a lado, em azul, as perdas trimestrais
de navios mercantes Aliados, em milhares de toneladas, e, em vermelho, as
perdas de submarinos alemães. Durante a primeira metade da guerra, as colunas
azuis esticavam-se cada vez mais, com dolorosa e trágica regularidade,
enquanto que, ao seu lado, as pequenas colunas vermelhas apenas muito
vacilantemente se alteravam. De repente, porém, entre março e junho de 1943, dá-se uma
mudança extraordinária, uma inversão completa de um trimestre para outro. Daí
em diante, a coluna em vermelho se avoluma e desliza rapidamente para a
extremidade do gráfico, enquanto que a coluna em azul se encolhe cada vez
mais, até que, por fim, desaparece de todo. Neste livro, David Mason revestiu, com uma prosa de grande
lucidez, o esqueleto daquele gráfico, narrando uma história intricada e
fascinante que vai do momento em que, em 1935, o então Capitão Karl Doenitz
foi chamado pelo Almirante Erich Raeder para assumir a direção dos trabalhos
de reforma por que passaria a arma submarina alemã, até o seu amargo final,
reduzida a destroços nos abrigos de submarino dos ancoradouros, de
Schleswig-Holstein a Bordeaux. E que história! Apesar de tudo quanto se fez, desde 1945, filmes, livros e
reportagens, para retratar nossos marinheiros mercantes como homens rudes e
valentes, e seus inimigos, os tripulantes dos submarinos, como frios
criminosos, todos nós, mesmo os mais impressionáveis, nunca deixamos de
reconhecer que os submarinos, "nossos" ou "deles", são
tripulados por homens valentes, de um moral elevadíssimo e um domínio técnico
que se impõem à nossa admiração. Isto é válido para a arma submarina de então, assim como o é,
hoje em dia, para os americanos e britânicos que tripulam os submarinos
nucleares - como os leitores desta excelente narrativa terão oportunidade de
constatar. Mesmo no fim, já com seu raio de ação desesperadamente limitado
pela falta de combustível e com a pátria em franco processo de
desmoronamento, as tripulações dos submarinos germânicos ansiavam por ação.
Aí por volta de 1945 as técnicas da guerra submarina eram já muito diferentes
das usadas no primeiro inverno da guerra, quando o Tenente Gunther Prien
levara seu pequenino U-47 até Scapa Flow e afundara o Royal Oak. Sofisticando-se a técnica da guerra submarina, o emprego do
submersível começou a exigir a presença, atrás de um periscópio, de homens de
elevado nível de conhecimento, engenheiro, cientista etc., como agora. Uma
virtude do livro de David Mason é que ele inclui no texto a maior parte do
conhecimento necessário para que o leitor compreenda a história. A guerra submarina foi um aspecto vitalmente importante do
gigantesco conflito conhecido como a Segunda Guerra Mundial, pois, mais do
que qualquer outra arma do vasto arsenal nazista, ela esteve muito perto de
dar a vitória a Hitler. Este livro faz plena justiça ao seu tema e aos homens
que combateram sob as ondas. |
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Constrói-se a frota No dia 4 de outubro de 1918, de manhã bem cedo, durante ataque a
um comboio de navios mercantes que cruzava, poderosamente protegido, o
Mediterrâneo, um submarino desgovernou-se, aproou, e começou a mergulhar
verticalmente. Ele desceu ao nível perigoso de 60 m, depois passou dos 90 m
e, sob a imensa e crescente pressão, dois dos seus tanques de reserva de ar
explodiram. Para salvar a tripulação de morte certa e desnecessária, o
comandante abandonou toda e qualquer idéia de fugir ao inimigo, deu ordens
para que enchessem todos os tanques de ar restantes e pôs os motores a
funcionar á ré a toda a força para corrigir o mergulho. O submarino inverteu imediatamente o curso e, com os tanques
cheios de ar comprimido, subiu das profundezas como uma rolha e rompeu a
superfície bem na frente de um cruzador britânico e dos destróieres que o
acompanhavam. Atingido por uma barragem de artilharia, começou a fazer água,
mas, com o suprimento de ar comprimido esgotado, era impossível fazer outro
mergulho, não deixando ao comandante qualquer alternativa senão mandar
abandoná-lo. O engenheiro-chefe e seis outros tripulantes afundaram com ele
quando o puseram a pique, enquanto o restante da tripulação foi salvo por um destróier
e levado para a Ilha de Malta. Para o comandante, iniciaram-se os muitos meses de confinamento
em campos de prisioneiros britânicos e durante os quais ele teve oportunidade
de ponderar demoradamente sobre o futuro do submarino na guerra. E aplicou de
maneira excelente tudo o que pensou. Ao ser libertado, recebendo dos seus
superiores a certeza de que o submarino continuaria a ser parte integrante da
Marinha Alemã, ele tornou a ingressar nessa arma. Embora a garantia recebida
não fosse cumprida imediatamente, ele foi subindo de posto pelos 17 anos
seguintes, vindo a comandar o cruzador de batalha Emden. Então, no verão de
1935, o Grande Almirante Raeder o destituiu do comando desse barco e o
encarregou de uma tarefa que ele a princípio considerava um prêmio de
consolação, mas que se transformou na realização da grande ambição da sua
vida - comandar a nova arma submarina da reconstruída Marinha Alemã. Karl Doenitz era o nome desse oficial. Nos anos intermediários,
Doenitz se esquecera por completo do seu velho amor pelo submarino. Segundo
os termos do "Tratado de Versalhes", a Alemanha estava proibida de
construí-los e Doenitz estabelecera totalmente a sua vida como marinheiro de
superfície. Mas, a 16 de março de 1935, o "Tratado de Versalhes"
foi repudiado, sendo, um mês depois, substituído pelo "Acordo Naval
Anglo-Germânico". Nos termos deste, a Alemanha se comprometia
espontaneamente a limitar os efetivos da sua Marinha em 35% dos da Marinha
Britânica, excetuando-se a arma submarina, que teria permissão de atingir ate
45% da capacidade britânica de submarinos e, em circunstâncias especiais,
depois de dar o devido aviso, em 100%, com restrições correspondentes nos
efetivos dos outros departamentos. O acordo sobre o tamanho potencial da arma submarina não se
baseava em qualquer motivo altruísta por parte dos britânicos, nem envolvia
grande sacrifício deles. Eles próprios não viam muito futuro para o submarino
nas marinhas do mundo, sobretudo na sua. A tarefa principal da marinha
britânica, desenvolvida durante séculos de tradição, era a proteção das rotas
comerciais britânicas e a futura estratégia se baseava neste conceito. Este,
contudo, era um papel defensivo, para o qual o submarino, essencialmente arma
ofensiva, era de todo inadequado. Por conseguinte, os britânicos mantiveram
restrito o número de submarinos, contando, mesmo em 1939, com apenas 57
deles. A 18 de junho, o Acordo Naval Anglo-Germânico, assinado e
sacramentado, entrou em vigor. Dez dias depois, houve uma cerimônia nos estaleiros
de Kiel que mostrou que os engenheiros alemães não haviam perdido tempo desde
o término da Primeira Guerra Mundial. Era a entrada em serviço ativo do U-1.
Naqueles anos críticos, o núcleo da futura arma submarina fora formado de
maneira cuidadosa e sub-reptícia. Por exemplo, dois submarinos haviam sido
construídos para as marinhas finlandesa e turca, mas só lhes foram entregues
depois de "testes" minuciosos feitos por uma porção de jovens
oficialmente pertencentes à "Escola Anti-submarina". Depois desse
treinamento secreto, esses jovens tornaram-se a espinha dorsal da
recém-autorizada arma submarina. Durante o ano de 1934, vários galpões,
fortemente vigiados, foram construídos nos estaleiros de Kiel e foi de um
destes que, em junho do ano seguinte, saiu o primeiro dos submarinos já do
novo tipo. Seguiram-se outros, em rápida sucessão. Por volta de fins de
setembro já havia uma flotilha de nove submarinos. Doenitz, podendo começar do nada, atacou a sua nova tarefa com
prazer e entusiasmo. Nos 15 anos anteriores não existira nenhum submarino
alemão e os jovens que participaram do treinamento secreto eram crianças
quando a Primeira Guerra Mundial terminou. Pouquíssimos submarinistas haviam
permanecido na marinha após o término do primeiro grande conflito,
notadamente o Capitão Thedsen, que havia assumido o posto de Engenheiro de
Flotilha, de modo que Doenitz estava em condições de moldar suas tripulações
às suas táticas e diretrizes, pois a limitada experiência de operações que a
Primeira Guerra Mundial permitiu não estabelecera orientações específicas que
a recém-constituída arma submarina pudesse seguir, nem dela surgira qualquer
"manual de instrução" que Doenitz e seus homens pudessem obedecer.
Era por assim dizer total a liberdade de que dispunha para fixar idéias e
princípios em que se assentaria toda a estratégia da arma. Por exemplo, ele considerava que os submarinos teriam um efeito
mínimo se não pudessem operar em grupos. Esta foi uma das principais lições
que Doenitz recolhera da experiência vivida no fim da Primeira Guerra
Mundial. Naquela época, quando o esforço submarino alemão estava no apogeu,
em três meses da primavera de 1917 nada menos de 800 navios haviam sido
afundados, totalizando quase dois milhões de toneladas. Confrontado com esses
números verdadeiramente desastrosos, o Primeiro-Ministro Britânico, Lloyd
George, coagira o Almirantado a introduzir o sistema de comboio em
substituição à política então vigente, que permitia que os navios mercantes
zarpassem sozinhos. Lembrava-se Doenitz de que essa providência e o total
fracasso dos submarinos no tocante às comunicações e cooperação haviam
provocado drástica redução no número de navios afundados. Caso o inimigo
tornasse a recorrer ao sistema de comboio, Doenitz planejava dispor grupos de
submarinos numa ampla curva côncava, na qual o inimigo penetraria, como o
melhor método possível de operação. O primeiro submarino a avistar um inimigo
recuaria, manteria contato e comunicaria a posição do navio aos outros
submarinos da formação, que fechariam sobre o navio, pelos flancos e pela
retaguarda, como as mandíbulas de um gigantesco predador. À medida que seu
programa de treinamento se desenvolvia, Doenitz organizou, em 1937 e 1939,
amplos "jogos de guerra" no Mar do Norte, nos quais seu conceito de
tática submarina foi plenamente comprovado. Doenitz também ponderou muito sobre o tamanho do submarino que
queria e examinou o problema à luz das suas concepções sobre o papel que ao
submarino seria confiado na futura guerra, como unidade de uma "alcatéia"
especializada no ataque a navios mercantes viajando em comboio escoltado.
Reconhecidamente, um submarino grande tinha a vantagem da velocidade, maior
capacidade de torpedos, armamentos mais pesados para defesa própria, maior
alcance e mais conforto para a tripulação. Por outro lado, em favor dos
submarinos pequenos, Doenitz alinhava razões como maior maneabilidade,
rapidez de mergulho diante de uma emergência e melhor ocultamento na
superfície. Além disso, ele tinha também de levar em conta os termos do
"Acordo Naval Anglo-Germânico", que fixava a tonelagem total
permitida à arma submarina, mas não o número de unidades. Doenitz esposava a
opinião de que quatro submarinos pequenos eram uma força muito mais poderosa
que um só submarino quatro vezes maior, porque, em conjunto, poderiam cobrir
área bem maior do oceano e desfrutar de possibilidades melhores de encontrar
motivos para o ataque. Tendo levado em conta todos os fatores pertinentes,
Doenitz concluiu que o tamanho ótimo para a maioria dos componentes de sua
esquadra era de umas 500 toneladas, opinião inteiramente confirmada, em
extensos testes, pelo desempenho do seu submarino Tipo VII. Esse tipo de submarino, do qual Doenitz contava com 10, numa
flotilha de 24, em fins de 1935, tinha na proa quatro tubos lança-torpedos e
um na popa, e transportava 14 torpedos. Muito manobrável debaixo da água,
desenvolvia 16 nós na superfície e submergia totalmente 20 segundos após a
ordem de mergulhar. Pequenas modificações, introduzidas pelo Engenheiro-Chefe
Thedsen, aumentaram-lhe o tamanho original para 517 toneladas e a capacidade
de combustível, de modo que seu alcance passou dos restritos 900 km para a
respeitável distância de 1.400 km. Contudo, Doenitz não levara em conta, em seu avançado
raciocínio, o Alto-Comando Naval, que, não tendo a mesma percepção de como,
na prática, se desenvolveria a tática de grupo, continuava visualizando para
os submarinos o mesmo papel que haviam desempenhado no fim da Primeira Guerra
Mundial - o de incursores solitários, operando independentes e distantes das
bases por longos períodos. O Alto-Comando insistia em que os submarinos
deveriam ser fortemente armados no convés, para serem capazes de trocar tiro
de canhão com o inimigo, em batalhas de superfície; ter grande capacidade de
transporte de torpedos e um raio de ação extremamente amplo. Disso resultou a
opção pelo submarino maior e, apesar dos protestos de Doenitz, a prioridade
foi para a construção de "Cruzadores Submarinos" de 2.000
toneladas. Este foi o primeiro dos muitos desacordos que ocorreriam entre
Doenitz e o Alto-Comando pelos anos que se seguiriam. Outro motivo de
discussão foi o número de submarinos necessários para a conduta da futura
guerra e sua prioridade no plano de construção naval. À medida que o programa
de treinamento avançava, Doenitz se convencia cada vez mais da probabilidade
de uma guerra prematura e de que a Grã-Bretanha, certamente, ficaria do outro
lado da fronteira. Lutou então por uma esquadra de pelo menos 300 submarinos,
número que considerava suficiente para uma atuação efetiva contra os
comboios. O programa de construção naval alemão foi consubstanciado no
"Plano-Z", que previa a construção de quatro porta-aviões, vários
cruzadores leves e 233 submarinos - mas, com data de conclusão planejada para
1948! Com seus 300 submarinos, construídos rapidamente, Doenitz
afirmava que poderia desfechar um golpe antecipado e decisivo contra o
inimigo. A qualquer momento, ele poderia contar com 100 belonaves operando
contra os comboios, 100 em trânsito para a área de operações e 100
reequipando em portos alemães. Com uma força de 100 submarinos estacionada
permanentemente na linha de frente, a Alemanha poderia inutilizar as rotas
comerciais das maiores potências marítimas do mundo, rotas de há muito consideradas
vitais para a existência da nação britânica. Por elas, num fluxo constante de
navios cargueiros, vinham não só considerável proporção do alimento para a
ilha densamente populada, como também quase todos os suprimentos de minérios
e combustível, além dos veículos e armas de que a Grã-Bretanha necessitaria
para a realização de uma grande guerra. Doenitz não tinha dúvida de que as rotas comerciais eram o ponto
através do qual poderia ser estrangulada a economia britânica, o que jogaria
no chão o moral do povo e do governo. Mas poucos dos superiores de Doenitz -
aliás, poucos dos seus contemporâneos, de ambos os lados, excetuando-se
Winston Churchill, é claro - compartilhavam a opinião de que o submarino era
a única arma que poderia isolar o país das fontes de recursos externos. Mais tarde, Churchill viria a escrever: "A única coisa que
realmente me assustou durante a guerra foi o perigo do submarino... nossa
linha vital, mesmo através dos vastos oceanos, mas especialmente nas entradas
da ilha, estava ameaçada. Este aspecto da guerra me deixava muito mais
ansioso do que a gloriosa luta aérea chamada a Batalha da Grã-Bretanha".
Posteriormente, ele acrescentou: "O ataque dos submarinos foi o pior dos
nossos males. Os alemães teriam lucrado muito se tivessem arriscado tudo
nele". Doenitz queria arriscar "tudo nele". Só que, dos 300
submarinos pedidos, recebera apenas 56 quando a guerra começou. A arma e o inimigo
Antes da Segunda Guerra Mundial, e mesmo nos primeiros anos daquele
grande conflito, até que os acontecimentos impuseram um aspecto diferente ao
seu papel, o submarino era basicamente um vaso de superfície. O próprio
Doenitz, focalizando o equívoco fundamental do leigo, que julgava que o
submarino funcionava perpetuamente submerso, descreveu-o como um "vaso
de mergulho", projetado para navegar a maior parte do tempo na
superfície e mergulhar somente para fugir a um destróier ou avião atacante ou
para desfechar um ataque de torpedos à luz do dia. O submarino tinha dois meios de propulsão distintos. Dois
poderosos motores diesel o impulsionavam na superfície a grande velocidade,
mas, ao submergir a belonave, era preciso desligá-los, por causa do oxigênio.
Quando as entradas de ar ficavam abaixo da superfície, a única fonte de
oxigênio era o suprimento contido no próprio submarino, suprimento que os
poderosos motores diesel consumiriam num instante. O submarino então pararia,
com a tripulação asfixiada. Em lugar deles, no momento da submersão, os
engenheiros ligavam dois motores elétricos acionados a baterias. Estas,
pesando várias toneladas, deslocavam os submarinos à velocidade de, no
máximo, uns 8 nós, pelo menos nos primeiros projetos. A velocidades mais
econômicas, as baterias manteriam o submarino em movimento por umas 24 horas
e poderiam levá-lo a uma distância de 96 km submerso. Depois disso, as
baterias descarregavam, sendo preciso voltar à superfície, onde os motores
diesel tornavam a ser usados, não para impulsionar o barco, mas para
funcionar como geradores no processo de recarregamento das baterias -
representando uma tarefa de duas ou três horas a renovação total do
suprimento de energia. O núcleo da construção do submarino era o casco de pressão, um
longo cilindro de aço dividido em compartimentos. A pressão interna era
mantida em nível idêntico ao da atmosfera exterior. Contudo, quando a
belonave submergia, a pressão externa, aumentando rapidamente, impunha
limites máximos de profundidade ao comandante do barco. Sob pressões
extremas, 150 toneladas por metro quadrado, a 150 m de profundidade, por
exemplo, as chapas começavam a apresentar fendas nas juntas, a água se
infiltrava e não demorava muito para o barco ir ao fundo do mar. Presos à parte externa do casco de pressão ficavam os tanques de
lastro, equipados com uma válvula de água, na parte inferior, e uma de ar, na
parte superior. Quando cheios de ar, eles davam ao barco flutuabilidade
suficiente para se manter na superfície. Abertas, porém, as duas válvulas, a
de ar e a da água, o mar penetrava os tanques, expelia o ar e reduzia a
flutuabilidade da belonave, de modo que ela começava a afundar. O controle de
seus movimentos, ascendente e descendente, poderia ser feito através de dois
expedientes: bombeando mecanicamente a água do mar para fora, ou fechando a
válvula de ar nos tanques de lastro e enchendo-os com ar comprimido, para
expelir a água do mar pela válvula da água. Para os ajustes de profundidade e
equilíbrio aplicavam-se os métodos utilizados pelo avião, isto é,
ajustavam-se os lemes de profundidade de ré para cima ou para baixo, conforme
a necessidade. No submarino, a resistência da água ao seu deslocamento
dava-lhe a posição buscada. Os tanques de lastro, presos à parte externa do barco, não
precisavam ter a robustez do casco de pressão, porque, quando submersos,
continham água do mar, de modo que não se sujeitavam a grandes variações de
pressão, risco sério para o casco principal, a grandes profundidades. Pela
mesma razão, os tanques de combustível, também situados do lado de fora do
casco de pressão, eram de construção incomum. Sua parte inferior era aberta à
água do mar e a válvula de entrada de combustível para os motores diesel
ficava na parte de cima do tanque. À medida que se consumia o combustível,
deixava-se entrar água do mar, por baixo, para manter cheios os tanques.
Assim, como o óleo combustível, menos denso, flutuava sobre a água, não havia
possibilidade de a água do mar entrar nos motores. Com esse sistema, o
consumo de óleo combustível não gerava presença de ar dentro do tanque, dando
origem a flutuabilidade indesejada quando o submarino precisava submergir, ou
favorecendo a presença do risco de rompimento do tanque a grandes
profundidades. O poder de ataque do submarino reside sobretudo nos seus
torpedos - recipientes autopropulsores de alto explosivo que não passavam de
submarinos em miniatura e que sofreram vários estágios de desenvolvimento. A
princípio, eram impulsionados por ar comprimido, que deixava um rastro muito
visível de bolhas brancas, dando ao inimigo tempo bastante para sair da
frente. Modelos posteriores incorporaram um motor elétrico acionado por um
acumulador, o que os tornava quase invisíveis. Seu método de ignição também
foi desenvolvido à luz da experiência. Os primeiros torpedos eram inflamados
por percussão, só explodindo quando em contato com o navio. Muitos deles
mostraram-se defeituosos, não explodindo ao bater contra o alvo, ou não
percorrendo na profundidade para que foram armados, passando inofensivamente
por baixo do casco do navio, funcionando até que seus motores parassem. Com a
ignição magnética incorporada aos modelos posteriores, eles passaram a ser
projetados para explodir ao entrar em contato com o campo magnético provocado
pela presença do navio, tornando assim menos crítico o problema da marcação
da profundidade. Mesmo que explodissem abaixo do casco do navio, as fortes
ondas de choque provocadas sob as águas resultavam quase que invariavelmente
no rompimento da quilha do navio. Os torpedos tinham no "nariz" um "dispositivo
armador", em forma de pequena hélice. Quando armazenado ou sendo
transportado no barco, a cápsula de detonação ficava em posição segura,
distante do percussor que a disparava. Somente depois que o submarino lançava
o torpedo é que essa hélice, acionada pelo movimento do torpedo na água,
fazia girar um parafuso que alinhava o percussor e o detonador. Para os tripulantes de um submarino a vida tem encantos e
dificuldades peculiaríssimos. Uma guarnição completa - 44 oficiais e
marinheiros, no caso de um submarino Tipo VIIC - vivia no mar em condições
acanhadas semanas a fio. Quando partiam em patrulha, cada metro cúbico de
espaço disponível se enchia de alimentos para a jornada. Os alimentos frescos
eram guardados nos lugares mais acessíveis, muitas vezes nos aposentos
normais da tripulação. Quando estes acabavam, os cozinheiros passavam a usar
os alimentos enlatados ou desidratados, e, como tinham de ser consumidos
precisamente na ordem inversa do seu armazenamento, a saúde da tripulação
dependia até certo ponto da inteligência e previsão com que os alimentos eram
guardados. Este é apenas um pequeno exemplo do cuidado com que se devia
planejar os preparativos para uma patrulha na arma submarina. Está claro que exercícios físicos eram virtualmente impossíveis;
não havia como dar uma caminhada, nem espaço para mais que um repertório
limitado de "sacudidelas". Durante a patrulha, mesmo não estando de
serviço, a parcela de ar fresco a que cada homem tinha direito correspondia
ao limitado tempo de permanência no convés que lhe era permitido. Limitado
porque, sendo feito o acesso ao interior do submarino por intermédio de uma
escotilha que só permite a passagem de um homem de cada vez, e como o
submarino não pode mergulhar até que todos estejam dentro dele, seria
impossível um mergulho de emergência com uma fila esperando para entrar. Por
isso a permanência de homens no convés obedece a uma escala de tal sorte
rigorosa, que o retorno de cada marinheiro ao banho de sol e de ar livre era
freqüentemente muito demorado. E também havia a tensão, a espera, durante a ação, para ver se
os destróieres de escolta de um comboio inimigo localizariam o submarino e o
atacariam. Um ruído terrível informava à tripulação que o submarino fora
localizado - o "ping", contra o casco, emitido pelo mais antigo dispositivo
antisubmarino dos Aliados, o "asdic". Seu nome era formado com as
iniciais da "Allied Submarine Detection Investigation Committee"
(Comissão Aliada de Investigação e Detecção de Submarino), que o desenvolvera
em 1917. Os americanos o chamam "sonar" (sound navigation ranging).
Desse dispositivo tinham conhecimento os alemães, graças à vasta publicidade
feita entre as duas guerras. O "asdic" consistia de um
transmissor-receptor colocado, dentro de uma cúpula, no fundo de um destróier.
No seu núcleo ficava um cristal de quartzo que, quando se lhe aplicava uma
corrente elétrica alternada, oscilava e emitia ondas sonoras pela água que, ao
atingirem qualquer objeto, eram refletidas e captadas pelo receptor,
denunciando a presença desses tigres do mar. Movendo lentamente e traçando os
ângulos de direção do "ping" repetido, o operador podia precisar
com segurança a direção e a distância do objeto, dando ao destróier condições
de desfechar o ataque. Duas desvantagens davam sos submarinos possibilidade
de escapar. Primeira desvantagem: o contato, por meio do "asdic",
com o submarino só era possível dentro de certa distância. Quando o destróier
se aproximava o suficiente para lançar cargas de profundidade, perdia-se o
"ping", e só por adivinhação o destróier chegava à posição exata do
submarino. Isto queria dizer que, se se movesse com rapidez suficiente, o
submarino poderia escapar ao peso principal do ataque. Segunda desvantagem:
os primeiros "asdics" não davam indicação da profundidade do
obstáculo, em torno da qual eram feitas estimativas. Para os submarinistas, como, conseqüência do seu próprio ataque,
registrava-se com freqüência um terrível dueto das máquinas do destróier e do
seu "asdic", primeiro o ruído das máquinas, quando o destróier
passava acima deles, depois o "ping" do "asdic", quando
este travava contato com o submarino, e novamente as máquinas, quando o
destróier se locomovia para fazer outra sondagem mais precisa. Finalmente, a
explosão. Se a carga de profundidade fosse lançada com precisão, a tremenda
força dos explosivos, aumentada pela concentração das ondas de choque sob as
águas, fazia o submarino arfar e guinar como se estivesse em meio a forte
tempestade. Era quase certo, então, que ele estivesse a caminho do fundo: Só
muito raramente conseguiam os submarinistas fazer subir o barco, depois de
atingido, e se jogar ao mar. Quase sempre o túmulo do submarinista é o
submarino. Atirar-se ao mar, nadar até uma balsa e ser recolhido pelo inimigo
e levado para um campo de prisioneiros em terra firme, poucos, pegados firmes
debaixo do oceano, viveram para contar tal acontecimento. Só haveria água
inundando o submarino, enquanto este era esmagado à medida que atingia
profundidades que seu casco de pressão jamais poderia resistir, ou então
ficava no fundo até acabar o oxigênio. Mas nunca houve escassez de voluntários para essa arma. O
trabalho, o companheirismo, a sensação da vivência numa pequena comunidade de
amigos eram os fatores de atração e de manutenção do moral elevado, até o
fim, dos homens da Arma submarina. Problemas de guerra: Setembro de 1939 a maio de 1940 Quando a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha, no dia 3 de
setembro de 1939, dos 56 submarinos de Doenitz, 46 se encontravam prontos para
entrar em ação, mas somente 22 estavam aptos para operar no Atlântico. Os
outros 24 eram submarinos pequenos, Tipo II, de 250 toneladas de
deslocamento, com alcance operacional adequado apenas para atuar no Mar do
Norte. Essa força era, como se vê, muito escassa para a tarefa que
tinha pela frente, pois, dos 22 submarinos, pelo revezamento a que estavam
obrigados, para reabastecimento etc., no máximo 7 estariam empenhados em
operações contra navios mercantes no Atlântico, a qualquer momento. Longe de interromper
as comunicações inimigas e obrigar os britânicos a entrar cedo num acordo,
Doenitz sabia que seus submarinos não infligiriam mais que algumas
alfinetadas. Além disso, a eficiência dessas alfinetadas foi reduzida pelas
regras impostas às operações dos submarinos. As condições articuladas no
Regulamento de Presas estipulavam que o submarino tinha primeiro que emergir,
para depois, então, deter e examinar qualquer navio mercante. Provado o
direito, de afundá-lo, por se encontrar o mercante contrabandeando carga para
o inimigo, por exemplo, o submarino tinha que, antes de mais nada, garantir a
segurança da tripulação do navio, levando-a para bordo - uma impossibilidade
palpável, no caso de um submarino já apinhado. Somente diante de navios
mercantes navegando sob escolta, ou que resistissem quando chamados a parar,
ou em transportes de tropas é que o submarino podia agir sem a necessidade de
inspeção prévia. É claro que tais obrigações deixavam o submarino vulnerável
a ataque de qualquer navio que estivesse realmente armado. Apenas
ligeiramente armados no convés, os submarinos pequenos e médios eram
extremamente vulneráveis. Outra complicação surgiu quando a França se declarou em guerra
com a Alemanha. Hitler, ansioso por evitar um choque direto com aquele pais,
apesar da declaração nominal de guerra, proibiu sos seus submarinos qualquer
ação contra navios franceses, exceto em defesa própria. A situação tornou-se ainda mais confusa pelas circunstâncias que
cercaram o disparo do primeiro torpedo "com raiva". No dia em que a
guerra foi declarada, o Tenente-Comandante Lemp, no comando do U-30, avistou
um navio de passageiros que, segundo afirmou, navegava em ziguezague,
completamente às escuras, fora das rotas normais. Lemp concluiu tratar-se de navio
de tropas; estabeleceu a sua identidade como sendo britânico e agiu
imediatamente, baseado no direito de atacar. Seus torpedos atingiram em cheio
o navio, que afundou, com a perda de 128 vidas. Ficou, no entanto, provado
que não se tratava de transporte de tropas, e sim do navio de passageiros
Athenia, que viajava da Grã-Bretanha para os Estados Unidos, e a maioria das
vítimas do U-30 era civil. O governo britânico imediatamente acusou os alemães de travarem
guerra ilimitada, em contravenção ao direito internacional. O governo alemão
negou a acusação. Porque Lemp não mencionara a ação em seus relatórios
transmitidos pelo telégrafo, só em setembro, quando o U-30 chegou à sua base
e seu comandante se apresentou a Doenitz, é que a verdade veio a lume. A ação
de Lemp, ainda que tivesse sido perpetrada de boa-fé, infringia diretamente a
rígida instrução de Hitler de travar guerra de acordo com o regulamento de
presa e o governo alemão continuou afirmando que nenhum submarino seu fora
responsável pelo afundamento do Athenia. O Alto-Comando Naval recebeu ordem
no sentido de manter a questão em segredo e o Kommodore Doenitz foi obrigado
a mandar Lemp eliminar o registro do acontecimento de seu diário de guerra e
substituí-lo por outra página, omitindo qualquer referência ao incidente. Numa outra tentativa de negar o envolvimento de qualquer
submarino na tragédia, o Ministério da Propaganda Alemão fez transmitir pelo
rádio a declaração de que o Athenia fora sabotado por ordens de Winston
Churchill, então Primeiro-Lorde do Almirantado, para desacreditar a nação
alemã como sendo a primeira a infringir as regras da guerra naval, mas
praticamente ninguém acreditou nisso. O efeito imediato da perda do Athenia foi fazer com que Hitler,
ainda ansioso por evitar hostilidades francas com a Grã-Bretanha e a França,
emitisse outra ordem limitando as atividades dos submarinos, instruindo-os
para que não afundassem navios de passageiros, de qualquer nação, a serviço
do inimigo ou não, navegando em comboio ou não. Para o Alto-Comando Naval, parecia que o governo estava impondo
restrições impossíveis às atividades do já reduzido grupo de submarinos, mas
essas limitações foram sendo gradativamente relaxadas. A 23 de setembro, por
insistência do Almirante Raeder, Hitler aprovou o afundamento de todos os
navios mercantes que fizessem uso do rádio quando detidos. A 24 de setembro,
também por recomendação de Raeder, foi cancelada a ordem que excepcionalizava
os navios franceses, e então, por estágios, eliminou-se a necessidade de
cumprir os regulamentos de presa em áreas declaradas: a 30 de setembro, no
Mar do Norte; a 2 de outubro, ao largo das costas britânica e francesa, com
respeito a navios de luzes apagadas; em águas até 15 graus a oeste e, depois,
a 19 de outubro, em águas até 20 graus a oeste. A 17 de outubro, os
submarinos já haviam recebido permissão para atacar todos os navios
identificados como hostis, exceto os de passageiros e, por volta de 17 de
novembro, até mesmo esta última restrição fora cancelada. Preparava-se, aos
poucos, o palco para a batalha total que Doenitz e o Alto-Comando Naval
alemão esperavam. Entrementes, os submarinos prosseguiam em suas operações contra
alvos inegavelmente legítimos, como e onde os encontrassem. A 14 de setembro,
o porta-aviões britânico Ark Royal navegava a oeste das Hébridas,
participando de um grupo de caça a submarinos. O U-39, comandado pelo
Tenente-Comandante Glattes, encontrou o porta-aviões e disparou uma salva de
torpedos, do tipo dotado de ignição magnética, mas, infelizmente para Glattes,
não funcionaram como deviam: detonaram prematuramente e mal arranharam a
pintura do Ark Royal. Seus destróieres imediatamente atacaram o U-39,
afundaram-no e capturaram sua tripulação. Mas o porta-aviões escapara por
pouco. Num ataque desferido três dias depois, o U-29 teve mais sorte. O
Tenente-Comandante Schuhardt estava à espreita, nas rotas de navegação a
oeste do Canal da Mancha, quando avistou através do periscópio um navio de
passageiros de umas 10.000 toneladas. Mas então uma escolta aérea entrou em seu campo de visão e, por isso, ele passou a considerar o navio
como um alvo legítimo. Porém, antes que pudesse disparar seus torpedos, o
navio desviou-se e tomou um rumo diferente e, como estivesse navegando rápido
demais para que o submarino pudesse segui-lo por baixo da água, quando perdia
velocidade, Schuhardt resolveu esperar até que o navio desaparecesse de
vista, para então emergir e deslocar-se a toda velocidade para uma posição de
onde pudesse desfechar o ataque. Pouco antes de emergir, ele fez outro exame
de precaução, pelo periscópio, e desta vez avistou um ponto preto no
horizonte, a bombordo. Ele tornou a olhar, mais atentamente, e quando
percebeu que o ponto preto era na realidade um porta-aviões, naturalmente
esqueceu-se por completo do plano de caçar o navio de passageiros.
Passaram-se duas horas para que o porta-aviões chegasse ao seu alcance, mas,
quando isto aconteceu, a sorte estava firme do lado de Schuhardt, pois ele
imediatamente mudou de posição e ofereceu ao submarino o belo alvo do seu
vasto flanco. Schuhardt aproveitou a oportunidade sem hesitar e, quase que de
olho, disparou uma salva de três torpedos, mergulhando rapidamente para
escapar a um destróier que se aproximava. Durante o mergulho Schuhardt ouviu
duas explosões violentas, seguidas de outra e de várias explosões menores.
Ele não podia ver nada, mas sabia que o porta-aviões fora afundado. Na
verdade tratava-se do Courageous, e com ele foram-se o seu comandante e 518
tripulantes. Os destróieres começaram a lançar bombas de profundidade e,
quando Schuhard desceu a 75 m, quatro violentas explosões sacudiram a torre
de comando do submarino e o agitaram todo, mas ele manteve-se intacto e pôde
escapar. Já de volta à base Schuhardt soube que a sua façanha se transformara
no assunto mais importante em toda a marinha e nação alemães. Foi o primeiro
sucesso divulgado da arma submarina ns guerra e serviu para reafirmar, nos
círculo, profissionais e públicos, as verdadeiras capacidades do submarino. Se o primeiro ataque bem sucedido de um submarino revestiu um
erro trágico e se o segundo foi altamente satisfatório, o terceiro, ocorrido
pouco depois, constituiu nada menos que um feito heróico, uma façanha que
dois submarinos haviam tentado duas vezes, no fim da Primeira Guerra Mundial,
e que culminou com a destruição de ambos. Doenitz achava haver chegado o
momento de outra tentativa. O plano previa a entrada de um submarino e, Scapa Flow para
atacar a esquadra britânica em seu ancoradouro, nas ilhas Orkney. Era um projeto que se vinha
formando na mente de Doenitz desde os primeiros dias da guerra, e o Serviço
de Inteligência do Alto-Comando Naval e as fotos aéreas dos obstáculos
existentes nas várias entradas de Scapa Flow confirmavam que o caminho mais
viável para a penetração no ancoradouro seria pela estreita passagem de Kirk
Sound. Doenitz foi extremamente cauteloso na escolha do homem certo
para a tentativa, recaindo a sua preferência na pessoa do Tenente-Comandante
Gunther Prien, capitão do U-47. Ele convocou Prien para uma entrevista,
perguntou se ele estava disposto a empreender a missão, advertiu-o dos riscos
e deu-lhe 48 horas para pensar na resposta. Depois de examinar demoradamente
os mapas e dados, Prien compareceu à presença de Doentiz para dizer-lhe que
aceitava a tarefa. Para preservar o máximo segredo, sem que a empresa poderia
fracassar, Doenitz tomou o cuidado de informar o Comandante-Chefe
pessoalmente, comunicando-lhe verbalmente, e não por escrito, que a tentativa
seria feita. A noite escolhida foi a de 13 de outubro, quando os dois
períodos de maré baixa ocorreriam durante a noite e quando a lua nova não
entraria com qualquer iluminação que pudesse revelar a presença do U-47. Como
Doenitz, Prien zelara tanto pela preservação do segredo que somente na manhã
daquele dia, parados em pleno oceano e já avistando as Orkney, é que ele
informou sua tripulação quanto à tarefa que os aguardava. Para alívio seu, os
homens pareceram deleitados com a perspectiva da audaciosa mas perigosa investida.
O moral da turma não podia ser mais elevado. Ao anoitecer, Prien emergiu e
rumou para Kirk Sound. O planejamento fora realmente perfeito. Não havia
luar, mas, por uma dessas eventualidades que nem mesmo o planejamento mais
detalhado e preciso pode prever, a noite foi de atividade incomum por parte
da aurora boreal, que iluminava o céu quase como se fosse dia claro. Mesmo
assim, apesar dessa desvantagem, Prien decidiu prosseguir, porque a
expectativa de condições de maré e de lua favoráveis era para daí a semanas,
quando então ele talvez já tivesse perdido a vantagem em termos de segredo e
moral. Enquanto navegava rumo aos navios afundados que bloqueavam Kirk
Sound, o U-47 foi presa das traiçoeiras marés que rodeiam aquelas ilhas e
somente a máxima habilidade náutica é que lhe permitiu contornar o problema.
Mesmo assim, o submarino encalhou e enredou o cabo num dos navios-obstáculos,
mas a 00:27h ele conseguiu desvencilhar-se. Ao sul, Prien não via nada, mas
ao norte, no ancoradouro principal, abria-se claramente o seu alvo. Dois
encouraçados e vários destróieres estavam ancorados. Um dos couraçados
parecia pertencer à classe Royal Oak, talvez fosse o próprio Royal Oak; o
outro se parecia muito com o Repulse. Prien aproximou-se mais e disparou três
torpedos dos seus tubos de proa, a 3.600 m de distância. O quarto não
detonou; um deles atingiu o navio, que, na realidade, era o próprio Royal
Oak, mas o dano foi insignificante. Extremamente desapontado, Prien
afastou-se, esperando ser avassalado com cargas de profundidade lançadas por
destróieres. Nada aconteceu. Espantado com a sorte que estava tendo, Prien
permaneceu na superfície, enquanto, dentro do submarino, seus homens
trabalhavam febrilmente para recarregar os tubos lança-torpedos da proa. À
01:16 h ele tornou a rumar para o Royal Oak e disparou uma segunda salva.
Desta vez o efeito foi espetacular. Uma gigantesca explosão lançou colunas de
água e nuvens de fumaça para o ar e destroços do couraçado começaram a cair
sobre o submarino. Treze minutos depois o Royal Oak emborcou e afundou, com a
perda de 24 oficiais e - 809 homens. Já então, toda a baía parecia fervilhar de barcos à procura do
invasor. Prien ordenou a seus engenheiros que fizessem os motores trabalhar
com a máxima potência possível e, a toda velocidade, rumou para Kirk Sound,
deixando atrás de si um rasto de espuma branca que Prien tinha certeza não
deixaria de ser observado. Com efeito, um destróier rumou veloz na sua
direção, varrendo as águas com seus holofotes; Prien estava certo de que
chegara o fim. Então, inexplicavelmente, o destróier afastou-se e lançou
cargas de profundidade muito atrás do submarino, que continuou afastando-se,
mantendo-se bem junto da costa, onde a visão de sua superestrutura se perdia
contra o fundo escuro da terra. Pela estrada costeira, um veículo
movimentou-se a grande velocidade, parou, piscou seus faróis como que fazendo
um sinal e depois fez a curva, partindo na direção contrária. Ainda avançando o mais rápido que podiam, com os motores
elétricos funcionando juntamente com os diesel, para obter a mais alta
velocidade possível, eles lutaram contra a forte maré e tornaram a alcançar o
Kirk Sound. Desta vez, também com infinito cuidado e muita habilidade, Prien
manobrou por entre um navio-obstáculo e o molhe de madeira que havia no lado
sul da passagem e, finalmente, desapareceu. Como se veio a saber, Prien fizera bem em executar a missão
naquela noite, pois no dia seguinte outro velho navio, também destinado a ser
afundado ao lado dos que já se encontravam em Kirk Sound, chegou a Scapa
Flow. Se ele tivesse tomado posição um dia antes, é de duvidar que Prien
pudesse ter conseguido entrar e sair por aquele canal. Entrementes, a
esquadra britânica foi apressadamente transferida para ancoradouros
alternativos, ao mesmo tempo que se reforçavam as defesas contra futuras
incursões de submarinos. O Grande Almirante Raeder aguardava a chegada do submarino à sua
base. Agradecido, ele conferiu a Prien a Cruz de Ferro de Primeira Classe e
todos os demais membros da tripulação receberam a mesma condecoração, de
Segunda Classe. Também Doenitz recebeu seus lauréis. O almirante
transmitiu-lhe a notícia de sua promoção de Kommodore para Contra-Almirante e
da sua nomeação oficial para o posto de Comandante da Arma de Submarinos (Befehlshaber
der U Boote ou BdU). Naquele mesmo dia, toda a tripulação foi conduzida, de
avião, a Berlim, para uma audiência com Hitler. Eram heróis nacionais; haviam
penetrado em Scapa Flow, afundado uma unidade importante da Marinha Real e
escapado. Naquele mesmo local, lembravam-se os alemães, a esquadra germânica
fora posta a pique no fim da Primeira Guerra Mundial. Ataque aos comboios
Os sucessos contra as belonaves da Marinha Real, por certo,
foram espetaculares. De importância pelo menos igual, no contexto geral da
guerra, foram as operações contra os navios mercantes Aliados, durante as
quais os comandantes dos submarinos trabalharam sem a publicidade que as
façanhas de Prien, Schuhardt e Lemp ganharam. Em vez do elogio e dos
aplausos, a recompensa era a certeza de que cada navio que afundavam era uma
contribuição para a demorada e lenta tarefa de subjugar os inimigos da
Alemanha. Após a relativa paz e segurança do período de treinamento, as
tripulações de submarinos começavam a sentir o que significava estar em
guerra, o que era ser alvo dos ataques de cargas de profundidade lançadas por
um destróier de escolta. O Tenente-Comandante Schultze, que, no U-48, foi agraciado com a
Cruz de Ferro de Cavaleiro, como o primeiro comandante a afundar 100.000
toneladas de navios inimigos, esteve entre aqueles que mais cedo serviram de
alvo para o peso de um ataque. Numa operação contra dois cargueiros que
navegavam sob escolta, ele torpedeou e afundou um deles e fez um mergulho de
emergência, para escapar ao destróier que vinha veloz á sua procura. Depois
de ficar silencioso por meia hora, evadindo-se ao destróier, subiu até a
altura de usar o periscópio e, depois, à superfície, quando então avistou o
alvo perfeito - um comboio inteiro. Em poucos minutos ele traçou seu rumo e
estava pronto para submergir para o ataque quando um aerobote Sunderland
apareceu, voando na sua direção. Schultze, que, como comandante, era sempre o último homem á deixar
a ponte, saltou para dentro da escotilha e deu a ordem de mergulhar. Quando a
água do mar foi penetrando os tanques de lastro, expelindo o ar, o submarino
começou a descer. A proa inclinou-se, e, para ajudar o barco, todos os homens
disponíveis correram pela estreita passagem central e se amontoaram na proa,
bem contra os tubos lança-torpedos. A concentração do peso aumentou a
inclinação descendente do submarino. Quando as ondas se fecharam sobre a
parte superior da superestrutura, as primeiras quatro explosões soaram. A
proa afundou ainda mais e a tripulação amontoada ali não tinha. como saber se
as bombas do Sunderland o haviam desgovernado. Tudo indicava, entretanto, a
um exame rapidamente feito, que o submarino escapara também a este ataque. Aí
então outro som foi captado, o ronco das máquinas do destróier que passava
próximo, seguido do som que injetava o medo até mesmo no coração da mais
valente tripulação de submarino - o "ping" contra o casco, que
significava que o destróier o descobrira com seu "asdic". A primeira carga de profundidade não demorou a cair e o
submarino agitou-se ao impacto do estrondo. Veio outra, mais perto que a
primeira, e uma vez mais a belonave rangeu sob as ondas. Schultze fez descer
um pouco mais o submarino, alterou ligeiramente seu rumo e avançou devagar,
usando os motores elétricos com moderação, para manter o máximo silêncio.
Durante 20 minutos nada aconteceu e eles ficaram imaginando se teriam ou não
escapado. Não demorou a ouvir-se nova e fortíssima trovoada: três cargas de
profundidade explodiram ainda mais perto deles, destruindo o medidor de
profundidade e o equipamento de telegrafia. Mas o casco de pressão resistiu. Schultze decidiu mergulhar
ainda mais, até o leito do mar, onde o submarino bateu e ficou parado, com os
motores e praticamente todo o equipamento auxiliar desligados, para reduzir
ao mínimo qualquer ruído que pudesse revelar a sua presença. Os caçadores não
haviam, porém, perdido contato. A tripulação do submarino ouvia as máquinas
do destróier que o tentava localizar com precisão, passando por eles de
quando em quando, até que outro grupo de carga de profundidade mergulhou na
sua direção. As pias de porcelana e os pedestais dos lavatórios
despedaçaram-se, lâmpadas estouraram com o choque e, na torre de comando, o
indicador de revoluções foi destruído. Uma vez mais, o silêncio. Schultze esperou, no fundo do mar, até que a chegada da noite
pusesse na superfície um escuro fechado. Trouxe então seu barco à
profundidade de 60 metros e avançou 3 km, na esperança quase irrealizável de
emergir num trecho livre de perigo. Mas aconteceu que o "trecho
livre" estava repleto de vasos de escolta, 24 ao todo, e ele emergiu bem
no meio da fogueira. Ainda à sua procura, os navios de superfície avançavam
lentamente, parando para sondar com seus "asdics" e prosseguindo.
Ele rumou para a brecha maior que podia ver, com menos de mil metros de
largura, e, ainda usando os motores elétricos, em lugar dos barulhentos
motores diesel de superfície e controlando manualmente o leme, Schultze tirou
o U-48, imperceptivelmente, da confusão em que se encontrava. "Contato rompido na superfície", anotou ele,
reservadamente, em seu diário de guerra, para acrescentar, a seguir,
triunfante: "Escapei!" Façanhas como a do U-48, embora algumas não encontrassem final
tão feliz, eram comuns durante os primeiros meses da guerra, mas o tributo
por eles cobrado, em termos de navios mercantes inimigos, compensava todos os
temores e todos os danos, e até mesmo todas as perdas em submarinos. Em setembro
de 1939 eles afundaram 41 navios, num total de 153.000 toneladas; em outubro,
27 navios, com 135.000 toneladas. Em novembro os índices conseguidos pelos
submarinos caíram abruptamente para 21 navios e 52.000 toneladas e, em
dezembro, permaneceram relativamente baixos, com 25 navios e 81.000
toneladas. A razão do decréscimo, depois do primeiro mês, estava na
previsão de Doenitz, que não esperava ter mais de um terço da frota de
submersível permanentemente em ação. Tendo, no início das operações, 23 submarinos
em ação, natural que se viesse a esgotar, depois de atividade tão intensa, o
estoque de torpedos e de suprimentos imprescindíveis à manutenção da frota em
alto-mar, obrigando a um processo de reabastecimento que inevitavelmente
retirou da área de operações a quantidade prevista de submarinos. Daí a queda
dos índices de afundamentos inicialmente conseguidos. Em janeiro os afundamentos recrudesceram, perdendo-se 40 navios,
111.000 toneladas, naquele mês e 45 navios, 170.000 toneladas, em fevereiro. Então, a 4 de março, quando a atividade dos submarinos tomava
impulso novamente, emitiu-se uma ordem, de todo inexplicável, impedindo que
outros submarinos zarpassem e restringindo as atividades dos que já estavam
nas vizinhanças da costa norueguesa. Somente no dia seguinte é que Doenitz
foi informado da razão dessa ordem. Haveria desembarques simultâneos na
Noruega e Dinamarca e aos submarinos caberia a proteção desses desembarques
contra possíveis contramedidas aliadas. Recorrendo a submarinos da sua escola de treinamento e reduzindo
o prazo de experiência de duas novas unidades, Doenitz pôde reunir uma força
de 31 submersíveis para começar a operação. Com isso, as atividades dos
submarinos, durante toda a campanha norueguesa, limitaram-se quase que exclusivamente
à tarefa de reconhecimento e transporte - que afinal pouco tinha que ver com
a finalidade para a qual haviam sido projetados! Mas a campanha pelo menos teve seu valor para a arma submarina,
mostrando, por um custo reduzido, uma deficiência que em outras
circunstâncias - contra comboios fortemente escoltados, por exemplo - poderia
ter custado muito caro. Os submarinos haviam desfechado 36 ataques,
principalmente contra transportes britânicos, mas seus torpedos os traíram,
sendo total o fracasso. O próprio Prien, no U-47, avistou seis transportes de
até 30.000 toneladas cada um, e que estavam desembarcando soldados
britânicos, na noite de 15 de abril, nas águas limitadas de Bygdenfiord.
Entre 22:00 e 23:00 h ele disparou quatro torpedos, a distâncias entre 1.300
m e 650 m, contra uma linha de transportes e destróieres que, da posição em
que se encontrava, formavam uma sólida muralha de alvos à sua frente. Parecia
impossível errar, mas nenhum dos torpedos explodiu e os britânicos sequer
foram alertados quanto à sua presença. Prien recarregou e desfechou outro
ataque, pouco depois da meia-noite. Prien e seu primeiro-tenente fizeram um
exame minucioso dos ajustes de todos os torpedos, armando-os, como no
primeiro ataque, para profundidades de 3,60 m a 4,50 m. Desta vez um torpedo
explodiu, mas foi contra um rochedo, após ter-se desviado do rumo.
Evidentemente ele não causou o menor dano ao inimigo, mas alertou-os quanto à
presença de submarino e, daí por diante, Prien passou por grandes aperturas.
Primeiro, ao se afastar, ele encalhou e só com extrema dificuldade é que pôde
fazê-lo flutuar novamente. Então os destróieres o atacaram, submetendo-o a um
assalto de cargas de profundidade. Suas máquinas foram danificadas, mas ele
conseguiu esgueirar-se dali. Tendo escapado daquele aperto, três dias depois Prien encontrou
o couraçado Warspite e o atacou com dois torpedos, à distância de apenas 800
m. Uma vez mais eles erraram o alvo. Um dos torpedos só explodiu depois de
desviar-se do rumo, no fim da sua corrida. Com isso, os destróieres foram
alertados, avançando contra o U-47 de todas as direções, colocando Prien numa
situação que ele descreveu, discretamente, como "muito
desagradável", mas tornou a escapar. A 20 de abril, Prien entrou em
contato com um terceiro alvo, desta vez um comboio que rumava para o norte,
e, embora pudesse tê-lo atacado facilmente, ele não o fez, por haver perdido
a confiança nos seus torpedos, o que não era de espantar. Ao retornar à base,
ele queixou-se, justificadamente, de que não podia combater com um fuzil de
brinquedo. Os fracassos de Prien eram sintomáticos de uma grave deficiência
geral no desempenho dos torpedos durante os primeiros meses da guerra. Logo
no começo do conflito, o Tenente-Comandante Zahn, do U-56, encontrara os couraçados
Rodney, Nelson e Hood e mais 10 destróieres. A operação realizada, com grande
arrojo, contra essas belonaves fortemente escoltadas, que poderia ter sido um
tremendo sucesso, foi um fracasso total. Zahn disparou três torpedos, num
ataque submerso, e chegou a ouvir as três batidas quando eles atingiram o
Nelson, mas nenhum deles explodiu. O desapontamento de tal forma abalou Zahn,
que ele teve de ser retirado do serviço ativo durante algum tempo,
tornando-se instrutor na escola de submarinos. Pelo final da campanha norueguesa o índice de falhas atingira
tais proporções, que chegou a ser instaurado inquérito para investigar suas
causas. Sabia-se que alguns falhavam porque sua ignição magnética enguiçava
misteriosamente nas águas setentrionais ao largo da Escandinávia, talvez
devido à grande quantidade de minério de ferro existente na região. Mas Prien
ataura com torpedos dotados de disparador de contato, e não era de supor que
tivessem ido fundo demais. Tudo indicava que os submarinos não tinham uma
arma eficaz. A 20 de abril, a Comissão de Torpedos iniciou a investigação do
problema. Testes exaustivamente feitos revelaram várias falhas, além das já
conhecidas. Em alguns casos, o percussor não disparara a carga. Em outros, à
carga inicial explodira direito mas não conseguira detonar a carga principal.
Em outros, ainda, parecia que o torpedo atingira o alvo num ângulo muito
agudo, por isso não detonando, o que pode muito bem ter acontecido no caso do
malogrado assalto de Zahn ao Nelson. Como resultado da investigação, a partir
de junho de 1940 só eram distribuídos torpedos com percussão de contato,
abandonando-se temporariamente os torpedos magnéticos. Mas, como não houvesse
disponibilidade imediata de torpedos de contato de modelo melhorado, os comandantes
de submarino ficaram muito limitados na tarefa de afundamento. Em vários
ataques, desfechados nos meses seguintes, eles se viram obrigados a disparar
mais de um torpedo contra um só barco, quando normalmente apenas um era
despachado. Análise subseqüente dos tiros certeiros dos submarinos mostrou
que apenas 40% dos navios tinham sido afundados com um só torpedo.
Percentagem quase igual exigira dois torpedos para afundar e mais de um
quinto teve de ser alvejado com até quatro torpedos. Assim, no caminho de
volta à base os submarinos vinham encontrando navios mercantes contra os
quais nada podiam fazer, por estarem sem munição. Começa a Batalha do Atlântico Após a campanha norueguesa, a maioria dos submarinos precisava
de reparos e reaparelhamento. Vários tiveram de ser retirados do serviço
ativo, para funcionar na escola de submarinos como vasos de treinamento para
os recrutas da arma submarina, pois esta não parava de crescer. Somente em
junho de 1940 é que entrou em disponibilidade bom número de submarinos para
operações contra os navios mercantes inimigos. A princípio suas atividades limitaram-se às águas costeiras em
torno das Ilhas Britânicas, sobretudo na extremidade ocidental do Canal da
Mancha, mas a ocupação da França, em junho, deu aos alemães várias bases na
costa atlântica, no Golfo de Biscaia: Lorient, St: Nazaire, Brest, La Pallice
e Bordéus. Os oficiais da arma submarina compreenderam perfeitamente a enorme
importância desses portos. Seus submarinos não desperdiçariam tempo e combustível
no cruzamento de grandes áreas desertas para atingir as rotas de navegação,
como também, com a redução, em 700 km, da distância das bases alemães às
áreas de operação, poderiam penetrar mais profundamente no Atlântico, indo
além dos limites cobertos pelas escoltas anti-submarinas. Nessa época, os
destróieres só iam até 15 graus a oeste com um comboio que tomasse aquela
direção, voltando desse ponto, com outro comboio, ao leste, cobrindo-lhe os
últimos estágios da jornada. Mais tarde os Aliados ampliaram esta cobertura,
avançando o ponto de encontro dos dois comboios mais para dentro do oceano,
para 17 graus a oeste em julho de 1940 e 19 graus a oeste em outubro do mesmo
ano. Assim, o conflito afastou-se das águas costeiras, mudando-se para as
solitárias vastidões oceânicas. Com o correr do tempo, esse conflito
tornou-se conhecido como a Batalha do Atlântico. Naquele verão de 1940, os submarinos, tendo de enfrentar apenas
escoltas fracas ou nenhuma escolta, puderam aplicar a tática que Doenitz há
muito defendia, de ataques noturnos desfechados na superfície. Desse modo, os
"asdics" eram quase impotentes para encontrá-los e a grande
velocidade de superfície que deslocavam, usando os motores diesel, tornavam
os submarinos superiores a muitos dos inadequados vasos de escolta à
disposição dos Aliados na época. Além disso, à noite, nas vastidões do
Atlântico, sua superestrutura, muito baixa, como que se fundia completamente
com a escuridão do oceano, sem interromper o horizonte. Somente num golpe de
sorte o vigia do destróier, com um holofote, descobria a sua posição. Por
outro lado, para os comandantes dos submarinos, a elevada estrutura de um
petroleiro ou cargueiro silhuetava-se nitidamente contra o fundo do céu
noturno, proporcionando-lhes um alvo perfeito. Quando os comandantes de
submarino, percebendo a capacidade das escoltas, sentiram que as
circunstâncias lhes eram totalmente favoráveis, passaram a agir com audácia
sem precedentes. Penetravam freqüentemente as fileiras centrais do próprio
comboio e atiravam contra o alvo escolhido quase à queima-roupa. Com o número de afundamentos crescendo, este foi o verão em que
os famosos "ases" dos submarinos granjearam enorme reputação -
Endrass no U-46, Kretschmer no U-99, Schepke no U-100, Frauenheim no U-101 e,
naturalmente, Prien no U-47, que estava sempre no local da luta. Em junho, Prien foi particularmente ativo, operando sobretudo
sozinho. O que conseguiu registrar numa única viagem mostra como os
submarinos levavam decisiva vantagem. A 14 daquele mês ele avistou, pelo
periscópio, um comboio de 42 navios, em sete colunas de seis vasos, cada uma
com apenas cinco destróieres de escolta. Mas, velozes demais para que pudesse
alcançá-los, Prien perdeu contato. Foi então que um navio desgarrado apareceu
- e só foi preciso um torpedo para afundar o Balmoral Wood, com sua carga de
asas e fuselagens de avião. Um dia inteiro se passou sem que ele avistasse
coisa alguma; então, na manhã seguinte, apareceu um comboio de 20 navios,
fortemente escoltado e com um aerobote Sunderland sobrevoando atentamente as
águas das imediações. Prien atacou ao anoitecer. Mandou disparar um torpedo e, antes
que este atingisse o alvo, disparou outro contra o segundo alvo escolhido.
Então, seu oficial encarregado dos torpedos perdeu o equilíbrio e se agarrou
na alavanca de disparo para segurar-se e um terceiro torpedo partiu
acidentalmente do tubo. O resultado foram três navios afundados. Alguns dias
depois ele meteu a pique um petroleiro e, depois, outro, até ficar sem
torpedos e ser obrigado a retornar à base, para reequipar o submarino e dar
um descanso à tripulação antes de zarpar novamente. A 17 de agosto, antes da viagem seguinte, Hitler facilitou as
coisas, ordenando o bloqueio total das Ilhas Britânicas e dando aos
submarinos a liberdade de afundar quaisquer navios mercantes, ainda que
neutros. Isto representou o fim da luta realizada segundo os
"regulamentos de presa". Na manhã de 19 de outubro, Prien entrou em
contato com outro comboio, o HX79, a caminho da Grã-Bretanha, e chamou mais
quatro submarinos para o ataque - U-38, U-46, U-48 e o U-100. Naquela noite
eles puseram a pique nada menos de 14 navios e não demoraram a encontrar
outro comboio, afundando mais 7 barcos. Com 17 navios afundados por outra
"alcatéia" de seis submarinos; na noite anterior, 38 navios,
totalizando cerca de 325.000 toneladas, foram afundados em dois dias. Já
então Prien se tornara o mais bem sucedido dos comandantes de submarino, e,
como o primeiro a atingir a marca das 100.000 toneladas afundadas, recebeu a
mais alta condecoração possível, recém-instituída, as "Folhas de
Carvalho" da Cruz de Ferro de Cavaleiro. A quantidade de navios mercantes perdidos durante aquele verão
triunfal atingiu proporções espantosas: em junho, 58 navios, 284.000
toneladas; em julho, 38 navios, 196.000 toneladas; em agosto, 56 navios,
268.000 toneladas; em setembro, 59, com 295.000 toneladas e, em outubro, à
medida que as façanhas dos submarinos alemães atingiam extensão
impressionante, 68 navios, com 352.000 toneladas, tudo isto com a perda de
apenas 6 submarinos. Não é de estranhar que os meses de junho a outubro de
1940 fossem chamados pelos comandantes de submarinos como os seus
"tempos felizes". Excetuando as enormes quantidades de navios mercantes afundados,
este período se notabilizou pela consagração dos princípios que Doenitz
desenvolvera com base na experiência que recolheu na Primeira Guerra Mundial:
de que os submarinos obteriam o maior sucesso atuando em grupos. E durante
todo o conflito a atuação dos submarinos se concentrou nesse método,
suficientemente ampliado e desenvolvido, transformando-se na tática
extremamente eficaz da "alcatéia". Entrando em contato com um
comboio, e o vigiando enquanto resistia à tentação de atacá-lo sozinho, um
submarino convocava os que estivessem nas vizinhanças para o ataque em massa
e, juntos, eles infligiam perdas desproporcionais à sua força numérica.
Vários submarinos, atacando juntos, faziam os vasos de escolta irem além dos
seus limitados recursos, porque, enquanto os escoltas procuravam furiosamente
um submarino, os outros podiam frustrar seus esforços atacando do outro lado
do comboio, ou mesmo de dentro das colunas deste. Além disso, os comandantes
de submarinos não demoraram a compreender que tão logo um barco era afundado,
pelo menos um escolta era obrigado e ficar para trás, para recolher os
sobreviventes, facilitando ainda mais a tarefa dos submarinos. Ou,
alternativamente, um dos navios mercantes se incumbia do socorro aos
náufragos, transformando-se em outra vítima dos submarinos à espreita. Para manter o fluxo constante de informações e comunicações
entre os submarinos e a base, essencial para conservar a arma em sua máxima
eficiência, Doenitz instalou uma "sala de situações" em seu Q-G na
França. Ali, todas as informações possíveis sobre os movimentos de navios
inimigos eram traduzidas na forma de mapas murais. Outros mapas mostravam os
dados pertinentes à navegação, como o estado das marés, condições
atmosféricas e detalhes dos diferentes fusos horários. Com este quadro completo
da situação no mar, Doenitz podia mudar suas "alcatéias" para a
melhor posição possível em que poderiam interceptar os comboios. "Tempo feliz" era a denominação adequada para aquele
verão, que se fez tão profícuo com apenas 57 submarinos permanentemente em
serviço. O que não teria acontecido se Doenitz tivesse recebido os 300
submarinos que havia solicitado! Crescem os problemas: Inverno de 1941 Inevitavelmente, os tempos felizes chegaram ao fim. Nos meses decorridos desde novembro de 1940, tornou-se
necessário muito trabalho de reequipamento. Reduzindo-se drasticamente o
número de barcos disponíveis para operações, diminuiu também o volume dos
afundamentos, que em novembro, por exemplo, caiu para 32 navios, com 147.000
toneladas. Além disso, vários outros fatores combinaram-se para esvaziar a
eficiência dos poucos submarinos que ainda estavam operando. Um desses
fatores foi a mudança do tempo. Naquele ano, a chegada do outono fez do
Atlântico um mar excepcionalmente tempestuoso, e, à medida que o tempo
piorava, os pequenos submarinos eram jogados para lá e para cá, pela agitação
das ondas, como se fossem barris. As águas, erguendo-se acima das torres de
comando, faziam que oficiais e marinheiros de vigia na ponte se amarrassem ao
barco para não ser por elas arrastados. A conjugação desses fatores viria
inevitavelmente a influir na visão dos vigias, dificultando ainda mais a sua
tarefa. Também por isso, foi-se tornando cada vez mais raro avistar um comboio. Em fins de 1940, diminuindo a ameaça de invasão das Ilhas
Britânicas, muitos dos navios por ela retidos foram liberados para
desempenhar um papel cada vez mais importante na proteção dos comboios no
Atlântico, o que obrigou os submarinos a avançar ainda mais para as vastidões
oceânicas, onde os comboios eram bem menos protegidos. Assim, com áreas
maiores para vasculhar, a incidência de comboios avistados diminuiu ainda
mais. Durante todo o mês de dezembro, só um comboio foi encontrado, e, num
ataque noturno de superfície, Schultze, Kretschmer e dois outros torpedearam
e afundaram 10 navios mercantes e mais o cruzador armado Forfar. Porém, por
mais impressionantes que sejam os resultados desse ataque, apenas um comboio
avistado estava longe de ser o que se esperava. Unicamente os encontros fortuitos de navios viajando
desacompanhados mantiveram o desempenho dos submarinos, no mês de dezembro,
no nível de 37 navios, com 213.000 toneladas. As forças de escolta também foram aumentadas pela aquisição, aos
Estados Unidos, de 50 velhos destróieres, em troca do uso de bases nos
territórios britânicos das Índias Ocidentais e Guianas por aquele país. Além
disso, os britânicos estabeleceram uma melhor cooperação entre a marinha e a
força aérea, com o objetivo de dar aos comboios proteção dos aviões,
sobretudo dos aerobotes Sunderland do Comando Costeiro. Com suas cargas de
profundidade aerotransportadas, eles podiam obrigar um submarino em contato
com um comboio a submergir, o que não só reduzia a sua velocidade como também
o "cegava". Se o avião conservasse o submarino submerso por tempo
suficiente, seria possível alterar o rumo do comboio para que se perdesse o
contato. A 4 de dezembro, o Almirantado recebeu ordens de assumir o
controle operacional do Comando Costeiro da RAF e, embora este continuasse
vinculado à Real Força Aérea, o Almirantado pelo menos ganhou o poder de
influir no estabelecimento do número de aviões a ser usados e, com isso, a
proteção aérea dos comboios melhorou muito nos primeiros dias de 1941. O Almirante Doenitz, ao contrário, estava tendo sérias
dificuldades em obter qualquer cooperação da Luftwaffe. Antes da guerra, o
Grande Almirante Raeder tivera demoradas e amargas discussões com Goering
sobre a necessidade da marinha de possuir uma arma aeronaval integrada e
independente da Força Aérea alemã e perdera. Agora que a guerra era uma
realidade, Doenitz via com toda a clareza a desvantagem de seus submarinos
não contarem com um bom elemento de reconhecimento. Projetados
especificamente para ficar achaparrados na água, ao submarino não se abre um
campo de visão muito amplo, mesmo com a colocação de um vigia, armado de
binóculo, no mais alto ponto da torre de comando. E sem reconhecimento aéreo
capaz de vasculhar grandes áreas e dirigir as "alcatéias" para um
comboio avistado, os submarinos estavam inevitavelmente condenados a esperar,
às vezes semanas a fio, até que um comboio passasse fortuitamente pelo seu
caminho. Em dezembro de 1940, Doenitz enviou um memorando ao Alto-Comando
Naval justificando pormenorizadamente a necessidade de reconhecimento aéreo
organizado e sob o controle específico da arma submarina. A 2 de janeiro de
1941, Doenitz avistou-se com Raeder em Berlim e entrou em detalhes sobre o
memorando. Raeder, que sobre o assunto tinha a mesma opinião, arranjou uma
entrevista para Doenitz com o Chefe do Estado-Maior do Q-G Supremo, General
Jodl. Este também ficou profundamente impressionado com a força dos
argumentos de Doenitz e passou a mensagem para Hitler, o que deixou Doenitz
muito satisfeito. A 7 de janeiro, Hitler ordenou pessoalmente que um grupo de
aviões Focke-Wu Kondor de longo alcance, estacionados em Bordéus, fosse
retirado da força aérea de Goering e entregue à arma submarina. Todas essas negociações ocorreram sem o conhecimento de Goering,
que na época estava numa caçada, mas ele soube da medida tão logo retornou. O
choque parecia inevitável. A 7 de fevereiro Goering convidou Doenitz a
visitá-lo em seu trem Q-G, no qual estava viajando perto do posto de comando
francês de Doenitz, e onde este se recusou a cumpliciar-se com Goering para
rescindir a ordem, não aceitou um convite para jantar e partiu no mais gélido
dos ambientes. Os aviões que Doenitz esperava que entrassem em ação
imediatamente, dirigindo os submarinos para os comboios, mostraram-se muito
inferiores às exigências da tarefa. De alcance inadequado e número
insuficiente para cobrir grandes áreas numa busca organizada, sua habilidade
de navegação era tão errada que os submarinos não conseguiam encontrar um comboio
mesmo quando grandes números deles convergiam e saturavam a área onde,
segundo os aviões, o comboio se encontrava. Ironicamente, o primeiro exemplo
de cooperação entre os aviões e os submarinos ocorreu quando o U-37 encontrou
um comboio que rumava para a Grã-Bretanha, vindo de Gibraltar, e, com sinais
de rádio de ondas longas, dirigiu os aviões a 240 km de distância do local em
que se encontrava o comboio, para que eles desfechassem bem sucedido
bombardeio. Era a inversão exata da maneira como se deveria verificar a
cooperação entre as duas armas. Passaram-se muitos meses para que a
experiência e o treinamento pusessem as tripulações dos aviões em ponto de
bala para o desempenho de um papel completo e realmente útil nas operações da
arma submarina. Os desenvolvimentos conseguidos no campo da técnica também
serviram para reduzir a vantagem dos submarinos sobre os escoltas. Em
primeiro lugar, os britânicos desenvolveram um radiogoniômetro preciso que se
opunha à eficiência da tática da "alcatéia". Receptores situados em
terra e em navios, em alto-mar, podiam captar e localizar com precisão os
sinais enviados por um submarino chamando outros ao local e os escoltas
partiam a atacá-los muito antes que eles chegassem ao local, obrigando-os a
mergulhar e a, pelo menos, interromper o contato; quando não os afundavam. Ao fazer pleno uso dos sinais assim captados, e de quaisquer
outras informações, os britânicos opunham à "sala de situações" de
Doenitz a "sala de rastreamento de submarinos" do Almirantado, em Londres.
Ali, toda e qualquer informação era incorporada aos gráficos e mapas, todos
continuamente atualizados, para que se tivesse sempre um quadro completo das
posições das "alcatéias" e dos prováveis movimentos de submarinos
isolados. Então, se um comboio estivesse rumando para local perigoso,
alterava-se rapidamente a sua rota para frustrar o esforço alemão. No importantíssimo campo do radar, uma comparação entre as
experiências britânica e alemã também mostra como eram diferentes em seu espírito
de iniciativa. Quando as manifestações desse fato sé acumularam, devem ter-se
constituído num fator crítico do resultado eventual da guerra. Em janeiro de
1941 o primeiro de um novo tipo de aparelho de radar, menor e menos
complicado que seus predecessores, foi instalado nos aviões do Comando
Costeiro e em alguns dos vasos de escolta. Assim os aviões podiam colaborar
na caça aos submarinos à noite, quando se fazia a maior parte dos ataques,
bem como durante o dia. Os vasos de escolta foram beneficiados porque
passaram a contar com um meio de localizar um submarino na superfície, quando
ficava imune aos sinais do "asdic", podendo então abalroá-lo ou
obrigá-lo a submergir, quando então podia ser novamente captado pelo
"asdic" e ser atacado com cargas de profundidade. Assim, enquanto os britânicos exploravam os desenvolvimentos
técnicos aplicados à guerra, os alemães iam ficando para trás. Desde 1935 a
Alemanha possuía aparelhos de radar no comprimento de onda de meio metro, mas
os cientistas alemães eram excessivamente céticos quanto às vantagens do seu
aperfeiçoamento e não conseguiram explorar as possibilidades de um aparelho
de radar de ondas curtas. Então, em 1940 e 1941, o próprio Hitler agravara o
efeito desse erro suspendendo todos os desenvolvimentos no campo do radar e,
quando o progresso britânico se tornou evidente, já os alemães haviam sido
completamente surpreendidos e lhes seria difícil alcançá-lo. No começo de 1941 já os britânicos faziam o melhor uso possível
do radar, quando iniciaram as patrulhas aéreas de bases localizadas na
Islândia, que havia sido ocupada no ano anterior. Este foi o primeiro estágio
do processo que os Aliados consideravam um dos objetivos mais importantes, o
fechamento do "espaço aéreo vazio" - a área situada entre os
limites alcançados pelos aviões de bases terrestres, em ambos os lados do
Atlântico, e onde os submarinos levavam vantagem. Idêntico "espaço aéreo
vazio" existia na região dos Açores e das Canárias, onde os comboios que
rumavam para o norte, vindos de Serra Leoa e Gibraltar, ficavam além dos
limites da cobertura aérea. Passo a passo, à medida que entrava em serviço
maior quantidade de aviões de longo alcance, os Aliados foram reduzindo esses
espaços vazios e, com isso, tornando as operações dos submarinos
correspondentemente mais difíceis e limitadas. A introdução gradativa desses elementos de proteção foi fazendo
baixar o número de afundamentos pelos submarinos: 21 navios, 127.000
toneladas, em janeiro e 39, 197.000 toneladas; em fevereiro. Estes sucessos
ocorriam sobretudo entre os navios que se desgarravam ou que se recusavam,
por qualquer motivo, a integrar o comboio, saindo da proteção efetiva das
escoltas; estas, naturalmente, eram obrigadas a ficar junto ao comboio, onde
estava a maioria dos navios sob sua responsabilidade. Algum sucesso também
foi obtido por submarinos que Doenitz, sob considerável pressão e com grandes
reservas, concordara em desviar das rotas setentrionais dos comboios para o
Atlântico Sul. Alguns deles colheram bons resultados. Ao largo de Freetown,
na Serra Leoa, mas Doenitz não achava que seu uso naquela área fosse
plenamente justificado. Ele lamentava ter de retirar das rotas setentrionais
dos comboios "olhos" valiosos cujas observações poderiam ter posto
em ação mais submarinos e elevado o número de navios afundados ao nível dos
atingidos durante o verão de 1940. As dificuldades por que as operações dos submarinos estavam
passando nos primeiros meses de 1941 foram resumidas em três acontecimentos
ocorridos num período de poucos dias, no mês de março. As
"alcatéias" do Atlântico Norte receberam ordens para se reunir na
área ao sul da Islândia, onde, segundo Doenitz acreditava, encontrariam
comboios. E ele estava certo. Foi Prien, que como sempre estava no centro da
batalha, quem avistou e comunicou a presença do comboio OB293 no rumo
noroeste. Outros submarinos se aproximaram e, em ataques realizados depois do
anoitecer, afundaram dois navios e danificaram mais dois. Mas os destróieres
estavam incomumente ativos. O velho submarino UA ficou tão avariado por
cargas de profundidade que seu comandante, Eckerman, teve de romper contato e
ir direto para a base. O U-70 foi afundado depois que Matz, seu comandante e
a maior parte da sua tripulação se renderam. Otto Krestschmer, no U-99,
também foi rechaçado, tendo disparado somente a metade dos seus torpedos.
Prien recuou e continuou seguindo o comboio e, às 04:24 h de 7 de março,
comunicou sua posição. Pouco depois, o destróier Wolverine, capitaneado pelo
Comandante Rowland, se abateu sobre o U-47, atacando-o com cargas de
profundidade quando este fazia um mergulho de emergência. Sua hélice foi
danificada e daí por diante fazia um ruído incessante e fatal que manteve a
tripulação do Wolverine em seu encalço sem qualquer dificuldade. Outras
cargas de profundidade foram lançadas e os destroços que subiram à superfície
confirmaram o acerto da pontaria. Não houve sobreviventes. Naquele dia,
quando o posto de comando de Doenitz transmitiu a ordem para que todos os
submarinos dessem a sua posição, o U-47 foi um dos que não responderam; um
chamado específico para que ele indicasse sua posição não teve resposta e as
esperanças foram desaparecendo com o passar do dia. O próprio Doenitz ditou o
necrológio do herói de Scapa Flow. Embora o Supremo Comando ocultasse a morte
de Prien ao público alemão até maio, o gesto de Doenitz dava a medida da
estima e do afeto que tinha pelo seu primeiro e mais bem sucedido comandante
de submarino. Os afundamentos de Prien, quando da sua morte, 28 navios com
160.000 toneladas, só foram igualados pelos conseguidos por um comandante,
Joachim Schepke, no U-100, que tinha a seu crédito 39 navios, com 159.130
toneladas, e superados por Otto Kretschmer, no U-99, com um registro pessoal
de nada menos de 44 navios mercantes e um destróier, num total de 266.629
toneladas. Kretschmer e Schepke estavam na "alcatéia" que travou
contato com o veloz comboio HX112. A 16 de março, pouco depois do anoitecer,
três destróieres localizaram o U-100 à espreita no horizonte e partiram a combatê-lo.
Com a proteção do comboio assim rompida, Kretschmer pôde aproximar-se e
atacar entre as colunas de navios, afundando 5 destes. Os frenéticos sinais
do comboio e o brilho inevitável das chamas atraíram novamente os destróieres
para o comboio e Schepker, livre da incômoda atenção de que fora alvo, pôde
evitá-lo. Mas, por volta das 03:00 h, os destróieres tornaram a descobri-lo e
as cargas de profundidade lançadas obrigaram o U-100 a emergir. O destróier
Vanoc abalroou-o e o afundou e o próprio Schepke, que estava entre o
periscópio e a torre de comando, morreu esmagado pela proa do Vanoc. Meia hora depois, o U-99 de Kretschmer foi captado pelo
"asdic" do destróier Walker, que lançou cargas de profundidade e
também o obrigou a emergir. Kretschmer e a maior parte da sua tripulação
renderam-se e foram recolhidos pelo destróier; pouco depois, o U-99 afundava. A perda dos três mais bem sucedidos e arrojados comandantes de
submarino, ocorrida no espaço de pouco mais de uma semana, foi um golpe
doloroso para a arma submarina e um choque pessoal muito amargo para Doenitz
que, como princípio básico da sua liderança, sempre fizera questão de
estabelecer contato íntimo com os oficiais que lhe estavam subordinados. No
quadro geral, a morte desses comandantes pressagiou o fim dos
"ases" submarinistas, nascendo então a formalização da tática da
"alcatéia" que, diante do desenvolvimento das técnicas de escolta
conseguido pelos britânicos, se impunha como a única base viável para as
futuras operações submarinas. Amplia-se a área da batalha:
Verão de
1941 No decurso dos meses do verão de 1941, os esforços de Doenitz
foram continuamente frustrados pelas ordens que mandavam retirar submarinos
das operações contra os navios mercantes Aliados no Atlântico, e utilizá-los
em diferentes tarefas em outros locais. A força aérea, necessitando de
informações meteorológicas de longa distância, requisitou dois submarinos que
foram permanentemente ocupados na transmissão de boletins. Isto, num momento
em que Doenitz tinha pouquíssimos barcos em condições de operar. Em julho,
depois de iniciada a guerra com a Rússia, seis submarinos foram retirados da
esquadra do Atlântico para as primeiras operações no Ártico, e, como ainda
não havia comboios contra os quais se pudessem aplicar, patrulhavam,
entediados, as vastidões do oceano. Além disso, os submarinos tinham deveres de escolta, coisa que
Doenitz considerava um erro fundamental que a liderança política cometia
quanto à concepção do papel do submarino. Não obstante, os submarinos foram
chamados a escoltar cruzadores auxiliares, navios de abastecimento e vasos
capturados. O submersível era projetado como vaso de caça e ataque. Como
armas de defesa contra ataques aéreos ou de superfície, enfrentando aviões de
mergulho ou navios que podiam atacar com artilharia de longo alcance, os
diminutos submarinos eram visivelmente mal armados e mal equipados. Já então
a experiência deixara claro que a perda de um só integrante de uma
"alcatéia" de patrulha, sobretudo em vista do fracasso dos Focke-Wulf
no trabalho de reconhecimento e comunicação, comprometia a capacidade do
grupo como um todo, e de maneira muito mais séria do que o indicava a sua
importância quimérica. Quando começou a reduzir-se o número de submarinos,
tornou-se acontecimento de certo modo raro manter contato com um comboio e
atacá-lo com força suficiente para frustrar os esforços de um grupo de
escolta ativo. Finalmente, em setembro de 1941, seis submarinos do Atlântico
atravessaram o Estreito de Gibraltar e penetraram no Mediterrâneo, para
ajudar Rommel na campanha da África do Norte. A frota italiana de
abastecimento que servia ao Afrika Korps estava sendo dizimada pela Marinha
Real e as tropas de Rommel corriam o perigo de ficar sem suprimentos. A
introdução de mais quatro submarinos, em princípios de novembro, fez diminuir
a pressão da Marinha Real. A 13 de novembro, o U-81 atacou e torpedeou o
porta-aviões Ark Royal, que afundou depois de adernar por mais de 12 horas,
durante as quais se retirou toda a sua tripulação, excetuando um homem.
Vários dias depois o couraçado Barham foi posto a pique pelo U-331 e, a 14 de
dezembro, o U-557 afundou o Galatea. A transferência desses submarinos para o
Mediterrâneo foi, não há dúvida, vantajosa do ponto de vista local, mas o
estacionamento de dez submarinos no Mediterrâneo oriental e de mais quinze
nas vizinhanças de Gibraltar revelou, por parte de Hitler, falta de
compreensão do que estava acontecendo em áreas mais amplas dos mares. Para os
Aliados, isto representou trânsito menos dramático de seus navios mercantes
no Atlântico e, com a rapidez com que perceberam o aumento das forças de
submarinos na área de Gibraltar, puseram-se a fortificar aliás suas defesas.
Isto resultou em duas desvantagens para os submarinos. Primeiro, devido à proximidade
com a terra, eles eram obrigados a passar a maior parte do tempo submersos,
para não serem avistados pelas intensas patrulhas anti-submarinas, marítimas
e aéreas; assim, só lhes era permitido moverem-se com penosa lentidão, pelos
seus motores elétricos, o que fazia rarear o encontro com as presas que
buscavam. Em segundo lugar, as condições das marés no Estreito de Gibraltar,
que provocavam corrente forte e constante de oeste para leste, do Atlântico
para o Mediterrâneo, eram um problema quase insuperável para os submarinos.
Com a ajuda dessa corrente era-lhes relativamente fácil, pelo menos antes que
os britânicos fortalecessem suas defesas anti-submarinas, a penetração no
Mediterrâneo. Mas, uma vez descoberta a sua presença, tornava-se virtualmente
impossível o retorno ao Atlântico. A marcha contra a maré, de corrente
difícil de vencer, fazia-se demoradamente e dava às defesas, sempre
vigilantes, tempo suficiente para descobri-lo e destruí-lo. Excluídos para
sempre de qualquer atuação fora do Mediterrâneo, esses submarinos foram
metidos numa ratoeira, como disse Doenitz. Em parte como resultado dessa infeliz intromissão no
comportamento da arma submarina, que era uma de suas grandes forças, os
afundamentos durante o verão de 1941 apresentaram drástica redução; depois
dos êxitos de maio (58 navios, com 325.000 toneladas) e junho (61 navios, com
310.000 toneladas), as façanhas decaíram para 22 navios, com 94.000
toneladas, em julho, e 23, com 80.000 toneladas, em agosto. Setembro trouxe
um aumento encorajador, ainda que temporário, no número de navios afundados,
mas isso se deveu em grande parte ao raciocínio quase sempre perfeito de
Doenitz. Ele arrazoava que os parcos resultados de julho e agosto se deviam
não a qualquer fracasso por parte dos poucos submarinos que restavam no
Atlântico ou de suas tripulações, mas à alteração da rota dos comboios,
levada bem para o norte, depois de passarem pela Terra Nova. Quando os
comboios passaram a navegar para o norte, a fim de aproveitarem a cobertura
aérea proporcionada pelos esquadrões de Hudson e Sunderland que decolavam da
Islândia, Doenitz também mudou suas "alcatéias" para lá e, de fato,
os acontecimentos justificaram sua decisão. A 11 de setembro, um lento
comboio, o SC42, foi avistado nas proximidades da costa da Groelândia. Era
ele formado por 64 navios e, embora os submarinos na época não tivessem
conhecimento disso, transportavam mais de meio milhão de toneladas de carga.
Independente do que quer que carregassem, um comboio de 64 navios era um alvo
excepcionalmente agradável, depois dos desapontamentos das semanas
anteriores, e os submarinos começaram a se reunir. A troca, já familiar, de
sinais radiofônicos, captados e interpretados por ambos os lados, levou a uma
alteração da rota do comboio mais para o norte, mas era impossível a evasão.
Na manhã de 9 de setembro, o capitão de um navio mercante que insensatamente
ficara para trás avistou aquela aparição aterradora, a extremidade de um
periscópio surgindo das profundezas para reconhecer a superfície. Naquela
noite, pouco depois do nascer da lua, às 21:30 h, o primeiro navio foi posto
a pique. Antes da meia-noite, quatro submarinos já se haviam reunido e
estavam agindo, alguns deles entre as colunas do comboio, e 8 navios já
estavam no fundo. Mais 4 submarinos apareceram, e as escoltas, apenas 3
corvetas e um destróier canadense, estavam em inferioridade numérica e
reduzidas à tarefa de persegui-los impotentemente por entre os navios. Depois
da meia-noite, com mais 2 navios destruídos, as escoltas localizaram um
submarino submerso e reuniram-se para ataca-lo. Mas o comboio prosseguiu e,
com outros submarinos ameaçando-o, as escoltas foram obrigadas a abandonar a
perseguição ao submarino descoberto. Para esse submarino, como para todos os
outros, a segurança estava no número e a idéia da "alcatéia" provou
seu valor, na defesa e no ataque. Na noite de 10 de setembro, os torpedeamentos recomeçaram e mais
7 navios foram postos a pique. Já então os pedidos de socorro do comboio tinham
atraído mais duas corvetas de escolta - o que não era muito consolo para o
comboio, porquanto um dos navios da escolta original já havia sido destacado
para rebocar um petroleiro para a Islândia. Mas os recém-chegados navios
entraram em ação e, pouco depois, rastrearam e afundaram o U-5I0. No dia
seguinte chegaram outras escoltas, incluindo dois destróieres, o Veteran e o
Leamington, que afundaram o U-207. Então caiu um nevoeiro e os submarinos;
que com sua estrutura delicada não podiam nem mesmo arriscar-se a um
abalroamento acidental, foram obrigados a retirar-se. Em setembro, este sucesso na rota setentrional foi acompanhado
de outros. Quatro navios de um comboio que rumava para leste foram afundados
no Atlântico Ocidental e outros tantos, pertencentes a um comboio de 7 navios
que ia de Freetown para a Grã-Bretanha, foram postos a pique no Atlântico
Norte. Por último, um comboio que vinha de Gibraltar, escoltado por 10
destróieres e corvetas, foi avistado por um avião da arma aérea de Doenitz,
que finalmente se tornara independente. Ele conduziu os submarinos para o
local e estes afundaram 9 navios. Assim, em setembro, o total subiu para 53
navios, com 202.000 toneladas. Durante o resto do ano registrou-se diminuição na atividade dos
submarinos, muitos dos quais foram desviados da arena principal. Depois dos
32 navios, com 157.000 toneladas, afundados em outubro, somente 13, com
62.000 toneladas, foram postos a pique em novembro. Este foi o menor índice
de afundamentos desde maio do ano anterior. Os britânicos contribuíram para essa calmaria com um novo
desenvolvimento defensivo: o aumento da cobertura aérea do "espaço
vazio". No outono de 1941, eles equiparam alguns navios mercantes com
conveses de vôo de catapulta. Esses novos Navios Mercantes com Catapultas
para Aviões, ou CAM (Catapult, Aircraft, Merchantmen), transportavam um só
caça Hurricane que, depois de lançado em vôo, tinha de ser jogado ao mar, no
retorno, quando então o piloto saltava de pára-quedas junto do navio que o
lançou, esperança de ser recolhido. Na maioria dos casos o negócio funcionou
bem. No decorrer do mês de novembro, os poucos afundamentos
provocados pelos submarinos foram acompanhados de infortúnio para dois dos
seus navios de abastecimento. Após um cruzeiro excepcionalmente bem sucedido
no Atlântico, Pacífico e Índico, com 22 navios afundados a seu crédito, o
cruzador Atlantis chegou a um ponto de encontro, a 22 de novembro, para
reabastecer o submarino U-126. Enquanto o comandante do submarino,
Tenente-Comandante Bauer, estava no cruzador providenciando o
reabastecimento, um avião lançado de catapulta do cruzador britânico
Devonshire denunciou a presença das duas belonaves. O Devonshire abriu fogo e
o Atlantis afundou; depois de explodir, mas, devido à presença do submarino,
a belonave britânica não permaneceu no local para recolher os sobreviventes,
deixando ao U-126 a tarefa de cuidar do capitão do Atlantis e de cerca de 100
tripulantes. Um outro navio de abastecimento, o Python, recebeu ordens de
encontrar-se com o U-126 e recolher os sobreviventes do Atlantis, que
aguardavam socorro em seus barcos salva-vidas. Por volta de 25 de novembro já
eles estavam a salvo, a bordo, mas a 1o de dezembro o cruzador
britânico Dorsetshire encontrou o Python e o afundou. Quatro submarinos que
estavam na área distribuíram entre si nada menos de 414 sobreviventes do
Python e do Atlantis e, em condições incrivelmente atravancadas, cruzaram o
Equador a caminho de suas bases. Quatro submarinos italianos participaram do
trabalho de socorro, realizado perto das Ilhas do Cabo Verde, e em fins de
janeiro já todos os sobreviventes estavam a salvo nas bases do Golfo de
Biscaia, após viagem de 8.000 km. Em dezembro de 1941, o número de submarinos em operações estava
reduzido a 12 ao largo de Gibraltar e 15 cobrindo o resto do Atlântico. Nas
circunstâncias, não é de surpreender que os afundamentos provocados pelos
submarinos, durante aquele mês, no Atlântico Norte totalizassem apenas 9
navios, com 46.000 toneladas. As escoltas britânicas que trabalhavam a partir
da base de Gibraltar estavam aumentando seus efetivos. O porta-aviões
auxiliar Audacity, hostilizando permanentemente os submarinos, fez que
baixassem os resultados de suas atividades. Os britânicos reuniram uma
escolta particularmente forte para o comboio HG76, que zarpou de Gibraltar a
14 de dezembro. Com o Audacity como unidade principal da escolta, iam também
2 chalupas, 3 destróieres e 7 corvetas, sob o comando de um marinheiro
britânico que se tornaria famoso como o mais bem sucedido líder de escolta e
o flagelo da arma submarina, o Comandante Walker, a bordo da chalupa Stork. A
luta começou logo depois que o comboio zarpou. Primeiro, dois submarinos que
estavam tentando passar pelo Estreito de Gibraltar foram alvo de ataques
aéreos; no dia seguinte, 15 de dezembro, o U-127 foi afundado por um
destróier. Mas, no dia 16, 9 submarinos fecharam sobre o comboio e, apesar da
incessante cobertura aérea, mantiveram um ataque constante nos dias e noites
que se seguiram. Por volta de 17 de dezembro, encontrando-se o comboio já
fora do alcance das escoltas aéreas baseadas em Gibraltar, mas ainda dentro
dos limites da proteção dada pelos aviões baseados na Inglaterra, a
"alcatéia" de submarinos e o grupo de escolta puderam testar a
disposição para a luta. O resultado do duelo não foi favorável aos alemães. A
17 de dezembro, o U-31 (Tenente-Comandante Baurnann) foi afundado; batendo-se
com as escoltas de superfície e com'os aviões Marletts que decolaram do
Audacity. No dia 18, o U-434 (Tenente-Comandante Heyda) foi posto a pique
pela escolta de superfície e, no dia seguinte, o próprio Comandante Walker, a
bordo do Stork, localizou e meteu no fundo o U-574. A 21 de dezembro, a arma
submarina sofreu uma de suas perdas mais lamentáveis, quando a escolta de superfície
afundou o U-567, que era comandado pelo Tenente-Comandante Endrass, um dos
últimos "ases" submarinistas e um dos mais bem sucedidos de todos.
Em contrapartida, os submarinos conseguiram o feito valioso de afundar o
Audacity, a 21 de dezembro; também o destróier Stanley foi mandado para o
fundo, mas, do comboio propriamente dito, os submarinos só conseguiram
afundar 2 navios mercantes. Esta operação ficou muito dispendiosa, pois
custou a perda de 5 submarinos. A 23 de dezembro os aviões da RAF baseados na
Inglaterra começaram a aparecer sobre o comboio e, uma vez mais, os
submarinos foram obrigados a andar mais freqüentemente sob as águas, e já
então Doenitz não tinha outra alternativa senão mandar suspender os ataques. Depois de uma retumbante derrota, ele foi obrigado a repensar
cuidadosamente as atividades da arma submarina, diante do desenvolvimento de
técnicas defensivas conseguido pelas forças de escolta. Movido pela sua
costumeira tenacidade, Doenitz recusou-se a aceitar a evidência de uma única
operação como base para alterar as táticas dos seus submarinos. Continuou
convencido de que os ataques aos comboios ainda eram a maneira mais lucrativa
de empregar suas forças. Afinal de contas, o HG76 fora protegido por uma
escolta particularmente forte e navegara num mar calmo, o que nunca fora
favorável aos submarinos. Persistia nele a disposição de continuar organizando seus
submarinos em "alcatéias" e de mandá-los assim à caça de comboios.
Mas então, em dezembro, um novo e extraordinário acontecimento viria a pesar
no desenvolvimento da guerra, influindo no rumo das operações submarinas. A 7
de dezembro, aviões japoneses haviam atacado e virtualmente destruído a
Esquadra dos Estados Unidos no Pacífico, que se encontrava ancorada em Pearl
Harbor. E quando, a 11 de dezembro, o governo alemão declarou formalmente
guerra aos Estados Unidos, novas oportunidades se abriram para os submarinos,
que, por enquanto, deixariam para segundo plano a luta feroz e absorvente que
se desenvolvia no Atlântico Norte. Em águas americanas - Janeiro a julho de 1942 Embora a declaração oficial de guerra dos alemães contra os
Estados Unidos da América ocorresse a 11 de dezembro de 1941, o fato não
redundou em duelos imediatos entre os dois novos adversários. É verdade que o
ataque japonês a Pearl Harbor, que precipitou a declaração de hostilidades
por parte dos alemães, fora completa surpresa para o Alto-Comando germânico.
Mas, em conflitos assim, é comum a ocorrência de incidentes que atraem outros
países à luta, e muita coisa vinha já acontecendo para colocar os Estados
Unidos também na trincheira. O governo americano pusera grandes quantidades de armamentos à
disposição dos britânicos muito antes da eclosão da guerra e esta política só
foi abandonada em 1937, quando a Lei da Neutralidade proibiu a exportação de
armas e a concessão de créditos aos beligerantes. Mas esse desejo de
neutralidade não durou muito e, em novembro de 1939, a Lei foi repelida. Em
seu lugar introduziu-se o sistema de "Pagamento a vista e Transporte
Imediatos", que permitia o fornecimento de armas a qualquer beligerante,
contanto que pudesse pagá-las em espécie e levá-las em seus próprios navios.
Isto parecia ser perfeitamente justo, embora só fosse possível aos Aliados,
que tinham o comando dos mares; o sistema não tinha qualquer valor para a
causa alemã, porquanto nenhum dos seus navios mercantes podia navegar em
alto-mar e correr o risco dos ataques do poderio marítimo britânico. Além disso, o Presidente Roosevelt já em julho de 1940 havia
anunciado a intenção de dar toda a ajuda à Grã-Bretanha; exceto entrar na
guerra. Mais tarde, porém, naquele mesmo mês, 50 destróieres obsoletos da
Marinha americana foram transferidos para as forças de escolta de comboio
britânicas, o que até mesmo para Churchill constituía uma violação direta dos
princípios de neutralidade e teria justificado a declaração imediata de
guerra pelos alemães. A ficção americana da preservação da neutralidade não foi
ajudada pela chegada em Londres, em agosto de 1940, de uma delegação da
Marinha dos Estados Unidos, chefiada pelo Almirante Ghormley e composta de
alguns dos membros mais capazes do seu Estado-Maior. O objetivo da missão era obter do Almirantado Britânico, que estava
mais que interessado em envolver os Estados Unidos na guerra, o máximo de
informações possível, depois de quase um ano de experiência na guerra naval.
A missão aprendeu muita coisa com o exame dos métodos e teorias britânicos e
tomou conhecimento dos últimos aperfeiçoamentos introduzidos no uso do radar,
de modo que o Almirante Ghormley pôde comunicar ao seu país que obtivera,
direto dos laboratórios da guerra, informações de valor inestimável para a
defesa nacional. Com referência à navegação mercante, a posição adotada por
Roosevelt não justificava a crença de que os alemães não teriam um dia os
Estados Unidos entre seus inimigos. Em setembro de 1939, imediatamente após a
declaração de guerra da Grã-Bretanha à Alemanha, Roosevelt estabelecera uma
"zona de segurança", situada a muitos quilômetros Atlântico
adentro, e ordenou que belonaves americanas a patrulhassem para preservar a
neutralidade do país, mantendo os navios das nações beligerantes fora dos
seus limites. Apesar da neutralidade oficialmente declarada, as belonaves
americanas, desde o início do conflito, comunicavam as posições dos navios
mercantes alemães aos britânicos. Em fevereiro de 1941, a "zona de
segurança" estendia-se a 26 graus a oeste dos EUA, distando apenas 740
milhas marítimas da costa da Europa. Em julho, ela aproximou-se mais do
continente europeu, fixando-se a 22 graus oeste, para coincidir com a
ocupação, por soldados americanos, da Islândia, que estava dentro da nova
"zona de segurança". A política de Hitler durante esses meses foi evitar ao máximo
quaisquer incidentes que pudessem levar ao início de hostilidades com um novo
e poderoso adversário. Em setembro de 1939 ele emitiu uma ordem ao
Alto-Comando Naval alemão proibindo qualquer incidente que envolvesse navios
dos Estados Unidos. Para a Marinha alemã, era muito difícil a obediência a
tal ordem, muito embora, até o verão de 1941, a tarefa de distinguir entre
navios de um país e de outro, antes do ataque, fosse simplificada pela
determinação americana de evitar a área de bloqueio em torno das Ilhas
Britânicas, onde os submarinos estavam operando. Então, a 20 de junho de
1941, o couraçado americano Texas apareceu nessa área. O U-203 atacou-o a
torpedos, mas errou, e teve a sorte de permanecer inobservado. Para obedecer aos desejos de Hitler, Doenitz emitiu uma ordem
aos comandantes de submarinos, insistindo na identificação absoluta dos alvos
como hostis antes de ataca-los. Desse modo, o aparecimento do Texas nas áreas
do bloqueio britânico proporcionou por algum tempo proteção perfeita a todos
os navios da Marinha Real, pois, até que um comandante de submarino se
assegurasse da identificação do inimigo, em geral era descoberto e atacado
pelos destróieres. Ordens posteriormente dadas sos capitães de submarinos
permitiam retaliação contra quaisquer navios, mas somente depois de terem
sido atacados, e, uma vez que tivessem escapado aos seus perseguidores, não
podiam retornar para fazer contra-ataques. O submarino, limitado por tais
restrições, quase não podia operar. Mas não se podia evitar permanentemente os incidentes nessa
difícil atmosfera. A 4 de setembro de 1941, o destróier americano Greer teve
o mérito de ser o primeiro vaso americano a disparar contra um submarino.
Agindo com base num informe dado por um avião britânico, o Greer localizou e
perseguiu o submarino U-652. Como era então costumeiro, o Greer manteve
contato com o submarino pelo "asdic" e transmitia constantemente
pelo rádio a sua posição a qualquer destróier ou avião que pudesse aproveitar
o informe. Outro avião britânico apareceu no local e lançou quatro bombas de
profundidade; mas todas erraram o alvo. Duas horas depois, o submarino
disparou um torpedo contra o Greer e também errou. O destróier contra-atacou,
errando igualmente. Pouco depois, por se haver perdido o contato, destróier e
submarino seguiram cada qual o seu rumo. Não houve derramamento de sangue,
mas o povo americano ficou extremamente indignado com o ataque ao seu
destróier e, a 15 de setembro, anunciou-se que a Marinha dos Estados Unidos recebera
ordens de capturar ou destruir todos os incursores mercantes do Eixo, que
passaram a ser considerados "piratas". Daí em diante entrou em
vigência a situação de "guerra não-declarada" entre a Alemanha e os
Estados Unidos. Foi também em setembro de 1941 que os navios americanos
assumiram os deveres de escoltar os comboios que navegavam entre a Terra Nova
e a Islândia, com a justificativa de que estavam protegendo a navegação
mercante entre duas bases americanas para abastecer suas tropas. Mesmo diante dos vigorosos protestos do próprio Grande Almirante
Raeder, Hitler permaneceu constante na sua política para com os Estados
Unidos, recusando-se a cancelar a ordem para que os submarinos só tomassem
medidas defensivas. A "guerra não-declarada" teve seus incidentes
inevitáveis, enquanto vasos americanos estivessem escoltando comboios que
zarpavam da Terra Nova. A 10 de outubro, um submarino atacou o comboio SC48 e
torpedeou o destróier americano Kearney, empenhado em tarefas de escolta; o
destróier não foi a pique, mas idêntico ataque ao comboio HX156, a 31 de
outubro, resultou no afundamento, por um submarino, do destróier americano
Reuben James - a primeira perda americana na Batalha do Atlântico. Nessas circunstâncias, não é de surpreender que, depois da
abertura de hostilidades entre Japão e Estados Unidos, a 7 de dezembro,
Hitler, por fim, eliminasse, a 9 de dezembro, todas as restrições às
operações submarinas contra navios americanos, seguindo-se a essa ordem a
declaração de guerra, feita dois dias depois. Na realidade a declaração de
guerra não foi mais que simples cristalização dos acontecimentos, mera
formalidade. Depois da calmaria no Atlântico Norte durante os meses
precedentes, a oportunidade de ataques a navios mercantes americanos era uma
perspectiva convidativa para Doenitz e seus comandantes de submarinos. Os
americanos, apesar da visita de sua missão à Grã-Bretanha, não tinham
experiência prática de combate às operações de uma "alcatéia" de
submarinos. Assim, até que o passar das semanas lhes permitisse organizar
suas defesas e agrupar seus navios mercantes em comboios sob escolta naval e
aérea, as águas ocidentais do Atlântico prometiam boa colheita à arma
submarina. Desse modo, Doenitz propôs que fossem despachados; tirando daqui
ou dali, 12 submarinos, incluindo 6 grandes, do Tipo IXC, então agindo na
área de Gibraltar, mas que, com sua capacidade maior de combustível e
armamentos, evidentemente seriam melhor empregados em operações de longo
alcance. Ele estava acostumado a ver seus pedidos recusados, e este não foi
exceção. Entre 16 e 25 de dezembro, 5 submarinos partiram, dos portos de
Biscaia, em direção ao Atlântico, para a "Operação Paukenschlag"
(Rufar de Timbales), o primeiro golpe da Alemanha contra os navios
americanos. Isto era o disponível da arma que, na época, tinha nada menos de
91 belonaves, das quais 23 estavam retidas no Mediterrâneo ou a caminho dali,
6 encontravam-se ao largo de Gibraltar e 4 ao largo da Noruega. Do restante,
mais de metade estava em reparo nos estaleiros ou aguardando oportunidade
para neles ingressar, e, dos que estavam no mar, ou iam para as áreas de
operações ou retornavam delas. Os 5 comandantes partiram muito animados e, em meados de
janeiro, chegaram à área designada para seu ataque inicial, entre o Golfo de
S. Lourenço e o Cabo Hatteras. Seu otimismo era bem fundado, pois os
americanos não haviam tomado as providências defensivas que se esperava. Os
navios zarpavam com a iluminação de tempo de paz, as cidades situadas ao
longo da costa continuavam fortemente iluminadas e os faróis e bóias ainda
estavam acesos, fornecendo valiosas informações. Os navios mercantes
mantinham abertas suas faixas de ondas de 600 metros enquanto seus operadores
conversavam incessantemente sobre toda a sorte de assuntos, incluindo
detalhes sobre a posição em que se encontravam; as forças de defesa
comunicavam pelo rádio informes sobre hora de partida de destróieres, sobre
patrulhas aéreas e trabalhos de salvamento em execução. Tudo isto era
interceptado pelos comandantes dos submarinos e bem aproveitado. O resultado
foi um verdadeiro holocausto. Durante o dia, os submarinos ficavam imóveis no
fundo do mar, a alguma distância das rotas marítimas. A noite, eles se
aproximavam, submersos, da costa, emergiam no meio dessas rotas e causavam
verdadeira devastação entre os navios mercantes. Quando os 5 submarinos deixaram a área de operações, haviam
afundado navios em quantidade equivalente à do "tempo feliz" no
Atlântico Norte: 8 navios, com 53.000 toneladas (Tenente-Comandante Hardegen,
no U-123), 5 navios, com 50.000 toneladas (Tenente-Comandante Zapp, no U-66),
4 navios, com 31.000 toneladas (Tenente-Comandante Kals, no U-130). Em seu
diário de guerra, Hardegen lamentou que não houvesse mais submarinos na
região. "Se tivéssemos uns 10 ou 20 barcos, estou certo de que todos
teriam conseguido muito sucesso", escreveu ele. Pelo final de janeiro, 62 navios Aliados haviam sido postos a
pique - somando 327.000 toneladas - a maioria em águas americanas. À medida
que chegavam às bases dos submarinos notícias dos afundamentos e de que a
área continuava propícia a novas façanhas, mais belonaves zarpavam. Para
certa surpresa da chefia da arma submarina, descobriu-se que os submarinos de
tamanho médio podiam cruzar o Atlântico e contar ainda com combustível
suficiente para várias semanas de operações ativas. Verificou-se também que,
à velocidade de cruzeiro, se não houvesse necessidade de viajar a grandes
velocidades, eles podiam conservar mais combustível do que se julgara
possível. Os engenheiros ajudavam, inventando variações sobre o modo de
viajar. Eles descobriram que a viagem submersa, usando as baterias, era um
modo excelente de economizar combustível e permitia um bom avanço contra os
fortes ventos invernais que sopravam do oeste, na superfície. Os próprios
tripulantes ajudavam a prolongar as operações, racionando o consumo de água,
de maneira a que alguns reservatórios a ela reservados pudessem carregar
combustível. E para não comprometer o tempo extra que o estratagema proporcionaria,
a tripulação abria mão de parte do já reduzido espaço vital para armazenar
caixas de alimentos e suprimentos. Isso dá a medida da avidez com que as
tripulações de submarinos, muitas recém-treinadas e na sua primeira operação,
ingressavam nessa nova fase. Naturalmente, Doenitz deu ordens para que todos os submarinos
que fossem entrando em condições de operar se equipassem nos portos da França
Ocidental e partissem para a costa americana com a rapidez compatível com a
máxima economia de combustível. Então, a 22 de janeiro, ele recebeu uma ordem
para reduzir consideravelmente as suas forças. Parecia que Hitler havia sido
atacado por novas "intuições". Ele tinha certeza de que os Aliados
se aprontavam para tentar invadir a Noruega que, segundo estava convencido,
era a "zona do destino". Todos os submarinos disponíveis tinham de
se reunir imediatamente nas águas entre a Islândia, as Faeroes e a Escócia,
para desbaratar a esperada invasão. Mas, ao que parece, a
"intuição" não atacou tão fortemente como em outras oportunidades,
pois a 23 de janeiro Doenitz recebeu uma mensagem em completa contradição com
a ordem anterior, deixando entrever que o Führer, sopesando os sucessos
registrados ao largo dos Estados Unidos, sentiu finalmente toda a significação
do trabalho dos submarinos naquela área. A confusão ficou mais ou menos
esclarecida a 6 de fevereiro, diante da ordem para que 12 submarinos rumassem
para a região da Noruega ou ficassem em prontidão nos portos noruegueses e
para que outros 8 permanecessem na área da Islândia e das Hébridas. Outra
ordem, para transferir 20 submarinos para a área norueguesa até 15 de
fevereiro, pôs fim, temporariamente, ao plano de Doenitz de reforçar a
campanha no Atlântico. Como ele ficou com apenas uns 12 submarinos em operação
permanente ao largo da costa dos Estados Unidos, seu sucesso foi ainda mais
espantoso. O primeiro grupo de 5 submarinos que iniciou a "Operação
Paukenschlag" foi seguido, em meados de janeiro, por outro grupo de 5
grandes submarinos deslocados para a ação no Caribe. A data para o início do
seu ataque, cuidadosamente marcada para coincidir com a lua nova e, portanto,
com a máxima escuridão, foi a 16 de fevereiro. Eles tinham ordens diretas do
Almirante Raeder para tentar não só afundar navios mas também bombardear os
tanques de combustível em Aruba e Curaçao que ficavam situados perto da
costa. Os afundamentos começaram imediatamente e o Tenente-Comandante
Hartenstein, no U-156, torpedeou dois petroleiros ao largo de Aruba. Então,
ele decidiu experimentar o bombardeio (Doenitz jamais tivera confiança nessa
idéia), mas seu primeiro cartucho prendeu-se na boca do canhão e explodiu.
Dois marinheiros ficaram feridos e a boca foi destruída, mas Hartenstein
conseguiu salvar o canhão cortando-lhe a parte danificada. Ele abriu fogo
novamente, mas a defesa costeira, recuperando-se da surpresa, retaliou,
obrigando-o a interromper o combate. Raeder, ansioso por infligir o maior
dano possível aos suprimentos aliados de combustível, ordenou que fosse
reiniciado o bombardeio na noite seguinte, mas as defesas, cuidando para que
não fossem surpreendidas segunda vez, determinou que as luzes da costa fossem
apagadas. Os submarinos não puderam localizar seus alvos, sendo então
abandonada a idéia. Eles retornaram ao seu bem provado método de operação e os
sucessos começaram a se acumular. O Tenente-Comandante Achilles entrou com o
U-161 nas baías de Port-of Spain em Trinidad e Port Castries em Santa Lúcia,
afundando vários navios ali ancorados. O Tenente-Comandante Bauer chegou ao
Caribe, num sexto submarino, no começo de março e em duas semanas de
atividade já havia feito descer ao fundo do mar 9 navios. No U-504, o Capitão
Poske foi até a Flórida e ficou operando ao largo dos balneários de Miami e
Palm Beach. A 21 de fevereiro ele afundou um petroleiro; na noite seguinte
afundou um navio de quatro mastros e depois outro petroleiro; mais tarde,
afundou outro petroleiro, num ataque diurno, submerso. Então, três dias
depois, tendo escapada a um destróier que o localizara, fez explodir um navio
cargueiro que transportava automóveis no convés. À parte pequenas diversões contra comboios de Freetown, ao largo
da costa africana, numa tentativa de dissuadir os Aliados de concentrar muito
esforço anti-submarino no Atlântico Ocidental, Doenitz continuou enviando
todos os submarinos que pudesse para as águas americanas, embora não
implicasse isso elevado número de submersíveis, porque o Alto-Comando alemão
não afinava muito com o ponto de vista de Doenitz sobre o valor de uma campanha
encetada contra navios mercantes. Em tempo algum houve mais de 8 submarinos
em ação nesse teatro de guerra o que, para os Aliados, foi muito afortunado,
em vista da destruição que esse punhado estava causando. Março e abril foram
os meses de maior sucesso e, em arrojados ataques individuais, principalmente
contra navios que navegavam desacompanhados, surgiu uma nova geração de
"ases" de submarino, idêntica à que aparecera nos ataques às rotas
setentrionais de comboio antes do desenvolvimento da tática da "alcatéia".
Operando à noite em águas com 5 braças de profundidade no máximo, o que
significava que eram alvos fáceis quando descobertos por qualquer destróier,
eles atacavam navios mercantes muito perto da costa. O Tenente-Comandante
Hardegen, no U-123, meteu a pique 11 navios, entre meados de março e fins de
abril; o Tenente-Comandante Mohr, no U-124, 9 e os Tenentes-Comandantes
Lassen, no U-160, Muzelburg, no U-203, e Topp no U-552, afundaram pelo menos
5 cada um. Não é de espantar que os comandantes de submarinos denominassem
os primeiros meses de 1942 de "segundo tempo feliz", período também
chamado de "alegre massacre" e "temporada de caça aos
americanos", todos nomes perfeitamente adequados. Outro fator que
impediu que os submarinos causassem destruição ainda maior, além da
deficiência em números, foi o problema de combustível, apesar da disposição
das tripulações de passar quase sem água, para que alguns reservatórios de
água carregassem combustível. Para resolver esse problema, Doenitz estava
construindo vários petroleiros submarinos - grandes submarinos, de 1.600
toneladas, pouco manobráveis para operações ativas e apenas equipados com
canhões de convés, para a sua proteção, e sem tubos lança-torpedos. Eles
transportavam 700 toneladas de combustível, destinando aos submarinos
operacionais, menores, até 600 toneladas do combustível que levava. Se cada
um dos 12 submarinos recebesse 50 toneladas extra, ser-lhes-ia possível
estender o raio de ação às partes mais distantes do Caribe ou,
alternativamente, operar por períodos mais longos. Mas essas "vacas
leiteiras", como passaram a ser conhecidas na arma submarina, demoraram
a aparecer. A primeira, o U-459, entrou em serviço ativo em abril, e a 22
daquele mês realizou sua primeira operação de reabastecimento para o U-108,
do Tenente-Comandante Scholtz. Mas já então os americanos haviam melhorado bastante a técnica
de ação anti-submarina, para grande alívio dos britânicos, que observavam com
amargura que muitos de seus navios mercantes estavam sendo perdidos depois de
terem sido escoltados com sucesso, pelo Atlântico, até o litoral americano, e
entregues à falha proteção das forças de escolta americanas. A 14 de abril, o
destróier Roper assinalou o primeiro tento americano contra Doenitz, ao
afundar o U-85, e não demorou para que os submarinos fossem obrigados a sair
das águas rasas, onde sua colheita era tão fácil. Pelo menos na parte
setentrional da costa americana, o sistema de comboio estava começando a ser
introduzido e os submarinos, que até então podiam navegar a esmo e ainda ter
a certeza de encontrar muitos alvos, de repente viram as águas costeiras
desertas de navios por longos períodos de tempo. Os únicos sucessos, no
começo de maio, ocorreram ao largo da Flórida, onde, apesar de virem
melhorando as patrulhas marítimas e aéreas, 3 submarinos afundaram 10 navios
mercantes. Mais para o sul, no Caribe, o apogeu da campanha submarina
prolongou-se pelo mês de maio, porque as forças de defesa não se dedicaram
seriamente à formação de comboios e à elaboração de medidas anti-submarinas,
por não esperarem, talvez, que os submarinos pudessem operar tão longe das
bases, na Biscaia. Evidentemente, não haviam contado com o advento das
"vacas leiteiras". Em meados de junho, estas já haviam reabastecido
20 submarinos, os quais, em conseqüência, puderam continuar operando durante
os meses críticos, isto é, enquanto as defesas não se tornassem mais rígidas.
Seis submarinos, transferidos da costa americana para o Caribe, e outros 4,
desviados para lá quando a caminho do pouco lucrativo litoral oriental,
elevaram para 37 o total de submarinos que ali haviam atuado. Eles
conseguira,m afundar, somente em maio e junho, nada menos de 148 navios, num
total de 752.000 toneladas. Inevitavelmente essas depredações haveriam de alertar
os controladores da navegação mercante no Caribe para as vantagens do sistema
de comboio. Para isso, a Seção de Comboio e Itinerário da Esquadra Americana
criou, em julho, uma complicada rede de comboios entre Port-of Spain, no sul,
passando por Aruba, Panamá e Key West, indo até Halifax, na Nova Escócia, do
norte. Doenitz logo percebeu que o padrão de atuação se estava
repetindo. Lembrou-se também de que, depois do primeiro "tempo
feliz", o inimigo tomara a precaução de despachar seus navios em comboio,
respondendo então a arma submarina com a formação de "alcatéias"
bem organizadas e cuidadosamente controladas, sacrificando-se assim a glória
individual em favor de uma bem estruturada ação coletiva. Já em maio, Doenitz
previra essa possibilidade com relação às águas costeiras americanas. Também
sentiu que, como acontecera antes, à concentração de defesa nas áreas de
maior atividade submarina corresponderia um afrouxamento das medidas
defensivas em outras áreas, o que poderia ser explorado de maneira vantajosa.
Doenitz calculou que, como o Atlântico há algum tempo não vinha registrando
atividades submarinas, os comboios com toda probabilidade estariam
percorrendo a rota mais direta entre a Terra Nova e a Grã-Bretanha (a rota do
grande círculo). Enquanto a campanha americana procurava evoluir, ele decidiu
experimentar sua teoria, dispondo uma "alcatéia" de 8 submarinos ao
longo dessa linha para interceptar quaisquer comboios que a cruzassem. E,
naturalmente, ele tinha razão. O Tenente Hinsch, no U-569, imediatamente
avistou um comboio navegando mais ou menos nessa linha e, junto com 4
submarinos que se encontravam nas proximidades, atacou. Na primeira noite
foram destruídos 7 navios e somente as péssimas condições atmosféricas, que
os levaram a perder contato, é que permitiram aos demais navios mercantes
escapar. Vários outros comboios, avistados durante os dias seguintes,
confirmaram as previsões de Doenitz e, de um dos comboios, a corveta Mimosa e
4 mercantes foram afundados. Estas atividades eram diversões do peso
principal do ataque, naquela fase da luta, mas eram uma promessa clara de
que, quando o "tempo feliz" acabasse, um retorno à campanha contra
os comboios produziria resultados igualmente proveitosos. Enquanto durou, o esforço americano se mostrara mais que
satisfatório. Do número total de afundamentos produzidos pelos submarinos,
nos seis primeiros meses de 1942, 585 navios Aliados, com 3.081.000
toneladas, a grande maioria fora posta a pique no Atlântico Ocidental e no
Caribe. Mesmo assim, esse belo quadro tinha seu lado sombrio. Os estatísticos
navais alemães haviam calculado que a vitória na Batalha do Atlântico,
baseada na premissa de que os navios tinham de ser afundados com mais rapidez
do que o programa de construção dos aliados poderia substituí-los, exigiria a
destruição de pelo menos 700.000 toneladas mensais. O que preocupava Doenitz
era o fato de, mesmo desfrutando inteira liberdade nas águas americanas e com
as escassas defesas da região, a campanha não vir alcançando os resultados especificados.
A única coisa que, na época, aliviava a preocupação do chefe era a
constatação de que todos os afundamentos resultaram apenas na perda de 21
submarinos, e só seis deles ao largo da costa americana. No começo do ano, a
arma submarina tinha 91 belonaves operacionais; no começo de março, os
estaleiros, aumentando a velocidade da produção, fizeram subir o número de
unidades em operação para 111. Em fins de junho, havia 140 em ação e outros
mais quase prontos. Nessa época, os Aliados não estavam afundando submarinos
em número suficiente para impedir o aumento dos efetivos destes e, se o
aumento fosse mantido, então haveria a possibilidade de eles conseguirem
afundar a quantidade desejada de navios. Depois de dois anos e meio de
guerra, a luta pela supremacia marítima ainda estava equilibrada. As vastidões árticas: Inverno e primavera de
1942 Em setembro de 1941 partiu o primeiro de uma série de comboios
que transportavam material bélico das Ilhas Britânicas para a Rússia e os
submarinos estacionados na Noruega começaram longa e intensa guerra contra
esses navios. As condições, para os dois lados, eram difíceis e extremamente
perigosas, com tempestades constantes, temperaturas baixíssimas e o perigo o
sempre presente da banquisa no Círculo Ártico, além da dificuldade do eterno
dia no verão e da eterna escuridão no inverno. Os comboios levavam em média
três semanas para completar a jornada até Murmansk ou Archangel, jornada que
se desenrolava através de águas coalhadas de perigo, presente a cada passo nos
seus 3.200 km de extensão. Os primeiros comboios gozaram da proteção das longas noites,
durante o inverno de 1941-42, mas quando a primavera chegou, com dias mais
prolongados, dando mais oportunidades aos submarinos, a flotilha das Águas
Setentrionais, tendo o urso polar como símbolo, pôde adquirir seus direitos. A 20 de março, o comboio PQ 13 partiu de Reykjavik para a Rússia
e, no dia seguinte, o que vinha em sentido contrário, o QP9, partiu de
Murmansk para a Grã-Bretanha. A necessidade de um navio petroleiro para
acompanhar os mercantes nessa longa viagem convenceu os Aliados a dirigir os
comboios em "pares de interseção", de modo que o petroleiro pudesse
reabastecer o comboio que se dirigia para a Rússia a meio caminho e então
voltar com os navios que rumavam para a Grã-Bretanha. Para o ataque aos dois
comboios, o Alto-Comando alemão preparou a maior ofensiva aérea e submarina
até então organizada. O ataque planejado, porém, não teve êxito. O U-655 foi
o único submarino que encontrou os navios do QP9, mas foi abalroado e posto a
pique pelo caça-minas de escolta Sharpshooter. Os submarinos saíram-se melhor
contra o comboio que vinha da Rússia. A 29 de março, depois que uma violenta
tempestade dispersou os navios que o compunham por 240 km nos mares árticos,
o U-585, que procurava objetivos nessa enorme distância, foi descoberto e
afundado pelo barco de escolta Fury, mas, no dia seguinte, os submarinos
vingaram-se afundando 2 navios mercantes do restante do comboio; que se
somaram a 3 outros metidos a pique por aviões. Nessas águas setentrionais, ao
contrário do que se passava no Atlântico, a batalha contra os comboios não
era exclusividade dos submarinos, que se viram em posição de igualdade com os
navios de superfície e os aviões. O total de unidades afundadas do comboio PQ
13, pelas três armas; 5 navios dos 20 que zarparam, foi aclamado pelos
alemães como um notável sucesso. Os britânicos, embora não considerassem a
perda uma tragédia em si, estavam muito preocupados com o futuro: No começo
de abril, o Primeiro-Lorde do Almirantado expôs à sua comissão de defesa que
o ritmo de perdas poderia vir a comprometer a continuação desses comboios. As vítimas do par seguinte, o PQ 14 e QP 10, 5 navios, dos 24 que
haviam tentado as duas viagens, emprestaram peso à opinião britânica. E no
ataque ao QP 11, comboio que a seguiu saiu para oeste, o U-456 obteve grande
sucesso ao torpedear e avariar o cruzador Edinburgh. Destróieres alemães
deram continuidade ao ataque, e a situação do Edinburgh tornou-se tão ruim,
que sua tripulação teve de ser retirada pelos caça-minas acompanhantes e os
próprios britânicos o afundaram. Quando o comboio PQ 16 zarpou, os Aliados viam claramente que os
submarinos, navios de superfície e aviões, juntos, não dariam qualquer chance
sos comboios que por ali se aventurassem. O Almirantado então recomendou a
suspensão de tais comboios enquanto os aeródromos do norte da Noruega
estivessem abertos aos aviões alemães. Mas o argumento político favorável à
manutenção do fluxo de material bélico para a Rússia foi avassalador e,
antecipando-se plenamente o fato de que cedo ou tarde um comboio sofreria o
desastre, decidiu-se pelo seu prosseguimento. A 21 de maio, os 35 navios do comboio PQ 16 e os 15 do QP 12,
que vinha em direção contrária, zarparam. Mas a esperada desgraça não se
abateu sobre nenhum dos dois. Os submarinos afundaram um navio do comboio
para a Rússia a 26 de maio, mas depois foram rechaçados. Até mesmo Doenitz
elogiou as escoltas por esse esforço e reconheceu que os submarinos o haviam
desapontado. Mas seus colegas da arma aérea, embora comunicassem grandes
feitos, na verdade saíram-se pouco melhor. Eles desfecharam um ataque
concentrado contra o PQ 16, do qual nada menos de 108 aviões participaram, no
dia 27 de maio, mas só conseguiram afundar 6 navios. O comboio QP 12 chegou
sem perdas. Quando, no fim daquele mês, o PQ 17 zarpou, levando 36 navios,
já diminuídas as apreensões do Almirantado, ia em sua companhia poderosa
escolta: 6 destróieres, 4 corvetas, 2 submarinos, 2 navios antiaéreos e 3
navios de salvamento. Uma escaramuça preliminar, com os submarinos, a 1o
de julho, terminou sem danos para ambos os lados, mas a 4 de julho a batalha
começou para valer. Três navios foram afundados por aviões torpedeiros e um
outro ficou avariado. Naquela noite, devido à ameaça de ação de superfície,
por parte dos couraçados Tirpitz e Scheer e do cruzador Hipper, o comboio
recebeu ordens de dispersar. Essa ordem, resultado de certo pânico por parte
dos britânicos, teria conseqüências desastrosas para o comboio. Em três dias,
os submarinos e aviões, atacando os navios espalhados, portanto mal
escoltados, afundaram 17 deles. Quando os remanescentes do comboio chegaram
ao destino, verificou-se que os submarinos haviam afundado 10 navios e os
aviões, 13 cargueiros e um navio de salvamento. Dois navios, dos 36 que
partiram, tinham tido a sorte de retornar nos primeiros estágios da viagem e,
dos restantes, somente 11 navios mercantes e 2 navios de salvamento
sobreviveram. Tinham boa razão para estar satisfeitos os que participaram do
ataque, pois haviam impedido o desembarque na Rússia de 210 dos 297 aviões,
430 dos 594 tanques e 3.350 dos 4.246 outros veículos. Além disso, quase dois
terços do restante da carga enviada aos soviéticos foram afundados. Mesmo que as oportunidades de ação fossem escassas e espaçadas,
mesmo que as condições climáticas fossem as mais difíceis, e mesmo que
tivessem de partilhar seus feitos com as outras armas, o impacto dos submarinos,
cuja atuação atingia o ponto mais elevado, era considerável. Progressos técnicos: Verão de 1942 Enquanto a luta no mar prosseguia com redobrada fúria, outra
batalha, menos espetacular, porém não menos intensiva, estava em
desenvolvimento nos bastidores - a batalha pela supremacia técnica. Os homens
que travavam esse tipo de luta, embora não desfrutassem a glória dos
vitoriosos, nem vivessem, por outro lado, o martírio da vida no mar, tinham
influência, e grande, no curso da guerra. Normalmente, na contribuição desses
homens não havia nada de repentino; a pesquisa e o desenvolvimento
prosseguiam incessantemente, e, sempre que dessa atividade resultasse algo
importante, era imediatamente introduzido em pequenos números, aumentando à
medida que a produção crescesse. Assim, a influência de qualquer conquista de
natureza técnica se fazia sentir às vezes só depois de decorridos vários
meses. Desde os primeiros dias de 1942, os submarinos, particularmente
os que se encontravam no Golfo de Biscaia, vinham informando que estavam
sendo atacados na superfície durante o dia. Os vigias, nas torres de comando,
apesar do estado de alerta em que sempre se conservavam, só conseguiam
avistar o avião atacante muito depois de terem sido vistos por ele. A prova mais
importante de que algo de novo havia estava na prática desenvolvida pelos
aviões, que invariavelmente atacavam vindo da direção do sol ou saindo de uma
nuvem densa, o que levava os alemães a crer que os pilotos britânicos haviam
avistado os submarinos a grande distância e tinham tempo bastante para
manobrar em busca da posição favorável. Os comandantes de submarinos ficaram
ainda mais preocupados quando, navegando na superfície em noites muito
escuras, de repente se viam colhidos com terrível precisão pelo feixe de luz
de um holofote de avião. Usando essa luz de uma distância de até 1.800 m, o
avião se dirigia imediatamente contra o submarino para lhe desfechar o
ataque. A 17 de junho, o Tenente-Comandante Mohr comunicou que sete
vezes; durante um ataque ao comboio ONS100, destróieres apareceram no
horizonte, rumando diretamente contra ele a grande velocidade; os navios de
superfície também haviam desenvolvido uma habilidade nova e misteriosa. Para Doenitz, parecia que os britânicos haviam conseguido um novo
dispositivo de localização de superfície a longa distância, não só novo, mas
altamente eficiente; assim, levou esse misterioso problema para o setor
técnico do Alto-Comando Naval, cuja opinião não contribuiu muito para lhe
diminuir a apreensão. Eles acreditavam que os únicos aparelhos de radar
existentes eram incapazes de localizar um submarino na superfície de águas
que não fossem absolutamente calmas e, mesmo assim, a pequena distância. O
que se ignorava então é que os britânicos haviam inventado um aparelho de
radar de um metro e meio de comprimento de onda, suficientemente pequeno para
ser transportado num avião e que era muito bom para essas tarefas. Sua única
desvantagem é que ele não funcionava quando muito pequena a distância. Nos
últimos estágios de uma aproximação, o contato sumia e somente a observação
visual podia localizar com precisão o submarino. Os britânicos remediaram o
problema logo no começo da guerra, quando Leigh, Líder de Esquadrão, inventou
um holofote adequado para adaptação em avião. Evidentemente, passou-se algum
tempo até que fosse possível instala-lo extensamente nos escoltas de comboio,
mas, em meados de 1942, foi essa "Luz Leigh", juntamente com o novo
radar, que permitiu colher os comandantes de submarinos tão desprevenidos.
Foi nesse tipo de ataques que o I-502 se perdeu, ao retornar de uma bem
sucedida patrulha em águas costeiras americanas, o U-165 foi afundado ao
retornar à França, vindo de Kiel, e três outros, o U-578, U-705 e U-751,
foram postos fora de ação, no Golfo de Biscaia, quando partiam para
operações, sendo obrigados a voltar à base navegando na superfície. Doenitz
chegou à conclusão de que nada menos que um radar aerotransportado, de boa
eficiência; poderia ter resultado nesses dispendiosos ataques de surpresa.
Ele convocou uma reunião, em Paris, com seus consultores técnicos e, depois
de prolongada discussão, elaboraram a base de um plano para combater a ameaça
do radar. Os submarinos foram imediatamente equipados com receptores de
busca, aparelhos que captavam os sinais de um radar inimigo muito antes que
se tornassem suficientemente fortes para refletir-se para o avião. O
dispositivo necessário já existia no Metox francês. As antenas foram
apressadamente improvisadas, consistindo num pedaço de fio enrolado numa
moldura simples, de madeira, vulgarmente conhecida como "Cruz de
Biscaia". Além disso, tomaram-se providências imediatas para desenvolver
e prover os submarinos de um aparelho de radar que eliminaria a desvantagem
do receptor de busca de radar dando uma indicação clara do alcance e direção
do avião. Como medida adicional, começou-se a investigar um modo de isolar os
submarinos, para impedir que o sinal de radar se refletisse para o avião
transmissor na forma de eco. A providência mais urgente, o receptor de busca, com sua
"Cruz de Biscaia", entrou em uso no primeiro submarino no mês de
agosto. Seu efeito foi imediato. Por volta de outubro, a ofensiva aérea
aliada contra os submarinos que entravam e saíam dos portos em Biscaia havia
parado. Estabeleceu-se um impasse, porque, tão logo um avião com radar era
captado no receptor, desmontava-se a cruz, que era levada para dentro do
submarino, e este mergulhava, pondo-se fora de operação. No final do verão de 1942, os britânicos já dispunham de um tipo
melhor de radar, com um comprimento de onda de 10 centímetros que, segundo
achavam, captaria objetos menores a distâncias muito maiores, destruindo a
contramedida aplicada pelos alemães. Felizmente para os submarinos, os
britânicos eram prejudicados pela falta de cooperação que havia entre as
unidades, coisa muito mais comum entre as forças alemães. O Comando de
Bombardeiros britânico, na ânsia de conseguir sucesso em seus bombardeios
sobre a Alemanha, relutava em abrir mão de quaisquer aparelhos novos, sobre
os quais tinha prioridade, para o Comando Costeiro. O Ministério da
Aeronáutica resolveu o problema, ordenando que 40 aparelhos fossem instalados
nos aviões Wellingtons do Comando Costeiro. Contudo, a medida não se revelou
muito útil para uma solução permanente, porque esses primeiros aparelhos não
eram desenhados especificamente para tarefa anti-submarina. Em janeiro de
1943 é que o Comando Costeiro pôde ser equipado com números suficientes da
arma ideal, um bombardeiro dotado de radar e vindo dos Estados Unidos. Enquanto isso, o comando submarino pôs-sé a explorar a vantagem
temporariamente obtida sobre os aviões britânicos. Doenitz pedira cobertura
aérea para escoltar os submarinos avariados no Golfo de Biscaia durante o retorno
à base e recebeu um Focke-Wulf 200, que era tudo quanto fora então destinado
pelo Q-G da Luftwaffe ao Comando Aéreo Atlântico. Doenitz foi pessoalmente a
Rominten, na Prússia Oriental, no começo de julho, onde pediu a Goering que
lhe fornecesse os aviões necessários. A reunião anterior entre os dois fora
realizada em clima de inamistosidade, mas Doenitz, cujo respeito pelo
Retchsmarschall era nenhum, engoliu sua aversão, fez seu pedido
cuidadosamente argumentado e, no fim, conseguiu arrancar do chefe do
Estado-Maior de Goering a transferência para sua responsabilidade de 24 caças
pesados Ju88C6. Comparada com a resposta usual aos seus pedidos, esta foi uma
façanha notável. Como medida defensiva extra, os submarinos, ao retornarem à
base, eram equipados com 4 metralhadoras de 8 mm, até que se instalassem
armas antiaéreas mais pesadas. Além disso, todos receberam ordens de navegar
submersos dia e noite, exceto quando obrigados a recarregar as baterias. Em termos ofensivos também houve progresso. Dois novos tipos de
torpedo, introduzidos em fins de 1942, conferiram sos submarinos maior poder
de afundar navios tão logo era avistado um comboio. Tanto o torpedo FAT
(Flachenabsuchender) como o LUT (Lagenabhängiger) podiam ser disparados
contra um comboio a distância. Disparados, corriam em círculos, entrando e
saindo das linhas de navios, com boa possibilidade de atingir um deles antes
de esgotar sua energia. Mas a solução para o futuro da guerra dos submarinos contra os
navios mercantes dos Aliados estava em algo muito mais fundamental que esses
paliativos. Se, como se desconfiava, os britânicos realmente tivessem
produzido um radar que podia detecta-los a longa distância e que, com toda
probabilidade, podia ser aperfeiçoado, os submarinos seriam virtualmente
inúteis, em qualquer área que estivesse ao alcance de aviões dos Aliados.
Estes nem sequer precisariam atacar; bastaria a sua presença, com a ameaça de
bombardeio ou de lançamento de cargas de profundidade, para que o submarino
procurasse proteger-se, mergulhando. Quando fosse seguro retornar à
superfície, já então, por certo, teria perdido contato com o comboio. Com o
alcance da cobertura aérea aumentando de ambos os lados do Atlântico (em
meados de 1942, o "espaço aéreo vazio" da Groelândia estava reduzido
a apenas 600 milhas marítimas), grandes extensões dos oceanos, sobretudo as
áreas costeiras, estariam proibidas a quaisquer operações por parte da arma
submarina. As restrições que provavelmente se imporiam ao poder de combate
da Marinha alemã, se essas circunstâncias se generalizassem, eram tão
espantosas para Doenitz que, a 24 de junho de 1942, ele foi levado a escrever
ao Comandante-Chefe solicitando uma reavaliação fundamental do lugar do
submarino na guerra. "Devemos, uma vez mais, considerar se as atuais
potencialidades do submarino, como instrumento de guerra, estão à altura das
pesadas exigências que atualmente lhe são feitas, ou se as medidas defensivas
do inimigo já não reduziram substancialmente seu poder de ataque. "Um estudo desse tipo parece-me particularmente apropriado,
neste momento, quando grandes sucessos dos submarinos, obtidos em áreas
fracamente defendidas, poderiam muito bem levar-nos a superestimar o valor do
submarino, perdendo-se de vista o verdadeiro equilíbrio entre ele, como
instrumento de guerra, e as medidas anti-submarinas tomadas pelo inimigo. Na
minha opinião, as potencialidades e as características de combate do
submersível deveriam ser novamente objeto de minucioso exame, e, se
constatada a existência de fraquezas e desvantagens táticas, fossem elas
claramente reconhecidas, para que desse reconhecimento pudessem surgir as
medidas necessárias para a sua erradicação." Doenitz sabia que a conceituação, inicialmente por ele
estabelecida, do submarino como vaso de "mergulho" estava chegando
ao fim. Mas o que o substituiria? Na verdade, muito antes da guerra o Professor Walter, brilhante
projetista alemão de submarino, apresentara a resposta, mas somente em
teoria. A escassez de tempo, de dinheiro e de confiança por parte do
Alto-Comando Naval impediram que a idéia de Walter encontrasse lugar no
programa de construção de submarinos. O que distinguia o projeto de Walter do
desenho ortodoxo era a capacidade de operar em seu elemento próprio e natural
- debaixo de água. Em lugar de ter equipamento de mergulho e um motor
elétrico, lento, para tentar esquivar-se, submerso, de um destróier atacante,
o barco de Walter operaria permanentemente debaixo de água, exceto quando o
conforto da tripulação exigisse a subida à superfície. Em lugar do motor
elétrico, sua principal propulsão submarina era um motor que obtinha seu
suprimento de oxigênio do combustível na forma de peróxido de hidrogênio de
alta potência. Um submarino Walter, de tamanho médio, podia alcançar a
velocidade de 24 nós submerso e mantê-la durante seis horas. As
possibilidades desse projeto eram enormes. O comandante de submarino não
teria mais de perder horas, ou mesmo dias, para passar à frente de um comboio
avistado e tomar uma boa posição de ataque. Ele caminharia para o ataque à
vontade. Um submarino que pudesse desenvolver essa velocidade atrairia os
destróieres facilmente para longe do comboio, poderia aguardar a aproximação
de outros submarinos e até mesmo vencer a escolta na corrida de volta ao
alvo. E, o mais importante, um submarino submerso não teria que temer o radar
aerotransportado, a grande ameaça à sua sobrevivência. Doenitz transmitiu ao
Alto-Comando a esperança que depositava no barco de Walter, em carta datada
de 24 de junho. A carta terminava dizendo: "O desenvolvimento, as
experiências e a construção rápida do submarino Walter são, na minha opinião,
medidas que decidirão toda a questão da guerra". Retorno às rotas dos comboios À medida que a introdução do sistema de comboio punha fim ao
período extraordinariamente bem sucedido ao largo da costa dos Estados Unidos
e no Caribe, a batalha começava a deslocar-se de novo para as rotas dos
comboios do Atlântico Norte. Doenitz sentia perfeitamente bem que a proteção
dada aos comboios costeiros americanos e aos que transportavam materiais
bélicos para a Rússia, através do Ártico, estava exigindo demais das
limitadas escoltas existentes, resultando em certa desproteção aos navios no
Atlântico. Os ataques seletivos que o pessoal de Doenitz realizou no verão comprovaram
o acerto de suas teorias. O que ele não sabia, na época, é que as escoltas
haviam sido reduzidas por imposição dos preparativos para os desembarques
Aliados que se realizariam, em fins de 1942, na África do Norte. Não era só a deficiência de escoltas o que tornava atraentes
essas rotas de comboio. Elas ofereciam a Doenitz a oportunidade de manter o
maior número de submarinos em operações ativas. As longas viagens de ida e
volta ao Caribe seriam reduzidas drasticamente, permitindo que cada submarino
passasse maior parte de qualquer surtida na sua tarefa principal de afundar
navios e que maior número de submarinos se dedicasse àquela tarefa em
qualquer momento determinado. Também era ali que os comboios ainda careciam
de cobertura aérea, que estava provando ser a melhor contramedida já aplicada
à atividade dos submarinos. Doenitz entendia que a situação deveria ser
explorada ao máximo. O "espaço aéreo vazio", que em 1941 ia dos 800
km da costa da Terra Nova a igual distância da costa européia, havia sido
consideravelmente reduzido, e provavelmente se reduziria ainda mais.
Quadrimotores decolavam de bases na América do Norte e Groelândia, Islândia e
Irlanda do Norte - e também da costa africana para proteger os comboios que
partiam de Freetown. Por conseguinte, com o campo de operações assim
diminuído, aos submarinos restava apenas a possibilidade de travar contato
com um comboio numa ou noutra extremidade do "espaço aéreo vazio",
perseguindo-o durante vários dias; até chegar novamente ao alcance de aviões
baseados em terra. Infelizmente para os comboios, eles eram obrigados a,
manter-se na rota mais curta do "grande círculo" pelo Atlântico,
por causa do problema do combustível, o que aumentava a possibilidade de ser
avistados. Por outro lado, as dificuldades da arma submarina foram
agravadas pela relativa inexperiência de muitas das tripulações e
comandantes. Os "ases" dos primeiros tempos eram, na maioria,
produto de longo treinamento realizado nos anos entre as duas guerras,
preparados, portanto, para realizar suas tarefas com habilidade e confiança.
À medida, porém, que o programa de construção de submarinos produzia número
cada vez maior dessas belonaves - em julho de 1942 havia 331 em serviço ativo
- suas tripulações teriam que ser, inevitavelmente, compostas de recém-saídos
de treinamento apenas inicial. Ademais, tão grande era a necessidade da sua
participação na luta contra os comboios; que eles muitas vezes eram mandados
para um ataque tão logo saíam de outro. Freqüentemente, no período intermediário
entre ataques, viam-se na necessidade de, em tempo reduzido, enfrentar o
processo de reabastecimento, em uma "vaca leiteira", em alto-mar, o
que exigia grande habilidade náutica e extrema vigilância, em vista da
possibilidade de serem detectados por escoltas inimigas enquanto os barcos
estavam ligados por mangueiras e cabos na superfície. A tensão provocada por
duas ou três operações assim, uma após outra, era demais para qualquer
tripulação, e muito mais ainda para os mal-saídos do precário treinamento.
Por isso, verificou-se ser essencial trazê-los regularmente para a base, para
um bom descanso. Em vista desses problemas, a 27 de julho Doenitz resolveu
instilar um senso de realidade aos alemães, transmitindo um aviso sobre os
tempos difíceis que os aguardavam. O povo alemão, que exultava com os feitos dos submarinos, sentiu
que depois dos grandes êxitos dos meses anteriores - 144 navios, com 700.000
toneladas, em junho, por exemplo - os afundamentos, como em julho, estavam diminuindo.
A declaração de Doenitz produziu na opinião pública a sensação de que
ocorreriam pesadas baixas, Previsivelmente, o Almirantado Britânico tomou o
fato como indicação de que Doenitz planejava um retorno às rotas de comboio
do Atlântico, e considerou isto como uma informação de fonte autorizada. E
estava certo. Dois ataques, de uma "alcatéia" de submarinos; contra
comboios, nas últimas semanas de julho, fracassaram por causa das condições
climáticas. Um ciclone protegeu o primeiro comboio e o segundo foi salvo pelo
nevoeiro. Então o Tenente-Comandante Kelbling, no U-593, travou contato com
outro comboio, o SC94, que rumava da Nova Escócia para leste. Ele o
acompanhou durante vários dias, até que, finalmente, a 5 de agosto, os outros
submarinos do seu grupo juntaram-se a ele. A escolta consistia de um
destróier e 6 corvetas. Antes, o destróier se destacara do comboio para
reconduzir a ele vários navios que se tinham dispersado no denso nevoeiro.
Foi na ausência do destróier que os submarinos torpedearam e afundaram seu
primeiro navio, o Spar. O nevoeiro ajudou a proteger os submarinos, mas na
tarde de 6 de agosto ele diminuiu por instantes e o Tenente-Comandante
Lemcke, no U-210, se viu na superfície bem à vista do comboio. O destróier
Assiniboine e a corveta Dianthus foram na sua direção, obrigando-o a
submergir. Desceram as cargas de profundidade e o U-210 ficou seriamente
avariado. Depois do que pareceu uma eternidade, as cargas pararam e o
submarino, em más condições, não podia ficar mais submerso. Esperando que as
escoltas tivessem abandonado a perseguição, Lemcke emergiu seu barco, que já
estava fazendo água, na esperança de poder escapar com seus motores diesel.
Ele viu que emergira a 8 km do Assiniboine, mas sua má sorte, naquele dia,
não terminara. Uma vez mais o nevoeiro levantou e a tripulação do destróier
pôde ver claramente o submarino. O Assiniboine lançou-se em seu encalço, pelo
nevoeiro, perdendo-o de vista e tornando a avista-lo, até que conseguiu uma
boa posição para atirar. Uma granada atingiu a torre de comando do submarino,
mas este respondeu com um tiro que provocou um incêndio no destróier, matou
um homem e feriu 13 outros. Habilmente, Lemcke fez seu barco dar curvas
fechadas para evitar as tentativas do Assiniboine de abalroá-lo, chegando
mesmo a realizar a audaciosa manobra de navegar tão perto do destróier, que
os canhões deste não podiam ser assestados contra ele. Navegando junto do
destróier, ele ficou a salvo por instantes. Mas não era uma solução
permanente. Tentando outra tática, ele procurou mergulhar, mas o destróier
fez uma curva a todo leme, e por fim pôde abalroa-lo. Depois conseguiu
golpear o submarino de través e, quando este rodopiou, o destróier lançou
cargas de profundidade pela popa. Finalmente, uma granada de 120 mm atingiu o
submarino na proa e este afundou, depois que Lemcke e sua tripulação o
abandonaram. Os sobreviventes foram recolhidos pelo Assiniboine e pela
corveta Dianthus, que aparecera a tempo de assistir ao final do duelo, mas os
alemães tiveram a satisfação de saber que haviam avariado de tal forma o
Assiniboine, que ele foi obrigado a deixar o comboio e retornar à base. Durante os três dias seguintes, as 5 corvetas que constituíam
então toda a escolta estiveram ocupadas em rechaçar os submarinos que avistavam.
Na tarde de 8 de agosto, um belo dia de verão, os submarinos tornaram a
atacar; 5 navios foram atingidos por torpedos em poucos minutos e 3 deles
afundaram imediatamente. As explosões nos outros dois, que continuaram à tona
por algum tempo, provocaram pânico e confusão em todo o comboio. As
tripulações de três outros navios, amedrontadas, pararam os motores e
correram para os barcos salva-vidas. A guarnição do canhão de um dos navios
simplesmente se jogou ao mar. Duas das tripulações, percebendo afinal que
seus navios não haviam sido torpedeados, tornaram a embarcar e puseram-nos em
movimento. Mas a tripulação do terceiro navio abandonado, o Radchurch, não
voltou. Vogando indefeso, ele não demorou a ser posto a pique por um
submarino. Os ataques prosseguiram por toda aquela tarde e noite. A corveta
Dianthus, que se movimentava com grande energia por entre o comboio, em busca
dos submarinos, por fim teve seu momento de glória quando lançou cargas de
profundidade contra o U-379, do Tenente-Comandante Kettner, que o fizeram
emergir e, por abalroamento, o afundou. Em grande parte, a escolta manteve os
outros submarinos na defensiva, e três deles foram danificados, mas, entre
si, afundaram mais 4 navios mercantes. Doenitz mandou submarinos de reforço
para o local, na tarde de 9 de agosto, e os britânicos responderam reforçando
os vasos de escolta, mas foi o próprio avanço do comboio que finalmente o
salvou, pois ele entrou na área coberta pelos Liberator que decolavam da
Irlanda do Norte. Naquele dia, os submarinos não puderam fazer mais nada.
Porém na manhã seguinte, bem cedo, antes que os bombardeiros chegassem, eles
afundaram mais 4 navios e, daí por diante, foram obrigados a permanecer
submersos e Doenitz mandou suspender o ataque. A "alcatéia"
afundara 11 navios, com mais de 52.000 toneladas. Nas rotas de comboio meridionais, os submarinos estavam colhendo
idênticos sucessos. Operando no "espaço aéreo vazio" da região dos
Açores, no trecho situado entre a cobertura aérea de Gibraltar e a das Ilhas
Britânicas, eles atacaram o comboio SL118, que zarpara a 14 de agosto, e o
subseqüente, o SL119, afundando 5 navios dos dois, num total de 42.000
toneladas. Somente o U-566, do Tenente-Comandante Remus, foi avariado, mas
sua tripulação pôde reparar os danos e ele chegou à base. Os ataques prosseguiram em setembro, alguns bem sucedidos,
outros não. O comboio ON 127, que rumava para oeste, foi avistado no
Atlântico Norte, além do alcance da cobertura aérea e os submarinos o
atacaram incessantemente, durante quatro dias. Dessa vez eles levaram a
melhor sobre a escolta, totalmente formada de navios canadenses desprovidos
de equipamentos de radar. Os submarinos afundaram 7 navios mercantes, num
total de 50.000 toneladas, danificaram outros 4 e também afundaram o destróier
Ottawa; nenhum dos submarinos sofreu qualquer dano. Foi em setembro que a arma submarina se envolveu num incidente
infeliz, com prolongadas repercussões mundiais. Em meados de agosto, um grupo
de 4 submarinos e uma "vaca leiteira" haviam zarpado dos portos do
Golfo de Biscaia, para operar contra alvos logo ao sul do Equador. Suas
ordens eram para atacar somente os alvos realmente valiosos, naquela região,
porquanto um número excessivamente grande de torpedeamentos poderia levar os
Aliados a aumentar as escoltas nas rotas dos comboios da Cidade do Cabo antes
que se pudesse realizar afundamentos proveitosos. A 12 de setembro, o U-156,
do Tenente-Comandante Hartenstein, afundou o navio de passageiros britânico
Laconia, que transportava 268 soldados britânicos de licença e suas famílias
e 1.800 prisioneiros de guerra italianos. Quando Doenitz soube quem eram os
passageiros, deu ordens para que Hartenstein e outros submarinos recolhessem
os sobreviventes. Enquanto Hartenstein tinha seu submarino repleto dos que
havia salvo e rebocava outros em barcos salva-vidas ao encontro de uma
belonave francesa de Vichy, que vinha de Dacar, um avião Liberator americano
o sobrevoou e lançou bombas. Para salvar seu submarino, Hartenstein
transferiu todos os que trazia a bordo para os barcos salva-vidas, soltou-os
e submergiu. Subseqüentemente, Doenitz ordenou a Hartenstem que tomasse todas
as providências para garantir a segurança do seu barco, inclusive abandonar
as operações de salvamento. Mais tarde, naquela noite, 16 de setembro,
Doenitz ordenou aos outros submarinos que conservassem apenas os italianos a
bordo e transferissem todos os outros sobreviventes para os barcos
salva-vidas. Naquela tarde, o U-506, que ainda não cumprira essa ordem, e
tinha a bordo 142 sobreviventes, incluindo mulheres e crianças, foi atacado e
bombardeado por um aerobote, mas felizmente as bombas explodiram quando o
U-506 estava a 60 m de profundidade. Como resultado desse ataque, Doenitz
emitiu a todos os comandantes de submarino o que passou a ser conhecido como
a "Ordem Laconia", que estipulava que as tentativas de salvamento
de tripulações de navios afundados cessariam, incluindo o recolhimento de
homens do mar, reposição de barcos salva-vidas emborcados na sua correta
posição e o fornecimento de alimento e água. Doenitz explicou que essas
atividades prejudicavam o objetivo principal da guerra submarina: a
destruição de navios inimigos e suas tripulações. A celeuma provocada pela "Ordem Laconia" atingiu
proporções internacionais. Era voz geral que a ordem de Doenitz determinava,
em última análise, o assassinato dos sobreviventes dos naufrágios. Depois da
guerra, o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg verificou não ter sido
este o caso, e Doenitz foi inocentado da acusação. A repercussão do caso do Laconia e do destino dos seus
sobreviventes naturalmente não impediu que os ataques aos comboios
continuassem. Em meados de setembro, o número de submarinos em operações no
Atlântico Norte subiu para 20, mas a ocorrência de violentas tempestades não
permitiu que as escoltas, os navios mercantes e os submarinos dessem a menor
atenção uns aos outros, tão urgente a necessidade de cuidar da própria
segurança. O mau tempo persistiu até o começo de outubro e os navios de ambos
os lados, muitas vezes ao alcance da vista e dos canhões uns dos outros, nada
podiam fazer, exceto enfrentar os temporais. Embora nada agradável, a
borrasca salvou vários comboios. A 10 de outubro, um grupo de 10 submarinos navegava ao largo da
Terra Nova, na expectativa de comboios que partissem dos Estados Unidos para
o leste. Eram eles uma das duas "alcatéias" em que os 20 se haviam
dividido. Uma delas recebeu ordens de patrulhar os limites do "espaço
aéreo vazio", na esperança de encontrar o comboio SC 104, que vinha de
Sydney para a Nova Escócia. Mas só foi avistada uma corveta solitária na
extremidade norte da linha de patrulha. Parecia que a presa escapara. Doenitz
imediatamente desviou toda a "alcatéia" para nordeste, mandando-a
para onde imaginava que o comboio estivesse. Sem nenhuma prova concreta, ele
estava orientando-se pelo sexto sentido, faculdade que a arma submarina e a
organização da escolta, de ambos os lados, tinham como instrumento de grande
importância para rastrear navios inimigos e prever seus movimentos. A
intuição de Doenitz deu resultado. A 12 de outubro, um dos submarinos tornou
a avistar a corveta, seguindo-a, sem ser visto, até a presença do comboio.
Ali estavam 47 navios, com uma escolta de apenas 2 destróieres e 4 corvetas.
Logo o ar ficou cheio de mensagens, chamando outros submarinos para o ataque.
Naturalmente os sinais foram interceptados e, orientando-se pelos goniômetros
de alta freqüência, as escoltas se abateram sobre os submarinos, obrigando
muitos deles a submergir. Mas o Tenente-Comandante Trojer, no U-221, penetrou
as fileiras do comboio e afundou 3 navios, na primeira noite. As condições
eram ideais para as operações dos submarinos, porque a ondulação meio forte
do Atlântico prejudicava o funcionamento dos "asdics" da pequena escolta,
de modo que, uma vez submerso, o submarino ficava virtualmente a salvo. Na
noite seguinte, Trojer estava de novo entre os navios e, escolhendo o alvo à
vontade, afundou mais 4. Trojer foi o "astro" da jornada. Se ele
conseguiu abater 7 navios, com mais de 40.000 toneladas, enquanto que os
restantes submarinos conseguiram afundar somente mais um navio e, no ataque,
dois submarinos foram postos a pique. O U-619, abalroado a grande velocidade
pelo destróier Viscount, na noite de 15 de outubro, foi um deles. Melhorando,
porém, as condições do tempo, a tarefa da escolta tornou-se mais fácil. O
destróier Fame localizou o U-353, atacando-o com cargas de profundidade. Este
emergiu e sua tripulação o abandonou rapidamente, mas antes que o submarino
afundasse, um grupo do Fame subiu a bordo e apreendeu boa quantidade de
papéis da belonave que foram de grande valor para o Serviço de Inteligência
aliado. A pressão dos ataques continuou aumentando, pelo final de
outubro. Tão logo era comunicada a descoberta de um comboio, ou se decifrava
um sinal inimigo, as "alcatéias" de submarinos partiam no seu
encalço, mesmo nas semanas de tempo desfavorável. Porém, muitas vezes era uma
descoberta fortuita que colocava um comboio no caminho da patrulha de
submarinos. A 26 de outubro, por exemplo, enquanto procurava um esperado
comboio no rumo oeste, uma linha de patrulha encontrou o comboio HX212, que
rumava para leste, navegando direto para o seu centro. Os barcos da coluna
central ficaram para trás, antes de se aproximarem do comboio, e os
adjacentes convergiram, atraindo os navios mercantes para a boca da
armadilha. As tempestades haviam amainado o suficiente para os submarinos
poderem mirar e disparar torpedos, embora as condições do mar não permitissem
ainda às escoltas a obtenção de imagens claras de radar ou o funcionamento
preciso do "asdic". Durante a noite de 28 de outubro, eles se
abateram sobre a presa e afundaram 7 navios, com 52.000 toneladas. Dois dias depois, o componente de um grupo avistou um comboio
navegando para leste, bem perto da costa da Terra Nova, e uma feliz
interceptação telegráfica informou ao comando submarino do rumo que esse
comboio, o SC 107, tomaria. Foi fácil preparar o resto do grupo para um
ataque e, para infelicidade do comboio, ele permaneceu na rota transmitida e
seis deles entraram em contato. Porém, insensatamente, eles se mostraram
quando ainda estavam ao alcance dos aviões que decolavam da Terra Nova, e o
U-520 e o U-658 foram afundados pela Real Força Aérea Canadense. A 1o
de novembro, já tendo o comboio ultrapassado o limite da escolta aérea, os
submarinos conseguiram em duas noites afundar 13 navios, num total de 88.000
toneladas. Então chegaram os aviões das bases da Islândia, e um .=Liberator
afundou o U-132. Daquele ponto em diante havia cobertura aérea contínua, por
isso foi suspenso o ataque. Ao sul, um ataque ao comboio SL125, ao largo da
Ilha da Madeira, foi muito bem sucedido; durou ele sete noites, e em
sucessivos ataques os submarinos afundaram 13 navios, com 86.000 toneladas,
sem perder um só dos seus. Mas acontece que o SL125 foi uma isca eficaz, ainda que
dispendiosa. Ele atraiu os submarinos para longe de alvos ainda mais
promissores. Naquele tempo, numerosos transportes de tropas e navios de
suprimentos estavam navegando para Gibraltar, para os exércitos Aliados que
participavam da "Operação Tocha", campanha realizada na África do
Norte. Além de funcionar como isca, o SL125, sofrendo um ataque prolongado,
manteve os Aliados adequadamente informados das posições da maioria dos
submarinos, podendo, assim, afastar os transportes de tropas das zonas de
perigo. Os desembarques feitos na África do Norte surpreenderam
completamente o Alto-Comando alemão, devido principalmente ao fracasso do seu
serviço de inteligência. A 8 de novembro, Doenitz recebeu informações sobre
os desembarques Aliados na costa do Marrocos e desviou para lá,
imediatamente, todos os submarinos que operavam entre as Ilhas do Cabo Verde
e Gibraltar, assim como os que tinham como área de operação o Atlântico
Norte, exceto os que não possuíam combustível suficiente para a viagem. Eles
começaram a chegar lá a 11 de novembro, quando verificaram que os
desembarques eram protegidos por pesadas concentrações de destróieres, aviões
e até mesmo instalações de radar montadas m costa. Mesmo assim, os submarinos
começaram a atacar. O Tenente Schweichel, no U-173, penetrou o cordão
protetor e acertou 3 navios, nenhum dos quais afundou. Durante a noite de 12
de novembro, o Comandante Kals, no U-150, navegou bem junto da costa, usando
o periscópio para rápida observações, e afundou 3 transportes; então, com o
arrojo que vence batalhas enquanto a escolta esperava que ele tentasse fugir
para alto-mar, aproximou-se ainda mais da costa e escapou para o norte. Doenitz fazia restrições ao emprego de submarinos ao largo de
Gibraltar. É certo que ali se encontravam grandes alvos, mas as poderosas
escoltas aéreas e de superfície inibiram de tal forma a atividade dos
submarinos e destruíram tantos deles antes que pudessem sequer iniciar suas
operações, que Doenitz foi levado a considerar a área como
"mortífera". O desapontamento que demonstrou ao receber, em meados
de novembro, ordens de manter permanentemente em operação 20 submarinos ao
largo de Gibralar e de substituir os vários que se perderam no Mediterrâneo
era perfeitamente compreensível. Ele apresentou suas objeções ao alto-Comando
Naval e lhe permitiram reduzir os 20 para 12, e mandar somente 4 submarinos
para o Mediterrâneo, como substituições, independente do número perdido. O que mais afligia Doenitz, com relação à ordem, era ter ela
sido emitida no momento em que, devido à concentração Aliada nos desembarques
na África do Norte e graças à proteção generosa dada aos transportes de
tropas e navios de suprimentos, os comboios no Atlântico estariam
virtualmente sem escoltas. Doenitz entendia que a menor contribuição que
poderia fazer para que fossem alcançados os objetivos que seu governo
perseguia estava em anular o transporte mercante. Ele sabia que o afundamento
de qualquer navio, em qualquer parte, teria repercussões não só na área da
ocorrência como também por toda a rede de abastecimento e comunicações
Aliada. Excetuando-se uma ou outra circunstância em que um ataque-relâmpago
poderia desbaratar uma operação real, Doenitz achava loucura anular o
potencial de um submarino, lançando-o contra as mais pesadas concentrações
possíveis de vasos de escolta. Foi com essas considerações em mente que Doenitz conseguiu, com
permissão, alterar ligeiramente a ordem de novembro, e deslocar seus
submarinos de Gibraltar para o centro do Atlântico, a oeste dos Açores, a fim
de interceptar comboios de reforços para as forças de desembarque americanas.
Mas o que conseguiu não foi o bastante ra lhe render uma medida significativa
de cesso. Somente 4 navios foram postos a pique, a 6 de dezembro. Por volta
de 23 do mesmo mês, o Alto-Comando Naval passou esposar o mesmo ponto de
vista que Doenitz, quanto à inocuidade das operações contra os desembarques
Aliados na África do Norte, cancelando-se, desse modo, essas atividades. Entrementes, os poucos submarinos cujo suprimento de combustível
não lhes permitira ir até a costa marroquina no começo de novembro, mais os 8
que Doenitz conseguira tirar da patrulha em Gibraltar, estavam agindo contra
as rotas normais de comboios. Nos dias 17 e 18 de novembro, o primeiro grupo
atacou o comboio ONS144 no "espaço aéreo vazio" e afundou 5 navios
mercantes e uma corveta da escolta. Então, seus suprimentos de combustível
acabaram de verdade e eles convergiram para o petroleiro submarino U-460,
para reabastecer. Foi então que se desencadeou um furação e durante dias eles
foram atirados para lá e para cá, pelo oceano, sem potência suficiente que
lhes permitisse avançar para se manterem mais ou menos aprumados. Desligaram
a energia elétrica e fecharam o serviço de cozinha, porque não podiam
recarregar as baterias; quando a tempestade, por fim, amainou, todos tiveram
de fazer amplo uso do rádio para restabelecer contato com o petroleiro. Sem
energia elétrica e sem combustível para recarregar suas baterias, eles não
podiam submergir, e só lhes restava rezar para que seus sinais não atraíssem
o inimigo para o local. Mas, finalmente, todos se reuniram com a "vaca
leiteira", reabasteceram-se e partiram às pressas para as bases do Golfo
de Biscaia. Houve alguns sucessos moderados, embora fossem perturbados pelo
afundamento acidental do U-254, em virtude de colisão com outro submarino. Em
meados de dezembro o tempo novamente se conturbou, obrigando a outra
paralisação de operações. Somente a 27 é que foi possível atacar um comboio.
Em duas noites consecutivas, valendo-se da proteção de um nevoeiro que
envolvia intermitentemente os navios, os submarinos afundaram 13 unidades do
comboio ONS154, num total de 67.000 toneladas. O ataque encerrou as ações do
ano contra as rotas de comboio do Atlântico. Durante a segunda metade desse ano de 1942, paralelamente a
esses grandes ataques, grupos de submarinos causaram também impacto contra
navios mercantes em águas mais distantes. A introdução do sistema de comboio
fora da costa americana havia tornado insustentável aquela região para os
submarinos, mas nas águas do Caribe e ao largo de Trinidad muitos navios
ainda estavam viajando sozinhos, havendo boas probabilidades de ataques de
surpresa. Uma área particularmente favorável era o Canal do Vento, entre Cuba
e Haiti, onde os comboios estavam operando por volta de agosto, mas os navios
que viajavam de Trinidad para oeste e do Panamá para o norte eram obrigados a
convergir para ali, por causa da topografia das ilhas. As rotas seguidas
pelos navios mercantes eram tão previsíveis que um submarino que fazia
contato podia facilmente dirigir os outros para um rumo provável. Embora
muito ativa a escolta, os capitães de submarinos logo descobriram que um
pouco de arrojo pagava excelentes dividendos, e que, quanto mais penetrassem
as colunas do comboio e quanto mais próximos dos navios de escolta, menor o
perigo, porque o radar aerotransportado quase nunca os encontrava. Em agosto
de 1942 essas táticas permitiram o afundamento de 15 navios, com 87.603
toneladas. Dois submarinos foram perdidos, e então, à medida que as escoltas
começavam a superar as dificuldades impostas pela tática adotada pelos
submarinos, tornando-se mais hábeis e alerta, foram-nos obrigando a recuar
para as águas em torno de Trinidad, para o estuário do Rio Orinoco e para a
costa das Guianas. A presença de navios mercantes era intermitente, mas
quando eles apareceram, carregados, e com somente 8 submarinos operando, nada
menos de 29 navios foram afundados em setembro, num total de 143.000
toneladas. Diferentemente com o sucedido no Canal do Vento, os afundamentos
continuaram até outubro, quando foram pegados 17 navios, com 82.000
toneladas, e novembro, com 25 navios, num total de 150.000 toneladas. As águas ao largo de Freetown também ofereciam boas
oportunidades para ação, embora não fossem de modo algum o rico veio que a
arma submarina esperava. E do outro lado, a declaração de guerra às potências
do Eixo feita pelo Brasil - devida exatamente aos submarinos que atacaram sua
navegação costeira - fez que se estendessem à estreita faixa marítima situada
entre a África e a América do Sul as atividades dos submarinos, sobretudo
contra as formações de navios-frigoríficos que transportavam carne para o
povo da Grã-Bretanha. Porém, a região decididamente mais importante eram as
águas da Cidade do Cabo, onde nenhum submarino operara antes. Quando os
mandou para lá, Doenitz calculou que elemento surpresa por certo traria
excelente resultados. Era uma viagem de 9.600 km só poderia ser realizada com
a ajuda de um "vaca leiteira", para lhes fornecer o combustível e
os suprimentos necessários à viagem. O primeiro grupo, chamado "Urso
Polar" formado por submarinos Tipo IXC e um petroleiro submarino, partiu
de suas bases em meados de agosto e, depois de se reabastecerem no Atlântico
Sul, chegaram à Cidade do Cabo. Mas se perdera o elemento surpresa. Soube-se mais tarde que, de
algum modo, a sala de rastreamento de submarinos do Almirantado Britânico foi
informada do movimento determinado por Doenitz e providenciou para que os
navios mercantes deixassem rapidamente as rotas da Cidade do Cabo. Em lugar
das rotas marítimas atravancadas de vítimas à espera de ataques, os submarino
encontraram um mar vasto e vazio e tiveram de vasculhá-lo à procura de
presas. Simultaneamente com a chegada do grupo submarinos IXC, o primeiro
barco de uma classe nova e importante, o Tipo IXD2 chegou ao largo da Cidade
do Cabo. Este eram os "cruzadores artilhados", de desenho de antes
da guerra, mas que tinham sido convertidos, de modo que seu armamento
principal era o torpedo. Com um deslocamento de 1.365 toneladas, o raio de
ação desses barcos era de 50.400 km, sendo particularmente adequados para
operações longo alcance. O U-179, do Tenente-Comandante Sobe, embora
estreasse ali auspiciosamente, afundando um navio no primeiro ataque
desferido, foi avistado pelo destróier Active naquele mesmo dia e posto a
pique. Os submarinos Tipo IXC, embora não encontrassem alvos facilmente, foram
bem sucedidos na busca aos navios mercantes, pelo final de outubro haviam
afundado navios, com 161.000 toneladas, incluindo transportes de tropas
Oronsay, de 24.043 toneladas, Orcades, de 23.456 toneladas, e Duchess of
Atholl, de 20.119 toneladas. Estes e outros sucessos deveram-se à falta de escoltas para
esses navios. Não bastava alteração da rota: ainda havia muitos alvos para
manter os submarinos ativos, contanto que saíssem à sua procura. O
Almirantado Britânico revidou, despachando para a Cidade do Cabo 12
traineiras anti-submarinas das costas ocidentais, além de 18 outras que
haviam sido emprestadas pelo Departamento da Marinha dos Estados Unidos, além
de destróieres e corvetas da Força de Escolta de Halifax e da Esquadra
Oriental. Mas só no final do ano é que eles chegaram e puderam ser
organizados numa frota de escolta eficiente. A decisão de Doenitz de gastar
tempo e combustível num projeto de longa distância para procurar e atacar o
inimigo em seus "pontos fracos" ficou assim plenamente justificada. Em meados de outubro, a escassez de combustível obrigou os
submarinos de pequeno alcance do grupo "Urso Polar" a voltar à
base, mas a continuidade foi mantida com a chegada de três submarinos de
longo alcance. Estes, além de agirem nas águas da Cidade do Cabo, no
Atlântico Sul, entraram no Oceano Índico, até o Canal de Moçambique, onde não
só afundaram 24 navios, com 127.261 toneladas, incluindo mais transportes de
tropas, como também desbarataram de tal forma a navegação, que o porto de
Lourenço Marques teve de ser fechado duas vezes, com grandes repercussões no
fornecimento de combustível às tropas Aliadas no Oriente Médio. Por volta de dezembro, as escoltas Aliadas estavam começando a
chegar. Formaram-se então comboios protegidos, entre Durban e a Cidade do
Cabo. Naquele mês, apenas 5 navios, com 23.251 toneladas, foram postos a
pique, e outra campanha de ataques-relâmpagos começou a chegar ao fim. Essas
campanhas, além de suplementar os afundamentos que se registravam nas rotas
do Atlântico Norte, tinham também a virtude de atrair elementos de escolta.
Enquanto o comando de submarinos ficasse um passo à frente do inimigo e
recuasse tão logo as escoltas começassem a aumentar, essas operações no
estilo "guerrilha" poderiam ajudar as potências do Eixo a se
manterem na vanguarda da guerra contra a navegação mercante. No transcurso dos seis últimos meses de 1942, os afundamentos
provocados pelos submarinos do Eixo, a maioria alemães, é claro,
mantiveram-se num nível elevado, mas tolerável, à média de 700.000 toneladas,
considerada essencial para subjugar os Aliados. Os números foram: julho, 96
navios, com 476.065 toneladas; agosto, 108 navios, com 544.410 toneladas;
setembro, 98 navios, com 485.413 toneladas; outubro, 94 navios, com 619.417
toneladas; novembro, 109 navios, com 729.160 toneladas, e dezembro, 60
navios, com 330.816 toneladas. As perdas totais infligidas pelos submarinos do Eixo ao inimigo
durante o ano atingiram a 1.160 navios, com 6.266.215 toneladas; outras armas
das forças alemães e das demais potências do Eixo aumentaram esse total para
7.790.697 toneladas. Naquele período, os alemães só perderam 87 submarinos,
ficando com 212 barcos operacionais, de um total de 393 que possuíam em
serviço ativo, enquanto que no começo do ano tinham 91 operacionais, dos 249
em serviço. Por outro lado, embora os alemães não tivessem um conhecimento
preciso disso, na época, os Aliados haviam construído apenas pouco mais de 7
milhões de toneladas de novos navios. Assim, o ano produzira um ganho nominal
para a causa alemã, na "guerra da tonelagem". No final de 1942 ainda não se haviam iniciado os movimentos
decisivos da luta pelo domínio do alto-mar, sobre o qual repousava em grande
parte o destino da guerra. O auge da batalha: março de 1943 No começo de 1943, as condições atmosféricas praticamente
suspenderam a batalha na linha de frente marítima. A fúria das tempestades
que vinham açoitando o Atlântico Norte aumentava de maneira inaudita,
enchendo de riscos a atividade dos pequenos submarinos. Enquanto os barcos atravessavam dias e noites enfrentando o
ímpeto dos elementos, preocupados unicamente com a autopreservação,
acontecimentos de considerável importância ocorriam nos bastidores de ambos
os lados. Na conferência de Casablanca; iniciada a 14 de janeiro, os
Aliados decidiram que, tendo em vista a impossibilidade de os seus estaleiros
produzir navios mercantes no ritmo em que vinham perdendo por ação dos
submarinos, tornava-se imperioso derrota-los na Batalha do Atlântico. Os
Aliados chegavam assim à conclusão de que os submarinos eram a grande ameaça
erguida contra o sucesso da causa que defendiam, ponto de vista que Doenitz
vinha há muito advogando perante os seus superiores. Os Aliados sentiam que o
plano de invasão da Europa jamais se realizaria até que dos mares, por onde
se faziam os transportes de suprimentos, fosse varrido definitivamente o
flagelo do submarino. Portanto, a vitória nessa batalha passou a ter a máxima
prioridade e todos os recursos foram dedicados à sua consecução. Felizmente
para os alemães, os aliados reduziram o efeito do plano sensatamente
concertado quando decidiram levá-lo a cabo bombardeando as bases de
submarinos do Golfo de Biscaia. Bomba alguma poderia danificar os abrigos
submarinos como necessário e aplicou-se o plano de bombardeio de área para
destruir as instalações e cidades que circundavam as bases. Na noite de 4 de
janeiro, 101 aviões atacaram o porto de Lorient e a 15 daquele mês seguiu-se
novo ataque, com 131 bombardeiros. Ao amanhecer do dia seguinte, achando os
americanos que podiam melhorar o desempenho, tentaram um bombardeio de
precisão contra os abrigos de submarinos. Violentas incursões foram então
feitas contra St.-Nazaire. Apesar de dois protestos por escrito, feitos em
fins de janeiro, do Comandante-Chefe do Comando de Bombardeiros da RAF, de
que as incursões não estavam fazendo nada para ajudar na guerra contra os
submarinos, os ataques prosseguiram intensos até meados do verão daquele ano
e, esporadicamente, até o fim da guerra. Tudo não passava de um gigantesco desperdício de esforços. O
bombardeio de área não fez nada para interromper o programa de construção de
maneira significativa e o de precisão não danificou nenhum submarino, nem
penetrou um abrigo sequer. Do lado alemão, o mês de janeiro trouxe consigo uma grande
agitação na hierarquia naval. As relações entre Raeder e Hitler nunca tinham
sido particularmente cordiais, e a 6 de janeiro, quando os dois se reuniram
em conferência, Hitler mostrou-se enfurecido com a maneira como o couraçado
Lutzow e o cruzador Hipper haviam fracassado no ataque a um comboio
britânico, no último dia de 1942. Raeder não teve muita oportunidade de
falar, sendo, ao contrário, vítima de um ataque verbal desenfreado que durou
90 minutos, ao fim dos quais recebeu instruções para que preparasse planos
para desarmar todas as grandes belonaves da Marinha alemã. Uma semana depois
Raeder apresentou um plano no qual tentava dissuadir Hitler da sua decisão,
mas o Führer permaneceu inflexível. Raeder demitiu-se a 30 de janeiro e, para
substituí-lo, Hitler nomeou Doenitz. O mais importante dessa promoção é que
Doenitz mostrou-se suficientemente astuto para não se deixar atrair para fora
do centro principal da batalha e passar para o âmbito abstrato da formação de
política. Conseguiu permanecer como o Comandante da Arma de Submarinos. Nessa
dupla posição, ele sabia que poderia resguardar os interesses da arma
submarina, que acreditava ser o fator mais importante no resultado da guerra,
e também manter o controle da orientação da campanha. As decisões do
dia-a-dia ficaram a cargo do Contra-Almirante Godt, Chefe do Estado-Maior de
Doenitz, mas este, sabendo que nenhum outro oficial tinha o seu conhecimento
ou experiência com submarinos, continuou sendo o responsável pela maneira
como eram usados. Era uma posição muito forte. Mais tarde ele também
conseguiu impedir o desarme dos grandes navios. Enquanto o tempo reinante nas rotas de comboio do Atlântico
Norte impedia qualquer operação ativa, mais ao sul, onde o clima de janeiro
não tinha nada daquela violência, o grupo "Delfim" estava
realizando varreduras para oeste ao longo da grande rota do círculo de
Marrocos a Nova York, na esperança de interceptar os comboios que
transportassem suprimentos e reforços para as tropas que haviam desembarcado
na África do Norte. Mas foi o solitário U-514, que estava vigiando ao largo
de Trinidad, que iniciou as atividades do Ano Novo quando, a 3 de janeiro,
avistou um grupo de petroleiros que rumavam para o norte, dirigindo-se quase
que certamente para Gibraltar, transportando combustível para aquelas tropas.
O submarino, porém, perdeu contato. Foi então que Doenitz tomou uma de suas
mais arrojadas decisões. Contra os protestos dos seus oficiais menos
graduados, que queriam que o grupo "Delfim" atacasse outro comboio
recentemente avistado, ele deu ordens para que 8 submarinos, nessa patrulha,
formassem uma linha e tentassem interceptar o grupo de petroleiros. A
distância entre eles era de mais ou menos mil milhas e suas possibilidades de
interceptação eram mínimas. Mas o prêmio era imenso; parar um comboio
transportando combustível; em vista do efeito que isso produziria no trabalho
dos combatentes de terra, era uma das maiores oportunidades que um grupo de
submarinos poderia almejar. Durante vários dias eles navegaram para lá e para
cá em busca da presa, até que, ao amanhecer de 8 de janeiro, o arrojo de
Doenitz foi recompensado: o comboio entrou bem no meio da sua formação e os
comandantes de submarino sabiam ter recebido um grande presente e não o
recusaram. Em ataques que prosseguiram até 11 de janeiro, os submarinos
afundaram sete dos nove petroleiros do comboio, sem perder um só dos seus.
Foi uma operação muito feliz, na sua concepção e execução. Sabendo muito bem
o que a perda desse combustível significava para os exércitos Aliados na
África, o Comandante alemão daquele teatro de guerra, General von Arnim,
mandou um telegrama de agradecimentos a Doenitz. O primeiro afundamento registrado nas rotas de comboio do
Atlântico Norte ocorreu em fins de janeiro, quando o tempo finalmente
melhorou. O veloz comboio HX224 foi atacado, perdendo 3 navios. Entre os
sobreviventes recolhidos havia um oficial britânico que disse sos seus
captores que havia outro comboio seguindo o HX~24, a uns dois dias de diferença.
Essa informação foi-lhes de grande valor. Para pegá-lo, uma concentração de
20 submarinos foi preparada, e a informação do prisioneiro mostrou-se
correta. O comboio veio bem na sua direção; com 63 navios carregando valioso
material bélico, o comboio trazia uma escolta particularmente forte,
incluindo nada menos de 12 belonaves. O choque que se estabeleceu foi feroz e
três quartos dos submarinos foram atacados por cargas de profundidade durante
a luta. Três deles afundaram e dois outros sofreram avarias, mas a
"alcatéia" destruiu 13 navios somando quase 60.000 toneladas. Nesse encontro, a falta de treino da escolta do comboio é que
deu a vantagem sos submarinos. Ao contrário; porém, do que se passava com a
escolta desse comboio, a que vinha na proteção do comboio seguinte, avistado
a 17 de fevereiro, tinha como característica exatamente a experiência. A
escolta trazia dois velhos inimigos dos submarinos, o Fame e o Viscount, que
haviam afundado dois deles quando o comboio SC104 foi atacado, no mês de
outubro do ano anterior. Devido a condições extremamente ruins, somente dois
submarinos puderam atacar; o Fame afundou o U-201 e o Viscount, o U-69. Com a melhoria do tempo e o crescimento do número de submarinos
em alto-mar, o índice de afundamentos tornou a subir. A 21 de fevereiro, o
comboio ON166 foi atacado e, em quatro dias de luta, 14 navios, com 85.000
toneladas, foram afundados. A seguir o ON167 foi localizado e atacado. Nas
águas de Trinidad, Mohr, sozinho, afundou 4 navios de um comboio, com 23.566
toneladas. A 27 de fevereiro, o veloz comboio HX227 foi atacado e 2 navios,
com 14.352 toneladas, foram postos a pique. O SC121 foi também localizado,
perdido e novamente localizado, quando então os submarinos destruíram 13 dos
seus navios, totalizando 62.198 toneladas. Estas e outras façanhas aumentaram
o medíocre total alcançado em janeiro, de 39 navios, com 203.128 toneladas,
para a respeitável soma de 63 navios, com 359.328 toneladas, em fevereiro. Esses resultados foram em grande parte obra direta da seção
criptográfica do Alto-Comando - o Serviço "B". Durante todas as
operações submarinas ele esteve ocupado em interceptar e decifrar os sinais
que os Aliados enviavam aos seus comboios, obtendo sucessos notáveis e
repetidos. Naturalmente, ao mesmo tempo os britânicos estavam ocupados em
interceptar e decifrar mensagens entre os submarinos e seu Q-G e essas
atividades muitas vezes se anulavam mutuamente. Levantadas as prováveis
disposições dos submarinos, os Aliados passavam a alterar a rota dos seus
comboios. A interceptação, pelo Serviço "B", desses sinais aliados
conduzia os submarinos para a nova rota dos navios. Os Aliados também às
vezes conseguiam interceptar sinais enviados aos submarinos, quando então
alteravam a rota do comboio. Os dois lados despendiam muita energia e
concentravam alguns dos seus melhores cérebros neste complexo mas vital jogo
de informações. Um exemplo de como o jogo era feito ocorreu a 9 de março, quando
o Serviço "B" deu a localização do veloz comboio HX228, que
navegava na direção de um grupo de submarinos, mas ainda estava algumas
centenas de quilômetros distante dele. Tentando acompanhar o raciocínio do
inimigo, o Comando de Submarinos pôs-se em seu lugar - o que é um exercício
muitas vezes proveitoso. Ele admitiu que os Aliados, sabendo onde os
submarinos se encontravam, reorientariam o comboio para o norte. Em
consonância com esse raciocínio, o Comando de Submarinos também os deslocou
para o norte. Acontece, porém, que o comboio não foi reorientado e passou
tranqüilo para o sul. Será que os submarinistas exageraram em seu raciocínio, ou os
Aliados de fato não sabiam da existência desse grupo de submarinos? Ou, quem
sabe, estando um passo mais à frente, os Aliados previram que Doenitz,
supondo que o comboio fosse reorientado, mandaria seus submarinos para o
norte, ficando, portanto, no seu caminho? Jamais se saberá dos detalhes desse
verdadeiro esconde-esconde. De qualquer modo, no fim os submarinos perceberam
o erro e largaram-se na esteira do comboio, conseguindo ainda afundar 4
navios cargueiros e o destróier Harvester, embora perdessem o U-423 e o
U-444. O Serviço "B" também desempenhou papel importante no
encontro dos submarinos com dois comboios, encontro que lhes valeu os
melhores resultados da guerra. A seção criptográfica, tendo decifrado o
código então em uso, traduziu uma mensagem e informou o Q-G de submarinos que
o veloz comboio HX229, zarpando de Halifax com 40 navios, na noite de 13 de
março, estava numa posição a sudeste do Cabo Race e num curso de 89 graus. No
dia seguinte o Serviço "B" teve, novamente, mais sorte do que
esperava com a informação de que o comboio lento SC122, que ia de Sydney para
a Nova Escócia, recebera ordens de se dirigir para um ponto específico e
então atravessar o Atlântico a 67 graus. Naquele momento, os submarinos que haviam participado da ação
contra o HX228 estavam navegando para oeste, numa linha de patrulha. Doze
deles reuniram-se no grupo Raubgraf e receberam ordem para tomar um curso onde
poderiam interceptar o mais oriental dos dois comboios, o SC122. A primeira
observação feita pelos submersíveis deu-se ao anoitecer de 15 de março,
quando um destróier foi visto navegando para leste, mas logo depois viu-se
que ele nada tinha que ver com o comboio. Outros submarinos que estavam na
região foram organizados em dois grupos. Quatorze submarinos recentemente
dispensados de operações contra outros comboios, juntamente com 4 outros há
pouco reabastecidos nas bases do Golfo de Biscaia, foram reunidos no grupo
Sturmer. Nove outros, mais 2 barcos recém-saídos de Biscaia, formaram o grupo
Dranger. Então, a 16 de março, o solitário U653, que rumava com
dificuldade para a base, depois que um dos motores enguiçou, de repente
avistou um dos comboios. Pela posição comunicada, Doenitz acreditava que se
tratasse do SC122 e todo o grupo Raubgraf, juntamente com 11 barcos do grupo
Sturmer e dois outros que acabavam de se reabastecer de uma "vaca
leiteira", receberam ordens de interceptá-lo. A suposição de que se tratava do SC122 baseou-se em grande parte
na má interpretação, pelo Serviço "B", de um sinal enviado pelo
Almirantado Britânico que o levou a crer que o HX229 não estaria naquela
região. O sinal dizia ao HX229 para alterar o rumo planejado e navegar para o
norte, para evitar a concentração de submarinos. Mas parece que isto deve ter
sido um despiste do Almirantado e ele funcionou, pois os submarinos restantes
do Sturmer e os 11 do grupo Dranger receberam ordens de rumar para o norte, a
fim de interceptá-lo. O comboio avistado era de fato o HX229 e coube ao grupo Raubgraf
atacá-lo. A penetração foi fácil, porque o comboio, de 11 colunas, era
defendido por apenas 4 destróieres e uma corveta. As 22:00 h daquele dia (16
de março), o U-603 disparou três torpedos FAT e um do tipo convencional,
iniciando-se então a batalha. Descrevendo a trajetória previamente arranjada
entre os navios mercantes, um dos torpedos FAT atingiu o cargueiro norueguês
Elin K, que foi posto a pique. Pouco depois o U-753, agindo a boreste do
comboio, disparou 2 torpedos convencionais e dois FAT e fez parar os vapores
Zaanland, dos Países Baixos, e o James Oglethorpe, dos Estados Unidos.
Imediatamente, todos os destróieres, exceto um, ficaram para trás, para
ajudar os sobreviventes, e enquanto o único que ficara na defesa navegava
inutilmente na frente do comboio, tentando evitar o ataque, os submarinos
puderam escolher as vítimas à vontade. O Tenente Strelow, no U-453, que
estava a bombordo, torpedeou e parou o vapor William Eustis, mas não
conseguiu afunda-lo. Strelow recuou para recarregar seus tubos lança-torpedos
da proa e às 14:30 h disparou 4 torpedos - 2 FAT e 2 tipo E com ignição
magnética. Tempo depois Strelow ouviu 4 explosões que o deleitaram e à sua
tripulação, levando-os a supor que houvessem atingido 4 navios. Mas isto se
devia mais ao U-91, que estava operando do lado oposto do comboio e disparara
dois torpedos à queima-roupa contra o navio mais avançado, a boreste, o
cargueiro americano Harry Luckenbach. As duas outras explosões que Strelow
ouviu, ou foram seus torpedos que detonaram ao chegar ao fim da corrida, ou
cargas de profundidade lançadas contra qualquer dos outros submarinos. Também a boreste estava o U-600, que conseguiu permanecer
completamente despercebido enquanto disparava com seus cinco tubos
lança-torpedos. O primeiro torpedo atingiu o vapor britânico Nariva, dois
outros atingiram o americano Irene du Pont e um quarto pegou o baleeiro
Southern Princess. O U-616, tentando penetrar nas colunas do comboio pela
frente, de súbito viu-se cara a cara com um destróier. O Tenente-Comandante
Koitschka disparou 4 torpedos contra o destróier, a pequena distância, e
permaneceu indetectado. Ele estava certo de que tinha afundado o destróier,
que foi, no último instante, favorecido pelo acaso, que o levara a sair do
caminho dos 4 torpedos. Ainda navegando para o norte, na esperança de interceptar o
suposto comboio contra o qual o grupo Raubgraf já estaria a infligir perdas,
o grupo Sturmer e 11 submarinos do grupo Dranger toparam com o comboio lento
SC122 na noite de 16 de março. Este comboio, que se encontrava a 190 km à
frente do comboio de Halifax, estava agora reduzido a 52 navios, pois 2 deles
haviam retornado a Nova York e 6 se abrigaram em Halifax quando desabou um
temporal de oeste. Ele vinha com uma escolta mais poderosa do que o HX229,
composto de 2 destróieres, 5 corvetas e uma fragata. Naquela noite, a escolta
conseguiu rechaçar os ataques de todos os submarinos, exceto o do U-338, do
Tenente-Comandante Kinzel, mas os resultados que este obteve foram
extraordinários. Kinzel começou disparando dois pares de torpedos na frente
da 7a coluna. Seu primeiro par atingiu o Kingsbury e o King
Gruffyd e ambos afundaram no espaço de uma hora. Seu segundo par atingiu o
vapor holandês Alderamin, que também não demorou a afundar. Então o U-338
desviou-se e disparou um torpedo de popa contra o navio comodoro do comboio,
o Glenapp. A profundidade marcada para o torpedo fê-lo passar sob o Glenapp e
entre os navios das 9a, 10a e 11a colunas,
indo afundar o Fort Cedar Lake. Somente pelos relatórios enviados pelos submarinos na manhã de
17 de março é que Doenitz se inteirou de que os dois comboios haviam sido
localizados e atacados. Naquele dia, os bombardeiros Liberator que decolavam
das bases na Islândia e na Irlanda do Norte puderam alcançar o comboio mais
lento e, à luz do dia, todos os 28 submarinos em contato com o comboio,
exceto um, foram obrigados a mergulhar e ficar para trás. Somente Kinzel, no
U-338, conseguiu manter o contato e aumentou seus feitos da noite anterior,
afundando o vapor Granville nó começo da tarde. Mas o HX229 ainda não estava ao alcance da cobertura aérea de
longa distância e permanecia disperso e mal escoltado, após o pânico da
primeira noite. O ataque a ele prosseguiu durante o dia e o James Oglethorpe
e o Wtlltam Eustis, já avariados, foram despachados pelo U-91. O U-384
afundou o vapor britânico Coracero e o U-631, o holandês Terkolei. Este
comboio entrou então nas mesmas águas que o comboio lento percorrera durante
a noite e vários navios mercantes; que vogavam indefesos e sem tripulações,
foram afundados. Este tipo de ataque, duplamente realizado, com o submarino
que primeiro atingia o navio mercante e o que finalmente o afundava anotando
para si o feito, dobrando, portanto, nas estatísticas germânicas, o número de
vítimas, contribuiu para que este fosse considerado o mais desastroso para os
Aliados. No fim daquela tarde o HX229 também recebeu o apoio dos
bombardeiros Liberator, que obrigaram os submarinos que ainda estavam em
contato com ele a se protegerem sob as águas. Atém disso, muitos deles já não
tinham combustível ou torpedos e rumaram para suas bases, ou para
encontrar-se com um petroleiro submarino. Durante a noite, os submarinos voltaram e reiniciaram o ataque
ao SC122. O Tenente-Comandante Bahr, no U-305, disparou dois pares de
torpedos e atingiu 2 navios, o Zouave e o Port Auckland, antes de ser
obrigado a mergulhar por um destróier. Quando o U-305 emergiu, às 23:41 h; o
Zouave já afundara e o Port Auckland vogava descontrolado. Bahr atingiu-o com
outro torpedo, desprendendo-se então imensa nuvem de fumaça negra da sala de
máquinas, e então o U-338 também ajudou na morte do navio. Finalmente,
vogando de borda, o Port Auckland foi de tal forma atacado, que se partiu em
dois e afundou. O comboio lento ganhou maior proteção, na parte diurna do dia
18 de março, das escoltas aéreas e de vasos de superfície, bem como pela
visibilidade cada vez melhor, de modo que nenhum submarino pôde operar naquele
dia. O HX229 não estava, porém, tão bem defendido, verificaram os
lobos de Doenitz, e às 15:52 h o U-221 penetrou a proteção do comboio, num
ataque submerso, e disparou os seus 5 tubos lança-torpedos, afundando o
cargueiro Walter Q. Gresham e o navio-frigorífico Canadian Star. Naquela noite, o HX229 se aproximara tanto do comboio mais
lento, que os dois pareciam estar navegando como uma grande esquadra,
tornando-se quase impossível determinar contra qual dos dois certo submarino
estaria operando. Quando as escoltas aéreas partiram, ao anoitecer, os
ataques recomeçaram, embora com sucesso variado. Os U-666 e U-441 lançaram 5
torpedos cada um, mas a distância era grande demais, e todos erraram o alvo.
O U-608 disparou uma salva tripla contra o destróier Highlander e também
errou. O U-666 teve mais sorte no seu segundo ataque, quando torpedeou o
cargueiro Carras, mas não conseguiu afundá-lo imediatamente; porém, a
tripulação abandonou-o e ele, por fim, se perdeu. Ao amanhecer de 20 de março o apoio aéreo reapareceu, e tão
forte, que os submarinos não suportaram. O U-384 foi afundado por um
bombardeiro Liberator; os outros receberam ordens de interromper a ação e só
atacar navios desgarrados ou que já estivessem avariados. O Matthew
Luckenbach e o Carras, que ainda flutuavam, foram afundados, depois de se
isolarem do comboio. O U-384 foi o único submarino destruído durante a operação,
embora dois outros, U-631 e o U-441, fossem alvo de cargas de profundidade,
quando insistiram em perseguir os comboios depois de ordenada a retirada, e
tiveram de retornar à base, seriamente avariados. Nos cinco dias e noites de duração da furiosa batalha, 21 navios
se perderam, totalizando 141.000 toneladas. Foi uma grande vitória para os submarinos,
que encerraram o mês espetacularmente. O avultado número de navios perdidos
nas três primeiras semanas de março, representando mais de meio milhão de
toneladas, levou o Almirantado Britânico, mais tarde, a declarar: "Os
alemães nunca estiveram tão perto de interromper as comunicações entre o Novo
Mundo e o Velho como nos 20 primeiros dias de março de 1943". Exceto a significação dos afundamentos propriamente ditos, o
aspecto mais sombrio do episódio é que dois terços dos navios afundados
estavam navegando em comboio. Será que os submarinos tinham, realmente,
conseguido romper o sistema de comboio? Será que eles obrigariam os Aliados a
abandoná-lo? Se isso se verificasse, que outro sistema poderia possivelmente
substituí-lo? O "tempo feliz", ao largo da costa americana, ganhava
o aspecto de carnificina, quando os navios navegavam independentes. Por algum tempo, o Comando Submarino viveu a sensação de que, a
vitória na Batalha do Atlântico estava em suas mãos. Se as semanas
subseqüentes lhe dessem resultados tão avassaladoramente favoráveis como
naquele poderoso duelo, a linha vital entre os Aliados seria fatalmente
estrangulada. Cortado o fluxo de matérias-primas, de combustível e de
alimentos, frustrado estaria, em última análise, o grande plano da guerra, a
invasão da Europa. Se o pêndulo dos acontecimentos continuasse oscilando
favoravelmente, os submarinos, gradativamente, mas com inexorável certeza,
abririam o caminho da vitória para as potências do Eixo. A vitória transforma-se em derrota Contudo, nas semanas subseqüentes não se registraram vitórias
tão significativas. Doenitz montou várias ações contra comboios, não só na
rota do Atlântico Norte, como também, na mais meridional, dos Estados Unidos
para a África do Norte, no Caribe e ao largo da costa dos Estados Unidos. Mas
nenhuma dessas ações resultou em mais que afundamentos moderados. Em fins de março deu-se um incidente da máxima importância,
quando um submarino comunicou ter avistado um porta-aviões navegando com um
comboio, mas os aviões que decolaram de seu convés impediram que este
submarino e quaisquer outros operassem contra os navios mercantes. O
porta-aviões Audacity fora usado na rota de Gibraltar, em 1941, e fora
afundado por um submarino, em dezembro daquele ano. Pela primeira vez o
porta-aviões era utilizado na proteção dos comboios transatlânticos. Pouco
depois, muitos dos submarinos que estavam agindo nessas rotas foram
obrigados, pela falta de combustível, a retornar às bases de Biscaia,
deixando apenas um grupo para consolidar a vitória de menos de duas semanas
antes. Durante um ataque ao comboio seguinte, que partiu de Halifax para
leste, este grupo também comunicou a presença de um porta-aviões operando
dentro das fileiras do comboio e que fez decolar aviões suficientes para
desafiar todas as tentativas dos submarinos de tomar a melhor posição; com
isso; somente 6 navios foram postos a pique. Foi com o porta-aviões que os Aliados, subitamente, conseguiram
fechar o "espaço aéreo vazio". Mas isto não foi tudo. A partir do fim de março, os Aliados
conseguiram organizar, em números adequados, os "Grupos de Apoio"
de escoltas de superfície que tinham planejado em setembro e outubro de 1942.
Naquele tempo, com respeito aos grupos de apoio e aos porta-aviões, o empenho
em defender as forças de invasão da África do Norte, na "Operação
Tocha", impediu a sua introdução nas rotas dos comboios no Atlântico
Norte. Agora, porém, entraria na Batalha do Atlântico o elemento de contenção
da fúria dos submarinos. Eram pequenas flotilhas de navios de escolta, com
tripulações altamente treinadas e experientes, que não se limitariam à defesa
de um só comboio, tendo, ao contrário, a liberdade de percorrer os oceanos e
reforçar a escolta de qualquer frota mercante que estivesse sob a ameaça das
lanças de Doenitz. Os submarinistas descobriram, à sua própria custa, que o
advento dos grupos de apoio significava que os navios de escolta não se
veriam mais obrigados a abandonar o ataque a um submarino para voltar a
proteger o comboio. Eles podiam persistir no lançamento de cargas de
profundidade e, com freqüência, a mancha de óleo, ou um pedaço de móvel, ou
uma lata de alimento, ou peça de roupa surgia na superfície, indicando o fim
do submarino. Os britânicos usaram outro truque, improvisado apoio aéreo na
forma de graneleiros e petroleiros equipados com um convés de vôo, para
transportar três ou quatro aviões Swordfish. Como estes aviões podiam pousar
no convés, reabastecer-se e decolar novamente, esses Porta-Aviões Mercantes
revestiram uma ameaça consideravelmente maior que os Navios Mercantes com
Aviões de Catapulta que tinham sido usados, com seu único Hurricane
descartável, no verão de 1941. Depois do "vácuo" no Atlântico Norte, provocado pela
chegada de tantos submarinos, ao mesmo tempo, em suas bases, eles começaram a
retornar, em meados de abril, dispostos a levar a cabo a devastação que
vinham produzindo, a repetir os grandes sucessos de março. O primeiro comboio
contra o qual investiram foi o HX233, que percorria a rota meridional situada
a apenas 640 km ao norte dos Açores. O tempo estava bom e o mar, calmo, de
modo que as escoltas, reforçadas por um grupo de apoio, não tiveram muita
dificuldade em captar a presença de submarinos no radar. O encontro resultou
num empate: um navio de 7.487 toneladas afundado e o U-176 destruído. O comboio seguinte, o HX234, tomou uma rota bem setentrional,
destinada especificamente a evitar um encontro com aquela
"alcatéia", mas Doenitz, lançando mão de outro grupo, com os
recém-saídos de Biscaia, montou um ataque que durou três dias, a partir de 21
de abril. Mas dessa vez os submarinistas queixaram-se de um tipo diferente de
condições atmosféricas adversas - nevoeiro, neve e granizo - que lhes
reduziam a visibilidade. Somente 5 navios foram afundados daquele comboio, ao
custo de 2 submarinos. Pelo final de abril já havia submarinos suficientes, na área ao
sul da Groelândia, para formar várias "alcatéias" grandes, que
ficariam à espreita no caminho do comboio ONS5, cuja presença a leste do Cabo
Farewell fora comunicada pelo Serviço "B". Enquanto o aguardavam, o
tempo tornou a piorar, e tanto o comboio como os submarinos entraram em
completa desordem, impossibilitando o ataque por vários dias. Mas, na noite
de 4 de maio, a tempestade acalmou e o comboio estava quase todo de novo
reunido quando os submarinos atacaram. Naquela noite, 5 navios mercantes
foram derrubados, com outros 4 afundando no dia seguinte, apesar da escolta
do comboio e de poderoso grupo de apoio. Quando escureceu, os submarinos
voltaram à carga e, com mais umas duas dúzias de torpedos disparados, levaram
as tripulações dos mercantes ao limite da resistência. Mas, espantosamente,
eles não afundaram um único navio. Por outro lado, a escolta, redobrando
energia e habilidade, naquela mesma noite afundou 4 submarinos. O comboio
deslizava em busca da segurança dos portos americanos sempre fustigado pelos
submarinos, que não o largavam de todo, nem a eles a escolta. Mais 3
cargueiros desceram ao fundo do mar, mais 3 submarinos destruídos. O comboio
chegou com menos 12 navios, a "alcatéia" saiu 7 submarinos menor. Apesar desse desfecho insatisfatório, Doenitz deslocou suas
forças imediatamente para outro ataque, porém o resultado não foi mais
encorajador. O veloz comboio HX237 zarpara protegido pelo porta-aviões Biter.
Os submarinos só lhe conseguiram afundar 3 navios, sendo destruídos
submersíveis, um pelos aviões do Biter, outro pelos aviões baseados em terra
e, o terceiro, por estes últimos e pelos vasos de superfície, num ataque
combinado. Tão logo se avolumou a patrulha de aviões baseados na costa, o
Biter foi destacado para apoiar o comboio lento SC129, que estava sob a
ameaça de outra "alcatéia". Desta vez, 2 navios foram afundados,
mas a escolta, em troca, destruiu 2 submarinos, danificando vários outros. O efeito da atividade dos submarinos evidenciava uma tendência
muito nítida para baixar quando se verificou um fato inusitado: a escolta do
comboio SC130 aplicou-lhes uma autêntica surra. Quatro "alcatéias" o
atacaram entre 15 e 20 de maio, e não conseguiram afundar um só navio, saindo
5 submarinos destruídos. Os acontecimentos mostraram que o SC130 foi o último comboio no
Atlântico Norte a ser seriamente ameaçado pelos submarinos, pois Doenitz não
podia mais agüentar perdas dessa magnitude. Confrontado com a comprovada
habilidade dos aviões inimigos em localizar seus submarinos pelo radar, e com
a habilidade dos vasos de superfície em atacar a partir do golpe dos aviões,
Doenitz; pelo menos temporariamente, concluiu que o melhor seria retirar-se
do combate, não retornando a ele senão quando seus submarinos tivessem como
reagir ao novo desafio. A 24 de maio, Doenitz retirou os submarinos das rotas
de comboio. Naquele dia é que a Batalha do Atlântico foi vencida e perdida. Para o Comando de Submarinos, era desconcertante a constatação
de que, depois de vitórias tão expressivas contra os comboios HX229 e SC122,
em março, a sorte da Batalha do Atlântico mudara de maneira tão completa. Num
período de apenas oito semanas, a promessa de vitória se transformou na
realidade de um fracasso. Levados às cordas, os submarinos, desertando os
mares, permitiram às escoltas o domínio tranqüilo da situação. Mas, em retrospecto, é evidente que aquilo que a arma submarina,
na época, encarara como um padrão de crescente ascendência, deveria ter sido
visto, se todos os fatores pertinentes estavam evidentes, como a luta final e
corajosa de uma força em declínio. Pois mesmo antes de março os Aliados
haviam começado a introduzir no conflito várias medidas que significavam o
fim dos dias de glória dos submarinos. Em primeiro lugar, seus sucessos nas operações na África do
Norte haviam posto à disposição das rotas de comboios numerosos navios de
escolta, liberando também centenas de homens ansiosos por participar da
batalha contra os submarinos. Ao contrário, os alemães, embora seu programa
de construção prosseguisse com regularidade, não tinham possibilidade de
manter em equilíbrio, suprindo os desfalques, o poder de ataque de sua esquadra
de submarinos. Além disso, os Aliados se aplicaram com bastante empenho na
solução do problema de suprir os homens necessários e de equipar aqueles
navios com a aparelhagem mais avançada e eficaz que a engenhosidade militar
podia inventar, enquanto que os alemães, com uma lassidão que não lhes era
característica, não aplicaram toda a inventiva de que eram capazes na
obtenção de uma resposta convincente ao desafio Aliado. Alguns acontecimentos ocorridos, no começo do ano, no Golfo de
Biscaia poderiam e deveriam ter servido para Doenitz como indicador do que
esperar da batalha maior. Ali, já em fevereiro, o U-519 foi surpreendido na
superfície e afundado por um bombardeiro americano Liberator, sem ter
recebido, aparentemente, qualquer indicação do seu receptor de busca de que
fora descoberto. Algumas semanas depois o U-333 também foi atacado, desta vez
por um bombardeiro Wellington, mas saiu-se melhor no combate e derrubou o
avião. Isto confirmou que o receptor de busca do submarino não dera aviso de
que o radar do avião o captara e, daí por diante, a arma submarina começou a
desconfiar da existência de um novo e importante dispositivo de localização
de superfície e que estava sendo usado pelas patrulhas aéreas britânicas. Na
verdade, tratava-se do novo aparelho de radar de 10 cm de comprimento de
onda, que no fim de 1942 ainda era escasso, mas que já começava a ser usado
pelos aviões Aliados. Depois de investigar a evidência, Doenitz chegou à conclusão de
que o adversário havia realmente obtido um equipamento de radar de longo
alcance e, por isso, a 31 de março, deu ordem para que os submarinos
permanecessem submersos tão logo percebessem transmissões de radar, e
ficassem submersos durante 30 minutos. Na verdade, o novo radar era tão
eficaz que, quando os receptores de busca do submarino alertavam, já o avião
o estava submetendo a ataque. De qualquer modo, se a ordem de Doenitz, medida
de desesperada emergência que era, serviu ao submarino, não deixou também de
ser útil à causa aliada, porque o conservava inativo, submerso. Sua crescente desvantagem foi novamente ilustrada a 22 de março,
quando um submarino foi afundado e outro; avariado, e também em abril, quando
o U-376 foi posto a pique. Em maio, os afundamentos de submarinos no Golfo de
Biscaia começaram a aumentar de maneira alarmante. Na primeira semana, o
U-32, o U-09 e o U-6 foram todos destruídos por aviões à luz do dia e, a 15
de maio, um bombardeiro Halifax -afundou uma "vaca leiteira", o
U-463, que se dirigia para as rotas do Atlântico com sua valiosa carga para
os submarinos operacionais. Verificando Doenitz que o recurso à submersão não
estava dando resultado, diante do novo tipo de radar, e lembrando-se da bem
sucedida ação do U-333, que acabou por derrubar o avião que o atacava,
determinou ele que os submarinos permanecessem na superfície e dessem combate
ao avião. Mesmo que não chegassem a derrubá-lo, seu poder de fogo talvez
fosse o bastante para desviá-lo e obrigá-lo a lançar suas bombas sem fazer
mira. Doenitz também ordenou que os submarinos fossem dotados de poder
de fogo mais pesado, num esforço para pôr o Comando Costeiro Britânico na
defensiva, convencendo-o de que os ataques contra o Golfo de Biscaia eram
caros demais para prosseguir. A primeira dessas novas "armadilhas para
aviões", o U-441, zarpou de Brest a 22 de maio, com 2 canhões de quatro
canos de 2 cm e um canhão semi-automático de 3,7 cm. Dois dias depois ele
mostrou seu valor como "isca", atraindo o ataque de um aerobote
Sunderland. O encontro, pelo menos, foi um sucesso parcial. O U-441 derrubou
o Sunderland, mas o avião conseguiu lançar suas bombas antes de cair, e o
U-441 teve de retornar à base para reparos. Por volta de junho, como Doenitz se havia retirado do Atlântico,
o Golfo de Biscaia se transformara no ponto focal do conflito. A 8 de junho,
o Tenente Feindt, no U-758, outro submarino convertido e fortemente armado,
lutou com vários aparelhos de um porta-aviões. O primeiro a atacar foi
seriamente avariado. Dois outros dispararam rajadas eficazes, e um terceiro
atacou, sendo derrubado pelo submarino. Mais dois aviões foram avariados
antes que Feindt, com 3 dos seus canhões danificados e 11 homens feridos,
decidisse mergulhar. Após esse êxito, outros submarinos foram equipados com
armamentos extras e, para que fosse a maior possível a concentração de fogo
contra o avião atacante, eles receberam ordens de navegar em pares ou em
grupos de três. Desse modo, a grande vantagem dos submarinos foi anulada,
porque se transformaram simplesmente em navios de combate de superfície. Essa
providência tornou-os imunes por algum tempo, mas em meados de junho já a
patrulha aérea estava preparada para dar a retruca à tática de Doenitz.
Quando avistavam um submarino, os aviões ficavam circulando a distância até a
chegada de reforços, embora não tão longe que o submarino pudesse submergir e
escapar. Chegado o reforço, era montado o ataque, feito de todas as direções,
ao mesmo tempo. Uns poucos ataques desse tipo elevaram a incidência de danos
e destruição, mostrando que o método da "resistência e luta até o
fim" não dava resultados. Assim não demorou para que os submarinos
recebessem ordens de voltar à velha prática de atravessar Biscaia submersos e
só emergir para recarregar as baterias. A tomada de tal decisão evidenciava de forma clara que os
submarinos não só tinham sido banidos do Atlântico como também haviam caído
inteiramente na defensiva, na região das suas próprias bases. Com a diminuição do serviço no Atlântico, vários grupos de vasos
de superfície anti-submarinos apareceram nas proximidades do Golfo e
começaram a trabalhar em estreita cooperação com os aviões dotados de radar.
Tão logo um submarino emergia, à noite, para recarregar as baterias, o radar
de longo alcance entrava em ação e o vaso de superfície punha-se a caminho
para destruí-lo. Assim, enquanto os britânicos estreitavam a cooperação entre
as armas, Doenitz era seriamente prejudicado pela escassez de aviões de apoio
e pela falta de vasos de superfície ligados à arma submarina. A 2 de julho teve início uma série de ações no Golfo de Biscaia
que marcaria aquele mês como o mais desastroso para o Comando Submarino.
Pouco depois de zarpar de Bordéus, naquele dia, o U-462, uma "vaca
leiteira" que devia abastecer os submarinos em operação ao largo da
costa sul-africana, sofreu um ataque aéreo e ficou tão danificado que teve de
retornar à base. Naquela noite, um Liberator equipado com "Luz
Leigh" surpreendeu o U-126 e prontamente o afundou; na manhã seguinte,
outro Liberator destruiu o U-628. Dois dias depois, o U-535 foi vítima de um
Liberator e a 7 de julho outro Liberator atacou um grupo de 7 submarinos com
foguetes, cargas de profundidade e um torpedo acústico, e afundou o U-514.
Nos dias 7, 8 e 9 de julho, os submarinos U-951, U-232 e U-435,
respectivamente, foram afundados, ao largo da costa de Portugal, por aviões
das bases de Gibraltar e Marrocos; assim, a destruição dos submarinos
prosseguia implacavelmente. Mas não eram só as patrulhas marítimas e aéreas
britânicas que participavam do massacre. Em julho, dois porta-aviões
americanos, o Core e o Santee, cada qual com três destróieres de escolta,
apareceram nas águas dos Açores, para se juntarem ao Bogue, que já estava
patrulhando a região. Entre 13 e 16 de julho eles afundaram 4 submarinos e a
23 do mesmo mês o Bogue, sozinho, afundou mais 2, com os aviões do Santee
elevando o total para 7, a 30 de julho. Também foi nesse dia que os
britânicos localizaram acidentalmente duas "vacas leiteiras" e um
submarino de ataque navegando juntos. O volume da ofensiva mobilizada aérea e
marítima, pelos britânicos para o ataque ilustra a determinação de que
estavam possuídos de sustentar a superioridade na guerra submarina. Nada
menos de 6 aviões e o 2o Grupo de Escolta, comandado pelo Capitão
Walker, caíram em cima dos três submarinos que, embora castigassem um pouco
os aviões, acabaram por ser destruídos. A 1o de agosto, um Sunderland atacou e destruiu o
U-454, mas ele próprio acabou caindo ao mar. Mais tarde, naquele dia, outro Sunderland
afundou o U-383 e, no dia seguinte, o U-706 e o U-106 foram postos a pique.
Esta destruição espantosa deixou Doenitz sem outra alternativa senão chamar
de volta 6 outros submarinos que estavam saindo do Golfo de Biscaia e
cancelar todas as saídas de grupos, pelo menos por algum tempo. Esta decisão,
tomada a 2 de agosto, seguiu-se à perda de 19 submarinos, dos 86 que tentaram
cruzar o Golfo e penetrar nas águas do Atlântico, e serviu à finalidade de
reduzir consideravelmente o número de submarinos afundados no mês seguinte. Buscando uma resposta mais efetiva à superioridade que os
Aliados estavam estabelecendo de maneira clara na batalha pelo comando do
mar, Doenitz, em fins do verão de 1943, passou a dar atenção às
possibilidades de uma contra-ofensiva, agora exeqüível com os
desenvolvimentos alemães no campo técnico. A 30 de julho ele explicou a
Hitler, também preocupado com o curso da guerra, suas grandes esperanças de
que algumas das idéias cientificas que começavam a entrar em operação pudessem
eliminar a pouca sorte com que se defrontava a arma submarina. Naquela época, importantes avanços técnicos começavam a aparecer
em quase todos os campos da atividade do submarino - sua velocidade submerso,
sua eficiência no ataque e, sobretudo, sua capacidade de anular o equipamento
de localização pelo radar das escoltas. No verão de 1943, o que os alemães consideravam mais importante
era o aviso de radar e, para enfrentar o problema, foi criada uma Diretoria
Científica no Q-G Naval, sob a direção do Professor Kuepfmueller. Os
consultores científicos de Doenitz expressaram grande ceticismo quanto à
possibilidade de os britânicos terem um dispositivo fundamentalmente
diferente do aparelho de um metro e meio de comprimento de onda, para o qual
os receptores de aviso de busca tinham sido, de início, uma boa solução. Por
algum tempo o novo aparelho de dez centímetros de onda os deixou frustrados.
As dificuldades em que se encontravam não diminuíram com o crédito dado à
historia de um piloto britânico capturado, que conseguiu convencê-los de que
não havia nenhum radar novo, que era apenas a emissão de sinais dos seus
próprios receptores de busca que orientava os britânicos para um submarino na
superfície. Quando os cientistas alemães despertaram para o fato da existência
dos aparelhos de radar de dez centímetros e puseram-se a inventar um receptor
que captasse as novas freqüências, já o ano de 1944 estava bem avançado e a
lacuna nesse setor da batalha técnica se tornara maior. Os cientistas alemães foram bem mais inventivos em combater o
'"asdic", criando um agente químico que produzia bolhas. Lançado de
um submarino submerso, esse agente, conhecido como "corajoso",
produzia grande quantidade de bolhas que refletiam o sinal do "asdic"
exatamente como um submarino, funcionando muito bem no despiste. Doenitz tinha grandes esperanças de que a eficiência dos seus
submarinos em afundar navios mercantes melhoraria muito com a introdução de
novo torpedo acústico. Nem a pistola de disparo de contato, nem a pistola
magnética se haviam mostrado ideais em condições de combate, porque a margem
de erro era grande demais. Os torpedos acústicos, que se orientariam pelo som
das máquinas dos navios inimigos, deveriam entrar em uso no outono de 1944,
mas o programa foi ativado de tal maneira, que os primeiros submarinos
receberam a arma na segunda quinzena de agosto de 1943. A quantidade
produzida era ainda pequena, à época, de modo que cada submarino recebeu
apenas quatro dos novos torpedos "Zaunkoenig" , (cambaxirra). O fortalecimento das forças de escolta , Aliadas, propiciado
pelo radar, despertou neles a necessidade de um submarino que pudesse operar
com mais eficiência, a velocidades maiores quando submerso. O novo submarino
Walter, com seu combustível de peróxido de hidrogênio, estava em
desenvolvimento, mas, por ser um projeto radicalmente novo, o período de
testes e aperfeiçoamentos seria demorado, não sendo esperado grande número de
submarinos Walter em serviço antes de 1945. Entrementes, Doenitz estava
trabalhando numa solução destinada a funcionar como um meio-termo, um novo
barco, com o casco modernizado do desenho Walter e com uma quantidade muito
maior de baterias elétricas para acionar os motores submarinos ortodoxos. Sua
versão mais importante, o Tipo XXI, deslocaria 1.600 toneladas, atingiria uma
velocidade máxima de superfície de 15 ½ nós e poderia locomover-se submerso
por 176 km a 10 nós. O mais importante é que, submerso, ele poderia atacar,
em golpes rápidos, pelo período de até uma hora, a 17 ½ nós, que, considerando-se
o limite máximo de seus predecessores, de 5 ou 6 nós, era um melhoramento
importante. Uma versão menor, de 232 toneladas, o Tipo XXII, com uma
velocidade, submerso, de 12 ½ nós, também foi planejada para atuar nas águas
costeiras. Hitler, seriamente perturbado com as recentes ocorrências na
frente submarina, deu prioridade a um programa de construção de 22 submarinos
do Tipo XXI e 10 do Tipo XXII por mês, os quais começaram a ser construídos
em fins de 1943, nos estaleiros em Hamburgo, Bremen e Danzig, onde eram
fabricados em oito seções, para montagem posterior. As relações do Führer com
Doenitz, bem mais cordiais do que com seu antecessor, começavam a dar
resultados. Finalmente, pensavam também no "schnorkel". Em
novembro de 1942, numa conferência técnica em Paris, o Professor Walter
sugerira a possibilidade de equipar os submarinos com um aparelho ventilador
através do qual o barco podia absorver ar fresco, para a tripulação e os
motores diesel, e expelir os gases de descarga quando submerso. O submarino
não só poderia atingir grandes velocidades sob as águas com seus motores
convencionais como também a ausência de uma torre de comando acima da
superfície o tornaria virtualmente imune à defecção pelo radar de grande
alcance. Quando ele foi descoberto, num submarino holandês capturado durante
a invasão daquele país, em 1940, os cientistas alemães não deram muita
atenção à utilidade do aparelho, mas o começo do verão de 1943 tornara
absolutamente essencial a aplicação de algumas dessas idéias e, em julho, as
experiências prosseguiram com grandes promessas de êxito. Mas, até que o progresso técnico viesse a alterar o caráter da
guerra submarina, Doenitz e seus subordinados encaravam o futuro com
desânimo. Foi em junho que Doenitz, com a confiança já muito abalada pelos
grandes reveses sofridos pelos submarinos, se submeteu a um sincero exame de
consciência, sobre se deveria retirar totalmente os submarinos do conflito. O
fato chegou a produzir desânimo no almirante, que, durante toda a guerra,
considerara sua arma submarina como o grande instrumento de sucesso contra os
Aliados, e que pouco tempo antes sentira que suas esperanças estavam prestes
a corporificar-se. Mas a soma de fatores que haviam colocado os submarinos na
defensiva - o número de escoltas, a técnica empregada, o maior apoio aéreo e,
igualmente importante, a alteração repentina, em maio, dos códigos britânicos
que o Serviço "B" não havia ainda conseguido decifrar - levou-o a
concluir que, se continuasse operando a arma submarina naquelas condições,
antes que os novos projetos, de barcos e de armas, estivessem disponíveis,
ele estaria apenas mandando centenas de jovens para morte certa e lançando
dezenas de submarinos numa batalha da qual poucos retornariam. Por outro lado, o cancelamento da guerra submarina poderia ter
as mais terríveis conseqüências. Tão logo os Aliados verificassem haver
cessado as atividades submarinas, estariam livres para colocar contra a
Alemanha e as outras potências do Eixo, através das rotas marítimas,
vastíssimos recursos materiais e potencial humano. Qualquer sucesso dos
submarinos, por maior que fosse o seu custo, reduziria a capacidade dos
Aliados na invasão que estavam preparando. Se os submarinos não conseguissem
permanecer, mesmo em condições as mais desfavoráveis, o resultado seria maior
ônus para as outras armas combatentes. Outro grande motivo de preocupação era
o fato de que a pausa nas atividades dos submarinos, enquanto não saíam os
novos barcos dos estaleiros, poderia solapar o moral das tripulações e eliminar
a qualidade que até então vinham esbanjando - a determinação de lutar. Não
havia alternativa, a guerra submarina tinha de prosseguir. Depois da derrota no Atlântico e da decisão, tomada em fins de
maio, de abandonar as operações contra as rotas mercantes ali, Doenitz passou
a ter uma força considerável de submarinos para utilizar em outros locais. Os
que ainda tinham combustível suficiente para outros ataques, cerca de 16
submarinos, foram organizados num grupo, a oeste dos Açores, mas não obtiveram
nenhum sucesso. Enquanto um comboio passava atormentadoramente perto deles, o
porta-aviões Bogue despachou aviões que atacaram e afundaram o U-217. Com os barcos que lhe restavam, Doenitz teve de se voltar para
outros teatros de guerra e reeditar a velha prática de atacar os "pontos
fracos" do inimigo onde quer que as escoltas fossem inadequadas. Dos
barcos que conseguiram passar pelas patrulhas britânicas do Golfo de Biscaia,
7 chegaram às águas costeiras americanas, depois de se reabastecerem, em um petroleiro
submarino, ao largo dos Açores. Mas eles não realizaram muita coisa, por
causa das fortes escoltas aéreas, sobretudo dos porta-aviões, e das escoltas
de superfície, inesperadamente intensificadas. Foi um vaso de superfície que
afundou o U-521, ao largo do cabo Hatteras. Todos os barcos que participaram
dessas operações foram autorizados a percorrer grandes áreas, evitando
trabalharem em grupo, na esperança de dissuadir os responsáveis pelas medidas
anti-submarinas de concentrar escoltas muito fortes contra eles. Essas
esperanças, porém, não podiam prosperar. Em pouco, registrou-se um
endurecimento das forças defensivas e os submarinos não demoraram a ser
totalmente expulsos daquelas águas. Ao largo da África Ocidental a história foi a mesma. Depois de
algumas ações individuais, os submarinos se reuniram para o ataque a um
comboio que navegava para o norte, mas as escoltas o defenderam com tanta
habilidade, que somente um navio foi posto a pique. Mais para o sul, os
submarinos tiveram sucessos moderados ao largo do Cabo da Boa Esperança, com
o afundamento de vários navios que navegavam isoladamente. Então, os 7 que
estavam operando ali tornaram a conduzir a batalha para o Oceano Índico, onde
se reabasteceram de combustível, em um petroleiro, ao largo de Madagascar. Em
junho, eles afundaram 10 navios e, em julho, atingiram o total respeitável de
17 navios, com 97.214 toneladas. A 9 de junho, com tantos submarinos agora
livres, Doenitz mandou mais 9, para revezar com os 7 inicialmente
despachados, e dois submarinos petroleiros. Para evitar os perigos da
travessia do Golfo de Biscaia, eles zarparam de bases alemães e tomaram a
rota setentrional, contornando o norte da Escócia, passando por entre as
Ilhas Shetland e a Islândia. Um submarino, o U-200, foi afundado nos
primeiros estágios da travessia e durante a viagem para o sul, o restante
sofreu intensamente nas mãos dos aviões lançados de porta-aviões americanos e
de patrulhas saídas de aeródromos da Inglaterra. Mas 5 deles sobreviveram,
chegando ao Cabo da Boa Esperança, e ganharam também o Oceano Índico.
Reabastecidos, espalharam-se pelo Mar da Arábia e pelo Oceano Índico, para
trabalhar com os 8 submarinos japoneses que patrulhavam aquela área, enquanto
os primeiros iniciavam a longa viagem de volta à base. Pelo fim do ano, os
submarinos, no Oceano Índico, apenas com a ajuda nominal dos seus colegas
japoneses, haviam afundado 57 navios, com 337.169 toneladas, principalmente
nas entradas do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho, onde os navios que navegavam
desacompanhados de escolta eram obrigados a se concentrar. Com mais de 7
submarinos permanentemente em operação, esses sucessos foram motivo de
satisfação para Doenitz. Por outro lado, a passagem pelo Atlântico tornava-se
cada vez mais perigosa e vários submarinos, despachados para reforçar os que
estavam no Oceano Índico, foram destruídos antes de chegar ao Cabo da Boa
Esperança. O último ataque às linhas de abastecimento Doenitz, no fim de agosto, encorajado pela entrega do novo equipamento,
no qual depositava grandes esperanças, permitiu aos submarinos o retorno ao
Atlântico, depois de três meses de ausência daquelas águas. Os melhoramentos
introduzidos no receptor de busca de radar, os torpedos acústicos e o reforço
do armamento antiaéreo davam aos submersíveis, segundo acreditava Doenitz;
enorme poder de combate. No começo de setembro saiu o primeiro grupo naquela
direção, logo seguido de outro, composto de 13 submarinos, das bases de
Biscaia, e mais 6 de portos da Noruega e Alemanha. No Golfo de Biscaia, a nova medida deu, pelo menos
temporariamente, vantagem aos submarinos. Eles permaneciam submersos; exceto
quando precisavam recarregar as baterias, e também bem próximo da linha
costeira espanhola, até o Cabo Finisterre. Apenas um, do grupo de 13, o
U-669, foi afundado pelas patrulhas aliadas, e até fins de setembro só mais
outro fora destruído. Em contrapartida, as surtidas da "Ofensiva do
Golfo" custaram aos Aliados nada menos que 13 aviões. Depois de longa travessia pelo Golfo, eles se reabasteceram num
petroleiro e tomaram lugar numa linha de patrulha para interceptar os
comboios que iam para os EUA ou que de lá saíssem, com ordens de atacar
primeiro as escoltas, para depois lidar com o comboio já indefeso. O comboio
ONS18, que rumava para oeste, formado de 27 navios; incluindo um Porta-Aviões
Mercante e com uma escolta de 8 belonaves, zarpou da Grã-Bretanha a 12 de
setembro, sendo seguido, três dias depois, pelos 40 navios do ON202, com uma
escolta de 6 vasos. A 16 de setembro, quando 19 submarinos se reuniram numa
linha de sentido aproximadamente norte-sul e mais ou menos a 25 graus de
longitude, preparou-se o palco para um novo teste de força dos dois lados, o
primeiro depois de introduzidos os novos desenvolvimentos técnicos, dos dois
lados. Ao contrário do que o Comando de Submarinos esperava, a troca de
mensagens radiofônicas com a formação dos submarinos havia sido interceptada
pelo Almirantado Britânico, na sala de rastreamento de submarinos, e a 16 de
setembro um grupo de apoio zarpou para fortalecer a escolta do ONS18. O primeiro contato deu-se ao amanhecer de 19 de setembro, quando
um Liberator que voava à frente do comboio afundou o U-341 antes mesmo que os
submarinos tivessem avistado o inimigo. Naquela noite, o U-270 foi o primeiro
a ver os navios, e ele, com outro submarino, iniciou a luta com um ataque
preliminar, realizado apenas para sondar a força das escoltas; sem objetivo
de afundar nada. Na noite seguinte, 20 de setembro, os ataques começaram a
sério. O comboio mais veloz, o ON202, alcançara o outro, mais lento, e estava
a apenas alguns quilômetros ao norte, sendo o primeiro a sofrer perdas.
Seguindo as ordens de Doenitz, os submarinos atacaram primeiro as escoltas, e
a fragata Lagan não demorou a retornar à base, com sérios danos causados por
um torpedo acústico. Em seguida, dois navios mercantes foram postos a pique,
mas, de manhã cedo, os Liberator da Islândia responderam afundando o U-338.
Ironicamente, isto aconteceu com um torpedo acústico lançado pelo avião, pois
assim como o comando da arma submarina achava que conseguira a resposta para
a superioridade técnica do inimigo, os aliados começaram a usar a sua versão
da mesma idéia. Além disso, eles se mantinham um passo à frente. Supondo que
os alemães estivessem também desenvolvendo esse tipo de torpedo, procuraram
com empenho a produção de um antidoto. Quando encontraram a idéia certa,
verificaram com espanto que a coisa era simples: bastava que o navio
rebocasse uma máquina que produzisse barulho. Como esse barulho fosse mais
forte que as máquinas do navio, o torpedo acústico se dirigia contra ela e
explodia a distância segura do navio. Mas, quando se deu esse encontro o
estratagema não havia ainda sido aplicado. Durante o dia, numa repetição do que se dera em março, os dois
comboios se fundiram num só. Na primeira ocasião, o resultado da manobra foi
o crescimento do número de navios que podiam servir de alvo para os
submarinos. Desta vez, porém, o efeito foi duplicar a força das escoltas.
Juntas, naquela noite elas frustraram três ataques contra o comboio
propriamente dito. Começou então uma batalha maior, atrás dos navios
mercantes, entre as escoltas e os submarinos. Às 20:00 h, um torpedo acústico
explodiu na popa do destróier St.-Croix, que uma hora depois foi posto a
pique com um torpedo convencional. Às 22:30 h, outro torpedo acústico afundou
a corveta Polyanthus. No dia seguinte, 21 de setembro, caiu um nevoeiro que suspendeu
temporariamente a atividade dos submarinos. Estes emergiram e partiram para a
frente do comboio. Nos períodos em que o nevoeiro diminuía, os aviões
esquadrinhavam a área, em busca dos submarinos, que os mantinham fora dos
limites do bombardeio, usando energicamente suas novas armas antiaéreas. Ao
anoitecer os ataques recomeçaram, mas as escoltas conseguiram manter os
submarinos afastados dos navios mercantes. Um segundo golpe mortal foi
desferido pelo destróier Keppel, que abalroou e afundou o U-220, de manhã
cedo, a 22 de setembro. Aquele dia foi de nevoeiro denso, não ocorrendo
afundamento de navio. À noite, porém, um submarino disparou um torpedo
acústico contra o destróier Itchen, afundando-o e causando a morte de seus
tripulantes, à exceção de três, e dos sobreviventes do St.-Croix e da
Polyanthus. Depois disso, os submarinos começaram a impor-se, conseguindo,
finalmente, às 02:20 h de 23 de setembro, penetrar o cordão de destróieres,
afundando 4 navios mercantes num espaço de quatro horas. Então o nevoeiro
caiu novamente e isto, somado à presença da escolta aérea, fez com que
Doenitz cancelasse a operação. Ele a considerou um sucesso; os comandantes de
submarino afirmaram ter afundado 12 destróieres com torpedos acústicos e 9
navios do comboio com torpedos convencionais. Mais tarde ficou evidenciado
que tais afirmações, normalmente exageradas, tornaram-se ainda mais
fantasiosas com a introdução do torpedo acústico. O registro de sucessos com
o torpedo acústico tinha que ser exagerado, pelo fato de ele obrigar, a cada
disparo, o submarino a mergulhar. Se não o fizesse rapidamente, o torpedo
acústico, que se orientava pelo barulho, daria fatalmente a volta e, atraído
pelo ruído dos motores diesel do submarino, contra ele iria explodir. Desse
modo, o comandante do submersível não via o resultado do ataque e, submersos,
as explosões dos torpedos e as detonações das cargas de profundidade
distantes muitas vezes eram tomadas por sucessos. Na verdade, os 19 submarinos que formavam a "alcatéia"
haviam afundado 6 navios mercantes e 3 de escolta, danificando um de escolta.
Três submarinos foram destruídos e 3 saíram avariados. Jubiloso com os relatórios recebidos e confiando em que o
torpedo acústico era a solução dos seus problemas, Doenitz tornou a dispor os
submarinos em linha, na expectativa de novos comboios. Foi uma decisão infeliz.
Dois comboios foram desviados; o terceiro recebeu uma escolta aérea poderosa
e os submarinos nem sequer viram os navios, embora os aviões afundassem os
U-279, U-366 e U-389. Um quarto comboio, o SC143, foi avistado a 8 de
outubro; seus 39 navios tinham uma escolta de 9 belonaves e 18 submarinos
alinharam-se contra ele, conseguindo afundar um destróier, o Orkan, mas
quando, ainda naquele dia, as escoltas chegaram, outros três submarinos foram
postos a pique, os U-419, U-643 e U-610. Somente a 15 de outubro é que outro comboio foi visto no
Atlântico, o ON206, e a ação contra ele não foi mais encorajadora que as
anteriores. Um ataque dos submarinos, naquela noite, fracassou, quando a
escolta os obrigou a mergulhar profundamente. Antes que pudessem montar qualquer
ataque na noite seguinte, os Liberator que operavam a certa distância do
comboio localizaram, com o radar, e afundaram o U-884 e o U-470. Na noite de
17 de outubro, o U-540 foi destruído da mesma forma e pouco depois o U-631
foi trazido à superfície, por um ataque de cargas de profundidade lançadas de
uma corveta, e prontamente posto a pique. Outro comboio, o ON520, seguia o
caminho do primeiro e os submarinos conseguiram afundar um dos seus navios
mercantes. Os britânicos responderam imediatamente. Um Liberator afundou o
U-964, e uma fragata meteu a pique o U-841. Nessas duas últimas batalhas, 6
submarinos foram destruídos, perdendo-se apenas um navio mercante. A sucessão de desastres, que ganhava característica de regra, em
vez de exceção, como outrora, levou Doenitz de novo a ponderar sobre a
retirada de cena dos seus submarinos. Ainda uma vez ele decidiu não tirá-los,
voltando a colocá-los em linha de ataque. À medida, porém, que Doenitz
engrossava o número de lobos contra os comboios, o inimigo respondia com
escoltas cada vez mais fortes. Com isso, os quatro comboios seguintes não
perderam um só navio, mas as escoltas de superfície e aérea trabalharam num
conjunto tão harmonioso que, graças à má vontade patológica de Goering em
cooperar, os alemães jamais conseguiram igualar. E mais 3 submarinos desceram
para sempre ao fundo. Embora utilíssima a conjugação de esforços das forças
britânicas, não foi somente este fato que determinou a perda de tantos
submarinos. Para a consecução desse resultado, que varreu dos mares numerosos
agentes de emboscadas, muito contribuiu a inventiva do Capitão Walker, agora
na chalupa Starling, que foi novamente a inspiração de muitos ataques bem
sucedidos. Nesse período, muitas tripulações de submarinos devem ter morrido
com expressões de espanto no rosto, pois terrível que fosse o
"ping" do "asdic" de um destróier, ele tinha seu elemento
de conforto. Enquanto se pudesse ouvi-lo, havia possibilidade de escapar,
pois o destróier não podia estar suficientemente perto para lançar cargas de
profundidade. A preocupação começava realmente quando o "ping"
parava. Será que o contato fora perdido, ou o destróier estaria navegando bem
acima deles, estando já a caminho a carga de profundidade? Quando vinha o
silêncio, era chegado o momento de o submarino contorcer-se a toda velocidade
para escapar às explosões e fazer com que o destróier perdesse contato de uma
vez por todas. Estava, porém, acontecendo um fenômeno inusitado: sem que o
"ping" houvesse cessado, as cargas de profundidade passaram a
explodir em cima do submarino, sem que os comandantes alemães atinassem com a
razão de ser da existência do "ping" e da explosão simultaneamente.
Só mais tarde foi o mistério explicado: Walker colocava um navio diretamente
à frente de outro. O segundo destróier mantinha o submarino em contato com
seu "asdic" e orientava o primeiro até coloca-lo sobre o inimigo.
Computando cuidadosamente a distância e a velocidade do submarino, o
comandante do segundo barco sinalizava quando queria que fosse lançado o
tapete de cargas de profundidade pelo navio da frente. Se o submarino, na
tentativa de fuga, estivesse descrevendo curvas e voltas, o escolta que vinha
atrás orientava dois ou três caçadores no seu provável caminho. O método era
quase infalível e os resultados, inevitavelmente mortíferos. Walker, que morreu de estafa, em julho de 1944, foi um digno
adversário do melhor dos comandantes de submarino. Um destróier, agindo sozinho, também tinha uma resposta para o
problema do contato do "asdic" perdido - mais simples e não tão
precisa - na forma de um dispositivo para lançar cargas de profundidade à
frente da própria proa. A primeira versão era conhecida como
"porco-espinho" e consistia de um grupo de 24 cargas de
profundidade que explodiam por contato. A vantagem era que, a menos que o
submarino fosse atingido; não haveria qualquer explosão para perturbar o
contato do "asdic" e o "porco-espinho" podia ser
recarregado para outro disparo. Nos meses de setembro e outubro de 1943, perderam-se nada menos
de 25 barcos nesses novos ataques às rotas de comboio do Atlântico Norte.
Suas próprias realizações foram escassas - apenas 9 navios mercantes! Com
isso, o fim de outubro foi também o fim da "alcatéia". Daí em
diante, Doenitz dispersou as grandes concentrações de submarinos, porque
pareciam ser precisamente o tipo de alvo que mais agradava à escolta, e
reorganizou seus recursos em pequenos grupos de ação independente. Mas mesmo
estes não estavam imunes aos aviões, sempre vigilantes. Vários grupos de dois
ou três submarinos, formados a leste da Terra Nova e ao sul da Groelândia,
descobriram que, mal espichavam o periscópio acima da superfície, os aviões
mergulhavam sobre eles, iluminando-os. E se os próprios aviões não lançavam
bombas e cargas de profundidade, as escoltas de superfície não demoravam a
cruzar por ali, iniciando o "ping" do "asdic" contra o
casco. À medida que saíam dos estaleiros de construção, os novos
submarinos eram mandados para o Atlântico Norte, tudo, porém, inutilmente. Em
novembro, somente 6 navios mercantes, com 23.000 toneladas, foram afundados;
em dezembro, apenas 7, com 48.000 toneladas. E naquelas mesmas rotas de
comboio, nesses mesmos meses, 16 submarinos foram destruídos. Esses
registros, comparados com o que ocorreu no mês de março anterior, quando só
no Atlântico Norte 80 navios, com 476.349 toneladas, foram afundados, com a
perda de apenas 6 submarinos, mostravam que o curso da guerra estava
delineado. À medida que o renovado esforço aplicado na área do Atlântico
Norte começava a mostrar sinais de fracasso, Doenitz tentou salvar a situação
aumentando a pressão em outras águas. Nas rotas de comboio meridionais, na
vizinhança dos Açores, o porta-aviões americano Card desfechou outro golpe
nas esperanças do comandante alemão, afundando o petroleiro submarino U-422.
Outro porta-aviões, o Block Island, destruiu o petroleiro submarino U-220, a
28 de outubro; com isso, a esquadra submarina ficou apenas com uma dessas
"vacas leiteiras", o U-488, para abastecer os submarinos destinados
a operações demoradas. Para garantir a segurança do barco, Doenitz retirou-o
das áreas que os porta-aviões haviam tornado perigosas, mudando-o para a
relativa segurança da costa africana. Foi contra os comboios norte-sul, de Freetown e Gibraltar, que se
dirigiu, com o deslocamento determinado por Doenitz, o ataque dos submarinos.
Mas foi também ali que os Aliados colocaram, no verão de 1943, importante
peça do complexo quebra-cabeças de medidas anti-submarinas, aéreas e de
superfície. Em agosto, depois de dois anos de negociações, o governo
português finalmente assinou um acordo com a Grã-Bretanha, permitindo o uso
de bases aéreas em duas ilhas dos Açores. Os britânicos principiaram a ocupar
as bases a 8 de outubro, e por volta do dia 19 do mesmo mês os primeiros
aviões estavam decolando em surtidas anti-submarinas, dando aos Aliados uma
cobertura aérea de todo o oceano Atlântico ao norte da latitude de 30 graus. Em oposição a eles, Doenitz alinhou um grupo de 8 novos
submarinos e passou a desfrutar das facilidades do reconhecimento da
Luftwaffe e, que concordara em destacar pequeno número de aviões para
cooperar com a arma submarina. As forças adversárias entraram em contato a 27
de outubro; quando um Focke-Wulf comunicou a presença de um comboio de 60
navios navegando para o norte. Ao amanhecer do 31 de outubro, os submarinos,
navegando para o sul, em linha, avistaram-no, iniciando-se a batalha, que
afinal não durou muito. Primeiro, o U-306 foi afundado, num trabalho
combinado de um destróier e uma corveta; os submarinos avariaram um navio
mercante, mas logo a seguir um dos submarinos também foi danificado e, em
vista da força da cobertura aérea, que incluía aviões das novas bases nos
Açores, o Comando Submarino suspendeu o ataque. A 7 de novembro, os Focke-Wulf denunciaram a passagem de outro
comboio, indo para o norte, mas quando os submarinos travaram contato com
ele, só conseguiram perder um dos seus e ter outro avariado, sem que
destruíssem qualquer navio. A 16 de novembro, numa demonstração da grande
utilidade do reconhecimento aéreo, os aviões comunicaram a presença de outro
comboio, com 66 navios, na realidade pertencentes aos comboios SL139, da
Serra Leoa, e MKS30, de Gibraltar, protegidos por uma escolta combinada.
Contra eles, Doenitz ordenou que se alinhassem 26 submarinos e, às 11:00 h de
18 de novembro, eles se encontraram. O destróier Exe, logo no início,
conseguiu trombar com o U-333, mandando-o seriamente avariado de volta à
base. Mas então um submarino respondeu na mesma moeda, mandando a chalupa
Chanticleer para sua base, rebocada, sem a popa, que fora destruída por um
torpedo acústico. Depois disso, os britânicos rodearam o comboio com unidades
de escolta. Aviões Hudson, Fortalezas-Voadoras e Catalina enxameavam os céus
durante o dia; à noite, chegavam os Wellington, com "luzes Leigh",
ameaçando iluminar qualquer submarino que se atrevesse a pôr fora da água o
periscópio. O U-211 foi um destes, sendo afundado incontinenti. Mais 9 navios
de escolta chegaram no dia 19, aumentando o total para 19, para proteger os
navios mercantes em dois sólidos cordões. Naquela noite, Doenitz tornou a
montar um ataque decidido, mas quem deu o primeiro golpe foi a escolta. O
U-536, depois de emergir, forçado pelas cargas de profundidade, foi submetido
a constante fogo de artilharia, até afundar. Durante o dia seguinte, a
batalha também tomou conta dos ares, quando aviões de escolta atacaram os
aviões de reconhecimento alemães e derrubaram dois deles. A troca de golpes
continuou, mas coube ao U-618 acertar o seguinte, quando derrubou um aerobote
Sunderland. Ao anoitecer do dia 20, os cansados combatentes ainda se atacavam
com fúria implacável. O U-684 derrubou um Liberator; um destróier captou o
U-538, em seu "asdic", às 04:30 h e, depois de seis horas de perseguição,
finalmente o afundou com cargas de profundidade. Ao todo, 31 submarinos estiveram envolvidos no ataque aos
comboios, mas nenhum dos navios mercantes foi sequer danificado. Somente uma
chalupa recebeu avarias e dois aviões Aliados foram derrubados, enquanto que
3 submarinos foram destruídos, além de um avariado. Suspenso o ataque, Doenitz, com louvável tenacidade, alinhou
outra formação, de 16 barcos, para procurar dois outros comboios cuja
presença fora comunicada, o OS59 e o KMS30, que percorriam idêntica rota.
Nesse caso, o Almirantado estava um passo à sua frente. A formação de
submarinos já havia sido comunicada e uma escolta estava a caminho do
encontro com os comboios. O grupo de escolta e a formação de submarinos
entraram em choque frontal durante a noite de 22 de novembro e, enquanto o
comboio saía da zona de perigo, eles se empenharam numa escaramuça que
resultou na destruição do U-468. Nessas movimentadas rotas oceânicas eram numerosos os objetos da
mira dos submarinos e eles mudavam continuamente o roteiro de sua caminhada
terrível, só que agora, toda vez que mudavam, este mesmo 4o Grupo
de Escolta os acompanhava; a perseguição era implacável. A 25 de novembro,
duas fragatas afundaram o U-600 e, no dia seguinte, danificaram o U-618. Por volta
de 27 de novembro já o 2o Grupo de Escolta, comandado pelo Capitão
Walker, havia chegado para ajudar a hostilizar os submarinos. Mas durante
aquela noite, um avião Wellington, equipado com "Luz Leigh",
passou-lhe à frente e afundou o U-542. A 29 de novembro, os aviões do
porta-aviões americano Bogue acabaram com a carreira do U-86. Somente um dos
submarinos conseguiu penetrar a proteção da escolta e atacar o comboio, mas
seus torpedos erraram o alvo e ele foi avariado. Compreensivelmente, após
esse acúmulo de perdas, Doenitz suspendeu a campanha nessas águas. Protegidos
por tal concentração de escoltas aéreas e navais e pelos enérgicos grupos de
apoio, que pareciam estar sempre presentes onde houvesse o menor perigo, os
comboios podiam passar pelas linhas de submarinos na mais completa imunidade.
Com as águas de todo o mundo ocidental mostrando-se novamente perigosas
demais para os integrantes de sua força, Doenitz foi, uma vez mais, obrigado
a repensar a estratégia futura. Entrementes, o final do ano mais desastroso
para a arma submarina chegou silenciosamente às rotas dos comboios. As águas ocidentais Para onde poderia voltar-se Doenitz, diante das sucessivas
derrotas que suas forças vinham sofrendo? Qualquer que fosse o lugar para
onde mandasse os submarinos, quase sempre caíam vítimas das escoltas, e o
retorno à base era invariavelmente assinalado por enormes ausências dos que
haviam zarpado com tanto entusiasmo. Aliás, enquanto mantinha alguns barcos em missões de longo alcance,
Doenitz alinhou a maioria nas águas ocidentais das Ilhas Britânicas. Em
meados de fevereiro, ele estacionou 24 deles numa linha que ia das Ilhas
Faeroés, ao norte, a Brest, ao sul. Cada submarino patrulhava um trecho de
cerca de 48 km, conservando-se permanentemente submersos, exceto quando se
tornasse necessário recarregar as baterias. Nessas circunstâncias, as
possibilidades de avistar um comboio eram mais que exíguas, mas essa tarefa
já havia sido entregue à Luftwaffe, cujos sinais da presença de um comboio
eram logo retransmitidos aos submarinos. Mas não foi por culpa da arma submarina que o plano jamais
funcionou. Vários comboios foram avistados, mas o resultado era sempre o
mesmo. A 17 de janeiro, por exemplo, os aviões encontraram um comboio e os
submarinos receberam ordem de atacar, mas, por não conseguirem os aviões de
reconhecimento sustentar o contato com os navios mercantes, comunicando as
alternativas do roteiro que seguiam, apenas um submarino alcançou-os antes
que se perdesse a posição do comboio. O submarino era o U-641, que foi
prontamente afundado pela corveta Violet. Doenitz ordenou que a patrulha se
aproximasse mais da costa irlandesa, mas seus sinais foram interceptados pelo
Almirantado Britânico e fortes concentrações de aviões estacionaram em
aeródromos da Irlanda. Sua primeira tarefa deu-se a 27 de janeiro, quando os
britânicos ouviram os aviões de reconhecimento da Luftwaffe comunicar as
posições de dois grandes comboios e, no dia seguinte, os submarinos que
partiram em busca destes foram encontrados pelos aviões defensores. O U-271 e
o U-571 logo foram postos a pique e os submarinos suspenderam imediatamente o
ataque projetado. Entretanto, as escoltas de superfície continuaram a
caçá-los, enquanto tentavam escapar para oeste, e a 31 de janeiro o Starling,
do Capitão Walker, encontrava-se entre os barcos que alcançaram e afundaram o
U-592. Nas semanas seguintes, as defesas aéreas e navais mantiveram
firme domínio dessas águas, importantíssimas para as rotas mercantes
transoceânicas dos Aliados e os submarinos jamais puderam arrancar-lhes a
iniciativa. Os submarinos continuaram no ataque aos comboios de cuja presença
eram informados, mas a maior parte do seu tempo, combustível e energia; para
não falar do moral, era desperdiçado na tentativa de escapar aos destróieres,
corvetas e chalupas dos Grupos de Escolta. A 8 de fevereiro, o Woodpecker
destruiu o U-762 com cargas de profundidade; na manhã do dia 9, o Capitão
Walker, no Starling, usando sua já muito testada técnica do "ataque
furtivo" em conjunção com outro vaso, afundou o U-734. Naquela mesma
tarde, vários destróieres uniram-se no ritual macabro, nas águas, sobre o
U-238, que sobreviveu a vários ataques antes de sucumbir. A 11 de fevereiro,
o U-424 foi acrescentado à lista das vítimas desse grupo. O porta-aviões de escolta Fencer também estivera muito ocupado e
seus aviões afundaram o U-666 a 10 de fevereiro. Naquela noite, os aviões que
decolaram da Irlanda localizaram e afundaram o U-545 e o U-283, sendo que
este último foi um dos poucos que tiveram qualquer sucesso nesse período:
poucas horas antes de afundar, conseguiu derrubar um avião britânico. Três dias depois, embora ainda sem uma idéia muito clara do
vulto das perdas sofridas, Doenitz desviou seus barcos mais para oeste,
sobretudo para protegê-los. Embora os comboios continuassem a aparecer na
área patrulhada pelos submarinos, o pessoal do reconhecimento da Luftwaffe,
denotando falta de experiência, comparados aos colegas britânicos, não
conseguiu comunicar a presença da maioria deles. Nos raros casos em que se
verificava o contato, a história era sempre a mesma - ou os aviões obrigavam
os submarinos a mergulhar, ou as patrulhas de superfície se aproximavam
furtivamente, com o "ping" zombeteiro e ameaçador do
"asdic" que os desencorajava. A 19 de fevereiro, foi ainda Walker quem destruiu o primeiro
submarino a fazer-se ao mar equipado com o novo "schnorkel", o
U-264. Então, às 22:00 h daquele mesmo dia, os submarinos registraram o
primeiro e único sucesso contra as escoltas durante todo esse período, quando
um deles acertou um torpedo acústico na popa da chalupa Woodpecker, que
afundou oito dias depois, quando era rebocada para as Ilhas Scilly. Durante quase um mês o 2o Grupo de Escolta subiu e
desceu, as rotas de comboio, à procura de submarinos, que não se sentiam
muito estimulados a aparecer. Onze deles foram afundados e só conseguiram
destruir o Woodpecker, um navio desgarrado do comboio e dois aviões. Quando soube do fracasso dos submarinos e da quantidade deles perdida,
Doenitz, muito amargurado, atribuiu a responsabilidade da tragédia aos aviões
de reconhecimento. Queixando-se diretamente a Hitler, a 26 de fevereiro,
pediu-lhe mais aviões e que se acelerasse o programa de construção dos
submarinos Tipo XXI, com sua velocidade maior quando submersos e com os
cascos Walter, nos quais depositava tanta esperança. Entrementes, deslocou seus barcos mais para oeste, para o
Atlântico, a 1.100 km das costas européias, onde receberam ordens de operar
individualmente contra os comboios. Eles fizeram vários contatos, sem
qualquer ajuda dos aviões, e o U-575 conseguiu afundar a corveta Asphodel, a
8 de março. Esse foi, porém, um dos poucos encontros que saíram a seu favor.
O próprio U-575 sentiu o grau de determinação das escoltas nesse estágio da
batalha: foi caçado por 18 horas, antes de conseguir escapar. Já o U-538
sofrera a perseguição mais prolongada de toda a guerra, a 29 de fevereiro,
perseguição que durou 38 horas; a 5 de março, o U-744 foi buscado, pela
escolta, durante 30 horas, até que, alcançado, sua tripulação o abandonou. Por volta de 22 de março, Doenitz, já saturado, retirou seus
submarinos do Atlântico Central, deixando claro a Hitler que somente o
desenvolvimento do novo Tipo XXI e uma ajuda bem maior da Luftwaffe é que o
induziriam a voltar àquela região. Afinal de contas, ele perdera 36
submarinos entre janeiro e março. Outros 6 foram acrescentados àquele total,
durante o mês de abril, e que faziam parte do pequeno grupo que ainda se
encontrava em ação nas fimbrias do Atlântico. Dos 5 que ali restavam no
começo de maio, 2 foram postos a pique no transcurso daquele mês. Pelo final de maio, também as atividades nos teatros de guerra
mais distantes haviam parado. Somente dois barcos cobriam as águas ao largo da
costa americana e outros dois a costa da África Ocidental. Em nove meses,
apenas 26 navios Aliados se perderam nessas áreas, ao custo de 20 submarinos.
Esses números, porém, não bastavam para inclinar o rumo da guerra para um
lado ou para o outro. Mas, para os Aliados, os navios salvos representavam
sucesso, pois o processo de concentração de suprimentos e armas na Europa
poderia prosseguir. Por outro lado, para os alemães, que tinham a guerra
submarina como eminentemente ofensiva, só a redução contínua do número de
navios poderia significar progresso. Enquanto a guerra fosse calma, os
Aliados a estariam vencendo. Em junho e julho, raros submarinos saíam para operar em áreas
distantes, enquanto prosseguia o regime de ataques e contra-ataques, de
afundamento e perseguição, com torpedos e cargas de profundidade, mas sem a
fúria das batalhas dos anos anteriores. Os alemães, depois de um sem número
de encontros desfavoráveis, premidos pela necessidade de mudar de tática,
procuravam pontos fracos da defesa para investir e recuar, e os Aliados, em
permanente vigilância sobre seus comboios, atacavam onde quer que o inimigo
se mostrasse. Durante os meses de junho e julho, os submarinos não afundaram
um só navio ao largo do continente americano, nem no Atlântico Norte. Foi
realmente tempo de muita calma. Os acontecimentos dos últimos meses haviam mostrado que nem o
torpedo acústico, nem o moderno receptor de radar, nem a maciça rede de
armamento com que passaram a ser dotados os submarinos haviam conseguido pelo
menos equilibrar os encontros submarinos versus escolta, o que levou Doenitz,
no inicio de junho, depois de muito pensar no futuro da arma submarina, no
seu diário, para mais uma sombria confidência: "Nossos esforços para prender as forças inimigas até agora
têm sido bem sucedidos. O número de aviões, de vasos de escolta, de grupos de
destruidores de submarinos e de porta-aviões destacados para as forças
antisubmarinas do inimigo, longe de diminuírem, têm aumentado. Para os
submarinos, a tarefa de prosseguir na luta apenas para reter as forças
inimigas vem-se tornando, no entanto, particularmente difícil." Então era isso! Depois de anos de afundamentos de navios
mercantes, no ritmo de mais ou menos 750 mil toneladas por mês; depois de tanto
reivindicar Doenitz junto à liderança nazista para que lhe permitisse travar
a sua guerra contra as linhas de abastecimento Aliadas como achava que
deveria ser travada; depois de tudo isso a arma submarina tinha, agora, de
resignar-se à tarefa de apenas reter as forças adversárias. Ela precisava
funcionar como isca para manter ocupadas as patrulhas de escolta aérea e
naval do inimigo, enquanto as outras armas de Hitler, então consideradas mais
importantes, procurariam ganhar a guerra. Mas até mesmo esse objetivo só
poderia ser buscado em certas águas escolhidas, onde os submarinos, com
limitada cobertura e cooperação aéreas, de alguma forma tinham condições de
atuar. O pior de tudo, como Doenitz observou, é que a possibilidade de a
tripulação não retornar de uma missão havia aumentado imensamente. Apenas 70%
dos que partiam em patrulha, nos primeiros meses de 1944, retornavam. Porém, por mais que a tarefa fosse defensiva, por mais que
violentasse o espírito aguerrido da arma submarina, a retenção das forças
inimigas era de grande utilidade. Enquanto os navios carregassem materiais
bélicos para as tropas que se concentravam na Grã-Bretanha para a invasão do
continente que, todos sabiam, seria finalmente tentada, qualquer avião ou
navio que se mantivesse ocupado, seria menos um na inesquecível arremetida
Aliada contra o reduto nazista. Tanques, canhões, veículos, combustível,
alimentos, munição, homens para combater as tropas alemães, tudo teria de ser
transportado através do Canal da Mancha, quando chegasse o momento da
invasão, e qualquer navio que os submarinos pudessem afundar prejudicaria os
exércitos invasores e aliviaria a tarefa dos defensores naquela exata
proporção. Havia, porém, um ligeiro clarão no horizonte distante que
prometia influir na sorte dos submersíveis. Na primavera de 1944, o
"schnorkel" estava sendo instalado nos submarinos operacionais, e
no mês anterior ao da invasão, já os germânicos dispunham da experiência
necessária para afirmar que o aparelho seria a grande resposta de Doenitz às
técnicas anti-submarinas dos Aliados. Por conseguinte, a 1o de
junho ordenou Doenitz que nenhum submarino fosse mandado para o Atlântico sem
que estivesse equipado com o novo aparelho, e pela primeira vez, desde 1940,
os submarinos puderam reiniciar as operações nas águas rasas do Canal da
Mancha. Quando a invasão realmente ocorreu, a 6 de junho, eles puderam
provar seu valor. Naquele dia, Doenitz, ainda que sabedor das dificuldades
que seus homens enfrentavam, fez clara exposição de propósitos na instrução
que baixou, dirigida aos submarinistas, ao zarparem: "Cada navio que participa da tentativa de desembarque,
mesmo que tenha a bordo apenas um punhado de homens ou um só tanque, é um
alvo da máxima importância e tem de ser atacado, seja qual for o risco. "Faremos tudo quanto nos for possível para liquidar a frota
de invasão inimiga, sem levarmos em conta o perigo das águas rasas, dos
campos minados, do que quer que seja. "Cada homem, cada arma destruída antes de chegar às praias
reduz as possibilidades de êxito final do inimigo. "O submarino que infligir perdas ao inimigo enquanto este
desembarca, terá cumprido sua missão básica, muito embora não retorne
dela." Foi nesse tom desesperado e quase suicida que o Almirante se
despediu de seus homens ao enviá-los para a batalha. A última defesa Pouco depois que o Comando de Submarinos recebeu os primeiros
informes de que a esquadra de invasão havia zarpado, por volta de 01:00 h de
6 de junho, os submarinos foram mandados para seus postos antiinvasão. Vinte
e um barcos, 5 deles equipados com o "schnorkel", estavam em
Bergen, na Noruega; 9, também com "schnorkel", que se encontravam
em Brest e La Pallice, foram para o Canal da Mancha, entre a Ilha de Wight e
Cherburgo, e 7, de Brest, sem "schnorkel", receberam ordens de
procurar comboios de abastecimento entre os cabos Lizard e Start, na costa
sul britânica. E 19 outros submarinos, de bases francesas, receberam ordens
de tomar posições numa linha de patrulha através do Golfo de Biscaia, para
enfrentar quaisquer desembarques por ali. Naquela noite registraram-se alguns dos mais ferozes combates de
toda a campanha submarina e os barcos que estavam no Golfo de Biscaia foram
os que mais sofreram. Eles derrubaram quatro aviões atacantes e, embora 5 submarinos
fossem obrigados a retornar à base, avariados, somente o U-955 foi ao fundo.
Na noite seguinte, o U-970 foi afundado por um Sunderland, e o U-629 e o
U-373 foram destruídos por um bombardeiro Liberator, em breve espaço de
tempo. Naqueles primeiros dias, o valor do "schnorkel" ficou
amplamente demonstrado, ainda que apenas como peça defensiva. Quando foram
afundados o U-740, a 9 de junho, e o U-821, no dia seguinte, cancelou-se a
saída de todos os submarinos que não estivessem equipados com o "schnorkel",
e os que estavam em alto-mar receberam ordem de voltar. Aí pelo dia 15 de junho começaram a chegar ao Canal da Mancha os
submarinos que estavam na Noruega, equipados com "schnorkel". O
U-767 conseguiu o primeiro sucesso, afundando uma fragata perto do Cabo
Land's End. Seguiu-se o afundamento de outra, pelo U-764, embora este fosse
avariado num contra-ataque. Três dias depois, o U-767 também foi atacado e
afundado por 3 destróieres. Depois que o U-621 meteu a pique um navio de
desembarque, perto da área de invasão, o esforço antiinvasão dos submarinos
parou quase que inteiramente. Os que zarparam da Noruega foram seriamente
atacados pelas patrulhas aéreas britânicas, canadenses e norueguesas e 4
submarinos foram destruídos entre 11 e 24 de junho. Nas duas últimas semanas
de junho, mais 12 submarinos, saídos das bases de Biscaia e do Atlântico,
começaram a convergir para a área de invasão do Canal da Mancha, mas apenas 3
chegaram lá. O U-948 foi o único que conseguiu infligir dano aos navios de
abastecimento, quando torpedeou 4 navios; um atrás do outro, ao largo de
Selsey Bill, dos quais 3 submergiram, sendo rebocado o quarto de volta ao
porto. Dos outros submarinos, 3 foram afundados pelas escoltas e os restantes
avançaram tão lentamente, navegando submersos, com seus
"schnorkel", a maior parte do tempo, que jamais chegaram às
apinhadas rotas de travessia do Canal, onde os navios eram numerosíssimos. Durante o mês de julho, os submarinos continuaram zarpando, em pequenos
números, para o Canal da Mancha, mas o sucesso obtido foi seriamente limitado
pela determinação das forças de combate ao submarino. O U-390 torpedeou e
afundou um vaso no dia 4 de julho, mas foi destruído num contra-ataque, no
dia seguinte. A 6 de julho, o U-678 foi posto a pique, seguido pelo U-234, no
dia 8, e o U-1222, no dia 11. Um submarino que se saiu admiravelmente durante a invasão foi o
U-763. A 6 de julho, seu capitão, Ernst Cordes, contou 550 cargas de
profundidade lançadas contra ele desde que foi localizado por destróieres
durante um ataque ao largo de Selsey Bill. Perseguido durante 30 horas
consecutivas ele percorreu as águas rasas, mudando de direção com a maior
freqüência possível, às vezes raspando o leito do mar. Pela manhã de 7 de
julho ele havia escapado aos atacantes, mas, sob a pressão do pânico e da
fadiga, o deslocamento por estimativa que fez foi, para dizer o mínimo,
impreciso. Por volta de meio-dia, calculou Cordes que deveria estar a uns 30
km ao norte de Cherburgo, mas todas as indicações não conseguiram confirmar
essa suposição. Segundo os mapas e o ecômetro, as profundidades estavam
erradas e o radiofarol dera a localização errada. Cordes concluiu que as
correntes o haviam empurrado para algum ponto situado entre as Ilhas
Anglo-Normandas, por isso deslocou-se para o norte, tentando tirar seu
submarino da confusão e penetrar em águas mais profundas. Mas, às 04:00 h do
dia seguinte, o U-763 encalhou novamente. Tendo tido tempo para ponderar
sobre tudo quanto havia ocorrido nas últimas horas, Cordes aos poucos começou
a compreender que estava a quilômetros das Anglo-Normandas. Concluiu que
havia encalhado em Spithead, ancoradouro inglês situado ao largo da Ilha de
Wight. Essas águas fervilhavam de embarcações de todo tipo - barcaças de
desembarque, navios-hospitais da invasão, barcos que navegavam entre as
baías, ao longo daquela movimentada costa. Durante 12 horas o submarino
manteve-se imóvel, como se atirado no fundo do mar; então, quando a maré lhe
foi favorável, Cordes desencalhou-o e saiu lentamente daqueles baixios.
Finalmente, com os nervos esfrangalhados pela terrível experiência, Cordes
chegou a Brest, com seu submarino incólume. A maioria dos submarinos que penetraram no Canal da Mancha,
naquele período, não teve, porém, tanta sorte. Aí pelo começo de agosto, 8
deles foram acrescentados aos 7 que já haviam sido afundados em junho no
Golfo de Biscaia e na Mancha, perfazendo dois terços dos que haviam sido
mandados operar ali. Cerca de 750 homens pereceram na destruição deles. Mas
novos recrutas ainda se apresentavam como voluntários para a arma, com tanto
entusiasmo que levou Doenitz a comentar, sobre a campanha antiinvasão -
"Nem mesmo eu podia igualar-me, no moral e na coragem demonstrados, às
tripulações dos submarinos". Em termos de números, o desempenho dos submarinos foi
desapontador: apenas 12 navios mercantes e 4 barcaças de desembarque foram
afundados; 5 navios, um vaso de escolta e uma barcaça de desembarque saíram
avariados. Por outro lado, apesar das perdas que sofreu, Doenitz considerou
proveitoso o que seus pupilos conseguiram. Eles, por certo, não tinham
conseguido deter a invasão, mas haviam,. pelo menos, prejudicado a
concentração de tropas Aliadas, o que, pensava Doenitz, tinha aliviado o
fardo das tropas defensoras em terra. O mais importante é que o uso do "schnorkel" nessa
campanha mostrara que o pêndulo poderia finalmente começar a oscilar para o
outro lado. Depois da supremacia do submarino contra as rotas de comboio
estabelecida nos primeiros anos da guerra, seguida das derrotas que as
escoltas aéreas e navais lhe impuseram em 1943, a resposta estava agora
claramente visível. Com o "schnorkel", os submarinos mostraram-se
quase imunes ao radar aerotransportado que, nesse estágio de desenvolvimento,
parecia incapaz de captar o eco de um objeto tão pequeno como a cabeça de um
"schnorkel". Naquela época, sua lenta velocidade submersa e sua
limitada visão pelo periscópio combinavam-se para reduzir a eficiência do
submarino. Mas o programa de construção de versões de alta velocidade estava
em franco desenvolvimento, e quando saíssem dos estaleiros, em grandes
números, a possibilidade de se preparar uma nova campanha, com
ataques-relâmpagos, sob as águas parecia excelente. Seria uma nova espécie de
guerra. Mas depois de quase cinco anos de hostilidades, um novo tipo de
guerra era exatamente o que se precisava. O valor do "schnorkel" evidenciou-se mais ainda na
primeira semana de agosto, quando a penetração das forças americanas abriu
caminho até a península da Bretanha e ameaçou isolar as bases de submarinos
de Brest e Lorient. Confrontado com essa ameaça, Doenitz ordenou que seus
barcos fossem para o sul, para as bases em La Pallice e Bordéus. Então, em
meados de agosto, as forças americanas chegaram sos arredores das bases do
Golfo de Biscaia e todos os submarinos receberam ordens de zarpar para a
Noruega. Embora os Aliados soubessem disso, e apesar do decidido esforço
aéreo montado para impedi-lo, 22 submarinos conseguiram transferir-se,
juntamente com outros 9 que estavam operando no Canal da Mancha ou retornando
à base, depois de surtidas de longas distâncias. Foi praticamente graças ao
"schnorkel" que eles puderam escapar à destruição na travessia das
movimentadas águas. Mas havia desvantagens. Enquanto o submarino estivesse usando o
"schnorkel" e recarregando as baterias submerso, o mar cobria a
superfície e fechava a válvula flutuante que impedia a penetração da água no
barco. Quando isso acontecia, os motores diesel roubavam oxigênio da única
fonte então disponível, o interior do casco, o que não só deixava os homens
ofegantes, com a falta de oxigênio, como também os submetia a mudanças
severas e súbitas de pressão. Ao mesmo tempo, os gases de descarga eram
lançados de volta ao interior do submarino e o elevado teor de dióxido de
carbono contido nos gases dos motores diesel aumentava os problemas da
tripulação. Além disso, o "schnorkel" deixava uma esteira de espuma
e uma nuvem de gases de descarga enquanto o submarino avançava a meia velocidade,
acionado pelas baterias, com os motores diesel funcionando para carregá-las.
Conseqüentemente, só à noite era possível usar o instrumento. Durante o dia,
toda a tripulação do submarino permanecia em seus beliches para poupar
oxigênio, evitando movimentarem-se pelo barco, sem cozinhar, sem comer ou
falar, só tornando-se ativos à noite, quando era seguro levantar o
"schnorkel" até a superfície. Então, com o ar fresco soprando pelo
barco, mesmo que isso representasse mudanças contínuas de pressão quando a
água fechava as válvulas, as tripulações punham-se a fazer contrações
físicas, como se fossem atletas, para normalizar o funcionamento dos pulmões
e dos membros. Depois de tão prolongadas horas e dias sem ver a luz do sol, o
cansaço das tripulações dos submarinos aumentava assustadoramente, motivo por
que o tempo que um submarino podia permanecer no mar foi reduzido para cerca
da metade da média dos primeiros anos da guerra. O advento do "schnorkel" também levou as forças
anti-submarinas a despender muito esforço, combustível e alto explosivo em
submarinos "fantasmas". À proporção que os submarinos realmente
avistados se tornavam cada vez mais raros, a imaginação dos integrantes
dessas forças se tornava cada vez mais viva. Enquanto os submarinos navegavam
incólumes, os pilotos e observadores das escoltas aéreas passavam o tempo
perseguindo e atacando bocados de espuma e pequenos jatos de água - que o
marinheiro chama de "willywaws" - que os mares lançam
constantemente. Até mesmo as inocentes baleias, com seus proverbiais
esguichos, muitas vezes sofriam a violência dos ataques com cargas de
profundidade. Quando os submarinos do Golfo de Biscaia se mudaram para a
Noruega e Alemanha setentrional e depois partiram para novas operações nas
águas costeiras britânicas, fizeram bom uso do "schnorkel". Depois
do colapso das bases do Golfo de Biscaia, as patrulhas aéreas britânicas
haviam sido fortemente reforçadas na passagem entre as Ilhas Shetland e a
Islândia, mas, dos 16 barcos que cruzaram por aquelas águas, somente dois
foram avistados do ar, e nem mesmo esses foram atacados. Por outro lado, em vista da necessidade de os submarinos usarem
aquela passagem setentrional, os britânicos desviaram os comboios para o sul
da Irlanda e, com isso, foram evitados muitos contatos, arrastando-se a
campanha, até o final do ano, com todas as características de um tedioso
impasse. Apenas um submarino foi afundado por mês, durante setembro, outubro
e novembro, nas rotas setentrionais e, em dezembro, 50 submarinos cruzaram
aquela passagem sem sofrer qualquer baixa. Mesmo depois de a terem
atravessado com sucesso, a lenta velocidade que desenvolviam quando submersos
e a limitada visão de periscópio privaram-nos de grande parte do poder de
ataque. Houve duas exceções notáveis: o U-484, comandado pelo Conde von
Matushka, entre 16 de agosto e 26 de setembro, percorreu mais de 4.300 km, na
maior parte submerso, e afundou 4 navios de dois comboios e uma corveta de
escolta. Então, em dezembro o U-486 afundou 3 navios mercantes, um navio de
tropas, com 800 soldados, e uma fragata, todos no Canal da Mancha. Mas essas
façanhas individuais não bastaram para quebrar a insipidez do quadro geral. Nos últimos quatro meses de 1944, a batalha, que transcorria
lenta nas águas costeiras britânicas, não era também muito movimentada em
outras partes do mundo, registrando-se, em todos os encontros havidos, 24
afundamentos de mercantes Aliados, contra 55 submarinos destruídos. Parecia
que toda a campanha fora reduzida ignominiosamente às proporções de uma batalha
simulada. Mas Doenitz sabia, para sua grande satisfação, e o Almirantado
Britânico não ignorava, para seu grande temor, que o programa de construção
de submarinos prosseguia com crescente rapidez, e que se baseava sobretudo
nos novos Tipos XXI e XXIII, de grande velocidade quando submersos, e contra
os quais os Aliados pareciam não ter nenhuma resposta imediata. A menos que os britânicos conseguissem de alguma forma dar maior
velocidade à campanha de afundamento de submarinos e obrigassem a uma decisão
prematura da questão, antes que a arma de Doenitz aumentasse seus efetivos e
arrancasse a iniciativa das suas mãos, a possibilidade de que os alemães
recuperassem a supremacia estava de pé. Com a passagem do ano, preparou-se o
palco para o que prometia ser uma das fases mais excitantes e imprevisíveis
da guerra. A fase final: janeiro a maio de 1945 Em janeiro de 1945, o primeiro submarino do Tipo XXIII, o
U-2324, partiu da sua base norueguesa, contornou as Ilhas Shetland, pelo norte,
para alinhar, em companhia de 19 outros barcos, na campanha costeira. Estes
elevaram o total da força naquelas águas para 39 submarinos. Doenitz não
escondia o prazer, a alegria de que estava possuído por verificar que o
"schnorkel" estava tornando sua esquadra totalmente imune ao ataque
aéreo durante a travessia das águas operacionais. Durante todo o mês de
janeiro não perdeu um só deles nos caminhos de passagem. As comunicações com
o Q-G de submarinos eram virtualmente impossíveis, porque os submarinos
navegavam sob as águas a maior parte do tempo; mas, por outro lado, isto
privava a sala de rastreamento de submarinos britânica da sua principal fonte
de informações. Então, só quando os submarinos atacassem é que as escoltas
poderiam começar a busca. O U-1055 foi o primeiro a obter sucesso nesse ano, quando, a 9
de janeiro, afundou um navio no Mar da Irlanda, seguindo-se a esse feito a
destruição de outros dois, nos dias seguintes. A 15 de janeiro, o U-482
desfechou um ataque de torpedos ao largo da costa leste da Escócia, quando
afundou um navio mercante e avariou o Thane, porta-aviôes de escolta. Mas as
escoltas o localizaram e, depois de uma caçada que durou horas, ele foi posto
a pique. O U-1172 também foi afundado, após ser perseguido por cinco horas,
como resultado de um ataque no qual ele avariou uma fragata. O U-1051 foi
destruído a 27 de janeiro e o U-825 foi danificado depois que eles atacaram
um comboio ao largo da Ilha de Man, e, com a destruição do U-1199, do U-650 e
do U-1200, o mês encerrou-se, mais ou menos em igualdade, com 6 submarinos
destruídos e 7 navios Aliados afundados. Mas, pelo final do mês, Doenitz
estava definitivamente convencido de que o "schnorkel" lhe abrira
novas possibilidades, mesmo instalado nos barcos mais antigos, enquanto
aguardava a saída dos novos tipos dos estaleiros. Decidiu ele intensificar a
campanha nas águas costeiras britânicas, mandando para lá todos os novos
barcos que no mês de fevereiro entraram em serviço ativo. Além da imunidade
aos ataques aéreos, eles também estavam bem protegidos contra a localização
pelo "asdic" naquelas águas rasas, com marés fortes e correntes
tortuosas. Ao que parecia, esta nova operação finalmente permitiria aos
submarinos retornar as funções duplas que haviam desenvolvido. Com toda
probabilidade, eles poderiam recomeçar a afundar navios inimigos numa escala
maior, o que contribuiria enormemente para a tarefa dos exércitos germânicos
na Europa; além disso, eles continuariam a reter escoltas inimigas em suas
águas territoriais, de modo a não permitir que nenhum vaso de superfície
pudesse ser liberado para montar campanha ofensiva contra o tráfego de navios
alemães que transportavam suprimentos e reforços para essas tropas. Em fevereiro, 41 submarinos zarparam das bases setentrionais com
grandes esperanças, dirigindo-se sobretudo para o Canal da Mancha.
Entretanto, o que conseguiram realizar não esteve nunca à altura das
expectativas, pois só afundaram 11 navios, incluindo 2 de escolta, no Canal,
e 3 no Mar da Irlanda. Outros afundamentos, registrados nas águas ocidentais,
em fevereiro, elevaram o número de êxitos para 11 navios mercantes e 3 vasos
de escolta, mas isto custou nada menos de 12 barcos à arma submarina. Os resultados de março foram piores ainda; 37 submarinos
partiram das bases norueguesas para participar da luta, elevando o total, no
final do mês, para 53 nas águas costeiras. Mas as escoltas de superfície e
aéreas, juntamente com os campos minados profundos a que os britânicos haviam
recorrido, destruíram 15 submarinos enquanto estes, por sua vez, só puderam
reivindicar o afundamento de 10 navios mercantes e 3 de escolta. Uma vez
mais, segundo transpirou, a arma submarina baseara o planejamento de uma nova
fase da batalha na suposição de que permaneceria estática a capacidade do
inimigo. Em verdade, porém, o progresso vinha sendo continuamente feito, e
vários dispositivos que os alemães não haviam previsto contribuíram para lhes
aumentar as perdas. A "lula" estava começando a ser usada como útil arma
complementar do já comprovado "porco-espinho". Em vez de soltar um
tapete de 24 cargas de contato, ela disparava 3 para explodirem bem perto do
casco do submarino. Se a "lula" não conseguisse afundar o submarino
imediatamente, o dano causado pelo choque o obrigaria a emergir, quando então
era instantaneamente destruído. Um novo e sensível aparelho de radar, funcionando no comprimento
de onda de 3 cm e capaz de captar o eco de um "schnorkel", foi
acrescentado ao arsenal existente, muito embora, em certos casos, sobretudo
nas águas internas, isto levasse a grande número de localizações erradas,
confundindo o eco de um "schnorkel" com o emitido por objetos
quaisquer flutuantes. Uma vez obtida uma localização positiva, o avião tinha uma arma
nova formidável na sua bomba de 300 kg, além da carga de profundidade de 120
kg. Com a ajuda da nova mira de bombardeio, esses explosivos foram usados com
precisão devastadora, destruindo vários submarinos. Porém, o armamento mais novo da escolta era a bóia
"sono", inventada pelos americanos, que, colocada numa provável
área de submarinos, automaticamente captaria e transmitiria a um avião os
ruídos da hélice de um submarino. Um pequeno torpedo acústico lançado no
local se dirigiria automaticamente ao encontro do alvo; a guerra se estava tornando
cada vez mais automatizada. Em abril, a batalha permaneceu constante. Os submarinos
afundaram 10 navios mercantes e 3 belonaves, perdendo 15 dos seus. Mas,
embora fossem terrivelmente grandes os desfalques sofridos pela arma
submarina, eles eram compensados pela rapidez com que novos barcos entravam
em serviço ativo. Ainda em abril, incluindo o Tipo XXI, 44 submarinos
partiram das bases norueguesas, e, em virtude não só do crescente número de
unidades em serviço mas também pelo aumento da proporção de barcos de novo
modelo, a frota de Doenitz se tornava cada vez mais poderosa, apesar da
vigilante atividade do serviço de caça ao submarino. Além da elevada
velocidade de cruzeiro quando submersos, estes novos submersíveis podiam
viajar a 5,5 nós durante longos períodos em virtual silêncio e seu raio de
ação era suficiente para alcançar até o Atlântico Sul, podendo permanecer em
operação por um mês, antes de retornar à base. Dotados de uma série de
aparelhos novos e requintados, era-lhes perfeitamente possível operar
"por instrumentos", disparando os torpedos de uma profundidade de
45 metros. O programa de construção de novos submarinos, seriamente
perturbado no mês de novembro anterior, quando as incursões de bombardeio
feitas pela força Aliada bloquearam os canais de Dortmund, Ems e Mittelland,
fora retomado sem perda de tempo, e por volta de maio 12 barcos Tipo XXI
estavam já de partida para as áreas de operação, enquanto outros 91 se
encontravam em testes ou servindo para adestramento de novas tripulações. Mas
já então o fim se aproximava. Os acontecimentos em terra haviam finalmente
imposto uma derrota irrevogável ao exército alemão. Às 15:14 h de 4 de maio, Doenitz transmitiu a todos os
comandantes de submarino a ordem de cessar fogo. Para os Aliados, o sucesso
nas batalhas terrestres chegara bem a tempo, pois se se passassem alguns
meses mais, o resultado poderia ser uma superioridade avassaladora da
recém-equipada arma submarina. O Tenente-Comandante Schnee, num dos barcos
Tipo XXI, o U-2511, mostrou o quanto os novos submarinos eram eficazes. Antes
de se render, Schnee chegou a testar o grau de imunidade que a grande bateria
elétrica conferiu aos submersíveis. No Mar do Norte, ao deparar com um grupo
anti-submarino, ele, com um simples desvio de 30 graus, escapou facilmente,
ainda submerso, à localização do "ping" do "asdic" em
pouco tempo. Afinal de contas, o submarino Tipo XXI podia alcançar, submerso,
uma velocidade tão boa quanto muitos vasos de escolta de superfície. Então, pouco
depois de receber a ordem de cessar fogo - Schnee foi um dos 8 comandantes a
obedecer imediatamente - ele encontrou um cruzador britânico e vários
destróieres enquanto se dirigia do Mar do Norte para Bergen. Ele lançou um
torpedo de festim, ainda submerso, e se aproximou a uns 400 m do destróier.
Mais tarde, ficou esclarecido que os britânicos não tinham idéia de que seu
destróier estivera à beira da destruição. A impressão de Schnee sobre o novo
submarino era a mais lisonjeira possível. Considerava-o "algo completamente
novo para o tripulante de submarino, ótimo na defesa e no ataque". Muitos dos comandantes de submarino recusaram-se a obedecer ao
cessar-fogo e muito menos ainda transmitir as instruções do Almirantado
Britânico, de 8 de maio, para que todos emergissem, informassem suas posições
e partissem imediatamente para portos especificados. As primeiras rendições
começaram a 9 de maio. Alguns submarinos rumaram submersos para portos
alemães, enquanto que outros foram para lugares distantes, dois deles
chegando à Argentina. Ao todo, 156 submarinos se renderam, mas a maior parte
dos comandantes de submarino achava que a entrega dos seus barcos ao inimigo
era uma violação do código de honra dos combatentes. O próprio Doenitz
recusou-se a ordenar que os submarinos fossem postos a pique pelas
tripulações. Hitler já então desaparecera e, nos termos do seu testamento,
Doenitz assumira a chefia do governo. Seu objetivo era conseguir um fim
rápido e organizado para a guerra, salvando o máximo possível de vidas
alemães. Os britânicos haviam estipulado que a rendição não se fizesse
acompanhar da destruição das armas e do afundamento de belonaves e, para
manter a confiança dos britânicos, Doenitz recusou-se a transmitir a
palavra-código para os afundamentos em massa - Regenbogen (arco-íris). Foi
por iniciativa pessoal dos comandantes de submarino, que não acreditavam que
o comandante consentisse viesse a frota a cair em mãos inimigas senão por
pressão ou ameaça, que a ordem foi sussurrada, pelo rádio, para os submarinos
nos portos alemães - Regenbogen. As tripulações fizeram-se ao mar em grandes
números e em breve as explosões ecoavam pelas águas do Mar do Norte e do
Báltico. Ao todo, 221 submarinos foram afundados. Este foi o fim de mais uma tentativa, tenaz mas fracassada,
feita pela Alemanha de subjugar os Aliados, cortando-lhes a artéria
principal, as rotas oceânicas, das quais dependiam vitalmente. A Alemanha,
por vezes, esteve muito perto de realizar seu intento. Nas grandes batalhas
do Atlântico dos primeiros anos, quando se verificavam perdas mensais de até
750 mil toneladas em navios, o máximo que os Aliados podiam suportar, e
quando carregamentos vitais de óleo, armas e maquinaria iam enferrujar no
fundo do mar, se desenhava inexoravelmente, ao que tudo levava a crer, a vitória
da Alemanha. Então, ao avolumar-se o número de unidades de escolta e ao
patentear-se a sua superioridade técnica, tudo isso somado ao fato de os
alemães terem negado, por largo tempo, o apoio necessário ao mais amplo
desenvolvimento do programa de construção de submarinos, fez que a balança
pendesse para os Aliados. O que teria acontecido, se o fim da guerra fosse adiado por seis
meses ou um ano, até que os novos submarinos entrassem em serviço e que o novo
barco Walter, de motor de peróxido de hidrogênio, fosse lançado ao mar, é um
problema inescrutável. Essa possibilidade, por certo, preocupou os Aliados. O
próprio Churchill escreveu sobre a ameaça dos submarinos, no fim: "Os
barcos equipados com "schnorkel", respirando por um tubo enquanto
carregam suas baterias, submersos, foram apenas uma introdução ao novo padrão
de guerra submarina que Doenitz planejara. Ele estava contando com o advento
do novo tipo de barco, muitos dos quais estavam em construção, alguns já em
período de testes. O sucesso da Alemanha dependia da sua utilização imediata,
em grandes números. Sua alta velocidade quando submersos nos ameaçava com
novos problemas e, como Doenitz previra, teriam, realmente, revolucionado a
guerra submarina." Mas antes que essa revolução se realizasse plenamente, os
submarinos alemães afundaram nada menos de 2.603 navios mercantes - num total
superior a 13 ½ milhões de toneladas - e, além disso, destruíram cerca de 175
belonaves Aliadas, embora com perdas igualmente consideráveis. Os alemães
construíram 1.162 submarinos, dos quais 784 se perderam, por várias causas. Em termos de vidas humanas, o custo para ambos os lados foi
tremendo. Mais de 40.900 homens foram recrutados para a arma submarina
durante a guerra, dos quais 28.000 perderam a vida, e 5.000 foram capturados.
Os Aliados sofreram uma carnificina mais cruel ainda - mais de 30.000 homens
mortos só na Marinha Mercante Britânica, e muitos e muitos outros milhares de
marinheiros mercantes de vários países. Da lista completa de tempo de guerra
da Marinha Real consta que mais de 70.000 homens e mulheres estiveram
vinculados às ocorrências verificadas no mar, grande parte dos quais
encontrou sepultura nos oceanos, em meio à ronda sinistra do submarino. |