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“Hitler foi a única figura da História que concebeu e realizou uma grande revolução, da origem a seu termo, partindo do nada para chegar à criação de um grande império mundial. Possuía notável compreensão das forças com as quais se mediu. Foi um fenômeno histórico horrível, mas destacado". O Führer
A versão de Alan Wykes
para o comportamento de Hitler como Líder do Partido e Ditador, de que ele,
quando jovem, fora contaminado pela sífilis, sucumbindo mais tarde aos seus
efeitos terciários - irracionalidade, irresponsabilidade e falta de
comedimento no falar e no agir - tem sido por muita gente contestada. Apesar
disso, há fatos em sua vida, pública e privada, que parecem corroborar tal
versão. Entretanto, na ausência de provas documentais deste episódio da sua
história médica - provas que resistam a um exame judicial - a tese da sífilis
deve continuar sendo apenas tese, embora notável. Todavia, no "período
vienense", em que se supõe tenha Hitler contraído a doença,
indubitavelmente plasmou-se em grande parte a sua personalidade e o gosto
irresistível pela destruição. Sabemos agora que a história de um orfãozinho
pobre, que viveu terríveis dificuldades, que ele conta no seu livro Mein
Kampf, é invencionice. O estado austríaco, pela pensão que lhe pagava como
filho de um funcionário público, dava a Hitler toda a chance de se
estabelecer confortavelmente na vida. Ele não conseguiu estabilizar-se
porque desbaratava o que recebia, e a vida em albergues reles, a que se viu
reduzido, parece ter sido da sua escolha. Por motivos facilmente
compreensíveis quando se reconhece a intensidade do anti-semitismo
predominante em Viena antes da guerra, Hitler culpava os judeus pela sua
falta de sucesso e reconhecimento - não em quaisquer termos formulados com
precisão, pois sua mente nunca funcionou em linhas precisas - mas em termos
que davam aos judeus a responsabilidade por tudo o que era desagradável,
injusto e mal organizado que ele via na cidade e, por extensão, sofria na sua
própria vida. O que despertou Hitler da
rotina que se impôs de frustração emocional e semi-inanição física foi a
Grande Guerra. Ele era nacionalista (embora não fosse patriota,
naturalmente, pois odiava o Império Austro-Húngaro) e aceitou avidamente a
oportunidade que a guerra lhe oferecia de cruzar a fronteira e ingressar num
regimento alemão. Terminada a guerra, sua folha de serviço, sua perspectiva
e ambições políticas e seus talentos naturais muito grandes bastaram para
lançá-lo nos modestos primórdios de uma carreira política, patrocinada pelo
exército alemão. Essa relação seria duradoura, embora o exército
eventualmente viesse a arrepender-se de tê-la criado. Todas as relações de
Hitler com pessoas, órgãos e instituições da vida alemã têm sido
minunciosamente examinadas. Entretanto, nenhuma delas foi tão crítica como as
que manteve com o exército. Este lhe permitiu iniciar-se na política e apoiou
o seu trabalho de organização do novo partido nazista. Os Freikorps, de onde
Hitler atraiu tantos dos seus primeiros e mais dedicados seguidores, não eram
mal vistos pelo exército. Mas, como Hitler viria a descobrir amargamente, o
exército não toleraria tentativas de conquistar o poder sem sua aprovação
específica. Portanto, estava fadado a opor-se à primeira tentativa de Hitler
de se tornar senhor da Alemanha - o putsch de Munique de 1923. Ele jamais se
esqueceu da lição aprendida a 9 de novembro, quando seus camisas-pardas foram
mortos pela polícia: a de que, na Alemanha, o poder pertencia a quem
comandasse o exército. Fracassando em obter o comando pela força, Hitler
passou os anos seguintes tentando consegui-lo pelo voto. Uma vez alcançado o
poder, seus primeiros atos visaram a subordinar o exército à sua vontade e
não descansou até que, em janeiro de 1938, finalmente achou um pretexto para
assumir o cargo de Comandante-Chefe. Dadas a obscuridade dos
seus antecedentes e as dificuldades da sua juventude, é pouco provável que
Hitler pudesse ter sentido simpatia ou estima por um grupo de orgulhosos
cavalheiros, como era o Corpo de Oficiais alemães. Na verdade, o conflito
entre eles era inevitável, pois as idéias dos oficiais sobre a guerra eram
ortodoxas, o que não acontecia com as de Hitler. Daí as dissenções
freqüentes. Os "efeitos especiais" que acompanhavam seus berros -
tremor incontrolável, olhos rolando nas órbitas e boca espumante - pareciam
apoiar a opinião de que Hitler era vítima de doença crônica. Todavia, os que
o conheciam desde o período de Viena atestam livremente que tais
manifestações sempre acompanharam suas reações a qualquer refutação
persistente das suas opiniões. Ele simplesmente não podia ser contrariado,
hábito que não o tornou querido dos seus camaradas nas trincheiras, mais
tarde. Logo, parece provável que, como Führer e Comandante-Supremo, quando
todas as restrições externas ao seu comportamento foram eliminadas, Hitler
tenha simplesmente dado rédeas livres a uma característica natural. Além
disso, ela sempre teve seu efeito desejado: os generais empalideciam - e
calavam-se. |
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A vítima "O forte é mais forte
sozinho" - Hitler Os que dão valor a tais
coisas talvez se interessem em saber que o nome Adolfo se origina das duas
palavras alemãs que significam "nobre lobo". O sobrenome é uma
variação de Hiedler e Hütler, ambos usados pelos antepassados de Adolfo.
Hiedler e Hütler estão ligeiramente associados à expressão "guardião
dos Gentios" - que, considerando-se a perpétua dedicação de Hitler a
odiar e atormentar os judeus, não é inadequada, por mais irreal que pareça. Infelizmente não há nada
de irreal sobre a existência de Adolfo Hitler. Ela começou a 20 de abril de
1889, num pequeno hotel em Braunau, na margem austríaca do rio Inn, que ali
divide a Áustria da Baviera. A 110 km a oeste fica Munique, capital da
Baviera e, atualmente, sinônimo da conferência "Paz em nosso
tempo", na qual o Primeiro-Ministri britânico Neville Chamberlain se
rendeu a Hitler, a 29 de setembro de 1938. A 96 km a leste está Linz, capital
da Alta Áustria, onde Hitler freqüentou a escola e absorveu as noções
pan-germânicas que alimentaram sua xenofobia fanática. O pai de Adolfo, Alois
Hitler, não tinha fobias nem filias. Era um pequeno funcionário público,
lotado no Departamento de Alfândega e Imposto de Consumo. Homem mediano,
cabeça redonda como um repolho, ele batia Hindenburg - na época um jovem,
famoso e belo oficial do Ministério da Guerra Prussiano - no comprimento dos
bigodes, e era inofensivamente vaidoso da sua façanha. Trabalhador
consciencioso, fora infeliz na vida doméstica. Sua primeira mulher morreu sem
lhe deixar filhos; a segunda faleceu jovem, deixando-lhe dois filhos para
criar; a terceira - a mãe de Adolfo - dera-lhe cinco filhos, três dos quais
morreram na infância. Somente Adolfo e sua irmã. Paula, mais o menino e a
menina do segundo casamento de Alois, haviam sobrevivido. Hoje, porém, depois de
tudo o que aconteceu, têm todos o direito de recriminar o destino pela
escolha desastrada que fez. Os Hitler eram católicos
romanos - embora não haja evidências de devoção especial na família - e Alois
teve de obter dispensa papal para casar com a mãe de Adolfo, Klara Pöltz,
porque suas relações de primos em segundo grau estavam dentro dos
impedimentos de consangüinidade. Ele era 23 anos mais velho que Klara quando
casaram, em 1885, e, ao aposentar-se do serviço público, Adolfo tinha seis
anos. No seu livro, Mein Kampf, Adolfo menciona, com a pretensão
característica, que Alois "comprou uma granja que ele próprio
arava". O que Alois realmente comprou foi uma casa de três quartos, com
um pequeno jardim, na aldeia de Leonding, a uns 2 quilômetros de Linz, onde
morreu em 1903. Adolfo Hitler tinha então
14 anos e freqüentava a escola secundária em Linz. Em Mein Kampf ele não é
muito explícito sobre seus tempos de escola, o que não é de surpreender,
pois jamais suportou revelar qualquer coisa a seu respeito que não
contribuísse para um quadro compósito de gênio e nobreza. Na verdade, não se
sobressaiu na escola; tinha um talento medíocre para o desenho e recebia uma
classificação ocasional e relutante de "bom" em história e
geografia. Mas August Kubizek, que foi seu contemporâneo e escreveu The
Young Hitler, diz que ele era ocioso e instável, embora "realmente amasse
sua mãe. Lembro-me de muitas ocasiões em que ele mostrou esse amor da maneira
mais profunda e comovedora durante sua doença fatal (ela morreu de câncer em
1908). Só se referia a ela com profundo afeto. Era um bom filho... sempre
trazia consigo o retrato de sua mãe". Adolfo também inclinou-se
afetuosamente por uma jovem que Kubizek chama discretamente de
"Stefanie". Se quisermos acreditar em Kubizek, Hitler era
pretendente desprezado de Stefanie. A posição social da família da moça era
muito mais elevada que a dele, e ela era levada a passear diariamente de
carruagem pelo passeio público de Linz por sua mãe. Hitler ficava com os
amigos na calçada e procurava lançar-lhe olhares amorosos. Mas, "de vez
em quando, as duas damas eram vistas na companhia de jovens oficiais.
Naturalmente, adolescentes pobres como Adolfo não tinham esperanças de
competir com aqueles tenentes em seus elegantes uniformes... Este fato
despertou nele uma terrível ojeriza pelos militares em geral. Hitler
costumava chamá-los de 'cabeças duras convencidos' e ficava para morrer com o
fato de Stefanie misturar-se com esses vadios que usam espartilho e perfume,
conforme dizia". Kubizek revela que ele
escreveu incontáveis poemas de amor para Stefanie e descreve um no qual
"uma donzela de alta estirpe, num esvoaçante vestido azul-escuro,
cavalgava um corcel branco pelos prados floridos, com seus cabelos caindo em
ondas douradas sobre os ombros. Ainda vejo o rosto de Adolfo afogueado de
êxtase ardoroso e ouço sua voz recitando esses versos. Stefanie de tal forma
ocupava seus pensamentos, que tudo o que ele dizia, fazia ou planejava para o
futuro centralizava-se nela. Com o crescente alheamento de Hitler da sua
casa, Stefanie ganhava influência cada vez maior sobre meu amigo, embora ele
jamais lhe dirigisse uma única palavra". Esse alheamento foi
causado pela determinação de Alois de fazer com que seu filho ingressasse no
serviço público, e pela igual determinação de Adolfo de tornar-se pintor -
que, para ele, era um modo de dizer que não queria trabalhar. Seu reduzido
talento para o desenho aumentara desmesuradamente na sua mente. Ele diz no
seu livro Mein Kampf que, ao falar corajosamente a seu pai sobre o que queria
fazer, Alois replicou: "Artista! enquanto eu viver, nunca!" Ao
olhar as insulsas aquarelas de Hitler, não há como deixar der considerar
justa a indignação de Alois, embora se tratasse mais de uma indignação
social do que estética. O alheamento se
transformou em separação real, após a morte de Alois, mas isso só depois de
alguns anos. Adolfo era ocioso demais para ser bem sucedido na vida escolar,
e sua mãe procurava encorajá-lo, até que ela também morreu. Ele tentara ingressar na
Academia de Belas Artes de Viena, mas não conseguiu passar no exame de
admissão. "Prova de desenho insatisfatória", diz secamente a Lista
de Classificação de 1907. Tentou no ano seguinte e foi novamente reprovado.
Indignado, alegou ter havido "injustiça" e exigiu entrevista com o
vice-reitor, que o dispensou sumariamente, dizendo-lhe apenas para tentar a
Escola de Arquitetura, pois seus desenhos mostravam mais talento para aquele
setor. Mas a Escola de Arquitetura reçusou-o por não ter o Certificado de
Conclusão de Curso Médio. Assim, frustrou-se nele a
esperança de tornar-se o que indubitavelmente julgava ser - o Miguel Ângelo
austríaco. Nesta frustração tem origem o enorme ressentimento que
desenvolveu contra o "sistema" da Academia: o primeiro dos muitos
que viria a remoer. Tendo perdido a mãe, cujos
carinhos e indulgências foram como um bálsamo nos ferimentos que a frustração
lhe abriu, ele mudou-se para Viena. Com seu desconsolo virado às avessas,
via-se como um herói conquistador. "As roupas numa
valise e indômita resolução no coração, parti para Viena. Esperava frustrar o
destino, como meu pai fizera cinqüenta anos antes. Estava decidido a
tornar-me alguma coisa, mas certamente não um funcionário público." Como sabemos, ele
tornou-se de alguma forma um conquistador, que conquistou para a escravidão
milhões de alemães. Mas, por enquanto, não passava de um biscateiro - mal
vestido, mal alimentado e obrigado a viver como podia. Rheinhold Hanisch,
outro biscateiro que o conheceu em Viena, diz que ele usava um velho casaco
preto (presente de um judeu chamado Neumann) que lhe chegava abaixo dos
joelhos, que seus cabelos caíam sobre o colarinho, saindo debaixo de um
seboso chapéu-coco, e que seu rosto magro era coberto por uma barba preta.
"Anos de estudo e sofrimento em Viena" é o título do capítulo pertinente
em Mein Kampf, mas Hitler não diz que seu estudo se limitou a dar nova feição
às idéias de outros homens, ou que seu sofrimento era causado pela própria
ociosidade. Neumann, o judeu, Hanisch,
um homem chamado Siegfried Loffner e dois outros, que aparecem aqui sob os
nomes fictícios de Stefan e Daniel porque ainda vivem, e por motivos que
adiante revelaremos, têm direito ao segredo dos pseudônimos, confirmaram
que Hitler vivia como eles. Carregavam bagagens, limpavam tapetes, chamavam
carruagens, lavavam pratos e remexiam em latas de lixo. Neumann e Hanisch
atuaram como seus "agentes de arte" por algum tempo, acompanhando-o
às lojas e às vezes convencendo os proprietários a encomendar cartazes que
Hitler fazia na hora; ou persuadindo os fabricantes de molduras a colocar
suas açucaradas aquarelas nas vitrinas, onde ocasionalmente as vendiam a
pessoas que gostavam dessas coisas. (Hitler pagou a bondade de Hanisch
acionando-o legalmente pelo desvio de parte de uma soma recebida por um
quadro, sendo ele condenado a uma semana de prisão ao se comprovar o caso.)
Foram estes o "estudo e sofrimento" de Hitler em Viena. Ele
detestava o trabalho regular, preferindo ganhar um dinheirinho e gastá-lo
frugalmente em cafés, onde lia jornais e deitava o verbo com os clientes
sobre política. Ele era muito importuno,
com suas reclamações contínuas de injustiças e ineficiências do
"sistema", com suas informações mal digeridas, extraídas da leitura
indiscriminada e com suas idéias fantásticas para alcançar a fama. E, como
acontece com a maioria dos maníaco-depressivos, era sempre ou taciturno ou
exuberante, arrasando a paz de todo mundo com suas arengas contra os judeus,
os Habsburgos, católicos ou sociais-democratas, ou fechando-se em si mesmo,
recusando-se a falar com quem quer que fosse. Mesmo antes de sair de Linz,
ele já se sabia um embusteiro: disse a Hanisch que muitas vezes falsificara
"velhos mestres", pintando quadros a óleo e levando-os ao forno
para ficarem amarelados e com aparência de antigos. E, com sua habilidade
em oratória barata, ele aprendeu a trapacear também com palavras.
Condimentava banalidades piegas, de tal maneira, com amargura paranóica,
que soavam como as trombetas de um salvador da raça alemã. Ao todo, foram quatro os
"anos de estudos e sofrimentos em Viena". Em 1913 partiu para
Munique, onde esperava sair-se melhor. Mas, entrementes, aconteceu algo de
grande importância. As hospedarias, os
albergues, as criptas, os saguões, parques e igrejas onde Hitler ficava em
Viena são incontáveis, e muitos deles inidentificáveis. Mas um deles, situado
na Meldemannstrasse 27, é sem dúvida um dos lugares onde o pretenso salvador
da raça alemã repousava a cabeça cansada. Ele ficava no XX Distrito
(nordeste) da cidade, próximo do Danúbio, sendo eufemisticamente conhecido
como "Lar de Homens", embora não passasse de uma espelunca. Os pseudônimos
"Stefan" e "Daniel" ali ficaram com ele, sendo pelo seu
testemunho, feito anos mais tarde ao venereologista londrino, Dr. T.
Anwyl-Davies, que se pôde estabelecer os fatos. Stefan e Daniel lembram-se
de uma discussão acirrada, numa noite de abril de 1910. Eles brigaram por
causa de uma garota, uma prostituta judia chamada Hannah, briga essa
provocada por Hitler, que desfrutara dela quando estava sendo paga pelos
outros. Como Hitler já devia a Stefan e Daniel a hospitalidade permitida
pelas suas circunstâncias, a indignação dos dois era plenamente justificada
e eles não relutaram em a lançar-lhe ao rosto, fazendo-a acompanhar de uma
boa surra. Eles o arrastaram para o dormitório, surraram-no e o puseram na
rua. Hitler protestou, praguejou, e eles responderam, atirando-lhe suas
tintas, canetas, pinturas e pincéis. Não o viram mais naquela noite. Passada uma hora mais ou
menos, os dois saíram, desta vez à procura de Hannah, tirando-a do seu ponto.
Ela normalmente comerciava nos portais próximos da Estação de Noroeste - um
comércio cansativo que às vezes envolvia quatro clientes por hora (a 50
heller cada um, cerca de três centavos de dólar pelos valores atuais), e sem
dúvida achava o albergue, com suas camas piolhentas, relativamente
confortável, e seus clientes, Stefan e Daniel, pouco exigentes. Eles se
lembram de que ela muitas vezes ficava uma ou duas horas, tendo subornado o
porteiro, a única pessoa interessada na regra da proibição de entrada de
mulheres, com alguns cigarros, ao entrar, e depois voltava ao seu ponto,
próximo da estação. Nessa noite, eles
observaram que o ligeiro exantema que haviam visto em seu corpo, na última
vez que estiveram com ela, desaparecera. Dificilmente podia-se chamá-la de
limpa, mas, pelo menos, ela não tinha mais o que lhes parecera ser dermatite
calórica ou picadas de pulga no estágio de desaparecimento. Talvez pareça
ingênuo que dois jovens, no final da adolescência e evidentemente promíscuos,
imaginassem que sua consorte tivesse algo tão inocente como picadas de
pulga; mas, embora tivessem ouvido falar de doenças venéreas, seu conhecimento
era vago e por certo nada incluía sobre as manifestações clínicas desses
males. Mesmo que soubessem, eles estavam vivendo - ou melhor, existindo - de
um modo que os teria deixado indiferentes. Sem nada saber, eles se satisfizeram
com Hannah, deram-lhe os cem heller que puderam reunir e mandaram-na embora. Hitler voltou ao albergue
uma ou duas semanas depois. Stefan e Daniel não se opuseram: já haviam
aliviado sua indignação ao surrá-lo e não podiam incomodar-se em aumentar
inimizades. Mas quando Hitler se despiu para matar os piolhos da roupa no
forno do albergue, os dois observaram que, como eles, Adolfo também tinha no
corpo um exantema róseo. Ainda não associavam isso a Hannah, tampouco sua
sensação de mal-estar geral lhes parecia extraordinária, pois não viviam o
tipo de vida que poderia propiciar uma saúde perfeita. Quando, mais tarde, o
exantema se fez acompanhar de várias outras manifestações desagradáveis,
eles recorreram sensatamente a um médico. Ao serem informados do diagnóstico
de sífilis, os dois sentiram-se maliciosamente confortados, ao lembrarem-se
de que Hitler também apresentara o mesmo exantema. Já então ele,
provavelmente, estava no mesmo estado desagradável. Aceitaram o tratamento
que o médico lhes prescrevera, na época um ungüento composto principalmente
de mercúrio, e ficaram imaginando se Hitler também tivera o bom senso de
procurar ajuda médica. Parece certo que não o fez
- pelo menos naquele estágio inicial da infecção, quando o tratamento é
vital. Felix Kersten, médico de Heinrich Himmler, o chefe das SS, apresenta a
prova mais sólida de que Hitler era vítima da doença. A 12 de dezembro de
1942, escreveu ele em seu diário: "Este foi o dia mais
emocionante que tive, desde que comecei a tratar de Himmler. Ele estava muito
nervoso, muito inquieto. Compreendi que algo de extraordinário o atormentava
e perguntei-lhe a respeito. Sua resposta foi outra pergunta: "Você pode
tratar de um homem que sofre de sérias dores de cabeça, tonteiras e
insônia?" "Claro que sim, mas
devo examiná-lo antes que possa dar uma opinião definitiva", respondi.
"Antes de tudo, preciso saber a causa desses sintomas." Himmler respondeu:
"Vou dizer-lhe quem é. Mas você deve jurar que não falará disso a
ninguém e tratará de quem lhe confio com o máximo segredo". Respondi que, como médico,
segredos me eram constantemente confiados; não era uma experiência nova, já
que a discrição era parte do meu dever profistaonal. Himmler então tirou uma
pasta do seu cofre e me apresentou um manuscrito azul, dizendo: "Leia isto.
Aqui estão os documentos secretos com o relatório sobre a doença do
Führer". O relatório tinha 26
páginas e logo compreendi que havia sido livremente extraído da ficha médica
de Hitler, durante os dias em que esteve cego num hospital em Pasewalk.
Esclarecia o relatório que na sua juventude, quando soldado, Hitler fora
vítima de gás venenosso e fora tratado de maneira tão incompetente, que
desde então corria o risco de ficar cego. Também havia, já naqueles primeiros
relatórios, sintomas associados à sífilis. Em 1937 apareceram sintomas de que
a doença evoluía e, no começo de 1942, sintomas de natureza idêntica
mostravam, sem sombra de dúvida, que Hitler sofria de paralisia progressiva.
Todos os sintomas estavam presentes, exceto o da fixidez da visão e a
confusão na fala. Devolvi o relatório a
Himmler, informando-lhe de que infelizmente nada podia fazer, pois minha
especialidade não se relacionava com doenças venéreas. Ele me disse que Morell (o
médico de Hitler) lhe estava aplicandp injeções e afirmava que deteriam o
progresso do mal e, de qualquer modo, manteriam a capacidade do Führer de
trabalhar." Existem muitas outras
provas conjeturais do estado sifilítico de Hitler. É significativo o fato de
que o "Professor" Theodore Morell, o charlatão que se instalara
habilmente como médico pessoal do Führer, entrara para o ménage deste para
tratar de Heinrich Hoffman, o fotógrafo de Hitler, de uma infecção venérea.
Também é significativo o fato de Helmut Spiethoff, um venereologista de
renome, ter sido nomeado para o contingente de médicos de Hitler no começo da
década de 1930 e que os registros das suas consultas foram confiscados pelo
líder nazista Wilhelm Frick, quando Hitler se tornou Chanceler do Reich. E
tanto Heinz Linge, seu criado de quarto, como Karl Brandt, cirurgião da sua
equipe, descreveram sintomas típicos da sífilis em estado adiantado -
desvarios maníacos, paralisia dos membros, hipocondria aguda, coceira contínua
em várias partes do corpo e dores de cabeça e do estômago. Mas é o testemunho que
Stefan e Daniel prestaram a Anwyl-Davies, cuja reputação como venereologista
não poderia ser maior, quem melhor prova que Hitler contraiu a doença em
1910. E o relatório secreto que Himmler mostrou a Kersten dificilmente pode
ser negado, como prova da evolução da moléstia. O germe da sífilis,
Spirochaeta pallida, pode atacar todos os órgãos do corpo, e os desvarios
finais de Hitler são uma indicação quase certa de que o córtice do seu
cérebro fora atacado, tornando inevitável a paralisia geral. Naturalmente, a
possibilidade do estado sifilítico de Hitler e do efeito deste sobre seu
caráter já foi considerada antes, embora sem as provas corroborantes dos
seus companheiros de infortúnio. Mas tem havido relutância - embora não haja
razão compreensível para isso - em aceitar o fato. O estigma social que
ainda subsiste com relação as doenças venéreas dificilmente poderia ter
influenciado os inimigos de um homem como Hitler. Homens realmente mais
importantes que ele foram infectados pela sífilis. Gauguin e Schumann, por
exemplo, ou Beethoven, herdaram-na, e ninguém hesitou em reconhecer os
efeitos da moléstia nas reações e na obra destes grandes mestres. Mas mesmo
um biógrafo de renome como Alan Bullock (em seu Hitler: a Study in Tyranny)
diz que "tais alegações só tem lugar num estudo da carreira de Hitler
se se puder mostrar que (elas) afetaram diretamente seus julgamentos e
decisões políticos." Seja qual for a origem
dessa relutância, parece que já é tempo de superá-la. Já se mostrou, sem que
haja lugar para muita dúvida, que ele estava contaminado. Parece igualmente
certo que não foi tratado a tempo de deter a evolução da doença. A descoberta
de Paul Ehrlich, o "Salvarsan 606", que permaneceu como o
tratamento padrão para a sifilis até o advento da penicilina, em 1943, foi
anunciada ao mundo médico no Congresso de Medicina de Wiesbaden, a 19 de
abril de 1910. Mas esse remédio só passou a ser produzido em massa a partir
de 1912, sendo muito pouco provável que Hitler, mesmo que tivesse procurado
tratamento nos primeiros estágios da infecção, pudesse pagar os honorários
do especialista para um tratamento com a nova droga milagrosa. Não há dúvida
de que ele recebeu toda sorte de tratamento após subir ao poder - a
existência, na corte de Hitler, de venereologista tão eminente como Spiethoff
não deixa dúvida. Mas já então o Spirochaeta pallida minara de modo irreversível
o seu organismo, e nada poderia eliminar o dano que ele causara, pois as
células dos órgãos assim atacados dificilmente se regeneram. Assim, tendo apresentado
mais evidências do que "alegações", é sensato considerar-se essas
provas quando se traça a carreira política e militar de Hitler - da subida
ao poder ao fim ignominioso no bunker sob a Chancelaria, a 30 de abril de
1945, quando a vida do Terceiro Reich terminou, de maneira tão inglória
quanto a do seu fundador, depois de doze anos e quatro meses de infame
existência, em lugar dos mil anos que ele prometera. O homem "Quem quiser viver é constrangido a matar. Martelo ou bigorna. Minha intenção é preparar o povo alemão para ser o martelo". Hitler Hitler deixou Viena na primavera de 1913. Já então sofria
de perturbações gástricas, que sem dúvida eram as primeiras manifestações da
sífilis intratada, e também concentrara dentro de si grau, de quantidade do
sentimento antijudaico que predominava na cidade. Seria fazer uma exceção,
atribuir o anti-semitismo de Hitler ao rancor que ele nutria por Hannah, a
prostituta judia que o infeccionara. Isso dependeria de duas premissas: a de
que ela fora o seu único contato sexual, o que parece improvável, e a de que
ele já então sabia que contraíra a doença, o que não se pode confirmar. Naquela época, Viena estava
carregada de prevenção contra os judeus. Livros e panfletos anti-semitas
jorravam das impressoras - alguns deles pornográficos, a maioria insanamente
falsa em suas acusações, e todos eles estúpidos e insultuosos. A princípio
sua veemência o espantou: "No judeu eu ainda via apenas um homem que
tinha uma religião diferente e, portanto, por motivos de tolerância humana,
era contra a idéia de que ele deveria ser atacado por ter uma fé diferente...
Eu achava que o tom adotado pela imprensa antisemita em Viena era indigno
das tradições culturais de um grande povo." Mas ele não demorou muito
a superar seu espanto. "Aos meus olhos, os ataques ao judaísmo se
tornaram graves quando descobri as atividades judaicas na imprensa, nas
artes, na literatura e no teatro." Ele também descobriu que "nove
décimos de toda a literatura pornográfica, das sandices artísticas e das
banalidades teatrais tinham de ser debitados na conta dos judeus e que não
havia nenhuma forma de obscenidade, especialmente na vida cultural, em que
pelo menos um judeu dela não parlicipasse." Todas essas
extraordinárias descobertas sobre as quais ele arenga no fraseado cediço do
Mein Kampf, foram coroadas pela compreensão de "que os judeus eram os
líderes da social-democracia. Diante dessa revelação, caíram as escamas que
me cobriam os olhos. Minha longa luta interior chegara ao fim." Podemos
ouvir as escamas caindo ao chão, e os gases conflitantes do seu estômago
silenciando. Ele finalmente encontrara no que concentrar sua malignidade. E
não apenas isso. Ao ter sua mente conduzida para a ciência política através
do racismo, ele encontrou um assunto que servia à sua mentalidade e ao seu
caráter. As idéias pan-germânicas, que infestavam o currículo da sua escola
em Linz, agora lhe inundavam a mente com um efeito de remoinho. Daquele
vórtice surgiu a visão de si próprio como o salvador messiânico da raça
ariana - especialmente da parte alemã. Ele expressou essa convicção mil
vezes, e um dos exemplos mais repugnantes dessa expressão está num discarso
pré-eleitoral pronunciado em Viena a 9 de abril de 1938: "Acredito que era
vontade de Deus mandar um menino daqui para o Reich, deixá-lo crescer e
educar-se para ser o líder da nação e levar sua pátria de volta ao Reich... a
mim foi dada a graça... de poder unir minha pátria ao Reich... possa todo
alemão reconhecer a hora e a medida da sua importância e curvar-se
humildemente perante o Todo-Poderoso que... realizou esse milagre pra
nós!" Este era o Hitler
plenamente desenvolvido na sua megalomania. Mas não foi preciso nenhum
milagre do Todo-Poderoso para trazer o embrião "salvador" de 1912
até o Führer megalômano de 1938. Para um homem da sua instabilidade, que
acalentava ressentimentos contra um mundo que não conseguira reconhecer nele
qualquer genialidade e cujo corpo servia de repasto aos destruidores
micróbios da sífilis, todas as circunstâncias em que tal "salvador"
poderia florescer tinham sido criadas pelos signatários do Tratado de
Versalhes. Hitler evitara a
convocação para o exército austríaco em 1913, alegando que se recusava a
servir "com os sujos judeus tchecos e com a escória da monarquia dos
Habsburgos". Ele deixou Viena para fugir ao serviço militar, mas a
polícia perseguiu-o tenazmente com suas investigações e, em janeiro de 1914,
alcançou-o em Munique, onde foi intimado a apresentar-se para o exame
médico. "Fui recusado", diz ele, "devido à má saúde e
debilidade geral". E prossegue explicando que sua debilidade geral era
causada pela "má nutrição resultante dos parcos rendimentos como
artista". Mas em 1938 ele ordenou à Gestapo que descobrisse e destruísse
todos os registros do exame. Seja qual for a razão de o exército
austro-húngaro recusá-lo em 1913, ele foi aceito como voluntário no 16º
Regimento de Infantaria da Baviera a 7 de agosto de 1914, no início da
guerra. Serviu como mensageiro no mesmo regimento durante toda a guerra, foi
condecorado com a Cruz de Ferro (Primeira e Segunda Classes, por nenhuma
razão oficialmente registrada (1), e promovido a cabo. (1) As Cruzes de Ferro,
instituídas na Guerra de Libertação de 1813, só eram concedidas em tempo de
guerra, para ações em combate, e levavam a inscrição do ano de início do
conflito. A concessão da Cruz de Ferro de 2ª Classe a Hitler não suscita dúvidas,
mas, segundo o dossiê secreto que o terrível Heydrich conseguiu preparar
sobre seu Führer, a de 1ª Classe fora conferida apocrifamente por
Ludendorff, após a 1ª Guerra Mundial, para dar mais importância ao político
estreante, que ele desejava favorecer. De fato, Hitler nunca a ostentou antes
de 1925. Durante um ataque inglês à
aldeia francesa de Comines, a 13 de outubro de 1918, Hitler ficou cego. Essa
era a cegueira mencionada no relatório secreto a que Kersten se referiu. Os
ingleses estavam usando gás e na época se pensava que este fosse a causa.
Ele foi mandado para o hospital militar em Pasewalk, onde um oftalmologista,
o Dr. Viktor Krückmann, o examinou e comunicou que Hitler estava sofrendo de
cegueira histérica, e não de qualquer dano causado por gás. "Trata-se
de uma perturbação nervosa muitas vezes indicativa do estágio terciário da
sífilis", escreveu ele. "Sugiro que esse homem seja examinado para
verificar evidências dessa doença e ser tratado nessa conformidade. Ele recuperará
a visão." O que realmente aconteceu.
Mas não há registros do exame subseqüente, feito pela Clínica de Doenças
Venéreas para onde o enviaram. Talvez também tenham sido destruídos pela
Gestapo. O compilador do documento secreto que Kersten examinou pode tê-los
visto, pois Kersten diz que ele se refere a "sintomas associados com a
sífilis". Mas em 1965, Krückmann era de opinião de que eles haviam sido
deliberadamente destruídos por Frick, tal como aconteceu com os registros das
consultas de Spiethoff. Em todo caso, Hitler ainda
estava no hospital de Pasewalk quando se proclamou o armistício, sendo a paz
buscada pelo General Ludendorff, do Alto Comando Alemão, e pelo Chanceler,
Príncipe Max von Baden. "Em novembro",
escreveu Hitler, "a tensão geral aumentou. Então, certo, dia, o desastre
abateu-se sobre nós sem aviso. Chegaram marinheiros em caminhões e nos
incitaram à revolta. Alguns rapazes judeus eram os líderes... Nenhum deles
vira serviço ativo na frente de batalha. Através de um hospital para doenças
venéreas, esses três "orientais" haviam sido mandados de volta para
casa. Agora, suas bandeiras vermelhas estavam sendo hasteadas aqui." Não há qualquer prova,
exceto o desprezo permeado de ódio de Hitler, de que houvesse judeus entre
os citados não-combatentes e "orientais", ou que tivessem estado
num hospital para doenças venéreas. (Ele os teria visto lá?) Os marinheiros
revolucionários eram apenas uma minoria dos amotinados de Kiel que se haviam
recusado a fazer-se ao mar com seus navios para prosseguir numa guerra que já
terminara. Mas este é apenas um exemplo dos preconceitos maníacos de Hitler. Num grande bloco de
palavras mal escolhidas, ele prossegue dizendo que recuperara a visão e mal
podia acreditar que a Alemanha capitulara. "Voltei vacilante e
cambaleando para minha enfermaria e enfiei minha dolorida cabeça entre as
cobertas e o travesseiro... Então fora tudo em vão. Em vão todos os
sacrifícios e privações; em vão a fome e a sede por meses intermináveis; em
vão as horas que ficamos firmes em nossos postos, embora o medo da morte nos
prendesse a alma... ", e assim por diante, numa prolongada saga de
autocomiseração disfarçada em vingativo "mea culpa". Exceto essa
informação incidental sobre o caráter do seu autor, esse capítulo do Mein
Kampf tem uma única frase importante: "De minha parte, decidi então
ocupar-me do trabalho político". (2) (2) O moral entre os
soldados alemães manteve-se muito alto durante toda a 1ª G.M. O pedido de
armistício, negociado secretamente por ordem de Ludendorff desde 10 de agosto
de 1918, concretizou-se pública e repentinamente entre 10 e 11 de novembro,
com grande surpresa e revolta dos combatentes. A atitude geral era: "Mas
estávamos vencendo!..." Da decepção dos soldados da frente surgiu o
mito da "punhalada nas costas", dada "pelos políticos",
que "entregaram" a Alemanha no "Ditado" de Versalhes. A capitulação que tanto
chocara Hitler - de resto toda a nação alemã, que pensava já avistar a
vitória - foi instigada já a 5 de outubro de 1918, por Ludendorff. Naquela
data despachou-se uma nota ao Presidente Woodrow Wilson dos Estados Unidos,
solicitando formalmente as negociações de paz. Wilson respondeu perguntando
se o governo alemão tencionava discutir a paz nos termos dos seus discursos
perante o Congresso e nos quais estavam formulados os famosos Quatorze
Pontos, Quatro princípios e Cinco Específicos. A resposta foi Sim. Desse
modo, Alemanha e Estados Unidos concordaram inicialmente em que as negociações
de paz deveriam basear-se num total de 23 condições estipuladas por Wilson e
que também teriam de ser aceitas pelos demais Aliados. Era uma base instável
para se discutir um Tratado de Paz - sobretudo porque os Aliados não tinham
sequer a mais leve indicação de que os Estados Unidos tinham uma base de negociação
com o inimigo. E tampouco estavam inclinados a aceitá-las, ao saberem das
condições. Cada um dos Quatorze Pontos foi virado e revirado por Clemenceau,
da França, Lloyd George, da Grã-Bretanha e Sonnino, da Itália, cada um tendo
razões - nem todas admiráveis - para emendar os Quatorze Pontos e obter
vantagens específicas para seus países. Mas os Estados Unidos permaneceram
irredutíveis. Os Quatorze Pontos deviam ser aceitos in totum ou eles
concluiriam um tratado de paz em separado com a Alemanha. "Isto foi uma
bomba", diz Richard M. Watt em The Kings Depart. "Lloyd George e
Clemenceau não podiam permitir que os colocassem numa posição de causar um
armistício vitorioso e obrigassem seus países a prosseguir numa guerra agora
insensata - especialmente quando a opinião mundial interpretaria suas
razões para isso como uma recusa cínica de altos princípios, tais como a
liberdade dos mares e a abolição da diplomacia secreta. Eles foram colocados
numa posição de onde não podiam fugir". Agora era a vez de os
Aliados capitularem. Eles aceitaram os princípios wilsonianos, e o
armistício foi celebrado a 11 de novembro. Foi a porta que se abriu para a
conferência de paz de Versalhes. Volumes foram escritos
sobre aquela desastrosa conferência e sobre o Tratado nela assinado depois de
cinco meses de discussões. Em resumo, é necessário dizer apenas que das
condições estipuladas por Wilson e aceitas pelos alemães, apenas quatro foram
finalmente incorporadas ao Tratado. O inimigo derrotado assinara um
armistício cujos termos, quando da assinatura do Tratado, haviam sido
distorcidos a ponto de se tornarem irreconhecíveis. Durante os cinco meses de
discussões, revelaram-se atitudes de rancor, cobiça e desejo ardente de vingança
que, embora compreensíveis de certa maneira, só poderiam levar a contendas
no futuro - por mais que se pudesse adiar o choque. Lord Keynes escreveu sobre
os plenipotenciários das 32 nações reunidas em conferência: "O futuro
da Europa não lhes interessava; seus meios de subsistência não os
sensibilizavam. Suas preoaspações, boas e más, relacionavam-se com
fronteiras e nacionalidades, com o equilíbrio de poder, com engrandecimentos
imperiais, com o futuro enfraquecimento de um inimigo forte e perigoso, com
vingança e com a transferência dos seus insuportáveis ônus financeiros para
os ombros do vencido!" E como outra denúncia ao
Tratado, o Primeiro Ministro da Itália, Nitti, escreveu mais tarde:
"Permanecerá para sempre como um terrível precedente na história
moderna o fato de que, contra todas as promessas, todos os precedentes e tradições,
os representantes da Alemanha nunca foram ouvidos; a eles nada restou senão
assinar um tratado num momento em que a fome, a exaustão e a ameaça de
revolução tornavam impossível não assiná-lo... Na velha lei da Igreja estipulou-se
que todos devem ter o direito de ser ouvidos, até mesmo o demônio. Mas a
nova democracia, que se propunha criar a Liga das Nações, nem sequer obedeceu
os preceitos que o obscurantismo da Idade Média considerava sagrados em nome
do acusado". Foi no cenário criado
pelos escombros de acordos violados, por estadistas tirânicos, pela força à
boca da pistola e pela perigosa humilhação de uma nação vencida, que Hitler,
o homem do destino, apareceu para "ocupar-se de trabalho político". A maior qualidade de
Hitler - e, no seu campo, equivalia a gênio - foi sua percepção psicológica.
Vendo-se como um homem rejeitado pela sociedade, e ignorando cegamente o
fato de que essa rejeição era causada por sua natureza nada cativante, ele
pôde facilmente identificar-se com as massas de uma nação que, apenas
procurando uma paz honrosa, fora pisoteada e reduzida a pó pelo Tratado de
Versalhes. A humilhação é a mais perigosa das punições a se impor a uma
nação cujo caráter não é abjeto; e um homem que pode manipular as emoções de
um povo obrigado a prostrar-se não pode deixar de ser ouvido. Sobretudo nas
circunstâncias que afligiam a Alemanha do pós-guerra. Mas, de modo algum,
ouviram-no imediatamente. Mesmo um gênio nato tem de ser guiado por um
caminho proveitoso. No tocante a Hitler, o caminho era através das tavernas
de Munique, onde, em 1919, ele fortuitamente se encontrou no meio de homens
que mais tarde se tornariam famosos como seus mestres e associados - Dietrich
Eckart, Ernst Röhm, Alfred Rosenberg, Rudolf Hess, Anton Drexier, Karl Harer
e Gottfried Feder. Aqueles homens - um poeta, um soldado, um arquiteto, um
político disfarçado em consultor militar, um serralheiro, um jornalista e um
economista meio doido - estavam todos afundando numa viscosa confusão de
noções revolucionárias ilegítimas para salvar a Alemanha do desastroso
estado de coisas criado pela guerra e pelo "Tratado de Paz" Era Eckart quem se
preocupava interminavelmente com a formação de um "Partido do Cidadão
Alemão" para neutralizar a influência dos bolchevistas e judeus, e que
descrevia o caráter do homem que deveria liderá-lo: "Devemos ter um
sujeito na cúpula que não trema com o matraquear de uma metralhadora. A turba
deve receber um susto daqueles. Um oficial não serve, as pessoas não os
respeitam mais. O melhor seria um trabalhador metido numa roupa de soldado e
que seja linguarudo. Ele não precisa ser muito inteligente; a política é o
negócio mais imbecil do mundo, e qualquer feirante de Munique sabe tanto de
política quanto aqueles que estão em Weimar (a capital). Preferiria ter um
moleque estúpido e presunçoso, que possa dar uma resposta vigorosa aos
vermelhos e que não corra toda vez que o ameacem com uma perna de cadeira, do
que uma dúzia de doutos professores que se sentam trêmulos nos fundilhos
molhados dos fatos. E ele também deve ser solteiro. Então conquistaremos as
mulheres!" Mas foi Anton Drexler quem
realmenre fundou o partido que Hitler viria a liderar, o Partido dos
Trabalhadores Alemães, um grupo amorfo e estático de quarenta membros e um
capital de 7,50 marcos. Foi ao comparecer a uma das suas débeis reuniões
políticas, a 12 de setembro de 1919, que Hitler falou com tal veemência que
Drexler o persuadiu a filiar-se ao Comitê dos Seis. Ele fora enviado à reunião
como pequeno espião a serviço do comando do exército de Munique, que estava
sondando à procura de atividades políticas subversivas. Mas o que ele
realmente descobriu foi a oportunidade da sua vida. Ali estava uma
organização sem rumo, mal dirigida e cheia de joões-ninguém, e embora ele
próprio fosse um joão-ninguém, tinha idéias muito melhores do que as que
estavam em debate, e logo viu a possibilidade de impô-las a um grupo que
carecia de liderança, energia e membros.(3) (3) Hitler juntou-se ao
Partido como o sétimo membro do comitê. Sendo o 7 um número místico,
especuladores do ocultismo vêem grande significação no fato. É certo que
houve sempre muita influência mística, iluminista e ocultista entre os fundadores
do nazismo, notadamente quanto ao "inconsciente coletivo". Drexler,
fundador do Partido dos Trabalhadores Alemães, pertencia à sociedade secreta
"Thule" (cujo símbolo era a suástica circular), fundada pelo
renomado ocultista barão Rudolf von Sebottendorff, filho de um maquinista
ferroviário, fundador do jornal Vülkischer Beobachter, que se tornaria órgão
oficial nazista. Outros membros notáveis da "Thule", conhecidos,
eram os príncipes de Thurn und Taxis, Max Sesselmann, Alfred Rosenberg, W.
Rohmerder, presidente da Associação Escolar Alemã, Heinrich Jost, Rudolf
Hess, Hans Frank. Karl Fiehler, Gottfried Feber. Dietrich Eckart. Dessas
conexões esotéricas originaram-se as idéias confusas de Himmler sobre sua
Ordem Secreta dentro das SS. Assumiu o comando quase
que de imediato; implicitamente, senão por título; e três meses depois foi
nomeado Oficial de Propaganda. Ele efetuou a fusão de vários outros movimentos
minoritários - cujas metas eram, vagamente, a execução prática de uma
política de anti-semitismo e anticomunismo e o não-cumprimento das condições
opressivas do Tratado de Versalhes. E ampliou o título para o grandioso
Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (Partido Nacional Socialista
dos Trabalhadores Alemães), de cuja primeira palavra se cunhou a abreviatura
Nazi. O destino do Partido Nazista e, subseqüentemente, do Terceiro Reich,
durante os 25 anos seguintes, é o destino de Adolfo Hitler. O demagogo "O fundamento da autoridade reside na popularidade"- Hitler Assim como Hitler, o
Partido estava doente. Era a doença da vanglória. Os interessados no estudo
das teorias do racismo podem examinar os sintomas apresentados por grandes enfadonhos,
como Thomas Wolfe, Houston Stewart Chamberlain, o Conde de Gobineau e Richard
Wagner, o sogro de Chamberlain. Todos eles, reconduziam aos mitos dos
heróicos Siegfrieds arianos, aos horríveis e racionalmente inferiores Alberichs
e a Valhalas próprios para moradas dos deuses alemães triunfantes. Gente
insatisfeita com a realidade cria lendas e as desgraçadas realidades do Tratado
de Versalhes e da República de Weimar obrigavam a toda a sorte de queixas
doentias, precisando apenas do conforto de um charlatão revelador para
aliviar o mal-estar. O "filósofo" Houston Stewart Chamberlain,
depois de ter suas botas untuosamente polidas com a admiração velhaca de
Hitler, declarou: "O fato de que na
hora da sua maior necessidade a Alemanha deu à luz um Hitler prova a sua
vitalidade." O que na verdade provou
foi a incapacidade de o Partido apresentar qualquer alternativa para a
situação a que a Alemanha fora reduzida pelo espírito vingativo do Tratado de
Versalhes, que não o Valhala falsamente fascinante agora revelado em
prestigiosos vislumbres pelos métodos de marketing do seu salvador tipo
"flautista de Hamelin".(4) (4) A velha lenda alemã do
flautista misterioso que salvou a cidade de Hamelin (Hameln) dos ratos, que
se afogaram seguindo o som de sua flauta. Da ingratidão dos habitantes o
flautista vingou-se, atraindo, com o som mágico da flauta, todas as crianças
da cidade, que o seguiram e desapareceram para sempre. A similaridade
alegórica com o fenômeno Hitler é exata. Da mesma forma que Hitler
assumira o comando dos joões-ninguém do Partido Operário Alemão em 1919, em
1923 ele já tinha atrás de si uns 55.000 alemães desorganizados - na maioria
do Sul - que, por serem caracteristicamente maleáveis, foram facilmente
moldados no agressivo padrão nazista. Sua primeira tentativa de agressão
franca foi cercar-se de um grupo de valentões e invadir um salão em Munique,
onde um grupo rival realizava uma reunião política. Hitler disparou tiros de
pistola para o teto, berrou que o governo bávaro estava deposto e que ele era
o líder do novo Reich. Compreensivelmente, esse golpe dramático falhou (mas
por pouco) e, para salvar as aparências, ele preparou uma marcha de
demonstração no dia seguinte, 9 de novembro de 1923. Aquela marcha, que ele
liderou lado a lado com Ludendorff, encontrou resistência policial, havendo
troca de tiros de ambos os lados. Hitler fugiu, deixando os corpos de 16
nazistas na Odeonplatz. Mais tarde os mortos seriam transformados nos
grandes mártires da causa nazista, e Hitler justificaria seu desaparecimento
covarde da refrega, explicando que "arrancara uma criança indefesa da
linha de fogo". Não havia criança alguma, e, se houvesse, Hitler não
poderia tê-la carregado, porque, antes de fugir, ele caíra feio, deslocara o
ombro direito e quebrara o braço esquerdo.(5) (5) O apoio do
Feldmarechal Erich Ludendorff a Hitler parece transcender as razões
políticas, e basear-se sobretudo em causas místicas. Ludendorff era o verdadeiro
senhor da guerra, de 1916 a 1918. sob a sombra prestigiosa do comandante
nominal, o já velho Hindenburg, que colhia os louros. Com a paz, Ludendorff
retirou-se para a Suécia, onde se entregou a práticas ocultistas. Ele já era
secretamente um Irmão Morávio, e conduzia a guerra - às escondidas - segundo
o calendário místico daquela estranha seita, com grande sucesso, aliás. O resultado direto do
putsch de 9 de novembro foi a prisão, julgamento e condenação de Hitler a
cinco anos de prisão, sendo confinado com todo o conforto na fortaleza de
Landsberg. Concederam-lhe alimentação especial, permitiram-lhe receber
visitas, ter um quarto confortável, flores, um secretário particular e
exercício ilimitado no local. Ele foi libertado depois de oito meses, pois
seu discurso de defesa perante o Tribunal do Povo de Munique fora tão cheio
de patriotadas pomposas e vazias que só deram o veredito de
"culpado" depois que o presidente garantiu que o acusado em breve
seria perdoado. Durante a prisão ele
escreveu o tedioso Mein Kampf. (6) O Partido fora proscrito, mas sua
renovação sub-reptícia fora motivo de muita briga entre os principais
adeptos de Hitler - Strasse, Streicher, Röhm, Rosenberg, Ludendorff, Feder
e Frick - que lutaram pelo cadáver político como hienas. Hitler dissociou-se
altaneiramente dos seus desacordos sobre metas e liderança e dedicou-se à
vida literária, ditando grande parte do Mein Kampf a Rudolf Hess, que
funcionava como seu secretário (7). Ele não queria que o Partido revivesse
sob a liderança de outra pessoa. Esperou até ser libertado condicionalmente e
então convenceu o Ministro da Justiça bávaro a permitir a remodelação do Partido
e o reaparecimento do seu jornal, o Volkischer Beobachter ("Observador
Popular"). Sua persuasão se baseava no reconhecimento, por parte de
Hitler, de todos os seus erros passados e numa declaração de que os nazistas
tinham apenas o objetivo de combater o marxismo e o judaísmo. Houve uma
viscosa reconciliação entre ele e alguns dos rixentos líderes e o Partido
reapareceu como uma força. (6) Originariamente o
livro chamava-se "Minha Luta de ½ anos contra Embustes, Falsidades etc.
etc.". Seu editor, F. Eher, posteriormente reduziu o título para
"Minha Luta" (Mein Kampf ). Este livro enfadonho, confuso mas
revelador, tornou-se, lógico, um best-seller. Era obrigatoriamente
presenteado pelo Estado aos noivos, em todos os casamentos realizados na
Alemanha nazista. Hitler vangloriava-se de nunca retirar seus vencimentos
como Chefe do Estado, vivendo exclusivamente dos direitos autorais; sua longa
luta contra o imposto de renda foi, naturalmente, sobrestada durante o
período em que esteve no poder, mas foi ressuscitada após sua morte, contra
os herdeiros. (7) Consta que seus
companheiros de prisão em Landsberg o convenceram a escrever p Mein Kampf
para se livrarem de seus soporíferos monólogos políticos. Mas durante muito tempo
ele foi uma força extremamente ineficaz. Embora tivesse cedido aos apelos de
Hitler, o Ministro da Justiça não foi tão estúpido a ponto de lhe permitir fazer
discursos. Isso foi muito sensato, pois era apenas a personalidade mesmeriana
projetada através dos discursos histéricos que fazia seguidores para o
Partido. Mas essa sensatez não pôde ser mantida. A proibição dos discursos
de Hitler foi anulada em maio de 1927 e o culto semi-religioso do salvador
difundiu-se entre os milhares que o ouviam com uma histeria só comparável à
dele - uma histeria que, como dizia o próprio Hitler, não era involuntária e
sim "uma tática baseada no cálculo preciso de todas as fraquezas
humanas, cujos resultados devem levar, quase que matematicamente, ao
sucesso". O que realmente aconteceu.
Ele era um estuprador usando palavra como um falo. Eckart por acaso acertara,
ao traçar o perfil do líder: "Ele deve ser solteiro. Então
conquistaremos as mulheres!" Na realidade, para ele as massas eram
"mulheres". Piadas grosseiras eram feitas sobre sua afirmação de
que, depois de um grande discurso, ele ficava "enxarcado"; mas é
verdade que ele experimentava um delírio orgiático - "um
substituto", como diz Joachim Fest, "para a experiência emocional
que lhe permanecera proibida em toda a sua monstruosa egofixação. E
possivelmente, a se aceitar que ele era um estuprador, também era um ato de
vingança contra a sifilítica Hannah. No Mein Kampf, ele escrevera febrilmente
sobre a sífilis e sobre a genética judaica e também isso pode ter sido uma
vingança inconsciente - ou mesmo deliberada - mais contra uma pessoa do que
contra uma raça. Quanto às relações sexuais
mais normais, tem havido muita especulação sobre as explorações de Hitler,
nesse campo, mas são muito poucos os fatos em apoio das mesmas. Na sua
juventude houve a inatingível Stefanie e a facílima Hannah; na meia-idade
houve sua amante, Eva Braun, com quem se casou como prelúdio ao pacto de
suicídio que pôs fim às suas vidas. E no período de ascensão do Partido, em
fins da década de 1920, ele viveu com sua sobrinha Geli Raubal, filha da sua
meia-irmã. Em 1931, Geli matou-se, com um tiro, no apartamento de Hitler,
que pareceu inconsolável durante algum tempo; mas isso nada prova, exceto
uma fixação emocional numa jovem vinte anos mais moça que ele e a quem
submeteu tiranicamente a um estado de sujeição neurótica (8) Devido ao
efeito deteriorante sobre sua mente e seu corpo, o breve encontro com Hannah
é de enorme importância, mas todas as outras informações incidentais sobre as
atividades sexuais de Hitler podem passar para o campo da conjetura. (8) De fato, não há provas
de que seu caso Geli (Angelika) Raubal tivesse passado do âmbito platônico.
Hitler na época ainda estava em posição muito vulnerável para poder ocultar
de seus inimigos políticos quaisquer deslizes escandalosos, que lhes daria
excelente matéria de desmoralização. Cumpre notar também que a mãe de Geli, Angela
Maria, meia-irmã de Hitler, após o suicídio da filha, continuou por muitos
anos em sua companhia, como governanta, em Munique e, depois, no Obersalzberg
(Berchtesgaden), embora fosse, como o Führer, de gênio muito intratável. Em contraposição, o que se
afirma sobre a influência mesmeriana e, o crescimento do Partido sob a
liderança de Hitler é apoiado por fatos. Havia pequenas discordâncias
dentro da organização - sobretudo centralizada nos reles Camisas-Pardas da
SA, recrutados entre os ex-soldados que formavam o pequenino exército
permitido pelo Tratado de Versalhes e que demonstravam mais entusiasmo
militar do que político, o que, na época, em nada servia às intenções de
Hitler (9). (Ele lhes permitiu que se engasgassem em seus próprios brados de
guerra e, por volta de 1929, criara seu próprio corpo de elite, sob a
sinistra liderança de Heinrich Himmler. As SS - Schutzstaffeln (Quadros de
Defesa), guarda pessoal de uniforme negro - tinham bastante entusiasmo
político e jurou obediência absoluta. Foi através delas que Hitler dominou o
Partido, a nação e as forças armadas.) Apesar, porém, dessas desavenças
internas, o Partido ampliou seu domínio sobre o país. Tendo caído para
17.000 membros em 1926, a restauração do direito de palavra de Hitler, em
1927, rapidamente elevou para 60.000 o número de membros, Por certo, pode-se
inferir que em 1928 o número de seguidores, senão de membros reais, do
Partida havia dobrado. (9) Apesar de especulações
que atribuem à escolha da cor parda (Braun) para as camisas do Partido
Nazista razões patológicas e mesmo coprológicas, o motivo foi acidental.
Rosshach, sturmhahnführer das SA, em 1924 descobriu a baixo preço, na
Áustria, enorme estoque de camisas pardas, produzidas durante a guerra para
envio às tropas alemães que lutavam na África Oriental (Tanganica). Mas foi com a crise
financeira norte-americana de 1929, e a subseqüente depressão econômica no
Ocidente, que Hitler e o Partido Nazista alcançaram a vitória. Sob a
República Constitucional (chamada de Weimar, pela nova capital da Alemanha),
que Hitler chamava variadamente de "república da traição",
"os criminosos de novembro" e "os traidores infestados de
judeus", jorrara dinheiro norte-americano para a Alemanha. O marco
fora estabilizado, as forças aliadas se haviam retirado da Renânia e a
produção industrial aumentara a ponto de reduzir o desemprego a pouco mais de
meio milhão. Contra essa prosperidade os nazistas tinham poucas esperanças
de sucesso com suas profecias sinistras do próximo desastre financeiro. Eles
conquistaram menos de 1 milhão de votos nas eleições de 1928 e tinham apenas
12 membros no Reichstag, o Parlamento Nacional. Mas com o colapso financeiro
de Wall Street, em 1929, veio o desastre. A impossibilidade de a Alemanha reembolsar
as iníquas reparações exigidas pelo Tratado de Versalhes e os juros sobre os
empréstimos a curto prazo que os Estados Unidos, tontos com seu próprio
poder, haviam concedido com tanta facilidade, levaram a um endividamento
econômico imediato. A Alemanha se parecia com o homem que vivia operando sua
conta bancária a descoberto e que de repente se vê privado de crédito. Por
volta de 1932, havia 5 milhões de desempregados. O mal da desesperança
espalhou-se por todo o país. Alimento, agasalho e abrigo fugiam do alcance do
povo com terrível freqüência e mesmo que o arrimo de família estivesse
trabalhando, era pouco provável que fosse em tempo integral. As poupanças
sumiram numa onda de exploração e num esforço desesperado para pagar
hipotecas de fazendas e casas. E, como diz Alan Bullock em
Hitler: a Study in Tyranny: "Como se o país
houvesse sido varrido por um terremoto, milhões de alemães viram a
estrutura aparentemente sólida da sua existência fender-se e ruir. Em tais
circunstintàas, o homem deixa de ser suscetível aos argumentos da razão. Em
tais circunstâncias, todos se deixam tomar de medos fantásticos, ódios
extravagantes e esperanças igualmente extravagantes Em tais circunstâncias,
a extravagante demagogia de Hitler começou a atrair seguidores em massa, em
quantidades sem precedentes". Aquela massa de
seguidores, juntamente com a incapacidade dos seus oponentes de competir
com seus métodos de propaganda, e fortalecida pelas suas próprias intrigas
astutas para subverter - pela ameaça, suborno, assassinato ou outro método
que servisse ao propósito - os esforços dos membros do Partido que estavam
brigando pelo poder levaram Hitler ao cargo de Chanceler do Reich alemão em
janeiro de 1933. Com a morte do Presidente von Hindenburg dezenove meses
depois, ele anunciou - com a coagida concordância dos que, de certa maneira,
haviam tentado impedir sua subida ao poder - que os cargos de Presidente e
Chanceler estavam agora reunidos e que ele próprio era o supremo governante
do Estado e Comandante-Chefe de todas as forças armadas (10). (10) O cargo de Chanceler
do Reich. na Alemanha, equivale ao de Presidente do Conselho de Ministros ou
Primeiro Ministro, sendo, pois, o mais alto posto executivo. O regime
alemão, tanto na monarquia como na república, era parlamentarista, através do
Reichstag, ou Dieta Nacional, ficando a chefia do Estado com o Imperador
(Kaiser) e depois com o Presidente. Com a morte do Presidente Hindenburg,
Hitler, desdenhando o título presidencial - ou melhor, evitando as
dificuldades legais em obtê-lo - declarou, por decreto, a coincidência das
funções de Chefe do Estado e de supremo executivo no cargo de Chanceler do
Reich, ao qual fazia sempre antepor seu título partidário de Führer. Assim,
instituía na prática o Führerprinzip de Rosenberg e outros, princípio pelo
qual só cabe à nação seguir as diretrizes indicadas pelo Führer, que encarna
o espírito norteador de todas as aspirações da alma coletiva da nação - no
caso nazista, também da Raça - personalidade sagrada que se sobrepõe a todo
o individualismo, cujas manifestações são "cancerosas" e devem ser
extirpadas implacavelmente. A tese do Führerprinzip foi muito invocada nos
julgamentos dos criminosos de guerra nazistas, para exculpá-los de qualquer
responsabilidade pessoal. Sua primeira ordem ao
exército foi para que fizesse um voto de fidelidade e obediência a ele
pessoalmente - não à Constituição ou ao país: "Por Deus eu faço
esse juramento sagrado: prestarei obediência incondicional ao Führer do
Reich e do Povo Alemão, Adolf Hitler, o Comandante-Supremo das Forças
Armadas, e estarei pronto, como um bravo soldado, a dar minha vida, a
qualquer momento, pelo meu Führer" (11). (11) Para o texto dos
juramentos das SA e das SS, ver Notas do Livro "Waffen-SS", das
Tropas. Assim, em agosto de 1934,
Adolf Hitler passou a dispor de poder absoluto. Os efeitos corruptores desse
poder em breve se tornariam visíveis. A crueldade pessoal de
Hitler para com rivais ou dissidentes fora demonstrada de maneira chocante num
expurgo realizado cinco semanas antes. A 30 de junho, ele ordenou a execução
de Ernst Röhm e outros líderes dos Camisas-Pardas que haviam tentado uma
revolta. Houve massacres por toda a Alemanha; o ex-Chanceler, General von
Schleicher, e importantes oficiais do exército, funcionários públicos e
católicos romanos foram assassinados. Os assassinos eram os homens de negro
das SS que, com a Gestapo que tinham absorvido, daí em diante viriam a ser
os principais executores das maquinações de Hitler. Política e socialmente,
havia formas menos sanguinárias mas igualmente eficazes de crueldade. Todo o
sistema parlamentar da república de Weimar foi dissolvido. Todos os partidos
políticos, exceto o nazista, foram proibidos; a criação de qualquer tipo de
organização política não-nazista era passível de prisão em campos de
concentração; a liberdade de expressão cultural nas artes e na literatura
deixou de existir; os direitos civis e a igualdade de cidadania foram
suprimidos e se introduziu o "sistema de líder" ou Füherprinzip -
um Führer todo-poderoso na cúpula e incontáveis Führers menores pisoteando a
cabeça dos seus inferiores hierárquicos, até o cidadão comum, o qual devia
obedecer até encontrar alguém inferior para liderar. A Igreja e a imprensa
foram revolucionadas. Somente a versão nazista da história era contada, só
se tolerava a religião da propaganda antijudaica, a imprensa era o porta-voz
do nazismo e nenhuma outra voz podia ser ouvida. Durante quatro anos,
Hitler organizou o estado nazista numa máquina diplomática e militar que
violava a maioria das cláusulas do Tratado de Versalhes. Ele criou a
Luftwaffe, (12) introduziu o alistamento militar compulsório, ocupou com
suas tropas a Renânia desmilitarizada pelo Tratado de Versalhes; (13) retirou-se
da conferência mundial do desarmamento, abandonou a filiação da Alemanha à
Liga das Nações, celebrou uma prestigiosa concordata com o Vaticano e um pacto
de não-agressão com a Polônia - ambos destinados a dar tempo para que seus
desígnios amadurecessem e não para dar quaisquer vantagens políticas para a
Itália, ou a Polônia. (12) A Luftwaffe (Arma
Aérea) foi desde o início comandada pelo Reichsmarschall Göring. Compreendia
a arma pára-quedista alemã e a artilharia antiaérea, tendo ainda enormes
contingentes de infantaria que lhe permitiram a formação de várias divisões
de campanha. Isto não se devia a novos conceitos táticos, mas sim a uma
contraposição política ao poderio do exército. A Luftwaffe era a arma de
preferência dos jovens nazistas, e seu fanatismo ao Führer era total. Só
mais tarde foi suplantada em popularidade e destaque pelas Waffen-SS. A
Legião Condor, que serviu a causa de Franco na Guerra Civil Espanhola,
pertencia à Luflwaffe. (13) A ocupação da Renânia
foi feita com "pedacinhos de tropas", sendo empregadas até bandas
de música isoladas, como a do Leibstandarte SS Adolf Hider, a guarda pessoal
SS, pois o Exército teve de lançar mão de todos os seus fracos contingentes
para assumir os dispositivos de defesa do território, à espera da possível
reação militar francesa. O Estado-Maior-Geral seguia de Berlim os
acontecimentos no maior pânico. Sabia que a mínima reação francesa - o envio
de três regimentos de infantaria em guarnição nas proximidades - seria mais
que suficiente para expulsar os "invasores". Mas, inquirido pelo
governo francês, o Comandante-Chefe, Gamelin, achou que só poderia agir com
uma mobilização geral, envolvendo a chamada de reservistas (apesar de o
exército francês ter um oneroso e gigantesco efetivo, superior a um milhão
de homens), conversão da indústria para a guerra, enfim, a alteração
completa da vida nacional. Tal expediente, de qualquer modo, seria irrealizável,
pois os governos parlamentares franceses eram debilíssimos, os gabinetes duravam
apenas meses, quando não semanas, e a influência dos
pacifistas era enorme. A guerra era um espectro medonho, que politicamente
não podia ser, sequer, cogitado. Foi esta a primeira capitulação das
democracias. O simples avanço dos três regimentos teria ocasionado a retirada
imediata das débeis forças alemães pelo seu Estado-Maior, sem qualquer
confronto, e a destituição do Führer manu militari, com pouca ou nenhuma
resistência popular, pois o nazismo ainda não se havia enraizado na máquina
administrativa e policial, e o pavor de uma guerra também dominava o povo
alemão, nesse ano de 1934, quando sua intoxicação bélica, realizada por
Hitler, mal havia começado. Aqueles quatro anos, de
1933 a 1937, testemunharam a recuperação econômica da nação alemã e o aumento
das suas forças armadas. A Alemanha passou a contar com tal poder de agredir,
que espantava e frustrava os países-membros da Liga das Nações (da qual Japão
e Itália, bem como a Alemanha, se haviam retirado). A percepção psicológica
de Hitler revelou-se brilhante. Com uma série de audazes golpes diplomáticos
ele lograra os estadistas que jogavam o jogo diplomático segundo as regras
convencionais. Quando estes se libertaram das peias do cavalheirismo e
perceberam estar lidando com um psicopata brilhante, os fios dos planos do
Führer para a dominação alemã já enredavam inextricavelmente as vítimas
incautas. Na primavera de 1938, Hitler já estava bastante forte para
empreender a invasão da Áustria e anexá-la ao Reich alemão. Daí em diante a
sua terra natal não teria mais nome (14). (14) A Áustria foi tomada
"pelo telefone", como Göring lembrou, entre risos, em seu
julgamento em Nuremberg. O Primeiro-Ministro Schuschnigg, convocado a
Berchtesgaden, fora violentamente ameaçado, e fizera importantes concessões
aos nazistas austríacos, liderados por Seyss-Inquart. Hitler exigiu depois
que o Presidente Miklas fizesse Seyss-Inquart seu Chanceler, para que
formasse um gabinete totalmente nazista, sob a ameaça de invasão. Quando
isto foi feito, Seyss-Inquart "chamou" as tropas alemães para
ajudá-lo a manter a ordem. A entrada de Hitler em Viena teria apenas o
aspecto de uma visita oficial, de caráter afirmativo e intimidativo. O plano
era de, mais tarde, os nazistas austríacos votarem uma federação austro-alemã.
Porém a recepção a Hitler, pelas multidões austríacas, foi tão entusiástica
e triunfal que o levou a fazer imediatamente um Anschluss (anexação). A
Áustria passou a simples província alemã e seu nome, Osterreich (País de
Leste), foi mudado para Ostmark (Província de Leste). O exército alemão
estava ainda muito mal equipado, e centenas de veículos e tanques, ficaram
enguiçados pelas estradas. Ainda desta vez, o exército estava pronto para
destituir Hitler, caso o incidente levasse a perigo de guerra, principalmente
porque Mussolini, receoso de uma forte Alemanha em suas fronteiras, havia
categoricamente protestado e apoiado o governo austríaco. Mas o dramático espetáculo
das duzentas Mercedes negras desfilando em formação impecável pelas largas
avenidas de Viena, conduzidas pelo Leibstandarte SS, com os figurões nazistas,
debaixo do delírio popular, impressionou todo o mundo, e especialmente Mussolini.
Mais uma vez a audácia do Führer e sua capacidade de encenação eram bem
sucedidas, e o próprio Mussolini aderiu. Desta época data a crescente amizade
entre o Führer e o Duce. À Europa estupefacta, os alemães podiam dizer, com
razão, que o Anschluss atendia um óbvio anseio do povo austríaco. Mas sua cobiça maníaca por
lebensraum (espaço vital) e poder não foi, de modo algum, facilmente
saciada. Tendo a Grã-Bretanha e a França traído pusilanimemente a
Tcheco-Eslováquia, fazendo-a retirar suas forças defensivas da região dos
Sudetos (15), para lhes dar tempo para se prepararem para uma guerra de cuja
inevitabilidade estavam certos, Hitler ocupou aquele território no outono de
1938 sem dificuldade alguma. Seis meses depois ele estendeu suas garras para
a Boêmia, Morávia e Memel (16). O Estado Livre de Danzig foi proclamado parte
do Reich alemão a 1º de setembro de 1939, e a Polônia foi invadida no
amanhecer daquele mesmo dia, obrigando a Grã-Bretanha e a França a
declararem guerra, para cumprir as obrigações contraídas no tratado com a
Polônia. (15) Os Montes Sudetos
formavam a sólida fronteira noroeste da Tchecoslováquia, traçada pelos
Aliados no Tratado de Versalhes precisamente por seu significado estratégico.
Entretanto, a região era habitada, na maioria, por súditos alemães, antes
contidos no Império Austro-Húngaro. Hitler teve a seu favor este elemento de
certo valor moral, que reduziu a capacidade de argumentação das potências
ocidentais, garantidoras, por tratado, da integridade territorial tcheca.
Mas os alemães sudetos não eram uma minoria oprimida, dentro da nação
tcheco-eslovaca. Só começaram a arregimentar-se e manifestar-se através de
seu líder nazista local, Konrad Henlein, por ordem expressa de Hitler, para
justificar suas exigências. Ocupados os Sudetos em outubro de 1938 pelas
tropas alemães, com a anuência expressa no Acordo de Munique, a
Tchecoslováquia ficou sem as fortificações permanentes de fronteira, ali
construídas, e sem a defesa natural de sua posição. A porta para o coração
do país estava aberta, para a invasão que despedaçou a Tchecoslováquia em março
de 1939. Quando Hitler iniciou a crise dos Sudetos, o exército alemão fez
seus mais elaborados preparativos para a deposição do louco que ousava
desencadear uma guerra que aniquilaria a despreparada Alemanha. Mas a vinda
de Chamberlain, e mais tarde de Daladier e Mussolini, a Berchtesgaden e a
Munique, para as apaziguadoras "conversações", mostrou que o
Führer sabia como tratar os pacifistas. As aclamações populares com que
Chamberlain e Daladier foram recebidos na Alemanha demonstraram claramente
que o povo ansiava por um acordo que evitasse a guerra que parecia iminente.
Mas depois de firmado o Acordo de Munique, o prestígio "guerreiro"
de Hitler atingiu o auge junto a seu povo, e nada mais o poderia deter. (16) Depois de
enfraquecida a Tchecoslováquia pela ocupação dos Sudetos, com a visível
complacência das democracias garantidoras, Hitler ocupou as províncias da
Boêmia e Morávia, criando um Protetorado, entrando - desta vez sob lágrimas -
em Praga. Ele deixou para mais tarde a ocupação do restante da infeliz nação,
a província da Eslováquia, que se viu tornada "independente", sob
a garantia formal da Alemanha. Assim, a Polônia estava estrategicamente
envolvida pelo oeste e pelo sul. A cidade de Memel, a 100 km da Prússia
Oriental, foi "cedida" pela Lituânia e anexada, com uma faixa
litorânea do mar Báltico. Ficaram pendentes duas questões: a Cidade Livre de
Danzig - cuja população, altamente nazificada pelo seu líder, Albert Forster,
clamava pelo retorno à "mãe-pátria" - e a do chamado Corredor
Polonês, a faixa de território dada em Versalhes à Polônia, "para que
tivesse uma saída para o mar, pelo porto de Gdínia. O Corredor Polonês era
talvez o mais doloroso espinho no "Martírio da Alemanha", pois
dividia o território nacional, deixando isolada a Prússia Oriental, berço das
mais caras tradições prussianas. Meses antes da invasão da Polônia, houve uma
reunião entre os Ministros das Relações Exteriores, Ribbentrop, e o Conde
Ciano, que oferecia, em nome de Mussolini, os bons ofícios da Itália para a solução
pacifica do problema. Ribbentrop esclareceu ao representante italiano que
Hitler não queria solução para Danzig e o Corredor Polonês, que seriam
tomados pela força muito breve, e não admitiria novamente a frustração de
Munique, quando lhe arrebataram a oportunidade de iniciar a guerra em 1938. Uma semana antes do
fantasma da guerra dominar a Europa, Hitler dera seu golpe culminante de
diplomacia: um pacto de não-agressão e comércio com a Rússia,
"garantindo" a paz entre os dois países por um mínimo de dez anos.
Como ele vinha pregando contra a iniqüidade do comunismo desde 1919, o pacto
foi um golpe de mestre (17). O custo teórico era considerável: nada menos do
que a divisão da malfadada Polônia em duas partes iguais - a oriental seria
o preço da Rússia. Mas a inutilidade do Pacto pode ser medida pela revelação
que Hitler fez da sua meta eventual, numa conferência com seus chefes
militares, a 20 de agosto: "Meu pacto, senhores, destina-se apenas a
ganhar tempo. Esmagaremos a União Soviética." O tempo era realmente a
essência dos seus planos. Para a Alemanha, mesmo no seu atual estado de
imenso poderio militar, a luta nas frentes ocidental e oriental
simultaneamente seria tão fatal em 1939 como demonstrara ser na Primeira
Guerra Mundial. O Ocidente devia ser esmagado primeiro. E tão logo recebeu a
declaração de guerra dos Aliados a 3 de setembro de 1939, Hitler dedicou-se
inteiramente à sua gigantesca tarefa. (17) O pacto
teuto-soviético de 24 de agosto foi, e é, um dos pontos negros do comunismo,
e lançou a maior confusão e consternação em todos os partidos comunistas.
Houve enorme defecção e cisões importantes, até que a "monolítica"
linha do partido viesse a firmar-se um pouco mais. Até hoje os doutrinadores
vermelhos têm dificuldade em explicá-lo, e passam sobre ele como gatos sobre
brasas, com a alegação de que Stalin "magistralmente" ganhara tempo
para a URSS. De fato, Stalin nada fez para preparar-se para a invasão alemã,
que viria em 1941, e sua "genialidade" manifestou-se no imenso massacre
que em 1936 atingiu maciçamente a oficialidade do Exército Vermelho, principalmente
no alto comando, destruindo-o como instrumento de defesa. E a isto Stalin foi
levado por falsa denúncia, habilmente arquitetada por Heydrich e
Schellenberg, do SD das SS. O estrategista "Os limites dos países são criados pelos homens, e por eles
modificados" - Hitler Com seu ataque à Polônia,
Hitler não só desencadeara a guerra como podia afirmar que não existia um estado
de guerra até que os Aliados a declararam. Reduzida à posição de uma briga de
crianças, ela não passava de um "não fui eu quem começou, foi ele".
Segundo os padrões hitleristas, a invasão da Polônia foi apenas uma expansão
lógica e justificável do seu direito ao Estado Livre de Danzig e,
anteriormente, à Austria, aos Sudetos, Boêmia, Morávia e Memel. Ele afirmara
que estes eram partes do Reich alemão que haviam sido arrancadas na
gananciosa divisão depois da Primeira Guerra Mundial. Ele também fazia
observar o fato de que não se derramara uma só gota de sangue na
"libertação" do seu povo do jugo opressivo de Versalhes. Se os
poloneses tivessem demonstrado idêntica e sensata boa vontade de serem
abrangidos pelo Reich, não teria sido necessária a coação. Naturalmente, a
especiosidade de tal argumento seria evidente a qualquer tribunal imparcial
que investigasse as causas imediatas da guerra. Mas não houve tal tribunal
nem tal argumento. A Polônia foi virtualmente
conquistada em questão de horas. O domínio do ar foi facilmente obtido por
uma ofensiva geral iniciada ao amanhecer de 1º de setembro. Levas de
bombardeiros simplesmente sobrevoaram os aeródromos poloneses e destruíram
os aviões pousados. Os que levantaram vôo foram derrubados pelos caças que
escoltavam os bombardeiros e que depois, em vôos rasantes, metralharam os sobreviventes.
Sem nenhuma defesa contra outros ataques aéreos, os poloneses ficaram
completamente vulneráveis no tocante a pontes, pátios de manobras
ferroviárias, centros de produção, instalações militares e colunas móveis.
As forças polonesas de defesa compunham-se de quase dois milhões de homens,
mas o ataque aéreo alemão impediu sua mobilização, já que todas as
comunicações haviam sido reduzidas a um estado de confusão total. Nenhum aspecto da campanha
polonesa deveria surpreender a qualquer um, muito menos aos poloneses. Ela
estava inteiramente de acordo com os métodos de Hitler. (Os russos, apesar de
estarem presos à Alemanha pelo seu pacto de não-agressão, em menos de dois
anos sofreriam precisamente o mesmo tipo de ataque inicial pelo bombardeio
dos seus aeródromos; e estariam igualmente despreparados.) Mas as forças
polonesas estavam sendo reunidas para rechaçar um ataque que se realizasse
dentro dos moldes tradicionais de 1914. Seu Comandante-Chefe, Marechal
Smigly-Rydz, parece ter sido o primeiro a ser desarmado - no sentido
não-militar. Hitler havia-lhe assegurado. através de Goring, em 1937, que a
Alemanha não tinha nenhum interesse territorial na Polônia. Outro fato que o
desarmou: quando o ataque alemão era claramente iminente, Smigly-Rydz supunha
que ele se desenrolasse segundo as regras de 1914. Não só os poloneses como
também os teóricos militares da Grã-Bretanha e França sofriam da
"ressaca" de pensar em termos de cargas de cavalaria e outras
manobras obsoletas e, nos primeiros estágios da guerra, ficaram completamente
aturdidos com o planejamento e execução implacável, mas perfeitamente
lógicos, de Hitler, lançando ao mundo a primeira Blitzkrieg (18). (18) Blitzkrieg -
Guerra-relâmpago, foi o nome dado pelos alemães à sua nova técnica de
campanha. O nome, ao contrário do que se julga, não se devia à rapidez das
operações; a velocidade atingida, tanto na Polônia como na França, foi fator
que surpreendeu aos próprios alemães. A tese central era a busca de brechas,
com penetração profunda e ramificação de tais penetrações para estendê-las e
buscar objetivos, como sucede com o relâmpago. A teoria inicial deve-se ao
então ten-cel Fuller, teórico militar britânico, imaginada em 1917, e por ele
chamada "técnica da água que se espalha", e que busca brechas e
trajetos de menor resistência. A teoria foi expandida e codificada pelo cap.
Liddell Hart, com a aplicação de fortes formações blindadas como cunhas de
penetração, e apoio aéreo tático imediato e constante, substituindo a
artilharia, tudo sem aguardar a consolidação dos ganhos, explorando ao máximo
a surpresa e a penetração, com rompimento de comunicações e linhas de
abastecimento em profundidade. Coube ao general Guderian a criação das
divisões blindadas (Panzer) alemães, desde 1935, seguindo estes conceitos e
aplicando os ensinamentos de Liddell Hart, desprezados como fantásticos pelos
altos comandos britânico e francês. Desde então, isto passou a
ser admirado como a "intuição" de Hitler. Há uma tendência para
supor que ele tinha algum poder quase sobrenatural que lhe permitia
antecipar-se às manobras militares dos adversários. De fato, nos primeiros
estágios da guerra, seus mais poderosos opositores, os franceses, só conseguiam
realizar manobras do tipo mais pusilânime. Mas Hitler nunca teve quaisquer
poderes sobrenaturais; não estava aliado a nenhum feiticeiro. Sua "intuição"
não passava da percepção psicológica que lhe permitia identificar-se com a
nação humilhada por Versalhes. Era simplesmente uma compreensão sólida da
natureza humana em geral e do caráter dos seus adversários em particular.
(No sentido particular, não era uma compreensão infalível, como o demonstrou
a sua ignorância do caráter britânico e do norte-americano; mas seus fracassos
ocasionais mostraram que não havia nada de sobrenatural nisso.) Assim como
sabia, e tinha afirmado inequivocamente no Mein Kampf, que a reiteração
interminável de uma mentira demonstrável transforma-a efetivamente numa verdade
demonstrável, também sabia que nada tinha a temer dos franceses em 1939. Ele deduzira corretamente
que, depois da Primeira Guerra Mundial, os franceses seriam obsecados pela
defesa, pela segurança dentro das suas próprias fronteiras. Os dois
sucessivos Comandantes-Chefes de pós-guerra, Pétain e Weygand, deixaram isso
bem claro. O povo vira o massacre inútil da juventude francesa na ofensiva
sangrenta planejada pelo General Nivelle, em 1917, e não estava com ânimo
algum para tolerar outros generais de idêntica mentalidade; tampouco tinha
qualquer interesse em ampliar suas fronteiras. Ele passaria anos lambendo
seus terríveis ferimentos e gastaria trilhões de francos para encerrar-se em
barricadas. A Terceira República corria o risco de colapso e a dignidade da
civilização francesa fora fendida por uma vitória infrutífera em 1918. Somente
os poderosos bastiões, atrás dos quais a república poderia preocupar-se e
criar um imenso exército de defensores franceses, é que satisfariam à nação. Hitler estava certo em
tudo isso - na verdade não precisava de muita agudeza psicológica para
perceber o óbvio. As inexpugnáveis fortificações a serem construídas em nome
do Ministro da Guerra, André Maginot, tiveram início em 1930. Superficialmente, a
"Linha Maginot" compensava em inexpugnabilidade o que lhe faltava
em bom senso. (Ela deixou sem defesa a fronteira com a Bélgica, por cujo
território, militarmente ideal, os alemães, desde tempos imemoriais, sempre
atacaram a França.) Mas nesse caso, a inexpugnabilidade não passava de uma
ilusão confortadora; era, quase que literalmente, o mesmo que enfiar a cabeça
na areia - pois as complicadas fortificações foram construídas bem
enterradas. Eram tocas, equipadas com suprimentos e munições, com conforto e
comunicações para resistir a qualquer sítio. Os poderosos canhões da
"Linha" estavam voltados para a Alemanha e eram protegidos por aço
e concreto impenetráveis. O "túmulo da França" - como o chamou o
General J. F. C. Fuller - custara uma astronômica fortuna, dinheiro demais
por um soporífero, o que realmente revelou ser. Os franceses não queriam
lutar; seu enorme exército - só na "Linha Maginot" havia pelo menos
26 divisões - estava eivado de traição de alto a baixo e não queria nada mais
ativo (como diz Fuller) do que "ficar na 'Linha Maginot', recortar La
Vie Parisienne para decorar suas trincheiras com retratos de mulheres
provocantes e reclamar que queria ir para casa." Quando a "Linha
Maginot" ficou pronta, em 1935, Hitler já alcançara o poder absoluto
como Führer, Chanceler, Presidente, déspota absoluto e "flautista de
Hamelin" da nação alemã. Esse homem repelente conseguira inocular o vírus
da vanglória em uma nação inteira e, com a ajuda de hábeis propagandistas
como Goebbels, o mito da Raça Superior. Ao fazer isso, ele forjara uma espada
poderosa, a espada da confiança. Hipnotizados pela repetição incessante que
seu Führer fazia do tema, e pela cadeia de variações deste, os alemães
dançavam ao som do triunfo extático. Como a confiança da França
repousava apenas na inexpugnabilidade da "Linha Maginot", não é de
surpreender ouvir-se Hitler dizer ao jornalista inglês G. Ward Price, em
Berchtesgaden, em 1938: "Estudei a Linha Maginot' e muito aprendi com
ela." 0O muito que aprendera resultara de muito pouco estudo. A
"Linha" terminava onde começava a fronteira belga; não era preciso
estudá-la mais. Quanto ao volumoso grupo de soldados franceses presos
defensivamente dentro dela: "É um axioma da arte da guerra que o lado
que fica dentro das suas fortificações é derrotado." O refrão é de
Napoleão, mas a verdade é tão velha quanto a guerra. Somente alguns poucos
militares franceses tiraram a cabeça das areias da "Maginot" o bastante
para alertar o governo contra o perigo. Um deles foi o Coronel de Gaulle e o
outro foi o General Guillaumat: "É perigoso deixar que se propague a
idéia falsa e desmoralizadora de que, uma vez que tenhamos fortificações, a
inviolabilidade do nosso pais estará garantida e de que elas são um substituto
para o trabalho árduo de preparação das vontades, dos corações e das mentes."
Ninguém deu atenção à advertência. O povo francês estava adormecido,
narcotizado pela "Maginot". Ele estava moralmente podre,
fisicamente flácido e, pela aparência, mentalmente perturbado. Como o historiador Políbio
observou há dois mil anos, cabe ao general criar um espírito belicoso,
"pois de todas as forças na guerra, esta é a mais influente". Cabe
também ao general tirar partido das armas assestadas contra ele. Quanto ao
primeiro ponto, Hitler elevou o moral do povo alemão a um estado equivalente
à superioridade numérica em homens e armas; quanto ao segundo, inter allia,
ele fez intrigas para infiltrar a ideologia hostil do comunismo na França,
onde ela completou a desmoralização do povo com a sua mácula. Assim, até o
dia 3 de setembro de 1939, ele criara condições desfavoráveis. Mas com a
invasão da Polônia e a inevitável e conseqüente declaração de guerra pela
França e Grã-Bretanha, ele forçara uma decisão que submeteria sua habilidade
de estrategista a um teste gigantesco. Uma das características de
Hitler era a sua incapacidade de delegar. Este era um corolário natural do
seu despotismo. Ele queria tomar todas as decisões e assumir toda a
responsabilidade e, se tivesse podido assumir o controle divino de tudo, da
estratégia principal ao desenho dos botões das suas tropas, teria sido um
general divino. Mas entre ele e tal condição estavam os generais do seu
Alto-Comando, que eram simples humanos, sem nenhuma aspiração a divindade, e
eram administradores muito mais capazes do que seu Führer, que odiava o
trabalho sistemático tanto quanto odiava a delegação de poderes. A prática militar normal
está em nomear comandantes pela sua perícia nos vários aspectos da
estratégia, consultá-los e coordenar seus conselhos. Um plano geral de
campanha é então desenvolvido e os comandantes recebem ordem para pô-lo em
prática nos seus vários estágios. Hitler funcionava da
maneira inversa. Seu ódio pela delegação de poderes se baseava na
desconfiança. Como todos os megalômanos, ele temia rivalidade, temia qualquer
outra mão nas rédeas do poder que não a sua. Quando estava preso na fortaleza
de Landsberg, astutamente desencorajara todas as tentativas dos seus adeptos
para reviver o proscrito Partido Nazista, porque não poderia liderá-lo
enquanto estivesse na prisão, mas tão logo foi libertado, rapidamente
atirou-se à tarefa de restaurar o Partido, de liderá-lo. E a obtenção do
poder absoluto, durante a primeira metade da década de trinta, foi coroada
pelo seu próprio decreto que dizia inequivocadamente: "Doravante exerço
pessoalmente o comando imediato de todas as forças armadas." Como até mesmo Hitler
podia ver a impraticabilidade de estender seu comando, como uma teia, por
todas as ramificações da organização, ele fez uma concessão à ortodoxia
militar, criando o Alto-Comando, o OKW. Todavia tratava-se de um organismo
controlado pelos lacaios favoritos de Hitler, e não era uma comissão
consultiva influente. Ele servia como um computador para elaborar os detalhes
dos grandes desígnios de Hitler e também o informava o que era prático ou não
e, nesse sentido pode-se talvez dizer que era consultivo. Entretanto, Hitler
convocava o Alto-Comando já com sua decisão tomada. Quando a decisão
coincidia com a opinião do Alto-Comando, tudo corria normalmente; quando suas
recomendações eram destroçadas na balbúrdia daquilo que Hitler chamava
"conferências", ele se recusava a
considerar qualquer questão de emenda - então o Führer fazia prevalecer a sua
vontade de ferro. Naturalmente, os chefes do
exército muitas vezes ficavam ressentidos com esse tratamento. Afinal de
contas, eles eram táticos e estrategistas experimentados, e sentiam-se
capazes de opinar sobre qualquer situação militar. Era humilhante serem
tratados com desdém, apenas porque seus pontos de vista não levavam em
conta as manobras dos politiqueiros. E, como todo o curso da história alemã
pós-Versalhes o demonstrou, a humilhação é extremamente perigosa. Ela
resultou em conspirações que só foram neutralizadas pela infiltração da
polícia secreta de Himmler nas Forças Armadas. Algumas conspirações jamais
foram de todo neutralizadas, apesar das atividades traiçoeiras do chefe das
SS. Um plano para raptar e derrubar Hitler só foi - ironicamente - frustrado
pelas trêmulas súplicas de Chamberlain em Munique, em 1938. A tentativa de
assassinato no plano da bomba, a 20 de julho de 1944, só falhou no grau da
sua eficácia, e houve pelos menos cinco outros atentados contra sua vida. Todos os ditadores são
sujeitos às tentativas invejosas de outros magalômanos de usurpar o poder;
mas os generais de Hitler que tramaram contra ele estavam apenas preocupados
em evitar os desastres que viam germinar nas suas decisões. Eles o
aconselharam insistentemente contra o ataque à Tchecoslováquia, em 1938.
"Ele era como um homem enlouquecido", diz Brauchitsch.
Comandante-Chefe do exército, falando sobre uma reunião em que o Alto-Comando
permanecera firme. "Ele suava, gritava, havia espuma em seus lábios, e
durante minutos sua fala foi incoerente. Só depois de uma terrível
tempestade é que compreendemos que era sua vontade inalterável esmagar a
Tchecoslováquia." O que frustrava o
Alto-Comando é que Hitler repetidamente mostrou estar certo. Isto embotou a
capacidade de discernimento e a autoconfiança do seu Estado-Maior. E, como
resultado, este organismo de alto gabarito profissional não pôde ajudar a
Hitler nas campanhas vitais do final da guerra. Hitler muitas vezes
demonstrou desprezo pelo Alto-Comando, em generalizações incorretas como:
"Nenhum general jamais dirá que está pronto para atacar; nenhum
comandante travará qualquer batalha defensiva antes de procurar uma linha
mais curta". Ele próprio era um amador inspirado em estratégia militar.
Conhecia todas as teorias segundo Clausewitz, as batalhas clássicas de
Dario e Alexandre, as manobras de Anibal em Cannae e de Frederico, o Grande,
em Leuthen; e, embora raramente visitasse a linha de frente, sabia como
reagia o soldado em campanha, e tinha sólida noção de suas necessidades.
Afinal de contas, ele próprio fora combatente e provavelmente sua Cruz de
Ferro lhe fora concedida por algum ato de bravura, embora a citação jamais
fosse divulgada. De qualquer modo,
justifica-se um pouco de benevolência ao analisar-se a fuga um tanto rápida
do local da ação, no putsch de 1923. Consideremos que a coragem só é na
realidade virtude quando dirigida pela prudência. As maneiras como ele
expressava desprezo pelo Alto-Comando são menos reveladoras do que suas
razões para isso. Entre as possíveis razões deve-se incluir o ódio que na
adolescência sentira pelos militares, quando um jovem oficial lhe roubara os
afetos de Stefanie. Também havia muitas provas de que o Estado-Maior
imperial alemão apressara a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra
Mundial, por introduzir ataques submarinos indiscriminadamente; por destruir
as esperanças de paz com a Rússia, exigindo que se estabelecesse um Reino da
Polônia e enviando Lenine e seus colegas, emigrados de Genebra, para a
Rússia, em 1917, e dirigira mal a batalha de Verdun, em 1916, prolongando,
dessa maneira, a guerra. Mas havia uma causa ainda mais profunda para o seu
desprezo: o espírito reacionário que, segundo ele dizia, eivava os altos
escalões do exército como resultado da "esterilidade dos Habsburgos, da
astúcia judaica e da doença maçônica do favoritismo na. distribuição dos
altos cargos." Quando da declaração de
guerra dos Aliados, a 3 de setembro de 1939, Hitler podia dar-se ao luxo de
rir na cara dos seus generais. Eles não tinham nada que os apoiasse em sua
folha de serviço. As sugestões que haviam apresentado durante a fundação do
"Reich dos Mil Anos" do seu Führer haviam sido por ele recusadas
com fúria despótica, ou foram friamente ignoradas. Desde o momento em que
desaconselharam a reocupação da Renânia, como a primeira demonstração de que
os tentáculos do Reich iam-se movimentar, até os reiterados avisos desestimuladores
do ataque à Tchecoslováquia, eles foram considerados errados. E mesmo com a
declaração de guerra pela Grã-Bretanha e França, eles tiveram a
desconcertante satisfação de ver a Polônia cair ante seus exércitos com
pouco mais de um ligeiro esforço. O Alto-Comando olhava timidamente para o
seu Comandante-Supremo, temeroso das suas intuições. Para onde elas se
dirigiriam a seguir? O estrategista em ação "Nós, alemães,
conhecemos bem, por experiência, quanto é duro contrariar a Inglaterra".
"Nenhum sacrifício será demasiado para a termos a nosso lado: renúncia a
nossas colônias, ao poderio naval, à concorrência industrial. A Inglaterra é
nossa aliada natural". - Hitler Embora o destino da
Polônia, para todos os efeitos, estivesse selado poucas horas depois do
"golpe" de 1º de setembro, o reconhecimento da derrota só foi
anunciado a 27, dez dias depois que o governo polonês se internou na Romênia.
Naquele dia, Varsóvia rendeu-se após devastador ataque aéreo e de
artilharia. Como gatos empanturrados de leite, as duas nações
"vitoriosas", Alemanha e URSS, afirmaram que não havia nada mais
pelo que lutar: "Depois da solução
definitiva dos problemas resultantes do colapso do estado polonês, servirá
ao verdadeiro interesse de todos os povos pôr fim ao estado de guerra
existente entre a Alemanha, a Inglaterra e a França." Assim, Ribbentrop e
Molotov foram os porta-vozes de Hitler. Era uma oferta inútil de paz, nada
mais do que um arremedo de boas intenções. Como vimos, Hitler já declarara
secretamente ao Alto-Comando a determinação de esmagar a Rússia. Certamente,
a paz no Ocidente teria servido àquela finalidade e tentar alcançá-la era um
movimento politicamente sensato, já que dava a impressão de que as suas
exigências territoriais realmente haviam terminado e de que a Alemanha era
antes vítima do que agressora. "Oferta de Paz de Hitler - Nenhuma
Intenção Bélica Contra Grã-Bretanha e França - Redução de Armamentos -
Conferência de Paz" - bradavam as manchetes do Völkischer Beobachier; e
quando Chamberlain e Daladier recusaram a oferta vazia, a manchete, mais
gritantemente ainda, anunciou: "Grã-Bretanha Prefere a Guerra". Mas
tais aberturas não passavam de tentativas de autodefesa. Agora que elas
tinham sido recusadas, Hitler podia perseguir seus desígnios maiores. "Estou decidido a
agir agressivamente e sem muita demora", disse ele na Diretiva n° 6, de
9 de outubro. A Rússia, acalmada com um pacto de paz e comércio, com os
países bálticos e com metade da Polônia como prêmio material, podia esperar,
enquanto a Alemanha "se entendia" com a Europa Ocidental. Estrategicamente,
Grã-Bretanha e França haviam favorecido os planos de Hitler. Grande parte do
enorme exército francês estava agachada na "Linha Maginot"; a
Força Expedicionária Britânica, comandada por Lorde Gort, chegara
tardiamente à França, durante o outono e o inverno. Os dois aliados haviam-se
metido numa posição de comprometimento com o tratado para ajudar a Polônia.
Agora, com esta vencida, eles estavam pensando sombriamente no que fazer em
seguida. Com mais de 100 divisões francesas espalhadas pela França e com a
força efetiva de Hitler concentrada na Polônia durante todo o mês de
setembro e boa parte de outubro, os Aliados pararam para considerar seu plano
de ação, se é que havia algum (19). (19) Segundo os
depoimentos feitos a Liddell Hart, após a guerra, por Rundstedt, Brauchitsch
e outros generais alemães, uma invasão anglo-francesa da Alemanha durante a
campanha da Polônia teria sido esmagadora. Um simples fato, entre muitos
outros estarrecedores: não havia na Alemanha munição de infantaria para mais
de duas semanas de campanha. A de artilharia era ainda mais escassa, apesar
dos retumbantes espetáculos demonstrativos de poderio militar encenados por
Hitler. À Alemanha de 1939 aplica-se com propriedade o que foi dito da
Itália por um historiador: "Era uma loja com todo o estoque nas
vitrinas". Hitler não ficou pensando
no que fazer a seguir. Convenientemente para ele, parte da Força Britânica
cruzou o Rio Lys, ao longo da fronteira franco-belga. Assim, já havia uma
desculpa para invadir a França, a fim de "impedir a nítida intenção das
forças britânicas e francesas de invadir os Países Baixos" - um golpe
tipicamente hitlerista. Seus generais, cientes da
sua fraqueza militar por toda a parte, exceto na Polônia, e novamente
apoiando sua estratégia naquilo que Hitler considerava "noções
obsoletas e fracas", não viam sentido em estender uma guerra que podia
muito bem ser concluída triunfalmente com um compromisso, se o inimigo
defensivo franco-britânico não fosse obrigado a entrar em ação. Eles apresentaram
uma desculpa após outra para a inação: a iminência do inverno, a
inexpugnabilidade da "Linha Maginot", dúvidas de que as forças na
Polônia pudessem ser reequipadas e transferidas para o Ocidente, as imensas
perdas que se teria de enfrentar... É certo que suas desculpas se baseavam em
raciocínio militar convencional; mas também havia uma desconfiança
subjacente na liderança do seu Führer. Sua desumanidade fora expressada com
demasiada freqüência em formas extremas de violência para com os que se
opunham a ele - como o expurgo de 1934. A desconfiança levava a planos
conspiratórios contra sua vida. Um deles pareceu chegar à beira do sucesso,
quando uma bomba explodiu num salão em Munique, onde ele falava, a 8 de
outubro de 1939, mas não passava de uma trama cuidadosamente preparada pela
Gestapo para lhe permitir dizer: "Agora tenho certeza! O fato de que saí
do salão antes que a bomba comunista explodisse é uma confirmação de que a
Providência quer que eu atinja minha meta" (20). A Providência, é óbvio,
não queria nada disso; mas a oposição entre os generais consolidou-se pelo
acontecimento. Já então Hitler ordenara que o ataque do Ocidente devia
começar a 12 de novembro. (20) Hitler com freqüência
mencionava a Providência (Fügung) que, se o tinha guindado à testa da nação
germânica, era para levá-la a altos destinos, e o haveria de proteger. Para o
ateu Hitler (que, como bom político, nunca confessava seu ateísmo), essa
"Providência" não é misteriosa; trata-se da simples superstição dos
inseguros. Porém, isso não aconteceu.
O Führer era bastante astuto para se permitir aceitar o conselho do seu
Comandante-Chefe do exército, Walter von Brauchitsch, e de Franz Halder, seu
Chefe do Estado-Maior, para que adiasse o ataque por causa do inverno. Ele
viu que, assim fazendo, poderia mais tarde atirar-lhes ao rosto a pecha de
incompetência e justificar sua recusa em continuar sendo influenciado por
eles. Embora pretendesse aceitar seu conselho, um ataque de inverno no
Ocidente não estava de acordo com sua intuição, apesar da urgência com que
apressara seus preparativos. Sua megalomania ganhara intensidade, com o
grande sucesso na Polônia. Ele estava decidido a assistir a outra derrocada.
E, com a Grã-Bretanh ainda se preparando apressadamente para a guerra, não
poderia haver surpresa. Os militares britânicos de linha, os do exército
territorial e os convocados, ainda careciam de armas e equipamento, quando se
declarou a guerra. A medida que chegavam à França e tomavam posição
defensiva ao longo da "Linha Maginot" e da fronteira belga, era evidente
para Hitler que dificilmente mereceriam o esforço de um ataque total. Mas,
na Grã-Bretanha, a convocação e o treinamento estavam progredindo mais ou
menos regularmente e a produção de material bélico tomava impulso. Na primavera
haveria no continente europeu uma força britânica digna de ser derrotada.
Hitler podia dar-se ao luxo de esperar. "Pode custar-me um milhão de
homens", disse ele a Ernst Weizäcket, Secretário do Ministério das
Relações Exteriores, "mas custará o mesmo ao inimigo - e ele não pode
resistir a isso". Entrementes, seus golpes
mais eficazes podiam ser assestados contra o poderio marítimo; assim, durante
todo o inverno de 1939-40 - o período que, por falta de atividade, passou a
ser chamado de "a guerra falsa" - quem lutou foi a marinha. O
couraçado-de-bolso Graf Spee afundou nove navios mercantes ingleses antes de
ser empenhado em batalha, a 13 de dezembro, e perseguido até o Rio da Prata,
onde o seu comandante o meteu a pique. Anteriormente, os submarinos alemães
haviam afundado o couraçado Royal Oak em Scapa Flow e o cruzador mercante armado,
Rawalpindi, fora afundado numa batalha contra o Scharnhorst e o Gneisenau.
Mas mesmo no mar não houve embates espetaculares. "Parece que a
capitulação da Polônia havia posto os dois lados em horrorizada
inanidade", disse um dos jornais neutros da República Irlandesa com
surpreendente credulidade e semântica duvidosa. A "inanidade" de
Hitler não era de modo algum horrorizada, tampouco era inanidade. Ele estava
planejando cuidadosamente uma operação que considerava essencial para que as
potências ocidentais fossem completamente derrotadas - a invasão da Noruega. Esse plano é um dos
exemplos notáveis da sua habilidade de estrategista. O controle da longa
costa norueguesa, com seus inumeráveis ancoradouros e fiordes, lhe daria
bases navais e aéreas para ataques às rotas marítimas aliadas no Atlântico
Norte. Para neutralizar esses ataques, as forças navais e aéreas britânicas e
francesas teriam de ser retiradas de outras áreas vitais - por exemplo, do
Mediterrâneo e do Mar do Norte; e Hitler estava particularmente interessado
na vulnerabilidade do Mediterrâneo, já que seu domínio representava a
abertura de uma porta para as possessões francesas na África do Norte. Também
se devia considerar a grande vantagem material da obtenção do controle da
imensa produção de minério de ferro da Noruega. Negada ao inimigo, a falta
desse produto vital poderia fazer uma diferença importante para a sua
fabricação de armamentos. Hitler afirmava que a
concepção da campanha norueguesa era sua. É verdade que o Almirante Raeder
sugerira, numa conferência a 10 de outubro de 1939, que a captura de bases
norueguesas lhe permitiria desafiar a supremacia naval britânica; mas "o
Führer rejeitou furiosamente a sugestão" - uma reação psicologicamente
justificada. Ele estava reagindo caracteristicamente à tentativa de um dos membros
do seu Alto-Comando de lhe roubar uma idéia notável. Era uma idéia brilhante
e Hitler sabia disso, não pretendendo deixar que qualquer crédito pela sua
realização lhe escapasse. Portanto, rejeitar furiosamente a sugestão de
Reader era apenas uma imposição da sua vaidade, que não admitia que lhe
negassem a paternidade de qualquer idéia brilhante. "Antes de me tornar
Chanceler", dissera ele para justificar a usurpação do poder supremo,
"eu pensava que o Estado-Maior era como um mastim que se tem de segurar
com firmeza pela coleira porque ameaça toda gente. Desde estão, passei a
reconhecer que ele não e nada disso. Ele tem sistematicamente tentado impedir toda ação que julgo necessária.
Sou eu quem sempre tem de açular esse mastim." Por enquanto, o
Estado-Maior ficou inteiramente às escuras sobre a operação norueguesa, já
que ele dificilmente poderia rejeitar a sugestão de Raeder e deis parecer
adotá-la. Aliás era desnecessário informá-lo. "Por que devo desmralizar
meu inimigo por meios militares se posso faze-lo muito melhor e mais barato
de outras maneiras?" escrevera Hitler no Mein Kampf. As "outras
maneiras" eram, no caso da Noruega, o estabelecimento da Quinta Coluna
de simpatizantes nazistas de Vidkun Quisling (21). O General Fuller disse que
"Hitler sabia que, num país democrático, um exército é praticamente
inútil se o povo simpatizar com o inimigo... razão por que os governos
autocráticos organizam sempre dois exércitos, um para combater um possível
inimigo, e outro para controlar o povo." (21) A Quinta Coluna,
expressão corrente durante a guerra, era o conjunto de simpatizantes,
espiões, traidores, inocentes úteis e sabotadores, que solapava o moral, criava
boatos, interferia nas comunicações, lançava a confusão geral, sabotando o
esforço de guerra e mesmo as operações de campanha na retaguarda dos
exércitos. A expressão originou-se na guerra civil espanhola, quando um
general que comandava quatro colunas contra uma cidade afirmou que ela seria
realmente tomada por uma Quinta Coluna, oculta em seu interior. Vários
generais e várias ocasiões são indicados como originando a expressão. O
estranho é que os historiadores jamais descobriram tal general; todas as
indicações já foram positivamente eliminadas. Quisling, como Hitler, era
um rancoroso e temível inimigo do comunismo e, por assim dizer, prostara-se
perante o líder alemão. Suas mesuras não eram desinteressadas. Esperava ser
um dia o Führer da Noruega. O partido que formara para segui-lo, que chamou
de Nasjonal Samling (Unidade Nacional), fora desdenhosamente tratado pelo
eleitorado e só recebeu dois por cento dos votos, e nenhuma cadeira no
parlamento. Secretamente desanimado por essa reação, ele, porém, usou das suas
ligações no exército - era major e fora Adido Militar em Moscou - para
divulgar as idéias nazistas entre as forças armadas. Essas tentativas tiveram
êxito considerável: a insistência incessante de Hitler nas virtudes militares
das raças nórdicas não deixou de ter seu efeito de propaganda. Assim, quando a guerra
começou, Quisling foi ao encontro de Hitler em Berchtesgaden para discutir os
assuntos da Sociedade Tule, uma organização que usava a mitologia nórdica
para disfarçar suas atividades políticas sub-reptícias (ver nota 3). Os
assuntos discutidos nessa ocasião foram as táticas do Nasjonal Samling. O
próprio Hitler redigiu as metas daquele partido. Eram elas: restringir o
poderio naval britânico pelo estabelecimento de bases navais e aéreas na costa
ocidental da Noruega; opor-se às comunicações marítimas entre a Grã-Bretanha
e a Rússia Setentrional; abrir o Mar do Norte e o Atlântico para a frota
alemã e garantir a rota marítima para o transporte de minério de ferro para a
Alemanha. A ajuda de Quisling nessas atividades secretas seria recompensada
com a liderança do governo norueguês, tão logo a invasão alemã se mostrasse
bem sucedida. A recompensa final de Quisling seria a apresentação do
memorando de Hitler como prova contra ele, em seu julgamento em Oslo, por
traição, em outubro de 1945. Depois de muita troca de
lisonjas, Führer e semi-Führer despediram-se. Hitler vislumbrara nesse novo
capanga traços de megalomania. Era de virulência inferior à sua e, portanto,
poderia ser transformada em subserviência; mas devia ser vigiado.
"Quisling", disse Hitler mais tarde a Himmler, "deve ser
desacreditado tão logo tenha servido à sua finalidade. Em nenhuma circunstância
devemos permitir-lhe poderes absolutos". Mas, a cenoura estava adiante
do burro - um "burro de Tróia" a quem se poderia entregar com
segurança a tarefa da organização de metade da batalha pela Noruega. Assim, à parte a
relutância de Hitler em permitir que qualquer poder estratégico caísse nas
mãos do seu Estado-Maior, tal coisa não foi necessária no caso da campanha
norueguesa. Tudo o que se precisava na Alemanha era o treinamento intensivo
de tropas austríacas em guerra de montanha, o que foi feito imediatamente.
Seu comandante, o General von Falkenhorst, recebeu apenas noções muito
imprecisas sobre o local da sua próxima expedição - porém, como soldado
experimentado que era, de pouco mais do que isso precisava. Hitler continuava
prevaricando e a parecer deixar-se influenciar pelo Alto-Comando e pelo
Estado-Maior, cujo conselho insistente era no sentido de adiar o ataque no
Ocidente. Nesse meio tempo, os
russos invadiram a Finlândia, lançando no ataque uma volumosa massa humana
com a qual pensavam, alegremente, fazer curvar aquele pequenino país em
poucos dias e dar ao seu poderoso conquistador o porto de Hangö, para a base
naval que os russos queriam montar a todo custo. Mas não foi uma conquista fácil.
Embora os russos fossem numericamente superiores - eles tinham 100 divisões
contra as 3 finlandesas - foram incrivelmente incompetentes em organização
e estratégia. A resistência dos finlandeses - conduzidos pelo Feldmarechal
Mannerheim - manteve o inimigo em cheque de 30 de novembro de 1939 a 10 de
março de 1940, infligindo sérias baixas às forças russas. No final, foi simplesmente
a força bruta, o lançamento na batalha de centenas de milhares de soldados e
aviadores russos, que fez a Finlândia render-se às tropas do Marechal
Timoshenko. O triunfo foi orgulhosamente alardeado pelo Pravda, o órgão do
partido, mas era evidente que o moral russo fora reduzido quase a zero por
uma campanha que se prolongara, dos 3 dias programados, por mais de três
meses, devido à resistência que os finlandeses opuseram aos invasores, apesar
da enorme diferença de força. Isso ficou mais claro para
Hitler do que para qualquer outro. Pensando na sua declarada intenção de
"esmagar a União Soviética", ele confidenciou com Keitel, seu Chefe
do Estado-Maior, que "a derrota moral da Rússia comunista para um país
pequenino como a Finlândia prova, inequivocamente, que ela não tem chance
alguma contra o poderio organizado do Reich". Nas circunstâncias, era
um julgamento sensato. Mas, como descobriria por experiência própria, ele
não levara em conta o fato de que as melhores lições são aprendidas nas
derrotas, e não nas vitórias. Os russos aprenderam a sua na Finlândia. O período da "guerra
falsa" terminou em abril de 1940, com o sucesso rápido e completo da
invasão norueguesa. Os métodos de Quinta Coluna de Quisling revelaram-se
inestimáveis. Seus traidores ocuparam Oslo e ajudaram as tropas
aeroterrestres alemãs que saltaram na capital. As tropas que vieram por mar
foram transportadas escondidas nos porões de navios mercantes que se dirigiam
do Kattegat para Oslo, para completar a ocupação daquela cidade. A Dinamarca
foi invadida no mesmo dia (9 de abril) e capitulou sem resistência, tendo
recebido a promessa de Hitler de que sua independência política seria
respeitada. (Desnecessário dizer que não foi.) Ao anoitecer, todos os
pontos-chave da Noruega - Oslo, Kristiansund, Trondheim, Bergen e Stavanger
- estavam nas mãos de Falkenhorst. Na Grã-Bretanha, muitos
encararam a campanha como um ato de loucura. Churchill - na época Primeiro
Lorde do Almirantado - disse: "Considero a atitude de Hitler, em invadir
a Escandinávia, um erro estratégico e político tão grande quanto o cometido
por Napoleão em 1807, quando invadiu a Espanha... Acho que temos uma grande
vantagem com o ocorrido, contanto que aproveitemos ao máximo o erro estratégico
que o nosso mortal inimigo foi levado a cometer." Longe de aproveitar ao
máximo a ocasião, atrasos e confusões resultaram apenas na tentativa heróica,
mas inútil, de arrancar o poder dos alemães mediante ataques marítimos e
aéreos combinados contra os portos de Trondheim, Aandalsnes, Narvik e Namos.
Estes só começaram a 15 de abril, quando já então o inimigo estava firmemente
estabelecido em todos os pontos-chave. De qualquer modo, os esforços das
forças naval e aérea foram tão mal integrados que o desembarque de tropas nos
fiordes não pôde ser feito com rapidez suficiente e os caças britânicos não
podiam enfrentar os bombardeiros germânicos, porque todos os aeródromos
estavam em mãos alemães. (Um projeto aloucado de se aterrissar uma
esquadrilha de aviões num lago congelado próximo de Dombaas resultou na sua
inevitável destruição.) Estando a tentativa condenada desde o começo, o
Supremo-Conselho de Guerra Aliado sacudiu-se e decidiu retirar todas as
tropas da Noruega central a 27 de abril, deixando um punhado no norte, para
fustigar Narvik. A conduta lamentável da
campanha na Noruega resultou na expressão da opinião de todo o país, quando
L. S. Amery citou no Parlamento britânico as palavras de Cromwell perante o
Long Parliament (22): "Haveis ficado aqui por tempo demasiado para
qualquer coisa boa que tenhais feito. Ide, digo-vos, e nada mais tenhamos
convosco. Em nome de Deus, ide-vos!" Dois dias depois, Chamberlain
demitiu-se e Churchill tornou-se Primeiro-Ministro. Pelo menos isso fora
alcançado. (22) O Parlamento Longo,
que se reuniu em Londres em 1640, foi dissolvido por Cromwell em 1653,
reconvocado em 1659 e novamente dissolvido em 1660, na restauração da
monarquia. Agora, tornava-se claro
que, longe de ser um ato de loucura, o primeiro golpe de Hitler, desde a
declaração da guerra contra a Dinamarca e a Noruega, fora perfeitamente
sincronizado, pois foi seguido quase que imediatamente pelo segundo.
"Amanheceu o dia 10 de maio", registrou Churchill em sua História
da Guerra, "e com ele veio a tremenda notícia. Caixas com telegramas
despejavam-se do Almirantado, do Ministério da Guerra e do Foreign Office.
Os alemães haviam desfechado seu golpe há muito esperado. Holanda e Bélgica
foram invadidas. Suas fronteiras foram cruzadas em numerosos pontos. Todo o
movimento do exército alemão para a invasão dos Países Baixos e da França
tivera início". A
"justificativa" de Hitler para despejar seus exércitos na Bélgica.
e na Holanda foi, como da vez anterior, "impedir a clara intenção da
Grã-Bretanha e da França de invadir território indefeso". Seu
sincronismo continuou sendo perfeito. Havia agora na França uma Força
Expedicionária Britânica digna de ser atacada e que consistia de sete
regimentos de tanques leves, um regimento de antiquados carros blindados,
dois batalhões de tanques de infantaria (o "armamento" de tais
tanques era uma única metralhadora) e treze divisões de infantaria, das quais
não se podia contar com três, que não tinham nenhuma artilharia para
apoiá-las, e contavam apenas com uns restos de transportes para sua
locomoção. Todo o apoio aéreo da Força Expedicionária Britânica consistia de
uma brigada de caças e uma de bombardeiros da Real Força Aérea e suas linhas
de comunicação eram excessivamente longas, estendendo-se até Le Havre, Brest
e Nantes. A qualidade de combate da Força residia quase que inteiramente nos
seus homens. Seus blindados eram excessivamente frágeis para as armas que
deveriam enfrentar; ela era mal-equipada e vulnerável a ataque aéreo.
Entretanto, apesar de sua fraqueza, sua derrota seria um duro golpe para os
Aliados. Hitler também tinha de
enfrentar os exércitos franceses, como bem sabia. Havia 102 divisões.
Quarenta delas estendendo-se do Canal da Mancha à Linha Maginot; 26 estavam
na própria "Linha" e 36 estavam alinhadas diante dos Alpes
Marítimos. Naturalmente, elas sempre estiveram ali, sendo um total mistério
para o Estado-Maior alemão o fato de não se tê-las movido desde o começo da
Guerra. O General Siegfried Westphal diz, em The German Army
in the West: "Todo perito que
naquela época (setembro de 1939) servia no Exército Ocidental ficava
arrepiado em pensar na possibilidade de um ataque francês imediato. Era
incompreensível que tal não acontecesse e que a espantosa fraqueza da defesa
alemã fosse desconhecida dos líderes franceses. Se estes tivessem lançado o
peso das suas forças numa ofensiva em setembro de 1939, quando da campanha
polonesa, teriam alcançado o Reno em duas semanas. As forças alemães
imediatamente disponíveis no Ocidente eram fracas demais para bloquear um
assalto francês, ou mesmo para ameaçar seriamente os flancos da cunha de
ataque. Naturalmente, unidades teriam de ser rapidamente transferidas da
Polônia para o Ocidente, mas, porém, as forças aéreas francesa e britânica
danificariam as linhas de comunicação dentro da Alemanha o bastante para
atrasar toda essa movimentação. O tema dos exercícios do EstadoMaior... era
o rechaço a um ataque francês pelo exército alemão, partes do qual tinham de
ser retidas no Leste, por causa da Polônia. Nesses exercícios, os franceses
rompiam o estreito espaço de menos de 200 quilômetros entre o Mosela e o
Reno, prosseguiam ao longo da margem norte do Mosela e, finalmente, cruzavam
o Alto Reno, na região de Karlsruhe. Em cada caso, eles teriam conseguido
penetrar até o Reno no decorrer de poucas semanas, embora se admitisse que um
número muito maior de divisões e, em particular, a maioria das ativas, estava
participando da defesa alemã." Embora fosse
incompreensível para o Estado-Maior alemão que não tivesse havido nenhum
ataque Aliado em setembro de 1939, isso não era mistério para Hitler. Ele
observara com desdém os exercícios baseados na premissa de uma penetração
francesa em Karlsruhe e observara para Jodl, chefe do Estado-Maior da
Wehrmacht: "Os franceses estavam obsedados pela defesa em 1920; ainda
estão. Eles são como um coelho enfrentando um arminho; ficam imóveis de
medo." Hitler achava que seu
próprio exército era fatalmente convencional. "Tenho o maior desprezo
pela ortodoxia quando ela só pode resultar em idéias fracas. O Estado-Maior
se estrangulará com a sua ortodoxia." Hitler estivera disposto a
deixá-lo fazer isso, entre o outono de 1939 e a primavera de 1940, aceitando
suas desculpas para adiar o ataque no Ocidente com mal disfarçada tranqüilidade
que apenas mascarava o receio de que sua intuição sobre a irresolução dos
franceses estivesse errada. Mas não estava. "O lado que fica dentro das
suas fortificações é vencido." Agora que ele garantira a Noruega com um
golpe impecavelmente realizado; que os franceses haviam demonstrado ser frouxos
e estúpidos, e que os ingleses, como de costume, haviam feito sua Força
Expedicionária percorrer a França com grande cuidado e sem nenhum objetivo
aparente - agora era o momento de desencadear o plano que traçara durante
todo o inverno. Daí a avalancha de despachos que espantara Churchill - e,
aparentemente, todo o mundo - na manhã de 10 de maio. Havia dois Comandos entre
Hitler e suas forças: o seu, o OKW, Supremo-Comando de todas as Forças
Armadas, e o OKH, o Alto-Comando comum do Exército. Este último era o
computador que elaborava os detalhes dos seus grandes projetos. Como Hitler
dissera, o piano original do OKH para o ataque no Ocidente não era inspirado.
Ele repetiria a ação alemã de 1914 - o Plano Schlieffen - com um movimento
impetuoso de flanco direito pela Bélgica e Holanda, um centro oposto às
Ardenas e um flanco esquerdo defrontando o que era agora a "Linha
Maginot". O resultado teria sido inteiramente previsível, já que os franceses
também estariam pensando em termos da Primeira Guerra Mundial - na verdade,
por assim dizer, haviam baseado seu plano naquele exato método de ataque. O General von Manstein,
Chefe do Estado-Maior do Feldmarechal von Rundstedt, elaborou um plano
alternativo. Ele achava que o ataque principal devia ser feito pelas Ardenas,
já que estas eram fracamente defendidas - os franceses acreditavam serem
elas muito cheias de bosques para permitir a operação de tanques. Hitler viu
de imediato as possibilidades desse plano, mas, como aconteceu com a
proposta do almirante Raeder para a Noruega, não tinha intenção de parecer
maleável nas mãos dos seus generais. Só em fevereiro ele permitiu deixar-se
"persuadir"; mas daí em diante levou o Plano Manstein implacavelmente
à frente, diante da oposição que o OKH fazia, alegando ser arriscado demais.
Hitler não só ordenou a execução do plano como também - repetindo seu
comportamento com Raeder - adotou-o como seu. "Meu plano resultará numa
vitória-relâmpago", disse ele a Halder, na conferência da manhã de 9 de
maio, quando foi dada a ordem definitiva para iniciar o ataque. Houvera
dezesseis ordens e contra-ordens anteriores. Dificilmente pode-se dizer
que seu otimismo era injustificado. Ao entardecer do dia 10, a Holanda foi
invadida. "Os ministros holandeses estavam na minha sala", escreve
Churchill, "pálidos e cansados, com o horror nos olhos. Eles haviam
chegado de avião, vindos de Amsterdam. Seu país fora atacado sem o menor
pretexto e sem aviso. A avalancha de fogo e aço despejara-se pelas
fronteiras e, quando os guardas da fronteira holandesa abriram fogo,
iniciando a resistência, houve um ataque aéreo avassalador. Todo o país
estava em estado de total confusão. O plano de defesa há muito preparado foi
posto em ação; abriram-se os diques e a água inundou tudo, mas os alemães já
haviam cruzado as linhas externas e agora percorriam as margens do Reno,
cruzando as defesas internas de Gravelines". Dois dias depois, o ataque
principal - 42 divisões, incluindo uma coluna blindada de mais de 160
quilômetros de comprimento - cruzaram as Ardenas e a fronteira francesa,
atravessando o rio Mosa no dia 13. Seu avanço foi fenomenalmente rápido. Não
havia virtualmente nada para enfrentá-lo, exceto umas duas divisões francesas
de segunda categoria, reservistas idosos, mais ou menos imobilizados pela
falta de transporte, que tinham apenas um canhão antitanque para cada
quilômetro de linha de frente. Ao longo de toda a linha Louvain - Namur -
Pinant - Sedan, onde o resto do Nono Exército francês se postara,
desenvolveu-se uma batalha em que as tropas francesas foram liquidadas pelos
tanques do General von Kleist em seu avanço, e pelos bombardeios de mergulho
terrivelmente eficazes dos Stukas de Göring. O General Gamelin, Comandante-Chefe
de todos os exércitos aliados, enviou uma dramática, mensagem a Churchill:
"Estou alarmado ante a velocidade e o poderio do avanço do exército
inimigo". Tinha razão de estar alarmado. Seu "Plano D" fora
projetado para enfrentar um ataque alemão em setembro de 1939, quando o
grosso do exército germânico estava empenhado na Polônia. O plano em nada
fora alterado nos oito meses que se passaram desde então, apesar das
freqüentes observações dos Chefes de Estado-Maior britânicos, de que o exército
alemão ganhava poderio a cada dia que passava, e que suas táticas não seriam
necessariamente as de 1914. Gamelin, envelhecido e desatualizado, não tinha
mais como enfrentar uma tarefa daquela envergadura. Deveria ter passado, logo
no início do conflito, o comando dos exércitos franceses e britânicos ao
General Georges. Contudo, são suportava a idéia de abrir mão do cargo.
Entretanto, quando suas medidas vacilantes deram como resultado o desastre
que se abria diante de seus olhos, apelava para Churchill, pedindo ajuda -
"Mais dez esquadrões de caças." Churchill não tinha caças
para lhe dar. Na manhã do dia 15, o Primeiro Ministro francês, Paul Reynaud,
telefonou-lhe em tom recriminador: "Fomos derrotados. Estamos vencidos.
Perdemos a batalha." Churchill não podia acreditar. Prometeu voar até
Paris e conversar, tal como um pai que conforta o filho apavorado durante
uma tempestade. Chegou ao Quai d'Orsay às 17:30 daquele mesmo dia. Suas
primeiras palavras para Gamelin, depois de ouvir um relato da situação e de
compreender a sinistra importância da penetração das Ardenas, foram:
"Onde está a reserva estratégica?" Ao que Gamelin respondeu que não
tinha. Pensando que ele não compreendera a pergunta, Churchill indagou em
francês: "Ou est Ia masse de manoeuvre?" E Gamelin respondeu novamente:
"Aucune" (23). (23) Entretanto, havia
mais de 40 divisões de campanha destacadas ao longo da "Linha
Maginot", além de sua guarnição normal. A "Linha" realizara
plenamente seu papel, economizar tropas, mas Gamelin demonstrou ignorância e
incapacidade. Suas "Memórias" são um monumento à defesa do
indefensável, onde ele manifesta seu maior cuidado em "não dar ordens,
para não ofender seus subordinados". A todas as indagações de seu
governo, respondia: "Perguntem a Georges" (Comandante-Chefe da
Frente Norte). Este, como alma-irmã, repetia: "Perguntem a
Billotte" (Comandante do 1º Grupo de Exército). E a resposta do pobre
Billotte era: "Ainda não recebi instruções". Agora era a vez de
Churchill ficar estarrecido. "O que poderíamos pensar do grande exército
francês e dos seus mais altos chefes? Nunca me ocorrera que qualquer
comandante que tivesse de defender 800 quilômetros de frente de batalha não
se prevenisse com uma reserva estratégica. Ninguém pode defender com segurança
uma frente tão extensa; mas quando o inimigo se compromete num ataque que
rompe a linha de defesa, sempre se tem, deve-se sempre ter, um grupo de
divisões que se loconova em vigoroso contra-ataque assim que a primeira
arremetida parece perder força. "Para que servia a
'Linha Maginot'? Ele deveria ter economizado tropas numa grande parte da
fronteira, não só oferecendo muitas portas falsas para contragolpes locais,
como também permitindo que se mantivessem maiores forças de reserva; e esta
é a única maneira de se agir. Mas agora não havia reserva alguma. Reconheço
que esta foi uma das maiores surpresas da minha vida. Por que não soubera
mais a respeito, muito embora estivesse tão ocupado no Almirantado? Por que o
governo britânico, e sobretudo o Ministério da Guerra, não soubera mais a
respeito?" Churchill tinha razão para
essas perguntas. Dois anos mais tarde, o mesmo Churchill, espantado,
perguntaria a mesma coisa sobre a falta de defesas em Cingapura. Nos dois
casos, a resposta simples era que ele julgara, erroneamente, que os
responsáveis eram aptos para seus cargos. A profecia de Hitler de
uma vitória-relâmpago se cumpriu. Dentro de um mês, o tremendo ímpeto do
avanço alemão resultara, seriatim, na rendição da Holanda; na rendição da
Bélgica; na evacuação de Dunquerque, de 337.131 homens da Força
Expedicionária Britânica e do exército francês que haviam caído no cerco
entre as forças de von Rundstedt, que avançavam do Sul, e as do General von
Bock, que avançavam do Norte; e a ocupação alemã de Paris. O governo francês
fugiu para Bordeaux a 14 de junho. O idoso Marechal Pétain substituiu Reynaud
como chefe do governo e sua tarefa imediata foi buscar um armistício. Era o
fim da Terceira República. O Führer manobrou o
armistício com um toque de malicioso drama, ordenando que fosse assinado no
famoso carro-salão ferroviário onde se assinara o armistício de 1918. O carro
era uma peça de museu e estava em Réthondes, na Floresta de Compiègne, ao
lado de uma pedra gravada com o terrível memorial: "Aqui, a onze de
novembro de 1918, sucumbiu o criminoso orgulho do império alemão, vencido
pelos povos livres que tentou escravizar." William Shirer, o
correspondente de guerra que estava presente, diz: "Impor um armistício
nesse local histórico era a doce vingança de um homem que fora humilde cabo
no exército que fora obrigado a entregar-se em 1918 e que não ocultava seus
sentimentos. Estando a pouca distância dele, eu via-lhe o rosto iluminar-se,
sucessivamente, de ódio, de desprezo, de triunfo..." Durante alguns momentos
ele assim ficou no vagão; depois saiu para a clareira ensolarada, deixando
para Keitel a tarefa de ler o preâmbulo da declaração - uma declaração que o
próprio Hitler redigiu e que devia "apagar para sempre, por um ato de
justiça reparativa, uma lembrança... de que o povo alemão se ressentia como a
maior vergonha de todos os tempos". Para que não se pense que
Hitler observou tudo isso com fria calma ou com um sorriso tranqüilo,
enquanto seus exércitos varriam a Europa, que se corrija de imediato essa
impressão. Hitler não era nenhum Wellington, embora, tal como sucedia com o
Vencedor de Waterloo, os chefes de seu exército até agora se tivessem
revelado melhores que seus adversários. Mas Hitler não transmitia nenhuma
qualidade a seus generais. Tampouco ele encorajava a sua tolerância. Durante toda a sua infame
carreira, desde um joão-ninguém ate Führer do Terceiro Reich, sempre houve
cenas tempestuosas toda vez que as coisas saíam mal ou quando seus generais o
contrariavam em suas propostas, e muitas vezes também quando não o contrariavam.
Sua petulância era freqüentemente disfarçada por uma untuosidade enganadora -
"o sorriso na cara do tigre" - quando planejava eliminar alguém que
lhe ameaçasse solapar a autoridade. Ele convidara Rohm para o chá, na tarde
de 4 de junho de 1934, e fora "excessivamente alegre e amistoso"
enquanto planejava o expurgo do dia 30, quando aquele foi fuzilado depois de
receber uma carta do Führer agradecendo-lhe os "serviços imperecíveis".
Mas todos os seus generais testemunham, em seus diários e em outros
registros, as cenas de fúria que com tanta freqüência formavam o pano de
fundo das "conferências" em que se propunham os planos de guerra.
Halder, por exemplo, a 18 de maio de 1940: "O Führer continua
preocupando-se com o flanco sul. Ele berra que estamos arruinando toda a
campanha. Diz que não terá nada que ver com o prosseguimento da operação numa
direção ocidental." E, anteriormente,
Weizäcker, na véspera da guerra: "Tornou-se cada vez
mais excitado e começou a agitar os braços e gritou no meu rosto: "Se a Inglaterra quer
lutar por um ano, lutarei por um ano; se a Inglaterra que lutar por dois
anos, lutarei por dois anos." Fez uma pausa e berrou mais alto ainda,
agitando-se loucamente: "Se a Inglaterra quer lutar por três anos,
lutarei por três anos." Os movimentos do seu corpo começaram a acompanhar
os dos braços, e quando finalmente berrou: "E, se necessário, lutarei por
dez anos", ele sacudiu o punho e se dobrou de tal forma que quase tocou
o chão. A situação era extremamente embaraçosa, aliás tão embaraçosa que
Görin reagiu ao vexame que Hitler dava ao girar nos calcanhares, dando-nos as
costas." Aquele rompante - muito
típico - era simplesmente a resposta de Hitler a uma sugestão que Weizäker
lhe fizera de que a Inglaterra talvez estivesse mais preparada para lutar do
que ele sugerira desdenhosamente. Também havia ocasiões em
que o espanto parecia dominá-lo, ao contemplar os resultados inevitáveis de
algumas operações, como se o destino lhe tivesse aplicado um golpe injusto.
Uma dessas ocasiões foi quando seu intérprete, Paul Schmidt, leu para ele o
ultimato britânico de 3 de setembro de 1939. Schmidt descreve: "Hitler estava à sua
mesa e Ribbentrop, de pé, junto à janela. Os dois ergueram o olhar em
expectativa quando entrei. Parei a certa distância da mesa de Hitler e
comecei a traduzir lentamente o ultimato. Quando terminei, o silêncio era
completo. Hitler quedava-se imóvel, com o olhar fixo. Evidentemente, estava
perplexo. Depois de certo tempo, que pareceu uma eternidade, voltou-se para
Ribbentrop, que continuava junto da janela. "E agora? - perguntou-lhe
com um olhar selvagem, como se sugerisse que seu Ministro do Exterior o
enganara sobre a provável reação da Inglaterra." Ao longo de toda a
documentação que comenta seu comportamento encontram-se provas da sua
instabilidade. Acentuavam-se os efeitos da moléstia que contraíra na
juventude, talvez por efeito das drogas que tomava para combatê-la, talvez
por força da ação do Spirochaeta pallida sobre seu córtice cerebral. "É
extraordinário", escreveu Goebbels em seu diário, em janeiro de 1940,
pondo inadvertidamente o dedo no âmago da questão, "o quanto o Führer
está-se tornando uma ampliação de si mesmo". É abundante a documentação
que dá conta da crescente instabilidade de Hitler, como também da sua ativa
determinação de interferir nos planos do Alto-Comando do Exército. Pode-se dizer
que só na campanha polonesa é que deixou que seus generais planejassem e
executassem minuciosamente uma conquista que se revelou triunfal. Talvez seu
triunfo fosse demais para ele. Desde o começo da campanha norueguesa, sua
megalomania forçou, como diz Westphal, um abismo entre ele e os líderes do
exército alemão que era absoluto e intransponível. Ele surgiu do sempre irreconciliável
conflito entre o raciocínio concreto e o abstrato, entre a objetividade
sóbria e a perseguição de fantasias, entre o cálculo lógico baseado em fatos
e a tentativa de obrigar os fatos a se adaptarem a desejos impossíveis... No
Terceiro Reich, o lema era "Morte para o perito, particularmente o
soldado". Não só Hitler como todo líder do Partido acreditavam ter um
julgamento mais sólido sobre todas as questões relativas à conduta da guerra
do que os líderes do exército." O General Westphal tem
direito a ser rancoroso. Ele era um oficial de estado-maior de grande
distinção, sob o comando de Rundstedt, Kesselring e Rommel e não era nenhum
reacionário. Ele viu Hitler fazer o sangue "correr em rios, sem
escrúpulos" e reconhecia seu medo tolo de deixar que o menor controle
lhe escapasse das mãos como outra manifestação da sua instabilidade. "Sua experiência era
a dos amadores. Durante algum tempo eles têm a sorte do principiante: mostram
estar certos onde os peritos estão errados; em sua audácia, realizam muito do
que os profissionais não poderiam ter feito, com a mesma rapidez e
facilidade. Mas então, na embriaguez do sucesso, perdem contato com a
realidade. Isso acontece em todas as atividades da vida, não sendo diferente
na arte da guerra. O militar leigo subestima a força do inimigo e dá valor
demais às suas próprias potencialidades. Ele vê as coisas não como são, mas
como gostaria que fossem. Afasta-se de todos os que são capazes de qualquer
admoestação, para que não lancem sombras em seu quadro róseo, e não quer
saber dos seus conselhos. Mas quando o amador não é um homem comum, cujo
absurdo em breve se torna aparente, mas um ser que tem o poder absoluto nas
mãos e que é acionado por impulsos demoníacos, a coisa é muito pior, pois,
com o passar do tempo, ele recusa até mesmo a verdade que outrora
reconhecia. O mesmo aconteceu com Hitler." Aqui existe uma dose de
incompreensão. Para o profissional, todos os que carecem de formação
ortodoxa são amadores. O "inato" é inaceitável e não se pode
confiar nas suas intuições. Se Hitler tivesse alcançado um comando na
Primeira Guerra Mundial, ele por assim dizer seria elegível para consideração
na hierarquia militar; se tal comando tivesse tido algum destaque, ele teria
sido aceitável. Portanto, as arengas de Hitler sobre a "Maçonaria"
do exército não eram de todo injustificadas. Até o início da segunda guerra,
a atividade militar, na Alemanha como na Inglaterra, sempre sofreu dos
efeitos da estrutura de classe - um efeito de alguns modos bom e, de outros,
desastroso - mas inextirpável. "Os soldados", disse Hitler a
Goebbels, certa feita, "aprendem sete princípios da guerra como credo.
Eles têm certeza de que, enquanto se mantiver em mente o objetivo, insistir
na ação ofensiva, surpreender o inimigo, economizar suas forças, tomar boas
medidas de segurança, cooperar com as formações em seus flancos e
concentrar-se na conquista, não podem perder. Eles se esquecem de que o
inimigo conhece a mesma fórmula. Esquecem-se que metade das batalhas pode ser
vencida antes de se disparar um só tiro. Esquecem-se do valor da arma
política." Mas, quando da queda da
França, Hitler já extraíra todas as vantagens possíveis da arma política.
Pelo truque, propaganda e diplomacia, ele garantira seus seguidores e
aliados. Mussolini, juntando sua bamboleante máquina bélica, aliara-se ao seu
companheiro de fascismo a 10 de junho de 1940. A nação alemã o apoiava - já
que a Gestapo, o campo de concentração e o pelotão de fuzilamento esperavam
os que hesitassem ou se afastassem do aprisco ideológico onde Hitler era o
guia. Ele não tinha nada mais a ganhar com o hipnotismo da sua presença em
reuniões como os comícios-monstros de Nuremberg. A argúcia do político
precisava ser temperada com a disciplina do soldado; mas esta não era uma
qualidade que se poderia extrair com facilidade de um homem da índole de
Hitler. Portanto, surge
naturalmente a pergunta sobre sua capacidade como líder militar. Era a sua
"intuição", a sua percepção psicológica das reações dos seu
adversários uma vantagem valiosa? Seu generais, levados ao desvario pela sua
interferência - a menos que não passassem virtualmente de repelentes
assistentes pessoais cheios de sabujice, como Jodl e Keitel - não lhe teriam
dado muito valor. Para os generais, as duras realidades das manobras
militares eram muito mais importantes do que qualquer avaliação do caráter
dos seus adversários. Para os militares, esta era uma ordem sensata de
prioridades. Contudo, não se seguia que fosse, ipso facto, a ordem certa.
Usado de maneira sensata o dom da intuição é de imenso valor para
suplementar, senão para instigar, um curso de ação. Mas uma séria falha estava
na incapacidade de Hitler de subjugar a intuição ao bom senso dos ditames da
ciência militar. Era um falha que teria efeitos fatais sobre sua liderança. O estrategista em declínio "O Espaço Vital da Alemanha está a Leste. Só será conquistado pela
guerra". - Hitler Antes de acompanharmos a
trajetória do Generalato de Hitler, do zênite ao nadir, é imperioso que
façamos um resumo e uma avaliação das suas realizações até aqui. Naturalmente, seu primeiro
passo para a conquista do poder militar foi a obtenção da suserania teórica
de todas as forças armadas, ao mesmo tempo que assumia cumulativamente os
cargos de Presidente e Chanceler, em agosto de 1934, quando da morte de
Hindenburg. (O cargo de Comandante-Supremo era inseparável do de Chefe de Estado,
na Alemanha o cargo presidencial.) Mas ele verificou que também recebera uma
casa de maribondos de forças disruptivas. Hitler estava ciente do espírito
reacionário do Corpo de Oficiais; vira muitos indícios de soturna objeção à
sua atitude para com a Igreja, à rapidez com que insistia no rearmamento e
no serviço militar obrigatório, aos movimentos perigosos como a reocupação
da Renânia e à infiltração dos métodos policiais de Himmler nas caras e
cavalheirescas tradições do Corpo. Mas havia outros pontos irritantes que,
segundo Hitler percebeu rapidamente, lhe seriam igualmente incômodos e dos
quais astutamente tirou partido tão logo se apresentaram as oportunidades. Em particular, os assuntos
pessoais do Feldmarechal Werner von Blomberg, Ministro da Guerra e
Comandante-Chefe de todas as Forças Armadas, e do Coronel-General Werner von
Fritsch, Comandante-Chefe do Exército, transformam-se no "Abre-te
Sésamo" no caminho do Führer pelo labirinto do poder. Blomberg era um homem
fraco, que só alcançara elevado posto no exército porque fazia subornos e se
ajoelhava na direção certa, no momento certo. Não tinha nenhuma habilidade
militar especial; insinuara-se no favor do Presidente Hindenburg e fora
nomeado Ministro da Guerra como condição para a nomeação de Hitler como
Chanceler em 1933. Hitler esperava que ele fosse um tormento constante; mas
aconteceu que, pela sua natureza vacilante, Blomberg foi um elo valioso entre
o Chanceler arrivista e o Corpo de Oficiais rigidamente tradicionalista. Em
1933, Hitler, totalmente incerto do seu controle do poder que alcançara
principalmente por acaso, cultivou astutamente as relações pessoais com
Blomberg, o homem que poderia desbastar o ressentimento do exército. Então, em fins de 1937,
Blomberg decidiu casar-se com sua secretária e a seu pedido Hitler foi seu
padrinho. Mas Himmler examinara o passado da noiva e a pesquisa se revelara
compensadora. Hesdrich, chefe do serviço de informações de Himmler,
apresentara um dossiê registrando 42 condenações por prostituição contra a
srta. Erna Gühn e mais divertido ainda foi o arquivo de fotografias
supostamente obscenas para as quais a noiva do Ministro da Guerra posara.
Himmler providenciou a divulgação subreptícia dessa interessante informação
e também levou-a à consideração de Hitler. O Führer, mostrando-se ofendido
com a indiscrição de Blomberg e com o seu aparente relacionamento com os
fatos escandalosos apurados, insistiu para que o Ministro da Guerra se
demitisse. Seu sucessor natural era o
Comandante-Chefe do Exército, Fritsch, mas os interesses a longo prazo de
Hitler e Himmler exigiam que se interrompesse a sucessão automática de
generais no Ministério da Guerra. Portanto, foi muito conveniente que a
Gestapo pudesse apresentar um dossiê ainda mais prejudicial contra Fritsch,
que o descrevia como homossexual. A Gestapo também apresentou um anormal que
fora subornado ou obrigado a identificar Fritsch como um antigo cliente. Tudo
isso era uma deslavada mentira (a prova, na verdade, referia-se a um Capitão
Frisch, da reserva, como Himmler e a Gestapo bem o sabiam), mas a atmosfera
que se criou tirou de Fritsch qualquer chance de provar a falsidade da
acusação. Foi licenciado e, embora fosse reabilitado por um Tribunal de
Honra, jamais foi reintegrado. Tendo assim eliminado dois
obstáculos, Hitler anunciou ao Gabinete, a 4 de fevereiro, que ele próprio
seria agora o Comandante-Chefe de todas as Forças Armadas. O Ministério da
Guerra era abolido e substituído pelo OKW - o Oberkomando der Wehrmacht, ou
Alto Comando de todas as Forças Armadas, tendo o servil General Wilhelm
Keitel na sua chefia administrativa e ao lado direito de Hitler. Brauchitsch
seria nomeado Comandante-Chefe do Exército e Göring seria um Reichsmarschall
e oficial mais graduado de todas as forças armadas; além disso, cerca de doze
generais, de cuja lealdade Hitler desconfiava, seriam transferidos para a
reserva. Assim, por meio de
acontecimentos que não provocara, Hitler solapou o poder do Corpo de Oficiais
e, da mesma forma, garantiu-se a direção real e titular de todas as forças
armadas. O Chefe de Estado, agindo cautelosamente, fortalecera seu poder de
ditador com os de general. Esta foi a sua mais valiosa realização porque, sem
ela, nenhuma das subbseqüentes poderia ter sido tentada e muito menos posta
em prática. No outono do mesmo ano,
1938, seguiu-se a tomada da região dos Sudetos, na Tchecoslováquia, moralmente
ajudada pelos Aliados, o que talvez a transformasse numa realização de
segunda categoria. Um ano depois, o brilhante golpe político de neutralização
da União Soviética, pelo pacto Ribbentrop-Molotov, que manteve os russos em
xeque enquanto se dominava a Polônia, numa campanha em que, pela última vez,
as generais de Hitler tiveram a liberdade de fazer seus próprios planos. A
experiência política de uma guerra localizada na Polônia fracassou com a
entrada da França e da Grã-Bretanha no conflito, mas a experiência militar de
não-interferência na estratégia dos profissionais fora bem sucedida demais
para a megalomania crescente de Hitler, e fê-lo determinar que ele próprio
planejaria e dirigiria campanhas futuras. Foi um erro grave. Mas a Noruega ocultou seus
efeitos temporariamente, e quando aquela campanha, sutilmente planejada e
realizada por tão baixo custo, foi seguida pela queda da França, da Bélgica e
dos Países-Baixos e pelo colapso de Dunquerque, era evidente - pelo menos
para ele - que as suas declarações de ser ele um salvador enviado pela
Providência era a pura verdade. "O efeito da sífilis sobre um cérebro já
afetado pela megalomania", disse o venereologista Anwyl-Davies,
"é sempre o de aumentar a confiança de que toda sorte de oposição pode
ser superada, a de ver o caminho à frente iluminado por triunfos messiânicos,
quando de fato os desastres ruinosos espreitam nas sombras". Para Hitler, sua próxima
etapa estava clara. Ele não subestimava a característica resistência dos
ingleses; tampouco supôs que seu inimigo se submeteria facilmente à
humilhação de Dunquerque. "Eles se voltarão e morderão como
terriers", disse Hitler a Brauchitsch. Este lembrou-lhe rispidamente que
as forças blindadas de Rundstedt, que recebera ordens de isolar e destruir
as forças britânicas que se dirigiam para Dunquerque, haviam sido impedidas,
por ordem de último instante do próprio Hitler, de completar sua tarefa. Furiosamente,
Hitler desafiou Brauchitsch a duvidar da sensatez da sua ordem. Em meio à
tempestade de impropérios Brauchitsch compreendeu que Hitler tencionava
deliberadamente deixar o britânicos escapar de Dunquerque para - não os
exasperando - melhorar as possibilidades de um pedido de paz. Para começar,
esta pode ter sido a vaga intenção de Hitler; mas o fato é que o próprio
Rundstedt lhe fizera sentir a "necessidade de poupar as forças blindadas
para outras operações" e deteve o movimento de cerco com a concordância
do Führer. Portanto, Hitler estava certo, ao esperar que o inimigo "se
voltasse e mordesse como terriers". Ao mesmo tempo, Hitler
estava meio convicto de que poderia haver uma aproximação de paz, pois a 21
de maio, quando a retirada contínua das forças britânicas tornava
virtualmente certo seu recuo para o mar (ou seu aniquilamento nas tenazes de
Rundstedt), Hitler avisara ao Almirante Raeder que o plano da marinha para a
invasão da Grã-Bretanha "era excepcionalmente difícil e, de qualquer
modo, devia ser posto de lado" enquanto ele considerava "questões
mais urgentes". Não se pode estabelecer se essas questões mais urgentes
eram autocensuras por permitir a fuga de Dunquerque ou se eram pausas nas
quais esperava aberturas para a paz. Quanto ao plano de invasão da Grã-Bretanha,
a Operação "Leão Marinho", sobre o qual nada se discutiu em nenhuma
das conferências de planejamento do Führer até então, era um esboço
rotineiro, preparado assim que a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha e
que desde então repousava inalterado no Almirantado alemão. Não passava de um
embrião e não levara em conta outra possibilidade além de um bombardeio
direto da costa sul da Inglaterra pela frota e o transporte de tropas através
do Canal da Mancha pelo seu ponto mais estreito. A indagação que Raeder fez a
21 de maio era apenas para saber se Hitler queria que se desenvolvesse o
plano em maiores detalhes. Um mês depois, como não aparecesse nenhuma
bandeira branca nos baluartes de uma Grã-Bretanha crescentemente fortificada,
Raeder tornou a insistir na questão e novamente Hitler mostrou-se cético.
Mas, interiormente, estava certo de que a próxima etapa devia ser o
preparativo da invasão. (Sem dúvida o seu ceticismo disfarçava a relutância,
normal em Hitler, em considerar práticas as idéias de qualquer outra pessoa.)
Sua mudança de ânimo foi confirmada por duas diretivas, a primeira emitida a
2 de julho: "O Führer decidiu que
sob certas condições - sendo a mais importante a de que a Luftwaffe deve
alcançar a superioridade aérea - poderá ocorrer uma invasão da
Inglaterra." A segunda, datada de 16 de
julho, dizia: "Corno a Inglaterra,
apesar da sua desesperada posição militar, não mostra sinais de querer entrar
em acordo, decidi preparar um plano para invadi-la e, se necessário, levá-lo
a cabo. Os preparativos para este plano devem estar prontos em meados de
agosto." Numa conferência realizada
cinco dias depois, Hitler disse aos chefes do exército, marinha e aeronáutica
que havia a "possibilidade de uma mudança nas relações políticas com a
Rússia". (Como seus chefes das forças armadas já sabiam das suas
intenções para com aquele país, que nunca haviam mudado, este comentário foi
um tanto redundante. É provável que ele se referisse às relações
superficialmente boas que ainda existiam com a Rússia e subentendia que sua
verdadeira intenção não demoraria a tornar-se manifesta pela invasão no
Leste. Esta coincidiria com a decisão estratégica de lidar com a Grã-Bretanha
em primeiro lugar e, assim, assegurar sua capacidade de concentrar todas as
suas forças na frente russa.) Devido à possibilidade de mudança política, a
invasão da Grã-Bretanha seria considerada como a maneira mais eficaz de
terminar primeiro a guerra no Ocidente. "Mas, embora a
distância seja curta", disse ele aos chefes das forças armadas - que
dificilmente se surpreenderian com a informação - "trata-se da travessia
de um mar dominado pelo inimigo. Não é uma travessia de sentido único, tal
como na Noruega; não se pode esperar surpresa na operação; um inimigo
defensivamente preparado e totalmente decidido nos enfrenta e domina a área
marítima que devemos usar. Para o exército serão necessárias 40 divisões. A
parte mais difícil será a dos reforços e dos suprimentos. Não podemos contar
com a disponibilidade de quaisquer suprimentos para nós na Inglaterra.
Tampouco podemos dar-nos ao luxo de coisa alguma abaixo do total domínio dos
ares. E este deve ser ligado a um completo conhecimento das condições atmosféricas.
A época do ano é o fator mais importante, pois o tempo no Mar do Norte e no
Canal em fins de setembro é mau e os nevoeiros começam em meados de outubro.
Portanto, a invasão principal deve ser completada até 15 de setembro." Os generais haviam aprendido
a controlar-se quando o Führer enraivecidamente lhes explicava coisas
sabidas de cor, coisas óbvias para eles, coisas que sabiam por dever de
ofício. De igual modo, hesitaram em dizer-lhe, quando chegou o momento, que
se ele quisesse que sua Luftwaffe alcançasse o domínio dos ares, por enquanto
não havia possibilidade de obtê-lo na Batalha da Grã-Bretanha que se
travava no momento nos céus ingleses com perspectivas sombrias. Aquela tentativa de
domínio começara, a todo vapor, a 10 de julho, e seis semanas depois ainda
não haviam atingido seu objetivo que, militarmente falando, era criar total
confusão em Londres e cortar todas as comunicações com a ameaçada costa sul
inglesa, para que as forças invasoras pudessem desembarcar em condições tão
caóticas para os defensores que estes teriam pouca chance de sobreviver.
Longe de alcançar o domínio dos ares, a Luftwaffe de Göring estava, na
realidade, sofrendo baixas desastrosas: com o correr do mês de agosto, e com
o Estado-Maior Naval de Raeder dando mostras de inquietação por ser incapaz
de prosseguir na sua tarefa de lançamento de minas protetoras no Canal sem a
cobertura aérea que lhe fora prometida, a cooperação vital entre as três
armas reduziu-se. Ao mesmo tempo, aumentaram as dúvidas sobre o tempo no
Canal, bem como sobre a derrota da Real Força Aérea. Em suma, Hitler cometera
um erro tático ao permitir que Rundstedt deixasse os ingleses escapar de Dunquerque,
na esperança de obter uma paz que não viria, e seus generais haviam calculado
tão mal e embaralhado tanto a invasão de seguimento, que nenhum remendo
poderia agora transformá-la em sucesso. O axioma da guerra de que sempre se
deve robustecer o sucesso, nunca o fracasso, revelara-se verdadeiro. Em meados de setembro, o
plano "Leão Marinho" fora reduzido a uma ameaça para salvar as
aparências, como o mostra o relatório de Raeder: "A atual situação
aérea não oferece condições para se levar a operação avante." "Se a Leão Marinho' fracassar,
representará um ganho de prestígio para os ingleses." "Todavia, ainda não
se deve cancelá-la, pois deve-se manter a ansiedade dos ingleses; se o
cancelamento se tornasse conhecido, isso seria um grande alívio para os
ingleses... (cujas) principais unidades da sua frota estão de prontidão para
repelir o desembarque." A operação continuou sendo
uma vaga ameaça até fevereiro de 1942, quando suas poeirentas pastas foram
arquivadas. Contudo ninguém, dos dois lados, acreditava seriamente nela depois
de outubro de 1940. Já então a Batalha da Grã-Bretanha mostrara ser um
ruinoso fracassso para a Luftwaffe de Göring, e a frase mais citada na
Grã-Bretanha foi a Churchill, de elogio ao punhado de pilotos de caça que
salvaram a situação: "Nunca, no campo do conflito humano, tantos deveram
tanto a tão poucos". Tendo a Grã-Bretanha
repelido com êxito os esforços da Luftwaffe de reduzir a capital ao caos e o
resto do país à submissão, e tendo a "Leão Marinho" fracassado,
Hitler não perdeu tempo em fazer novos planos. Ele falou a respeito aos seus
generais, numa conferência que, segundo Halder registra, foi notável pela
sua calma. "Nossos esforços
devem agora concentrar-se na eliminação de todos os fatores que permitam à
Grã-Bretanha ter esperanças de uma mudança na situação. A esperança da
Grã-Bretanha está na Rússia e talvez, até certo ponto, nos Estados Unidos.
Assim, se a Rússia sair do quadro, a Grã-Bretanha também perderá os Estados
Unidos, porque a eliminação da Rússia aumentaria grandemente o poderio do
Japão no Extremo Oriente. Por conseguinte, nosso próximo objetivo deve ser a
destruição da Rússia, e quanto mais cedo ela for esmagada, melhor. O ataque
só alcançará sua meta se a Rússia puder ser arrasada de um só golpe. Se
começarmos em maio próximo (1941), teremos cinco meses para completar a
tarefa." Ao mesmo tempo, Hitler não
permitia que nenhum outro aspecto da guerra, político ou militar, escapasse
aos seus desígnios. Conferenciou com o General Franco sobre a possibilidade
de a Espanha entrar na guerra do lado da Alemanha em troca de Gibraltar, Marrocos
e Argélia conquistados pelo Eixo; conseguiu que Mussolini concordasse em não
se meter nos Balcãs em troca do "direito exclusivo de operações na esfera
do Mediterrâneo"; e cooperou secretamente com Pètain, que ainda estava
à frente do derrotado governo francês na nova capital, Vichy, e que foi venenosamente
influenciado por Pierre Laval, para defender as colônias da África do Norte
com o que restava da marinha francesa, contra a intervenção naval britânica.
(A França seria recompensada com possessões coloniais após uma divisão do
derrotado Império Britânico.) Hitler baseava esses
planos em raciocínio psicológico sólido. Desde a campanha finlandesa,
continuava achando que a Rússia não teria "chance alguma contra o
poderio organizado do Reich". Desprezava Mussolini pela sua inveja e
pelo seu medo de cair do carrossel do Eixo. Desprezava Franco por sua
atitude fria. Hitler confidenciou a Jodl que "o Duce está agindo na
África exatamente como eu esperava (mal); e suas tropas também. Temos a
melhor parte do negócio deixando-o esgotar-se lá enquanto nos preocupamos com
os suprimentos de petróleo romeno". O Duce, vivendo da glória
da sua "conquista" da Abissínia, em 1936, e da sua noção insana de
criar um novo Império Romano, começara sua campanha na África em outubro de
1940, com o sucesso espalhafatosamente divulgado da expulsão da força de
defesa britânica, de 2.000 homens, da Somália. Para fazer isso, ele envidou
todos os esforços e lançou na batalha 25.000 dos 500.000 homens que
concentrara na Líbia, na Abissínia e na Somália. Completado esse triunfo ele
e seu Comandante-Chefe, o Marechal Graziani, ficaram alegremente a trocar
elogios enquanto a Marinha Real Britânica trazia silenciosamete um imenso
comboio transportando reforços para o Egito. Com esses reforços, o comandante
da campanha, General Wavell, alcançou suas grandes vitórias em Sidi Barrani e
Tobruk e, em meados de janeiro, derrrotou humilhantemente as forças italianas,
capturando 150.000 homens. Ao mesmo tempo que
iniciava a campanha africana, Mussolini não conseguiu deixar de interferir
nos Balcãs e invadiu a Grécia através da Albânia. Também lá, as
"vitoriosas tropas italianas", como as chamava o Duce, foram
forçadas a ignominiosa debandada, numa semana. Todavia, embora Hitler
pudesse estar satisfeito com o fato de seu desprezível aliado se revelar tão
desmiolado e desanimado, era obrigado a ajudá-lo para garantir as
finalidades políticas alemães e, em março de 1941, um dos seus mais
experientes generais na guerra blindada, Erwin Rommel, atacou e obrigou
Wavell, com blindados inferiores e linhas de comunicação demasiado estendidas,
a recuar para o Egito. Raeder escreveu em seu diário: "O Führer é de
opinião de que é vital para o resultado da guerra que a Itália não sucumba...
Isso significaria grande perda de prestígio para as potências do Eixo". Também nos Balcãs, Hitler
teve de ajudar o Duce. Como a Grécia não se deixara conquistar pelos
italianos, ele despachou cerca de 20 divisões, no começo de abril de 1941,
com o objetivo de invadir a Grécia, as quais primeiro esmagaram a Iugoslávia,
que poderia ameaçar seu flanco. Sua aliança com Mussolini estava-se revelando
demasiado dispendiosa em termos de tropas. E ele tinha razão em suas amargas
queixas contra "amigos ingratos e indignos de confiança". Quanto à Romênia, Hitler
fizera seus primeiros movimentos abertos naquela direção em setembro de 1940,
enviando "missões militares cuja tarefa seria dar à amistosa Romênia orientação
para organizar e instruir suas forças. Elas terão outra tarefa que deve
permanecer secreta para o mundo, os romenos e nossas próprias tropas. A de
preparar o deslocamento de forças alemães, partindo de bases romenas, no
caso de sermos forçados a uma guerra contra a Rússia Soviética e para
proteger a região petrolífera romena". A inescrutável restrição
"no caso de sermos forçados" é um tanto cômica, em vista das
declaradas ambições de Hitler no Leste quanto ao "Espaço Vital";
mas não teria surpreendido os russos, que já suspeitavam bastante das
intenções alemães na Romênia - e, aliás, em outras partes. Não houvera
dificuldades na partilha da Polônia em 1939; mas com a Rússia e a Alemanha
tentando trairem-se mutuamente, cada uma delas atendo-se aos suprimentos de
petróleo romeno para futuras intenções, houve considerável ressentimento em
Moscou quando Hitler mandou que oito divisões blindadas ficassem de prontidão
para tomar os campos petrolíferos. Era um alarma falso; mas seu efeito não
foi aliviado pela chegada ao Kremlin de um telegrama, "Altamente
Secreto", anunciando que uma aliança militar entre Alemanha, Itália e
Japão seria assinada a 27 de setembro de 1940. "A aliança",
dizia o telegrama de Berlim, "visa exclusivamente a combater os norte-americanos
fomentadores de guerra. Isto não está expressamente formulado nos termos do
tratado, mas pode ser inequivocamente inferido dos mesmos. Sua finalidade
exclusiva é fazer com que os elementos que insistem para que os Estados
Unidos entrem na guerra caiam em si, dando-lhes convincentemente que, se
entrarem na luta, terão automaticamente como adversários três grandes
potências". Essa carta confortadora
foi seguida da visita de um dos auxiliares de Stalin, Molotov, a Berlim. Numa
das conferências realizadas na embaixada russa, ele recebeu a garantia de
que, independente da intervenção norte-americana, "nenhum anglo-saxão
jamais tornará a por os pés no continente europeu, pois a Inglaterra está
batida, sendo apenas uma questão de tempo o reconhecimento por parte dela da
derrota". Foi um tanto desagradável que a reunião tivesse de ser adiada,
devido a um alarma de ataque aéreo, e Molotov perguntou friamente: "Se a
Grã-Bretanha está derrotada, por que estamos num abrigo antiaéreo, com bombas
inglesas caindo"? Esse sarcasmo e as dúvidas
e suspeitas, agora óbvias, da Rússia tiveram apenas o efeito de provocar uma
das fúrias incontroláveis que Hitler tinha nas suas "conferências"
diárias. Se Hanish, Loffner e Neumann, os companheiros dos seus primeiros
tempos em Viena, estivessem presentes, teriam reconhecido a versão muitíssimo
ampliada da característica que tão bem conheciam. Suas queixas, petulantes e
monótonas, sobre as injustiças e ineficiências do "sistema"
haviam-se transformado numa psicose que exigia que tudo fosse moldado à sua
vontade. Seus rompantes eram apenas exteriorizações da ira contra seus chefes
de exército que se atreviam a contraditá-lo, contra seus supostos aliados,
que o deixavam frustrado a cada tentativa de participação contra um inimigo
que era mais resistente do que ele esperava. Apesar das demonstrações
de insanidade, Hitler ainda não tinha dificuldades em elaborar as mais
complicadas manobras militares. Mas havia uma fraqueza em suas reações
psicológicas, que consistia em desviar-se de dificuldades circunstanciais
que influenciavam suas avaliações intuitivas. Por exemplo, a hesitação de
Franco em unir-se ao Eixo, porque vira, com certa consternação, que o
exército de Graziani fora derrotado, que o HMS Illustrious navegara
desimpedido pelo Mediterrâneo até o Egito e que Gênova estava sendo
bombardeada por belonaves inglesas. Mas, embora pudesse desviar-se de dificuldades
incômodas, Hitler pelo menos ainda podia fazer suas próprias avaliações e
acreditar inabalavelmente em sua exatidão. (Naturalmente, essa crença é
inseparável da megalomania.) Por essa época, Halder registra que "o
Führer afirma estar sempre certo e à menor sugestão em contrário ele aponta
para a Tchecoslováquia, Polônia, Noruega e Cirenaica - berrando contra a
incompetência de nós, soldados, e abrigando-se atrás das ilusões do seu
egoísmo". Se precisarmos de provas
da sua habilidade estratégica, não existe melhor exemplo nessa época do que
sua famosa Diretiva n° 21 esboçando a operação "Barbarossa", seu
plano para a conquista da Rússia - no qual, disse ele a Jodl, "temos
apenas de dar um pontapé na porta e toda a estrutura podre virá abaixo". Em suas seis páginas - só
nove cópias foram impressas - a diretiva declarava, em primeiro lugar, que: "As Forças Armadas
Alemães devem estar preparadas para esmagar a Rússia Soviética numa campanha
rápida antes do final da guerra contra a Inglaterra... Os preparativos devem
estar terminados a 15 de maio de 1941... O grosso do exército russo na Rússia
Ocidental deve ser destruido em operações audazes, mediante o avanço de
profundas cunhas blindadas, e deve-se evitar a retirada de topas intactas e
prontas para a batalha. O objetivo fundamental é o estabelecimento de uma
linha de defesa contra a Rússia Asiática que vá do Rio Volga até
Arcangel". Tendo formulado o
objetivo, ele passava a explicar como os ataques deviam ser lançados no
Norte, partindo da Finlândia, e no Sul, da Romênia. A linha divisória entre
os dois ataques seriam os Pântanos de Pripet. Um grupo de exércitos se
apoderaria dos países bálticos e Leningrado e o outro atravessaria a Rússia
Branca, ligando-se àquele e envolvendo as forças russas em retirada do
Báltico. Ao sul dos pântanos, um terceiro grupo de exércitos avançaria pela
Ucrânia até Kiev. Seu flanco seria protegido por tropas romenas e alemães e
que se dirigiriam para Odessa e o Mar Negro e tomariam a concentração
industrial na bacia do Donets. Era tudo muito hábil e
prático. "Você precisa apenas elaborar os detalhes", disse ele a
Halder, "e isso deve estar pronto até o fim do mês próximo (janeiro de
1941). É vital que não haja atraso algum. Enfrentaremos grandes distâncias,
na Rússia, e o inverno russo é também um fator decisivo. A vitória deve ser
completada antes que tenhamos que combater as inclemências do tempo. Todos os
meus planos são determinados por esse fator". Talvez tenham sido. Ele
não se esquecera de que Carlos XII e Napoleão haviam sido derrotados pelo
Inverno, adversário cruel. Mas fatalmente deixara de levar em conta outro
fator: sua irrepreensível malignidade para com os que o frustravam. As "missões
militares" na Romênia, das quais os russos justificadamente
desconfiavam, já que a Romênia faz fronteira com a Ucrânia ao longo de cerca
de 640 quilômetros a Oeste do Mar Negro, em fins de fevereiro de 1941
haviam-se transformado numa força de quase 250 mil homens. A Bulgária, que
fazia fronteira com a Romênia, também fora engodada, caindo nas mãos de
Hitler com a promessa de acesso ao Mar Egeu através de uma Grécia controlada
pelo Eixo. O quid pro quo seria a ocupação da Bulgária por tropas alemães e
a conseqüente negativa por parte desta de ceder aos ingleses uma base de onde
pudessem bombardear os campos petrolíferos romenos. Contudo, o controle total
dos Balcãs não seria obtido sem a cooperação da Iugoslávia, e a 25 de março o
Príncipe Paulo, regente do rei Pedro II, que tinha 18 anos de idade,
dirigiu-se pressurosa e secretamente a Viena, com seu Primeiro-Ministro e
com o Ministro das Relações Exteriores, como se fossem obsequiosos
cachorrinhos respondendo ao estalar dos dedos do Führer. Sem discutir, eles
cederam à sua exigência para que permitisse o trânsito de tropas e material
bélico alemães pela Iugoslávia, "e essas tropas respeitariam sempre a
soberania e a integridade territorial da Iugoslávia". Eles foram
informados de que seu prêmio seria o porto grego de Salônica "assim que
eu tiver decidido a questão grega". Infelizmente para Hitler,
o povo iugoslavo não estava tão ansioso por vender seu país. Enquanto Paulo
estava em Viena, o povo preparou-se para derrubor a Regência e elevar o
jovem Rei Pedro ao trono. Paulo voltou, encontramdo um levante em preparo. O
pacto que ele e seus ministros tão obsequiosamente assinaram foi destruído. O
embaixador alemão, cruzando as ruas de Belgrado de carro, foi atacado por
uma multidão que celebrava a derrubada do odioso regime dos títeres de
Hitler. Foi esse insulto, mais do
que a falência do seu "golpe" tão ardilosamente organizado, que
enfureceu Hitler. Nova operação militar foi organizada. Ela foi chamada
"Operação Punição", e foi planejada durante e imediatamente após
uma reunião na Chancelaria, a 27 de março de 1941. "A Iugoslávia deve
ser esmagada sem piedade", ordenava Hitler. Repetiam-se as cenas que
demonstravam o estado de revolta que Weizäcker registrara em 1939, só que
mais violentas. (Os descontroles cada vez mais freqüentes e a violência
irrestrita eram sintomas típicos do progresso da sífilis.) "Não se fará
nenhuma indagação diplomática e nem se apresentará qualquer ultimato. A
Iugoslávia será destruída impiedosamente." Nesse estágio, Halder
lembrou-o de que ele ordenara o início da operação "Barbarossa"
para meados de maio - dali a seis semanas apenas - e que uma tarefa adicional
para o exército daquele porte, envolvendo a destruição de uma nação,
inevitavelmente atrasaria a execução do plano. "Só se eu der ordem
para atrasá-lo", foi o que Hitler lhe disse. "Ele ainda tremia de ódio.
O Estado-Maior estava rígido, em silêncio... O médico Morell olhava-o,
impotente... Ninguém conseguia ver a possibilidade de desviar forças para
esta nova campanha; tampouco ver sentido numa operação que não passava de
um golpe vingativo." Evidentemente não passava
disso, mas agora que tinham dado a Hitler uma "justificativa", a
campanha da Iugoslávia se tornara mais importante que a da Rússia. Passou a
constituir-se num desafio à sua capacidade. Como disse Liddell Hart: "O preparativo e a
contemplação de grandes planos estratégicos sempre o inebriaram. As dúvidas
que os generais apresentavam, quando ele revelava a tendência da sua mente,
serviam apenas para torná-la mais definitiva. Não havia ele demonstrado
estar certo, sempre que duvidaram da sua capacidade de vencer? Hitler deve
provar novamente aos seus generais que estão errados - e da maneira mais
surpreendente. Suas dúvidas mostravam que, apesar de toda a subserviência, no
fundo ainda desconfiavam dele como o amador que era". Na verdade ele não
insistiu para que se mantivesse a programação da "Barbarossa".
Embora, em virtude de sua exaltada egomania, lhe fosse difícil aceitar
qualquer conselho, por mais sensato, que partisse dos militares ortodoxos, dificilmente
podia deixar de estar cônscio da sua inferioridade numérica, na questão de
tanques, em comparação com os russos, ou da necessidade de concentrações
intensas de forças blindadas nos Balcãs para realizar sua rápida conquista
ali. Portanto, a 1º de abril, enquanto o Estado-Maior elaborava os detalhes
da campanha da Iugoslávia, ele ordenou um adiamento do início da
"Barbarossa", de meados de maio para meados de junho. Assim, a 6 de abril
desfechou-se a "Operação Punição". Belgrado foi destruída pelas
bombas de sucessivas ondas de bombardeiros de Göring. Só naquele ataque
morreram quase 20.000 pessoas e, como o país estivesse totalmente despreparado,
rendeu-se em dez dias. Ao mesmo tempo, as tropas
alemães que haviam sido reunidas na Bulgária atravessaram a fronteira,
penetrando na Grécia, onde Mussolini enfrentara uma heróica resistência que
repetidamente pusera suas tropas em fuga. Os gregos haviam sido reforçados
por divisões inglesas em março, mas também estas foram vencidas pelas mesmas
forças que Hitler lançara sobre os Balcãs, (28 divisões, incluindo 24 que
haviam sido desviadas da área de reunião para a operação
"Barbarossa", na Polônia.) Apenas uma semana depois que a
Iugoslávia fora obrigada a capitular, a Grécia também foi conquistada; e, em
fins abril, Hitler podia escarnecer dos generais, com suas apreensões,
apontar triunfalmente para "duas nações inteiras dominadas numa campanha
de um mês para a qual ninguém estava disposto". Nada poderia exaltar mais
a sua intensa megalomania. Esfregando euforicamente
as mãos, com a alegria do general para quem mundo algum é grande demais para
conquistar, nenhuma campanha é complexa demais, ele ordenou o início da
"Barbarossa", que tivera seu momento novamente escolhido. A
ofensiva devia começar às 03:30 h de 22 de junho, e a palavra-código para
"incendiar a Rússia e fazer o mundo perder a respiração" era
Dortmund (23a). (23ª)
"Barbarossa" aludia ao grande imperador Frederico I,
Hohenstauffen, o da Barba Roxa, co-participante da 3ª Cruzada. A lenda
germânica afirma que ele ressuscitaria um dia, para aniquilar os pagãos do
Leste. A data de 22 de junho foi escolhida para a invasão por marcar o
solstício do verão, adotado por Himmler como um dos feriados místicos da sua
"Ordem Secreta" das SS. Precisamente na hora
marcada, anunciou-se a palavra-código e os três grupos de exército iniciaram
a operação "Barbarossa". Duas horas depois, o embaixador alemão em
Moscou visitou Molotov e lhe informou que a Alemanha decidira atacar a
Rússia porque um excesso de tropas do Exército Vermelho estava em evidência
ao longo da fronteira e ameaçava a Alemanha, "desafiando o Pacto de 22
de agosto de 1939". Na Alemanha, às sete horas, Goebbels irradiou a
proclamação do Führer: "Prostrado por
preocupações sérias, condenado a meses de silêncio, posso por fim falar
livremente. Povo alemão! Neste momento está ocorrendo uma marcha que, pela
sua amplitude, é comparável à maior que o mundo já viu. Hoje decidi novamente
colocar o destino do Reich e do nosso povo nas mãos dos nossos soldados. Que
Deus nos ajude, especialmente nesta luta." No mesmo dia, Churchill
respondeu a essa repugnante insolência farisaica numa irradiação que se
desviou das difíceis arestas de uma política que até então tratara a Rússia
como se ela estivesse muito ligada a Hitler e, portanto, igualmente
intolerável. Essa irradiação também teve seus momentos repugnantes: "O passado, com seus
crimes, suas loucuras e suas tragédias, desaparece num lampejo. Vejo os
soldados russos nos umbrais da sua terra natal, defendendo os campos que seus
pais araram desde tempos imemoriais. Vejo-os defedendo os lares enquanto suas
mulheres oram - sim, pois há momentos em que todos oramos - pela segurança
dos entes queridos, pelo retorno do arrimo da familia, do seu defensor, do
seu protetor. Vejo as dezenas de milhares de aldeias russas onde ainda
existem as primevas alegrias humanas, onde as donzelas riem e as crianças
brincam." Essa visão cor-de-rosa,
embora emocionalmente de acordo com o momento, estava longe de ser exata,
como acontecia com a maioria dos discursos de Churchill. Não havia soldados
russos defendendo os umbrais dos seus campos arados e nem mulheres e mães em
oração. "Os guardas da fronteira, despertados pelo estardalhaço das
lagartas dos tanques, foram fuzilados ao saírem das suas casernas, correndo
seminus por entre a fumaça", diz Alan Clark em seu livro Barbarossa. Os
aviões foram destruídos nos aeródromos, como na Polônia. Não havia,
virtualmente, nenhuma resistência organizada contra o tremendo impacto da
invasão inicial. Durante dias os alemães penetraram na Rússia quase que sem
oposição. Era volumosa a força defensiva, mas sem nenhum plano. Batalhas
heróicas foram reduzidas a simples escaramuças, por falta de orientação.
Passado um mês, os exércitos de Hitler percorreram 480 quilômetros de toda a
frente de 1.600 quilômetros de extensão, desde a Finlândia até o Mar Negro. A 3 de outubro, o próprio
Hitler transmitiu o seguinte: "Hoje eu declaro - e declaro-o sem reservas
- que o inimigo no Leste foi derrubado e nuca mais se erguerá." Uma característica sua
era, tão loco surgiam falhas na estrutura das suas empresas, a afirmação de
que os acontecimentos (inesperados) eram esperados. A primeira falha começou a
aparecer em agosto. As relações entre Hitler e os generais eram muito
frágeis. O problema, como sempre, era de estratégia - os generais atendo-se
ao ortodoxo, e Hitler, ao que concebia como audaz e definitivo. Em linhas gerais, Hitler
determinaa: no Norte, desimpedir os Estados Bálticos e capturar Leningrado,
com a ajuda do Grupo de Exércitos do Centro; no Sul abrir caminho para Kiev e
o Dnieper e tomar as grandes fontes de recursos da Ucrânia. Os generais, perturbados
pelo súbito endurecimento da resistência do Exército Vermelho e pela
estreiteza da linha alemã resultante do seu excessivo comprimento, tinham
idéias diferentes. "Subestimamos a Rússia", informou Halder a 17 de
agosto. "Contávamos com 200 divisões e já identificamos 360. Não temos
profundidade na nossa linha ofensiva e, em conseqüência, o inimigo muitas
vezes contra-ataca com êxito." Ele e Brauchitsch
insistiram num ataque concentrado a Moscou. Mas Hitler não queria saber
disso. "Ele rejeitou o plano de Moscou", escreveu Halder em seu
diário "e decidiu que o grosso das forças dos Grupos de Exércitos do Centro
e do Sul se concentrasse para um grande movimento de pinças contra as forças
soviéticas a leste de Kiev. A meta de se derrotar decisivamente os exércitos
russos diante de Moscou fora subordinada ao desejo de conquistar antes a
Ucrânia... Mas o Führer também estava obsedado pela idéia de capturar
Leningrado e Stalingrado, pois se convencera de que se essas duas cidades
sagradas do comunismo caíssem, a Rússia sucumbiria." (24) (24) Stalingrado (hoje
transformada em Volgogrado por Kruchov, após sua "desestalinização"
da Rússia), segundo os preceitos da Blitzkrieg, deveria ter sido contornada
e neutralizada. Mas o simples fato de levar o nome de Stalin, de quem o
Führer se confessava admirador extasiado, cegou Hitler, e sua tomada
tornou-se obsessão doentia - e mortal. O movimento de pinças de
Kiev só se completaria a 20 de setembro. Tornava-se cada vez mais claro que
a técnica da Blitzkrieg, que funcionara tão bem no Ocidente, perdia
rapidamente impulso nas vastas estepes da Rússia e minava as forças alemães
em linhas de terreno muito longas. Mas Hitler, embriagado com o falso poder
da autopersuasão, afirmava, numa cena de triunfo demoníaco, que suas forças
haviam vencido "a maior batalha da história do mundo". Halder
observou secamente que era de opinião "ser ele o maior erro da campanha
oriental, pois nas seis semanas entre a queda de Smolensk e a tomada de Kiev
perdera-se a oportunidade de tomar Moscou". Sendo este o momento da
história bélica de Hitler em que começava claramente a delinear-se a descida
do Louco da crista do poder para as profundezas da ignomínia, vejamos
retrospectivamente os passos que mais depressa o levaram a este ponto. A primeira, e mais desastrosa,
foi a insana determinação de esmagar impiedosamente a Iugoslávia e, dessa
forma adiar o começo da operação "Barbarossa" em cinco fatídicas
semanas. Em sua fúria pela recusa da Iugoslávia em concordar com a vil
assinatura do pacto do regente títere, Hitler desviara o curso da ação do
caminho estabelecido em sua Diretiva: "O inverno russo é... fator
decisivo. A vitória deve ser completada antes que sejamos chamados a combater
as inclemências do tempo. Todos os meus planos são determinados por esse fator".
Isso era sensato. Mas foi idiotice rematada, realizada unicamente por
despeito, aumentar cem vezes o risco do encontro com o cruel adversário de
Napoleão - o Inverno - depois de já ter reconhecido a necessidade de
evitá-lo. Maior atraso foi causado
pelos infrutíferos esforços de Halder e Brauchitsch e dos comandantes de
exército em convencer Hitler a mudar de idéia. Ao todo, desperdiçaram-se
dois meses. Da parte de Hitler, não
houvera equívoco quanto a um lado do caráter russo. "O russo lutará até
a morte em qualquer pedaço de terreno; não abrirá mão dele; vocês devem
destruí-lo." Mas quanto à idéia que fazia de sua desorganização, até
certo ponto estava fora de lugar. Os russos aprenderam lições na Finlândia. A
espantosa rapidez com que, uma vez feito o tremendo avanço na Rússia, os
invasores foram contra-atacados era perigosamente eficaz numa frente tão
ampla; e, embora cerca de meio milhão de russos estivessem enredados nas
pinças de Kiev, mais outro suposto meio milhão num movimento subseqüente de
cerco em Vyazama, o tremendo esforço cansara os alemães no momento exato em
que precisavam de novo ímpeto, para atacar através de um terreno transformado
em atoleiro pelas primeiras chuvas. A obsessão de ver
Stalingrado e Leningrado caírem custou-lhe grande número de homens e
máquinas. Aliás, a malograda batalha pela conquista da cidade Stalingrado
durou seis meses - e resultou no completo aniquilamendo Sexto Exército
Alemão, enquanto que o cerco de Leningrado, durante o qual milhões de
habitantes morreram de fome, cansaço e frio, e ainda defenderam sua
assediada cidade contra o inimigo durante 900 dias, mostrava outra faceta do
caráter russo que Hitler subestimara - a resistência. Na Campanha Oriental,
também seu desprezo pelos seus generais atingiu proporções maníacas. Chegou
ao absurdo de ele mesmo, Hitler, controlar inteiramente todos os movimentos
de formações e até mesmo de pelotões de infantaria. Liddell Hart diz que
Rundstedt lhe contou que, no final da guerra, "as únicas tropas que eu
tinha permissão de movimentar eram os guardas diante do meu próprio
quartel". O ambiente das
"conferências" diárias que ele realizava é confirmado por muitos
dos oficiais superiores que prestaram testemunho nos julgamentos de Nuremberg,
após a guerra. "Os relatórios dos
comandantes de campanha, recolhidos e sintetizados por oficiais graduados,
eram-lhe entregues, e ele dirigia o movimento desta ou daquela brigada ou
batalhão, voltando-se para os mapas de grande escala e muito minunciosos que
sempre eram o ponto focal e pictório das conferências. Sua fantástica memória
para detalhes muitas vezes fazia com
que ele quisesse saber o que acontecera com determinado ninho de
metralhadoras, por exemplo. Se seu operador fora morto, por que não fora
substituído por outro, 'para matar mais inimigos?' Quando lhe disseram, certa
vez, que as 'tropas simplesmente não defendem terreno quando a temperatura
está a vinte graus abaixo de zero', ele deu ordens para que o comandante do
posto fosse fuzilado imediatamente." Em seus acessos de fúria, era por
vezes acometido de dores provocadas por espasmos nervosos, momentos em que se
dobrava sobre o estômago. Quando lhe informavam de algum fato indiscutível
que o tomasse, momentaneamente de surpresa, sem que pudesse defender-se de
seus erros de julgamento, manifestava-se nele uma surdez que, sem dúvida, era
proposital. "Cada conferência do
meio-dia era um suplício total para o EstadoMaior. O Führer, muitas vezes,
ou estava berrando furiosamente, ou derreado numa cadeira, onde se consumia
em autocomiseração, na qual todos os revezes eram causados pela deslealdade,
fraqueza ou estupidez dos seus aliados. Está claro que também havia longos
períodos de lucidez, nos quais sua inteligência como comandante de toda sorte
de formações muitas vezes era evidente. O problema era que, na condição de
comandante supremo, deveria ter abandonado as preocupações com o movimento
das patrulhas; mas não suportava deixar que o controle de coisa alguma lhe
saísse das mãos. Convencera-se de que era sobre-humano, e que o grande
destino a que servia superaria todos os perigos e tudo teria um final
triunfante." Como sabemos, os finais
triunfantes estavam longe da determinação de seu destino; a fuga à tabes
dorsalis, que o levava para a paralisia geral do insano, era agora
impossível. A tabes dorsalis ou locomotor ataxia, sífilis que envolve a
medula espinal, é caracterizada por paroxismos, desordens funcionais do
estômago, incoordenação dos movimentos voluntários e perturbações da visão.
O aforisma de Lorde Acton poderia ser ironicamente adaptado para "Todo o
poder corrompe e o poder sifilítico corrompe absolutamente". Estas eram então as
sementes da derrota de Hitler e da Alemanha. Os generais sempre estiveram
apreensivos com a guerra em muitas frentes. África, os Balcãs, o Atlântico, o
Mediterrâneo - havia, como observara Westphal, um limite para o potencial
humano e para a capacidade produtiva de toda nação. Ninguém pode negar a
habilidade do Führer em desfechar e levar a cabo com êxito tanta coisa em tão
pouco tempo. (A rapidez daquele sucesso se deveu em grande parte ao longo e
cuidadoso preparativo político durante os anos de 1919 a 1939.) Ninguém poderia
negar, tampouco, a sua percepção quase visionária das reações dos inimigos,
militares e políticos. Mas certamente ninguém pode negar sua loucura em se
recusar, à medida que a campanha russa se arrastava cansativamente, a aceitar quaisquer dos
planos estratégicos dos homens que estavam no local, pois eram planos que, na
melhor das hipóteses, poderiam terminar em negociação ou acordo. E nada
poderia tê-lo induzido a aceitar tal solução. Como Chester Wilmot comenta, em
The Struggle for Europe: "Ele sabia que nem
seu poder pessoal nem o do Reich nazista sobreviveriam a um acordo por negociação.
Tendo submetido o futuro do seu regime, e o da Alemanha, ao jogo da guerra,
ele tinha que prosseguir até o último lanço, na esperança de que os números
vencedores aparecessem. Vitória Total ou Derrota Total: esta era a essência
da filosofia niilista que era a base do nazismo." Naturalmente, ataviada,
ela se parecia com o toque de clarim do bravo. Era um toque que havia
ressoado centenas de vezes: "Atacarei, não
capitularei. O destino do Reich depende só de mim. Toda esperança de acordo é
inútil. É Vitória ou Derrota. A questão não é o destino de uma Alemanha
nacional-socialista, mas de quem dominará a Europa no futuro. Ninguém
alcançou o que alcancei. Minha vida não tem importância nisso tudo. Liderei
o povo alemão a grandes alturas, mesmo que o mundo agora nos odeie. Estou
apostando toda a minha realização num jogo. Tenho de escolher entre a vitoria
e a destruição. Escolho a vitória. Enquanto viver, pensarei somente na
vitória do meu povo. Não me deterei diante de nada e destruirei todos
quantos se oponham a mim. Vencerei ou tombarei nessa luta. Jamais
sobreviverei à derrota do meu povo. Não haverá capitulação às potências
externas, nenhuma revolução pelas forças internas." Não: ninguém poderia negar
qualquer dessas coisas, desses fatos. E muito menos os generais. E talvez
muitos deles se lembrassem da frase: "Não sobreviverei à derrota do meu
povo". Hitler dissera-lhes isto em 1939 (25). (25) Hitler tinha
consciência de que sua idade avançava, e em várias ocasiões manifestou-se
sobre a necessidade de desencadear cedo a guerra, enquanto tinha saúde e
lucidez. Ele sabia que implacável moléstia o corroía e que devia correr
contra o tempo. Albert Speer, em suas memórias, relata seus dois planos
opostos para o futuro: o retiro para Linz, que transformaria na mais bela
cidade do mundo, com construções fantásticas e imensos museus; e a manutenção
do poder, com a construção de um palácio-fortaleza, para defender-se da
indignação contra as medidas - tão terríveis que ele mesmo denominou de
"altamente impopulares" - que iria tomar após a vitória. O estrategista na derrota "O povo alemão não está à altura do que eu fiz por ele". -
Hitler No mesmo dia em que Hitler
exultava com a assinatura do armistício franco-alemão, no vagão na Floresta de
Compiègne - 22 de junho de 1940 - os ingleses davam o primeiro passo para
recuperar uma posição segura no continente europeu. Era um passo vacilante,
mas negava a validade da promessa de Hitler, de que nenhum anglo-saxão jamais
tornaria a pôr os pés no continente. No dia 23, instigados por
Churchill, cem comandos, nuns dois barcos - tudo o que se podia obter -
atacaram a costa francesa próximo de Bolonha, com o objetivo de trazer
prisioneiros e informações sobre as defesas costeiras ali existentes. Não
tiveram êxito; aliás, alguns deles, dirigindo-se para portos errados na
viagem de volta, foram ignominiosamente arrastados para terra pela Real
Polícia Militar e presos por deserção. Foi um começo audaz, ainda
que cômico, da imensa operação "Overlord" que, a 6 de junho de
1944, levou a guerra na Europa às suas derradeiras batalhas; mas serviu para
convencer a Churchill e ao Comando do Exército que, embora a Grã-Bretanha, na
época, estivesse indefesa, em termos de homens e armas, nunca se deveria perder
de vista a necessidade de uma eventual invasão em grande escala. A convicção
determinou Churchill a formar um Comando de Operações Combinadas, cuja
tarefa seria estudar e comunicar toda possibilidade de realização desse objetivo. Era evidente, para quem
quer que fosse capaz de fazer um simples cálculo estatístico, que somente a
retirada do grosso das forças alemãs do noroeste europeu possibilitaria a
invasão. Naquela época, com os homens de Hitler na posse alegre da França e
dos Países Baixos, e com os alemães triunfalmente aquartelados na derrotada
Paris, a possibilidade de uma retirada por qualquer razão era, como disse o
Chefe do Estado-Maior Imperial Britânico, numa notável atenuação da
verdade, "algo remota". E permaneceu remota até
precisamente um ano depois e com o começo cia "Barbarossa". A
Batalha da Grã-Bretanha e a intensidade cada vez maior da Batalha do
Atlântico ocuparam totalmente as atenções da marinha e da força aérea,
enquanto o exército tentava desesperadamente superar a dizimação sofrida na
França, treinando milhares de convocados que estavam sendo gradativamente
retirados da vida civil e para os quais parecia haver uma escassez permanente
de armas e equipamento. Então, com a Rússia traída em junho de 1941 - em
parte pela sua própria cobiça e estupidez em se aliar com a Alemanha - o
equilíbrio de poder mudou. Aliás, foi uma mudança leve: Hitler ainda
mantinha 50 divisões defendendo o noroeste europeu e a Noruega. Mas, à
medida que a "Barbarossa" progredia, tornava-se evidente que os
contingentes necessários à manutenção do impulso das forças invasoras deveriam
ser completados com os que estavam na Europa ou na Africa. Stalin, com chorosa
petulância, desairosa num líder de uma grande nação, não deixou de tirar o
que considerava serem conclusões óbvias: que a Grã-Bretanha devia criar
imediatamente uma segunda frente na Europa e, assim, obrigar a retirada de
algumas das 150 divisões alemãs empenhadas na Frente Oriental. Sua
correspondência com Churchill nessa época está cheia de acusações, apelos e
exigências. "Foi o fracasso da Grã-Bretanha na França que permitiu à
Alemanha invadir a Ucrânia... Os alemães acham que a Inglaterra está apenas
blefando e riem da sua covardia, enquanto transferem divisão após divisão para
o Leste, onde o nosso povo derrama muito sangue defendendo a pátria contra o
crescente poderio dos nazistas... Só quando a Grã-Bretanha abrir uma Segunda
Frente é que teremos certeza da sua amizade... Quando virá a ajuda da
Grã-Bretanha?" (25ª) (25ª) Entretanto, só as
operações britânicas de comandos contra a Noruega fizeram com que Hitler ali
mantivesse 375.000 homens, que poderiam ter sido decisivos na campanha
russa. Com admirável moderação,
Churchill, absteve-se de esfregar amargas verdades nos ferimentos russos.
"Os Estados Unidos, que seu presidente chamava de 'o grande arsenal da
democracia', então começara, pela Lei de Empréstimos e Arrendamentos, a
fornecer armas e carros blindados, navios e munições, à Grã-Bretanha. Muitos
desses suprimentos, embora vitalmente necessários nas batalhas contra
Rommel, na África, e para equipar o exército, em expansão na Grã-Bretanha,
estavam sendo desviados para a Rússia, e Churchill afirmava com paciência e
dignidade, em suas respostas a Stalin que isso era tudo o que se podia fazer
no momento - embora tenha concordado com o Presidente Roosevelt que uma das
nossas metas principais seja a ajuda às populações conquistadas,
desembarcando exércitos de libertação logo que a oportunidade se
apresentar." Naturalmente, a
oportunidade surgiu com o ataque japonês a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de
1941. Os Estados Unidos passaram, imediatamente, de uma neutralidade
simpática à causa Aliada para a guerra. Duas semanas depois, Churchill,
Roosevelt e George C. (26) Marshall (Presidente dos Chefes de Estado-Maior
Conjuntos dos Estados Unidos) reuniram-se em Washington e chegaram a um
acordo sobre "a orientação estratégica de todas as forças das duas
nações, a distribuição de potencial humano e munições, a coordenação das comunicações,
o controle do serviço militar de informações e a administração conjunta das
áreas capturadas". Também se concordou que, "apesar da entrada do
Japão na guerra, nossa opinião é de que a Alemanha ainda é o principal
inimigo, e sua derrota, a chave da vitória. Derrotada a Alemanha, o colapso
da Itália e a derrota do Japão serão inevitáveis." (26) O Congresso dos
Estados Unidos declarou guerra ao Japão em 8-11-41. Imediatamente Hitler
declarou guerra aos EUA, seguindo-se a declaração da subserviente Itália em
11-11-41. Este ato de insânia deixou os "altos dirigentes" alemães
perplexos, e o fato nunca foi digerido pela mente simplória do vistoso
Ribbentrop, porta-voz oficial da declaração, que, sob julgamento em
Nuremberg, constantemente se queixava de que, sem motivo, os Estados Unidos
haviam declarado guerra à Alemanha. Decisão firme; aliás, seu
significado e intenção nunca vacilaram, mas foram algo prejudicados pela
vertiginosa rapidez dos acontecimentos no Extremo Oriente. Cingapura caiu ante
os invasores japoneses a 15 de fevereiro de 1942, seguindo-se a grave ameaça
de que as potências do Eixo pudessem unir-se no Oceano Índico, e, assim, de
um golpe, isolar a India, ameaçar a Austrália e deixar a costa oriental da
Rússia vulnerável. Para conjurar esse perigo era necessário desviar o
principal esforço aliado para deter os japoneses e salvaguardar os campos
petrolíferos da Pérsia. Logo, não era possível, pelo menos naquele instante
do conflito, pensar na invasão da Europa. Na verdade, houve muitos
outros adiamentos, causados principalmente pelas imensas perdas em navios na
Batalha do Atlântico, pelas exigências contínuas que a Rússia fazia de
equipamento para as desesperadas batalhas travadas mês após mês, e pelo
incessante esforço para aumentar as forças necessárias para derrotar Rommel
no deserto. Diante de tantos problemas, era extremamente difícil
conseguir-se o necessário para garantir o sucesso de uma invasão continental.
Todos os Chefes de Estado-Maior concordavam que tentar a invasão com forças
inadequadas seria um convite ao desastre. Os reiterados apelos de Stalin
acabaram por levar Roosevelt a uma promessa insensata, a de que a abertura da
Segunda Frente na Europa seria levada a cabo na segunda metade de 1942.
Churchill, porém, fez restrições à promessa do Presidente americano, numa
nota que dizia categoricamente: "É impossível dizer antecipadamente se
a situação tornará viável esta operação, quando chegar o momento. Logo, não
podemos fazer promessas a respeito". Mas o povo russo já hvia tomado
conhecimento da promessa feita e, durante muitos meses, o comunicado do
Primeiro Ministro britânico criou embaraços para os Aliados e causou irritação
na Grã-Bretanha, onde predominava o sentimento de que promessas devem ser
cumpridas, e não restringidas. Em sua arrogância, Hitler
parece ter-se convencido de que, enquanto mantivesse a guerra às rotas
marítimas, os Aliados jamais realizariam a invasão. Em um dos seus ataques de
fúria, ele gritou para o Feldmarechal Paulus, comandante do Sexto Exército
alemão na Rússia, que "nem a Inglaterra nem os Estados Unidos, separados
ou juntos, podem superar-me em gênio militar - e é isto, e não simples
números, que sempre decide as vitórias." Ao mesmo tempo, ele não poupou
números ao ordenar uma nova ofensiva no setor de Stalingrado, em outubro de
1942, e outra no Sul. As duas fracassaram devido ao maciço contra-ataque
desfechado pelo Marechal Timoshenko, a 19 de novembro de 1942. Em 31 de
janeiro de 1943, Paulus fora obrigado a render-se. Todas as tropas alemães de
reforço, disponíveis, foram enviadas para o Cáucaso, mas os russos também
revelaram habilidade estratégica. Antecipando-se ao movimento alemão, os
reforços foram encurralados. Se a
"Barbarossa", como campanha, foi o ponto decisivo em que Hitler
começou a resvalar para a derrota, a contra-ofensiva de Timoshenko foi o
pivô no qual se equilibrou a retirada final alemã. Tornara-se evidente,
inclusive para Hitler que a maré era agora favorável aos Aliados. Ele
poderia muito bem ter seguido a sentença de Clausewitz: "Aquele que não
poupa o uso de forças, sem considerar o sangue derramado, consegue
superioridade caso seu adversário use menor vigor na sua aplicação".
Mas, nesse caso, seu adversário obedecera inesperadamente o mesmo ditado - e
usara mais vigor. Quem também usou mais
vigor - ou estratégia mais ardilosa - foi o General Montgomery, na África,
sendo seu adversário o General von Arnim, que substituíra Rommel na Tunísia.
Ali, as batalhas finais da campanha africana foram travadas até 12 de maio
de 1942, quando Arnim se rendeu. "A Campanha da Africa do Norte chegara
ao fim", diz Montgomery, "e os sobreviventes do Eixo foram feitos
prisioneiros. Tudo terminara num grande desastre para os alemães; tropas,
equipamento e os suprimentos restantes foram capturados. Muito poucos
conseguiram escapar, graças à eficácia do bloqueio da Marinha Real e da Real
Força Aérea, que fecharam os caminhos de fuga por mar e pelo ar. É inútil
especular por que as forças do Eixo tentaram manter-se na África do Norte...
Do ponto de vista puramente militar não havia justificativa para a sua
manutenção ali, mas talvez houvesse considerações políticas
dominantes." As "considerações
políticas" não passavam do envolvimento de Hitler com seu companheiro
do Eixo, que se revelou uma nulidade. Uma consideração muito mais insistente
era a sua recusa em crer que qualquer coisa que dirigisse pudesse sair
errada. Em várias oportunidades seus generais tentaram convencê-lo a render-se,
quando a rendição era justificada - como às vezes sucede na guerra - para
ganhar vantagens para o futuro. Com mais freqüência ainda, procuraram
demovê-lo do que lhe parecia ser pura loucura em tática militar - como, por
exemplo, a intenção de invadir a França logo após a deflagração da guerra,
em 1939. Nesse e em outros casos, porque o desenrolar dos fatos não se deu
como supunham, colheram o escárnio de Hitler. Seu "generalato" só
foi inteiramente solapado pela sua mania de poder individual quando viu a
Rússia ao seu alcance; e mesmo então, ele poderia ter chegado à conquista, ou
pelo menos poderia ter conseguido um resultado muito diferente na Frente
Oriental, se não tivesse permitido que seu perverso ataque à Iugoslávia
atrasasse o início da operação "Barbarossa" naquelas cinco semanas
fatais. Como as coisas estavam
agora, em 1943, ele em breve veria seus exércitos em retirada em todas as
frentes. A invasão da Sicília começou a 10 de julho e a 17 de agosto estava
terminada. Montgomery, cujo Oitavo Exército, juntamente com o Sétimo
Exército dos Estados Unidos, realizaram a operação, chamou-a de "o
primeiro golpe no ventre do Eixo, na Europa". Foi um golpe bem
sucedido, não só no sentido militar, mas também como medida política.
Mussolini, cheio de ressentimentos por não conseguir influenciar Hitler, e
levado à ignomínia pelos medíocres desempenhos das suas tropas,
enfureceu-se com esse novo insulto ao Fascismo. Seu cunhado, o Conde Ciano,
declarou que ele "disparou uma seqüência de ordens e contra-ordens que
deu a todos a certeza de sua incapacidade para dirigir o país". A 25 de
julho, quando os defensores alemães da ilha foram obrigados a recuar para a
costa norte pelo Sétimo Exército dos EUA, o ditador italiano foi forçado
pelo rei à renúncia e foi imediatamente aprisionado pelo seu sucessor, o
Marechal Badoglio. Este encetou negociações secretas com os Aliados e, a 3
de setembro, quando o Oitavo Exército cruzava o Estreito de Messina para
desembarcar na extremidade da Itália, assinou um tratado de armistício, que
deveria permanecer em segredo até que
se fizessem os desembarques aliados em Salerno. Dias depois (no dia 8),
realizados os desembarques, a notícia da capitulação da Itália foi divulgada. Felizmente para Hitler, os
Aliados não prosseguiram nos desembarques em Salerno com rapidez ou
eficiência - um erro pelo qual Eisenhower, o Comandante-Supremo, seria mais
tarde criticado. A rendição final de todas as tropas alemães na Itália só
ocorreria a 29 de abril de 1945. Mas, apesar da demora, o fato é que, depois
de os Aliados terem garantido um ponto de apoio na Sicília, os exércitos de
Hitler estavam condenados - porque essas e as anteriores operações anfíbias
coordenadas haviam dado ao Comando de Operações Combinadas uma riqueza de
experiências que foram de grande utilidade no lançamento da maior operação
anfíbia de todos os tempos - a "Overlord", a invasão da Normandia. Em Soissons, apenas 32
quilômetros a leste de Compiègne, havia um complexo abrigo, à prova de
bombas, que Hitler construíra para seu quartel-general para a operação
"Leão Marinho", em 1940. Às 9 horas da manhã de 17 de junho de
1944, ele chegou ali para uma reunião com seus generais. Rommel e Rundstedt
estavam lá e o General Hans Speidel registrou a cena: "Estava pálido e
insone, brincando nervosamente com seus óculos e com uma coleção de lápis de
cor que segurava entre os dedos. Estava sentado, encurvado, numa banqueta,
enquanto os Feldmarechais permaneciam de pé. Seus poderes hipnóticos pareciam
haver diminuído. Ele cumprimentou os presentes friamente. Depois, alteando a
voz, falou amargamente dos desembarques Aliados; pelos quais tentou responsabilizar
os comandantes das forças de campanha. A reunião durou até as 16 horas. Ao
meio-dia, Hitler engolira um prato cheio de arroz e legumes, que antes foram
provados. Frascos de remédio estavam alinhados perto dele, e ele os ingeria
um após outro. Dois homens das SS montavam guarda junto da sua cadeira." Tudo indicava o caráter do
homem e o estado da sua saúde física e mental: a rude arenga e a
transferência da culpa dos seus ombros para os dos profissionais que odiava;
a hipocondria; o medo que todo megalômano tem de conspirações (como veremos,
era um temor fundado); e a incapacidade implícita, ainda que temporária, de
enfrentar uma situação avassaladora. Às 6,30 da manhã de 6 de
junho, a primeira leva de cinco divisões invasoras britânicas e
norte-americanas, transportadas em 4.266 navios e barcaças de desembarque,
haviam descido nas praias da Normandia. Haviam sido precedidas, às 2 horas
da manhã, por mais de 3.000 aviões transportando tropas aeroterrestres; por
um ataque aéreo de 2.219 bombardeiros iniciado às 3:40 h e por um bombardeio
naval que começou às 5:50h. Fazendo comboio e cobrindo os desembarques, havia
um total de 702 belonaves e 25 flotilhas de caça-minas; e no ar, 171
esquadrões haviam preparado o caminho antes do Dia D, atacando ferrovias,
pontes e aeródromos. Essa imensa força estava sob o Comando-Supremo do
General Dwight Eisenhower. Em termos de homens em
terra que se opunham a ela, havia uma força muito mais poderosa: 50 divisões
de infantaria e 10 divisões Panzer. Mas estas cobriam uma área imensa -
Normandia, Bretanha, o Passo de Calais, as Flandres, Holanda, a costa da Biscaia
e a Riviera. Na Normandia, havia 9 divisões de infantaria e uma divisão
Panzer. Encarregado dessa força defensiva, e dirigindo-a - tanto quanto
qualquer dos generais de Hitler podia dirigir alguma coisa - estava o
Feldmarechal von Rundstedt, Comandante-Chefe no Oeste. Mas, porque expressara
a Hitler a opinião de que a França devia ser evacuada, e sua guarnição
retirada para a fronteira alemã, a fim de se preparar para a invasão Aliada
que estava evidentemente sendo planejada, Hitler o humilhara, dando
ostensivamente o comando de todas as tropas na França ao Feldmarechal Rommel.
"Nesse dia", diz o General Speidel, "ele maliciosamente
colocou dois feldmarechais um contra o outro, sabendo que eles tinham
opiniões divergentes, mesmo quanto ao método para defender a França. Assim,
eles teriam de depender de Hitler para qualquer solução, demonstrando,
dessa forma, a sua confiança nele". Tendo sido obrigado a
aceitar a decisão de que não haveria retirada para a fronteira alemã,
Rundstedt afirmou que, para se defendera França, a melhor maneira seria
manter o grosso do exército bem afastado da costa, permitir que a força
Aliada tomasse um ponto de apoio e, então, atacá-la por trás das defesas
costeiras com tal potência que empurraria o inimigo de volta para o mar.
Rommel era totalmente favorável à destruição do inimigo durante o desembarque,
para o que ele, naturalmente, exigiria poderosas guarnições de paia,
apoiadas por reservas solidamente reunidas a poucos quilômetros da costa. A solução de Hitler - uma
decisão fatal - era um meio-termo. A julgar pela aparência, isto não era
insensato. A infantaria seria mantida bem avançada e as forças mecanizadas
ficariam na retaguarda. Mas os meios-termos raramente são satisfatórios nos
momentos desesperados; e esta ocasião provou não ser uma exceção. O fato de o
grande general estar aparentemente dirigindo toda a manobra do seu
isolamento, na Toca do Lobo, não ajudava a ninguém. Por outro lado, a sua
determinação de que nenhuma reserva seria lançada na batalha sem a sua
aprovação foi um empecilho que teve conseqüência desastrosa. Contudo, num dos seus
raros momentos de percepção psicológica, ele tornou a provar sua capacidade
como estrategista praticamente pela penúltima vez - a última seria nas
Ardenas, no inverno seguinte - avaliando corretamente o ponto em que se faria
a invasão. Rundstedt julgava que a frota invasora desembarcaria na parte mais
estreita do Canal da Mancha, entre Calais e Dieppe. Mas Hitler, segundo o
General Warlimont, do seu estado-maior, não achava que Eisenhower - de modo
algum um general ortodoxo - faria qualquer concessão à ortodoxia. "Era
muito mais provável", disse Hitler, "que o desembarque, se não for
um gigantesco blefe, ocorra entre Caen e Cherburgo, porque eles precisarão de
um grande porto, e que outro grande porto há por lá"? Nessa
conformidade, Rommel apertou as defesas na área da Normandia. Mas, estar certo na
avaliação prévia de um fato não tem muito valor se se estiver insensatamente errado
na escolha das medidas para enfrentá-lo. Agir como um titeriteiro numa toca
distante, em Berchtesgaden, e restringir a liberdade de ação de seus generais
é o mesmo que cortejar a ruína. A primeira das
conseqüências desastrosas ocorreu antes do Dia D. Rommel só tinha uma
divisão Panzer (blindada) na Normandia, colocada em Caen. Tendo-se
convencido - aliás, não tinha como escolher - do ponto de vista de Hitler
sobre o local do esperado desembarque, ele pedira outra divisão Panzer para
ficar próximo de St. Lô - onde, de fato, teria sido de grande valia para
enfrentar os norte-americanos. Mas recusaram-na. Hitler, tendo-se comprometido
com um método de defesa, estava decidido a manter sua força blindada na
retaguarda, e a força adicional disponível mais próxima estava situada
alguns quilômetros a noroeste de Paris, na outra margem do Sena. Isto de tal
modo incomodou a Rommel, que ele decidiu ir até o QG de Hitler para
dissuadi-lo. Como Hitler proibira que seus comandantes fizessem viagens
aéreas, devido às intensas atividades diurnas da Real Força Aérea, Rommel
viajou por terra, a 5 de junho. Os relatórios meteorológicos lhe haviam assegurado
que os ventos fortes e os mares agitados tornavam improvável qualquer tipo de
invasão. (Eisenhower, na realidade, adiara o Dia D de 5 de junho para 6 por
essa razão.) Portanto, ele primeiro dirigiu-se para sua casa, próximo de
Ulm, para cumprimentar sua mulher no dia do seu aniversário, passando com ela
aquela noite. Quando, na manhã do dia 6, ele se pôs a caminho de
Berchtesgaden, a invasão já começara. Portanto, foi do QG de
Rundstedt na França que telefonaram a Hitler às 4 horas da manhã, tão logo os
desembarques aeroterrestres deram a certeza de que a invasão estava para
começar, recebendo uma resposta indecisa. Hitler ainda dormia e Jodl não se
atrevia a despertá-lo. Ele recusou-se categoricamente a liberar os Panzer.
Estava certo de que os desembarques da Normandia não passavam de um ataque
simulado e que em pouco tempo haveria um desembarque em grande escala no
Passo de Calais, a Leste do Sena - "quando o Panzer Korps de reserva
servirá ao propósito adequado que o Führer lhe reservou". Entrementes, à medida que
um apelo após outro era feito e recusado, os norte-americanos haviam
conseguido fixar-se em duas praias, e os ingleses em uma delas, e, em certos
lugares, haviam penetrado 8 km para o interior. Daí em diante, o desembarque
prosseguiu praticamente desimpedido. Logo, dificilmente seria
de surpreender que, na manhã de 17 de junho, Hitler falasse amargamente
"do seu desprazer ante o sucesso dos desembarques aliados". Já
então a vanguarda garantira a ligação de todas as cabeças de praia numa
frente contínua. Quatrocentos mil homens, 60.000 veículos e 100.000
toneladas de equipamentos haviam sido desembarcados. Os portos
pré-fabricados, chamados "Mulberries", haviam sido rebocados
através do Canal e montados, e instalou-se o "Pluto" - (oleoduto
submarino) para o suprimento contínuo de combustível. O domínio dos ares
era absoluto. "Com tempo bom", diz Eisenhower, "todo o
movimento inimigo cessa durante o dia". Cego à desesperança da
situação, que Rundstedt e Rommel tentaram revelar-lhe, Hitler não fez outra
coisa senão berrar: "Não haverá recuo! Vocês devem ficar onde
estão!" Rundstedt acrescenta: "Ele nem sequer nos permitia mais
liberdade do que antes para o movimento de forças que julgássemos melhor.
Como não alterava suas ordens, as tropas tinham de continuar presas às suas
linhas fendidas. Não havia mais plano algum. Estávamos simplesmente tendando,
sem esperanças, obedecer às ordens de Hitler, de defender a linha
Caen-Avranches a todo custo". As únicas compensações que
ele oferecia aos generais era a nova arma, a Bomba-Voadora V-1, "que
certamente terá um efeito decisivo na guerra se, como tenciono, for dirigida
exclusivamente contra Londres, de modo a convencer os ingleses da
necessidade de pedir a paz". Speidel diz que os dois feldmarechais
sugeriam ironicamente que faria mais sentido dirigi-las contra as praias,
onde os aliados e seus suprimentos continuavam desembarcando. Desnecessário
dizer que a crítica subentendida só fez despertar tremendo acesso de fúria no
Führer. A única coisa que o acalmou foi uma sugestão de Rommel, de que
visitasse o campo de batalha da Normandia para pessoalmente inspirar as
tropas a morrer onde estivessem. Hitler concordou em fazer isso dali a dois
dias, a 19 de junho. A visita não chegou a ser
feita. Ao anoitecer do dia 17, quando a "conferência" com os
generais terminou e Hitler estava sendo levado para Compiègne, onde
pretendia supostamente fazer alguma genuflexão ou se inspirar, uma V-1 a
caminho de Londres acidentou-se e caiu com força destrutiva sobre o abrigo,
em Soissons. Ninguém ficou ferido, mas Hitler, tão alarmado ficou por ter
escapado por um triz, que fugiu com a máxima rapidez para Berchtesgaden. Era
um eco do seu rápido desaparecimento do local do putsch de 1923. A 20 de junho, os russos
iniciaram nova e violenta ofensiva, que destruiu toda a resistência alemã e
em duas semanas cruzara a fronteira da Polônia, passando a, ameaçar a
Prússia. Nada se podia fazer, exceto retirar reforços da Frente Ocidental - o
que dificilmente ajudaria a deter a marcha sobre aquela região. Também o
afastamento de Rundstedt não ajudou muito - Hitler o demitira a 1º de julho,
porque expressara "opiniões derrotistas", substituindo-o pelo
Feldmarechal von Kluge. Aliás, nada poderia agora
alterar o curso dos acontecimentos, exceto um milagre. Os generais de Hitler
não acreditavam em milagres, e muito menos na capacidade do Führer de levar
a Alemanha senão à destruição total. Embora tivesse inspirado ódio em muitos
dos profissionais por quem demonstrara desprezo, foi menos por ódio do que
pelo desejo de terminar a guerra honrosamente para a Alemanha que eles conspiraram
para matar Hitler. A conspiração envolveu
muita gente, mas quem colocou a bomba debaixo da mesa, no quartel-general, do
Führer, a 20 de julho de 1944, foi o Tenente-Coronel Conde Clauss Schenck
von Staunffenberg. Infelizmente, a bomba só causou ferimentos superficiais em
Hitler, o que o levou a dizer a Mussolini, com quem se encontrou uma hora
depois, que a Providência agira novamente, e que sua vida fora salva para
que, por sua vez, pudesse ele salvar a nação alemã. Mas isso fez com que um
medo paralisador infectasse o Alto-Comando nas semanas e meses que se
seguiram, pois a Gestapo de Himmler procurou implacavelmente todos os que
tinham, ou poderiam ter tido, a mais leve ligação na trama, inclusive seus
parentes. Mais de 5.000 foram mortos. Entre os suspeitos estava Kluge, cujo
nome era citado nos papéis revelados pela investigação da Gestapo. "Tudo isso", diz
Liddell Hart em The Other Side of the Hill, "teve o efeito de reduzir
mais ainda a chance que restava de impedir que os Aliados rompessem a
frente Avranches-Caen. Nos dias de crise, o Feldmarechal von Kluge deu apenas
parte da atenção ao que decorria na frente, pois estava sempre olhando
ansiosamente, por cima do ombro, para o QG de Hitler". Dias depois, tudo o que
restava dos exércitos defensivos alemães na Frente Ocidental foi enredado no
"Bolsão de Falaise." Kluge foi demitido e suicidou-se, ingerindo
veneno. Mas não foi a humilhação de ver-se destituído do comando que o
levou à autodestruição: ele supunha - com toda razão - que seria preso pela
Gestapo horas depois. A 29 de julho, o Terceiro
Exército norte-americano de Patton atravessou o Sena. O General Eisenhower
comunicou que agora não havia nenhuma barreira entre ele e a Bretanha, pois o
inimigo estava num estado de total desorganização. A invasão em si
terminara. Segundo o General J. C. Fuller, a "vitória final estava
garantida, independente do que acontecesse em qualquer outra frente.
Entretanto, fora mais que uma vitória: fora uma revolução que destruíra as
bases imemoriais da segurança marítima. Ela mostrou de maneira concludente
que, daí por diante, dados os necessários recursos técnicos e industriais,
nenhuma linha costeira, continental ou insular, mesmo quando fortemente
defendida, estava segura. Ela provou que se tivesse dedicado apenas uma
fração dos recursos à sua disposição entre 1933 e 1939 à solução do problema
de cruzar o Canal da Mancha, Hitler teria ganho a guerra". A vitória final podia muito
bem estar assegurada, mas ainda havia muito tempo para se cometer erros e a
maioria destes foi feito do lado aliado. O avanço para a Alemanha foi
atribulado por curiosas falhas de organização, inclusive por escassez de
combustível. E, no intervalo que pode ser eufemisticamente chamado de
"reaparelhamento, reabastecimento e repouso", os alemães reuniram
umas poucas e fracas divisões, e alguns pára-quedistas espantosamente ativos
e corajosos, e causaram danos consideráveis, apesar dos seus reduzidos
efetivos. Esse atraso limitado levou a outro mais prolongado, durante o qual
se montou uma resistência bastante violenta ao longo da frente do Reno. Dera
oportunidade a isso o choque de idéias sobre estratégia entre Montgomery e,
do lado americano, Bradley e Patton. Eisenhower, naturalmente, relutava em
aprovar sem restrições a estratégia dos líderes britânicos ou norte-americanos
e, uma vez mais, com os resultados tão funestos que Hitler colhera,
recorreu-se a um meio-termo. Houve ali um choque de personalidades que na
verdade nunca foi solucionado, como se veria nas memórias de pós-guerra dos
generais envolvidos: e é difícil ver o que mais Eisenhower poderia ter feito
nas circunstâncias. Ele transformara-se no que Liddell Hart chamou de "a
corda num cabo-de-guerra entre seus principais executivos". Ao mesmo tempo, por mais
que se possa ou não atribuir culpa ao antagonismo pessoal nos altos cargos,
a causa mais profunda do fracasso dos Aliados em completar sua vitória em
setembro de 1944 foi uma espécie de tédio, uma atitude injustificavelmente
otimista de "já ganhamos a guerra; agora, descansemos". Ela parecia
permear as fileiras aliadas de alto a baixo e a isso Hitler reagiu com um dos
seus vislumbres intuitivos de percepção psicológica. Foi o último, mas, com
sua mente já moribunda, ele inspirou o mais audacioso dos contragolpes. Na manhã de 16 de
dezembro, um dia depois que Montgomery enviou a Eisenhower 5 libras para
pagar a aposta de que a guerra estaria terminada no Natal, uma enorme -
"enorme" considerando-se as circunstâncias desesperadas de Hitler
- ofensiva foi desfechada na linda e ondulante região de florestas das
Ardenas. Este era o lugar exato em que Hitler fizera sua penetração na
primavera de 1940, sendo quase incrível que os Aliados, tendo toda a história
da Segunda Guerra Mundial para lhes provar que estavam errados, deixassem
ridiculamente a porta aberta uma vez mais - e pela mesma razão que a França a
deixara aberta antes: porque consideravam as Ardenas uma região inadequada
para o movimento de forças blindadas. Logo ficou novamente claro
que tal região não era inadequada. Hitler montara, de tudo o que pudera
reunir do que restava dos seus tanques, e mais o que fora produzido durante
outubro e novembro, um novo exército blindado, o Sexto Exército Panzer SS
(27). Contra este, espalhadas esparsamente pela frente das Ardenas, havia
apenas 4 divisões que foram rapidamente penetradas por 7 divisões Panzer e
mais 13 de infantaria, do 6º Exército Panzer SS, com efeito devastador. Além
disso, houve o caos - limitado, é verdade - provocado nas linhas
norte-americanas por Comandos alemães que, sob a direção de Skorzeny,
disfarçados com uniformes norte-americanos e usando jipes capturados,
cortaram comunicações, inverteram postes de sinalização, derrubaram avisos
indicando a ausência de campos minados e, em geral, adaptaram-se ao uso perturbador
da técnica do Cavalo de Tróia. (27) O 6° Exército Panzer
SS, composto das divisões 1ª Leibstandarte, 2ª Das Reich, 9ª Hohenstauffen,
12ª Hitlerjugend, e mais 4 Panzerdivisionen do exército, incluindo a famosa
Lehr (Divisão-Escola), sob o comando de Sepp Dietrich, o velho guarda-costas
de Hitler, que mal tinha competência para comandar um pelotão, visto ser
incapaz de ler mapas. Esta foi a mais poderosa grande-unidade de blindados jamais
constituída. O conjunto da campanha foi brilhantemente conduzido pelo velho e
competente feldmarechal Gerd von Rundstedt, que sabia de antemão estar a
guerra perdida. O 6° Ex. Panzer SS, depois de conseguida a ruptura da frente
aliada (novamente através das Ardenas), foi retirado do comando de
Rundstedt, por Hitler, para ser jogado na Hungria à frente do rolo compressor
russo, onde se destroçou diante do Lago Balaton, e ao longo de suas margens,
até seus restos atingirem Budapeste, onde os frangalhos das divisões foram
dispersados. Eisenhower diz que, quando
a notícia do contra-ataque chegou ao seu QG, em Versalhes, na tarde de 16,
ele "se convenceu imediatamente de que não se tratava de um ataque local"
e sem demora alertou as duas divisões que deixara de reserva. Mas estas
chegaram tarde demais ao local para deter o ataque. Por conseguinte, o
colapso final do Reich foi adiado por pouco menos de cinco meses - e por um
custo muito alto para os alemães e para os Aliados, sobretudo para os
norte-americanos, que suportaram a violência do contra-ataque. Não que a campanha das
Ardenas durasse cinco meses. Por volta do dia de Natal, o Terceiro Exército
de Patton havia eviscerado o Sexto Exército Panzer SS e Hitler entregou-se
novamente a devaneios. "A situação sofreu um tremendo alívio",
disse ele a Rundstedt (que então fora reconduzido ao comando). "O
inimigo teve de abandonar todos os planos de ataque. Foi obrigado a reagrupar
suas forças. Teve de usar novamente unidades que estão cansadas, e, na sua
pátria, está sendo criticado e tendo de admitir que não há possibilidade de
se decidir a guerra antes de agosto próximo, talvez não antes do fim do ano
que vem." Devaneios de verdade. A 1º
de janeiro, as forças de Rundstedt estavam em franca retirada, e pelo final
do mês as perdas totais alemães subiam a 70.000 mortos e mais 50.000
prisioneiros, 600 tanques, quase 2.000 aviões e número incontável de
veículos. A intuição do Führer resultara num plano brilhante, mas, como ele
sempre superestimava seu valor e sua capacidade de controlar, também exagerou
flagrantemente o seu poderio militar. Embora os Aliados demorassem mais do
que deviam para se recuperar do choque recebido nas Ardenas, era verdade que
a vitória já fora assegurada muito antes, quando o Exército de Patton cruzou
o Sena e se completou a operação "Overlord". O colapso do Sexto
Exército Panzer SS ocasionou um benefício imediato para os russos, pois na
Frente Oriental nada se podia fazer para impedir o avanço dos seus
exércitos. E, como diz o General Fuller, em qualquer guerra normal "as
hostilidades deveriam ter sido terminadas imediatamente [após a ofensiva das
Ardenas]. Mas devido à exigencia de rendição incondicional, de parte dos
Aliados, a guerra estava longe de ser normal. Amordaçados por esse lema
idiota, os Aliados ocidentais não podiam oferecer termos, por mais severos
que fossem. Inversamente, seu inimigo não podia pedir quaisquer termos, por
mais submissos que fossem. Assim, como aconteceu com Sansão, restava a Hitler
somente destruir o edifício da Europa Central sobre si próprio, seu povo e
seus inimigos. Com a guerra irremediavelmente perdida, sua meta política era
agora o caos e, graças à 'rendição incondicional', ele estava em posição de
alcançá-la". A luta pela dominância entre as potencias ocidentais e
orientais desde o término da guerra é outra história; mas, ao pôr essa luta
em movimento, pode-se dizer que Hitler alcançou sua meta. O que sem dúvida
lhe teria agradado. Como exercício militar, a
guerra prosseguia, a partir desse ponto, a passos largos. Colônia foi
capturada a 7 de março; Frankfurt, a 29; a 20 de abril, aniversário do
Führer, caiu Nuremberg, onde jorrara tão grande parte da doutrina nazista e
onde muitos milhões foram vítimas do fascínio da "personalidade
hipnótica" de Hitler. A 29, todas as tropas alemães na Itália depuseram
as armas. Quase que no mesmo instante, Hitler assinava sua última diatribe,
na Chancelaria em Berlim, enquanto o Exército Vermelho cercava a cidade. Era
um documento em que atacava os judeus, os traidores, os capitalistas - e até
mesmo Himmler e Göring, que, dizia ele, haviam-no traído," passando-se
para os Aliados, envergonhando a nação alemã. Ele denunciou a todos os que o
acusavam de ter objetivos belicosos e, no que provavelmente considerava ser
uma despedida dignificante, acrescentou. "Não posso
esquecer-me da cidade que é a capital desta Nação. Como nossas forças são
pequenas para resistir ao ataque do inimigo neste lugar, e como nossa
resistência será gradativamente desgastada por um exército de cegos
autômatos (os russos), desejo compartilhar do destino que milhões de outras
pessoas aceitaram, e permanecer aqui. Além disso, não cairei nas mãos de um
inimigo que exige um novo espetáculo, encenado pelos judeus para divertir as
massas histéricas." (No dia anterior, Mussolini fora preso ao tentar
fugir para a Suíça, fuzilado por guerrilheiros italianos e exposto ao
opróbrio público.) "Portanto, decidi ficar em Berlim e aqui escolher voluntariamente
a morte no momento em que me convencer de que a resistência do Führer não
mais seja possível." Horas antes, Hitler
casara-se com sua amante, Eva Braun, numa cerimônia bizarra no bunker
situado sob a Chancelaria. No dia seguinte, 30 de abril, às 15:30h, Hitler
tomou de uma pistola e matou-se com um tiro na boca. Eva Braun ingeriu
veneno, matando-se também. O corpo de Hitler foi envolto num cobertor por
Heinz Linge, seu criado de quarto, e, juntamente com o de Eva Braun, foi
ensopado de gasolina e queimado no jardim da Chancelaria. "A visão da
cabeça esfacelada de Hitler", disse um dos guardas da Chancelaria que
testemunhara a pira fúnebre, "era extremamente repulsiva". Foi um fim adequadamente
wagneriano para um homem que se cria o salvador da raça alemã. Se tivesse
sido possível, sem dúvida teria como fundo musical a Entrada dos Deuses no
Valhala. Mas nada mais se ouvia, exceto o fragor das bombas russas
explodindo. O destino de Adolf Hitler - Führer, "nobre lobo" e
"protetor dos Gentios" - consumara-se em chamas, entregue às forças
que ele desencadeara sobre o mundo e sobre si mesmo (28). (28) No dramático cenário
da montanha do Brocken - o Monte Calvo - no maciço do Harz, observa-se o
fenômeno meteorológico do anti-hélio; sombras projetam-se do, sol contra as
brumas que cercam o cume da montanha: é o espectro do Brocken. Segundo a
lenda alemã, é neste local dantesco que os espíritos infernais se reúnem com
as feiticeiras para, juntos, dançarem o medonho sabá, na última noite de abril,
a Noite de Walpurgis. Nessa noite, em 1945, nos fundos de sua devastada Chancelaria,
ateadas pelas mãos de suas dedicadas SS, as chamas consumiam o cadáver de
Adolfo Hitler. Mortes na Segunda Guerra Mundial - (c) civis e militares
(m) Alemanha: 3 500.000 m -
800 000 c Áustria: 230.000 m -
104.000 c Bulgária: 10.000 m -
10.000 c Finlândia: 85.000 mc Hungria: 410.000 m -
280000 c Itália: 330.000 m - 80.000
c Japão: 1.500.000 m -
500.000 c Romênia: 300 000 m -
260.000 c Total do Eixo - 8.399.000 África do Sul: 9.000 m Austrália: 29.000 m Bélgica: 12.000 m - 16000
c Brasil: 1900 mc Canadá: 31.000 m China: 2.200.000 mc Dinamarca: 3.000 mc Estado Unidos: 292.000 m França: 211 000 m - 108
000 c Grã-Bretanha: 397.000 m -
62.000 c Grécia: 73.000 m - 140000
c Holanda: 12.000 m - 198000
c Índia: 36 000 m Iugoslávia: 410.000 m -
1.280.000 c Noruega: 6.000 m - 4.000 c Nova Zelândia: 12000 m Polônia: 320.000 m -
3.000.000 c URSS: 7.500.000 m - 2.500.000 c Total dos Aliados:
18.862.900 Total geral: 27.261.900 |