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“Hitler foi a única figura da História que concebeu e realizou uma grande revolução, da origem a seu termo, partindo do nada para chegar à criação de um grande império mundial. Possuía notável compreensão das forças com as quais se mediu. Foi um fenômeno histórico horrível, mas destacado". O Führer
A versão de Alan Wykes
para o comportamento de Hitler como Líder do Partido e Ditador, de que ele,
quando jovem, fora contaminado pela sífilis, sucumbindo mais tarde aos seus
efeitos terciários - irracionalidade, irresponsabilidade e falta de
comedimento no falar e no agir - tem sido por muita gente contestada. Apesar
disso, há fatos em sua vida, pública e privada, que parecem corroborar tal
versão. Entretanto, na ausência de provas documentais deste episódio da sua
história médica - provas que resistam a um exame judicial - a tese da sífilis
deve continuar sendo apenas tese, embora notável. Todavia, no "período
vienense", em que se supõe tenha Hitler contraído a doença,
indubitavelmente plasmou-se em grande parte a sua personalidade e o gosto
irresistível pela destruição. Sabemos agora que a história de um orfãozinho
pobre, que viveu terríveis dificuldades, que ele conta no seu livro Mein
Kampf, é invencionice. O estado austríaco, pela pensão que lhe pagava como
filho de um funcionário público, dava a Hitler toda a chance de se
estabelecer confortavelmente na vida. Ele não conseguiu estabilizar-se
porque desbaratava o que recebia, e a vida em albergues reles, a que se viu
reduzido, parece ter sido da sua escolha. Por motivos facilmente
compreensíveis quando se reconhece a intensidade do anti-semitismo
predominante em Viena antes da guerra, Hitler culpava os judeus pela sua
falta de sucesso e reconhecimento - não em quaisquer termos formulados com
precisão, pois sua mente nunca funcionou em linhas precisas - mas em termos
que davam aos judeus a responsabilidade por tudo o que era desagradável,
injusto e mal organizado que ele via na cidade e, por extensão, sofria na sua
própria vida. O que despertou Hitler da
rotina que se impôs de frustração emocional e semi-inanição física foi a
Grande Guerra. Ele era nacionalista (embora não fosse patriota,
naturalmente, pois odiava o Império Austro-Húngaro) e aceitou avidamente a
oportunidade que a guerra lhe oferecia de cruzar a fronteira e ingressar num
regimento alemão. Terminada a guerra, sua folha de serviço, sua perspectiva
e ambições políticas e seus talentos naturais muito grandes bastaram para
lançá-lo nos modestos primórdios de uma carreira política, patrocinada pelo
exército alemão. Essa relação seria duradoura, embora o exército
eventualmente viesse a arrepender-se de tê-la criado. Todas as relações de
Hitler com pessoas, órgãos e instituições da vida alemã têm sido
minunciosamente examinadas. Entretanto, nenhuma delas foi tão crítica como as
que manteve com o exército. Este lhe permitiu iniciar-se na política e apoiou
o seu trabalho de organização do novo partido nazista. Os Freikorps, de onde
Hitler atraiu tantos dos seus primeiros e mais dedicados seguidores, não eram
mal vistos pelo exército. Mas, como Hitler viria a descobrir amargamente, o
exército não toleraria tentativas de conquistar o poder sem sua aprovação
específica. Portanto, estava fadado a opor-se à primeira tentativa de Hitler
de se tornar senhor da Alemanha - o putsch de Munique de 1923. Ele jamais se
esqueceu da lição aprendida a 9 de novembro, quando seus camisas-pardas foram
mortos pela polícia: a de que, na Alemanha, o poder pertencia a quem
comandasse o exército. Fracassando em obter o comando pela força, Hitler
passou os anos seguintes tentando consegui-lo pelo voto. Uma vez alcançado o
poder, seus primeiros atos visaram a subordinar o exército à sua vontade e
não descansou até que, em janeiro de 1938, finalmente achou um pretexto para
assumir o cargo de Comandante-Chefe. Dadas a obscuridade dos
seus antecedentes e as dificuldades da sua juventude, é pouco provável que
Hitler pudesse ter sentido simpatia ou estima por um grupo de orgulhosos
cavalheiros, como era o Corpo de Oficiais alemães. Na verdade, o conflito
entre eles era inevitável, pois as idéias dos oficiais sobre a guerra eram
ortodoxas, o que não acontecia com as de Hitler. Daí as dissenções
freqüentes. Os "efeitos especiais" que acompanhavam seus berros -
tremor incontrolável, olhos rolando nas órbitas e boca espumante - pareciam
apoiar a opinião de que Hitler era vítima de doença crônica. Todavia, os que
o conheciam desde o período de Viena atestam livremente que tais
manifestações sempre acompanharam suas reações a qualquer refutação
persistente das suas opiniões. Ele simplesmente não podia ser contrariado,
hábito que não o tornou querido dos seus camaradas nas trincheiras, mais
tarde. Logo, parece provável que, como Führer e Comandante-Supremo, quando
todas as restrições externas ao seu comportamento foram eliminadas, Hitler
tenha simplesmente dado rédeas livres a uma característica natural. Além
disso, ela sempre teve seu efeito desejado: os generais empalideciam - e
calavam-se. |
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A vítima "O forte é mais forte
sozinho" - Hitler Os que dão valor a tais
coisas talvez se interessem em saber que o nome Adolfo se origina das duas
palavras alemãs que significam "nobre lobo". O sobrenome é uma
variação de Hiedler e Hütler, ambos usados pelos antepassados de Adolfo.
Hiedler e Hütler estão ligeiramente associados à expressão "guardião
dos Gentios" - que, considerando-se a perpétua dedicação de Hitler a
odiar e atormentar os judeus, não é inadequada, por mais irreal que pareça. Infelizmente não há nada
de irreal sobre a existência de Adolfo Hitler. Ela começou a 20 de abril de
1889, num pequeno hotel em Braunau, na margem austríaca do rio Inn, que ali
divide a Áustria da Baviera. A 110 km a oeste fica Munique, capital da
Baviera e, atualmente, sinônimo da conferência "Paz em nosso
tempo", na qual o Primeiro-Ministri britânico Neville Chamberlain se
rendeu a Hitler, a 29 de setembro de 1938. A 96 km a leste está Linz, capital
da Alta Áustria, onde Hitler freqüentou a escola e absorveu as noções
pan-germânicas que alimentaram sua xenofobia fanática. O pai de Adolfo, Alois
Hitler, não tinha fobias nem filias. Era um pequeno funcionário público,
lotado no Departamento de Alfândega e Imposto de Consumo. Homem mediano,
cabeça redonda como um repolho, ele batia Hindenburg - na época um jovem,
famoso e belo oficial do Ministério da Guerra Prussiano - no comprimento dos
bigodes, e era inofensivamente vaidoso da sua façanha. Trabalhador
consciencioso, fora infeliz na vida doméstica. Sua primeira mulher morreu sem
lhe deixar filhos; a segunda faleceu jovem, deixando-lhe dois filhos para
criar; a terceira - a mãe de Adolfo - dera-lhe cinco filhos, três dos quais
morreram na infância. Somente Adolfo e sua irmã. Paula, mais o menino e a
menina do segundo casamento de Alois, haviam sobrevivido. Hoje, porém, depois de
tudo o que aconteceu, têm todos o direito de recriminar o destino pela
escolha desastrada que fez. Os Hitler eram católicos
romanos - embora não haja evidências de devoção especial na família - e Alois
teve de obter dispensa papal para casar com a mãe de Adolfo, Klara Pöltz,
porque suas relações de primos em segundo grau estavam dentro dos
impedimentos de consangüinidade. Ele era 23 anos mais velho que Klara quando
casaram, em 1885, e, ao aposentar-se do serviço público, Adolfo tinha seis
anos. No seu livro, Mein Kampf, Adolfo menciona, com a pretensão
característica, que Alois "comprou uma granja que ele próprio
arava". O que Alois realmente comprou foi uma casa de três quartos, com
um pequeno jardim, na aldeia de Leonding, a uns 2 quilômetros de Linz, onde
morreu em 1903. Adolfo Hitler tinha então
14 anos e freqüentava a escola secundária em Linz. Em Mein Kampf ele não é
muito explícito sobre seus tempos de escola, o que não é de surpreender,
pois jamais suportou revelar qualquer coisa a seu respeito que não
contribuísse para um quadro compósito de gênio e nobreza. Na verdade, não se
sobressaiu na escola; tinha um talento medíocre para o desenho e recebia uma
classificação ocasional e relutante de "bom" em história e
geografia. Mas August Kubizek, que foi seu contemporâneo e escreveu The
Young Hitler, diz que ele era ocioso e instável, embora "realmente amasse
sua mãe. Lembro-me de muitas ocasiões em que ele mostrou esse amor da maneira
mais profunda e comovedora durante sua doença fatal (ela morreu de câncer em
1908). Só se referia a ela com profundo afeto. Era um bom filho... sempre
trazia consigo o retrato de sua mãe". Adolfo também inclinou-se
afetuosamente por uma jovem que Kubizek chama discretamente de
"Stefanie". Se quisermos acreditar em Kubizek, Hitler era
pretendente desprezado de Stefanie. A posição social da família da moça era
muito mais elevada que a dele, e ela era levada a passear diariamente de
carruagem pelo passeio público de Linz por sua mãe. Hitler ficava com os
amigos na calçada e procurava lançar-lhe olhares amorosos. Mas, "de vez
em quando, as duas damas eram vistas na companhia de jovens oficiais.
Naturalmente, adolescentes pobres como Adolfo não tinham esperanças de
competir com aqueles tenentes em seus elegantes uniformes... Este fato
despertou nele uma terrível ojeriza pelos militares em geral. Hitler
costumava chamá-los de 'cabeças duras convencidos' e ficava para morrer com o
fato de Stefanie misturar-se com esses vadios que usam espartilho e perfume,
conforme dizia". Kubizek revela que ele
escreveu incontáveis poemas de amor para Stefanie e descreve um no qual
"uma donzela de alta estirpe, num esvoaçante vestido azul-escuro,
cavalgava um corcel branco pelos prados floridos, com seus cabelos caindo em
ondas douradas sobre os ombros. Ainda vejo o rosto de Adolfo afogueado de
êxtase ardoroso e ouço sua voz recitando esses versos. Stefanie de tal forma
ocupava seus pensamentos, que tudo o que ele dizia, fazia ou planejava para o
futuro centralizava-se nela. Com o crescente alheamento de Hitler da sua
casa, Stefanie ganhava influência cada vez maior sobre meu amigo, embora ele
jamais lhe dirigisse uma única palavra". Esse alheamento foi
causado pela determinação de Alois de fazer com que seu filho ingressasse no
serviço público, e pela igual determinação de Adolfo de tornar-se pintor -
que, para ele, era um modo de dizer que não queria trabalhar. Seu reduzido
talento para o desenho aumentara desmesuradamente na sua mente. Ele diz no
seu livro Mein Kampf que, ao falar corajosamente a seu pai sobre o que queria
fazer, Alois replicou: "Artista! enquanto eu viver, nunca!" Ao
olhar as insulsas aquarelas de Hitler, não há como deixar der considerar
justa a indignação de Alois, embora se tratasse mais de uma indignação
social do que estética. O alheamento se
transformou em separação real, após a morte de Alois, mas isso só depois de
alguns anos. Adolfo era ocioso demais para ser bem sucedido na vida escolar,
e sua mãe procurava encorajá-lo, até que ela também morreu. Ele tentara ingressar na
Academia de Belas Artes de Viena, mas não conseguiu passar no exame de
admissão. "Prova de desenho insatisfatória", diz secamente a Lista
de Classificação de 1907. Tentou no ano seguinte e foi novamente reprovado.
Indignado, alegou ter havido "injustiça" e exigiu entrevista com o
vice-reitor, que o dispensou sumariamente, dizendo-lhe apenas para tentar a
Escola de Arquitetura, pois seus desenhos mostravam mais talento para aquele
setor. Mas a Escola de Arquitetura reçusou-o por não ter o Certificado de
Conclusão de Curso Médio. Assim, frustrou-se nele a
esperança de tornar-se o que indubitavelmente julgava ser - o Miguel Ângelo
austríaco. Nesta frustração tem origem o enorme ressentimento que
desenvolveu contra o "sistema" da Academia: o primeiro dos muitos
que viria a remoer. Tendo perdido a mãe, cujos
carinhos e indulgências foram como um bálsamo nos ferimentos que a frustração
lhe abriu, ele mudou-se para Viena. Com seu desconsolo virado às avessas,
via-se como um herói conquistador. "As roupas numa
valise e indômita resolução no coração, parti para Viena. Esperava frustrar o
destino, como meu pai fizera cinqüenta anos antes. Estava decidido a
tornar-me alguma coisa, mas certamente não um funcionário público." Como sabemos, ele
tornou-se de alguma forma um conquistador, que conquistou para a escravidão
milhões de alemães. Mas, por enquanto, não passava de um biscateiro - mal
vestido, mal alimentado e obrigado a viver como podia. Rheinhold Hanisch,
outro biscateiro que o conheceu em Viena, diz que ele usava um velho casaco
preto (presente de um judeu chamado Neumann) que lhe chegava abaixo dos
joelhos, que seus cabelos caíam sobre o colarinho, saindo debaixo de um
seboso chapéu-coco, e que seu rosto magro era coberto por uma barba preta.
"Anos de estudo e sofrimento em Viena" é o título do capítulo pertinente
em Mein Kampf, mas Hitler não diz que seu estudo se limitou a dar nova feição
às idéias de outros homens, ou que seu sofrimento era causado pela própria
ociosidade. Neumann, o judeu, Hanisch,
um homem chamado Siegfried Loffner e dois outros, que aparecem aqui sob os
nomes fictícios de Stefan e Daniel porque ainda vivem, e por motivos que
adiante revelaremos, têm direito ao segredo dos pseudônimos, confirmaram
que Hitler vivia como eles. Carregavam bagagens, limpavam tapetes, chamavam
carruagens, lavavam pratos e remexiam em latas de lixo. Neumann e Hanisch
atuaram como seus "agentes de arte" por algum tempo, acompanhando-o
às lojas e às vezes convencendo os proprietários a encomendar cartazes que
Hitler fazia na hora; ou persuadindo os fabricantes de molduras a colocar
suas açucaradas aquarelas nas vitrinas, onde ocasionalmente as vendiam a
pessoas que gostavam dessas coisas. (Hitler pagou a bondade de Hanisch
acionando-o legalmente pelo desvio de parte de uma soma recebida por um
quadro, sendo ele condenado a uma semana de prisão ao se comprovar o caso.)
Foram estes o "estudo e sofrimento" de Hitler em Viena. Ele
detestava o trabalho regular, preferindo ganhar um dinheirinho e gastá-lo
frugalmente em cafés, onde lia jornais e deitava o verbo com os clientes
sobre política. Ele era muito importuno,
com suas reclamações contínuas de injustiças e ineficiências do
"sistema", com suas informações mal digeridas, extraídas da leitura
indiscriminada e com suas idéias fantásticas para alcançar a fama. E, como
acontece com a maioria dos maníaco-depressivos, era sempre ou taciturno ou
exuberante, arrasando a paz de todo mundo com suas arengas contra os judeus,
os Habsburgos, católicos ou sociais-democratas, ou fechando-se em si mesmo,
recusando-se a falar com quem quer que fosse. Mesmo antes de sair de Linz,
ele já se sabia um embusteiro: disse a Hanisch que muitas vezes falsificara
"velhos mestres", pintando quadros a óleo e levando-os ao forno
para ficarem amarelados e com aparência de antigos. E, com sua habilidade
em oratória barata, ele aprendeu a trapacear também com palavras.
Condimentava banalidades piegas, de tal maneira, com amargura paranóica,
que soavam como as trombetas de um salvador da raça alemã. Ao todo, foram quatro os
"anos de estudos e sofrimentos em Viena". Em 1913 partiu para
Munique, onde esperava sair-se melhor. Mas, entrementes, aconteceu algo de
grande importância. As hospedarias, os
albergues, as criptas, os saguões, parques e igrejas onde Hitler ficava em
Viena são incontáveis, e muitos deles inidentificáveis. Mas um deles, situado
na Meldemannstrasse 27, é sem dúvida um dos lugares onde o pretenso salvador
da raça alemã repousava a cabeça cansada. Ele ficava no XX Distrito
(nordeste) da cidade, próximo do Danúbio, sendo eufemisticamente conhecido
como "Lar de Homens", embora não passasse de uma espelunca. Os pseudônimos
"Stefan" e "Daniel" ali ficaram com ele, sendo pelo seu
testemunho, feito anos mais tarde ao venereologista londrino, Dr. T.
Anwyl-Davies, que se pôde estabelecer os fatos. Stefan e Daniel lembram-se
de uma discussão acirrada, numa noite de abril de 1910. Eles brigaram por
causa de uma garota, uma prostituta judia chamada Hannah, briga essa
provocada por Hitler, que desfrutara dela quando estava sendo paga pelos
outros. Como Hitler já devia a Stefan e Daniel a hospitalidade permitida
pelas suas circunstâncias, a indignação dos dois era plenamente justificada
e eles não relutaram em a lançar-lhe ao rosto, fazendo-a acompanhar de uma
boa surra. Eles o arrastaram para o dormitório, surraram-no e o puseram na
rua. Hitler protestou, praguejou, e eles responderam, atirando-lhe suas
tintas, canetas, pinturas e pincéis. Não o viram mais naquela noite. Passada uma hora mais ou
menos, os dois saíram, desta vez à procura de Hannah, tirando-a do seu ponto.
Ela normalmente comerciava nos portais próximos da Estação de Noroeste - um
comércio cansativo que às vezes envolvia quatro clientes por hora (a 50
heller cada um, cerca de três centavos de dólar pelos valores atuais), e sem
dúvida achava o albergue, com suas camas piolhentas, relativamente
confortável, e seus clientes, Stefan e Daniel, pouco exigentes. Eles se
lembram de que ela muitas vezes ficava uma ou duas horas, tendo subornado o
porteiro, a única pessoa interessada na regra da proibição de entrada de
mulheres, com alguns cigarros, ao entrar, e depois voltava ao seu ponto,
próximo da estação. Nessa noite, eles
observaram que o ligeiro exantema que haviam visto em seu corpo, na última
vez que estiveram com ela, desaparecera. Dificilmente podia-se chamá-la de
limpa, mas, pelo menos, ela não tinha mais o que lhes parecera ser dermatite
calórica ou picadas de pulga no estágio de desaparecimento. Talvez pareça
ingênuo que dois jovens, no final da adolescência e evidentemente promíscuos,
imaginassem que sua consorte tivesse algo tão inocente como picadas de
pulga; mas, embora tivessem ouvido falar de doenças venéreas, seu conhecimento
era vago e por certo nada incluía sobre as manifestações clínicas desses
males. Mesmo que soubessem, eles estavam vivendo - ou melhor, existindo - de
um modo que os teria deixado indiferentes. Sem nada saber, eles se satisfizeram
com Hannah, deram-lhe os cem heller que puderam reunir e mandaram-na embora. Hitler voltou ao albergue
uma ou duas semanas depois. Stefan e Daniel não se opuseram: já haviam
aliviado sua indignação ao surrá-lo e não podiam incomodar-se em aumentar
inimizades. Mas quando Hitler se despiu para matar os piolhos da roupa no
forno do albergue, os dois observaram que, como eles, Adolfo também tinha no
corpo um exantema róseo. Ainda não associavam isso a Hannah, tampouco sua
sensação de mal-estar geral lhes parecia extraordinária, pois não viviam o
tipo de vida que poderia propiciar uma saúde perfeita. Quando, mais tarde, o
exantema se fez acompanhar de várias outras manifestações desagradáveis,
eles recorreram sensatamente a um médico. Ao serem informados do diagnóstico
de sífilis, os dois sentiram-se maliciosamente confortados, ao lembrarem-se
de que Hitler também apresentara o mesmo exantema. Já então ele,
provavelmente, estava no mesmo estado desagradável. Aceitaram o tratamento
que o médico lhes prescrevera, na época um ungüento composto principalmente
de mercúrio, e ficaram imaginando se Hitler também tivera o bom senso de
procurar ajuda médica. Parece certo que não o fez
- pelo menos naquele estágio inicial da infecção, quando o tratamento é
vital. Felix Kersten, médico de Heinrich Himmler, o chefe das SS, apresenta a
prova mais sólida de que Hitler era vítima da doença. A 12 de dezembro de
1942, escreveu ele em seu diário: "Este foi o dia mais
emocionante que tive, desde que comecei a tratar de Himmler. Ele estava muito
nervoso, muito inquieto. Compreendi que algo de extraordinário o atormentava
e perguntei-lhe a respeito. Sua resposta foi outra pergunta: "Você pode
tratar de um homem que sofre de sérias dores de cabeça, tonteiras e
insônia?" "Claro que sim, mas
devo examiná-lo antes que possa dar uma opinião definitiva", respondi.
"Antes de tudo, preciso saber a causa desses sintomas." Himmler respondeu:
"Vou dizer-lhe quem é. Mas você deve jurar que não falará disso a
ninguém e tratará de quem lhe confio com o máximo segredo". Respondi que, como médico,
segredos me eram constantemente confiados; não era uma experiência nova, já
que a discrição era parte do meu dever profistaonal. Himmler então tirou uma
pasta do seu cofre e me apresentou um manuscrito azul, dizendo: "Leia isto.
Aqui estão os documentos secretos com o relatório sobre a doença do
Führer". O relatório tinha 26
páginas e logo compreendi que havia sido livremente extraído da ficha médica
de Hitler, durante os dias em que esteve cego num hospital em Pasewalk.
Esclarecia o relatório que na sua juventude, quando soldado, Hitler fora
vítima de gás venenosso e fora tratado de maneira tão incompetente, que
desde então corria o risco de ficar cego. Também havia, já naqueles primeiros
relatórios, sintomas associados à sífilis. Em 1937 apareceram sintomas de que
a doença evoluía e, no começo de 1942, sintomas de natureza idêntica
mostravam, sem sombra de dúvida, que Hitler sofria de paralisia progressiva.
Todos os sintomas estavam presentes, exceto o da fixidez da visão e a
confusão na fala. Devolvi o relatório a
Himmler, informando-lhe de que infelizmente nada podia fazer, pois minha
especialidade não se relacionava com doenças venéreas. Ele me disse que Morell (o
médico de Hitler) lhe estava aplicandp injeções e afirmava que deteriam o
progresso do mal e, de qualquer modo, manteriam a capacidade do Führer de
trabalhar." Existem muitas outras
provas conjeturais do estado sifilítico de Hitler. É significativo o fato de
que o "Professor" Theodore Morell, o charlatão que se instalara
habilmente como médico pessoal do Führer, entrara para o ménage deste para
tratar de Heinrich Hoffman, o fotógrafo de Hitler, de uma infecção venérea.
Também é significativo o fato de Helmut Spiethoff, um venereologista de
renome, ter sido nomeado para o contingente de médicos de Hitler no começo da
década de 1930 e que os registros das suas consultas foram confiscados pelo
líder nazista Wilhelm Frick, quando Hitler se tornou Chanceler do Reich. E
tanto Heinz Linge, seu criado de quarto, como Karl Brandt, cirurgião da sua
equipe, descreveram sintomas típicos da sífilis em estado adiantado -
desvarios maníacos, paralisia dos membros, hipocondria aguda, coceira contínua
em várias partes do corpo e dores de cabeça e do estômago. Mas é o testemunho que
Stefan e Daniel prestaram a Anwyl-Davies, cuja reputação como venereologista
não poderia ser maior, quem melhor prova que Hitler contraiu a doença em
1910. E o relatório secreto que Himmler mostrou a Kersten dificilmente pode
ser negado, como prova da evolução da moléstia. O germe da sífilis,
Spirochaeta pallida, pode atacar todos os órgãos do corpo, e os desvarios
finais de Hitler são uma indicação quase certa de que o córtice do seu
cérebro fora atacado, tornando inevitável a paralisia geral. Naturalmente, a
possibilidade do estado sifilítico de Hitler e do efeito deste sobre seu
caráter já foi considerada antes, embora sem as provas corroborantes dos
seus companheiros de infortúnio. Mas tem havido relutância - embora não haja
razão compreensível para isso - em aceitar o fato. O estigma social que
ainda subsiste com relação as doenças venéreas dificilmente poderia ter
influenciado os inimigos de um homem como Hitler. Homens realmente mais
importantes que ele foram infectados pela sífilis. Gauguin e Schumann, por
exemplo, ou Beethoven, herdaram-na, e ninguém hesitou em reconhecer os
efeitos da moléstia nas reações e na obra destes grandes mestres. Mas mesmo
um biógrafo de renome como Alan Bullock (em seu Hitler: a Study in Tyranny)
diz que "tais alegações só tem lugar num estudo da carreira de Hitler
se se puder mostrar que (elas) afetaram diretamente seus julgamentos e
decisões políticos." Seja qual for a origem
dessa relutância, parece que já é tempo de superá-la. Já se mostrou, sem que
haja lugar para muita dúvida, que ele estava contaminado. Parece igualmente
certo que não foi tratado a tempo de deter a evolução da doença. A descoberta
de Paul Ehrlich, o "Salvarsan 606", que permaneceu como o
tratamento padrão para a sifilis até o advento da penicilina, em 1943, foi
anunciada ao mundo médico no Congresso de Medicina de Wiesbaden, a 19 de
abril de 1910. Mas esse remédio só passou a ser produzido em massa a partir
de 1912, sendo muito pouco provável que Hitler, mesmo que tivesse procurado
tratamento nos primeiros estágios da infecção, pudesse pagar os honorários
do especialista para um tratamento com a nova droga milagrosa. Não há dúvida
de que ele recebeu toda sorte de tratamento após subir ao poder - a
existência, na corte de Hitler, de venereologista tão eminente como Spiethoff
não deixa dúvida. Mas já então o Spirochaeta pallida minara de modo irreversível
o seu organismo, e nada poderia eliminar o dano que ele causara, pois as
células dos órgãos assim atacados dificilmente se regeneram. Assim, tendo apresentado
mais evidências do que "alegações", é sensato considerar-se essas
provas quando se traça a carreira política e militar de Hitler - da subida
ao poder ao fim ignominioso no bunker sob a Chancelaria, a 30 de abril de
1945, quando a vida do Terceiro Reich terminou, de maneira tão inglória
quanto a do seu fundador, depois de doze anos e quatro meses de infame
existência, em lugar dos mil anos que ele prometera. O homem "Quem quiser viver é constrangido a matar. Martelo ou bigorna. Minha intenção é preparar o povo alemão para ser o martelo". Hitler Hitler deixou Viena na primavera de 1913. Já então sofria
de perturbações gástricas, que sem dúvida eram as primeiras manifestações da
sífilis intratada, e também concentrara dentro de si grau, de quantidade do
sentimento antijudaico que predominava na cidade. Seria fazer uma exceção,
atribuir o anti-semitismo de Hitler ao rancor que ele nutria por Hannah, a
prostituta judia que o infeccionara. Isso dependeria de duas premissas: a de
que ela fora o seu único contato sexual, o que parece improvável, e a de que
ele já então sabia que contraíra a doença, o que não se pode confirmar. Naquela época, Viena estava
carregada de prevenção contra os judeus. Livros e panfletos anti-semitas
jorravam das impressoras - alguns deles pornográficos, a maioria insanamente
falsa em suas acusações, e todos eles estúpidos e insultuosos. A princípio
sua veemência o espantou: "No judeu eu ainda via apenas um homem que
tinha uma religião diferente e, portanto, por motivos de tolerância humana,
era contra a idéia de que ele deveria ser atacado por ter uma fé diferente...
Eu achava que o tom adotado pela imprensa antisemita em Viena era indigno
das tradições culturais de um grande povo." Mas ele não demorou muito
a superar seu espanto. "Aos meus olhos, os ataques ao judaísmo se
tornaram graves quando descobri as atividades judaicas na imprensa, nas
artes, na literatura e no teatro." Ele também descobriu que "nove
décimos de toda a literatura pornográfica, das sandices artísticas e das
banalidades teatrais tinham de ser debitados na conta dos judeus e que não
havia nenhuma forma de obscenidade, especialmente na vida cultural, em que
pelo menos um judeu dela não parlicipasse." Todas essas
extraordinárias descobertas sobre as quais ele arenga no fraseado cediço do
Mein Kampf, foram coroadas pela compreensão de "que os judeus eram os
líderes da social-democracia. Diante dessa revelação, caíram as escamas que
me cobriam os olhos. Minha longa luta interior chegara ao fim." Podemos
ouvir as escamas caindo ao chão, e os gases conflitantes do seu estômago
silenciando. Ele finalmente encontrara no que concentrar sua malignidade. E
não apenas isso. Ao ter sua mente conduzida para a ciência política através
do racismo, ele encontrou um assunto que servia à sua mentalidade e ao seu
caráter. As idéias pan-germânicas, que infestavam o currículo da sua escola
em Linz, agora lhe inundavam a mente com um efeito de remoinho. Daquele
vórtice surgiu a visão de si próprio como o salvador messiânico da raça
ariana - especialmente da parte alemã. Ele expressou essa convicção mil
vezes, e um dos exemplos mais repugnantes dessa expressão está num discarso
pré-eleitoral pronunciado em Viena a 9 de abril de 1938: "Acredito que era
vontade de Deus mandar um menino daqui para o Reich, deixá-lo crescer e
educar-se para ser o líder da nação e levar sua pátria de volta ao Reich... a
mim foi dada a graça... de poder unir minha pátria ao Reich... possa todo
alemão reconhecer a hora e a medida da sua importância e curvar-se
humildemente perante o Todo-Poderoso que... realizou esse milagre pra
nós!" Este era o Hitler
plenamente desenvolvido na sua megalomania. Mas não foi preciso nenhum
milagre do Todo-Poderoso para trazer o embrião "salvador" de 1912
até o Führer megalômano de 1938. Para um homem da sua instabilidade, que
acalentava ressentimentos contra um mundo que não conseguira reconhecer nele
qualquer genialidade e cujo corpo servia de repasto aos destruidores
micróbios da sífilis, todas as circunstâncias em que tal "salvador"
poderia florescer tinham sido criadas pelos signatários do Tratado de
Versalhes. Hitler evitara a
convocação para o exército austríaco em 1913, alegando que se recusava a
servir "com os sujos judeus tchecos e com a escória da monarquia dos
Habsburgos". Ele deixou Viena para fugir ao serviço militar, mas a
polícia perseguiu-o tenazmente com suas investigações e, em janeiro de 1914,
alcançou-o em Munique, onde foi intimado a apresentar-se para o exame
médico. "Fui recusado", diz ele, "devido à má saúde e
debilidade geral". E prossegue explicando que sua debilidade geral era
causada pela "má nutrição resultante dos parcos rendimentos como
artista". Mas em 1938 ele ordenou à Gestapo que descobrisse e destruísse
todos os registros do exame. Seja qual for a razão de o exército
austro-húngaro recusá-lo em 1913, ele foi aceito como voluntário no 16º
Regimento de Infantaria da Baviera a 7 de agosto de 1914, no início da
guerra. Serviu como mensageiro no mesmo regimento durante toda a guerra, foi
condecorado com a Cruz de Ferro (Primeira e Segunda Classes, por nenhuma
razão oficialmente registrada (1), e promovido a cabo. (1) As Cruzes de Ferro,
instituídas na Guerra de Libertação de 1813, só eram concedidas em tempo de
guerra, para ações em combate, e levavam a inscrição do ano de início do
conflito. A concessão da Cruz de Ferro de 2ª Classe a Hitler não suscita dúvidas,
mas, segundo o dossiê secreto que o terrível Heydrich conseguiu preparar
sobre seu Führer, a de 1ª Classe fora conferida apocrifamente por
Ludendorff, após a 1ª Guerra Mundial, para dar mais importância ao político
estreante, que ele desejava favorecer. De fato, Hitler nunca a ostentou antes
de 1925. Durante um ataque inglês à
aldeia francesa de Comines, a 13 de outubro de 1918, Hitler ficou cego. Essa
era a cegueira mencionada no relatório secreto a que Kersten se referiu. Os
ingleses estavam usando gás e na época se pensava que este fosse a causa.
Ele foi mandado para o hospital militar em Pasewalk, onde um oftalmologista,
o Dr. Viktor Krückmann, o examinou e comunicou que Hitler estava sofrendo de
cegueira histérica, e não de qualquer dano causado por gás. "Trata-se
de uma perturbação nervosa muitas vezes indicativa do estágio terciário da
sífilis", escreveu ele. "Sugiro que esse homem seja examinado para
verificar evidências dessa doença e ser tratado nessa conformidade. Ele recuperará
a visão." O que realmente aconteceu.
Mas não há registros do exame subseqüente, feito pela Clínica de Doenças
Venéreas para onde o enviaram. Talvez também tenham sido destruídos pela
Gestapo. O compilador do documento secreto que Kersten examinou pode tê-los
visto, pois Kersten diz que ele se refere a "sintomas associados com a
sífilis". Mas em 1965, Krückmann era de opinião de que eles haviam sido
deliberadamente destruídos por Frick, tal como aconteceu com os registros das
consultas de Spiethoff. Em todo caso, Hitler ainda
estava no hospital de Pasewalk quando se proclamou o armistício, sendo a paz
buscada pelo General Ludendorff, do Alto Comando Alemão, e pelo Chanceler,
Príncipe Max von Baden. "Em novembro",
escreveu Hitler, "a tensão geral aumentou. Então, certo, dia, o desastre
abateu-se sobre nós sem aviso. Chegaram marinheiros em caminhões e nos
incitaram à revolta. Alguns rapazes judeus eram os líderes... Nenhum deles
vira serviço ativo na frente de batalha. Através de um hospital para doenças
venéreas, esses três "orientais" haviam sido mandados de volta para
casa. Agora, suas bandeiras vermelhas estavam sendo hasteadas aqui." Não há qualquer prova,
exceto o desprezo permeado de ódio de Hitler, de que houvesse judeus entre
os citados não-combatentes e "orientais", ou que tivessem estado
num hospital para doenças venéreas. (Ele os teria visto lá?) Os marinheiros
revolucionários eram apenas uma minoria dos amotinados de Kiel que se haviam
recusado a fazer-se ao mar com seus navios para prosseguir numa guerra que já
terminara. Mas este é apenas um exemplo dos preconceitos maníacos de Hitler. Num grande bloco de
palavras mal escolhidas, ele prossegue dizendo que recuperara a visão e mal
podia acreditar que a Alemanha capitulara. "Voltei vacilante e
cambaleando para minha enfermaria e enfiei minha dolorida cabeça entre as
cobertas e o travesseiro... Então fora tudo em vão. Em vão todos os
sacrifícios e privações; em vão a fome e a sede por meses intermináveis; em
vão as horas que ficamos firmes em nossos postos, embora o medo da morte nos
prendesse a alma... ", e assim por diante, numa prolongada saga de
autocomiseração disfarçada em vingativo "mea culpa". Exceto essa
informação incidental sobre o caráter do seu autor, esse capítulo do Mein
Kampf tem uma única frase importante: "De minha parte, decidi então
ocupar-me do trabalho político". (2) (2) O moral entre os
soldados alemães manteve-se muito alto durante toda a 1ª G.M. O pedido de
armistício, negociado secretamente por ordem de Ludendorff desde 10 de agosto
de 1918, concretizou-se pública e repentinamente entre 10 e 11 de novembro,
com grande surpresa e revolta dos combatentes. A atitude geral era: "Mas
estávamos vencendo!..." Da decepção dos soldados da frente surgiu o
mito da "punhalada nas costas", dada "pelos políticos",
que "entregaram" a Alemanha no "Ditado" de Versalhes. A capitulação que tanto
chocara Hitler - de resto toda a nação alemã, que pensava já avistar a
vitória - foi instigada já a 5 de outubro de 1918, por Ludendorff. Naquela
data despachou-se uma nota ao Presidente Woodrow Wilson dos Estados Unidos,
solicitando formalmente as negociações de paz. Wilson respondeu perguntando
se o governo alemão tencionava discutir a paz nos termos dos seus discursos
perante o Congresso e nos quais estavam formulados os famosos Quatorze
Pontos, Quatro princípios e Cinco Específicos. A resposta foi Sim. Desse
modo, Alemanha e Estados Unidos concordaram inicialmente em que as negociações
de paz deveriam basear-se num total de 23 condições estipuladas por Wilson e
que também teriam de ser aceitas pelos demais Aliados. Era uma base instável
para se discutir um Tratado de Paz - sobretudo porque os Aliados não tinham
sequer a mais leve indicação de que os Estados Unidos tinham uma base de negociação
com o inimigo. E tampouco estavam inclinados a aceitá-las, ao saberem das
condições. Cada um dos Quatorze Pontos foi virado e revirado por Clemenceau,
da França, Lloyd George, da Grã-Bretanha e Sonnino, da Itália, cada um tendo
razões - nem todas admiráveis - para emendar os Quatorze Pontos e obter
vantagens específicas para seus países. Mas os Estados Unidos permaneceram
irredutíveis. Os Quatorze Pontos deviam ser aceitos in totum ou eles
concluiriam um tratado de paz em separado com a Alemanha. "Isto foi uma
bomba", diz Richard M. Watt em The Kings Depart. "Lloyd George e
Clemenceau não podiam permitir que os colocassem numa posição de causar um
armistício vitorioso e obrigassem seus países a prosseguir numa guerra agora
insensata - especialmente quando a opinião mundial interpretaria suas
razões para isso como uma recusa cínica de altos princípios, tais como a
liberdade dos mares e a abolição da diplomacia secreta. Eles foram colocados
numa posição de onde não podiam fugir". Agora era a vez de os
Aliados capitularem. Eles aceitaram os princípios wilsonianos, e o
armistício foi celebrado a 11 de novembro. Foi a porta que se abriu para a
conferência de paz de Versalhes. Volumes foram escritos
sobre aquela desastrosa conferência e sobre o Tratado nela assinado depois de
cinco meses de discussões. Em resumo, é necessário dizer apenas que das
condições estipuladas por Wilson e aceitas pelos alemães, apenas quatro foram
finalmente incorporadas ao Tratado. O inimigo derrotado assinara um
armistício cujos termos, quando da assinatura do Tratado, haviam sido
distorcidos a ponto de se tornarem irreconhecíveis. Durante os cinco meses de
discussões, revelaram-se atitudes de rancor, cobiça e desejo ardente de vingança
que, embora compreensíveis de certa maneira, só poderiam levar a contendas
no futuro - por mais que se pudesse adiar o choque. Lord Keynes escreveu sobre
os plenipotenciários das 32 nações reunidas em conferência: "O futuro
da Europa não lhes interessava; seus meios de subsistência não os
sensibilizavam. Suas preoaspações, boas e más, relacionavam-se com
fronteiras e nacionalidades, com o equilíbrio de poder, com engrandecimentos
imperiais, com o futuro enfraquecimento de um inimigo forte e perigoso, com
vingança e com a transferência dos seus insuportáveis ônus financeiros para
os ombros do vencido!" E como outra denúncia ao
Tratado, o Primeiro Ministro da Itália, Nitti, escreveu mais tarde:
"Permanecerá para sempre como um terrível precedente na história
moderna o fato de que, contra todas as promessas, todos os precedentes e tradições,
os representantes da Alemanha nunca foram ouvidos; a eles nada restou senão
assinar um tratado num momento em que a fome, a exaustão e a ameaça de
revolução tornavam impossível não assiná-lo... Na velha lei da Igreja estipulou-se
que todos devem ter o direito de ser ouvidos, até mesmo o demônio. Mas a
nova democracia, que se propunha criar a Liga das Nações, nem sequer obedeceu
os preceitos que o obscurantismo da Idade Média considerava sagrados em nome
do acusado". Foi no cenário criado
pelos escombros de acordos violados, por estadistas tirânicos, pela força à
boca da pistola e pela perigosa humilhação de uma nação vencida, que Hitler,
o homem do destino, apareceu para "ocupar-se de trabalho político". A maior qualidade de
Hitler - e, no seu campo, equivalia a gênio - foi sua percepção psicológica.
Vendo-se como um homem rejeitado pela sociedade, e ignorando cegamente o
fato de que essa rejeição era causada por sua natureza nada cativante, ele
pôde facilmente identificar-se com as massas de uma nação que, apenas
procurando uma paz honrosa, fora pisoteada e reduzida a pó pelo Tratado de
Versalhes. A humilhação é a mais perigosa das punições a se impor a uma
nação cujo caráter não é abjeto; e um homem que pode manipular as emoções de
um povo obrigado a prostrar-se não pode deixar de ser ouvido. Sobretudo nas
circunstâncias que afligiam a Alemanha do pós-guerra. Mas, de modo algum,
ouviram-no imediatamente. Mesmo um gênio nato tem de ser guiado por um
caminho proveitoso. No tocante a Hitler, o caminho era através das tavernas
de Munique, onde, em 1919, ele fortuitamente se encontrou no meio de homens
que mais tarde se tornariam famosos como seus mestres e associados - Dietrich
Eckart, Ernst Röhm, Alfred Rosenberg, Rudolf Hess, Anton Drexier, Karl Harer
e Gottfried Feder. Aqueles homens - um poeta, um soldado, um arquiteto, um
político disfarçado em consultor militar, um serralheiro, um jornalista e um
economista meio doido - estavam todos afundando numa viscosa confusão de
noções revolucionárias ilegítimas para salvar a Alemanha do desastroso
estado de coisas criado pela guerra e pelo "Tratado de Paz" Era Eckart quem se
preocupava interminavelmente com a formação de um "Partido do Cidadão
Alemão" para neutralizar a influência dos bolchevistas e judeus, e que
descrevia o caráter do homem que deveria liderá-lo: "Devemos ter um
sujeito na cúpula que não trema com o matraquear de uma metralhadora. A turba
deve receber um susto daqueles. Um oficial não serve, as pessoas não os
respeitam mais. O melhor seria um trabalhador metido numa roupa de soldado e
que seja linguarudo. Ele não precisa ser muito inteligente; a política é o
negócio mais imbecil do mundo, e qualquer feirante de Munique sabe tanto de
política quanto aqueles que estão em Weimar (a capital). Preferiria ter um
moleque estúpido e presunçoso, que possa dar uma resposta vigorosa aos
vermelhos e que não corra toda vez que o ameacem com uma perna de cadeira, do
que uma dúzia de doutos professores que se sentam trêmulos nos fundilhos
molhados dos fatos. E ele também deve ser solteiro. Então conquistaremos as
mulheres!" Mas foi Anton Drexler quem
realmenre fundou o partido que Hitler viria a liderar, o Partido dos
Trabalhadores Alemães, um grupo amorfo e estático de quarenta membros e um
capital de 7,50 marcos. Foi ao comparecer a uma das suas débeis reuniões
políticas, a 12 de setembro de 1919, que Hitler falou com tal veemência que
Drexler o persuadiu a filiar-se ao Comitê dos Seis. Ele fora enviado à reunião
como pequeno espião a serviço do comando do exército de Munique, que estava
sondando à procura de atividades políticas subversivas. Mas o que ele
realmente descobriu foi a oportunidade da sua vida. Ali estava uma
organização sem rumo, mal dirigida e cheia de joões-ninguém, e embora ele
próprio fosse um joão-ninguém, tinha idéias muito melhores do que as que
estavam em debate, e logo viu a possibilidade de impô-las a um grupo que
carecia de liderança, energia e membros.(3) (3) Hitler juntou-se ao
Partido como o sétimo membro do comitê. Sendo o 7 um número místico,
especuladores do ocultismo vêem grande significação no fato. É certo que
houve sempre muita influência mística, iluminista e ocultista entre os fundadores
do nazismo, notadamente quanto ao "inconsciente coletivo". Drexler,
fundador do Partido dos Trabalhadores Alemães, pertencia à sociedade secreta
"Thule" (cujo símbolo era a suástica circular), fundada pelo
renomado ocultista barão Rudolf von Sebottendorff, filho de um maquinista
ferroviário, fundador do jornal Vülkischer Beobachter, que se tornaria órgão
oficial nazista. Outros membros notáveis da "Thule", conhecidos,
eram os príncipes de Thurn und Taxis, Max Sesselmann, Alfred Rosenberg, W.
Rohmerder, presidente da Associação Escolar Alemã, Heinrich Jost, Rudolf
Hess, Hans Frank. Karl Fiehler, Gottfried Feber. Dietrich Eckart. Dessas
conexões esotéricas originaram-se as idéias confusas de Himmler sobre sua
Ordem Secreta dentro das SS. Assumiu o comando quase
que de imediato; implicitamente, senão por título; e três meses depois foi
nomeado Oficial de Propaganda. Ele efetuou a fusão de vários outros movimentos
minoritários - cujas metas eram, vagamente, a execução prática de uma
política de anti-semitismo e anticomunismo e o não-cumprimento das condições
opressivas do Tratado de Versalhes. E ampliou o título para o grandioso
Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (Partido Nacional Socialista
dos Trabalhadores Alemães), de cuja primeira palavra se cunhou a abreviatura
Nazi. O destino do Partido Nazista e, subseqüentemente, do Terceiro Reich,
durante os 25 anos seguintes, é o destino de Adolfo Hitler. O demagogo "O fundamento da autoridade reside na popularidade"- Hitler Assim como Hitler, o
Partido estava doente. Era a doença da vanglória. Os interessados no estudo
das teorias do racismo podem examinar os sintomas apresentados por grandes enfadonhos,
como Thomas Wolfe, Houston Stewart Chamberlain, o Conde de Gobineau e Richard
Wagner, o sogro de Chamberlain. Todos eles, reconduziam aos mitos dos
heróicos Siegfrieds arianos, aos horríveis e racionalmente inferiores Alberichs
e a Valhalas próprios para moradas dos deuses alemães triunfantes. Gente
insatisfeita com a realidade cria lendas e as desgraçadas realidades do Tratado
de Versalhes e da República de Weimar obrigavam a toda a sorte de queixas
doentias, precisando apenas do conforto de um charlatão revelador para
aliviar o mal-estar. O "filósofo" Houston Stewart Chamberlain,
depois de ter suas botas untuosamente polidas com a admiração velhaca de
Hitler, declarou: "O fato de que na
hora da sua maior necessidade a Alemanha deu à luz um Hitler prova a sua
vitalidade." O que na verdade provou
foi a incapacidade de o Partido apresentar qualquer alternativa para a
situação a que a Alemanha fora reduzida pelo espírito vingativo do Tratado de
Versalhes, que não o Valhala falsamente fascinante agora revelado em
prestigiosos vislumbres pelos métodos de marketing do seu salvador tipo
"flautista de Hamelin".(4) (4) A velha lenda alemã do
flautista misterioso que salvou a cidade de Hamelin (Hameln) dos ratos, que
se afogaram seguindo o som de sua flauta. Da ingratidão dos habitantes o
flautista vingou-se, atraindo, com o som mágico da flauta, todas as crianças
da cidade, que o seguiram e desapareceram para sempre. A similaridade
alegórica com o fenômeno Hitler é exata. Da mesma forma que Hitler
assumira o comando dos joões-ninguém do Partido Operário Alemão em 1919, em
1923 ele já tinha atrás de si uns 55.000 alemães desorganizados - na maioria
do Sul - que, por serem caracteristicamente maleáveis, foram facilmente
moldados no agressivo padrão nazista. Sua primeira tentativa de agressão
franca foi cercar-se de um grupo de valentões e invadir um salão em Munique,
onde um grupo rival realizava uma reunião política. Hitler disparou tiros de
pistola para o teto, berrou que o governo bávaro estava deposto e que ele era
o líder do novo Reich. Compreensivelmente, esse golpe dramático falhou (mas
por pouco) e, para salvar as aparências, ele preparou uma marcha de
demonstração no dia seguinte, 9 de novembro de 1923. Aquela marcha, que ele
liderou lado a lado com Ludendorff, encontrou resistência policial, havendo
troca de tiros de ambos os lados. Hitler fugiu, deixando os corpos de 16
nazistas na Odeonplatz. Mais tarde os mortos seriam transformados nos
grandes mártires da causa nazista, e Hitler justificaria seu desaparecimento
covarde da refrega, explicando que "arrancara uma criança indefesa da
linha de fogo". Não havia criança alguma, e, se houvesse, Hitler não
poderia tê-la carregado, porque, antes de fugir, ele caíra feio, deslocara o
ombro direito e quebrara o braço esquerdo.(5) (5) O apoio do
Feldmarechal Erich Ludendorff a Hitler parece transcender as razões
políticas, e basear-se sobretudo em causas místicas. Ludendorff era o verdadeiro
senhor da guerra, de 1916 a 1918. sob a sombra prestigiosa do comandante
nominal, o já velho Hindenburg, que colhia os louros. Com a paz, Ludendorff
retirou-se para a Suécia, onde se entregou a práticas ocultistas. Ele já era
secretamente um Irmão Morávio, e conduzia a guerra - às escondidas - segundo
o calendário místico daquela estranha seita, com grande sucesso, aliás. O resultado direto do
putsch de 9 de novembro foi a prisão, julgamento e condenação de Hitler a
cinco anos de prisão, sendo confinado com todo o conforto na fortaleza de
Landsberg. Concederam-lhe alimentação especial, permitiram-lhe receber
visitas, ter um quarto confortável, flores, um secretário particular e
exercício ilimitado no local. Ele foi libertado depois de oito meses, pois
seu discurso de defesa perante o Tribunal do Povo de Munique fora tão cheio
de patriotadas pomposas e vazias que só deram o veredito de
"culpado" depois que o presidente garantiu que o acusado em breve
seria perdoado. Durante a prisão ele
escreveu o tedioso Mein Kampf. (6) O Partido fora proscrito, mas sua
renovação sub-reptícia fora motivo de muita briga entre os principais
adeptos de Hitler - Strasse, Streicher, Röhm, Rosenberg, Ludendorff, Feder
e Frick - que lutaram pelo cadáver político como hienas. Hitler dissociou-se
altaneiramente dos seus desacordos sobre metas e liderança e dedicou-se à
vida literária, ditando grande parte do Mein Kampf a Rudolf Hess, que
funcionava como seu secretário (7). Ele não queria que o Partido revivesse
sob a liderança de outra pessoa. Esperou até ser libertado condicionalmente e
então convenceu o Ministro da Justiça bávaro a permitir a remodelação do Partido
e o reaparecimento do seu jornal, o Volkischer Beobachter ("Observador
Popular"). Sua persuasão se baseava no reconhecimento, por parte de
Hitler, de todos os seus erros passados e numa declaração de que os nazistas
tinham apenas o objetivo de combater o marxismo e o judaísmo. Houve uma
viscosa reconciliação entre ele e alguns dos rixentos líderes e o Partido
reapareceu como uma força. (6) Originariamente o
livro chamava-se "Minha Luta de ½ anos contra Embustes, Falsidades etc.
etc.". Seu editor, F. Eher, posteriormente reduziu o título para
"Minha Luta" (Mein Kampf ). Este livro enfadonho, confuso mas
revelador, tornou-se, lógico, um best-seller. Era obrigatoriamente
presenteado pelo Estado aos noivos, em todos os casamentos realizados na
Alemanha nazista. Hitler vangloriava-se de nunca retirar seus vencimentos
como Chefe do Estado, vivendo exclusivamente dos direitos autorais; sua longa
luta contra o imposto de renda foi, naturalmente, sobrestada durante o
período em que esteve no poder, mas foi ressuscitada após sua morte, contra
os herdeiros. (7) Consta que seus
companheiros de prisão em Landsberg o convenceram a escrever p Mein Kampf
para se livrarem de seus soporíferos monólogos políticos. Mas durante muito tempo
ele foi uma força extremamente ineficaz. Embora tivesse cedido aos apelos de
Hitler, o Ministro da Justiça não foi tão estúpido a ponto de lhe permitir fazer
discursos. Isso foi muito sensato, pois era apenas a personalidade mesmeriana
projetada através dos discursos histéricos que fazia seguidores para o
Partido. Mas essa sensatez não pôde ser mantida. A proibição dos discursos
de Hitler foi anulada em maio de 1927 e o culto semi-religioso do salvador
difundiu-se entre os milhares que o ouviam com uma histeria só comparável à
dele - uma histeria que, como dizia o próprio Hitler, não era involuntária e
sim "uma tática baseada no cálculo preciso de todas as fraquezas
humanas, cujos resultados devem levar, quase que matematicamente, ao
sucesso". O que realmente aconteceu.
Ele era um estuprador usando palavra como um falo. Eckart por acaso acertara,
ao traçar o perfil do líder: "Ele deve ser solteiro. Então
conquistaremos as mulheres!" Na realidade, para ele as massas eram
"mulheres". Piadas grosseiras eram feitas sobre sua afirmação de
que, depois de um grande discurso, ele ficava "enxarcado"; mas é
verdade que ele experimentava um delírio orgiático - "um
substituto", como diz Joachim Fest, "para a experiência emocional
que lhe permanecera proibida em toda a sua monstruosa egofixação. E
possivelmente, a se aceitar que ele era um estuprador, também era um ato de
vingança contra a sifilítica Hannah. No Mein Kampf, ele escrevera febrilmente
sobre a sífilis e sobre a genética judaica e também isso pode ter sido uma
vingança inconsciente - ou mesmo deliberada - mais contra uma pessoa do que
contra uma raça. Quanto às relações sexuais
mais normais, tem havido muita especulação sobre as explorações de Hitler,
nesse campo, mas são muito poucos os fatos em apoio das mesmas. Na sua
juventude houve a inatingível Stefanie e a facílima Hannah; na meia-idade
houve sua amante, Eva Braun, com quem se casou como prelúdio ao pacto de
suicídio que pôs fim às suas vidas. E no período de ascensão do Partido, em
fins da década de 1920, ele viveu com sua sobrinha Geli Raubal, filha da sua
meia-irmã. Em 1931, Geli matou-se, com um tiro, no apartamento de Hitler,
que pareceu inconsolável durante algum tempo; mas isso nada prova, exceto
uma fixação emocional numa jovem vinte anos mais moça que ele e a quem
submeteu tiranicamente a um estado de sujeição neurótica (8) Devido ao
efeito deteriorante sobre sua mente e seu corpo, o breve encontro com Hannah
é de enorme importância, mas todas as outras informações incidentais sobre as
atividades sexuais de Hitler podem passar para o campo da conjetura. (8) De fato, não há provas
de que seu caso Geli (Angelika) Raubal tivesse passado do âmbito platônico.
Hitler na época ainda estava em posição muito vulnerável para poder ocultar
de seus inimigos políticos quaisquer deslizes escandalosos, que lhes daria
excelente matéria de desmoralização. Cumpre notar também que a mãe de Geli, Angela
Maria, meia-irmã de Hitler, após o suicídio da filha, continuou por muitos
anos em sua companhia, como governanta, em Munique e, depois, no Obersalzberg
(Berchtesgaden), embora fosse, como o Führer, de gênio muito intratável. Em contraposição, o que se
afirma sobre a influência mesmeriana e, o crescimento do Partido sob a
liderança de Hitler é apoiado por fatos. Havia pequenas discordâncias
dentro da organização - sobretudo centralizada nos reles Camisas-Pardas da
SA, recrutados entre os ex-soldados que formavam o pequenino exército
permitido pelo Tratado de Versalhes e que demonstravam mais entusiasmo
militar do que político, o que, na época, em nada servia às intenções de
Hitler (9). (Ele lhes permitiu que se engasgassem em seus próprios brados de
guerra e, por volta de 1929, criara seu próprio corpo de elite, sob a
sinistra liderança de Heinrich Himmler. As SS - Schutzstaffeln (Quadros de
Defesa), guarda pessoal de uniforme negro - tinham bastante entusiasmo
político e jurou obediência absoluta. Foi através delas que Hitler dominou o
Partido, a nação e as forças armadas.) Apesar, porém, dessas desavenças
internas, o Partido ampliou seu domínio sobre o país. Tendo caído para
17.000 membros em 1926, a restauração do direito de palavra de Hitler, em
1927, rapidamente elevou para 60.000 o número de membros, Por certo, pode-se
inferir que em 1928 o número de seguidores, senão de membros reais, do
Partida havia dobrado. (9) Apesar de especulações
que atribuem à escolha da cor parda (Braun) para as camisas do Partido
Nazista razões patológicas e mesmo coprológicas, o motivo foi acidental.
Rosshach, sturmhahnführer das SA, em 1924 descobriu a baixo preço, na
Áustria, enorme estoque de camisas pardas, produzidas durante a guerra para
envio às tropas alemães que lutavam na África Oriental (Tanganica). Mas foi com a crise
financeira norte-americana de 1929, e a subseqüente depressão econômica no
Ocidente, que Hitler e o Partido Nazista alcançaram a vitória. Sob a
República Constitucional (chamada de Weimar, pela nova capital da Alemanha),
que Hitler chamava variadamente de "república da traição",
"os criminosos de novembro" e "os traidores infestados de
judeus", jorrara dinheiro norte-americano para a Alemanha. O marco
fora estabilizado, as forças aliadas se haviam retirado da Renânia e a
produção industrial aumentara a ponto de reduzir o desemprego a pouco mais de
meio milhão. Contra essa prosperidade os nazistas tinham poucas esperanças
de sucesso com suas profecias sinistras do próximo desastre financeiro. Eles
conquistaram menos de 1 milhão de votos nas eleições de 1928 e tinham apenas
12 membros no Reichstag, o Parlamento Nacional. Mas com o colapso financeiro
de Wall Street, em 1929, veio o desastre. A impossibilidade de a Alemanha reembolsar
as iníquas reparações exigidas pelo Tratado de Versalhes e os juros sobre os
empréstimos a curto prazo que os Estados Unidos, tontos com seu próprio
poder, haviam concedido com tanta facilidade, levaram a um endividamento
econômico imediato. A Alemanha se parecia com o homem que vivia operando sua
conta bancária a descoberto e que de repente se vê privado de crédito. Por
volta de 1932, havia 5 milhões de desempregados. O mal da desesperança
espalhou-se por todo o país. Alimento, agasalho e abrigo fugiam do alcance do
povo com terrível freqüência e mesmo que o arrimo de família estivesse
trabalhando, era pouco provável que fosse em tempo integral. As poupanças
sumiram numa onda de exploração e num esforço desesperado para pagar
hipotecas de fazendas e casas. E, como diz Alan Bullock em
Hitler: a Study in Tyranny: "Como se o país
houvesse sido varrido por um terremoto, milhões de alemães viram a
estrutura aparentemente sólida da sua existência fender-se e ruir. Em tais
circunstintàas, o homem deixa de ser suscetível aos argumentos da razão. Em
tais circunstâncias, todos se deixam tomar de medos fantásticos, ódios
extravagantes e esperanças igualmente extravagantes Em tais circunstâncias,
a extravagante demagogia de Hitler começou a atrair seguidores em massa, em
quantidades sem precedentes". Aquela massa de
seguidores, juntamente com a incapacidade dos seus oponentes de competir
com seus métodos de propaganda, e fortalecida pelas suas próprias intrigas
astutas para subverter - pela ameaça, suborno, assassinato ou outro método
que servisse ao propósito - os esforços dos membros do Partido que estavam
brigando pelo poder levaram Hitler ao cargo de Chanceler do Reich alemão em
janeiro de 1933. Com a morte do Presidente von Hindenburg dezenove meses
depois, ele anunciou - com a coagida concordância dos que, de certa maneira,
haviam tentado impedir sua subida ao poder - que os cargos de Presidente e
Chanceler estavam agora reunidos e que ele próprio era o supremo governante
do Estado e Comandante-Chefe de todas as forças armadas (10). (10) O cargo de Chanceler
do Reich. na Alemanha, equivale ao de Presidente do Conselho de Ministros ou
Primeiro Ministro, sendo, pois, o mais alto posto executivo. O regime
alemão, tanto na monarquia como na república, era parlamentarista, através do
Reichstag, ou Dieta Nacional, ficando a chefia do Estado com o Imperador
(Kaiser) e depois com o Presidente. Com a morte do Presidente Hindenburg,
Hitler, desdenhando o título presidencial - ou melhor, evitando as
dificuldades legais em obtê-lo - declarou, por decreto, a coincidência das
funções de Chefe do Estado e de supremo executivo no cargo de Chanceler do
Reich, ao qual fazia sempre antepor seu título partidário de Führer. Assim,
instituía na prática o Führerprinzip de Rosenberg e outros, princípio pelo
qual só cabe à nação seguir as diretrizes indicadas pelo Führer, que encarna
o espírito norteador de todas as aspirações da alma coletiva da nação - no
caso nazista, também da Raça - personalidade sagrada que se sobrepõe a todo
o individualismo, cujas manifestações são "cancerosas" e devem ser
extirpadas implacavelmente. A tese do Führerprinzip foi muito invocada nos
julgamentos dos criminosos de guerra nazistas, para exculpá-los de qualquer
responsabilidade pessoal. Sua primeira ordem ao
exército foi para que fizesse um voto de fidelidade e obediência a ele
pessoalmente - não à Constituição ou ao país: "Por Deus eu faço
esse juramento sagrado: prestarei obediência incondicional ao Führer do
Reich e do Povo Alemão, Adolf Hitler, o Comandante-Supremo das Forças
Armadas, e estarei pronto, como um bravo soldado, a dar minha vida, a
qualquer momento, pelo meu Führer" (11). (11) Para o texto dos
juramentos das SA e das SS, ver Notas do Livro "Waffen-SS", das
Tropas. Assim, em agosto de 1934,
Adolf Hitler passou a dispor de poder absoluto. Os efeitos corruptores desse
poder em breve se tornariam visíveis. A crueldade pessoal de
Hitler para com rivais ou dissidentes fora demonstrada de maneira chocante num
expurgo realizado cinco semanas antes. A 30 de junho, ele ordenou a execução
de Ernst Röhm e outros líderes dos Camisas-Pardas que haviam tentado uma
revolta. Houve massacres por toda a Alemanha; o ex-Chanceler, General von
Schleicher, e importantes oficiais do exército, funcionários públicos e
católicos romanos foram assassinados. Os assassinos eram os homens de negro
das SS que, com a Gestapo que tinham absorvido, daí em diante viriam a ser
os principais executores das maquinações de Hitler. Política e socialmente,
havia formas menos sanguinárias mas igualmente eficazes de crueldade. Todo o
sistema parlamentar da república de Weimar foi dissolvido. Todos os partidos
políticos, exceto o nazista, foram proibidos; a criação de qualquer tipo de
organização política não-nazista era passível de prisão em campos de
concentração; a liberdade de expressão cultural nas artes e na literatura
deixou de existir; os direitos civis e a igualdade de cidadania foram
suprimidos e se introduziu o "sistema de líder" ou Füherprinzip -
um Führer todo-poderoso na cúpula e incontáveis Führers menores pisoteando a
cabeça dos seus inferiores hierárquicos, até o cidadão comum, o qual devia
obedecer até encontrar alguém inferior para liderar. A Igreja e a imprensa
foram revolucionadas. Somente a versão nazista da história era contada, só
se tolerava a religião da propaganda antijudaica, a imprensa era o porta-voz
do nazismo e nenhuma outra voz podia ser ouvida. Durante quatro anos,
Hitler organizou o estado nazista numa máquina diplomática e militar que
violava a maioria das cláusulas do Tratado de Versalhes. Ele criou a
Luftwaffe, (12) introduziu o alistamento militar compulsório, ocupou com
suas tropas a Renânia desmilitarizada pelo Tratado de Versalhes; (13) retirou-se
da conferência mundial do desarmamento, abandonou a filiação da Alemanha à
Liga das Nações, celebrou uma prestigiosa concordata com o Vaticano e um pacto
de não-agressão com a Polônia - ambos destinados a dar tempo para que seus
desígnios amadurecessem e não para dar quaisquer vantagens políticas para a
Itália, ou a Polônia. (12) A Luftwaffe (Arma
Aérea) foi desde o início comandada pelo Reichsmarschall Göring. Compreendia
a arma pára-quedista alemã e a artilharia antiaérea, tendo ainda enormes
contingentes de infantaria que lhe permitiram a formação de várias divisões
de campanha. Isto não se devia a novos conceitos táticos, mas sim a uma
contraposição política ao poderio do exército. A Luftwaffe era a arma de
preferência dos jovens nazistas, e seu fanatismo ao Führer era total. Só
mais tarde foi suplantada em popularidade e destaque pelas Waffen-SS. A
Legião Condor, que serviu a causa de Franco na Guerra Civil Espanhola,
pertencia à Luflwaffe. (13) A ocupação da Renânia
foi feita com "pedacinhos de tropas", sendo empregadas até bandas
de música isoladas, como a do Leibstandarte SS Adolf Hider, a guarda pessoal
SS, pois o Exército teve de lançar mão de todos os seus fracos contingentes
para assumir os dispositivos de defesa do território, à espera da possível
reação militar francesa. O Estado-Maior-Geral seguia de Berlim os
acontecimentos no maior pânico. Sabia que a mínima reação francesa - o envio
de três regimentos de infantaria em guarnição nas proximidades - seria mais
que suficiente para expulsar os "invasores". Mas, inquirido pelo
governo francês, o Comandante-Chefe, Gamelin, achou que só poderia agir com
uma mobilização geral, envolvendo a chamada de reservistas (apesar de o
exército francês ter um oneroso e gigantesco efetivo, superior a um milhão
de homens), conversão da indústria para a guerra, enfim, a alteração
completa da vida nacional. Tal expediente, de qualquer modo, seria irrealizável,
pois os governos parlamentares franceses eram debilíssimos, os gabinetes duravam
apenas meses, quando não semanas, e a influência dos
pacifistas era enorme. A guerra era um espectro medonho, que politicamente
não podia ser, sequer, cogitado. Foi esta a primeira capitulação das
democracias. O simples avanço dos três regimentos teria ocasionado a retirada
imediata das débeis forças alemães pelo seu Estado-Maior, sem qualquer
confronto, e a destituição do Führer manu militari, com pouca ou nenhuma
resistência popular, pois o nazismo ainda não se havia enraizado na máquina
administrativa e policial, e o pavor de uma guerra também dominava o povo
alemão, nesse ano de 1934, quando sua intoxicação bélica, realizada por
Hitler, mal havia começado. Aqueles quatro anos, de
1933 a 1937, testemunharam a recuperação econômica da nação alemã e o aumento
das suas forças armadas. A Alemanha passou a contar com tal poder de agredir,
que espantava e frustrava os países-membros da Liga das Nações (da qual Japão
e Itália, bem como a Alemanha, se haviam retirado). A percepção psicológica
de Hitler revelou-se brilhante. Com uma série de audazes golpes diplomáticos
ele lograra os estadistas que jogavam o jogo diplomático segundo as regras
convencionais. Quando estes se libertaram das peias do cavalheirismo e
perceberam estar lidando com um psicopata brilhante, os fios dos planos do
Führer para a dominação alemã já enredavam inextricavelmente as vítimas
incautas. Na primavera de 1938, Hitler já estava bastante forte para
empreender a invasão da Áustria e anexá-la ao Reich alemão. Daí em diante a
sua terra natal não teria mais nome (14). (14) A Áustria foi tomada
"pelo telefone", como Göring lembrou, entre risos, em seu
julgamento em Nuremberg. O Primeiro-Ministro Schuschnigg, convocado a
Berchtesgaden, fora violentamente ameaçado, e fizera importantes concessões
aos nazistas austríacos, liderados por Seyss-Inquart. Hitler exigiu depois
que o Presidente Miklas fizesse Seyss-Inquart seu Chanceler, para que
formasse um gabinete totalmente nazista, sob a ameaça de invasão. Quando
isto foi feito, Seyss-Inquart "chamou" as tropas alemães para
ajudá-lo a manter a ordem. A entrada de Hitler em Viena teria apenas o
aspecto de uma visita oficial, de caráter afirmativo e intimidativo. O plano
era de, mais tarde, os nazistas austríacos votarem uma federação austro-alemã.
Porém a recepção a Hitler, pelas multidões austríacas, foi tão entusiástica
e triunfal que o levou a fazer imediatamente um Anschluss (anexação). A
Áustria passou a simples província alemã e seu nome, Osterreich (País de
Leste), foi mudado para Ostmark (Província de Leste). O exército alemão
estava ainda muito mal equipado, e centenas de veículos e tanques, ficaram
enguiçados pelas estradas. Ainda desta vez, o exército estava pronto para
destituir Hitler, caso o incidente levasse a perigo de guerra, principalmente
porque Mussolini, receoso de uma forte Alemanha em suas fronteiras, havia
categoricamente protestado e apoiado o governo austríaco. Mas o dramático espetáculo
das duzentas Mercedes negras desfilando em formação impecável pelas largas
avenidas de Viena, conduzidas pelo Leibstandarte SS, com os figurões nazistas,
debaixo do delírio popular, impressionou todo o mundo, e especialmente Mussolini.
Mais uma vez a audácia do Führer e sua capacidade de encenação eram bem
sucedidas, e o próprio Mussolini aderiu. Desta época data a crescente amizade
entre o Führer e o Duce. À Europa estupefacta, os alemães podiam dizer, com
razão, que o Anschluss atendia um óbvio anseio do povo austríaco. Mas sua cobiça maníaca por
lebensraum (espaço vital) e poder não foi, de modo algum, facilmente
saciada. Tendo a Grã-Bretanha e a França traído pusilanimemente a
Tcheco-Eslováquia, fazendo-a retirar suas forças defensivas da região dos
Sudetos (15), para lhes dar tempo para se prepararem para uma guerra de cuja
inevitabilidade estavam certos, Hitler ocupou aquele território no outono de
1938 sem dificuldade alguma. Seis meses depois ele estendeu suas garras para
a Boêmia, Morávia e Memel (16). O Estado Livre de Danzig foi proclamado parte
do Reich alemão a 1º de setembro de 1939, e a Polônia foi invadida no
amanhecer daquele mesmo dia, obrigando a Grã-Bretanha e a França a
declararem guerra, para cumprir as obrigações contraídas no tratado com a
Polônia. (15) Os Montes Sudetos
formavam a sólida fronteira noroeste da Tchecoslováquia, traçada pelos
Aliados no Tratado de Versalhes precisamente por seu significado estratégico.
Entretanto, a região era habitada, na maioria, por súditos alemães, antes
contidos no Império Austro-Húngaro. Hitler teve a seu favor este elemento de
certo valor moral, que reduziu a capacidade de argumentação das potências
ocidentais, garantidoras, por tratado, da integridade territorial tcheca.
Mas os alemães sudetos não eram uma minoria oprimida, dentro da nação
tcheco-eslovaca. Só começaram a arregimentar-se e manifestar-se através de
seu líder nazista local, Konrad Henlein, por ordem expressa de Hitler, para
justificar suas exigências. Ocupados os Sudetos em outubro de 1938 pelas
tropas alemães, com a anuência expressa no Acordo de Munique, a
Tchecoslováquia ficou sem as fortificações permanentes de fronteira, ali
construídas, e sem a defesa natural de sua posição. A porta para o coração
do país estava aberta, para a invasão que despedaçou a Tchecoslováquia em março
de 1939. Quando Hitler iniciou a crise dos Sudetos, o exército alemão fez
seus mais elaborados preparativos para a deposição do louco que ousava
desencadear uma guerra que aniquilaria a despreparada Alemanha. Mas a vinda
de Chamberlain, e mais tarde de Daladier e Mussolini, a Berchtesgaden e a
Munique, para as apaziguadoras "conversações", mostrou que o
Führer sabia como tratar os pacifistas. As aclamações populares com que
Chamberlain e Daladier foram recebidos na Alemanha demonstraram claramente
que o povo ansiava por um acordo que evitasse a guerra que parecia iminente.
Mas depois de firmado o Acordo de Munique, o prestígio "guerreiro"
de Hitler atingiu o auge junto a seu povo, e nada mais o poderia deter. (16) Depois de
enfraquecida a Tchecoslováquia pela ocupação dos Sudetos, com a visível
complacência das democracias garantidoras, Hitler ocupou as províncias da
Boêmia e Morávia, criando um Protetorado, entrando - desta vez sob lágrimas -
em Praga. Ele deixou para mais tarde a ocupação do restante da infeliz nação,
a província da Eslováquia, que se viu tornada "independente", sob
a garantia formal da Alemanha. Assim, a Polônia estava estrategicamente
envolvida pelo oeste e pelo sul. A cidade de Memel, a 100 km da Prússia
Oriental, foi "cedida" pela Lituânia e anexada, com uma faixa
litorânea do mar Báltico. Ficaram pendentes duas questões: a Cidade Livre de
Danzig - cuja população, altamente nazificada pelo seu líder, Albert Forster,
clamava pelo retorno à "mãe-pátria" - e a do chamado Corredor
Polonês, a faixa de território dada em Versalhes à Polônia, "para que
tivesse uma saída para o mar, pelo porto de Gdínia. O Corredor Polonês era
talvez o mais doloroso espinho no "Martírio da Alemanha", pois
dividia o território nacional, deixando isolada a Prússia Oriental, berço das
mais caras tradições prussianas. Meses antes da invasão da Polônia, houve uma
reunião entre os Ministros das Relações Exteriores, Ribbentrop, e o Conde
Ciano, que oferecia, em nome de Mussolini, os bons ofícios da Itália para a solução
pacifica do problema. Ribbentrop esclareceu ao representante italiano que
Hitler não queria solução para Danzig e o Corredor Polonês, que seriam
tomados pela força muito breve, e não admitiria novamente a frustração de
Munique, quando lhe arrebataram a oportunidade de iniciar a guerra em 1938. Uma semana antes do
fantasma da guerra dominar a Europa, Hitler dera seu golpe culminante de
diplomacia: um pacto de não-agressão e comércio com a Rússia,
"garantindo" a paz entre os dois países por um mínimo de dez anos.
Como ele vinha pregando contra a iniqüidade do comunismo desde 1919, o pacto
foi um golpe de mestre (17). O custo teórico era considerável: nada menos do
que a divisão da malfadada Polônia em duas partes iguais - a oriental seria
o preço da Rússia. Mas a inutilidade do Pacto pode ser medida pela revelação
que Hitler fez da sua meta eventual, numa conferência com seus chefes
militares, a 20 de agosto: "Meu pacto, senhores, destina-se apenas a
ganhar tempo. Esmagaremos a União Soviética." O tempo era realmente a
essência dos seus planos. Para a Alemanha, mesmo no seu atual estado de
imenso poderio militar, a luta nas frentes ocidental e oriental
simultaneamente seria tão fatal em 1939 como demonstrara ser na Primeira
Guerra Mundial. O Ocidente devia ser esmagado primeiro. E tão logo recebeu a
declaração de guerra dos Aliados a 3 de setembro de 1939, Hitler dedicou-se
inteiramente à sua gigantesca tarefa. (17) O pacto
teuto-soviético de 24 de agosto foi, e é, um dos pontos negros do comunismo,
e lançou a maior confusão e consternação em todos os partidos comunistas.
Houve enorme defecção e cisões importantes, até que a "monolítica"
linha do partido viesse a firmar-se um pouco mais. Até hoje os doutrinadores
vermelhos têm dificuldade em explicá-lo, e passam sobre ele como gatos sobre
brasas, com a alegação de que Stalin "magistralmente" ganhara tempo
para a URSS. De fato, Stalin nada fez para preparar-se para a invasão alemã,
que viria em 1941, e sua "genialidade" manifestou-se no imenso massacre
que em 1936 atingiu maciçamente a oficialidade do Exército Vermelho, principalmente
no alto comando, destruindo-o como instrumento de defesa. E a isto Stalin foi
levado por falsa denúncia, habilmente arquitetada por Heydrich e
Schellenberg, do SD das SS. O estrategista "Os limites dos países são criados pelos homens, e por eles
modificados" - Hitler Com seu ataque à Polônia,
Hitler não só desencadeara a guerra como podia afirmar que não existia um estado
de guerra até que os Aliados a declararam. Reduzida à posição de uma briga de
crianças, ela não passava de um "não fui eu quem começou, foi ele".
Segundo os padrões hitleristas, a invasão da Polônia foi apenas uma expansão
lógica e justificável do seu direito ao Estado Livre de Danzig e,
anteriormente, à Austria, aos Sudetos, Boêmia, Morávia e Memel. Ele afirmara
que estes eram partes do Reich alemão que haviam sido arrancadas na
gananciosa divisão depois da Primeira Guerra Mundial. Ele também fazia
observar o fato de que não se derramara uma só gota de sangue na
"libertação" do seu povo do jugo opressivo de Versalhes. Se os
poloneses tivessem demonstrado idêntica e sensata boa vontade de serem
abrangidos pelo Reich, não teria sido necessária a coação. Naturalmente, a
especiosidade de tal argumento seria evidente a qualquer tribunal imparcial
que investigasse as causas imediatas da guerra. Mas não houve tal tribunal
nem tal argumento. A Polônia foi virtualmente
conquistada em questão de horas. O domínio do ar foi facilmente obtido por
uma ofensiva geral iniciada ao amanhecer de 1º de setembro. Levas de
bombardeiros simplesmente sobrevoaram os aeródromos poloneses e destruíram
os aviões pousados. Os que levantaram vôo foram derrubados pelos caças que
escoltavam os bombardeiros e que depois, em vôos rasantes, metralharam os sobreviventes.
Sem nenhuma defesa contra outros ataques aéreos, os poloneses ficaram
completamente vulneráveis no tocante a pontes, pátios de manobras
ferroviárias, centros de produção, instalações militares e colunas móveis.
As forças polonesas de defesa compunham-se de quase dois milhões de homens,
mas o ataque aéreo alemão impediu sua mobilização, já que todas as
comunicações haviam sido reduzidas a um estado de confusão total. Nenhum aspecto da campanha
polonesa deveria surpreender a qualquer um, muito menos aos poloneses. Ela
estava inteiramente de acordo com os métodos de Hitler. (Os russos, apesar de
estarem presos à Alemanha pelo seu pacto de não-agressão, em menos de dois
anos sofreriam precisamente o mesmo tipo de ataque inicial pelo bombardeio
dos seus aeródromos; e estariam igualmente despreparados.) Mas as forças
polonesas estavam sendo reunidas para rechaçar um ataque que se realizasse
dentro dos moldes tradicionais de 1914. Seu Comandante-Chefe, Marechal
Smigly-Rydz, parece ter sido o primeiro a ser desarmado - no sentido
não-militar. Hitler havia-lhe assegurado. através de Goring, em 1937, que a
Alemanha não tinha nenhum interesse territorial na Polônia. Outro fato que o
desarmou: quando o ataque alemão era claramente iminente, Smigly-Rydz supunha
que ele se desenrolasse segundo as regras de 1914. Não só os poloneses como
também os teóricos militares da Grã-Bretanha e França sofriam da
"ressaca" de pensar em termos de cargas de cavalaria e outras
manobras obsoletas e, nos primeiros estágios da guerra, ficaram completamente
aturdidos com o planejamento e execução implacável, mas perfeitamente
lógicos, de Hitler, lançando ao mundo a primeira Blitzkrieg (18). (18) Blitzkrieg -
Guerra-relâmpago, foi o nome dado pelos alemães à sua nova técnica de
campanha. O nome, ao contrário do que se julga, não se devia à rapidez das
operações; a velocidade atingida, tanto na Polônia como na França, foi fator
que surpreendeu aos próprios alemães. A tese central era a busca de brechas,
com penetração profunda e ramificação de tais penetrações para estendê-las e
buscar objetivos, como sucede com o relâmpago. A teoria inicial deve-se ao
então ten-cel Fuller, teórico militar britânico, imaginada em 1917, e por ele
chamada "técnica da água que se espalha", e que busca brechas e
trajetos de menor resistência. A teoria foi expandida e codificada pelo cap.
Liddell Hart, com a aplicação de fortes formações blindadas como cunhas de
penetração, e apoio aéreo tático imediato e constante, substituindo a
artilharia, tudo sem aguardar a consolidação dos ganhos, explorando ao máximo
a surpresa e a penetração, com rompimento de comunicações e linhas de
abastecimento em profundidade. Coube ao general Guderian a criação das
divisões blindadas (Panzer) alemães, desde 1935, seguindo estes conceitos e
aplicando os ensinamentos de Liddell Hart, desprezados como fantásticos pelos
altos comandos britânico e francês. Desde então, isto passou a
ser admirado como a "intuição" de Hitler. Há uma tendência para
supor que ele tinha algum poder quase sobrenatural que lhe permitia
antecipar-se às manobras militares dos adversários. De fato, nos primeiros
estágios da guerra, seus mais poderosos opositores, os franceses, só conseguiam
realizar manobras do tipo mais pusilânime. Mas Hitler nunca teve quaisquer
poderes sobrenaturais; não estava aliado a nenhum feiticeiro. Sua "intuição"
não passava da percepção psicológica que lhe permitia identificar-se com a
nação humilhada por Versalhes. Era simplesmente uma compreensão sólida da
natureza humana em geral e do caráter dos seus adversários em particular.
(No sentido particular, não era uma compreensão infalível, como o demonstrou
a sua ignorância do caráter britânico e do norte-americano; mas seus fracassos
ocasionais mostraram que não havia nada de sobrenatural nisso.) Assim como
sabia, e tinha afirmado inequivocamente no Mein Kampf, que a reiteração
interminável de uma mentira demonstrável transforma-a efetivamente numa verdade
demonstrável, também sabia que nada tinha a temer dos franceses em 1939. Ele deduzira corretamente
que, depois da Primeira Guerra Mundial, os franceses seriam obsecados pela
defesa, pela segurança dentro das suas próprias fronteiras. Os dois
sucessivos Comandantes-Chefes de pós-guerra, Pétain e Weygand, deixaram isso
bem claro. O povo vira o massacre inútil da juventude francesa na ofensiva
sangrenta planejada pelo General Nivelle, em 1917, e não estava com ânimo
algum para tolerar outros generais de idêntica mentalidade; tampouco tinha
qualquer interesse em ampliar suas fronteiras. Ele passaria anos lambendo
seus terríveis ferimentos e gastaria trilhões de francos para encerrar-se em
barricadas. A Terceira República corria o risco de colapso e a dignidade da
civilização francesa fora fendida por uma vitória infrutífera em 1918. Somente
os poderosos bastiões, atrás dos quais a república poderia preocupar-se e
criar um imenso exército de defensores franceses, é que satisfariam à nação. Hitler estava certo em
tudo isso - na verdade não precisava de muita agudeza psicológica para
perceber o óbvio. As inexpugnáveis fortificações a serem construídas em nome
do Ministro da Guerra, André Maginot, tiveram início em 1930. |