Goebbels

 

 

 

 

"Enfiar na cabeça dura das massas a devoção a Hitler, como o deus da nova Alemanha, tornou-se o meu objetivo único", escreveu Goebbels - o novo Chefe da Propaganda - que manobrou magistralmente os recursos da psicologia individual e de massa para atingir sua meta.

 

 

O Ministro da Propaganda

 

Quando se pesquisa sobre os seguidores de Hitler, um fato logo se torna evidente: por maior que fosse a autoridade que exerciam, eles permaneciam muito mais que apenas subservientes a Hitler. O fenômeno não se devia, ao que parece, à personalidade dominadora de Hitler, nem mesmo à sua posição na hierarquia nazista, mas à indiscutível superioridade que levava sobre os demais no domínio da técnica da ditadura implacável. Ele possuía uma habilidade tática e estratégica bem mais desenvolvida que a de Goering, a despeito da alardeada formação militar deste. A percepção dos problemas da diplomacia estrangeira que freqüentemente revelava, era superior à do palhaço Ribbentrop e muito maior que a de Himmler era a capacidade que tinha de perceber a distância a mais leve intriga, apesar da sinistra reputação criada pelo Reichsführer-SS.

 

Também na questão da propaganda e na influência da opinião das massas, era Hitler quem delineava os princípios básicos; o Dr. Joseph Goebbels é que os punha em prática.

 

Contudo, deve-se dizer que Goebbels colocou no desenvolvimento e na aplicação da propaganda espalhafatosa e inescrupulosa uma diligência, uma percepção e uma imaginação que chegavam às raias do gênio. "A propaganda, para ser eficaz...", disse Hitler, "tem de se limitar a uns poucos elementos essenciais... expressada tanto quanto possível em fórmulas estereotipadas... repetidas persistentemente" - e a partir de meados dos anos 30 até os últimos dias do Terceiro Reich, o eco estridente de Deutschland erwache, Ein Volk, ein Reich, ein Führer, Sieg Heil, Heil Hitler e, já próximo do fim, Sieg oder Bolschewismus Chaos! varria permanentemente a Alemanha. Nenhuma ambigüidade ou sutileza de significado jamais toldou a simplicidade cristalina das mensagens de Goebbels às massas.

 

Contudo, talvez na montagem dos gigantescos circos dos comícios partidários Goebbels tenha contribuído com algum elemento particularmente seu, pois, embora Hitler tivesse todas as qualificações para ser o ator principal, ele, que se saiba, não deixou provas de qualquer aptidão para direção de cena. Era ali que Goebbels brilhava, e o efeito inspirador ou aterrador (dependendo da atitude da pessoa para com o Nacional-Socialismo) das Reuniões Partidárias devia muito ao talento do pequeno Ministro do Esclarecimento e Propaganda. O diretor de teatro que tão insolentemente o ignorou, quando, na juventude, Goebbels postulou um cargo no setor de produção de espetáculos, possivelmente não era tão perspicaz quanto julgava que fosse.

 

Goebbels também possuía considerável talento histriônico, por isso que conduzia sempre a um enigma qualquer paralelo que se pretendesse traçar entre Goebbels e Hitler.

 

Quem ouviu, se lembra claramente de ter ouvido ambas as vozes numa época em que o poderio da Alemanha nazista parecia invencível. A voz de Hitler repercutia pelo mundo, triunfante, brutal, dominadora, assustadora mesmo, talvez por isso tão absorvente, na sua qualidade e nos desafios que a todo instante lançava. A de Goebbels, controlada, primorosamente ensaiada, profundamente comovente. Ainda se pode ouvir aqueles belos tons na noite de Natal de 1941 "... Unseres schönes Reich, so Weiss, so Weiss, so Weiss und wunderschone..."

Ele podia fazer chorar.

Hitler fazia tremer.

 

 

O Jovem

 

Paul Joseph Goebbels era intelectualmente o mais interessante dos líderes nazistas. A capacidade instintiva de Hitler como estrategista militar ocultava um cérebro de terceira categoria; a indubitável inteligência de Goering foi corrompida pelo sibaritismo e pela presunção; Himmler era um fanático de espírito tacanho. Mas Goebbels usava o intelecto de maneira criativa. Ele transformou Hitler, homem de caráter irresoluto, no Messias de vontade férrea do Terceiro Reich - ou melhor, ele criou em der Führer a ilusão de força messiânica. E o fez apenas pela fraude verbal. Na atividade política, para cujo exercício a duplicidade é considerada função essencial, ele alcançou um padrão de duplo sentido sem paralelo pa história moderna. Virtuose da mentira, ele dominava de maneira tão completa a arte de engodar, que provar que preto era branco não chegava a ser para ele façanha muito grande, uma vez que podia provar que era a cor que escolhesse no momento.

 

O desenvolvimento do seu intelecto foi em grande parte feito por motivo dos defeitos físicos de que era portador. Quando criança, foi incapacitado pela poliomielite e, mais tarde, pela osteomielite. Além disso, sua constituição era frágil e sua estatura, diminuta. As crianças não são em geral muito dadas à compaixão, por isso, embora nos seus primeiros tempos de escola raramente fosse vítima de crueldade física, muitas vezes foi ele insultado pela fragilidade e deficiência que naturalmente o impediam de participar em atividades que exigiam velocidade ou agilidade. Por conseguinte, ele se esforçou por brilhar no campo do aprendizado, uma vez que no da façanha física estava condenado ao fracasso. E brilhou - para grande alegria dos seus pais.

 

Friedrich Goebbels, seu pai, era empregado de uma pequena fábrica têxtil, a W.H. Lennartz, situada na cidade de Rheydt, perto de Düsseldorf. Em 1929, Rheydt foi reunida com Waldhausen, Odenkirchen e München-Gladbach, chamadas coletivamente die Textil. W.H. Lennartz se especializava no tratamento químico do tecido de algodão usado na confecção de camisas de lampião e Friedrich Goebbels começou a trabalhar ali como mensageiro, chegando a amanuense.

 

Ele era um homem solene, orgulhoso por haver subido, pelos próprios esforços, da classe operária (seu pai, Konrad Goebbels, fora carpinteiro) a membro do escritório executivo da firma; também era ardoroso católico apostólico romano.

 

A mãe de Goebbels, holandesa de nascimento, chamava-se em solteira Katherina Odenhausen. Era filha de um ferreiro que emigrara da Alemanha para a Holanda e se casara com uma holandesa, Joanna Coervers. Katherina, também católica, nasceu em Uebach, Holanda, em 1869.

 

Os pais de Goebbels tiveram cinco filhos: Elizabeth, Maria, Konrad, Hans e Joseph, cujo primeiro nome, Paul, parece nunca foi usado. Elizabeth morreu quando Joseph tinha 18 anos. A outra filha, Maria, era 12 anos mais moça que ele. Joseph nasceu a 27 de outubro de 1897, numa casa na Odenkirchener Strasse. Em 1899 a família mudou-se para a casa de n° 156 da Dahlener Strasse, em Rheydt, onde Joseph passou o resto da infância e grande parte da juventude.

 

Seus problemas de ordem física eram bastante compensados por uma certa beleza. Cabelos pretos, bastos, olhos castanhos bem colocados, bons dentes e mãos bem moldadas. Desde criança, Goebbels cuidava muito da aparência, exibindo os elementos do exagerado apuro no trajar que, nos seus dias de poder, resultaria num guarda-roupa de mais de 300 trajes; os que zombavam dele corriam o risco de receber de volta, como retruca, o insulto de desleixado e de porco. Fritz Prang, seu amigo mais íntimo na escola, mais tarde escreveu que, "durante esses rompantes, a gente se sentia como que fulminada pela ferocidade da linguagem por ele utilizada contra a pessoa que se apresentasse com um colarinho sujo ou com a roupa faltando botões".

 

Dada a circunstância de ter que se isolar fisicamente, ele era inclinado a meditar, mas construtivamente. Com ele, a introspecção não significava autocomiseração. Seus pais, no clima de devoção em que viviam, acreditavam que ele estava juntando forças do espírito de Deus que brilhava dentro dele. Não era, entretanto, a força do espírito de Deus que ele retirava da leitura que fazia com avidez, leitura que mais o encorajava ao ceticismo que à crença na religião cristã. Mas tarde, ele viria a referir-se à missa como sendo "a asneira mais tendenciosa jamais imposta à inteligência humana, mas poderosamente útil para provar a capacidade do homem em absorver absurdos". Contudo, ele considerava vantajoso conformar-se, ansioso como estava por não deixar passar a possibilidade de obter a ajuda dos que pudessem fazê-lo progredir em sua carreira. Naturalmente, ele tomou o cuidado de ocultar o cinismo com que encarava a questão da espiritualidade e de muitas maneiras expressava as reações dúplices de suas atitudes, como, por exemplo, no prazer que sentia em imputar falsas informações que resultassem em castigo para os colegas de escola que zombavam da sua debilidade - o que lhe valeu o apelido de Ulex (Ulisses), pela sua astúcia. Ele orgulhosamente se enfeitou com o cognome durante toda a juventude, mas cuidou de observar que Ulisses era famoso pela coragem, mas também pela astúcia; isto seria igualmente verdadeiro quanto a Joseph Goebbels.

 

A sua educação, que seus pais pagaram a duras penas, iniciou-se no Rheydt Gymnasium. Tem-se afirmado, incorretamente, que Goebbels se ressentia amargamente da ironia de ser obrigado à violência do atletismo por pais decididos a fazer com que sua incapacidade física fosse superada, mas isto não é verdade. Se os pais enfrentaram dificuldades para educá-lo, os resultados foram extremamente compensadores. O filho era um aluno exemplar. Em latim, grego; línguas modernas, história, matemática, política, economia e nas Escrituras, ele estava sempre em primeiro lugar. Isto fê-lo perder popularidade, mas Goebbels pai muitas vezes o congratulava por "manter-se firme contra a inveja dos inferiores". O que seu pai não percebia é que ele se mantinha firme principalmente com as armas do sarcasmo e da arrogância.

 

A futura, carreira de Joseph era um grande problema. Quando tinha 17 anos e a Primeira Guerra Mundial estourou, ele se apresentou como voluntário para o exército e, naturalmente, foi rejeitado por causa dos defeitos físicos. Dificilmente poderia esperar ser aceito. (Desapontado ou não, o fato é que ele tirou excelente partido da sua coxeadura, informando os curiosos complacentes de que fora uma das primeiras baixas na guerra.) A rejeição deu-lhe a vantagem de poder continuar os estudos, coisa que os pais consideraram caída dos céus para pô-lo no caminho do sacerdócio, onde, acreditavam, Goebbels, com seu gosto pelo estudo, encontraria o seu verdadeiro destino.

 

Fritz Prang diz que, independente de crença, Goebbels estava perfeitamente disposto a "seguir o caminho religioso, porquanto dificilmente deixaria de alcançar o bispado, no mínimo". Sua ambição - mais por um lugar em alguma hierarquia do que pelo poder em si - era, como diz Prang, "quase incandescente quando ele estava na Ober-Prima (Sexta Série) da escola". Sem querer duvidar da capacidade de Goebbels, é muito pouco provável que obtivesse ingresso em qualquer seminário. A incandescência da sua ambição não teria sido mais útil do que uma das camisas de lampião de Lennartz. O que os mentores da Igreja procuravam era incandescência de crença.

 

Influenciados pela fé que tinham e pela inteligência do filho, Friedrich e Katherina Goebbels fizeram muito sacrifício para que ele conseguisse um diploma. Também eles tinham sua ambição: que seu brilhante filho se tornasse Herr Doktor Joseph Goebbels. Ele se matriculou na Universidade de Bonn em 1917, tendo obtido as notas mais altas já registradas no Rheydt Gymnasium, no Maturitätsexamen. Embora dispostos ao maior sacrifício, os pais de Joseph não conseguiram reunir o suficiente para cobrir as despesas exigidas pela freqüência à universidade, e por volta de agosto de 1917 já era evidente que ele não poderia continuar seus estudos. A quem recorreria? Ele conseguia alguns marcos como professor particular, que eram apenas suficientes para pagar uma refeição modesta em certos dias. Precisava, a qualquer preço, buscar uma ajuda caridosa. O Padre Johannes Mollen, o sacerdote de Rheydt, que se encarregava da instrução religiosa dos filhos dos Goebbels, dirigiu um pedido à Sociedade Albertus Magnus, uma rica fundação que dá ou empresta dinheiro a, entre outras pessoas, estudantes pobres que se preparam para o sacerdócio. Caracteristicamente cínico, Joseph Goebbels ocultou a enorme descrença religiosa que mais tarde alardearia tão orgulhosamente como parte do conceito nazista e, com ironia, escreveu para a sociedade em tons formais e humildes: "Peço humildemente permissão para apelar para a Comissão Diocesana da Sociedade com o objetivo de obter apoio financeiro para o semestre de inverno de 1917-1918. Na Páscoa, matriculei-me no Rheydt Gymnasium (cujo relatório de exame estou anexando), onde estudei Filologia e História, pagando meus estudos com poupanças que consegui fazer dando aulas particulares e com a ajuda de meu pai, que trabalha como amanuense e cuja renda de 4.000 marcos anuais [cerca de 400 libras pelos valores de 1917] é aplicada no sustento de meus dois irmãos, um dos quais está na Frente Ocidental, o outro é prisioneiro de guerra, e minha mãe e minha irmã mais moça.

"Devido à minha perna defeituosa, fui rejeitado para o serviço militar e gostaria imensamente de prosseguir meus estudos universitários no próximo período letivo. Mas isto depende inteiramente da caridade dos seus companheiros de crença católica.

"Peço humildemente que examinem este pedido e me informem o mais breve possível da decisão que tomarem. Estou certo de que meu ex-professor de religião, Padre Johannes Mollen, confirmará a correção de todas as minhas declarações.

"Com respeito e devoção, cordialmente, Joseph Goebbels."

 

Ele anexou o resultado do exame e um testemunho do Padre Mollen, que dizia: "Herr Goebbels descende de uma fiel família católica da minha paróquia e o recomendo pela sua atitude religiosa e pela sua alta posição moral".

 

A sociedade dificilmente poderia contestar a palavra do padre - embora não fosse notavelmente entusiástica - mas há uma insinuação no livro de minutas de que a comissão tinha suas dúvidas quanto à sinceridade de crença de Goebbels: "Depois de demorada discussão", concordou-se, embora não por unanimidade, em conceder-lhe um empréstimo de 185 marcos e considerar outros pedidos se houvesse necessidade. O empréstimo, ou empréstimos não teriam juros. Quatro marcos eram então trocados por um dólar, de modo que se pode ver que, mesmo em termos dos valores de 1917, o empréstimo não foi muito grande. Mas com os 50 marcos que seu pai lhe mandava mensalmente, ele pôde completar seu período letivo em Bonn.

 

A partir deste ponto, os safaris educacionais do jovem Goebbels assumem uma complexidade estonteante. De Bonn ele foi para Freiburg e, depois, para Heidelberg. O inverno de 1918 encontrou-o em Würzburg, e o semestre seguinte em Colônia. Em 1919 ele esteve matriculado em Frankfurt e Berlim, enquanto que, em 1920 e 1921, passou mais dois semestres em Heidelberg e, entre eles, um em Munique. As razões para esse verdadeiro nomadismo não são de todo claras. É certo que ele não foi suspenso ou excluído de qualquer das oito universidades que cursou. Ao contrário, os professores que se manifestaram a respeito de Joseph, por carta ou boletins escolares, são unânimes em reconhecer nele qualidades de inteligência, de aplicação e de comportamento. Talvez o que explique o inquieto procedimento de Goebbels, esse desejo de aparecer entre os diplomados de tantas alma maters, seja a ânsia de ampliar seu aprendizado em muitas direções - na verdade é comum os estudantes alemães estudarem em duas ou três universidades, devido à especialização dos currículos: literatura ein Heidelberg, teologia em Bonn, filosofia em Colônia etc. Mas oito parece ser um número bastante exagerado. Talvez a escolha da universidade tenha sido, até certo ponto, ditada pela disponibilidade de acomodações que ele pudesse pagar. As estalagens das cidades universitárias alemães eram notoriamente gananciosas (a cupidez dessa gente foi retratada pela pena acre do artista George Grosz) e as cartas do estudante Goebbels que ainda existem partiram de endereços pobres. Igualmente provável é que a inquietação natural da juventude e a agitação política para a qual se dirigia a Alemanha do pós-guerra ditassem os freqüentes vôos do universitário.

 

Em todo caso, ele obteve em Heidelberg, em 1921; o grau de Doutor em Filosofia. Seus professores foram Friedrich Gundolf e Anton von Waldberg (ambos judeus) e sua tese de doutorado foi uma trabalhosa dissertação sobre a obra de um dramaturgo menor alemão do século XIX, Wilhelm von Schütz. Ela foi solenemente intitulada Uma Contribuição pura a História do Drama Romântico; mas na década seguinte, depois de nomeado Ministro da Propaganda, ele mudou apressadamente o título para As Correntes Espirituais e Poéticas dos Primeiros Românticos, para que os registros mostrassem suas tendências políticas precoces.

 

Na verdade, naquele período da vida, ele considerava a política algo confuso - o que não é de surpreender, em vista da agitação que abalava a Alemanha sob a República de Weimar. Um dos seus biógrafos, Curt Riess, observa que "Estudantes reacionários e esquerdistas se insultavam e se denunciavam como traidores e lunáticos. Sempre que os examinava atentamente, Goebbels descobria neles um bando de jovens instáveis e desorientados. Para a sua mente analítica e dissectora, o que diziam não passava de frases sem sentido; suas promessas, de simulações ocas. Sentia a inexistência de um ponto onde firmar-se: havia um vácuo. Desejava que algo o inspirasse, queria ser como os outros; "queria crer".

 

Em tudo isso, naturalmente, Goebbels não mostrava nada de extraordinário: a busca de si mesmo, de um arrimo, é tão universal quanto a própria juventude. Uma carta de seu pai, escrita quando Goebbels estava em Munique, aconselha-o a buscar na oração o remédio para as dúvidas que alimentava sobre as coisas da religião, acrescentando: "Mas, se tuas dúvidas são de natureza diferente, ainda assim só te posso aconselhar uma coisa: orar e continuar orando, e eu também orarei para que Nosso Senhor te ajude, para que tudo saia bem".

 

O grande problema de Goebbels era, entretanto, o complexo de inferioridade. "Sou um apóstata", escreveu ele, em seu diário, em 1921. Em seguida, reescreveu a frase em letras maiúsculas, como se regozijasse diante da descoberta, imaginando, quem sabe, que dessa maneira se desprendia da multidão vulgar. Mas a apostasia não afrouxava o tormento que lhe impunha o complexo de inferioridade. Acima de tudo, ele sentia a necessidade de uma linha de ação positiva.

 

Quem lhe mostrou essa linha foi Richard Flisges, um estudante cheio de amargura, ex-soldado, com muitas condecorações por bravura e pouca inteligência. A amargura fizera-o voltar-se para o comunismo, que, como muitos outros descontentes, considerava a solução para os problemas do mundo. Era um homem robusto e desleixado, que podia erguer - e às vezes erguia - Goebbels pelo colarinho e o sacudir, mas por quem Goebbels tinha uma afeição paradoxal que, naturalmente, ocultava debaixo das críticas que freqüentemente fazia à aparência desmazelada de Flisges.

 

A orientação foi através de Marx, Engels e Walther Rathenau. Mas, longe de conduzi-lo para a crença ardente nas teorias do comunismo, as discussões violentas que sustentava com Flisges e outros colegas sobre a filosofia vermelha o conduziram para o lado oposto.

 

No começo dos anos 20, Munique, a capital da Baviera, era o grande centro de agitação comunista e para lá se voltou Goebbels, à procura de trabalho: ("Tenho de encontrar um modo de começar a vida", escreveu ele em seu diário), no verão de 1922. O aspecto urbanístico da velha cidade o havia agradado muito durante o período em que lá esteve estudando, no ano anterior. Ele morara em Schwabing, cuja atmosfera lembrava muito a da Rive Gauche, e a irradiação das ruas da Marien-Platz era para ele "uma representação simbólica da diversidade de vida, pois cada rua oferece diferentes possibilidades".

 

Em 1922 Munique já havia passado por três grandes agitações políticas do pós-guerra. A República Socialista de 18 de novembro, o contra-movimento Nacional-Socialista de janeiro de 1919 e a República Soviética de abril de 1919 haviam começado ali. O partido nazista havia-se instalado na Braunes Haus e, já com cerca de 50.000 adeptos inscritos, continuava atraindo adesões, sobretudo dos mercenários livres, que viam na guerra contínua a salvação da Alemanha. Ali, com iguais objetivos revolucionários, estavam o Freikorps e a Reichswehr, organizações paramilitares clandestinas carregadas de ameaça, e nas tavernas, Adolf Hitler, na época Oficial de Propaganda do partido nazista. Ali também, algumas semanas antes da chegada de Goebbels, Walther Rathenau, Ministro do Exterior e arquiteto do Tratado de Rapallo, projetado para estreitar as relações russo-germânicas, fora assassinado por ex-oficiais da marinha pertencentes à organização terrorista nacionalista. Munique podia ser esteticamente bela e agradável, mas dificilmente se poderia considerá-la tranqüila.

 

Típico da Alemanha do pós-guerra, a licenciosidade campeava na cidade, embora menos que em Berlim e Hamburgo, onde a depravação raiava pelo absurdo. Havia em Munique uma variedade de boates, bordéis, cabarés de travestis, cassinos e de lugares onde se exibiam filmes pornográficos, e nessa atmosfera de lascívia Goebbels derramava em abundância os gozos da juventude.

 

"Ele se mostrou sempre muito atrevido e convencido", lembra Fritz Prang, "durante todo o transcurso da vida universitária. As garotas deixavam-se cativar facilmente por ele. Acho que a sua fragilidade e o seu pé aleijado faziam com que elas se sentissem maternais e protetoras, e ai é que começava tudo. Goebbels não demorava a conquista-las - fazendo-se muito encantador e colocando na voz bastante mel.

 

"Ele teve alguns casos amorosos sérios e duradouros. Um deles foi com uma jovem chamada Anka Stahlhern, que durou três ou quatro anos, até que ela o trocou por um homem mais velho, que tinha mais dinheiro. Bem, ele dificilmente poderia ter menos do que tinha, e fez uma grande cena de humilhação torturada. O caso fora muito sério, com longas cartas de amor trocadas entre eles; mas os pais de Anka não olhavam o romance com bons olhos, pois não viam qualquer futuro para Goebbels - as perspectivas não se mostravam, em seus dias de estudante, muito boas para ele. Mais tarde, à sua maneira mordaz, costumava Goebbels dizer que se ela tivesse sido menos mercenária, teria casado com o Ministro da Propaganda.

 

"Mas não a culpou totalmente por havê-lo abandonado. Tendo fracassado o seu casamento, Anka, desempregada, recorreu, em 1934, a Goebbels, para que a ajudasse, e ele a colocou na equipe de uma revista feminina.

 

"Depois que Anka terminou com ele, Goebbels arranjou outra garota. Chamava. se Else Taub, era professora e sua família tinha muita influência nos círculos comerciais. Também dessa vez ele foi terrivelmente ardente - poemas de amor, passeios idílicos pelos bosques, reclamações pelo fato de a sociedade ser desorganizada demais para poder incluí-lo em seus planos. Era tudo coisa de estudante! Flisges, eu, Goebbels e Else costumávamos passar horas nos cafés, ou em nossas próprias casas quando não tínhamos dinheiro para pagar um café (normalmente quem pagava era Else).

 

"Naturalmente, o que precisávamos mesmo era de trabalho para ocupar o tempo, mas não era fácil consegui-lo naqueles tempos conturbados. Goebbels decidira tornar-se literato e não parava de escrever artigos e enviá-los para os jornais e revistas. Todos eram recusados. Escreveu uma novela e uma peça de teatro que também não deram em nada. O dinheiro que ganhava vinha de empregos casuais, como professor ou em escritório. Eu mesmo consegui um para ele na Bolsa de Valores de Colônia, e os Taubs o colocaram no Banco Dresdener; mas esses dois empregos não duraram muito. Como se diz hoje, ele estava sempre fazendo das suas - livre, namorando, metido sempre na mesma roupa surrada, vivendo em casa, em Rheydt, quando sem recursos, ou arrumando-se comigo ou com Else, ou outros amigos, quando podia. Para um homem que seria designado sucessor de Hitler, este tipo de formação era de fato muito problemático".

 

A tarefa

 

As primeiras manifestações literárias e oratórias do homem que viria a influenciar toda a nação alemã pela palavra não foram nada espetaculares. Tendo recebido a oportunidade de ser o orador da turma, na sua formatura, no Ginásio de Rheydt, o Padre Mollen lhe disse com um sarcasmo nada caridoso que, como orador, ele sem dúvida seria um bom pasteleiro. Ele enviou várias centenas de artigos para os jornais e revistas - principalmente o Berliner Tageblatt - e todos foram recusados, com a justificativa de que as idéias neles contidas, além de mal formadas, eram apresentadas incoerentemente. Sua pretensa novela, chamada Michael e escrita em tiras de pretensiosos versos livres, com pontos de exclamação e letras maiúsculas, foi, também com justiça, recusada por todos os editores que a leram, até que, em 1929, um editor pró-nazista achou ser de boa política aceitá-la. Duas peças teatrais em versos, O Peregrino e O Hóspede Solitário, permaneceram inéditas. Depois que os nazistas subiram ao poder, a primeira delas foi encenada por três noites, sendo recebida impassivelmente pela platéia.

 

Caracteristicamente, Goebbels reagiu com arrogante superioridade à manifestação de indiferença. "Sei que minha obra encontrará seu lugar", escreveu ele em seu diário. "É só questão de tempo."

 

O tempo chegou em 1923. Em janeiro daquele ano, o Primeiro-Ministro da França, Raymond Poincaré, ordenou a ocupação do Ruhr como medida punitiva contra a Alemanha, por não cumprir as condições impostas pelo Tratado de Versalhes. Como conseqüência, naquela vasta área industrial houve de início certa resistência passiva, na forma de greves, seguindo-se as sabotagens, a guerra clandestina e ferozes lutas de rua, provocadas pelas facções, desorganizadas, mas violentas, dos Freikorps, dos anti-republicanos e dos ainda embrionários nacional-socialistas.

 

Em seu diário, Goebbels diz que "de repente sentiu-se inflamado pelas injustiças de Weimar e de Versalhes. Ouvi dizer que Krupp, o grande industrial, estava apoiando elementos guerrilheiros e peguei o dinheiro que meus pais puderam dar-me e parti para Essen. Procurei Albert Schlageter, o líder dos sabotadores, e ofereci-lhe meus préstimos para qualquer serviço. Ele me recusou, porque meu pé faria que me descobrissem facilmente, o que seria um desastre para eles. Mas ele me disse que havia trabalho muito importante que eu podia fazer: funcionar como agitador e propagandista".

 

Havia, deveras, causas suficientes para se agitar e fazer propaganda. Na época, a Alemanha estava fervilhante delas e a de Albert Schlageter parece ter sido uma das numerosas causas anônimas, apenas uma erupção provocada pela injustiça da ocupação do Ruhr. Todas as erupções desse tipo pecavam pela falta de orientação e, portanto, eram ineficientes. A destruição de algumas pontes ferroviárias ou o seqüestro de um ou dois caminhões carregados de munições eram pouco eficazes contra as tropas francesas e belgas firmemente instaladas e contra a ameaça dos aliados de cortar o envio de alimentos para a Alemanha, se não se restaurasse a ordem.

 

Nessas circunstâncias, os distúrbios não demoraram a ser suprimidos e as greves, canceladas. Mas, embora as ações possam falar mais alto que as palavras, estas é que têm de vir primeiro. Tendo-se "inflamado com a injustiça", Goebbels passou a reexaminar as obras de Marx, Engels e Rathenau, apenas para reagir ainda mais violentamente do que antes contra elas. Nessa reação ele foi ajudado por Fritz Prang que, apesar da oposição dos seus pais, ouvira Hitler falar em Munique e dera cópias de panfletos nazistas a Goebbels. Embora ainda estivesse mal formada, na época, a política nazista de nacionalismo intenso "provocou e realimentou minhas chamas de angústia", escreve Goebbels. Prang comenta secamente que era evidente que a literatura nazista "o excitou politicamente"; ele sempre estava assim sexualmente.

 

Seu fascínio pela doutrina nazista foi acentuado pelas numerosas reuniões políticas a que Goebbels compareceu - normalmente acompanhado de Prang e várias amigas - durante o ano de 1923. É possível, não posso afiançar, que Hitler fosse o orador em algumas delas. Em um dos seus trechos mais pomposos (este provavelmente foi acrescentado mais tarde à muito autobiográfica novela Michael, tal como mudara o título da sua tese de doutorado para convencer a posteridade das suas primeiras tendências políticas), ele escreve sobre um grande (mas anônimo) orador:

"Naquela noite sentei-me numa grande sala, com mil outras pessoas, para vê-lo novamente, para tornar a ouvir aquele que me despertara.

"Ali está ele, em meio à sua leal congregação. Parece ter aumentado de estatura. Há muita força nele e um mar de luz brilha naqueles grandes olhos azuis.

"Sento-me com os outros e parece que ele se dirige apenas a mim.

"Sobre a bênção do trabalho! Tudo o que eu simplesmente sentia ou adivinhava, ele punha em palavras. Minha confissão e minha Fé: ali elas tomaram forma.

"Sinto sua força encher-me a alma. Aqui está a jovem Alemanha e aqui estão os que trabalham na forja no novo Reich. A bigorna ainda está silenciosa, mas o martelo não tardará a bater.

"Aqui é meu lugar.

"Ao meu redor estão pessoas que nunca vi antes e sinto-me criança, enquanto lágrimas me afloram sos olhos."

 

No mesmo espírito melodramático, ele declara mais tarde:

"Sei agora para onde meu caminho me leva. O caminho da maturidade. Pareço estar embriagado.

"Lembro-me da mão do homem apertando a minha. Um voto para toda a vida. "E meus olhos encontram duas grandes estrelas azuis."

 

Tudo isto para nos dizer, pelo narrador autobiográfico de Michael, que ele fora fascinado por Hitler já em 1923. Ele pôde apresentar provas adicionais, na forma de uma Carteira de Membro do Partido com o baixo número de 8762. Mas quando chegou o momento de provar sua fidelidade precoce ao Partido, Goebbels já se encontrava em condições de poder alterar datas e números nos arquivos tão assiduamente compilados por Heinrich Himmler, em seu papel de guarda zeloso do Führer, e não há dúvidas de que assim fez. Ele compareceu a muitas reuniões políticas de muitos partidos, mas sua filiação ao bloco nazista não é tão antiga como pretendeu fazer-nos crer; não participou do fracassado putsch de Munique, de 9 de novembro de 1923, que resultou na prisão de Hitler por sedição, e certamente não conheceu Hitler pessoalmente antes de 1925. Uma carta que ele afirmou ter enviado ao Führer na prisão de Landsberg, em 1924, na realidade foi escrita muito mais tarde e antedatada para ser usada como prova da sua antiga filiação ao partido. Ele tinha de iludir-se antes que pudesse começar a iludir outros. Mesmo assim, é uma carta interessante, oferecendo, como observa Curt Riess, prova do "entusiasmo do propagandista-amador pelo mestre da propaganda":

"Como uma estrela que nasce, apareceste aos nossos olhos espantados, realizaste milagres para abrir nossa mente, num mundo de ceticismo e desespero, deste-nos fé. Ergueste a ti mesmo acima das massas, cheio de fé e certeza no futuro, e possuído da vontade de libertar aquelas massas com teu ilimitado amor por todos os que acreditam no novo Reich. Pela primeira vez vimos com olhos brilhantes um homem que arrancou a máscara das faces destorcidas pela ganância, das faces dos medíocres e intrometidos parlamentares. Vimos um homem que nos mostrou o quanto o sistema é vergonhosamente corrupto e baixo...

"No tribunal de Munique [onde Hitler fora julgado] atingiste aos nossos olhos a grandeza de um Führer. O que disseste são as maiores palavras pronunciadas na Alemanha desde Bismarck. Expressaste mais que tua própria dor e tua própria luta. Deste nome à necessidade de toda uma geração, buscando em confuso anelo homens e tarefas. O que disseste é o Catecismo da nova crença política, nascida do desespero de um mundo ateu em colapso... Nós te somos gratos. Um dia a Alemanha te agradecerá ... "

 

A 1o de abril de 1924 - no mesmo dia em que Hitler foi condenado a cinco anos de prisão - Franz von Wiegershaus, o representante eleito do Völkische Freiheitspartei no Reichstag, ofereceu trabalho político a Goebbels. Este partido era integrado por um grupo dissidente da extrema direita do movimento nacionalista, do qual os nazistas, naturalmente, haviam sido os mais evidentes através do seu líder Adolf Hitler. Agora, o partido nazista estava proscrito e Hitler não tinha intenções de vê-lo nem mesmo subrepticiamente ativo enquanto estivesse preso. Ele, que encontrara dificuldade em conquistar a sua liderança, o preferia totalmente abandonado, a vê-lo dirigido por caminhos falsos por Führers rivais. No idealismo de Hitler só havia lugar para um Führer.

 

Naturalmente, uma coisa é proscrever um movimento político pela lei; outra, muito diferente, é suprimir suas atividades de verdade. Em meio ao caos constitucional e econômico que paralisou a nação durante toda a década, os nacionalistas da fragmentada ala direita continuaram operando, apesar da sua desunião; no norte da Alemanha, os remanescentes nazistas foram mantidos mais ou menos coesos por Gregor e Otto Strasser, abastados homens de negócio que não gostavam de Hitler (que, no devido tempo, se vingaria de sua vacilante lealdade), mas que se sentiam muito satisfeitos com a conotação política do movimento, de extrema direita.

 

O Völkische Freiheitspartei não fora incluído na proscrição. Era pequeno, dirigido ineficientemente e não representava qualquer ameaça visível à República de Weimar. Mas Wiegershaus pretendia continuar veiculando opiniões extremistas através do seu jornal - que não passava de um boletim noticioso - o Völkische Freiheit. Ele precisava de um secretário e redator-assistente e ofereceu a Goebbels 100 marcos mensais, se este incluísse em suas atividades na redação do boletim alguns discursos a serem proferidos nas reuniões públicas convocadas pelo partido.

 

O salário era insignificante, mas Goebbels, que atravessava uma das suas fases de desespero (ele tinha um quê de maníaco-depressivo), depois que o redator do Berliner Tageblatt se recusara até mesmo a entrevistá-lo, quando ele solicitou um emprego, e que um diretor de teatro chegou a rir-lhe na cara, aceitou o convite de Wiegershaus. O diretor de teatro registrou, sobre o incidente com Goebbels, o seguinte: "Sem nunca ter tido qualquer experiência teatral, ele pretendia ingressar diretamente no quadro de produtores". Por essa época, o caso de amor que mantinha com Else Taub passava por crise muito séria. Assim é que já em meados de abril de 1924 Goebbels estava metido numa série de reuniões políticas realizadas em Eberfeld, outra cidade têxtil da Renânia do Norte-Westfália.

 

Ele não demorou a desiludir-se com as platéias que, segundo disse numa carta que enviou para casa, "eram inacreditavelmente estúpidas e podiam ser levadas em qualquer direção com os mesmos limitados lemas" e o faziam sentir-se como "um excelente ator perdido na companhia de um elenco de décima categoria".

 

Acontece, porém, que ele não estava perdendo tempo. Certa feita, Gregor Strasser encontrava-se por acaso na platéia e, no fim da reunião, cumprimentou Goebbels pela eficiência da oratória. Nada mais aconteceu de importante até que, no fim do ano, Hitler foi libertado da prisão, depois de cumprir nove meses da pena de cinco anos que lhe havia sido imposta, e começou a reorganizar o partido.

 

Strasser nomeara um homem chamado Karl Kaufmann para cuidar dos assuntos nazistas no distrito Reno-Ruhr e Kaufmann disse a Strasser que "um jovem ardente chamado Goebbels, dotado de ótima voz", o procurara solicitando trabalho político. Strasser imediatamente lembrou-se da reunião em que viu Goebbels lutar por incutir os princípios do Völkische Freiheit no cérebro de uma platéia estúpida.

 

"Tragam-no aqui", disse Strasser. (A conversa está registrada no livro de Otto Strasser, Die Deutsche Bartholmaensnacht.) "Ele talvez seja mais eficiente do que o homem que temos no momento trabalhando no secretariado, Heinrich Himmler. Himmler está pensando em se dedicar à criação de galinhas, para o que talvez tenha muito mais aptidão. Se houver problemas em tirar Goebbels de Wiegershaus, ofereça-lhe o dobro do salário que está recebendo agora. Acho que talvez valha a pena."

Assim, na primavera de 1925, passou Goebbels a funcionário do partido nazista - oficialmente na ilegalidade, mas de modo algum moribundo.

 

"Era um emprego que exigia grande vigor", escreveu ele, mais tarde, em Batalha por Berlim. "O Führer saíra da prisão cheio da determinação do gênio. Os discípulos reuniram-se em torno dele e lhe ouviram a palavra." (A imagem dos discípulos sentados aos pés do Mestre não é corroborada pelos fatos; mas não está em desacordo com as tentativas feitas por Goebbels de criar a imagem de um revolucionário semelhante a Cristo. Embora apóstata, ele sabia por intuição que ainda não chegara o momento da palavra agnóstica.)

 

"Os movimentos revolucionários", prosseguiu ele, "não são feitos pelos grandes escritores, mas pelos grandes oradores. É um erro acreditar que a palavra escrita é mais eficaz porque a imprensa diária é lida por grande número de pessoas. Ainda que o orador possa apenas atingir, na melhor das hipóteses, uns poucos milhares de pessoas, enquanto o escritor político atinge facilmente de dez a cem mil leitores, a palavra falada tem muito maior poder de influência e pode ser transmitida cem, milhares de vezes. E um discurso bem feito é infinitamente mais sugestivo do que um bom editorial".

 

O primeiro porta-voz oficial do partido nazista, o Nationalsozialistische Briefe, apareceu em outubro de 1925. Era dirigido pelos irmãos Strasser, diferindo bastante do Völkische Freiheit, que era mimeografado. Fosse qual fosse a opinião de Goebbels sobre a importância da palavra escrita, o fato é que ele escreveu a maior parte dos artigos saídos nos primeiros números fazendo a apologia de uma filosofia política de extrema direita, bem de acordo com a ideologia nazista que Hitler, na prisão de Landsberg, ditou para Rudolf Hess, na confecção dos originais do Mein Kampf. Se diferença havia no conteúdo da pregação de Goebbels com o que Hitler preconizava em seu livro, não era nada que não pudesse ser de imediato a ele ajustado, e isso se deu assim que se conheceram.

 

Esse encontro deu-se a 2 de novembro de 1925 e está registrado no diário particular de Goebbels, cuja parte pertinente está na biblioteca da Universidade de Stanford, Califórnia. A nota refere a imediata simpatia de Hitler pelo homem que lhe foi apresentado por Kaufmann como "o assistente de Gregor Strasser que está fazendo um esplêndido trabalho pelo partido no Brieje e nas reuniões públicas". "Ele me cumprimentou como a um velho amigo", escreve Goebbels, "e deu-me uma fotografia sua, com a inscrição Heil Hitler, que está sobre a minha mesa. É um líder de origem é formação popular; tem tudo para ser um rei... grandes olhos azuis, como estrelas... fala incansavelmente durante horas... Adoraria tê-lo como amigo".

 

Aqui, transposto para seu momento adequado no tempo, está claramente o Narrador do Michael, olhos extasiados e tudo o mais. Aqui estão também o anseio por amizade e a queda para a bajulação, os dois pilares de que se serviu Goebbels para crescer no conceito de Hitler. O exercício de sua falta de virtudes morais fazia dele um exibicionista, um ansioso por ser adorado pelos que o cercavam, causa dos desencontros registrados nas suas relações amorosas. "Ele estava procurando eternamente a mulher que o amasse e 'compreendesse' ", diz Curt Riess, e qualquer dos trechos do diário de Goebbels corrobora esta opinião: "Else está aqui, toda em lágrimas e tristeza. Vamo-nos separar. Ela me implora para que não a deixe. Horas de profunda angústia... Parece que tem de ser assim: há uma maldição comigo no tocante às mulheres... Else me escreve um bilhete para acabar tudo. Não podemos nem mesmo ser amigos, mas eu amo essa pobre e doce criança. Se ela pudesse retribuir-me o amor que preciso, a sua aclamação pelo que outros têm chamado de minha brilhante capacidade".

 

Essa "brilhante capacidade" (como orador) era certamente um dom de Goebbels. Mas ele não podia resistir à tentação de exagerar o entusiasmo da sua platéia. As reuniões políticas, cuja assistência, segundo nos garantem Prang e outras testemunhas dignas de confiança, não ultrapassava umas poucas centenas de pessoas, transformam-se em "milhares" nos diários; e "os aplausos entusiásticos e as horas de apertos de mãos e congratulações" na verdade não passavam de sinais de aprovação e comedidas manifestações de concordância. Como os diários pretendiam ser particulares, não pode haver dúvida de que Goebbels tinha também enorme capacidade de enganar a si próprio. Eram, os seus diários, um espelho cor-de-rosa a refletir as imagens que mais tarde refletiriam os seus numerosos e bem talhados ternos. Mas, por enquanto, eram apenas distorções auto-induzidas.

 

Contudo, na primavera de 1926, o próprio Hitler condescendeu em levar Goebbels consigo numa tumultuosa viagem pela Baviera, durante a qual ele seria o orador de apoio. Naturalmente, a condescendência destinava-se a vitaminar a vaidade de Goebbels, providência que salienta a necessidade em que Hitler se encontrava de ter em torno de si, na época, número cada vez maior de seguidores dignos de confiança que poderiam ser indicados para as várias posições de mando à medida que o partido evoluía para a conquista do poder.

 

A alegria de Goebbels leva-o a depositar uma coleção de incoerências em seu diário: "Tudo nele é bondade... ele é um rei... mas, Cristo ou João?... Tenho seu carro e seu motorista às tardes... ele me abraça enquanto os gritos de entusiasmo abafam tudo... heil após heil... tenho os olhos marejados de tanta emoção... sua mão tem a firmeza da de um rei na de um príncipe secundário... seus olhos prendem-me como um abraço... " E assim por diante, em termos destinados a sustentar seu próprio ego e, ao mesmo tempo, ser preconcebidamente favorável ao Führer, para o caso de ele vir a pegar o diário - o que Goebbels pretendia que viesse a acontecer. "É preciso lembrar", escreve Prang, "que Goebbels tinha excelente faro para o sucesso psicológico; tanto quanto Hitler. Assim, com efeito, os dois se estavam superando mutuamente na conivência - Hitler para conquistar Goebbels pela adulação, e este, preparando uma espécie de base para Hitler pisar como que sobre um tapete vermelho. Encontramos muitas anotações no diário dizendo que Hitler enviou flores a Goebbels, ou que este 'presenteou o Führer com um singelo buquê de rosas que trouxe lágrimas àqueles grandes olhos' e muitas extravagâncias desse tipo".

 

Quais seriam as intenções de Hitler? Por que se daria ele a tanto trabalho para conquistar um homem que ainda não chegara aos trinta anos e que - apesar do que afirmaria mais tarde - apenas se filiara ao partido havia alguns meses, e cuja natureza maníaco-depressiva insinuava uma instabilidade indesejável na política? A resposta talvez residisse na fantástica percepção psicológica do Führer, que sentiu em Goebbels o organizador potencial da propaganda do partido - um campo no qual ele próprio era um virtuose, como relata em Mein Kampf. Mediante hábil publicidade e com apenas o capital original do partido, de 7.50 marcos e sete membros desorientados cuja única ideologia, usada somente em conversas frívolas, era esmagar judeus e bolchevistas, ele conseguiu arregimentar uma força que no começo dos anos 20 atingia cerca de 2.000 membros. Portanto, justo é que se lhe reconheça o direito de afirmar que reconhecia a distância um bom propagandista.

 

Mas no momento havia trabalho mais áspero a ser feito do que a fabricação de propaganda e Goebbels teve de provar que era, além de inteligente, um implacável membro do partido. O campo de provas seria Berlim, onde o Gauleiter (líder de área) era um homem chamado Schlange, que fora nomeado pelos irmãos Strasser e que permitira que a confusão, a negligência e a irresponsabilidade começassem a comprometer a organização partidária. Hitler via aí a oportunidade de testar a lealdade de Goebbels e, através da reformulação da atividade partidária que este promoveria, minar o prestígio de Strasser.

 

"Desde o momento em que comecei a organizar o partido", registra sua Conversa de Mesa, "decidi nunca preencher um cargo até que tivesse encontrado o homem certo para o ocupar. Mesmo quando os membros mais antigos do partido se queixavam da liderança política em Berlim, esperei até que lhes pudesse garantir que encontrara no Dr. Goebbels o homem que estava procurando. Ele possui dois atributos sem os quais ninguém poderia dominar as condições em Berlim: inteligência e o dom da oratória. Depois de estudar, a convite meu, a organização do partido em Berlim, ele localizou o problema na liderança juvenil e pediu-me carta-branca para introduzir as mudanças necessárias e expurgar do partido os elementos insatisfatórios. Nunca me arrependi de ter-lhe dado os poderes que pedira".

 

Goebbels não estava, de modo algum, ansioso por assumir a liderança do partido em Berlim. Tendo conseguido atrair a atenção de Hitler, era do seu mais alto interesse manter-se em sua órbita, o que significava ficar no sul, na Baviera, onde Hitler estava concentrando todo o esforço possível. "Não quero ficar atolado na confusão de Berlim", consignou ele em seu diário, "embora, se o Führer me desse o cargo de Chefe da Propaganda do Partido, esteja disposto a ir para qualquer lugar, para me desincumbir da tarefa".

 

Outro golpe, mais amargo do que a perspectiva de vir a ter que sair das proximidades do Führer, aconteceu então: Gregor Strasser foi por ele nomeado, a 26 de outubro de 1926, chefe de Propaganda e Publicidade do partido, sendo, logo depois, Goebbels destacado para Berlim. Assim, ardilosamente, Hitler instilou em Goebbels ressentimentos contra Strasser e neste uma sensação de falsa segurança; estimulou a lealdade de Goebbels para com ele conferindo-lhe uma tarefa administrativa de importância e deu a si mesmo a possibilidade de atingir novas platéias, tendo Goebbels como porta-voz. (Os termos do documento normativo da atividade de Goebbels incluíam a proibição de falar em público - proibição esta que podia ser parcialmente superada, desde que os discursos políticos se limitassem a platéias "fechadas", isto é, a indivíduos que, por definição, já eram membros do partido, de modo que grande parte do seu esforço se diluía na pregação para os convertidos.)

 

Na noite de 9 de novembro de 1926, o 3o aniversário do putsch nazista, Goebbels chegou a Berlim. "Um cinzento crepúsculo de novembro cai sobre Berlim quando meu trem chega a Potsdammer Bahnof e, menos de duas horas depois já me encontro pela primeira vez na plataforma do orador que será o ponto de partida para futuro desenvolvimento."

 

Daquela noite em diante sua vida tomaria novo rumo.

 

O palco

 

O palco de Berlim, onde Goebbels agora pisava, estava preparado para um drama de certa magnitude. Nos bastidores, espreitavam os mil e tantos nazistas que eram os únicos representantes do partido, até agora fracamente orientado por Schlange. Este, funcionário público por profissão, esteve sempre muito mais empenhado em conservar o cargo do que em promover a causa nazista. Apinhando-se no palco estavam os comunistas e social-democratas, que eram a maioria eleitoral na capital. No fundo do palco, sinistro de tanta corrupção, o "Antro do Ópio" (como Goebbels o chamava) - um porão na Potsdammerstrasse que era a sede oficial da Gau de Berlim.

 

Ele achava o nome bastante apropriado: "Os raios do sol nunca chegavam ali. A luz elétrica ficava acesa dia e noite. Mal se abria a porta, uma nuvem de fumaça de mil cigarros avassalava as narinas. Montes de jornais velhos e arquivos mais velhos ainda entulhavam o local. Na ante-sala, os membros desempregados do partido costumavam ficar conversando, matando o tempo. Havia um pretenso administrador que, orientado somente pela memória, anotava num livro a entrada e saída de dinheiro. Era impossível qualquer trabalho sistemático em ambiente tão confuso. As finanças eram uma barafunda e a Gau de Berlim só tinha dívidas.

 

Goebbels escreveu imediatamente a Hitler pedindo carta-branca para "expurgar o partido de todos os elementos insatisfatórios". "Você só é responsável perante a mim", respondeu-lhe o Führer. Goebbels mandou então emoldurar a carta e a pendurou na parede do novo escritório que alugou na Lützowstrasse. "Achei que seria bom", escreveu ele em Batalha por Berlim, "que houvesse prova visível da minha autoridade, pois pretendia ser implacável na reorganização do partido. Se alguém pretende ser Gauleiter [Gau significa líder], primeiramente tem de preparar sua Gau para que seja capaz de ser liderada".

 

Apesar da urgente necessidade de aumentar a filiação partidária no norte, Goebbels pôs-se implacavelmente a trabalhar no pretendido expurgo, expulsando 400 dos membros de Berlim. "Os que não contribuíam com dinheiro ou com trabalho foram eliminados. Preferia uma filiação menor, mas digna de confiança, a um monte de desocupados que, além de nada pagarem, ainda debochavam do esforço dos outros."

 

A 1° de janeiro de 1927 ele dirigiu-se aos 600 membros restantes do partido, exigindo 3 marcos de cada um como contribuição mensal para os fundos do partido e ordenou àqueles que não se submetessem à sua liderança e às suas ordens que deixassem o recinto imediatamente. Ninguém saiu.

 

"Temos uma tremenda tarefa pela frente", prosseguiu. "O partido aqui em Berlim é como um cordeiro desgarrado, à mercê de bandos de vermelhos que, ocultos, estão prontos para devorá-lo. Há quase 5 milhões de habitantes em Berlim e somos 600, anônimos no meio deles. Temos de derrubar a parede do anonimato. Os berlinenses têm de ouvir-nos e falar de nós. Podem insultar-nos, caluniar-nos, investir contra nós, surrar-nos, mas temos de fazê-los falar de nós, esta a grande tarefa. E juro-lhes que, embora sejamos hoje apenas 600, em seis anos seremos 600 mil."

 

Embora, por nomeação de Hitler, Gregor Strasser fosse diretor da propaganda nazista, não há quase evidência de que se tenha dedicado à tarefa, exceto apoiar o partido em seu jornal Nationalsozialistische Briefe (agora adequadamente impresso e consideravelmente aumentado). Ele não tinha o dom de atrair a atenção das massas, e na verdade foi Goebbels quem se encarregou da tarefa de derrubar "a parede do anonimato", antecipando-se à cobiçada nomeação para o cargo de propagandista do partido.

 

A propaganda é um meio utilizado para fazer alguém aceitar um principio, uma teoria, uma doutrina através das emoções. Embora falem alegremente de "educar as massas", os propagandistas apelam não para a razão, mas sempre para a emoção e o instinto. A própria palavra propaganda só apareceu em 1622, quando o Papa Gregório XV convocou uma Comissão de Cardeais para orientar a difusão da palavra cristã pelas missões estrangeiras. A comissão foi chamada Congregatio de Propaganda Fide - Congregação para a Propagação da Fé, e funcionava como uma comissão de qualquer outra sociedade missionária - escolhendo missionários e despachando-os para o estrangeiro. Mas não demorou para que a palavra ganhasse significados outros que não propagação de crenças religiosas, como, por exemplo, agressão nacional, proselitismo político, deturpação de fatos e censura por supressão, coisas muito convenientes para Hitler. Essas sinistras atividades não tinham nada de novas. O Oráculo de Delfos do mundo antigo, pela hipnose, comandara as empresas colonizadoras dos atenienses. Tucidides, em sua história da Guerra do Peloponeso, revelou que as facções em confronto aumentavam seu domínio sobre os não convencidos pela contínua deturpação dos fatos. Platão, em sua República, preconizava o banimento de todos os escritores cuja influência fosse desagregadora, e que para o lugar deixado por eles fossem nomeados publicistas de tendência republicana; as paredes de Pompéia estavam cheias de lemas de propaganda eleitoral e a Inquisição Espanhola armou-se com todas as formas de censura que ajudassem seus objetivos. Evidentemente; a relativa inocência de um conceito como o do Papa Gregório pode ser conspurcada por qualquer regime totalitário, pois é tão fácil propagar as mentiras quanto as verdades.

 

Portanto, a propaganda, como William Albig diz acertadamente em seu livro Public Opinion, "aparecia sempre que qualquer liderança tentava unir as opiniões de um povo, desde a propaganda política de um Júlio César à propaganda da Igreja Católica Romana, à propagação da Lenda Napoleônica, ao propagandismo de Potemkin em favor de Catarina a Grande, à propaganda panfletária de Sam Adam para a Revolução Americana, à propaganda do Norte e do Sul na Guerra Civil Americana, às propagandas que proliferaram, em todos os lados, na Segunda Guerra Mundial".

 

Bismarck, com quem Goebbels entusiasticamente comparava Hitler, também era um mestre da propaganda. Grande parte da leitura de Goebbels, nos seus primeiros tempos em Berlim, foi dedicada ao estudo dos métodos de Bismarck, que haviam incluído cartas forjadas, pretensamente vindas de Roma ou Paris, que ele conseguia fazer publicar na imprensa, a criação de "turmas especiais de boateiros" (Gerüchtemacher), para espalhar o desânimo na oposição, e a organização do "bureau" de imprensa estrangeira.

 

Goebbels usaria "material de impacto" contra seus adversários e não perdeu tempo em reunir dossiês repletos de "fatos" sobre comunistas, judeus, capitalistas liberais e todos os antinazistas para usá-los de qualquer modo eficaz - incluindo a distorção - quando chegasse o momento. Enquanto aguardava o momento adequado, Goebbels recomendava métodos grosseiros, barulhentos e destinados apenas a atrair atenção - desfavorável de preferência, já que havia muito mais publicidade em ser vilipendiado do que em ser elogiado.

 

Os métodos que tinha à disposição, com o dinheiro que podia usar, eram poucos. Cada Gau procurava manter-se com suas próprias verbas e, como Goebbels observara, Berlim estava em péssimo estado. A publicidade através da imprensa, de qualquer tamanho razoável, a publicidade postal em grande escala, os tapumes utilizados pelos agentes publicitários estavam todos proibidos pelos custos. A transmissão radiofônica, que mais tarde Goebbels transformaria no grande veículo de difusão da filosofia nazista, não era dirigida em bases comerciais, mas, ainda que fosse, seria dispendiosa demais, como outras formas de publicidade em larga escala. Portanto, restavam-lhe apenas os meios mais simples de campanha, que se revelaram, força é reconhecer, bastante eficazes.

 

Goebbels começou com pequenos cartazes, que os membros do partido colavam em colunas cilíndricas, que eram colocadas nas esquinas das ruas especialmente para essa finalidade, sem ônus para o usuário, sendo considerado crime o dano de qualquer tipo aos edifícios e locais públicos. Mas, por serem livres, havia uma corrida contínua a essas colunas. Os colocadores de cartazes, competindo pelo espaço nessas colunas, ficavam à espreita, aguardando a oportunidade de poder substituir um cartaz por outro, valendo-se também dos meios os mais engenhosos, inclusive os efeitos aplicados às comédias de pastelão, como queda de escada etc., para chamar a atenção dos passantes. Os cartazes eram desenhados pelo próprio Goebbels, usando o conhecimento de artes gráficas que adquiriu na redação do jornal dos Strassers. Ele usava tipos grandes e tinta vermelha para destacar uma frase provocativa, como o KAISER DA AMÉRICA FALA EM BERLIM, embaixo da qual, em tipos menores mas também destacados, um ataque ao "Plano Dawes" e a seu negociador, o Ministro das Relações Exteriores, Gustav Streseman. Raramente havia referência direta a Hitler ou aos nazistas. Os cartazes pretendiam apenas provocar curiosidade - objetivo que conseguiram a ponto de atrair a atenção da imprensa liberal - e atingir, por exemplo, um alvo: considerar maléfico o "Plano Dawes", porque exigia fidelidade ao Tratado de Versalhes, e Streseman um traidor. Goebbels absorvera completamente a análise que Hitler fizera da propaganda em Mein Kampf. Um dos princípios ali preconizados era: "A verdade tem de ser sempre adaptada para ajustar-se à necessidade. O que diríamos de um cartaz que, pretendendo anunciar nova marca de sabonete, insistisse nas qualidades das marcas rivais? Naturalmente sacudiríamos a cabeça. O mesmo aconteceria com um cartaz de propaganda política que incorresse no mesmo pecado. O objetivo da propaganda não é tentar julgar direitos conflitantes, dando a cada um o que merece, e sim salientar exclusivamente o direito que estamos defendendo. A propaganda não deve investigar a verdade objetivamente. Na medida em que a verdade pende para o outro lado, deve-se apresentá-la de acordo com as regras teóricas da justiça, e só o aspecto da verdade que nos é favorável deve ser manifestado".

 

Além disso, Goebbels recebera de Hitler, nessa época, a cópia de uma diretiva que o Führer mandara incluir na Segunda Parte do Mein Kampf. Ela vinha acompanhada de uma nota confidencial explicando que, embora a diretiva interessasse principalmente a Gregor Strasser, como Chefe da Propaganda, Goebbels deveria observar atentamente o seu conteúdo "porque é seu o trabalho de aumentar nossa força em Berlim". (Dar a Goebbels um vislumbre confidencial da diretiva era um exemplo típico da habilidade de Hitler em criar correntes de suspeita entre seus executivos. Ele prosseguia lentamente em seus desígnios contra Gregor Strasser, cujo apoio ainda lhe era necessário, sem esquecer um instante sequer que Strasser tentara assumir o controle do partido enquanto ele, Hitler, estava na prisão. A diretiva dizia o seguinte: "O objetivo da propaganda é atrair seguidores. A tarefa da organização é conquistar novos membros. O seguidor de um movimento é aquele que se declara concorde com seus objetivos. O membro é o que luta por ele. Haverá dez seguidores para cada um ou dois membros, no máximo. A filiação como membro requer espírito ativo e, assim, se aplica somente a uma minoria. Portanto, a propaganda cuidará incansavelmente para que uma idéia conquiste adeptos, enquanto que a organização tem de observar atentamente que apenas os mais valiosos dentre os adeptos sejam transformados em membros. Depois que a propaganda conscientizou todo um povo a respeito de uma idéia, a organização pode obter o máximo de benefícios com a ajuda de apenas um punhado de pessoas".

 

Goebbels não tinha qualquer conhecimento de estratégia militar, jamais viu ação em qualquer frente e, à parte uma breve visita a Genebra, permaneceu na Alemanha, principalmente em Berlim, durante toda a sua vida de nazista. Contudo, ele poderia ter adotado como lema a enérgica conclamação do Marechal Foch a seus comandados ("Meu centro está cedendo, minha direita está recuando; a situação é excelente; atacarei!") no próximo movimento. (Não é sem propósito que o jornal de propaganda nazista que ele em breve fundaria seria chamado Der Angriff [O Ataque].)

 

Sendo o ataque o melhor método de defesa e sendo os movimentos revolucionários feitos, conforme acreditava, por oradores, e não por escritores, ele entrou no campo inimigo e, para uma reunião a 11 de fevereiro de 1927, alugou o Salão Pharus, situado no coração comunista da cidade. Os cartazes anunciando a reunião foram impressos numa imitação direta dos anúncios dos comunistas e a fraseologia tinha a mesma conotação:

"O Estado Burguês aproxima-se do fim! Temos de forjar um novo Estado! Trabalhadores: o destino da nação alemã está em suas mãos!"

 

Não existe meio mais eficaz para atrair a atenção do que provocando uma cena violenta, particularmente se for prefaciada por uma verdadeira parada pseudomilitar, com agitação de bandeiras etc. Goebbels deu ordem para que todo membro do partido desfilasse na frente da sede, na Lützowstrasse, com bandeiras e marchasse para o Salão Pharus. Ele também teve um encontro com Kurt Daluege, o chefe das Tropas de Assalto. Esta formação, que inicialmente era a guarda-costas de Hitler, crescera muito, transformando-se num considerável corpo paramilitar especializado em trabalhos violentos para o partido. Daluege (que por profissão era engenheiro civil, encarregado dos depósitos de lixo da cidade, considerado pelos que o conheciam pouco mais que um cabeça dura) fora encarregado de presidir a reunião e "guardar" a sala com seus esbirros. Como Goebbels escreveu mais tarde, em Batalha por Berlim: "Na verdade, eu criara deliberadamente uma situação que só precisava que se acendesse a mecha para que se desse uma explosão".

 

Os comunistas, irritados pela maneira como haviam sido desafiados em seu próprio covil, ameaçaram com derramamento de sangue, se a reunião fosse realizada. "Sua imprensa superou-se em ameaças horrendas. Afirmava que nos seria feita uma recepção calorosa - tão calorosa que não teríamos vontade de voltar."

 

As Tropas de Assalto de Daluege haviam recebido ordens de comparecer à paisana e se misturar com a platéia e com a multidão fora da sala. E quando os membros do partido - metidos em uniforme completo, com botas de montaria e braçadeiras - cruzaram, empertigados, as ruas, com suas bandeiras e suas suásticas, atraíram grande número de parasitas, curiosos por saberem que diabo era aquilo. Naturalmente houve zombarias, apupos, aplausos e reações várias, por parte dos que passavam. No Salão Pharus, uma atmosfera sombria e ameaçadora pairava no frígido ar de fevereiro. Um diretor de cinema poderia ter feito um verdadeiro clássico da tela com os cortes de uma câmara voraz. Esse trabalho mostraria as faces todas da brutalidade, da ameaça e do ódio; as mãos, armadas de maças e soqueiras com que se armaram os contendores, teriam sido evidentes; e a trilha sonora - se possível na época - seria uma sugestão de violência.

 

Na verdade, houve violência. Daluege, na Presidência, mal declarara aberta a reunião quando partiu um berro do fundo do auditório. Sem dúvida foi um comentário insensato sobre o tamanho da agenda, mas muito antes que tal comentário se concluísse, Daluege pegou uma garrafa de água de cima da mesa e atirou-a na direção de onde partia o comentário. Num instante, canecas de cerveja, garrafas e uma mistura surpreendente de ferragens voaram pelo auditório, enquanto nazistas e comunistas se pegavam em violenta briga. Goebbels, sentado à direita de Daluege, ordenou claramente: coitus interruptus - uma frase-código que ele cunhara para a ocasião - e seis membros das Tropas de Assalto que estavam no fundo do auditório agarraram o intruso e o surraram brutalmente, ao mesmo tempo que as portas laterais se abriram e o corpo principal das Tropas de Assalto invadiu o recinto e começou a cuidar de qualquer um que oferecesse resistência. A polícia, que se mostrou singularmente relutante em participar da festa - talvez a corrupção tivesse funcionado bem - acabou aparecendo. Fizeram-se prisões - principalmente de bodes expiatórios - e os feridos receberam alguns cuidados.

 

"Tudo isto demorara mais de trinta minutos", diz Goebbels a respeito do acontecido. "Ordenei então que os membros do partido e das Tropas de Assalto que haviam sido feridos fossem levados para o palco, onde poderiam ser vistos claramente e ouvidos os seus gemidos. Falei à platéia sobre um assunto que deveria parecer improvisado - 'O Desconhecido Soldado da Tropa de Assalto' - ordenei que a intervalos de dez minutos, durante meu discurso, os feridos fossem levados dali, um a um, com seus sangrentos ferimentos claramente visíveis. Constatei que o método era extremamente eficaz para atrair atenção."

 

O principal ator do drama nazista de Berlim estreara no palco de onde não mais sairia.

 

Começa o drama...

 

Referindo-se a si mesmo, Goebbels disse que "nascera para o drama". Havia, sem dúvida, certa justificativa para fantasias desse tipo, de que estão cheios seus diários. O malogro das tentativas que fez no sentido de ingressar no teatro, solicitando, imprudentemente, um emprego de produtor, não se deveu propriamente a um defeito de orientação, embora não se possa dizer que tenham sido bem dirigidas. Tudo nele revelava a vocação para o drama. As Reuniões de Nuremberg, a apresentação dos seus discursos e os recursos de que se utilizava para provocar tensão dramática eram astutamente estudados. Ele jamais poderia criar a atmosfera emocional que Adolf Hitler inspirava, mas o controle que tinha do gesto e da palavra era igualmente eficaz, de um modo diferente. Ele escrevia seus discursos com imenso cuidado, usando tintas coloridas para distinguir as diferentes tonalidades de ênfase e todos eles eram ensaiados diante de um espelho triplo, em seu quarto, na residência dos Steigers, no Tiergarten - acomodação que os Strassers lhe arranjaram tão logo chegou a Berlim.

 

Os Steigers eram ricos e importantes. Todas as pessoas de posição, em Berlim, cultivavam a amizade deles. Johann Steiger era membro da junta editorial do Berliner Lokalanzeiger, que pertencia a Alfred Hugenberg, um dos muito respeitados industriais que forneciam dinheiro ao partido nazista e arrebanhavam seguidores nas camadas mais altas - seguidores que auxiliavam monetariamente o partido com o dinheiro que receberam do confisco de propriedades que possuíam, na esperança de que o grande projeto anunciado por Hitler para o Terceiro Reich os reabilitasse. Em troca da esperança, Hitler, Goebbels etc. iam sugando-lhes o dinheiro. "Esta gente é companhia boa e importante", disse Goebbels em carta a seus pais. "Frau Steiger tem dinheiro e freqüentemente recebe a melhor sociedade, descendentes da nobreza germânica, figuras importantíssimas da realeza, e todos admiram meus discursos, a minha eloqüência. Estão certos de que tenho um grande futuro." As "figuras importantíssimas da realeza", uma exageração de Goebbels, não eram mais que o Grão-Duque de Mecklenburg e Hesse, o Príncipe August Wilhelm von Hohenzollern, o Duque Ernst August de Brunswick, o Príncipe Christian von Schauberg-Lippe, por exemplo - e eles absorviam o encanto e servilismo de Goebbels como esponjas. Na elegante sala de estar dos Steigers, eles ouviam de bom grado os discursos que Goebbels ensaiava, discursos para cuja elaboração se inspirava nas melodias nacionalistas que extraia do piano "Bechstein" que Johann Steiger ganhara de presente de Natal de Helene Bechstein, mulher do fabricante, ardorosa hitlerista e contribuinte efetiva do partido. "O pequeno Doktor", disse um deles, "transmite depressão, mas inspira confiança em si mesmo, se não no futuro da Alemanha".

 

No começo de 1927, o futuro econômico da Alemanha foi superficialmente avivado por imensos empréstimos - cerca de sete bilhões de dólares ao todo - que os Estados Unidos fizeram ao tesouro germânico nos termos do "Plano Dawes".

 

"A República", diz William L. Shire em Ascensão e Queda do Terceiro Reich, "fez empréstimos para pagar as reparações a que estava obrigada e aumentar os serviços sociais que prestava e que eram o modelo do mundo. Os estados, cidades e municípios fizeram empréstimos para financiar os melhoramentos necessários, como a construção de aeródromos, teatros, estádios esportivos e piscinas. A indústria, que eliminara suas dívidas na inflação, tomou bilhões emprestados para se reequipar e racionalizar os processos de produção, produção que em 1923 caíra para 55% da registrada em 1913, e subiu para 122% aí por volta de 1927. Pela primeira vez, desde a guerra, o desemprego caiu para menos de um milhão - 650.000 - em 1928. Naquele ano, as vendas a varejo aumentaram 20% sobre 1925, e, no ano seguinte, os salários reais eram 10% mais altos que os dos quatro anos anteriores. As classes média e baixa, os milhões de lojistas e pequenos assalariados aos quais Hitler tinha de recorrer em busca do apoio de massa, compartilhavam da prosperidade geral".

 

Contudo, essa prosperidade geral perderia substância em meados daquele ano. Por volta de junho, a Bolsa de Valores mostrava sinais de fraqueza e não se registrou nenhuma recuperação em bases sólidas até que Hitler subiu ao poder como Chanceler, pois o colapso da Wall Street, em outubro de 1929, teve reflexos na economia alemã, como de resto na economia mundial. Sem a ajuda do dinheiro americano, que, segundo o Presidente Calvin Coolidge, fora despejado aos montes pelo "Plano Dawes", a economia alemã começou a demonstrar toda a sua fragilidade. Como diz Shirer, houve períodos de ilusória prosperidade; mas a base da economia nacional era insegura, e Goebbels, cuja ignorância em economia era total, fez profecias de depressão, porque sentia - muito acertadamente - que o partido só poderia progredir em meio ao desastre do desemprego em massa e da depressão. "O colapso, moral, físico e financeiro está às nossas portas", clamava e escrevia incessantemente. E, de acordo com a regra básica da propaganda, apresentava suas provas - provas estas que naturalmente não diziam nada sobre nada que esclarecesse o ponto de vista oposto. E como se tornava cada vez mais evidente que a onda de prosperidade começava a desfazer-se, ele foi encarado como um oráculo. A filosofia nazista começou a polarizar a atenção de todos, homens de sociedade, negociantes e gente comum.

 

Como a principal tarefa de Goebbels, na qualidade de Gauleiter, era recrutar novos membros e seguidores para o partido, mas também ter em mente a distinção entre eles, conforme indicada pelo Führer, o trabalho que vinha desenvolvendo nesse sentido começou a apresentar resultados. Três dias depois do confronto de fevereiro, no Salão Pharus, recebeu 2.600 propostas de filiação ao partido, alem de 500 de ingresso nas Tropas de Assalto de Daluege. Goebbels logo organizou outra reunião, na qual um velho pastor, chamado Fritz Stucke, foi surrado pelas Tropas de Assalto e as autoridades do hospital comunicaram seus ferimentos à polícia. O Assistente do Comissário era um homem chamado Bernhard Weiss, um judeu culto, que proibiu imediatamente as atividades dos nazistas em toda a Grande Berlim. A proibição, por sua vez, ganhou as manchetes dos jornais, resultando em boa publicidade para Goebbels, além de enriquecer a linha da caricatura mordaz que Hitler histericamente traçou no Mein Kampf do arquétipo do judeu e que Goebbels fez questão de servilmente conservar na sua propaganda partidária. Mais tarde, porém, revelou-se que o Pastor Stucke havia-se afastado de sua igreja por causa do alcoolismo crônico e que na verdade não era um democrata, e sim pró-nazista. (Mais tarde ele foi recompensado pelo partido com um cargo a ser exercido na pequena cidade de Koeslin, onde poderia beber até morrer.)

 

Toda essa publicidade foi um achado valioso para Goebbels; ele estava certo, ao escolher métodos os mais vulgares para atrair atenção. O insulto era realmente uma arma muito mais poderosa nas mãos dos nazistas do que o elogio. O insulto podia ser torcido com mais facilidade. Ele podia ser transformado em injustiça, inveja, vingança ou em qualquer tipo de humilhação. Desse modo, o insultado, o invejado e o ferozmente punido podia conquistar não só simpatizantes como também seguidores.

 

A proibição policial apresentava como justificativa o fato de que desde a chegada de Goebbels a Berlim vinham ocorrendo incidentes contínuos, causados sempre pelas Tropas de Assalto, choques nas reuniões e não poucas mortes misteriosas com inferências políticas. Não há dúvida de que a polícia estava ficando desalentada, por causa do número cada vez maior de procissões, bandeiras e desfiles com bandas tocando música que evocavam emoções perigosas. Na tensa atmosfera emocional que se criou, Goebbels despejava seus discursos, numa linguagem carregada de ironia e desprezo, depois de entrar dramaticamente no momento preciso em que a platéia começava a inquietar-se. Ele era um agitador e um perturbador da paz que à policia cabia manter. Mas, justificada ou não, a proibição foi singularmente ineficaz. Goebbels continuou falando em reuniões "particulares", realizadas no salão dos Steigers ou nas cervejarias, com os convites sendo feitos oralmente, não mais por meio de cartazes ou pela imprensa. Era muito simples fundar clubes "sociais", ostensivamente para prática de esportes, jogos de salão e debates literários. Tudo o que aconteceu, como resultado da proibição, foi que as atividades políticas do partido tornaram-se clandestinas. A parte visível do movimento disfarçou-se de reuniões sociais.

 

E a proibição, que Goebbels explorou cuidadosamente, foi citada como manifestação do medo que a República sentia diante do crescente poder do partido. Assim, segundo ele:

"Eles logo pararam de rir da nossa inflexível determinação. Começaram a nos insultar e denegrir. Quando a perseguição e a maledicência fracassaram, eles atiraram o Terror Vermelho contra nós, mas este nos encontrou lutando valorosamente. O adversário começou a espumar e a recorrer à anarquia e à ação arbitrária. Agindo contra suas próprias pretensas convicções democráticas, ele proibiu nosso partido. Agora não existimos mais - assim pensa ele. Com uma penada, um jagunço judeu pretendeu eliminar-nos da lista das realidades. Voltamos a ser anônimos. A simples menção do nosso nome e a simples vista da Suástica estão abalando as fundações da República. Quem dentre nós pensaria que somos tão fortes assim?"